Analecto

6 de junho de 2016

Anotações sobre o leviatã.

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  1. A criação do governo é análoga à criação do ser humano, diz Hobbes.
  2. O ser humano imita Deus, pois sua arte e técnica imita a natureza. Hobbes diz que o ser humano tenta fazer suas próprias criaturas também.
  3. Se não ocorrem críticas de quem é mais poderoso que ambos os lados, então tudo bem.
  4. Não é possível escrever um trabalho imparcial e não ser criticado. Se o trabalho é intermediário entre duas posições, ambas as posições o atacarão.
  5. Hobbes utiliza a Bíblia Sagrada para sustentar alguns pontos de seu discurso. Ele irá interpretá-la, o que significa que alguns versos bíblicos serão utilizados de maneira inusitada. Mais tarde veremos como ele chega a conclusões parecidas com as das testemunhas de Jeová.
  6. Essas criaturas do artifício humano são as máquinas. Se alma é princípio de movimento, o autômato tem alma em certo sentido.
  7. O governo também nasce (pelo contrato), cresce (pela prosperidade), adoece (pela sedição) e morre (pela guerra civil).
  8. A sabedoria é adquirida pela “leitura” das pessoas, enquanto que a leitura dos livros, embora traga conhecimento, não produz sabedoria.
  9. Para Hobbes, os seres humanos são fundamentalmente iguais. Em circunstâncias idênticas, agem da mesma forma pela mesma razão, ele diz. Isso é falho porque não leva em conta a experiência vital de cada um, que nos leva a agir de forma diferente mesmo em circunstâncias idênticas.
  10. As paixões são as mesmas em todos. Os objetos das paixões podem variar.
  11. O governante deve levar em consideração o ser humano como gênero. Não deve pensar que todos são iguais a ele em todos os aspectos, mas que todos são seres humanos. Então, se ele instaura, por exemplo, uma lei que fará bem ao gênero humano, com efeito ele criou uma lei boa para todos os seus súditos.
  12. Pensamentos não são as coisas, mas representações delas.
  13. A natureza de um pensamento depende do órgão que capta o objeto e de como o objeto se apresenta. Descartes diz que Hobbes, o qual sustenta que os pensamentos derivam de informação sensorial, é necessariamente ateu, uma vez que não se vê, ouve ou sente Deus.
  14. Hobbes acredita que a sensação precede todos os conhecimentos.
  15. Movimento produz movimento.
  16. Visão é percepção do objeto pela vista. Óbvio, mas nunca tinha parado pra pensar nisto.
  17. Todo o mundo está contra Aristóteles, pela madrugada! Descartes, Galileu e agora Hobbes.
  18. Se algo está parado, não se move enquanto outro algo não o mover. Se algo está em movimento, não parará enquanto outra força não agir sobre ele.
  19. Dizer que a pedra tende para baixo porque deseja se conservar na melhor condição é atribuir conhecimento e volição a coisas inanimadas.
  20. Para Hobbes, imaginação e memória são a mesma habilidade empregada de diferentes modos. Se usamos nossa mente para invocar um pensamento sobre algo que não está lá, ou estamos imaginando (se não vimos a coisa) ou lembrando (se interagimos com a coisa no passado). Então, no primeiro modo, inventamos as imagens, enquanto que no segundo modo nós trazemos de volta a imagem já vista.
  21. Para Hobbes, experiência é acúmulo de memória. Isso me será útil.
  22. A imaginação pode ser simples, quando concebemos uma ideia normal, ou composta, quando concebemos uma ideia que resulta da mistura de várias. Por exemplo: imagino um cavalo, que é fruto de uma imaginação simples, mas também posso imaginar um centauro, composto das ideias de cavalo e de pessoa.
  23. Diz Hobbes que a mente não produz ideias por conta própria, tendo toda a sua matéria prima na natureza. Eu posso imaginar uma montanha de ouro, mas tanto a montanha quanto o ouro são ideias que eu já puxei do exterior.
  24. O sonho é mais claro que o pensamento singular porque ele é a única coisa que pode prender nossa atenção quando estamos dormindo. Enquanto acordados, as imagens, sons e sensações nos distraem, então o pensamento vigilante nunca é tão claro quanto o sonho, que rouba toda a nossa atenção durante o sono.
  25. Hobbes diz que é difícil, ou mesmo impossível, diferenciar sensação e sonho. De fato, as sensações que temos enquanto dormimos e com as quais sonhamos são bem reais até o instante em que acordamos.
  26. Você só sabe que é um sonho depois que acorda.
  27. Sensações que temos ao dormir, como a bexiga cheia, influenciam o sonho.
  28. Os curtos sonos nos fazem ter sonhos altamente convincentes. Se não dormimos profundamente e acordamos, pode até ser que não percebamos que estávamos dormindo (como quando temos insônia e a noite passa super rápido, porque tivemos sonos intermitentes, pensando que passamos a noite acordados). Então, o conteúdo do sonho pode ser interpretado como aparição ou “visão”. Algo similar acontece quando somos acordados, requisitados a nos levantar, mas caímos de novo no sono: sonhamos que estamos de pé, fazendo nossas atividades diárias, e esses são sonhos tão convincentes que nos custa acreditar, quando acordamos, que estávamos dormindo.
  29. Histórias de terror, ambientes escuros e coisas que tais nos tornam propensos a pesadelos e, se estivermos com dificuldade para dormir, alucinações. Por exemplo, depois da votação do impedimento da presidenta na Câmara dos Deputados, sonhei com a votação que ocorreria no Senado.
  30. Se você viu um manto assustador perambulando pelo cemitério, vai ver era um usuário de drogas.
  31. Para Hobbes, muitas aparições fantasmagóricas são farsas feitas para alimentar a superstição.
  32. A superstição é um obstáculo à obediência civil. Imagine se alguém teve um sonho revolucionário aparentemente profético e encontrasse gente que acreditasse em sua causa, vendo ele como um profeta, sendo que o sonho envolvia tomar controle do Estado. Seria uma ameaça factual contra o Estado e não deveria crescer se a manutenção do Estado fosse desejada. Ou seja, a superstição pode servir contra o Estado.
  33. Se você ensina que os bons pensamentos que temos são sempre colocados lá diretamente por Deus, então todo o mundo é profeta inspirado e todas as boas intenções, mesmo conflitantes, são fruto da vontade divina. Isso alimenta os megalomaníacos.
  34. Também animais têm entendimento, pois podem aprender coisas que os donos ensinam.
  35. Algo se forma na imaginação com base em sensação. Isso não significa que só imaginamos o que nós sentimos, mas que podemos ter imaginações com base em diferentes sensações.
  36. Quando pensamos algo, não há certeza sobre o que se pensará depois. É como quando lembramos de algo que não queríamos lembrar, porque estávamos pensando em algo relacionado, mesmo que remotamente.
  37. Se pensamos muito em alguma coisa, nossos pensamentos tomam aquela direção quase naturalmente. Por exemplo, desde que eu terminei de ler a Bíblia, meus pensamentos frequentemente se orientam em sua direção, mesmo sem querer.
  38. Procuramos na experiência causalidades que possam se aplicar ao problema tratado. “Isso não já aconteceu antes? Como resolvi? Será que não já passei por algo parecido?” Como essas relações de causalidade são trazidas da experiência, David dirá, em breve, que as relações de causa e efeito não passam de hábito e nada garante que jogar algo para cima resultará em sua eventual queda, mesmo quando o objeto é mais pesado que o ar.
  39. Embora David chame essa suposição de hábito, Hobbes diz que essa suposição pode ser chamada de prudência. Afinal, alguém que já viveu muito tem muita experiência e pode fazer suposições melhores e com mais acerto.
  40. Só o presente existe. O passado é invocado ao presente na forma de memória e o futuro é invocado ao presente na forma dessa suposição causal. Porém, tanto o passado como o futuro se efetivam apenas no presente.
  41. Um “sinal” de algo que está porvir é uma evidência de um efeito que se está desenrolando.
  42. Alguns animais desenvolvem prudência mais rápido que o ser humano.
  43. Mais importante que a invenção da imprensa foi a invenção do alfabeto.
  44. Os animais não têm paz entre si porque não dispõem de uma linguagem que torne possível a existência de acordos. A linguagem é condição de possibilidade para o governo e para a paz.
  45. É possível usar a linguagem de maneira dolorosa. Quando feito entre iguais ou de inferior para superior, é o insulto. Quando feito de superior para inferior, diz Hobbes, é correção e punição.
  46. Os nomes são universais, mas referem-se à coisas particulares.
  47. Usamos o sistema decimal porque, em algum instante da história, contávamos usando os dedos. Ora, mas os dedos das mãos só são dez. Por isso que acrescentamos um algarismo a cada dez números.
  48. As definições das palavras-chave de um raciocínio são as coisas que devem ser explicadas primeiro. Assim, não haverá o risco de alguém, ao ler o texto, interpretar erradamente uma palavra importante para o raciocínio. Funciona assim na geometria e na filosofia de Spinosa.
  49. O mau uso das palavras era o principal problema da filosofia da época. Descartes diz o mesmo.
  50. Aprender algo da maneira errada é pior do que não ter aprendido.
  51. Não é possível raciocinar sem algum tipo de linguagem.
  52. Quando se diz “ninguém”, de quem se está falando? Ora, “ninguém” é uma nota para dizer que não se deve utilizar nenhum termo referente à “pessoa” naquele raciocínio. Assim, os nomes negativos como “ninguém” ou “nada” servem, não para indicar presença de algo, mas para indicar que não se deve assumir essa presença. Se eu digo, “ninguém fez isso”, então, automaticamente assumo que o que fez não foi pessoa, restando assumir que foi uma força da natureza, um objeto ou o acaso (efeito inesperado de causa desconhecida, não efeito sem causa).
  53. Existem frases sem significado. “Esta frase é falsa”. Se a frase é verdadeira, é falsa, pois se diz falsa, mas sendo falsa, deve ser entendida como seu oposto, tornando-se verdadeira. Ora, mas não é possível raciocinar sobre essa afirmação, então ela não é um enunciado. É apenas um som sem significado. Para que um som seja considerado enunciado (frase ou palavra), precisa fazer sentido. Sendo assim, muitos sons são tomados por enunciados, pois muitas vezes aceitamos frases que não fazem sentido algum.
  54. Idiomas que herdam do grego e do latim são cheios de situações assim. A língua portuguesa herda de ambos.
  55. Como virtude e vício dependem do julgamento de cada um, não devem ser tomadas como base de qualquer discurso que tenha pretensão universal.
  56. O raciocínio é equivalente ao cálculo. Enquanto que no cálculo operamos números a fim de obter um total, o raciocínio opera palavras a fim de obter uma conclusão. A dedução é como uma subtração de um termo médio de um termo geral e a indução é uma soma de vários casos particulares.
  57. Só é possível raciocinar sobre coisas que comportam adição e subtração de informações. Se uma informação não se mistura com outra ou não pode ser analisada, isto é, partida em informações menores, não é possível raciocinar sobre ela: ou se aceita ou rejeita. O fato é que Hobbes reduz todo o raciocínio humano às operações de adição e subtração, de forma que elas formam a base de sua lógica.
  58. Tornar o raciocínio um processo simples não elimina a possibilidade de erros: todos erram.
  59. É preciso sempre julgar o que se lê. Se você aceita tudo o que está escrito sem verificar até que ponto é válido, você apenas pensa que sabe.
  60. Existe verdadeiro, existe falso e existe absurdo. Verdadeiro é o que é, será ou foi real. Falso é o contrário disso. Absurdos são enunciados que não fazem sentido, como “esta sentença é falsa”, “quadrado redondo” e coisas que tais. São apenas sons. Para algo ser considerado um enunciado, é necessário que possa ser chamado de verdade ou de falsidade. Se o juízo é necessariamente suspenso, a questão é um absurdo, nem verdadeira e nem falsa, apenas som saindo de uma boca.
  61. A filosofia é cheia de absurdos. Isso porque, diferente da geometria, que começa seus raciocínios com definições dos termos que serão importantes, os filósofos em geral não explicam os significados dos termos que usam, os quais deixam de ser claros para os próprios. Spinosa, sentindo esse problema, começa cada segmento da Ética com definições dos termos que serão usados, para que fique claro que seu raciocínio faz sentido e seja claramente entendido. Mas a outra Ética não faz isso.
  62. Extensão não é corpo. Então, Hobbes discordaria de Descartes, o qual diz que o vazio é alguma coisa porque é possível medir uma extensão de vácuo.
  63. Num discurso científico, não se usa linguagem coloquial.
  64. Todos podem raciocinar bem quando têm bons princípios. Então por que erramos com tanta frequência? Muitas vezes por causa da extensão do raciocínio. Exemplo: é mais fácil errar uma longa e gigantesca equação do que a soma do dia-a-dia na compra do pão. Isso porque temos um espaço de memória que tende a eliminar aquilo que parece de menor importância para dar lugar ao que tem mais importância. Mas no raciocínio, todas as partes têm igual importância. Se esquecemos alguma coisa, erramos.
  65. A razão não nasce conosco; ela é adquirida. Razão, em Hobbes, é a capacidade de operar enunciados lógicos.
  66. O primeiro sinal da razão em um ser humano é a linguagem. Então, diz Hobbes, não é possível saber se uma criança é racional enquanto ela não desenvolver algum meio de linguagem.
  67. Segundo Hobbes, não usamos a razão sempre, porque ela é um processo lento. Ações rápidas são normalmente feitas com base no hábito, na preferência, na memória ou outras faculdades mentais.
  68. A ignorância nos leva a querer saber. Quando aprendemos algo errado, precisamos também de uma demonstração de que estamos errados. E alguns erros se apoiam em outros erros muito críveis. É difícil refutar assim.
  69. A prudência falha mais que a ciência.
  70. O sinal capital de que alguém sabe alguma coisa é a capacidade de ensiná-la.
  71. Os movimentos vitais são involuntários. Os movimentos voluntários dependem antes da imaginação, pois é necessário visar seu escopo.
  72. “Esforço” é o movimento entre intenção e escopo da ação.
  73. “Desejo” é o impulso para buscar aquilo de que se gosta. “Amor” é o impulso para manter tal objeto, diz Hobbes.
  74. É possível odiar o que não se conhece por medo.
  75. Desespero é a sensação de que determinado desejo não pode ser satisfeito. Esperança é a sensação de que determinado desejo pode ser satisfeito.
  76. Autoconfiança é a tendência a ter muita esperança: a constante sensação de que é possível conseguir.
  77. Ser pusilânime é o contrário de ser magnânimo. O magnânimo não se importa com coisas pequenas ou desprezíveis, enquanto que o pusilânime se importa demais com elas.
  78. Para Hobbes, só é possível sentir luxúria pela lembrança de um prazer já tido com determinada pessoa e pela esperança de obtê-lo novamente.
  79. O ciúme implica que a pessoa ciumenta não acredita que a pessoa amada a ame na mesma proporção que é amada. É, portanto, uma manifestação de insegurança.
  80. Pânico é o medo coletivo sem causa justa. Alguém vê algo, sente medo e foge. Os outros, mesmo sem saber exatamente por que, fogem também. Afinal, o cara que fugiu não teria fugido sem razão, certo? Portanto, para Hobbes, pânico é o medo generalizado, enraizado no medo de uma minoria ou mesmo de uma só pessoa.
  81. Vanglória é um tipo de confiança que é adquirida por suposições de seu próprio poder ou por consecutivos elogios. Se manifesta no ato de contar vantagem sobre habilidades que não tem.
  82. Desalento é uma tristeza que vem da impotência para algo.
  83. Rir da desgraça alheia é manifestação de pusilanimidade. Sua condição é tão ruim que você acaba gostando de ver alguém pior que você.
  84. Se acostumar a rir ou a chorar diminui sua frequência: se rimos de muitas piadas, ficamos exigentes e só piadas muito boas nos farão rir. Da mesma forma, se choramos com frequência, eventualmente nos acostumamos à dor e dores cada vez maiores são necessárias para nos fazer chorar. Nisso, Hobbes polemiza com Platão, o qual diz que quanto mais rimos, mais difícil é evitar o riso.
  85. Vergonha é um tipo de tristeza, oriunda do reconhecimento de uma falha desonrosa, isto é, que pode acarretar má reputação ou desrespeito.
  86. Se dizemos que pensamos sobre algo que já aconteceu, não podemos usar o termo “deliberar”, porque só é possível deliberar sobre o futuro.
  87. Os animais também deliberam.
  88. O ato de querer é chamado vontade. A capacidade de querer é chamada volição.
  89. Quando se diz um palavrão por hábito, quando se está com raiva, muitas vezes o sentido da palavra é subtraído, ou seja, a palavra sai sem seu significado. Por exemplo, quando algo ruim e súbito acontece, costumamos falar aquela palavra que começa com “P”, o que não implica que estamos diante de uma poça de esperma.
  90. Felicidade, diz Hobbes, é um longo período de prosperidade. Porém, isso implica que ainda é efêmero. Para Hobbes, a felicidade eterna não é possível nesta vida.
  91. O conhecimento do passado e do futuro é condicional, silogístico. Se isso aconteceu, aquilo também. Se isso acontecer, aquilo também irá.
  92. Se acreditamos que a Bíblia é a palavra de Deus, sem que Deus tenha nos dito isso, nós acreditamos, sim, em Deus, mas em primeiro lugar na Igreja, porque ela é quem diz que a Bíblia é inspirada. Então, crer na Bíblia porque outro diz que assim deve ser, significa muito mais acreditar nesse alguém do que na Bíblia ou em Deus, ao menos no primeiro instante.
  93. O mesmo é válido para a História, para a Ciência e para todas as outras artes de que não disponho de meios para demonstrar. Como eu vou saber, por exemplo, se o Templo de Jerusalém realmente foi destruído no ano setenta, se eu não estava lá pra ver? Então, eu acredito muito mais no historiador do que na História ou no fato histórico. Disso decorre que todos temos um tipo de fé e uma tendência a tê-la. Como isso não é seguro, outros pensadores, como Descartes, foram levados a jogar fora tudo o que sabiam ou acreditavam saber para procurar sozinhos algo de que não fosse possível duvidar e construir sobre tal fundamento uma ciência nova que poderiam chamar de “sua” e de “segura”. Só que isso é um ato extremo, que se distancia muito do comportamento normal de um ser humano. A menos que o indivíduo possa reproduzir a experiência em casa (seja pelo experimento ou pela oração) ou sentir os efeitos de sua crença (usar o computador, fruto da física e da informática, ou sentir que suas orações são atendidas), ele tem fé em alguma autoridade.
  94. Para Hobbes, não acreditar na Bíblia não necessariamente significa não acreditar em Deus, mas certamente significa duvidar de seus escritores. Eu, particularmente, creio nela.
  95. Se todos fossem iguais, nenhuma característica humana seria apreciável.
  96. Talento natural é caracterizado por persistência em determinado fim, tema ou foco, tal como facilidade em compreendê-lo.
  97. Estupidez é só ter pensamento devagar. Não quer dizer que o estúpido é um caso perdido, só que ele precisa de mais tempo e mais esforço.
  98. Enquanto que talento é ser bom em uma coisa, juízo é ser bom em comparar coisas. Então, dizemos que quem tem juízo é aquele que faz boas escolhas.
  99. Muita imaginação atrapalha o gênero da dissertação, mas ajuda o gênero poético.
  100. Cada habilidade tem seu lugar nas ciências e nas artes. A imaginação vai na literatura, o juízo vai na história e na filosofia, e coisas que tais.
  101. Muita imaginação e pouca discrição em um trabalho de ficção é quase sempre um sinal de falta de talento.
  102. Se o objetivo é agradar, evite falar de coisas sujas ou obscenas. Se o objetivo é ser útil, use todas as palavras que precisar, mesmo que sejam sujas ou obscenas.
  103. Embora pessoas de mesma idade possam ser igualmente experientes, o uso da experiência varia conforme os objetivos de cada um.
  104. A astúcia é o emprego de meios desonestos no exercício da prudência.
  105. Para Hobbes, o que nos traz aperfeiçoamento é a ambição. Se não aspiramos algo mais, não nos orientamos em direção alguma e, embora nem por isso fiquemos piores, não ficamos melhores do que já somos.
  106. Para Hobbes, não ter desejos é como estar morto. Estranho ele dizer isso, já que não gosta de metáforas.
  107. Loucura é paixão demasiada por determinado objeto.
  108. Existe um tipo de loucura para cada paixão (emoção). A loucura pode ser causada por dano corporal, mas também a loucura pode causar dano corporal.
  109. Emoções podem se combinar e criar outras mais fortes. A combinação de sentimentos também provoca emoções.
  110. A emoção doentia é louca e tanto mais louca quanto mais doentia.
  111. A loucura, enquanto não se manifesta em atos ou palavras, passa despercebida. Enquanto o louco não age segundo sua loucura, é tido por normal.
  112. O vinho nos tira a dissimulação e nos cega em relação aos danos que podem ser causados pelas nossas próprias paixões, revelando, portanto, quem realmente somos e o que realmente pensamos, pois tanto deixamos de levar em consideração a gravidade dos nossos atos como passamos a não ter vergonha de cometê-los, duas coisas que nos impedem de fazer aquilo que realmente gostaríamos de fazer.
  113. Os intelectuais também têm desejos reprováveis. Por isso raramente são vistos bebendo.
  114. Durante uma representação da tragédia de Andrômeda num dia muito quente, as pessoas começaram a adoecer a recitar coisas estranhas por um bom tempo, até a chegada do inverno.
  115. Um surto de suicídios femininos acometeu a Grécia certa vez. Alguém teve a ideia de desonrar os cadáveres: toda a mulher que se suicidava era exposta nua em praça pública. Os suicídios cessaram, porque as mulheres deprimidas sentiam vergonha de serem expostas daquela forma, mesmo que depois de mortas. Ou seja, a vergonha da nudez foi maior do que o desejo de morrer.
  116. A salvação da alma não depende de conhecimento teológico. Basta fazer o que está escrito. Que importa se a Terra gira ou não ou se é achatada ou redonda? Quer sim, quer não, sejamos bons. Por isso algumas religiões não banem a crença na evolução das espécies.
  117. Para Hobbes, os possuídos por demônios muito provavelmente são apenas loucos.
  118. Na época de Hobbes, ciência e filosofia ainda eram uma coisa só.
  119. Pode ser chamado “poder” qualquer coisa que conquiste amor ou temor de muitas pessoas.
  120. Porque os cientistas são menos populares que os cantores? Porque é mais difícil entendê-los.
  121. O seu valor é atribuído pelos outros. O valor que se dá a si mesmo não conta senão para si mesmo.
  122. Honra é respeito público. Schopenhauer concordaria. Se alguém te dá um valor menor que o valor que esse alguém atribui a si próprio, isto é, reconhecendo que você é pior que ele, você foi desonrado. Se alguém te dá um valor maior do que o que esse alguém dá a si mesmo, reconhecendo que você é melhor que ele, você foi honrado.
  123. Obedecer é honrar: ninguém obedece a alguém em que não reconhece superioridade. Portanto, desobedecer é desonrar.
  124. Imitação é honra. O maior elogio é a cópia.
  125. Demorar pra se decidir implica que o indivíduo está avaliando também coisas de ínfima importância, o que é pusilanimidade.
  126. Houve um tempo, em que o roubo fora dos limites das cidades gregas era legal e visto como trabalho legítimo pelos próprios gregos. Assim, roubar nas estradas era permitido.
  127. Honra e desonra variam segundo o contexto histórico e geográfico, pois ações dignas de honra aqui e agora podem não ser no futuro ou em outro lugar.
  128. Os seres humanos são felizes enquanto desejam, diz Hobbes, sentindo tédio quanto satisfeitos. E muitos desejam poder e mais poder.
  129. O desejo de poder nos leva necessariamente à violência, porque a essência do poder é a capacidade de subjugar alguém. Então, toda a busca por poder implica competição, toda a competição implica ganhadores e perdedores.
  130. Se as ciências exatas pudessem servir contra os interesses pessoais de pessoas influentes, seriam tornadas relativas. A razão pela qual as humanidades são relativas é porque frequentemente atacam o orgulho de alguém.
  131. Se as pessoas não gostam dos efeitos, culpam as causas que vêem, como o prefeito ou o presidente, esquecendo que existe deputado.
  132. A religião tem laços com a política. Muitas vezes, o Estado utiliza a religião popular a seu favor. Outras vezes, é a religião que ajuda na formação do Estado.
  133. Diz Hobbes, que os gregos tinham um deus patrono do pênis. Imagine só: um “deus do pênis”.
  134. O adivinho só faz sucesso aonde há um número suficiente de pessoas que acredita nele.
  135. Dizer que Deus é contra o crime, isto é, contra o que é proibido pela lei humana, é uma vitória e tanto do Estado.
  136. Se Deus é Deus da Terra inteira, em que sentido os judeus são chamados de “povo de Deus”? Não é porque só os judeus podem adorá-lo nem porque Deus só tem poder sobre os judeus. Mas sim porque Deus tem um acordo com os judeus. São o povo de Deus em virtude de um pacto pessoal feito com ele. Isso não significa que Deus seja dono somente dos judeus ou que só os judeus possam reconhecê-lo.
  137. A religião é natural ao ser humano. Nunca existiu um período da história humana em que o ateísmo tenha predominado.
  138. Descartes diz que Hobbes é necessariamente ateu porque ele não reconhece que nenhum conhecimento parta somente do que está em nós, tendo que necessariamente advir da sensação em última análise. Mas o que me parece é que Hobbes atribui o surgimento da religião à necessidade espiritual que os seres humanos têm em geral, algo completamente observável. Além disso, Hobbes não exclui a possibilidade de Deus ter se revelado aos seres humanos, o que é um sinal sensível. Então, é possível conciliar religião e empirismo. Mas Descartes, ao inferir a existência de Deus somente pelo intelecto e pela lógica, não deixa espaço para a revelação em seu raciocínio. Hobbes me parece mais crente que Descartes.
  139. Quando alguém recebe, por “revelação divina”, uma crença, ritual ou ensinamento que contradiga aquilo que já está estabelecido como sendo revelado, algum profeta aí é falso. Será que Hobbes se deu conta de que acabou de dar aos jesusistas um ótimo argumento contra o apóstolo Paulo?
  140. Se a religião se mostra injusta, a fé de seus seguidores diminui.
  141. A impureza doutrinária também ajuda a confundir os fiéis e diminuir sua fé. Por exemplo, a igreja católica importou Aristóteles liberalmente em sua teologia, tornando-a obscura e confusa para os fiéis que, sem entendê-la, acharam que alguém estava tirando vantagem deles, ao passo que a doutrina messiânica, ao menos conforme foi ensinada por Jesus, é claríssima. Então, fica patente, mesmo para um idiota, que está ocorrendo uma complicação desnecessária na doutrina.
  142. O fator que leva católicos, protestantes e ortodoxos a mudar de uma denominação para outra não é tanto a forma da doutrina, mas sobretudo a conduta dos sacerdotes. Como vou crer no ensinamento de um hipócrita?
  143. As três razões principais de discórdia: competição, desconfiança e glória. Elas fazem as pessoas atacarem umas às outras visando lucro, segurança ou reputação. No primeiro caso, se quer tomar o que é ou pode ser do outro. No segundo caso, se quer defender o que é seu. No terceiro caso, a violência é sempre por motivo fútil.
  144. A menos que exista um poder superior capaz de manter as pessoas em concórdia, elas estarão em guerra de todos contra todos.
  145. A guerra começa antes do primeiro ataque.
  146. Paz é ausência de guerra e ausência de desejo beligerante. Se temos vontade de entrar em batalha, então a guerra já começou em nós.
  147. A lei é feita depois do crime. Não é possível fazer leis contra algo que não sabemos se é possível fazer ou se tal algo causará dano.
  148. Não há crime na guerra, todos os atos são justificáveis pelo medo da morte.
  149. Justiça e injustiça só fazem sentido na sociedade. São conceitos que não têm valor na cabeça de alguém que vive isolado de todos os outros. Donde decorre, que não são conceitos que nascem conosco.
  150. O medo pode também unir as pessoas, porque é mais seguro estar junto dos outros.
  151. Direito (posso ou não posso) não é o mesmo que lei (devo ou não devo).
  152. A liberdade total de todos permite o natural estado de guerra entre os seres humanos. A paz requer abdicação de uma porção da liberdade.
  153. A linguagem é condição de possibilidade para a política. Não se faz política sem acordos e acordos são feitos pela linguagem. Além disso, a política implica mútua insatisfação em um aspecto, para benefício maior futuro. Isto é, todos os integrantes do pacto perdem algo para ganhar outro algo. Não é o que acontece com os animais de uma determinada espécie, os quais, agindo como lhes apraz, terminam em harmonia. Então, ganham sem perder.
  154. Não posso prometer algo que contradiga uma promessa feita anteriormente. Afinal, não posso prometer o que já perdi ou fazer o que já prometi não fazer.
  155. Renunciar ao direito de autodefesa é impossível.
  156. O testemunho prestado sob tortura não é válido, diz Hobbes, porque a pessoa pode muito bem mentir ou fazer uma confissão falsa para que a tortura cesse.
  157. Embora Deus seja um poder maior do que as pessoas, é frequentemente menos temido do que as pessoas. Porque é natural que se tenha mais medo daquilo que parece próximo e que está visível.
  158. Jurar por Deus só é válido se o que jura e o que recebe a jura pertencem à mesma religião. Apesar de que é pecado.
  159. Juras desnecessárias a Deus são desrespeito ao seu Nome, portanto violação do mandamento terceiro (não usar o Nome em vão).
  160. Se não é injusto, é justo; não há meio-termo entre esses dois.
  161. Se a punição pela quebra de um acordo não é maior que benefício que se poderia tirar dessa quebra, o contratante quererá quebrá-lo.
  162. A injustiça é condicionada à propriedade privada. Com efeito, se tudo fosse de todos, não haveria como ferir a fórmula “a cada um o que é seu”, ou seja, a cada um o que lhe é devido, que é a justiça. Se as pessoas começam a arrogar para si coisas que antes eram públicas, tomar essas coisas de volta constitui a injustiça do roubo. Da mesma forma, arrogar para si uma quantidade que não lhe é devida também constitui injustiça, uma vez que você está ficando com algo que outro necessita mais do que você.
  163. O que cada um tem o direito de ter é definido pela lei. Se não há lei, todos tem igual direito às coisas da natureza. Portanto, a injustiça nasce com a propriedade privada, que é assegurada pela lei governamental. Mas, na visão de Hobbes, é um mal necessário, uma vez que, também no estado de natureza, não há nada que proíba a violência e a morte.
  164. Fazer acordos é natural.
  165. Pessoas justas são as que praticam atos justos.
  166. Iniquidade e injustiça, diz Hobbes, são a mesma coisa. Então, quem pratica injustiça pode ser seguramente chamado de iníquo.
  167. Existe um tipo de justiça que é estabelecido entre os próprios contratantes e outro tipo de justiça que é estabelecido com a mediação de um juiz.
  168. Se você conquista a boa vontade de alguém, não a perca.
  169. O que procura manter a paz nos grupos em qual entra é chamado sociável. Os que se juntam com os outros, mas não se importam em manter a paz nesses grupos, são chamados anti-sociais.
  170. Quem não perdoa os que se arrependem se mostram avessos à paz, pois preferem continuar punindo alguém que já reconheceu seu engano e se comprometeu a não mais cometê-lo. Isso significa que essas pessoas gostam de sentir raiva e de causar sofrimento, pois deleitam-se às custas do desejo de perdão manifestado pelo outro.
  171. Não se deve vingar-se se a vingança não for trazer bens futuros. Se vingar só para se vingar é infantil.
  172. Causar dano sem razão é crueldade.
  173. Orgulho é se perceber como sendo melhor que os outros. De fato, somos melhores em certos aspectos, não em todos.
  174. Não tem sentido eleger um juiz se ele não for imparcial durante o exercício.
  175. Essas leis naturais de Hobbes se resumem da mesma forma que a Lei: faz aos outros o que gostarias que fosse feito a ti.
  176. Como essa lei tem origem interna, por vezes sua simples promulgação interna não basta para cumpri-la. Afinal, quantos cristãos e judeus não acabam indo contra esse preceito?
  177. Hobbes aponta um fato interessante: tudo aquilo que quebra esse preceito é automaticamente injusto e provoca a ira das pessoas quando descoberto ou manifesto. Interessante porque Jesus, ao escolher esta passagem da Lei como seu resumo mais fiel, deixou claro o critério de justiça que devemos usar entre nós. Se você pensar a respeito, verá que tudo o que fere esse preceito não pode jamais ser sancionado e legitimado.
  178. Na vida em sociedade, a vida segundo esse preceito preserva a paz.
  179. Uma ação virtuosa depende do fim que se quer atingir.
  180. O dono de algo não necessariamente é seu inventor.
  181. É possível representar os interesses de coisas inanimadas, como uma escola ou hospital. É o caso das pessoas jurídicas.
  182. Os interesses das crianças são sempre representados pelos adultos, pois a criança que ainda não atingiu o pleno uso da razão não pode fazer acordos justos. Donde decorre que qualquer acordo entre criança e adulto é automaticamente injusto.
  183. Porém, essa prática só pode se dar numa situação em que haja Estado para dizer que a criança deve ser representada pelo adulto. Afinal, a própria criança não pode dizer quem deve lhe representar, se supostamente não atingiu o pleno uso da razão.
  184. Não condenar é absolver. Não absolver não necessariamente é condenar.
  185. Se o voto da maioria pode ser anulado pelo voto de uma só pessoa, não tem sentido votar.
  186. Muitas pessoas não querem fazer aos outros o que gostariam que lhes fosse feito. Às vezes é preciso forçar alguém a ser bom.
  187. Pacto sem punição por rompimento é nulo.
  188. Se duas forças opostas se unem para combater um inimigo comum, elas voltam a se opor quando o inimigo comum é eliminado.
  189. Por que as pessoas entram em guerra entre si, mas as abelhas não? Porque as abelhas não sentem orgulho, nem procuram a honra, sendo o orgulho e a busca pela honra as principais causas de inveja e de ódio. Rousseau concordaria.
  190. As abelhas não vêem distinção entre bem individual e bem comum. Procurando seu próprio bem, acabam ajudando umas às outras. O mesmo não acontece com o ser humano, que pode, ao procurar seu próprio bem, ignorar o bem da humanidade. Platão diz que fazer bem ao coletivo é fazer bem ao indivíduo e fazer bem ao indivíduo não necessariamente faz bem ao todo, mas nem todos chegam a essa conclusão.
  191. As abelhas vivem em harmonia porque não vêem como seu comportamento poderia ser melhor. A constante demanda por mudança entre os seres humanos, com constantes sugestões de melhora, leva-nos ao debate. E o debate nos leva ao ressentimento.
  192. As pessoas, diferente das abelhas, são capazes de mentir. Esse uso injusto da linguagem, sozinho, é capaz de gerar muito ódio através da intriga.
  193. Quanto mais satisfeita, menos a abelha ofende os outros. Mas muitas pessoas, quando goza de boa condição, esfrega na cara dos outros para lhes causar inveja.
  194. As outras espécies não precisam de Estado porque seus “acordos” são naturais. Os acordos humanos, porém, o são em plena acepção da palavra, ou seja, são artificiais.
  195. Hobbes se mostra bem democrático quando diz que uma só pessoa ou uma assembleia deve reduzir a vontade de todos a uma só vontade por meio da pluralidade dos votos e que os votos da maioria devem ser contados como sendo os votos de todos. Pondo as coisas dessa forma, como um homem desses não é democrático?
  196. Depois de eleito, o Estado é absoluto. A democracia encerra quando a eleição encerra.
  197. A tarefa do Estado é assegurar a paz entre os que lhe são sujeitos.
  198. Se o governante foi eleito pelo povo, depô-lo é golpe, porque o povo está roubando dele aquilo que ele ganhou por direito.
  199. Além do mais, se o governante eleito pelo povo promulga uma lei que prevê punição para determinado comportamento e depois o súdito incorre nesse comportamento e é punido por ele, é, no fim das contas, inventor de seu próprio castigo. Afinal, quem fez a lei e quem administra a punição tem seus atos sancionados pelo povo que o escolheu.
  200. Para Hobbes, pactos com Deus só podem ser celebrados por intermédio do sacerdote e nunca diretamente. Então, para ele, o protestantismo, que tenta uma relação pessoal com Deus, é uma grande mentira. A defesa do protestante poderia ser a de que o mediador é Jesus.
  201. O povo é culpado das ações do governante eleito.
  202. Pegar em armas para defender uma opinião indica que não há paz instaurada ainda. Porque, afinal, é necessário agir violentamente para defender uma simples ideia, algo normalmente defendido com palavras.
  203. Quem tem direito a um fim tem direito aos meios.
  204. O Estado, diz Hobbes, tem direito de censura, se for para manter a paz.
  205. Quando todos têm direito a tudo, ocorre guerra.
  206. Embora o Estado deva zelar pela paz de seus súditos, não há impedimento quanto à guerra contra outros Estados, se isso redundar em benefício público.
  207. Num regime monárquico, democrático, absolutista, totalitário ou o que quer que seja, a natureza do poder é a mesma: os súditos reconhecem um Estado e um Estado governa os súditos.
  208. Diz Hobbes que qualquer forma de governo é melhor que a anarquia, que, aliás, é a ausência de governo.
  209. Todos vêem os problemas atuais como maiores do que os problemas futuros, resolvendo os problemas de qualquer jeito. Afinal, tiraram a presidenta pra botar o Temer e todo o mundo sabe no que deu.
  210. Só existem três formas de governo: monarquia, democracia e aristocracia.
  211. A tirania e a oligarquia são formas degeneradas da monarquia e da aristocracia, não tipos distintos de governo. Afinal, se eu não gosto de uma monarquia e a chamo de tirania porque ela é ruim, não muda o fato de que há apenas um governante e que, portanto, continua sendo monarquia. A anarquia, contudo, apesar de ser uma degeneração da democracia, não é um governo, mas a ausência de um governo.
  212. A riqueza e a fama de um monarca depende da riqueza e da fama de seu povo. Se seu povo sofre, os outros Estados o vêem como um mau monarca.
  213. Se o povo é fraco, o monarca é fraco.
  214. Um dos problemas democráticos são as faltas na assembleia: pode um julgamento ser justo se metade da oposição faltou à reunião no dia dessa decisão?
  215. As decisões democráticas nem sempre são motivadas pela razão, mas muitas vezes pela raiva e pela inveja. A defesa da presidenta nunca foi derrubada, mas ignorada por uma maioria corrupta que, se reconhecendo maioria, ficou destemida e entendeu que nem mesmo a razão e a justiça poderiam parar sua grande quantidade de votos.
  216. Enquanto que a decisão democrática pode ser confundida pela retórica, a decisão monárquica pode ser confundida pela adulação.
  217. A tentação do nepotismo é maior numa assembleia do que numa monarquia: o monarca só tem seus parentes com os quais se corromper, mas cada membro da assembleia também tem seus parentes. Então, quanto maior a assembleia, maiores as chances de ocorrer nepotismo (embora os danos sejam menores do que o nepotismo monárquico).
  218. Acusar requer menos eloquência. A condenação é mais facilmente vista como justiça do que a absolvição.
  219. Um grande problema da monarquia: descendentes que ainda são crianças.
  220. Quem deve nomear o tutor do sucessor é o antecessor.
  221. O tutor deve ser alguém que não poderia se beneficiar da morte do aluno.
  222. Existem “monarquias eletivas”, em que o monarca exerce por um limite de tempo e depois o sucessor é votado. Mas não é uma monarquia em sentido pleno do termo, porque o monarca não é soberano. No final das contas, é um tipo de democracia, quase uma república.
  223. Se um povo governa outro povo, é uma monarquia de um povo sobre outro, pois o Estado que governo o povo oprimido é uma pessoa só (pois, para Hobbes, o Estado é uma pessoa, personificada no governante).
  224. O direito de sucessão é importante para o Estado. De outra forma, o Estado teria que morrer e ser feito novamente com regularidade.
  225. O testamento do governante deve ser revelado por ele próprio antes da morte, para evitar que se forje testamento falso por algum súdito.
  226. Na falta de um sucessor apontado diretamente, o sucessor deve ser escolhido segundo o costume local.
  227. Se não houver costume, deve ser o filho. Se não houver filho, seja a filha. Se não houver filha, seja o irmão. Se não houver irmão, seja a irmã. Se não houver irmã, lascou-se.
  228. A venda de cargos é nefasta, especialmente se for para um rico incompetente ou estrangeiro.
  229. O direito do pai sobre o filho tem que ser reconhecido pelo filho. Se o filho não respeitar a autoridade do pai, então o pai não tem como subjugá-lo adequadamente.
  230. Nem sempre o pai tem prioridade na educação do filho porque nem sempre o pai é o mais indicado para isso. Por outro lado, tampouco os dois devem ter igual prioridade, porque o filho poderia usar o truque de “se um não deixar, peça ao outro” para obter o que quer do pai ou da mãe na medida da conveniência. Então, é preciso que pai e mãe decidam quem tem prioridade na educação do filho e que o filho seja informado de tal.
  231. Um bom critério seria de que o pai tem prioridade na educação do filho e a mãe tem prioridade na educação da filha.
  232. Se não for possível decidir, a prioridade automaticamente pertence à mãe. Diz Hobbes que isso é porque é a mãe quem informa ao filho quem é seu pai, visto que o filho normalmente reconhece a mãe antes.
  233. A obediência da criança é devida a quem a cria. Afinal, ela deve a vida àqueles que a alimentam.
  234. Isso quer dizer que a criança não precisa dever obediência aos pais se foi abandonada por tais pais, mas deve obediência a quem a acolher. Por isso se diz que “pai e mãe é quem cria”.
  235. Por outro lado, se a mãe é submissa ao pai, então a autoridade passa para o pai, caso o acordo de prioridade não seja feito.
  236. O avô tem domínio sobre o neto. Com efeito, o pai, submetido ao avô, automaticamente submete os seus filhos ao seu pai (isto é, os netos ao avô).
  237. O déspota só é reconhecido se o povo teme que o conquistador o extermine. Ele é reconhecido numa situação em que o vencedor de uma guerra tem condições de eliminar o povo vencido e este, para não perecer, lho promete servidão.
  238. Servo não é escravo. More discorda.
  239. O vencedor de uma guerra não precisa poupar a vida dos vencidos. É por isso que os vencidos tem que ser submissos. Do contrário, morrerão.
  240. O senhor é dono das coisas do servo.
  241. A família é uma pequena monarquia.
  242. Hobbes usa as Escrituras para fundamentar o poder absoluto de um monarca ou rei sobre os súditos.
  243. A legislação é de autoria do governante.
  244. Os livros de Samuel, as cartas de Paulo e a Lei sancionam a autoridade terrena e a sujeição a ela.
  245. Para Hobbes, comer do fruto proibido deu a Adão e Eva o ofício divino de distinguir entre o bem e o mal, mas não deu a nós nenhuma nova aptidão para isso. Então, o casal assumiu uma responsabilidade com a qual lhes era impossível arcar. Eu tenho uma interpretação diferente.
  246. O ato de Adão e Eva de cobrirem a própria nudez já foi, em si, um desafio a Deus, o qual os havia criado nus. Foi como se dissessem a si: “acho que a forma como Deus nos permite viver é inconveniente, ela pode ser melhor assim, se nos cobrirmos.”
  247. Os maiores inconvenientes de um Estado derivam da insubmissão dos súditos. Enquanto os súditos forem submissos, tudo vai bem. Se os súditos não estão submissos, algo está errado. Existem duas formas de se resolver isso: ou descendo o cacete em todo o mundo ou ouvindo suas demandas e verificando o que pode ser feito para que voltem à paz. Afinal, se o Estado não honra seus pactos com a população, tampouco a população deve honrar os seus com o Estado.
  248. A maioria ou a tradição nem sempre estão corretas. Se a maioria das pessoas mente, porque sempre se mentiu, não podemos inferir por isso que a mentira é algo bom.
  249. Para Hobbes, liberdade é ausência de oposição. Se você quer fazer algo e nada há que te impeça, você tem liberdade para fazer.
  250. Porém, a liberdade está condicionada ao poder que se tem de agir. Assim, se eu não posso criar um par de asas para voar, não é porque eu não sou livre pra fazer isso, mas porque isso não está dentro dos limites da ação humana.
  251. É impossível criar um código penal perfeito que cubra todas as ações humanas, especialmente se precisarmos classificá-las como boas ou más e ainda mais se queremos dizer quais são piores e quais são mais brandas.
  252. Se a lei não vê como crime, então é permitido. Assim funcionam as brechas.
  253. Só há liberdade individual na democracia. Na aristocracia e na monarquia, a liberdade individual é cedida ao Estado.
  254. Que direitos o Estado tem? Os direitos cedidos no instante de sua criação.
  255. Não sou obrigado a me matar.
  256. Se você é um soldado pago com dinheiro público, será punido por fugir da batalha.
  257. Se um súdito é banido, não é mais súdito.
  258. Se você não concorda com as leis de seu país, pode procurar outro no qual morar. Por exemplo: os que gostariam de ter relações com adolescentes achariam a Angola, as Filipinas ou o México um paraíso (onde a idade de consenso é doze, dois anos a menos que no Brasil, embora se deva levar em consideração que deve haver permissão dos pais e há restrições sobre o que é permitido antes dos dezoito, quando não há restrição alguma).
  259. Se um país subjuga outro, o senhor do país vencedor torna-se senhor da população de súditos do país conquistado.
  260. Público é o que é feito entre súdito e Estado. Privado é o que é feito entre súdito e súdito.
  261. Uma iniciativa privada é permitida na medida em que o Estado permite.
  262. Se alguém faz algo que não é aprovado pelo Estado, está fazendo por conta própria. Se alguém faz algo permitido pelo Estado, automaticamente o faz em nome do Estado.
  263. Os mercadores que se juntam em corporações para juntar esforços são espertos: podem comprar a preço baixo a mercadoria de sua terra e vendê-la a preços altos onde essa mercadoria é rara. Esse tipo de exportação requer investimento, que seria melhor levantado por um grupo do que por um indivíduo.
  264. Em adição, pode-se comprar mercadoria comum da terra onde se vendeu a sua mercadoria, a fim de vendê-la em sua própria terra natal, onde ela é rara. Isso seria mais fácil se houver acordo com os comerciantes das terras onde se quer vender.
  265. Se a mercadoria pode ser vendida para muitos, ela pode ser mais cara, pois não faltarão compradores. Quanto menos interesse há em comprar determinada mercadoria, mais o preço diminui.
  266. Não pode haver dois soberanos para o mesmo povo.
  267. O pai pode fazer com o filho o que quer que a lei não proíba.
  268. Os mendigos podem se reunir para traçar um plano de mendicância mais eficiente e, juntos, obter mais lucro. Por exemplo, cada um pede nas áreas mais movimentadas ou naqueles onde há maior índice de caridade.
  269. Se o Estado não puder saber o que determinado grupo ou associação quer, então esse grupo ou associação é automaticamente fora da lei. São banidas assim as sociedades secretas.
  270. Às vezes, promover a justiça requer dinheiro.
  271. Qualquer coisa que opere contra a paz é injusta, exceto quando isso vem do Estado, diz Hobbes.
  272. Nas reuniões estatais, qualquer que não partilhar do interesse que será discutido não bem-vindo. Por exemplo, se os deputados são chamados para a reunião de impedimento da presidente, só pode entrar na sala quem quiser participar da votação e for deputado. Se não for deputado ou se ficar evidente que votar não é seu objetivo principal, ele deve ficar fora.
  273. Não é permitido que a reunião chame um número de pessoas que é maior que o necessário, diz Hobbes.
  274. O Estado é como um corpo humano. As organizações legítimas são como órgãos, enquanto que as organizações ilegítimas são como tumores e cálculos.
  275. Um ministro é uma pessoa encarregada pelo Estado de realizar determinada missão. Para isso, ele dispõe de recursos estatais.
  276. Enquanto a escola for um dispositivo ideológico do Estado, os professores podem ser considerados ministros.
  277. Ninguém pode ser juiz em causa própria.
  278. É permitido escolher um juiz para sua causa, para evitar que se escolha um juiz com quem se tenha uma inimizade anterior. Também é possível apelar para outro juiz, mas, se o resultado desse também não for favorável, lascou-se. É possível também apelar para o soberano. Se isso for feito, a sentença do soberano é definitiva, já que o soberano representa o súdito julgado e não é possível discordar de seu próprio julgamento.
  279. Alimentação é fácil obter, porque ela vem da terra em forma animal, vegetal ou mineral. Porém, ela pode exigir trabalho para ser obtida.
  280. Nenhum Estado produz tudo de que precisa. A importação e a exportação são necessárias para manter o nível de conforto a que os Estados chegaram. É por isso que o comunismo não é possível. Se um país se torna comunista sem ter abundância de bens e recursos, precisará ainda importar e exportar objetos e bens. Mas como fazer isso, se a maioria dos países é capitalista e não vai aceitar esse processo sem mediação do dinheiro? Portanto, o país comunista teria que ter uma moeda. Mas tendo moeda, não é mais comunista.
  281. A força de trabalho pode ser vendida.
  282. Manter alguma coisa somente pela sua própria força leva à incerteza.
  283. Sem leis não há heranças materiais nem propriedade privada.
  284. Para Hobbes, a propriedade privada só pode ser assegurada pelo Estado e só tem começo quando o Estado é instaurado.
  285. Justiça: a cada um o que é seu.
  286. Se o governante faz algo que o povo não gosta, tanto faz: o povo, ao elegê-lo, sancionou todas as suas ações.
  287. O que não significa que o povo deve aceitar tudo. Um monarca especialmente ruim atrai o ódio dos súditos, que se rebelam. Então, faz parte do governo não atrair a ira dos súditos.
  288. A distribuição agrária é tarefa do soberano.
  289. Levadas pela ânsia de lucro, algumas pessoas vendem aquilo que na verdade faz mal, tal como as drogas. Então, compete ao Estado dizer quais são as mercadorias que se podem vender em seu território.
  290. Não existe conhecimento inútil.
  291. Os súditos devem ter comércio entre si e oferecer serviços uns aos outros.
  292. Mas o Estado deve regular também essas práticas.
  293. O ouro e a prata tem valor universal na maioria dos países. Portanto, pelo bem da exportação e da importação de todos os bens, o valor do ouro e da prata não devem ser alterados por nenhum Estado, a fim de que seu valor seja usado como referência para câmbio, por exemplo. More discorda.
  294. Reservas de metais preciosos podem ser usadas como último recurso em guerras, para firmar pactos de paz.
  295. Diz Hobbes: como o valor do ouro não muda, ao passo que o valor de uma moeda pode diminuir, contratos de paz firmados em dinheiro e não em ouro são voláteis e inseguros.
  296. Uma frase imperativa pode se tornar de opinião dependendo de quem fala, quem ouve e de quando e onde fala ou ouve.
  297. Não confunda conselho e ordem.
  298. A ordem visa a satisfação da vontade do que ordena. O conselho visa a satisfação de quem ouve.
  299. Conhecer a lei é obrigação de todos os cidadãos. Então, dizer que “não sabia” não é desculpa.
  300. Deve haver harmonia de intenções entre o conselheiro e o aconselhado. Se o conselheiro tiver intenções dissonantes com as do aconselhado, pode querer dar mau conselho.
  301. O conselho deve ser limpo, claro. Não deve ter metáforas, não deve ser longo, não deve excitar paixões, não deve ser ambíguo, não deve ter expressões difíceis… É um conselho.
  302. Os conselheiros políticos devem ser intelectuais.
  303. O conselheiro deve ter experiência. Não pode ser jovem.
  304. O conselho se baseia na faculdade de julgar. Quem não tem juízo, dá mau conselho.
  305. Na falta de regras absolutas de julgamento, quem tiver maior experiência em determinado assunto terá melhor julgamento.
  306. Numa assembléia, alguém que defende determinada opinião, ao ouvir um discurso muito bom que defende a opinião contrária, pode ficar com vergonha da sua própria decisão e mudá-la, para não parecer bobo na frente dos outros que aplaudiram a opinião contrária. Não é que ele concorde; só quer evitar o embaraço.
  307. Não peça conselho a uma assembleia. Se o que você quer é um simples conselho, consultar uma pessoa de confiança é o bastante. Não precisa que sejam várias.
  308. Diz Hobbes: todos os conselhos pedidos à assembleias ou tiveram resultados negativos ou não deram em nada. Assembleias devem ser convocadas para outras coisas e não para conselho.
  309. Existem leis comuns a todos os Estados.
  310. Quem faz as leis é o soberano. Também é ele quem as revoga.
  311. Se o soberano pode revogar leis quando ele quiser, então ele praticamente não está sujeito a elas. No instante em que ele quebra uma, ele pode dizer “a partir de agora não é mais assim”. Isso é mais fácil numa monarquia. Se for uma aristocracia ou uma democracia, é necessário convocar seus integrantes antes de revogar a lei.
  312. Se você faz um voto a si mesmo, não fez voto nenhum.
  313. Tudo é permitido até o soberano proibir. Se não há lei contra, então não é crime.
  314. Se não há governo, não há lei.
  315. A função das leis é tolher a liberdade mesmo. Dessa forma, não somos livres, por exemplo, para fazer mal uns aos outros.
  316. Quem tem o direito de dissolver uma associação também tem direito de controlá-la.
  317. Os dois braços do Estado: as leis e a força.
  318. Se você estuda muito uma coisa só, se expõe ao risco de estar despendendo muito tempo estudando uma matéria que não comporta verdade alguma. Isso equivale a construir algo sobre fundamentos fracos.
  319. A lei só é válida para quem é capaz de firmar um pacto. Isso significa que ela não é válida para idiotas completos, crianças e animais. Com esses, só se pode usar a força e só quando necessário.
  320. Qualquer pessoa que não puder aprender as leis por qualquer razão que seja está escusado de observá-las.
  321. Regra de ouro: não faça aos outros o que você não gostaria que fosse feito a você. Como essa lei todos podem aprender e observar, as crianças e os que têm deficiência de aprendizado não estão liberados dela.
  322. Se alguém te dá um cargo e não diz como exercê-lo, você é obrigado a usar a razão para achar um meio de exercê-lo perfeitamente.
  323. A conclusão que você chega nesse processo não deve ser dissonante com a decisão estatal.
  324. Então, use o cargo dado da forma a melhor garantir os interesses do Estado. Para isso, use a razão, diz Hobbes.
  325. Quem deve ensinar as leis às pessoas são os próprios juízes.
  326. Existem casos em que tal não é necessário: a pessoa deve recorrer às leis escritas quando puder.
  327. Antes de processar alguém, certifique-se de que essa pessoa realmente cometeu um crime.
  328. Embora todos devam conhecer as leis, a interpretação delas depende de pessoas-chave.
  329. A regra de ouro pode ser má interpretada, embora unicamente por ocasião de má-fé.
  330. Leis curtas podem ser mal interpretadas. Tanto mais leis longas.
  331. A interpretação correta de uma lei depende da posse das causas finais: para quê esta lei foi feita? Se você sabe qual é o objetivo da lei, interpretá-la torna-se mais fácil, porque você pode rejeitar interpretações que não convenham ao objetivo da lei.
  332. Se o filósofo formula uma lei revolucionária, ela não vale nada se o Estado não a sancionar.
  333. O juiz deve representar a vontade do soberano. Se ele te condena, só está fazendo seu trabalho de aplicar a lei. Seu problema é com o governo, pois é o governo que faz e sanciona as leis.
  334. Céu e terra passarão, mas a Lei não passará e esta é a Lei e os profetas: faz ao próximo aquilo que gostarias que te fosse feito.
  335. Os comentários às leis não são interpretação.
  336. Se o juiz viu que o ato criminoso não foi cometido pelo réu, mas por outra pessoa, ele deve pedir que outro juiz ordene o caso, ao passo que ele próprio deve se tornar testemunha, pois viu quando o ato foi feito e viu que não foi o réu a cometê-lo.
  337. O advogado estuda as leis. Quem as interpreta são os juízes.
  338. Existem dois tipos de lei: moral e positiva. A moral é a que sempre existiu, baseada nas virtudes humanas que tendem para a paz. A positiva é a que é escrita pelos soberanos.
  339. Existem dois tipos de lei positiva: humana e divina. Das leis humanas, existem dois tipos: as distributivas (determinam os direitos dos súditos) e as penais (determina os deveres e as punições por desrespeito a estes).
  340. As leis positivas divinas são aquelas reveladas pelos profetas.
  341. Leis positivas que contradigam as leis morais não devem se obedecidas.
  342. Existem dois tipos de lei: fundamental e não fundamental. O Estado se dissolve e deixa de existir se não houver leis fundamentais. São as leis que asseguram a existência do Estado.
  343. Direito é liberdade. Quando se diz que um cidadão tem direito a algo, quer dizer que ele é livre para fazer esse algo.
  344. Ter fantasias do tipo “como seria legal se eu tivesse a esposa daquele cara pra mim”, mas sem ter a intenção de tomá-la, não necessariamente infringe o mandamento que diz “não cobiçarás a mulher do próximo”. Com efeito, cobiçar alguma coisa é ter intenção de tomá-la para si. Se eu admito que tenho desejos para com uma mulher, mas entendo que não posso tê-la porque ela já está comprometida com outro, e por isso não tenho intenção de satisfazer meu desejo e tomá-la, não estou a cobiçando, da mesma forma que podemos desejar o impossível sem cobiçá-lo (uma vez que o impossível é inatingível).
  345. Da mesma forma, ter fantasias do tipo “oxalá aquele cara morresse” não necessariamente significa que eu tenho desejo de matá-lo. O que não significa que eu devo nutrir contendas com ele, mas, pelo contrário, eu devo perdoá-lo e exercitar o meu amor.
  346. Sentir prazer em fantasias é, diz Hobbes, inerente ao ser humano. Pensar que ter fantasias é pecado, é, diz Hobbes, o mesmo que tornar a condição humana um pecado. Ter fantasias é diferente de ter intenções. Razão pela qual algumas Bíblias, em vez de dizer “qualquer que olhar para uma mulher para cobiçá-la, já cometeu em seu coração adultério com ela”, dizem “qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, já cometeu em seu coração adultério com ela”, porque o uso do termo “cobiçar” varia segundo a situação.
  347. Crime é qualquer ato que seja proibido pela lei, tal como qualquer omissão de esforço para realizar deveres legais.
  348. O termo “pecado”, originalmente, significa violação da lei em questão. Difere do termo “crime”, que o pecado descoberto, julgado e condenado. Então, se eu cometo um ato fora da lei, mas não sou descoberto, pequei contra a lei ainda assim. Dessa forma, nem todo o pecado é crime, mas todos os crimes são pecados.
  349. Se não houver lei, não há pecado. Esse argumento também é usado por Paulo.
  350. Entendimento não significa raciocínio.
  351. Fazer aos outros o que não se faria a si mesmo é sempre crime, diz Hobbes.
  352. Se você se muda para o estrangeiro e você não teve meios de aprender as leis locais, não pode ser punido por quebrar uma lei que ignora. Você ainda tem que aprender as leis locais, mas, enquanto está aprendendo, crimes feitos antes do fim do aprendizado podem ser liberados.
  353. Se você quebra uma lei e se defende dizendo “eu não sabia que a pena seria tão alta”, você acaba de se condenar, porque está dizendo que não veria problema em cometer crimes se as penas fossem brandas.
  354. Se você comete um ato, está assumindo todas as consequências desse ato. Sartre concordaria.
  355. Se a punição for pouca e a pessoa diz que não teria feito se a pena fosse mais alta, isso é um indício de que a lei não está punindo adequadamente, porque as pessoas, vendo benefício na prática criminosa, não se sentem intimidadas pela pena.
  356. Se um comportamento é tornado crime hoje, os que incorreram em tal comportamento ontem não podem ser punidos.
  357. O fato de que a justiça foi violada com êxito várias vezes ao longo da história não a torna um conceito vazio.
  358. Basear as leis nesse tipo de precedente, isto é, tornando justo tudo o que antes deu certo, mesmo que tenham sido atos viciosos, perturba o Estado, o qual precisa de leis estáveis para manter a paz.
  359. Algumas pessoas acreditam poder manipular a lei por serem capazes de manipular as pessoas das quais depende sua aplicação. É o caso dos que subornam juízes.
  360. A ocasião faz o criminoso. Muitas pessoas cometem crimes quando percebem que não serão punidos por isso.
  361. Matar em legítima defesa nunca é crime, diz Hobbes.
  362. Se só houver ameaça, eu devo pedir ajuda às autoridades. Se eu matar alguém com base em ameaças, então é crime, porque eu deveria ter usado esse tempo para pedir ajuda. Para Hobbes, matar em legítima defesa não é crime porque eu não teria tempo de apelar para as autoridades na iminência da minha morte.
  363. Dependendo das circunstâncias, a pena por um crime pode ser atenuada.
  364. Ninguém é obrigado a seguir a lei se isso resultar em sua morte. Quebrar as leis para sobreviver não é crime. E nem poderia.
  365. Se o rei ordena a quebra de uma lei, a lei foi revogada.
  366. Quebrar a lei por presunção de impunidade pela força é mais digno de punição do que quebrar pela presunção de impunidade pela fuga. Porque no primeiro caso, não há temor das leis.
  367. Quem incitava a cometer um crime é também culpado.
  368. O crime cometido por impulso de descontrole é menos culpável do que o crime premeditado.
  369. O tempo despendido entre a prática criminosa e o conhecimento da lei deve ser despendido meditando sobre como conformar suas paixões à lei. Portanto, cometer crimes por impulso, embora seja menos culpável, não é totalmente desculpável.
  370. Se a lei é ensinada publicamente, nas escolas, por exemplo, todos os crimes são mais culpáveis. Se a lei for de difícil acesso, todos os crimes são menos culpáveis.
  371. Se o legislador não age de acordo com a lei que ele mesmo promulgou, a quebra dessa lei é desculpável.
  372. Roubar dinheiro público é pior do que roubar dinheiro privado, porque o roubo de dinheiro público é o roubo feito a muitos ao mesmo tempo.
  373. Falsificação de dinheiro, usurpação de cargos e qualquer crime relacionado a serviços públicos é pior do que os crimes feitos contra pessoas privadas.
  374. Suponhamos que adultério seja crime. Agora suponhamos que uma mulher foi apanhada em adultério numa situação em que seu marido, por qualquer razão que seja, não se importa com a traição. Isso significa que não há vítima. Para Hobbes, a mulher deve ser condenada ainda assim, mesmo que a parte ofendida (o marido) não se importe. Isso porque a lei deve ser a mesma em todo o território para tantas pessoas quanto for possível. Ontem eu estava vendo um noticiário e uma mulher falou que o combate a crimes de pedofilia é difícil porque as vítimas muitas vezes não se sentem vítimas, isto é, não vêem o ato como abuso. Então por que punir? Exatamente por essa razão: segundo Hobbes, crime é crime, não importando o pensamento da vítima sobre ele. Então, se o marido não se importa com os chifres que acaba de receber, isso não isenta a mulher da punição que lha é devida.
  375. Roubar um pobre é mais grave do que roubar um rico.
  376. A pena por um crime só pode ser dada pelo Estado. Se alguém revida com gestos, palavras ou ações, isso não é pena.
  377. Se você cobra uma multa por alguém ter infringido uma lei, mas não o pune fisicamente, então não se trata de um crime na prática. Foi como se a pessoa tivesse pago um valor pra ter o direito de exceder a velocidade permitida, por exemplo.
  378. Existem penas físicas, penas de cargo, penas pecuniárias, penas prisionais e penas de exílio.
  379. A punição de alguém deve ser benéfica para o Estado. Não tem sentido punir se não se derivar benefício disso.
  380. Um Estado não pode ter apenas punições; deve ter também recompensas. A recompensa por um bom trabalho é um bom salário ou um benefício.
  381. Um governo pode se dissolver porque o governante recusa assumir parte do poder que lhe é necessário ser investido.
  382. Fé e razão são conciliáveis.
  383. Diz Hobbes: o soberano está acima da lei e seu poder é indivisível.
  384. Diz Hobbes: uma das causas de rebelião contra a monarquia é a leitura dos livros de história pelos jovens, que irresponsavelmente tomam o que lhes apraz como exemplo.
  385. Para Hobbes, numa monarquia, livros de história não devem ser lidos em público, a não ser por pessoas que sejam capazes de filtrar o conteúdo deles. Dessa forma, se evita o risco de alguém achar uma boa ideia matar o rei. Ele faz a ressalva de que tal risco não existe em governos democráticos, onde, não havendo reis, não há risco de tirania. Porém, ele também entende que, numa democracia, a leitura de tais livros ainda é capaz de afastar a transição à monarquia, mesmo se tal for necessário.
  386. Se temos a igreja declarando uma lei e o Estado declarando outra, temos o problema de que as pessoas estão sujeitas a dois senhores. Ou o Estado passa a ser controlado pela religião (de forma que a religião diz aos Estado o que ele pode ou não legislar) ou o contrário (de forma que o Estado controle o que as igrejas podem dizer como sendo pecado ou não). Em outras palavras, é necessário que haja um só governo o que, na prática, implica fusão legal entre igreja e Estado.
  387. Existem outras doenças do Estado, como súditos muito poderosos e carismáticos, cidades muito independentes em recursos e outros elementos sob seu controle, mas que podem rivalizar com ele se desejarem.
  388. Segurança não compreende apenas a saúde física, mas também a posse dos bens.
  389. Quem desamparar os meios, ignora os fins. Quem desamparar os fins, ignora os meios.
  390. O Estado precisa informar os súditos de seus direitos. Porque o povo que sente que tem poucos direitos é mais propenso à rebelião. Além do mais, como eu vou reivindicar um direito que eu não sei se tenho? Temos vários, mas, se ninguém fala deles, fica a sensação de que a população não pode fazer nada além de trabalhar e comprar.
  391. Não existe lei contra rebelião. Se os súditos quiserem, podem se rebelar a qualquer instante que desejarem, especialmente se o Estado for tão ruim que o benefício de uma rebelião bem-sucedida supere os riscos de tal decisão.
  392. Os princípios que fundamentam a lei devem ser seguros. Mesmo que se descubra que Hobbes não estava em posse da razão ao discutir os princípios que fundamentam as leis, ele pode ainda dizer que pelo menos tirou esses princípios da Bíblia.
  393. A dificuldade em entender esses princípios que fundamentam as leis não vem tanto dos princípios, mas da índole dos que tentam aprender, que procuram harmonizar os princípios com seus interesses.
  394. As pessoas simples entendem esses princípios mais facilmente, pois não tem os recursos abundantes que impedem o freio das paixões e nem o orgulho dos doutores.
  395. O que faz um governo prosperar não é o fato de ser monárquico, aristocrático ou democrático, mas o fato de que há concórdia entre os súditos.
  396. Dos dez mandamentos, os quatro primeiros se resumem em “ame o Senhor de todo coração, de toda alma e toda a mente”, ao passo que os seis seguintes se resumem em “ame o próximo como a ti mesmo.”
  397. Os maus costumes se instalam porque as pessoas não dispõem dos fundamentos das leis, que são obtidos pelo estudo e pela meditação. Como nem todos têm tempo ou disposição para esse tipo de reflexão, preferem acatar o que os outros dizem, sem refletir se estão dizendo a verdade.
  398. Ricos e pobres devem ser punidos igualmente.
  399. Qualquer quebra de lei é ofensiva ao Estado.
  400. Para evitar o desemprego, deve-se regular tantos trabalhos quanto for possível, tornar legítimos empregos uma quantidade cada vez maior de atividades.
  401. Boas leis são leis justas.
  402. Isto é, leis que tanto o governo como a população aceitam.
  403. Não se deve promulgar leis desnecessárias.
  404. Uma lei que beneficia o soberano não é uma boa lei, porque o bem do Estado é um só, o bem do soberano e o do povo. Ele é bem democrático pra um absolutista. Mas é interessante que um Estado absoluto como esse de Hobbes só se sustenta se o soberano, seja ele monarca, aristocrata ou assembleia, for sábio e justo.
  405. Em vez de leis extensas, leis curtas acompanhadas da razão de sua criação. Assim, o curto texto da lei, à luz da razão que a levou a ser, é mais adequadamente interpretado.
  406. Os crimes que devem ser mais severamente punidos são os que ameaçam as coisas públicas.
  407. Não vá acidentalmente recompensar um mau comportamento, para que outros não se comportem mal também.
  408. Política é mais difícil que geometria. Então, se a geometria requer método, quanto mais a política!
  409. Um bom conselho não é dado imediatamente, mas depois de algum tempo de reflexão. Em adição, o bom conselho vem acompanhado de suas razões. Pois não basta dizer o que fazer, é necessário também dizer por quê.
  410. Até o tempo da escrita do livro, diz Hobbes, a humanidade nunca esteve contente com o presente.
  411. São súditos de Deus todos aqueles que crêem nele, em sua providência e no fato de que ele pune ou recompensa quem merece ser punido ou recompensado. Quem não crê nessas coisas é inimigo de Deus.
  412. Deus se manifesta de três formas: pela razão, pela revelação interna (conosco, diretamente) e pela revelação externa (através dos profetas).
  413. Sendo onipotente e sumamente sábio, Deus quererá governar e irá governar.
  414. Às vezes, a má fortuna de um justo serve para que, mais tarde, Deus possa usá-lo para manifestar sua grandeza.
  415. Honrar a Deus é sempre supor dele o melhor.
  416. Culto é prestar honras a Deus a fim de obter dele benefício.
  417. É possível cultuar alguém por atos: se amamos a Deus, queremos fazer o que ele nos diz pra fazer.
  418. Alguns atos que servem de culto são as orações, as ações de graças e a obediência. Isso quer dizer que alguém só precisaria ir às reuniões para aprender, como se a igreja fosse uma escola, de forma que atender aos cultos formais ou às missas não é fundamental.
  419. Para um sinal ser chamado de sinal deve ser entendido. Se a pessoa não entendeu, o sinal falhou.
  420. Se Deus é a causa do mundo, então o panteísmo (que afirma que Deus é o mundo) não é possível.
  421. Deus, para ser Deus, é preciso ser eterno (isto é, sem começo e sem fim). Então, nada mais pode ser eterno, pela lógica, o que não anula a possibilidade de imortalidade.
  422. Se Deus não se importasse conosco, não teria nos dado ordens de culto.
  423. Deus não tem figura, diz Hobbes, porque ele é infinito. A figura só pode ser percebida em corpos, isto é, em quantidades limitadas de matéria.
  424. Deus, sendo Deus, é um só.
  425. Diz Hobbes que as emoções divinas só são nomeadas segundo efeitos e não segundo eventos reais. Por exemplo, se Deus “se arrepende”, isso não quer dizer, segundo Hobbes, que ele sentiu arrependimento, mas que, durante a execução de algo, ele abortou sua ação. Isso é um efeito comum do arrependimento, que pode se manifestar em Deus, mas por razões outras que o arrependimento. Eu tenho minhas dúvidas.
  426. Aquele que confecciona estátuas não está fazendo deuses. Os deuses são feitos por aqueles que oram pra essas estátuas. Isto é, a idolatria é pecado do fiel e não do artífice.
  427. A teologia é um vasto território do pecado: tentando estudar Deus segundo preceitos filosóficos ou científicos, que são imperfeitos por natureza, é aceitar a possibilidade de blasfemá-lo.
  428. Os teólogos, diz Hobbes, estão mais preocupados em exibir sua erudição metafísica do que honrar o Senhor.
  429. As orações devem ser pensadas. As palavras devem ser bem escolhidas.
  430. Os pagãos celebram seus deuses com muita submissão e ações de graças. Então, por que os cristãos deveriam prestar menos submissão e cultuar de qualquer jeito ao Deus que afirmam ser o verdadeiro? Portanto, nossas orações devem ser da melhor qualidade e feitas da melhor maneira possível.
  431. Diz Hobbes que o culto deve ser público, para converter as pessoas ao Deus adorado pelos adoradores. Observe que Jesus recomenda um culto formal privado na forma de oração, que deve ser feito no quarto, à portas fechadas. Mas Hobbes também diz que a obediência é uma forma de culto. Então, seguir os mandamentos na vida pública é também uma forma de culto público, contra a qual Jesus não falou.
  432. Obediência é melhor que o sacrifício.
  433. A religião oficial do Estado deve receber tratamento especial público. Se a maioria dos súditos é católica, então os cultos católicos devem ser públicos e encorajados. Já as minorias religiosas devem prestar culto particular apenas.
  434. Se não há maioria religiosa expressiva, o Estado não tem religião oficial.
  435. Todos os prazeres comportam determinado grau de dor. Hobbes chama essa dor de punição natural. Então, aproveitar um prazer que trará dor maior no futuro é punível pelo próprio futuro, que lhe dará as consequências do ato.
  436. Assim, a intemperança é punida com doenças, a covardia é punida com a opressão, a negligência com a rebelião, o orgulho com a ruína…
  437. Essas punições são ministradas pela lei da natureza.
  438. Quando você prevê o que o cara vai dizer, é porque você tá entendendo o texto. Eu sabia que ele ia se comparar a Platão.
  439. De fato, governar é difícil, requerendo um governante que é também filósofo. Mas o governo pode se basear em princípios fáceis.
  440. Os princípios cristãos, diz Hobbes, devem se estender para fora da religião e governar também a política e as relações entre pessoas.
  441. Ser religioso não necessariamente implica viver irreflectidamente. Se a pessoa escolheu uma religião, normalmente é porque ela reconhece que Deus, como criador de todas as coisas, merece nosso respeito e obediência.
  442. Se o soberano obriga os ateus a praticar determinado culto, isso não muda o fato de que ainda são ateus. Você não pode obrigar alguém a acreditar em algo.
  443. Se alguém diz que foi divinamente inspirado por Deus a fazer alguma coisa, que teve um sonho no qual Deus falou com ele, ou que Deus lhe apareceu, todas essas coisas são duvidosas…
  444. Para Hobbes, o único jeito de saber se alguém é profeta é através de dois sinais simultâneos: realização de milagres e ensinamento concorde. Se alguém realiza milagres, mas contradiz a palavra do Senhor ou as Escrituras anteriores, não é profeta (afinal, nem todos os que expulsam demônios em nome de Jesus serão aceitos por ele). Se alguém ensina algo que Jesus ensinou, mas não realiza milagres, também não é profeta, mas meramente pregador. Novamente, ele está nos munindo de armas contra o apóstolo Paulo.
  445. Só que depois ele diz que Paulo se harmoniza com Jesus, então talvez não tivesse sido a intenção dele contrapor Jesus e Paulo. Mas, cara, como ele fez isso bem.
  446. Me parece que Hobbes prioriza a igreja sobre o Estado. Porque ele tira os fundamentos das leis civis das Sagradas Escrituras, dando liberdade para os governantes de fazerem quaisquer leis que desejarem, classificando-as como boas ou más conforme sua aproximação com esses princípios eternos. Ele reconhece que a igreja deve ter prioridade porque as pessoas sempre preferirão obedecer a Deus e não ao governo e o fariam se fosse-lhes permitido, com o agravante de que os mais fieis fariam mesmo se fosse crime. Então, a única maneira efetiva de manter o Estado unido é juntando os dois, o que implica que a igreja teria prioridade.
  447. Mas existe uma ressalva: o Estado deve decidir quais livros e cartas entram e saem da Bíblia. Ele não pode decidir arbitrariamente, claro, tendo que escolher dentre os cânones disponíveis (protestante, católico e ortodoxo). Daí, pela razão natural, ele deve escolher quais livros desses cânones devem integrar a Bíblia utilizada naquele território. Interessante…
  448. Isso implica dizer que Hobbes não via toda a Bíblia como inspirada.
  449. Os livros do cânon secundário não são inspirados, diz Hobbes, e nem os apócrifos.
  450. O Deuteronômio não foi terminado por Moisés, óbvio, ele não podia ter escrito sobre sua própria morte e nem sobre o fato de seu sepulcro nunca ter sido encontrado. Ele provavelmente foi terminado por Josué.
  451. O nome do livro não é indicativo seguro de seu escritor. Por exemplo, o Segundo Livro de Samuel. O parecer histórico é que ele não foi escrito por Samuel.
  452. Hobbes aponta várias evidências de que os livros de Moisés foram escritos depois de Moisés ter morrido. Acho que não são o que Moisés realmente escreveu, com acréscimos biográficos sendo feitos por Josué ou por outros copistas.
  453. O livro denuncia quando foi escrito. Josué foi escrito, claro, depois dos eventos narrados no livro.
  454. Se o Livro dos Juízes, capítulo 18, verso 30, que diz que alguém foi sacerdote até o dia do cativeiro, referir-se ao cativeiro babilônico, então Juízes foi escrito quase concomitantemente com Jeremias. Isso não anula a possibilidade de acréscimo biográfico feito por um copista, de forma que cada cópia é “atualizada” pelo copista em voga, relacionando-a com o tempo presente.
  455. Também os livros de Samuel, embora falem de Samuel, não foram escritos por ele.
  456. Alguns livros da Bíblia fazem menção a livros que não existem mais.
  457. O fato registrado é mais velho que o registro. Óbvio, mas vale a pena notar.
  458. Os livros do Velho Testamento foram mesmo atualizados, pois há evidências de que a forma atual de alguns dos Salmos não é a forma original intencionada por Davi.
  459. Embora os Provérbios tenham sido proferidos por Salomão e outros dois autores, a escrita do livro dos Provérbios, como compilação dessas sentenças, é posterior.
  460. De acordo com os livros apócrifos, a Lei havia sido queimada. Desesperado, um escriba pediu a Deus o Espírito Santo para que ele pudesse redigir tudo de novo. Então, a forma atual dos livros do Velho Testamento foi dada por um escriba, segundo a tradição apócrifa.
  461. Com exceção das epístolas de Paulo, do Santo Evangelho Segundo São Lucas e dos Atos dos Santos Apóstolos, todos os livros e cartas do Novo Testamento foram escritos por discípulos de Jesus ou por testemunhas oculares, diz Hobbes. Com efeito, Paulo e Lucas não viram Jesus.
  462. O único objetivo das Escrituras Sagradas é reconverter o povo a Deus. Esse é o propósito de todos os seus autores.
  463. Deus é o escritor dos textos inspirados. Mas quais são inspirados? Ou melhor, que critério a igreja usa na formulação de seu cânon?
  464. Universo é coletivo de corpo.
  465. “Espírito” não necessariamente quer dizer fantasma. Esse termo é tomado em diferentes acepções nas Escrituras.
  466. Dizer que o “espírito de vida” estava nas rodas, quer dizer que as rodas estavam vivas. “Espírito” pode ser entendido como força vital.
  467. Se alguém tem uma alucinação, outros não a terão ou terão uma alucinação diferente. É muito difícil várias pessoas terem a mesma alucinação ao mesmo tempo. Se isso acontecer, parece seguro admitir que não foi uma alucinação.
  468. Hobbes, diferente dos teólogos, interpreta as Escrituras por via da exegese, isto é, mantendo suas dúvidas iniciais ao longo do texto até que o próprio texto, em outra passagem ou numa leitura posterior, esclareça essas dúvidas. Então, ao contrário dos teólogos de seu tempo, ele não interpreta as Escrituras utilizando elementos externos ao texto, como a Metafísica aristotélica.
  469. Para Hobbes, a Bíblia não explica a criação dos anjos. A menos que se entenda os anjos como parte do “exército celeste” descrito no Génesis.
  470. Anjos são mensageiros.
  471. Anjos não são putti. Interessante como Hobbes se refere a tais como crianças de “beleza inexcedível”. E de fato, esses anjinhos frequentemente são mais belos que qualquer criança real. Essa frase entra pro clube Marco Aurélio, ao lado daquela que diz “beleza sedutora nas crianças.”
  472. O anjo é determinado por seu uso (mensageiro) e não por sua forma. Assim, visões, como sonhos de premonição enviados por Deus para entregar uma mensagem ao sonhador, podem ser considerados anjos.
  473. Anjos são porta-vozes divinos e indicativos de presença divina simbólica.
  474. “Substância incorpórea” é uma expressão contraditória para Hobbes.
  475. O Reino de Deus tem uma faceta terrena, ministrada por Jesus, pois Jesus, afirmando-se rei, tornou-se inimigo de César. Os judeus tinham que eliminar Jesus, para que César não viesse e aniquilasse todos.
  476. O Reino de Deus não é metafórico.
  477. Quando uma pessoa é chamada “santa”, não quer dizer que ela não peca ou nunca pecou, mas que leva uma vida de dedicação a Deus.
  478. Existem graus de santidade.
  479. No Velho Testamento, só há dois sacramentos: a circuncisão e a páscoa. No Novo Testamento, só há dois sacramentos: o batismo e a ceia do Senhor.
  480. “O Verbo fez-se carne” pode significar cumprimento (fez-se) da promessa (Verbo, pois promessas são feitas de palavras) em sua forma física (carne). Ou seja, Deus prometeu enviar seu filho. A promessa fora cumprida.
  481. A razão também forma ilusões. Exemplo de ilusão são as caras do chat. Dois pontos e três parecem a cara de um gato sorridente, mas ainda são dois pontos e um três. Então, as palavras de um oráculo não têm sentido, mas alguém pode achá-las sábias sem se dar conta de que elas não fazem sentido algum e que o sentido que o ouvinte encontrou na verdade se origina do esforço de encontrar sentido onde ele está ausente. Ou seja, algumas vezes nós encontramos sentido em palavras que não fazem sentido, sem nos darmos conta de que somos nós que estamos atribuindo sentido a elas.
  482. Moisés era amigo de Deus.
  483. Hobbes, apesar de tudo, diz que a forma como Deus falava com os profetas era incompreensível. De fato, Deus é espírito. Mas como pode um espírito falar conosco? Ele conclui que Deus só se comunica conosco de maneira mediada, normalmente por um anjo.
  484. Se alguém diz “faça isto para ser feliz”, está querendo comandar todas as pessoas, porque todas querem ser felizes. Então, instituir um caminho para a felicidade, equivale a tentar instituir uma moral universal. Todos os “caminhos para a felicidade” implicam pretensões universais.
  485. Alerta de Hobbes: a maioria dos profetas é falsa.
  486. O próprio Deus nos dá critérios de julgamento para saber se um profeta é ou não falso.
  487. Os critérios: no Antigo Testamento, conformidade com o que Moisés ensinou, falar em nome de Deus, execução de milagres; no Novo Testamento, confissão de que Jesus é o Cristo, falar em nome dele, execução de milagres.
  488. Diz Hobbes: se alguém nega que Jesus já veio e prega que o messias ainda virá, é um anticristo. Muitos pensam que o anticristo é uma pessoa, mas é na verdade o movimento dos que não crêem em Cristo. O anticristo não é o “filho do Diabo” como alguns pensam, mas qualquer pessoa que negue que Jesus é veio em carne e osso.
  489. As pessoas se admiram de duas coisas: acontecimentos raros ou sem precedentes e acontecimentos de causa natural desconhecida.
  490. Se um evento é as duas coisas ao mesmo tempo, isto é, raro ou sem precedentes e de causa natural desconhecida, podemos chamar isso seguramente de milagre, diz Hobbes.
  491. O milagre normalmente é feito com uma razão, que é adquirir crédito ao profeta. Afinal, as pessoas só acreditarão que a pessoa fala em nome de Deus se ela operar algo sobrenatural.
  492. Hobbes não acredita em magia. Se um mago egípcio fez uma vara virar uma cobra, também isso foi enganação, ele diz.
  493. O Estado pode permitir alguém a vida ou ordenar a morte a alguém. Mas, enquanto a Bíblia prometer vida eterna após a morte e enquanto as pessoas tiverem a crença no Inferno como um lugar de tormento eterno, a autoridade do Estado não será totalmente sólida. Afinal, há outro Rei, capaz de dar uma recompensa como a ressurreição e a vida eterna. Então, se alguém é capaz de recompensar ou punir melhor do que o Estado, esse Estado não tem total controle sobre os civis. Talvez seja por isso que o cristianismo era tão odiado no primeiro século até o império de Nero, porque pregavam justamente uma autoridade maior que a dos reis da Terra. E talvez tenha sido justamente por isso que Constantino tornou o cristianismo a religião oficial de seu Estado e praticamente forçou um cânon bíblico às autoridades. Assim, não haveria risco dos cristãos locais tirarem a estabilidade do Estado, se o Estado fosse cristão. O problema é que Constantino conseguiu manipular alguns sacerdotes e intelectuais importantes, para harmonizar suas leis com a Bíblia dele (o cânon do Novo Testamento não estava ainda fechado), contendo os livros e cartas que ele achou interessante manter e publicar como “oficiais”.
  494. Para Hobbes, Adão comia da árvore da vida com certa frequência. Impedi-lo de continuar comendo foi o que produziu sua morte. Além disso, Hobbes entende “no dia em que comeres dela, certamente morrerás” de maneira diferente das testemunhas de Jeová, por exemplo. Para Hobbes, o que Deus estava dizendo era que Adão estaria sujeito à morte no dia em que comesse do fruto, não que ele morreria no mesmo dia em que comera.
  495. O paraíso será na Terra.
  496. Sendo nós imortais na vida eterna, não haverá necessidade de geração, nem de sexo, nem de casamento.
  497. As almas serão ressuscitadas.
  498. Reino dos Céus não é um lugar para onde as almas vão depois da morte, diz Hobbes. Para ele, as Escrituras, quando falam de Reino dos Céus, referem-se a um governante celeste que reinará sobre uma população terráquea. Nesse sentido, ele se aproxima das testemunhas de Jeová.
  499. Só o filho do homem pode ascender ao céu, porque veio de lá.
  500. Nesta vida, não somos imortais de forma alguma. Só podemos ser imortais depois da ressurreição. Tira a crença na Trindade e ele é uma testemunha de Jeová.
  501. O Inferno é a sepultura. Na interpretação de Hobbes, todos vão pro Inferno, isto é, a sepultura, onde dormem até o dia do juízo.
  502. Para Hobbes, o Inferno de fogo é metafórico e exprime, na verdade, a “segunda morte”, o sono eterno. Não é um lugar de tormento.
  503. A associação entre Inferno e fogo tem raiz etimológica.
  504. Tudo o que se diz sobre o Inferno não deve ser entendido literalmente. São metáforas para alguma outra coisa.
  505. Para Hobbes, demônios não existem. E mais: Hobbes diz que acreditar em demônios é contrário à doutrina mosaica e cristã. Isso é uma consequência normal de seus argumentos anteriores, que sustentam que os possuídos eram apenas doentes.
  506. Para Hobbes, Satanás é um termo coletivo, que designa qualquer inimigo da Igreja. Não seria, diz Hobbes, uma pessoa real, mas um conceito.
  507. Todos ressuscitarão, mas nem todos viverão para sempre. Os que forem reprovados no julgamento morrerão de novo, de uma vez por todas.
  508. “Mas livra-nos do mal” pode referir-se a males particulares ou o mal em geral.
  509. Ambas as coisas, diz Hobbes, coincidem. Pois quando Jesus perdoava os pecados dos outros, automaticamente os males corporais desses outros também desapareciam. Implicando que a prática do pecado é que causa a corrupção corpórea, ao passo que o perdão deles e o abandono do comportamento pecaminoso desfazem o dano.
  510. Se formos privados do pecado original, seremos imortais.
  511. Para evitar os enganos dos teólogos, Hobbes não faz afirmações religiosas sem apoio das Escrituras. Embora pareça lógico que a paz perpétua só possa ser conquistada pela vitória, a qual depende da guerra, a qual depende de terreno e, portanto, da Terra, o que significa que a guerra contra os inimigos de Deus ocorrerá na Terra, ele adverte que ele não tem argumentos bíblicos para apoiar essa lógica, assumindo-a como duvidosa.
  512. Diz Hobbes: a subida das almas dos santos ao Céu não tem base bíblica.
  513. “Igreja” não é o prédio, mas é o coletivo de “cristãos”. Se houver três cristãos num lugar, tem-se ali uma igreja, mesmo que sejam um católico, um ortodoxo e um protestante. Mas se essa é uma igreja unida, é outra história.
  514. Não existe uma igreja universal porque existem cristãos em todos os países, cada um sujeito à leis diferentes. Por isso Paulo, embora quisesse harmonizar as doutrinas das igrejas sob seu controle, teve que escrever cartas específicas para cada igreja (aos Romanos, aos Gálatas, aos de Colossos…), devido ao fato de que diferentes cristãos em diferentes países estão sujeitos à diferentes leis.
  515. O fato de um governo ser terreno não exclui a possibilidade de também ser espiritual, como é o caso das teocracias.
  516. Se duas doutrinas são ensinadas como absolutas, uma delas necessariamente está errada, o que não exclui a possibilidade de ambas estarem erradas.
  517. O governo não pode fiscalizar os pensamentos.
  518. Diz Hobbes: o testemunho de Moisés, tal como o de Jesus, dependia da aceitação dos fieis. Imagine se tivessem falado e ninguém tivesse acreditado.
  519. Só há um líder religioso na religião do livro. Depois de Moisés, Jesus o substituiu. Qualquer que pretenda ocupar o lugar de Jesus precisa do direito divino para isso.
  520. Devemos fazer o que Jesus disse, não refletir sobre as razões por trás do que ele disse, porque isso seria, diz Hobbes, tentar espiar os desígnios divinos.
  521. Somente o soberano (Moisés no Velho Testamento, Jesus no Novo Testamento) pode designar governantes que ministrem em sua ausência. Mas de novo, Hobbes? Paulo não foi ordenado apóstolo por Jesus! Nem mesmo os apóstolos chamaram Paulo de apóstolo. O que se vê no Novo Testamento é que Paulo se designa apóstolo, sem ter recebido esse título de nenhuma autoridade vigente na época (os apóstolos que ficaram depois que Jesus ascendeu ao Céu).
  522. Enquanto que na época dos juízes os sumo-sacerdotes eram também governantes, embora sob o mando de Deus, os reis que se seguiram eram puramente terrenos. Os sumo-sacerdotes ficavam, então, abaixo dos reis. Essa é a diferença. O rei em Israel não era sumo-sacerdote, como eram os juízes, e podia ignorar o conselho sacerdotal.
  523. Na verdade, o rei podia destituir um sacerdote de seu direito sacerdotal. Salomão fez isso.
  524. O rei, se lhe aprouvesse, poderia conduzir orações a Deus. Salomão também fez isso, por ocasião da construção do primeiro Templo.
  525. Acusações falsas levaram dez tribos para longe do filho de Salomão e todo o mundo sabe o que aconteceu. Acusações falsas levaram boa parte dos brasileiros para o lado da oposição e todo o mundo sabe o que aconteceu.
  526. Os reis de Israel e de Judá, na medida em que ouviam aos profetas, prosperavam.
  527. No final das contas, de um jeito ou de outro, os profetas acabavam governando Israel e Judá. Porque os reis que se arrependiam voltavam para ouvir o conselho divino. Os que se recusavam, pereciam em vergonha.
  528. Jesus tinha três papeis a desempenhar: redentor, pastor (ou mestre) e rei.
  529. Jesus se sacrificou para que nós pudéssemos ter expiação por nossos pecados. Isso só seria possível àqueles que cressem e fizessem o que Jesus disse pra fazer. Ou seja, o perdão ainda precisava ser acompanhado da obediência à instrução de Jesus.
  530. O último papel de Jesus, o de rei, só será concluído depois da ressurreição.
  531. Jesus diz: não vim para julgar. Mas também diz: todo o julgamento foi confiado ao filho. A primeira sentença refere-se a sua primeira estada na Terra e a segunda refere-se a quando ele estiver em posição de rei.
  532. Tudo o que Jesus fez foi ensinar e fazer milagres. Nem uma coisa e nem outra são contra a lei dos judeus, mesmo que a finalidade fosse se apresentar como o messias prometido.
  533. O ensinamento de Jesus não se opunha às leis da época, porque não existe governo que se oponha às leis de natureza (faça ao próximo o que você gostaria que fosse feito a você, por exemplo).
  534. Jesus reinará em forma humana, diz Hobbes.
  535. A Trindade funciona diferente em Hobbes. Para Hobbes, não é que Jesus seja Deus literalmente, mas que Jesus representou, na Terra, a vontade de Deus. Então, dizer que Jesus é Deus é expressar-se metaforicamente. Em termos claros, Jesus não é Deus, nem o Espírito Santo é Deus, diz Hobbes, mas foram embaixadores de Deus, como se fosse porta-vozes, em diferentes momentos. Ele negou a Trindade, mas continua usando o nome Trindade para não atrair a ira da Inquisição, como se estivesse dizendo “não a nego, mas é um conceito que precisa ser clarificado e atualizado”. Resumindo: Pai, Filho e Espírito Santo existem, mas, diz Hobbes, não são um e o mesmo literalmente falando. Eu sabia que ele ia fazer isso. Se ele pregasse de porta em porta por pelo menos oito horas mensais, seria uma testemunha de Jeová.
  536. O poder eclesiástico não recebe de Jesus o poder de comandar, mas somente de ensinar, diz Hobbes. Pronto, tirou a autoridade papal.
  537. A menos que um sacerdote seja também rei, ele não pode exigir observância da religião. Ele parece, com esse argumento, limitar o poder da Igreja e aumentar o poder estatal.
  538. Esta parte do livro é provavelmente a pregação de Hobbes.
  539. Hobbes, usando as cartas de Paulo, chega à conclusão de que o Estado tem prioridade sobre a Igreja.
  540. Se o governante e as leis de seu país ordenam que se quebre a ordem de Cristo, diz Hobbes, a culpa é do governo e não do fiel.
  541. “Mártir” é aquele que confessou ter visto Cristo ressuscitar. Então, os “mártires” que morreram pela fé depois que Jesus já tinha ido embora há muito tempo não eram mártires na plena acepção da palavra.
  542. Qualquer que viu Cristo aqui na Terra é automaticamente mártir, mesmo que não tenha morrido por isso.
  543. Não é possível ser testemunha para outra testemunha. Só é possível testemunhar para pessoas que negam o ocorrido, que duvidam do ocorrido ou que nunca ouviram falar do ocorrido. Isso me leva a me perguntar então de que exatamente as testemunhas de Jeová dão testemunho. Pois os mais receptivos à mensagem deles são pessoas que, embora de outras igrejas, já são cristãos e portanto também confessam que Jesus veio em carne e osso, morreu, ressuscitou e ascendeu aos céus. Sempre que um cristão prega a Cristo a outro cristão, a pregação é automaticamente inválida. Se minha mãe souber disso, ela pode querer repensar a quantidade de horas que ela faz por mês.
  544. O equivalente católico da dissociação é a excomunhão. Dá pra escrever um artigo sobre isso: Thomas Hobbes, uma testemunha de Jeová antes do século vinte.
  545. “Herege” é o que, estando na Igreja, professa uma opinião proibida pela Igreja.
  546. É interessante que a heresia não parece ser, nas Escrituras, razão de excomunhão. Concordando com Cristo, você não precisa concordar com os apóstolos. Prova disso é que Paulo tinha divergências doutrinárias com Tiago e Pedro, mas nem por isso um expulsou o outro da Igreja. Faça o que Cristo diz pra fazer da maneira que você pensa ser a melhor possível.
  547. Excomunhão implica igreja. O cristão que não faz parte de igreja alguma, isto é, de comunidade alguma, não pode ser excomungado.
  548. Também uma igreja não pode excomungar outra. Por isso os católicos não excomungaram os que aderiram à Reforma.
  549. Cada evangelista era intérprete de seu próprio evangelho (pregação). Esta afirmação é muito forte. Quer dizer que Paulo, ao pregar em suas epístolas, pregava sua interpretação do ensinamento de Cristo. O mesmo com João, Pedro, Tiago e Judas. Isso implica nos dar autoridade de julgamento sobre a doutrina deles, porque hoje nós temos os evangelhos (registros), que registram o ensinamento de Cristo. Então, enquanto que os evangelhos contém os ensinamentos de Cristo, as cartas contém as interpretações dos evangelistas sobre o ensino de Cristo, diz Hobbes. Então, lendo o evangelho, podemos dizer quais cartas melhor se harmonizam com a vida e os ensinamentos de Jesus, conforme o registro de dois seguidores (Mateus e Marcos), um pesquisador (Lucas) e um apóstolo (João). Ler os quatro é de suma importância para entender o Cristo quis dizer.
  550. Não há problema em cada um ter sua interpretação da Bíblia. O texto é o mesmo, mas os leitores são diferentes.
  551. O que não significa que não deve haver uma interpretação “oficial”, que deve ser tomada como referência.
  552. Só é possível forçar uma interpretação da Bíblia se o governante for ao mesmo tempo rei e sacerdote.
  553. Génesis quer dizer começo, êxodo quer dizer migração… mas o que significa “Deuteronômio”? Literalmente “segundas leis”. adições que seriam acatadas depois da entrada na Terra Prometida, demais das leis já admitidas no Êxodo.
  554. Interessante notar que a aceitação como canônico vem do ouvinte e não do mestre. Porque o ouvinte pode chegar à conclusão de que o mestre não está realmente falando por inspiração. Razão pela qual muitos livros que poderiam integrar o Novo Testamento, como os Atos de Pedro, os Atos de Paulo, evangelhos da infância de Jesus e outros apocalipses foram esquecidos, perdidos ou destruídos. Os que ficaram, de um ponto de vista histórico, foram os mais populares, não necessariamente os melhores. Claro que os melhores foram também populares, já que Deus tem cuidado de sua palavra. Isso, porém, não exclui a possibilidade de aceitação de livros que não deveriam ter sido aceitos na Bíblia. E por muito tempo e até hoje, Hebreus, Apocalipse, Tiago, Judas, as duas cartas de Pedro, as duas últimas de João, três das cartas de Paulo à igrejas e todas as cartas de Paulo à indivíduos, exceto a última antes dos Hebreus, foram e continuam sendo objeto de debate.
  555. Uma boa regra: desconsidere o que contradiz o que já está estabelecido como lei. Olha aí, de novo, outro argumento válido contra Paulo; o parecer dos estudiosos é que há pontos das cartas de Paulo que contradizem pontos dos evangelhos canônicos.
  556. Jesus não destruiu a Lei de Moisés, mas também não obrigou os gentios a ela. Os judeus, então, têm toda a razão de continuar praticando a Lei.
  557. Diz Hobbes: o Estado dá leis, o Novo Testamento dá conselhos. Tenho minhas dúvidas…
  558. Só pode ser apóstolo em plena acepção da palavra aquele que viu Jesus, conviveu com ele e testemunhou sua ressurreição. Paulo não se qualifica. Ele era apóstolo em sentido particular, não literalmente, razão pela qual os outros apóstolos, os legítimos, se referiam a ele como “irmão”. Só tem uma pessoa no Novo Testamento que chama Paulo de apóstolo: ele mesmo.
  559. Mas se pode argumentar que Paulo pode concorrer ao título de apóstolo porque Jesus falou com ele e que, segundo os Atos, o Espírito pediu que Paulo e Barnabé fossem separados para uma missão especial, que seria a de pregar entre os gentios.
  560. Paulo e Barnabé foram apóstolos na Igreja de Antioquia. Os doze legítimos integravam a Igreja de Jerusalém.
  561. Ancião de congregação é o mesmo que bispo.
  562. Servo ministerial é o mesmo que diácono.
  563. Uma pessoa pode desempenhar múltiplas funções na Igreja.
  564. O dízimo deve ser dado de boa vontade, na quantidade que aprouver ao que dá o dízimo. Diferente da Igreja Universal do Reino de Deus, que registra no Sistema de Proteção ao Crédito os fieis que não pagam o dízimo.
  565. No primeiro século, exigir o dízimo era impraticável, porque a organização da Igreja era principalmente didática. Não havia um sistema jurídico nem tribunais aos quais recorrer. Então, todos os dízimos eram feitos de bom grado pelos fieis.
  566. Argumentar que Pedro recebeu as “chaves do Céu” não prova que ele foi o primeiro papa.
  567. Anticristo é qualquer um que nega que Cristo veio em carne e osso, isto é, que nega o evangelho. Nesse sentido, é bobo chamar o Papa de anticristo.
  568. Para Hobbes, qualquer que venha dizendo ser o Cristo é um anticristo.
  569. A Bíblia, na verdade, atesta contra a autoridade do Papa.
  570. O Papa não ter poder de mando, só de instrução.
  571. A autoridade do Papa não é válida para todos os cristãos do mundo.
  572. Para Hobbes, o Decreto Apostólico (abstenção da fornicação, do sangue, de animais não tiveram o sangue drenado e da idolatria) é conselho.
  573. Para Hobbes, obedecer a Deus e ao Estado é obedecer a dois senhores, algo proibido por Jesus. Então, o Estado e a Igreja não deveriam se contradizer, se quisermos evitar dissenções.
  574. Se alguém erra por causa do sacerdote, o sacerdote prestará contas e não o fiel.
  575. João diz em sua carta que devemos experimentar os espíritos, testá-los, para saber se falam a verdade, porque muitos falsos profetas estão à solta. Isso quer dizer que não há nada de errado num fiel que contesta a doutrina do sacerdote, se perceber, muitas vezes piamente, que ele está ensinando coisas erradas. Assim nasceu a Reforma.
  576. Se o bispo recebe sua autoridade a partir de Deus, como pode o Papa tirá-la depois?
  577. Onde diz na Bíblia que um bispo recebe seu direito diretamente de Deus? Podem-se apresentar versos, mas nenhum é incontestável se usado dessa forma.
  578. Audácia papal: se o rei for excomungado e ainda assim não mandar os hereges embora de seu território, os cristãos locais não pecam se fizerem rebelião.
  579. Não me admira que alguns reis tenham tornado o protestantismo oficial: é mais difícil um líder religioso reunir soldados para uma guerra contra o Estado se cada um tem sua interpretação das Escrituras. As diferenças doutrinárias e a possibilidade de justificação pela fé tornam a rebelião cristã uma possibilidade remota.
  580. Existem vários países oficialmente católicos. Quantos deles se obrigam ao Papa?
  581. Jesus nunca deu aos seus seguidores o poder de mandar, de julgar ou de castigar. Esses poderes não cabem à instituição religiosa cristã.
  582. Se obedecer a leis injustas fosse pecado, Jesus teria mandado doze legiões de anjos encima de César e Pilatos.
  583. Ama a Deus acima de todas as coisas (cumpre os mandamentos para dar testemunho disso) e ao próximo como a si mesmo (faça aos outros o que você gostaria que fosse feito a você). De acordo com Hobbes, isso te torna elegível à salvação.
  584. Não há evidência bíblica da infalibilidade da Igreja.
  585. A fé é dom divino. Segundo Hobbes, Deus dá a fé a quem ele quiser. Razão pela qual nem todos crêem na Bíblia, ele diz.
  586. Basta crer que Jesus é o Cristo para se obter vida eterna. Porém, a fé se manifesta nas obras. Então, crer em Cristo implica fazer o que ele diz. Quer saber o que fazer pra ser salvo? Leia os Evangelhos.
  587. Crer em Jesus é a única crença necessariamente. Acreditar na mudança de substância ou no purgatório são coisas desnecessárias.
  588. Para Hobbes, o evangelho que todos os seguidores de Cristo pregavam se resume a “Jesus é o Cristo”. Então, o evangelho secreto de Paulo provavelmente foi recebido na visão que o cegou e não deve ser fundamentalmente diferente dos quatro Evangelhos canônicos. Afinal, por que Deus revelaria para os gentios, através de Paulo, algo que ele não revelou aos judeus por meio de Jesus? Então as doutrinas estranhas que Paulo ensina não vêm de Jesus e mais de uma vez Paulo admite que tem coisas que ele fala de sua própria parte.
  589. Se você acredita que Jesus é o Cristo, diz Hobbes, você é elegível à salvação. Essa é a crença de base. O que você constrói sobre essa base é de sua própria parte, isto é, doutrinas. Para Hobbes, mesmo que você tire conclusões erradas a partir de sua fé, você será salvo por se agarrar à base sólida da fé. Observe que esse argumento tem raízes em Paulo e, como a maioria das coisas enraizadas em Paulo, pode ser usada como argumento a favor da justificação pela fé. Para evitar isso, Hobbes já disse antes que a fé se manifesta em obras de devoção e de amor. Então, crer em Cristo implica obras.
  590. Purgatório não é bíblico.
  591. Acreditar que Jesus é o Cristo implica uma cadeia de crenças afluentes. Então, o crente deve procurar conhecer esse Jesus em quem ele acredita. Novamente, os Evangelhos.
  592. A prova de que a crença em Jesus implica obras está no capítulo dezoito do Evangelho segundo Lucas. Se quiseres ser salvo, deves obediência àqueles mandamentos do Decálogo (os Dez Mandamentos, se preferir termos simples).
  593. A Bíblia foi escrita e compilada para o estabelecimento do Reino de Deus. De posse desse princípio, podemos interpretá-la como devemos, diz Hobbes. Isso implica dizer que você não pode fingir que está entendendo tudo quando lê apenas um verso e o sustenta como ponto final de uma discussão, como fez o Madeira com Gálatas 5:19 e eu tive que mostrar pra ele que tomar um verso daquela forma contradiz a doutrina de Jesus. Depois daquilo, ele não quis mais continuar a discussão. E, cá entre nós, na minha opinião, a pior coisa que já aconteceu aos livros da Bíblia foi sua divisão em capítulos e versos, porque isso facilita o abuso de textos isolados. E de fato, usar textos dessa forma revela muito mais o desejo de levar adiante interesses próprios do que o desejo de conhecer a verdade.
  594. A Bíblia, se mal-interpretada, pode servir como meio de afastar as pessoas de Deus.
  595. Satanás habitas nas trevas e tem grande poder. Razão pela qual é por vezes referido como “príncipe deste mundo”.
  596. Fazem parte desse reino aqueles que ensinam aos fiéis uma interpretação errada das Escrituras. Acabam levando seu rebanho para as trevas. Por isso que eu digo que o cristão tem sempre que ter sua interpretação das Escrituras, porque, mesmo que você não saiba qual é a intenção do pastor ou do padre, você sempre sabe por quais razões você está lendo.
  597. O Evangelho é a suma verdade divina entregue por Cristo e a razão é a mais poderosa ferramenta de interpretação que temos. De que mais precisamos?
  598. Se a fé que se tem em um pastor não está te guiando para um aperfeiçoamento espiritual, ele tá fazendo errado.
  599. A história da cristandade é marcada pelo desentendimento e pela guerra. Se cada um tivesse sua interpretação, ou acatasse a interpretação dos apóstolos legítimos, e tolerasse a do outro, haveria paz. Mas as pessoas que tomam partido e se juntam a grandes grupos se sentem mais seguras para fazer ataques a grupos opostos.
  600. Erros de interpretação bíblica frequentemente ocorrem entre os que não conhecem a Bíblia. Será que seu pastor já leu a Bíblia inteira?
  601. Erros de interpretação bíblica frequentemente ocorrem entre os que misturam diferentes religiões. Será que seu pastor não mistura cristianismo e outras coisas?
  602. Erros de interpretação bíblica frequentemente ocorrem entre os que usam meios além da exegese. Será que seu padre não utiliza a lógica de Aristóteles para interpretar tudo?
  603. Erros de interpretação bíblica frequentemente ocorrem entre os que tentam harmonizar a Bíblia com suas tradições. Será que seu padre não está interpretando à luz da sua história?
  604. Esses erros levam os fieis à crenças falsas.
  605. O Reino de Deus não é a cristandade atual. Pertencer a uma igreja não te torna parte do reino vindouro.
  606. O cristão promete obediência a Cristo e não ao líder religioso local.
  607. A devoção ao padre ou pastor, de maneira fanática, leva o fiel a agir como se o líder religioso fosse Deus, acatando sua palavra mesmo quando vai contra o que Jesus ensinou.
  608. A crença de que o dízimo é dez por cento da sua renda tem origem católica, instaurada na Idade Média, e já naquele tempo era considerada abusiva. Porque isso significava que o cristão tinha que pagar tributo ao clero, além do tributo pago ao Estado. De acordo com a Bíblia, o dízimo não precisava ser dinheiro e a quantidade dada ficava a cargo do fiel, na medida em que ele desse aquilo que ele pudesse, sem por isso se sacrificar. Com o tanto que o dízimo fosse dado alegremente e de boa vontade, não importava a quantidade e nem se era ou não dinheiro. Hoje em dia, a Igreja Católica não mais determina um valor mínimo. Na verdade, eu já vi pessoas que colocam na sacola uma nota de cinco e caçam de dentro da sacola o troco, porque não querem dar os cinco reais, só dois, mas não têm dinheiro trocado.
  609. O poder papal era tanto na Idade Média que ele podia até isentar os cristãos de pagarem imposto ao Estado. Sendo assim, a manutenção do exército do Estado ficava prejudicada ao passo que cada cristão sob domínio do Papa era um soldado em potência, se o Papa resolvesse empreender guerra santa contra quem quer que fosse.
  610. A consagração do pão e do vinho não é uma mudança de substância, diz Hobbes.
  611. Dizer que o pão se torna, na consagração, o corpo de Jesus e que o vinho se torna o sangue de Jesus pode levar o fiel à idolatria.
  612. Jesus diz “isto é meu corpo, isto é meu sangue”, mas isso não quer dizer que todas as refeições noturnas do Senhor depois daquela seriam marcadas por uma mudança literal de substância. Ele pode também ter dito “é” como quem diz “representa”.
  613. Inferno não existe, diz Hobbes.
  614. Nas Escrituras, alma significa vida (princípio de movimento).
  615. A alma é a vida que anima o corpo. Ela não é uma substância que se vai quando a pessoa morre. Ela não resiste à morte e restaurada na ressurreição.
  616. Se a alma não é imortal, então não existem fantasmas, não existe psicografia, espiritismo é lorota, tormento eterno no Inferno não existe, purgatório não existe…
  617. Frente à morte, pessoa e animal têm o mesmo valor.
  618. Acho que ele é protestante.
  619. Antigamente se batizavam mortos. Por que não crianças?
  620. O purgatório foi uma mentira de grande sucesso.
  621. Cristo pode até ter descido ao Inferno (sepultura), mas nunca ao purgatório.
  622. As crenças pagãs eram facilmente manipuladas em nome da paz pública.
  623. Para Hobbes, o judaísmo se corrompeu com as doutrinas demoníacas dos gentios, os quais denominavam fenômenos inexplicáveis como obra de espíritos (demônios).
  624. Se os espíritos malignos existissem, diz Hobbes, por que sua criação não é narrada no Génesis?
  625. Não se deve cultuar imagens, nem pelas imagens e nem pelos santos que representam.
  626. Não é possível fazer imagens de coisas invisíveis. Então, não é possível pintar Deus, ou esculpir uma imagem dele.
  627. Não é possível pintar ou esculpir o infinito.
  628. Muitas vezes, há pouco compromisso do artífice com a fidelidade da imagem que está a fazer. Por exemplo: as imagens de Maria não são todas iguais. Uma é um pouco diferente da outra. Então, como saber se alguma delas representa Maria fielmente? Até porque, sendo que ela viveu onde viveu, provavelmente não era branca.
  629. O ídolo não precisa ser uma escultura. Ele pode ser o Sol, a Lua, as estrelas, os animais e qualquer coisa tomada como um deus e que recebe culto de alguém.
  630. Idolatria é prestar culto a qualquer deus que não seja Deus.
  631. Diz Hobbes que se prostrar diante de alguém como ato de reconhecimento de sua autoridade humana não é idolatria. Se prostrar diante de alguém para cultuá-lo é que é idolatria.
  632. Reconhecer algo como sagrado e parte do culto não é idolatria. Reconhecer algo como um deus, sem ser Deus, e lhe prestar culto é idolatria.
  633. Os gregos também atribuíam onipotência a seus deuses. Esse é o problema das provas de Tomás. Deus é motor imóvel, primeira causa eficiente, sumamente necessário, perfeito em último grau, ordenador da natureza. Mas outros deuses pagãos preenchem esses requisitos. Então as provas de Tomás podem ser usadas para provar a existência de outros deuses.
  634. A inspiração divina é a entrada do Espírito Santo num corpo humano? Se é assim, porque não cultuamos essas pessoas que receberam esse Espírito? Porque elas não se permitiriam ser adoradas. E por que não? Porque não estão na posse de Deus de forma alguma. Então, mesmo que alguém fosse inspirado dessa forma, não deve ser cultuado. Não se deve dispensar culto a São Tiago, São Paulo, Santa Maria… ou São Tomás, o qual condenou abertamente a prática e foi feito santo depois da morte, recebendo culto de alguns fieis e o título de patrono da educação. Irônico. Se ele estivesse vivo, talvez recusasse as honras.
  635. “Escândalo” é o ato de fazer alguém assumir um comportamento errado.
  636. Se ninguém hoje vivo viu Deus, qualquer pintura dele é uma pintura de como o imaginamos ser, portanto, um ídolo.
  637. Os santos estão mortos. Mortos não ouvem orações.
  638. A canonização dos santos tem origem na apoteose romana.
  639. A procissão também tem origem pagã.
  640. Muitas festas católicas têm origem pagã.
  641. Para Hobbes, filosofia é conhecimento de causa e efeito, tal como a manipulação de causa para produzir efeito desejado e o conhecimento de efeito a fim de determinar a causa.
  642. Para Hobbes, filosofia e ciência são a mesma coisa. Elas operam seu fim através das enumerações de propriedades de determinados fenômenos. Isso não é equivalente à criação de conceito, mas é quase isso.
  643. A experiência e a prudência, aliadas à memória, não fazem parte da filosofia e são comuns a homens e animais.
  644. Estudar filosofia não equivale a praticá-la.
  645. Quando ninguém tem o que fazer, faz filosofia. Mas só é possível não ter o que fazer se o Estado nos garante meios de subsistência. Hobbes parece concluir que a filosofia só pode surgir onde há governo.
  646. Para Hobbes, a filosofia não começou com os gregos. Todas as sociedades que tinham algum tipo de Estado tiveram sua filosofia.
  647. A raiz etimológica de “escola” é a mesma de “ócio”.
  648. Os sentimentos anti-aristotélicos da época de Hobbes encontram nele seu ápice. Ele chama a Metafísica de “absurda”, a Política de “repugnante” e a Ética de “ignorante”.
  649. Também o modo judaico de pensar, diz Hobbes, foi tocado pela filosofia grega.
  650. A geometria, quando bem executada, nunca erra. Por isso ela nunca se subjugou a Estado algum. É anárquica.
  651. O fato de quase não errar levava as pessoas a duvidar das certezas geométricas, pois a mente humana parece medir o grau de crédito de algo pela sua possibilidade de ser falsa. Isso é apontado por Popper.
  652. Toda a filosofia deveria depender de um tipo de “filosofia primeira”, responsável por definir os termos importantes, de forma a ditar uma linguagem a qual todos os filósofos deveriam falar. Se cada filósofo entender “essência” de um modo particular, não se chegará a consenso sobre a essência. A razão da filosofia não concordar consigo mesma é devida em grande parte à discórdia de vocabulário.
  653. A reflexão sobre isso recebe o nome de “metafísica”, é a parte da filosofia que se propõe a ser a mais elevada, a que diz o que as coisas são. Mas nem esse termo é fechado, pois metafísica também é tomado no sentido de estudo das coisas que excedem os sentidos, sobre as quais só se pode especular. Ela também é chamada “ciência das causas primeiras” e ainda de “teologia”. Então não há consenso nem mesmo sobre o que a metafísica deveria fazer e nem sobre o que essa palavra significa (apesar de que, historicamente, a metafísica recebeu esse nome por ser o assunto dos livros de Aristóteles que não tinham nome, mas que foram colocados do lado dos livros de Física, na Biblioteca de Alexandria, escritos pelo mesmo homem, então o assunto passou a se chamar “Metafísica”, que quer dizer somente “ao lado da Física”).
  654. O que dá força às palavras é o costume.
  655. Talvez Aristóteles tenha escrito a Metafísica de má-fé, para não ser condenado pela verdade como Sócrates foi. Em adição, Aristóteles está, muito indiretamente, com sua doutrina das essências e entidades, na raiz da crença em fantasmas (almas imortais), o que, por sua vez, fomenta as práticas de exorcismo e venda de fetiches (como água benta).
  656. Como o fogo do Inferno queima as almas, se elas são incorpóreas? Essa é a pergunta que faz qualquer padre descender ao “eu acho”. Não há resposta certa.
  657. Não se deveria fazer teologia, diz Hobbes, porque Deus é demais pra caber na razão humana. Só podemos conhecer dele o que as Escrituras revelam e não podemos ir além delas a fim de determinar a natureza de Deus. Se tentarmos, corremos o risco de impiedade.
  658. A teologia corre atrás de sua cauda.
  659. Oh, sim, ele é protestante. Justificação pela fé, interpretação exegética da Bíblia e agora críticas ao livre-arbítrio. Sim, sim, Hobbes é protestante.
  660. Casamento não impede castidade e nem continência. Não há razão para os membros do clero não constituírem família.
  661. A ideia é que o homem, na administração do altar, deve estar tão puro quanto possível. Mas será que se casar torna alguém impuro?
  662. Se o casamento é sujo, quanto mais urinar ou defecar. O padre teria que ministrar o altar estando apertado.
  663. O fato de Paulo ter dado uma recomendação contra o casamento tem origem política: os cristãos estavam sendo perseguidos e o cuidado com a família poderia dificultar as fugas dos pregadores do Evangelho. Essa recomendação não tem mais tanto peso hoje, a menos que se considere o contexto, isto é, de que o homem pode dedicar mais tempo a Deus estando solteiro. Se considerarmos o contexto deste verso, o celibato clerical parece justificado, mas Hobbes não toca neste assunto além daqui.
  664. O poder das leis vem das pessoas e das armas que empunham, não das palavras e das promessas.
  665. Se Aristóteles diz que as leis podem governar autonomamente, isso é metafórico e, mesmo assim, impreciso. Tolhido por alguém mais forte, é mais fácil obedecer a um criminoso. Além do mais, quem mantém as leis são os humanos e as leis não se fazem sozinhas.
  666. Existem leis inspiradas na Bíblia. Nada impede um governante de importar leis de outros povos ou de textos sagrados. A lei brasileira é cheia dessas.
  667. Se não é crime, ninguém sob autoridade do Estado pode proibir. Se o que eu estou fazendo não é crime, que me importa que você pense que é errado?
  668. Vejamos o teste de Hobbes para saber se um texto de metafísica escolástica faz sentido: traduza o texto do latim para o português. Se isso for possível sem que o texto perca seu sentido, então o texto também faz sentido no original. A ideia é que Hobbes afirma que o texto em latim que não faz sentido em idiomas modernos também não faz sentido em latim. A motivação é que os teólogos usam termos latinos para mascarar a falta de sentido do texto.
  669. Mesmo que um texto em um idioma esteja dizendo a verdade, ela é vetada aos que não conhecem o idioma. Daí o papel das traduções.
  670. Quando alguém diz que determinado santo viu um fantasma ou aparição, talvez o próprio santo o negasse. Isto é, não há garantia de que o que ouvimos sobre outra pessoa seja verdade. Temos que falar com essa pessoa pra saber. Por isso é mais fácil elaborar mitos sobre pessoas que morreram; elas não estão mais lá pra desmentir os mitos sobre elas.
  671. Algumas pessoas tentam desencorajar a busca pela verdade utilizando o medo. Por exemplo: em vez de provar que o Sol gira em torno da Terra, o defensor do geocentrismo tentará desencorajar o defensor do heliocentrismo dizendo que os defensores dessa ideia foram perseguidos e queimados. Ele não tenta provar que estar certo, preferindo fazer o oponente desistir de sua opinião por meios violentos.
  672. Um bom jeito de descobrir quem é o culpado de determinado crime é descobrindo quem lucraria mais com o delito.
  673. O poder papal se justifica pela afirmação de que o Reino de Deus já existe e é a Igreja. Porque, pensando dessa forma, Jesus não está conosco. Então, se ele governa, mas sem estar conosco, ele governa por meio de um representante. O Papa se impõe como tal, logo a Igreja se afigura como o Reino de Deus.
  674. Sacerdote é quem oferece o sacrifício.
  675. O casamento não é, segundo a Bíblia, um sacramento, mas a Igreja Católica o toma como tal. Isso significa que o matrimônio só pode ser conduzido por sacerdotes (padres). Na configuração moderna do tempo de Hobbes, isso significava controle sobre a legitimidade das famílias, consequentemente dos filhos e, portanto, dos sucessores hereditários. Se não convinha que determinado rei e determinada rainha se casassem e tivessem um filho que poderia prejudicar a Igreja, os padres poderiam se recusar a validar o matrimônio. Se ele insistisse, se configurava pecado de fornicação, razão para excomunhão. E se um rei é excomungado, a obediência dos súditos cristãos é posta em risco.
  676. As confissões podem servir a propósitos políticos. Imagine a alegria do sacerdote quando quem vai se confessar com ele é o presidente. Ele saberá o que se passa na cabeça dele, permitindo especulação sobre seus desígnios políticos.
  677. A canonização dos santos e o título de mártir servem como encorajamento à desobediência civil. Porque, se for para acatar a ordem do Papa, a qual o fiel pensa ser a ordem de Cristo, o fiel aceitará a morte de bom grado, recebendo o título de mártir, o que encoraja outros fiéis a seguir o exemplo.
  678. Ainda se fazia venda de indulgências na época de Hobbes. A Igreja Católica não faz mais isso, mas a Universal faz e sabemos como ela enriquece rápido.
  679. No primeiro século, cada cristão seguia a doutrina apostólica que lhe aprouvesse. Paulo, inclusive, diz que isso acontecia, com alguns seguindo ele, outros seguindo Pedro, outros seguindo as testemunhas oculares de Jesus. Essa confusão gerou uma demanda por Evangelhos, isto é, memórias das testemunhas oculares, pesquisas biográficas e testemunho apostólico sobre a vida de Cristo aqui na Terra, para que tais servissem como norma de julgamento entre cristãos individuais. Ou tal eu penso.
  680. Não se deve avaliar a doutrina de Cristo segundo a afeição que se tem a quem pregou.
  681. Basta que tenhamos Cristo como pastor e a Bíblia para lermos. Não precisamos de padres, pastores humanos ou qualquer autoridade humana que nos imponha uma interpretação particular da Bíblia. Se a salvação é responsabilidade de cada um, acreditar em um líder religioso humano de maneira cega é como fazer uma aposta de cara ou coroa com a vida eterna.
  682. Se isso fosse feito, os sacerdotes talvez até pudessem ser mais facilmente perdoados, uma vez que impor suas doutrinas para o povo pode ser causa de escândalo, na medida em que não se percebe que há doutrinas erradas.
  683. Para Hobbes, o papado é a nova incarnação do Império Romano.
  684. Hobbes faz uma série de comparações entre o poder eclesiástico e os contos de fada.
  685. Você agradece à Igreja com dinheiro, mas ela não te agradece com dinheiro.
  686. Hobbes parece profetizar quando ele diz que a diminuição do poder da Igreja pode dar lugar à doutrinas ainda piores. E muitas doutrinas piores saíram, vejam só, do seio protestante. Por isso que não vou pra igreja nenhuma: não há igreja totalmente correta, na medida em que são feitas e administradas por seres humanos.
  687. Um contrato feito legitimamente não pode ser legitimamente desfeito.
  688. Conquistar é obter o direito de governar a partir de uma vitória contra o Estado conquistado.
  689. Várias nações que hoje são prósperas têm passado rejeitável. Poucas pessoas, embora satisfeitas com o presente, aprovam a forma como sua nação foi fundada. O próprio Brasil é fruto de uma feliz invasão e usurpação de terras e recursos.
  690. Fazer justiça com as próprias mãos é ruim porque são atos frequentemente feitos na emoção, isto é, contrários à razão. Não queremos mortes desnecessárias.
  691. Quem lê a Bíblia de forma casual entende melhor do que aquele que a lê para determinado fim.
  692. Hobbes entende que o livro não seria bem recebido porque seu contém ideias desagradáveis às agendas políticas em voga.
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14 Comentários »

  1. […] não deveriam rir e deuses não deveriam ser retratados rindo nos poemas. Isso é retomado por Hobbes. Mas me parece que aqui se fala do riso pela desgraça […]

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    Pingback por Anotações sobre a república. | Analecto — 7 de outubro de 2017 @ 13:52

  2. […] é reconhecer alguém como superior a você, diz Kant, ao menos em integridade. Hobbes dirá algo parecido no seu comentário ao Quinto Mandamento, pois ele diz que eu estou desonrando […]

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    Pingback por Anotações sobre a crítica da razão prática. | Pedra, Papel e Tesoura. — 22 de janeiro de 2017 @ 20:35

  3. […] Para Rousseau, no estado de natureza, todos são iguais. A desigualdade só existe na sociedade. […]

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    Pingback por Anotações sobre os fundamentos da desigualdade entre os homens. | Pedra, Papel e Tesoura. — 5 de janeiro de 2017 @ 21:51

  4. […] contrato social é a renúncia à liberdade natural em prol de uma liberdade convencional estabelecida de mútuo acordo visando a obtenção dos […]

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    Pingback por Anotações sobre o contrato social. | Pedra, Papel e Tesoura. — 26 de dezembro de 2016 @ 15:50

  5. […] Para Rousseau, honrar pai e mãe não é o mesmo que obedecer pai e mãe, como quer Hobbes. […]

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    Pingback por Anotações sobre o Emílio. | Pedra, Papel e Tesoura. — 12 de dezembro de 2016 @ 21:07

  6. […] crença na imortalidade da alma nos compele à justiça. Se a alma é imortal e seu destino após a morte depende dos atos cometidos em vida, […]

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    Pingback por Anotações sobre o dicionário filosófico. | Pedra, Papel e Tesoura. — 27 de setembro de 2016 @ 14:20

  7. […] entendem o discurso mútuo… O cartesiano pode ter dificuldade entendendo o aristotélico. Hobbes também vê esse […]

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    Pingback por Anotações sobre o novo sistema da natureza. | Pedra, Papel e Tesoura. — 21 de setembro de 2016 @ 07:50

  8. […] para não usar termos filosóficos por hábito, sem saber realmente o que querem dizer. Especialmente se estamos falando […]

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    Pingback por Anotações sobre os diálogos entre Hylas e Philonous. | Pedra, Papel e Tesoura. — 23 de agosto de 2016 @ 14:59

  9. […] isso até os afastasse da fé verdadeira, que é interior. O filósofo, aqui, em polêmica com Hobbes. Surpreso? Não deveria […]

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    Pingback por Anotações sobre a carta sobre a tolerância. | Pedra, Papel e Tesoura. — 17 de agosto de 2016 @ 15:23

  10. […] e mãe são os que criam, não necessariamente os que […]

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    Pingback por Anotações sobre os dois tratados sobre o governo. | Pedra, Papel e Tesoura. — 12 de agosto de 2016 @ 21:19

  11. […] Estupidez é só ser lento pra lembrar o que aprendeu. O contrário é a vivacidade. […]

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    Pingback por Anotações sobre o ensaio sobre o entendimento humano. | Pedra, Papel e Tesoura. — 17 de julho de 2016 @ 11:29

  12. […] prudência é a mais alta das virtudes, segundo Epicuro, e ela tem, por si, mais valor que a própria […]

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    Pingback por Anotações sobre a carta a Meneceu. | Pedra, Papel e Tesoura. — 6 de julho de 2016 @ 10:53

  13. […] Também para Leibniz, a prudência não é razão nem parte dela. A diferença é que Leibniz chama de consecução aquilo que Hobbes chama de prudência. […]

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    Pingback por Anotações sobre a monadologia. | Pedra, Papel e Tesoura. — 26 de junho de 2016 @ 09:17

  14. […] A Lei dos judeus é tão perfeita que outros Estados a usaram como inspiração na confecção de suas próprias. […]

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    Pingback por Anotações sobre os pensamentos. | Pedra, Papel e Tesoura. — 21 de junho de 2016 @ 08:52


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