Analecto

21 de junho de 2016

Anotações sobre os pensamentos.

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  1. Advertência de Pascal aos ateus: vocês realmente conhecem a religião de que discordam?
  2. Sempre que o ateu diz que não existe Deus sem ter experimentado a religião ainda, ele está apoiando uma doutrina cristã que diz que Deus só se revela para aqueles que o buscam. Então, se ele discorda sem ter tentado, está apenas afirmando o fato de que Deus não se revela a qualquer um, ao passo que há pessoas que “encontraram Deus” na igreja. Sempre que ele procura derrubar a existência do divino, acaba tornando essa cisão mais evidente, consequentemente aumentando a fé de quem ouve.
  3. Os ateus que dizem ter buscado a divindade muitas vezes fizeram menos esforço em encontrá-la do que os cristãos sinceros, que passam horas lendo os livros sagrados e procurando orientações com seus teólogos locais, muitas vezes mais de um ou mais de uma dezena deles. Também passam muito tempo em oração e praticam os votos. Então, o ateu que não tentou chegar aos limites da devoção do crente, para o que é necessário fé, não tem propriedade para falar contra a religião. Isso implica dizer que os únicos ateus que merecem algum respaldo argumentativo são os apóstatas e os que se torturam com essa dúvida cruel, ou seja, os que não têm fé e detestam não tê-la (uma vez que isso os impulsiona à pesquisa), diz Pascal.
  4. Não sentir nada frente à possibilidade de vida eterna requer incapacidade de qualquer emoção, diz Pascal.
  5. A morte é real. A morte é terrível.
  6. O medo da morte nos impede de viver plenamente a vida. Essa é a condição humana. Todos os nossos esforços se orientam para afastar de nós esse medo, que só pode ser completamente expurgado pela busca da vida eterna.
  7. Achar que morrer e deixar de existir é algo digno de orgulho é anormal.
  8. É loucura não temer a morte.
  9. O ateu verdadeiro é, para Pascal, um péssimo amigo e um inútil completo. Veja o resumo que ele faz da mente ateia, logo na primeira parte dos Pensamentos.
  10. A oposição do ateísmo fortalece o cristianismo. Ou é o que Pascal diz, pois o que se observa é que a oposição ateia leva muitos a abandonar a fé.
  11. Não temer a miséria humana é algo que não ocorre na natureza. É natural que o ser humano tema sua miséria.
  12. Para Pascal, o ateu que não teme a morte, ainda teme a perda de cargo e perda de privilégio, a fome e a sede, o desamparo e a solidão. Como alguém que não teme a morte pode temer coisas menores que a morte?
  13. Não seria de admirar que a coragem do ateu frente à morte seja uma fachada.
  14. O ateu é louco para o cristão e vice-versa.
  15. “Nada é mais covarde do que mostrar valentia contra Deus.” Não sei exatamente o que ele quis dizer.
  16. Se não podes ser religioso, ao menos sejas bom.
  17. Os ateus que não se interessam em ser bons só não são completamente desprezados pelos religiosos praticantes de caridade.
  18. Adivinha como essa caridade se manifesta? Pela tentativa de conversão. É por isso que os ateus acham os cristãos uns chatos. O cristão tem pena do ateu e tenta convertê-lo porque vê em sua condição um grande mal.
  19. O objetivo dos Pensamentos é converter os ateus.
  20. Deus é misericordioso. Mas parece lógico, para Pascal, que ele seja mais misericordioso com o crente.
  21. Os números são infinitos. O último número na lista que sempre cresce é par ou ímpar? Deve ser um dos dois, já que é um número. Então, não é possível conhecer o infinito matematicamente.
  22. É possível acreditar em Deus sem saber o que ele é.
  23. Se pensarmos a questão somente pela via racional, podemos chegar ao agnosticismo: não é possível, racionalmente, saber se um ser infinito realmente existe, uma vez que o infinito em ato escapa à mente humana. Portanto, para Pascal, o ateu não pode repreender o cristão, porque, no final das contas, nenhum dos dois “sabe” do que está falando. O cristão “acredita” no que está falando e o ateu não acredita. Mas “saber” não é possível.
  24. Aposta de Pascal.
    1. Deus existe e eu acredito nele: serei recompensado por ele.
    2. Deus existe e eu não acredito nele: serei punido por ele.
    3. Deus não existe e eu acredito nele: ainda ganho por viver plenamente, livre do medo da morte.
    4. Deus não existe e eu não acredito nele: não há perda e nem ganho.
  25. Donde decorre que há mais vantagem em crer. Me arriscando a uma perda finita, aposto na possibilidade de ganho infinito.
  26. Caso haja uma recusa da crença, a convivência entre religiosos e a participação em suas práticas talvez o torne mais suscetível à crença. Isso parece Tomás de Aquino, quando ele diz que o incenso, a posição, o local e todas as cerimônias que cercam a ocasião de rezar não serão vistas por Deus, mas permitem que o fiel se concentre melhor, promovendo uma mudança de seu ritmo, direcionando-o à devoção.
  27. A religião cristã, de acordo com Pascal, é a única que conhece o quão pequeno é o ser humano em relação ao universo e também a razão dessa pequenez.
  28. A religião judaica-cristã foi quase destruída várias vezes… mas subsiste por mais tempo que qualquer outra religião da atualidade.
  29. As regras cristãs e judaicas, sendo preservadas escritas, jamais mudaram.
  30. Jesus foi profetizado no Velho Testamento, cuja a escrita começou séculos antes de sua vinda. É de se admirar que as profecias tenham o previsto com tanto acerto.
  31. A cura para os males da humanidade, diz Pascal, não se encontra na própria humanidade.
  32. Para Pascal, esses males são principalmente o orgulho e a concupiscência.
  33. Muitos pensaram que a natureza é perfeita e outros pensaram que a natureza é irreparável. Mas pensar que algo está perfeito ou pensar que algo não tem jeito são duas coisas que nos levam a não querer tentar melhorar.
  34. Diz Pascal: a religião cristã é a única forma de corrigir as pessoas.
  35. Fomos separados de Deus por causa de Adão e Eva, mas religados a Deus por Jesus Cristo.
  36. Não se deve pensar que o ser humano é capaz de ações perfeitas e esse é o problema da filosofia moral até Pascal. Não reconhecer que é impossível ser perfeito.
  37. Também não se cogitou até então o fato de que nenhum ser humano é capaz de ações totalmente más.
  38. A razão é fraca quando pensa que pode conhecer tudo. É imaturo pensar que o intelecto humano pode conhecer tudo.
  39. Se a religião se tornar totalmente racional, deixará de ser religião. Se a religião se tornar totalmente irracional, se tornará um ridículo absurdo.
  40. Admitir que está errado ou que não é possível saber alguma coisa, a menos num dado instante, ou seja, admitir seus limites, é prova de bom julgamento.
  41. Dois excessos: não admitir a razão e só admitir a razão. Porém, a fé, estando acima da razão, não lhe é oposta.
  42. Não é nada estranho que alguém sem estudo seja crente.
  43. Quem crê sem ler a Bíblia tem uma grande dose de fé. O problema é que são presas fáceis aos falsos mestres…
  44. Se Deus inclina alguém a crer, essa pessoa não precisa de persuasão.
  45. Só os judeus são uma religião formada a partir de um só homem, sendo, portanto, uma só família. As outras religiões são feitas também pela união de famílias.
  46. Se Deus sempre esteve presente no mundo e os judeus são aqueles que têm mantido contato com ele por mais tempo, então é dos judeus que devemos aprender sobre ele.
  47. Os judeus são um elemento sempre presente na história da civilização, diz Pascal. O mundo já os tentou destruir várias vezes, mas ainda estão aí. Não foram mais fortes economicamente como a Grécia e a Roma, cujos impérios acabaram, não tinham a força militar que tinha o Egito. Não apenas sobreviveram a tudo o que fizeram, como também são o povo mais velho ainda em existência. Como pode?
  48. A Lei dos judeus é tão perfeita que outros Estados a usaram como inspiração na confecção de suas próprias.
  49. A Lei dos judeus é difícil de seguir, mas hoje ainda se encontra em seu estado original. A lei dos outros povos, embora fosse mais fácil de seguir, sofria mudanças periódicas.
  50. Outra singularidade dos judeus é que seus registros históricos e também a Lei (pentateuco, que também tem história) fala várias vezes contra os próprios judeus, até mesmo profetizando contra os judeus, mostrando todos os podres que cometeram no passado de Juízes até Ester, todas as coisas ruins que lhes ocorrerão a partir de Isaías, mas esses registros negativos nunca foram apagados. Pelo contrário: os judeus parecem ter orgulho de sua história, de seus altos e baixos, não querendo posar de nação perfeita.
  51. Os livros dos judeus é que fazem deles um povo. São unidos pelo que Deus deixou.
  52. Para Pascal, a razão pela qual Jesus não foi aceito pela maioria judaica é que ele operou milagres mais modestos que os de Moisés.
  53. Os que são ateus por vezes usam a descrença judaica em Jesus como razão de não se converterem a Jesus.
  54. Mas as próprias Escrituras judaicas prevêem que os judeus rejeitariam Jesus em sua maioria. Então esse pretexto é muito mais um pretexto pra crer.
  55. Para Pascal, os judeus preferiram a promessa, não o cumprimento.
  56. As profecias mostram que o Messias prometido seria rejeitado pelos judeus e morto pelos mesmos. Quando Jesus veio, foi rejeitado como Messias e morto.
  57. Se as profecias fossem claras e identificassem o Messias, por exemplo, por altura, tipo físico, barba, nome próprio e coisas que tais, elas não seriam cumpridas com a mesma eficácia. Se elas fossem tão claras assim, os judeus teriam sido amigos de Jesus e a profecia de que ele seria rejeitado seria anulada.
  58. As ações podem ser motivadas por cobiça ou caridade.
  59. Os muçulmanos, diz Pascal, são desencorajados pela sua religião a lerem o Velho Testamento.
  60. Para Pascal, a religião do verdadeiro judeu e a religião do verdadeiro cristão é a mesma.
  61. Quando um judeu diz a um cristão que Jesus não é o Messias, não faz senão aumentar a fé do cristão em Jesus.
  62. Um cristão que estuda a história judaica pode rebater objeções mais facilmente, diz Pascal. Eis uma das razões para o Velho Testamento estar em nossas Bíblias. A outra é que o que o dá testemunho de Jesus é o Velho Testamento. Então, se o Velho Testamento fosse ocultado dos cristãos, seriam ocultadas todas as razões que nos levam a crer nele. Portanto, a religião cristã é inseparável da judaica, de um ponto de vista doutrinário.
  63. Para Pascal, a razão de os judeus não entenderem Jesus é porque esperavam cumprimentos proféticos literais.
  64. Para Pascal, o entendimento literal do Velho Testamento é contraditório.
  65. Pascal diz que a Bíblia é uma ferramenta de conhecimento de si próprio também. Nunca olhei por esse lado.
  66. Pascal diz: a Bíblia não se contradiz. É preciso encontrar um sentido que ligue todas as passagens que parecem dizer coisas diferentes sobre a mesma matéria.
  67. Quando um escritor se contradiz, das duas uma: ou ele não sabe o que está dizendo ou colocou um sentido oculto.
  68. Jesus é a resolução das aparentes contradições no Velho Testamento.
  69. Para Pascal, o sentido da Escritura é a caridade. Mas há diferentes formas de exercê-la.
  70. O que motiva nossos inimigos é o desejo de causar maldade. Nosso inimigo, então, é a maldade, não a pessoa que a comete.
  71. Todos os mandamentos e cerimônias que não concordam necessariamente com a caridade são figuras, diz Pascal. A terra prometida, a nação judaica na Terra, são coisas figuradas para o Paraíso que viria e para o Novo Mundo, diz Pascal.
  72. Os ricos e famosos precisam da glória deste mundo. Os filósofos e cientistas buscam a glória espiritual. Os religiosos buscam a glória que só Deus pode prover.
  73. Embora Jesus tivesse vindo do judaísmo e obtido o respeito dos gentios, ele mesmo, em seu ministério terreno, não se fez rei, não procurou ser importante… Ele foi surpreendentemente humilde.
  74. A servidão a Jesus é isenta de orgulho e de desespero. Os verdadeiros cristãos parecem nunca se preocupar.
  75. Os judeus previram Jesus por quatro mil anos. Profeta após profeta falou dele.
  76. Platão tentou fazer com poucos homens instruídos o que Jesus conseguiu fazer com todo o mundo, inclusive com ignorantes.
  77. Pascal enumera as profecias messiânicas do Velho Testamento que se cumpriram no novo e tem coisas que eu havia deixado passar.
  78. Os judeus que não aceitarem Jesus, diz Pascal, esperarão em vão seu messias.
  79. Para Pascal, a Lei judaica subsiste somente até Jesus.
  80. Profecias particulares, isto é, para tempo e local específicos, foram postas nos livros junto com as profecias messiânicas, para que assim, quando as profecias particulares fossem cumpridas, as profecias messiânicas fosse tomadas com mais fé.
  81. As setenta semanas de Daniel não são literais por imperfeições dos escritores dos registros. Por causa dessa margem, o tempo de espera das setenta semanas podia ser de até duzentos anos.
  82. Se Jesus não tivesse ressuscitado e tudo fosse uma mentira, o movimento cristão teria tido o mesmo impacto?
  83. Até depois de morto, Jesus realiza profecias. Pois depois de sua morte, foi predito, as nações se converteriam a ele. E de fato, ele morreu e nós, que não somos judeus, estamos nos convertendo a ele a cada dia que passa.
  84. A segunda destruição do templo de Jerusalém seria irreversível. Os judeus passariam a não ter mais rei e seriam espalhados entre as gentes (diáspora).
  85. Se os judeus tivessem sido destruídos, não haveria nada que sustentasse a fé cristã. Se os judeus tivessem sido todos convertidos, a profecia seria quebrada.
  86. O Velho Testamento se justifica a si mesmo por ter sido o primeiro. O Novo Testamento se justifica porque o Velho lhe dá testemunho. Então, diz Pascal, o Alcorão só poderia se justificar se o testamento anterior desse testemunho dele. A mesma crítica serve contra o Livro de Mórmon. A defesa mórmon poderia ser a de que a Bíblia é imperfeita.
  87. Se Deus nunca tivesse aparecido, ou ele não existiria (como querem os ateus) ou não somos dignos de sua presença.
  88. Se conhecêssemos nossa miséria, mas não quiséssemos Deus, não iríamos querer melhorar nosso comportamento, diz Pascal.
  89. Jesus não veio fazer só coisas boas, ele veio também obscurecer os infiéis e também mostrar aos ricos a humilhação. Se ele tivesse vindo fazer só o bem pra todos, não haveria quem dissesse que ele não existiu. Se ele tivesse vindo só pra reprimir, humilhar e repreender, todos o negariam.
  90. Como aquilo que se ama é frequentemente tomado como sendo o “bem”, só creram em Jesus aqueles que amavam as coisas que ele ensinava, que eram espirituais, e nisso foram felizes. Os que esperavam que o Messias viesse trazer bens materiais não o entenderam como benfeitor.
  91. O que diferenciava os judeus dos gentios era o amor ao Deus único. Tanto que os judeus pereceriam como gentios se deixassem de amá-lo, mesmo que continuassem observando os rituais.
  92. A circuncisão tinha como única função, diz Pascal, diferenciar judeus e gentios. Pra quê tinha que ser um sinal no pênis? Talvez pra lembrar que o judeu não podia ter sexo com estrangeiras.
  93. A crença em Deus encontra utilidade em Jesus Cristo, pois ele nos entregou a moral que seguimos. Não basta crer; é preciso fazer o que ele disse. Então, por meio de Jesus, os cristãos encontram um meio de exercer a fé pela prática.
  94. Usar o argumento do projeto inteligente é dar testificar contra a nossa religião: é um argumento fraco.
  95. A existência de Deus não é óbvia. Ele deve ser procurado.
  96. O conhecimento dos dogmas da fé são inúteis e estéreis sem o Evangelho para lhes dar significado.
  97. Por exemplo, se Deus fosse como Epicuro diz que ele é: feliz, imortal, mas que não se ocupa de nós. De que adiantaria saber disso? Isso não faria diferença em minha vida. Como a salvação dada por Jesus é prática, fazer o que ele diz nos aperfeiçoa o comportamento. Ela é útil também neste mundo.
  98. Os autores bíblicos não usam meios naturais para inferir a existência de Deus. Não provam que ele existe usando argumentos racionais, mas testemunhos apenas.
  99. Para Pascal, as provas da existência de Deus são leves demais e não servem ao propósito a que se destinam. Além do mais, conhecer Deus pela especulação é o mesmo que nada, se isso não tem desdobramentos práticos.
  100. Deus é dono das verdades, como querem os pagãos, é o que nos beneficia materialmente, como querem os judeus, e é pessoal, compassivo, misericordioso, como querem os cristãos.
  101. A doutrina diz o que é milagre e o que não é. Quando um milagre acontece, revela as doutrinas erradas.
  102. Se um “milagre” pretende levar à adoração de outro Deus ou a diminuir a imagem de Cristo, é um falso milagre.
  103. Consequentemente, milagres só podem existir no cristianismo, conclui Pascal.
  104. Na minha modesta opinião, a identificação entre Jesus e Deus é o que mais afasta os judeus dos cristãos. Deus, sendo um só, não deveria ser uma Trindade. Por isso que os judeus frequentemente dizem que o Deus dos cristãos não é o Deus deles e, na medida em que o cristão afirma a Trindade, o judeu tem razão quando diz isso. Jesus é o messias e o filho de Deus. Mas, pela leitura do Evangelho, se vê que Jesus frequentemente se põe debaixo do Deus que ele adorava (pois Jesus era judeu e judeus adoram um Deus que é uno e uno apenas, não trino).
  105. Se Jesus fazia milagres ao mesmo tempo que afirmava o Deus único dos judeus, então seus milagres eram legítimos. Pascal diz que os judeus tinham obrigação de crer em Jesus. A recusa mostrava que os judeus haviam mesmo se distanciado da Lei.
  106. Eu tenho um amigo que acredita em Satanás, mas não em Deus. Pascal acharia isso loucura.
  107. Jesus prometeu a vida eterna e não foi acreditado. Ele tinha que provar, ressuscitando.
  108. As pessoas comuns tomam possibilidades por verdades. “Se é possível, existe.”
  109. Se um mal fosse tido como incurável, ninguém procuraria (ao menos dentre os comuns) uma cura para esse mal. Só depois que a cura for dada como possível ou provável é que as pessoas se organizarão para obtê-la.
  110. Para Pascal, os selvagens têm religião porque entraram, em dado instante, em contato com a religião dos judeus ou dos cristãos. É a conclusão de seu argumento. Só pode conceber uma religião falsa quem teve contato com a verdadeira. Hoje sabemos que não é assim, então o argumento é inválido.
  111. Uma religião verdadeira: precisa ter sempre existido, dar segurança aos fiéis, ter milagres.
  112. Para Pascal, os judeus que não se convertem a Jesus são inimigos da igreja. Isso soa um pouco anti-cristão, se você leva em consideração os Evangelhos e o Apocalipse.
  113. Os milagres apontam a doutrina correta. Se alguém faz milagres sem negar o nome divino ou ensinar algo contrário à fé cristã, o milagre é válido e a doutrina é correta. Importante lembrar o que dizem os Evangelhos, pois neles é mostrado que Jesus rejeitará alguns fazedores de milagres, porque fazer milagres em nome dele não é garantia de santidade de doutrina. Ou seja, é possível fazer milagres em nome de Jesus e ser por ele rejeitado, se a pessoa ensina algo contrário ao que Jesus ensinou (Mateus 7:22). Por isso que o pessoal tem um par de problemas com os milagres de Paulo…
  114. O poder de Deus sobre os espíritos é provado pelo poder que ele tem sobre os corpos.
  115. Forçar um ateu a crer apenas o afasta mais de Deus. Não se deve converter ninguém pela força.
  116. “O coração tem razões que a razão desconhece”, diz Pascal. Será que foi ele que inventou isso?
  117. O pensamento tipicamente católico é de que o mundo é mau e existe para tentá-lo a afaster-se de Deus.
  118. Só Deus para evitar que o mundo seja destruído ou que vire um inferno.
  119. Se você não se importa em saber a verdade, não a procurará. Mas não diga que ela é inatingível só porque você não chegou lá.
  120. A pesquisa sincera da verdade é nossa garantia de repouso. Porque só paramos totalmente quando estamos seguros de tudo, o que só é possível sabendo a verdade.
  121. A morte generosa de alguém só faz sentido se nos identificamos com esse alguém de alguma forma. Por exemplo, se ele for do nosso povo, defendeu nossa causa…
  122. Os santos eram pessoas comuns. Nós podemos seguir o exemplo deles.
  123. Os ateus talvez temam que a religião cristã seja verdadeira.
  124. Se você acredita que Deus não existe, imagine como seria se ele existisse. Se ele existir mesmo e você não crê nele, você corre grave risco e perde um grande prêmio. Mas e se ele não existir e eu ainda assim acreditar? Não perco nada com isso.
  125. É mais fácil ignorar as perseguições se você se mantém firme no pensamento de que a igreja não será destruída por elas.
  126. Alguém disse que a aposta de Pascal o torna um falso cristão, mas todo o livro dos Pensamentos o revela um católico praticante com fé invejável.
  127. Quando você racionaliza uma má ação, você a pratica sem culpa.
  128. Alguém que está fraco e agonizante pode ser chamado de corajoso por atacar, nesse estado, o Deus Todo-Poderoso e eterno? Não, não pode.
  129. Se a testemunha de uma história é morta por tê-la testemunhado, a história é provavelmente verdadeira. Afinal, se fosse falsa, bastaria ser provada como sendo falsa. Mas, sendo verdadeira, ela se impõe. Por isso incomoda.
  130. Crítica à salvação pela fé: excluir demonstrações exteriores de piedade impede as mudanças de comportamentos e passamos a ter uma congregação de pessoas corruptas. A fé tem que se manifestar exteriormente, precisa coexistir com obras.
  131. Para Pascal, o divertimento mais danoso à moral cristã é a comédia, isto é, o teatro da comédia. Porque ela atenua o impacto das falhas humanas, lhes dando um caráter de inocência. Isso porque ele não vive nos dias atuais e nunca assistiu Cidade 190, Barra Pesada ou Os Malas e a Lei, os quais dão um caráter quotidiano à morte, de forma que os que assistem esses programas ficam indiferentes a ela. Se acostumam a ver os outros morrerem.
  132. A Inquisição era ignorante na época de Pascal. Se você tivesse um estilo de escrita demasiadamente culto, a Inquisição poderia entender seu texto de forma errada e te condenar por uma blasfêmia que nem está realmente ali. Se tinha que afirmar sua fé ao longo de boa parte do texto, para garantir à Inquisição que não se era um herege.
  133. Pascal chama a Inquisição de “flagelo da verdade”.
  134. Pensamento e vontade não necessariamente coexistem no mesmo ser.
  135. As pessoas não querem verdades, querem probabilidades.
  136. O que faz um papa não é um título, mas sua conduta. Um papa que se volta contra os ensinos divinos não merece ser chamado de papa.
  137. Se você diz que o ser humano é miserável demais pra merecer uma relação com Deus, você deve ser maior que os dois para julgar tal coisa, uma vez que o próprio Deus a oferece.
  138. Talvez sejamos indignos de Deus por nossa miséria, mas é divino que alguém nos queira tirar dela.
  139. O cristianismo não é único. Há três denominações: católicos, ortodoxos e protestantes. E ainda há os que não querem tomar parte em denominação alguma, como eu.
  140. O fato de muitos pensarem que a religião não uma certeza não deveria nos desencorajar se seguir uma; também não há certeza de que estaremos vivos amanhã, e essa incerteza não nos impede de planejar o dia seguinte.
  141. É preciso ser forte pra ser ateu. Mas a força do ateu, diz Pascal, é limitada.
  142. As emoções moderadas pela razão tendem à virtude e não ao vício.
  143. A Criação é infinita. O ser humano não deveria se levar tão a sério, se ele pouco contribui para o universo. A menos, é claro, que você considere o mundo de maneira tomista, onde o ser humano é uma peça-chave na ordem cósmica.
  144. O ser humano, porém, tem grande valor se comparado com os múltiplos universos microscópicos. Ele está no meio de dois infinitos: o infinitamente grande (o universo afora) e o infinitamente pequeno (o quântico).
  145. O que somos no universo? Um nada para o infinito e um tudo para o nada.
  146. Ora, mas seguindo esse raciocínio, isso não é uma característica particular do ser humano. Tudo é assim. Tudo é um meio entre o infinito e o nada.
  147. Não há proporção entre ser humano e natureza. Nosso conhecimento da natureza está fadado a ser incompleto.
  148. O infinito só faz sentido pra Deus.
  149. Tudo em excesso ou carência prejudica o ser humano, prova tanto de sua finidade quanto de seu caráter mediano.
  150. Mesmo que alguém busque o excesso, perceberá que o excesso parece se afastar dele.
  151. A natureza mediana do ser humano afasta ao mesmo tempo da ignorância e da certeza. Platão, na pessoa de Sócrates, diz o mesmo sobre o amor.
  152. A incerteza, como a morte, é ao mesmo tempo natural e indesejada.
  153. Não se deve esperar qualquer certeza. Embora ainda possamos alcançar conhecimento de alguma coisa, na medida em que isso nos é útil e prazeroso, temos que ter a maturidade de admitir que nenhum saber humano é certo. Pretender certeza absoluta é infantil.
  154. Uma das razões pelas quais não se pode ter certeza é porque só podemos conhecer o todo conhecendo as partes. Mas as partes do universo estão unidas por relação causal. De forma que só podemos conhecer um efeito pela causa e o contrário. Ora, mas se tudo está ligado dessa forma, só podemos conhecer as partes conhecendo o todo. Mas como? Não nos é possível. Temos que isolar objetos de estudo. Esse isolamento do resto é que nos impede de conhecê-los em todo o seu potencial, porque este só se revela na natureza, em relação com outros fenômenos.
  155. A metafísica por vezes parece atribuir características humanas aos fenômenos: os corpos tendem para baixo e desejam seu centro. Mas “desejar” implica vontade. Pode uma pedra ter vontade e desejar?
  156. Leitura muito lenta prejudica tanto quanto uma leitura muito rápida.
  157. Se fazemos algo, como uma música ou desenho, entendemos o produto de nosso trabalho logo após terminá-lo. Mas, com o passar do tempo, nossos trabalhos anteriores se tornam estranhos pra nós. Eu, por exemplo, não acreditaria que os desenhos que eu fiz em 2010 foram feitos pela mesma pessoa que os faz hoje, em 2016, se eu não soubesse que sou em quem está fazendo e que fez antes também.
  158. Se tivéssemos um conhecimento decente sobre nossos próprios corpos, não seríamos hipocondríacos. Não teríamos mal-estar psicológico se tivéssemos meios de saber com toda a certeza que nosso corpo vai bem. Da mesma forma, pessoas com doenças fatais e que estão prestes a morrer, por vezes, não sentem nada de errado.
  159. Por que existimos? Por que aqui? Por que agora?
  160. Para Pascal, essa história de encontrar a felicidade dentro de nós mesmos é besteira.
  161. Alguns filósofos disseram que não tem diferença entre homens e animais. Ora, mas os filósofos que disseram isso também queriam reconhecimento por terem chegado a essa revolução de pensamento. Nisso, aspiram à glória, sendo que os animais não aspiram glória alguma. Então, sua conduta contradiz sua palavra. Nenhum animal, fora o ser humano, pode desejar a glória e a estima dos seus pares.
  162. Se reconhecer miserável já é algo admirável.
  163. O pensamento é a essência do ser humano. Quem não pensa, não é humano.
  164. Se não fosse o pensamento, as sensações corporais não poderiam ser classificadas como prazerosas ou dolorosas, porque o significado de um sentimento não é atribuído ao sentimento pelo corpo. Me parece contraditório, então; os animais sentem os mesmos estímulos que nós, classificam esses estímulos em prazeroso e doloroso. Então os animais pensam. Logo o pensamento não constitui essência humana, uma vez que um animal, sendo pensante (isto é, classificando sensações que de outra forma não passariam de estímulo corpóreo), nem por isso é humano. A menos que se pense essência em sentido não exclusivo: o ser humano é humano porque pensa e porque tem mais algum atributo. Hobbes dirá que o atributo adicional é a linguagem. Aristóteles dirá que é a sociabilidade (“animal político”).
  165. O pensamento dignifica o indivíduo.
  166. Insistir em mostrar ao ser humano o quão semelhante ele é aos animais, sem mostrar-lhe em que sentido ele os supera, pode levar a uma concepção errada do próprio valor.
  167. Os filósofos são grande coisa apenas para as pessoas comuns e não entre si mesmos.
  168. Penso, logo existo.
  169. As pessoas passam mais tempo cuidando de sua imagem pública do que daquilo que realmente são. Não desenvolvem suas verdadeiras capacidades senão em função da imagem que se quer cultivar diante dos outros.
  170. Tudo feito pela glória parece escusável.
  171. A paixão pela glória chega ao cúmulo de querer morrer por ela.
  172. Há essa paixão também na filosofia, entre escritores que procuram o aplauso e leitores que se gabam da cultura que absorvem.
  173. A vã curiosidade também é paixão pela glória: queremos saber pra termos assunto de que falar.
  174. O desejo de ser amado nos leva a ocultar nossos defeitos e criar para nós uma imagem que não nos convém.
  175. Fazer isso nos leva a receber mais respeito do que realmente merecemos. Pior que ter defeitos é tê-los e não reconhecer.
  176. É bom que nos apontem nossos erros, para que possamos corrigi-los.
  177. Muitos católicos odeiam a confissão.
  178. Ter boa imagem e fama acaba fazendo com que falem mal de você em segredo.
  179. A vida é uma peça teatral. Todos são atores e ninguém representa a si próprio.
  180. Ninguém fala de nós em nossa presença como fala em nossa ausência.
  181. A pessoa pública não quer ouvir nem dizer a verdade, diz Pascal.
  182. A fonte dessa hipocrisia é o excesso de amor-próprio.
  183. Uma pessoa mal-vestida falando a verdade é tida por equivocada.
  184. Diz Pascal: o advogado pago com antecedência acha mais justa a causa que defende.
  185. Só soldados não dão testemunho de seu valor pela roupa que vestem.
  186. O fato de alguém precisar se vestir de determinada forma para ser reconhecido mostra que ele não é capaz de ser reconhecido pela habilidade somente.
  187. Os sentidos enganam. A razão também.
  188. É possível errar por ser conservador a ponto de ignorar totalmente o novo e é possível errar por ser ávido de novidade a ponto de se entregar totalmente a uma novidade incerta.
  189. Você vê um recipiente vazio e pensa: “existe vazio.” Aí você vai pra escola e aprende: “não existe vazio.” Aí você lê um livro que diz que a escola corrompe nosso senso comum, o qual carrega uma opinião verdadeira sobre o vazio, logo “existe vazio.” Quem tem razão? Os sentidos ou a escola?
  190. As doenças e o orgulho também pervertem o julgamento.
  191. O ruído causa erros.
  192. A forma de propor um conselho perverte o conselho, quando se quer dá-lo sem ofender.
  193. A escolha da profissão é uma decisão de suma importância. Você pode acabar confuso e frustrado ouvindo a opinião dos outros sobre que profissão você deveria exercer.
  194. Às vezes se procura uma profissão porque tá todo o mundo a procurando. Hoje é o contrário: se procura as que têm menos concorrência. Em ambos os casos, isso é muito pobre.
  195. Se pensa no futuro, se sente saudade do passado, mas se evita o presente.
  196. Se pensamos no presente apenas em função do futuro, então não vivemos, porque nossa vida não chegou ainda.
  197. Existiu um rei que, segundo Pascal, teria conseguido destruir todos os cristãos e a família real, além de ter dado o poder máximo a sua própria família, se não fosse… uma pequena quantidade de areia que lhe obstruiu a uretra, o impedindo de urinar, o que causou sua morte.
  198. Se um sonho se repetisse todas as noites, ele teria impacto no nosso comportamento, como tem qualquer outra coisa cotidiana.
  199. A continuidade é a diferença entre vigília e sonho. Se os sonhos fossem como uma série, na qual um episódio depende do outro, dizer o que é real e o que é sonho seria uma questão subjetiva.
  200. O tédio nos leva a pensar em nossa própria miséria. Para evitar esses maus pensamentos, procuramos divertimentos e trabalho. Morrer e não ter o que fazer são os dois medos que nos impulsionam para a ação. Se ficamos sem divertimento, sem trabalho e nem sequer temos sono para podermos dormir, sentiremos tédio. Para Pascal, o tédio é o principal elemento da condição humana.
  201. O tédio nos iguala. Um rei sem divertimento e um súdito sem divertimento são igualmente infelizes, diz Pascal.
  202. A graça não é a presa, mas o ato de caçá-la. Schopenhauer dirá a mesma coisa, na metáfora do pêndulo.
  203. A razão de se procurar a felicidade fora de si é que as pessoas não conseguem ser felizes sozinhas.
  204. Não basta divertir; tem que divertir muito! Jogar sem recompensa, sem objetivo, é uma tarefa vazia. Mas receber a recompensa sem jogo também é besta.
  205. O trabalho do dia-a-dia nos leva até a esquecer a morte de um familiar, por vezes em questão de horas.
  206. Só é possível ser feliz, diz Pascal, por um curto período de divertimento ou trabalho. Se não temos o que fazer, ficamos infelizes. Por isso as pessoas frequentemente se desesperam da felicidade e afirmam que “felicidade não existe, somente momentos felizes.” Porque parece que só podemos ser felizes enquanto estamos ocupados, de forma que alcançar um objetivo acaba se revelando altamente frustrante. Nem totalmente derrotado, nem um completo vencedor, mas alguém em constante tentativa, esse é feliz. Schopenhauer roubou de Pascal.
  207. Tolerar a morte é fácil se você não pensa nela. Mas, se você pensa nela, a achará insuportável, mesmo que você esteja a salvo e saudável.
  208. Viveu bem quem morreu sem perceber, diz Pascal, embora de maneira implícita.
  209. O que nos torna humanos é o pensamento, mas só somos felizes quando não pensamos. Isso mostra que a natureza humana é descontente.
  210. Eu gosto do fato de Pascal dizer que o homem solitário sente sua “impotência”. É, realmente, sendo impotente, fica difícil se divertir sozinho. Esse, sim, é um miserável.
  211. Demissão é punição não apenas porque se priva o trabalhador do seu salário, mas também porque ele é forçado a ficar em casa.
  212. Como é que os estóicos dizem que a vida pode ser feliz e aconselham o suicídio?
  213. Se pensamos que “seremos felizes” o tempo todo, admitimos que não somos agora.
  214. O desgosto de pensar nos problemas nos impulsiona a procurar soluções para esses problemas, na medida em que somos fortes para tolerar o desconforto de pensar nessas coisas. Não pensar nos problemas, embora nos ajude a respirar e a sermos felizes, nos afasta da solução de problemas que podem inclusive nos matar.
  215. Argumentos a favor e contra a verdade absoluta: fracos de ambos os lados.
  216. Ou se é cético (verdade absoluta é impossível) ou se é dogmático (verdade absoluta é possível). Se você tentar ser neutro, automaticamente será cético, pois admite que não há verdade absoluta sobre a questão da verdade absoluta.
  217. Não se pode duvidar que se duvida. Isso é uma verdade absoluta.
  218. “Depositário da verdade, cloaca de incerteza”, diz Pascal, sobre o ser humano.
  219. A natureza confunde o cético, mas a razão confunde o dogmático. Isso me parece um indício que é possível ser dogmático em relação às ciências da natureza, mas cético em relação às humanidades.
  220. Existem coisas que sabemos por intuição e não pela razão. Por exemplo, sabemos que não estamos sonhando agora. Mas a razão não entende como eu posso estar tão certo disso sem saber o que diferencia sonho e vigília.
  221. Devemos apoiar nossos raciocínios nessas intuições partilhadas por todos, diz Pascal.
  222. A razão não é sentimental. Também o sentimento não é racional.
  223. A intuição também é conhecimento válido. A razão não é o único meio de conhecer as coisas.
  224. Todo o mundo quer ser feliz e todos nos ordenamos segundo esse fim.
  225. Diz Pascal: ninguém chega à felicidade sem fé.
  226. Nunca estamos satisfeitos com o presente.
  227. O nosso vazio metafísico só pode ser adequadamente preenchido por Deus. Mas muitos tentam preencher com outra coisa.
  228. O período de Pascal não é apenas marcados por sentimentos anti-aristotélicos, mas também anti-estóicos.
  229. Renunciar totalmente à razão e renunciar totalmente à paixão são duas coisas impossíveis. Negá-las não as elimina.
  230. Se o ser humano não tivesse sido feito por Deus, não faria sentido que as pessoas mais felizes são aquelas que se entregam à religião.
  231. A condição humana segundo Pascal: uma prisão cheia de gente condenada à morte, onde as execuções são diárias e públicas.
  232. A opinião pública e o senso comum não necessariamente estão errados.
  233. A diferença de opinião depende de ponto de vista (“luz”, no dizer de Pascal). A mesma coisa pode ser vista de forma diferente por um religioso, por um filósofo, por um cientista e por um leigo.
  234. Se a opinião é a rainha do mundo, a opinião fundada pela força é uma tirania.
  235. Governar requer que os súditos sejam loucos. Convém ao governante que seu povo seja ignorante. Você tira pelo processo de impedimento, que não teria ido à frente se o povo não fosse imbecil, que passa mais tempo vendo televisão do que vivendo suas vidas.
  236. O que torna um comportamento errado algo razoável é a indisciplina.
  237. Numa época antes do concurso público, Pascal diz que é difícil escolher alguém com base em habilidade.
  238. Quando só o efeito está presente, é o espírito que infere a causa.
  239. Uma difamação completa sobre nós não é tão ofensiva quanto uma difamação parcial. Chamar alguém de “doido” não ofende tanto quanto dizer que ele está errado. Isso porque estamos certos de nossa sanidade, mas raramente estamos certos de nossas escolhas. O que torna estar errado algo ofensivo é o fato de que pode ser verdade.
  240. Se elegante, isto é, de aparência bem cuidada, revela força também, só que a força do dinheiro.
  241. Se alguém consegue uma boa posição em dez anos e outro conseguiu a mesma posição em trinta anos, isso é mais razão de admiração do que de suspeita: o outro chegou ao mesmo lugar que você poupando vinte anos de trabalho. Antes de ver se há peixada, verifique se ele não tem mais perícia que você.
  242. Diz Pascal: não amamos uma pessoa, mas somente suas qualidades.
  243. Algo por vezes é maior na nossa imaginação. Por vezes nossa imaginação é desproporcional à realidade.
  244. O fundamento das leis: o costume. É o costume de dizer o que é justo e o que não é.
  245. Obedecer à justiça das leis humanas é obedecer a uma justiça imaginária, que só existe na mente daqueles que acham determinada lei justa.
  246. Para mudar a lei, basta que se corrompa o costume. Quanto mais pessoas quebrarem a lei, mais rápido ela será mudada.
  247. É interessante como a Lei e os Evangelhos misturam os preceitos com histórias, para que as pessoas entendam o fundamento prático das leis que observam. Só a religião e o senso comum podem fazer isso. Porque o Estado, se explicar as condições que levaram à criação desta ou daquela lei, expõe como muitas leis foram criadas de forma injusta. A história de uma lei é o ponto de partida para destruí-la.
  248. O costume de achar algo justo é o que fundamenta a lei. Mudar o costume requer mostrar como tal coisa é injusta.
  249. Amar é natural ao ser humano. Mas o costume de não amar apaga essa natureza. Isso quer dizer que, embora o ser humano tenha características que tendem a se desenvolver normalmente em seu amadurecimento, o cotidiano e a educação podem suprimir esse desenvolvimento. Nesse sentido, o costume é, para Pascal, uma “segunda natureza”. Claro que o costume precisa ser mais frequente quanto mais forte for a pulsão natural.
  250. A moda faz a justiça.
  251. Justiça sem força é impotente. Com isso concordam o Hobbes e o Príncipe.
  252. O discurso do cético sobre o ceticismo é carregado de certezas.
  253. O adulador nem sempre é amado.
  254. A matemática não serve pra examinar a ação humana.
  255. Se todos são indisciplinados, ninguém parece disciplinado. Se todos pensassem da mesma forma, mesmo que estivessem errados, pensariam estar todos certos. Por isso é necessário que diferentes pessoas pensem de maneira diferente, para que o contrapeso de opiniões revele os erros que há nelas. Se os erros não forem revelados, ninguém se corrigirá.
  256. Platão costumava dizer que bastava agir justamente. Se todos agissem justamente, mesmo que a seus próprios olhos, o mundo seria justo. Para Platão, justiça é dar a cada um o que merece, de forma a estabelecer a igualdade. Todas as minhas ações devem, portanto, visar o estabelecimento da igualdade pela prática do “dar a cada um o que merece”. Nesse sentido, Platão, de certa forma, antecipa o imperativo categórico.
  257. A virtude é mais medida pelo cotidiano do que por ações particulares.
  258. Existem pessoas que mentem sem motivo.
  259. É mais fácil seguir maus exemplos de pessoas famosas. Alexandre foi casto, mas também bêbado. E muitos usaram a embriaguez de Alexandre para justificar a sua. Mas quantos usaram a castidade de Alexandre para justificar a sua própria? Quando uma celebridade tem um mau hábito, as pessoas passam a considerá-lo justificado, pela autoridade (ou fama) da pessoa.
  260. O combate entre dois lados iguais é uma luta. Se um dos lados é muito mais forte, é um massacre.
  261. O que nos deixa alegres é procurar a verdade. Depois que achamos, fica o tédio.
  262. A mesma coisa pode incitar riso ou choro na mesma pessoa, dependendo de sua disposição de espírito. O que achamos triste agora pode ser motivo de riso depois. E vice-versa.
  263. Diferentes atributos reinam de diferentes formas. Quem é estimado por ser belo governa diferentemente de quem é estimado por ser forte ou por ser sábio.
  264. A vida não é o maior bem para algumas pessoas. Tanto que alguns preferem morrer do que entrar numa guerra, por exemplo.
  265. O costume consola o ignorante. Na verdade, se não conhecemos algo, ainda podemos fazer as coisas da forma como vem dando certo até então.
  266. Não se contentar com os prazeres presentes e fazer uma ideia errada dos prazeres ausentes causam comportamento volúvel.
  267. O instinto de propriedade e usurpação é tão natural ao ser humano, que não há nenhuma criatura mais egoísta do que uma criança pequena.
  268. Platão e Aristóteles não “se vestiam” como sábios. Frequentemente os imaginamos com roupas de sábio, mas não era assim.
  269. A política não era o foco de Platão ou de Aristóteles, mas a ética, diz Pascal. Queriam viver de maneira tranquila e simples. Se imaginaram leis e modos de condução do Estado, o fizeram para passar o tempo, porque não era o que havia de mais importante. Tenho minhas dúvidas, considerando como a política parece importante pra Aristóteles.
  270. Para que falem bem de você, não peça que falem bem de você.
  271. Se todos soubessem o que se diz um do outro pelas costas, não haveria amizade.
  272. Mais fácil saber o que é mau do que o que é bom.
  273. Só existe um bem, mas há vários males. Aristóteles diz isso de outro jeito.
  274. Ver as diferenças entre as pessoas requer sabedoria. Os ignorantes pensam que as pessoas são todas iguais.
  275. Para Pascal, o raciocínio não procura senão a validação da intuição.
  276. Toda a regra tem sua exceção. Mas se houver exceções demais, não há regra. Então as exceções devem ser julgadas justamente.
  277. Mudança estraga o amor. Por isso que o verdadeiro amor é amor do jeito que a pessoa é. Mudar por amor é receita de insatisfação. Lembro-me de uma menina que era louca por desenhos animados e seu namorado não se importava com isso, dizendo pra ela que gostava dela do jeito que ela era. Mas ela tentou largar os desenhos por causa dele, temendo que isso fosse um problema, apesar de ele dizer que isso não era necessário. Isso prova duas coisas: que ela é insegura e que não acredita nas palavras do próprio namorado. Se alguém diz que gosta de você do jeito que você é e você insiste em mudar, você se arrisca a se tornar alguém que o amado pode não gostar. Da mesma forma, se alguém diz que você deve mudar por essa pessoa, ela não te ama de verdade. Provavelmente, é só uma pessoa interesseira.
  278. Ciências são como órgãos. Um corpo é composto de vários órgãos, que não funcionam independentemente. Da mesma forma, o potencial de uma ciência é mitigado se ela não interage com outras.
  279. Repouso completo é a morte. Precisamos de movimento.
  280. Glorificar os outros na frente de uma criança estraga o senso crítico dela.
  281. Os vícios opostos são pontos de referência. Se um dos vícios desaparece, a tendência é nos aproximarmos do outro. Precisamos ver onde estão os extremos para que possamos ir para o meio, que é onde devemos ficar.
  282. É fácil dizer que gato preto cruzando teu caminho é sinal de azar, porque desgraças acontecem o tempo todo. Fica mais fácil ver assim uma relação que não existe.
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9 Comentários »

  1. […] for religioso e está se sentindo mal lendo, vá ler a Suma Contra os Gentios, tá certo? Ou os Pensamentos. Não precisa continuar se não quiser, […]

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    Pingback por Anotações sobre a essência do cristianismo. | Analecto — 4 de setembro de 2017 @ 14:08

  2. […] com a exceção de Sócrates. Isso dá a impressão, pro leigo que não sabe o que é filosofia nem o quanto a religião deve a esta, de que filosofia é coisa de ateu e que a filosofia te tornará […]

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    Pingback por Eu assiti “Deus Não Está Morto.” | Pedra, Papel e Tesoura. — 25 de fevereiro de 2017 @ 12:37

  3. […] Faça ao outro o que gostaria que fosse feito a você, é como se define justiça no diálogo do catecismo chinês. Pascal chama isso de “caridade“. […]

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    Pingback por Anotações sobre o dicionário filosófico. | Pedra, Papel e Tesoura. — 27 de setembro de 2016 @ 14:20

  4. […] que não existe nenhum conhecimento seguro ou professam como verdade coisas extravagantes e se contradizem. Se esses estudiosos ora parecem que estudam em vão e ora parecem enganar-se de todo, quanto mais […]

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    Pingback por Anotações sobre os diálogos entre Hylas e Philonous. | Pedra, Papel e Tesoura. — 19 de setembro de 2016 @ 11:43

  5. […] por obrigação não produz salvação. Observe que Pascal sustenta que ir pra igreja à força repetidas vezes acaba fazendo o indivíduo dar uma chance à […]

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    Pingback por Anotações sobre a carta sobre a tolerância. | Pedra, Papel e Tesoura. — 17 de agosto de 2016 @ 15:23

  6. […] com Pascal, o filósofo aponta que existem sociedades tribais que não desenvolveram religião […]

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    Pingback por Anotações sobre os dois tratados sobre o governo. | Pedra, Papel e Tesoura. — 12 de agosto de 2016 @ 21:20

  7. […] o único a mostrar que a crença no Deus judaico-cristão, pela via racional, é plausível é Pascal, e ele não deu prova definitiva de que Deus existe, mas apenas de que vale a pena crer. Então as […]

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    Pingback por Anotações sobre o ensaio sobre o entendimento humano. | Pedra, Papel e Tesoura. — 17 de julho de 2016 @ 11:30

  8. […] é possível ser feliz sem o Deus que o ser humano tende a rejeitar. Anselmo usa passagens bíblicas para complementar seu […]

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    Pingback por Anotações sobre o proslogion. | Pedra, Papel e Tesoura. — 9 de julho de 2016 @ 11:30

  9. […] é um longo período de prosperidade. Porém, isso implica que ainda é efêmero. Para Hobbes, a felicidade eterna não é possível nesta […]

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    Pingback por Anotações sobre o leviatã. | Pedra, Papel e Tesoura. — 7 de julho de 2016 @ 14:24


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