Analecto

17 de julho de 2016

Anotações sobre o “Ensaio Sobre o Entendimento Humano”, de Locke.

“Ensaio Sobre o Entendimento Humano” foi escrito por John Locke. Abaixo, algumas anotações que fiz sobre o texto dele. As anotações não são citações.

  1. A grande diferença entre animal e vegetal é a percepção.
  2. Prazer e dor nos movimentam.
  3. O prazer e a dor guiam nossas ações.
  4. Se uma gota d’água estivesse compactada de tal maneira que fosse impossível mover suas partículas em qualquer direção, ela seria impenetrável.
  5. Devem existir outros seres com mais sentidos que o ser humano.
  6. Não é possível obter ideias simples de outra forma além dos sentidos e da reflexão.
  7. Existem dois tipos de ideias, para o filósofo: as simples (vinda diretamente dos sentidos ou da reflexão) e as complexas (obtidas pela combinação de ideias simples ou pela subtração de características, ideias processadas enfim).
  8. O fato de alguém me dizer que eu estou sempre pensando não prova que realmente estou.
  9. Nem sempre pensamos.
  10. A criança está interessada no que há fora de si e em seu corpo, nos dados sensoriais.
  11. Afora os sentidos, a reflexão é o único meio de obter conhecimento puro.
  12. O filósofo chama de “reflexão” o ato da mente tomar a si própria como objeto.
  13. Embora todas as ideias tenham sua raiz primordial na sensação, é possível obter ideias novas pela combinação de ideias que já juntamos ou pela subtração de suas características dessa ideias em nossas mentes.
  14. Ideia é conteúdo mental.
  15. Se seu argumento não é infalível, ao menos seja coerente consigo mesmo.
  16. Não diga que algo é inato; prove que é.
  17. Ninguém nasce tendo fé.
  18. Não formamos ideias de fome ou sede antes de sentirmos fome ou sede.
  19. Se os princípios inatos podem ser corrompidos e já há pessoas corrompidas, então esses princípios já não são mais universais.
  20. Se os princípios morais de justiça, verdade e coisas que tais fossem inatos, estando em nossas mentes o tempo todo, como é que quebramos esses princípios com tanta facilidade, de caso pensado, mesmo depois que os aceitamos?
  21. Virtudes são sancionadas por sua utilidade.
  22. Para que algo seja considerado justo, precisa ser provado justo.
  23. Os princípios de justiça variam conforme a comunidade.
  24. Também os ladrões têm compromissos a honrar.
  25. O fato de uma verdade ser evidente não a prova como inata.
  26. Se é inato tudo aquilo que é universalmente aceito, então várias ideias triviais são inatas.
  27. A razão se desenvolve pelo exercício sensorial, mnemônico, abstrato e linguístico.
  28. Processo de conhecimento para o filósofo.
    1. Os sentidos captam os objetos (lembrando que, em filosofia, objeto é tudo aquilo que é estudado por um sujeito ou com o qual ele entre em contato).
    2. Nossa mente forma conceitos a partir dos objetos.
    3. Esses conceitos vão para a memória, onde são nomeados.
    4. Quando invocados da memória, os conceitos podem ser estudados abstraídos dos objetos que os originaram.
    5. A linguagem é formada pelos conceitos nomeados, que são sofisticados conforme a memória é preenchida.
  29. Verdades obviamente lógicas são ignoradas por muita gente, que nunca se deu ao trabalho de pensar nesses assuntos.
  30. Os argumentos a favor do inatismo frequentemente discordam com o significado do termo “inatismo”.
  31. Raciocinar é deduzir uma informação nova a partir de informações já conhecidas.
  32. Se Platão estivesse certo, então já sabemos tudo, só que esquecemos, ou seja, é o mesmo que nada, já que esquecer é perder conhecimento.
  33. “Existe tudo aquilo que existe” e “aquilo que existe no dado instante não pode deixar de existir neste dado instante” não são preceitos inatos.
  34. A unanimidade não constitui prova.
  35. O conceito de ideia inata é desnecessário, á que o conteúdo de uma ideia supostamente inata pode ser ensinado.
  36. Nenhuma ideia nasce conosco.
  37. “Ideia” é conteúdo mental.
  38. Se podemos agir sobre algo, esse algo é conhecível naquilo sobre o que podemos agir.
  39. Se tivermos um critério justo de avaliação sobre o que podemos e o que não podemos conhecer, o ceticismo (a doutrina segundo a qual não existe conhecimento seguro) perderá o sentido.
  40. Se existirem mesmo coisas que não podemos conhecer, isso não justifica que não tentemos conhecer aquilo que podemos.
  41. Deus nos deu condições universais de subsistência, então, se tem alguém passando fome é porque sua comida está sendo roubada, mesmo que indiretamente, por alguém.
  42. Ele quer saber até onde vai nosso entendimento, o que implica um pressuposto de que existem coisas que a mente humana não pode conhecer.
  43. Método: investigar de onde vêm as ideias (conteúdos mentais), qual sua extensão, e o que caracteriza a fé ou opinião de que algo é verdadeiro sem provas.
  44. Objetivos: diferenciar conhecimento e opinião, obter um método de estudo, obter um meio de moderar discussões sobre coisas incertas.
  45. Saber o que é o entendimento é fundamental para delinear o caminho ao conhecimento seguro.
  46. Corrigir erros e mal-entendidos também ajuda no progresso científico.
  47. Quando se publica alguma coisa, tem que ser numa linguagem que um monte de gente entenda.
  48. As pessoas que mais aproveitarão o Ensaio são aquelas que se aproximam da condição do filósofo: estudantes que praticam filosofia como passatempo.
  49. O livro pode ser resumido.
  50. A inspiração do livro foi uma conversa entre amigos.
  51. Este livro foi escrito para que o filósofo pudesse manter registro de sua própria reflexão sobre o assunto (o entendimento humano).
  52. As memórias que são lembradas mais facilmente são as de eventos muito prazerosos ou muito dolorosos.
  53. A mente sem memória é quase completamente inútil.
  54. Esquecer é perder conhecimento.
  55. Estupidez é ser lento pra lembrar o que se aprendeu.
  56. O vivaz faz melhores julgamentos e discernimentos, por perceber mais facilmente as diferenças entre as ideias.
  57. As crianças, quando têm memória madura o suficiente, podem, embora lentamente, inventar sua própria linguagem e o fariam se não fosse o convívio com os adultos.
  58. Se cada coisa tiver um nome próprio, não lembraremos os nomes das coisas, por isso chamamos pelo mesmo nome objetos que guardam semelhança (cadeira é cadeira, quer tenha braços ou não, encosto alto ou não, quer seja de madeira, plástico ou ferro).
  59. Fazemos isso pela via da abstração.
  60. Em adição, a abstração nos permite nomear essas características comuns que há nas coisas, tornando adjetivos em substantivos.
  61. Se extensão não é solidez, fica um pouco mais difícil para Descartes afirmar que o nada é alguma coisa porque pode ser medido.
  62. Tempo é duração, tal como espaço é extensão.
  63. O tempo só é percebido enquanto estamos conscientes e pensando.
  64. Como o tempo está relacionado com a percepção, não percebemos o tempo passar se estamos muito concentrados em uma coisa específica.
  65. Se sonhamos, voltamos a perceber a passagem do tempo, embora somente no sonho.
  66. Tempo não coincide com movimento.
  67. Tempo é constatação de duração, seja de movimento ou de repouso.
  68. Medir o espaço requer uma referência, com a qual podemos criar medidas de extensão (centímetro, metro, quilômetro…), mas medir o tempo pode ser feito da mesma maneira e o movimento dos astros parece uma boa referência para conceber horas, depois minutos e, então, segundos…
  69. Itinerário do amadurecimento do órgão “tempo” em nosso aparelho mental cognitivo:
    1. Percebendo que uma coisa vem depois e outra veio antes, aprendemos que existe sucessão.
    2. Quando nos acostumamos com a sucessão, percebemos que alguns estágios dela são retidos por nós por alguns instantes, aprendendo que existe duração.
    3. Utilizando referências de durações mais ou menos iguais, chegamos a aprender as medições de duração.
    4. Pela repetição do uso das medições, passamos a usá-las sem auxílio de referências, o que nos permite medir antecipações e memórias (daqui a um dia, um ano atrás).
    5. Quando nos damos conta disso tudo, aprendemos o conceito de eternidade, que é esse presente indeterminado que dividimos, e, consequentemente, inferimos que deve haver algo que sempre existiu, pois, de outra forma, nada existiria agora (logo, que nosso conceito de sucessão é limitado e, consequentemente, toda essa capacidade até agora).
    6. Finalmente, percebemos que o tempo é coisa de nossa cabeça, uma forma que a razão encontra de apreender instantes do eterno.
  70. Para uma coisa sem existência objetiva, o tempo é bem irritante.
  71. O nosso pensamento está impregnado de números.
  72. Toda a matemática depende de uma ideia simples: unidade.
  73. A demonstração matemática é a mais exata.
  74. O movimento depende de espaço vazio.
  75. Quem supõe que algo existe agora, levando em consideração a contingência dos seres, deve, necessariamente, admitir algo de eterno.
  76. Temos a ideia do infinito apenas em potência, uma vez que sempre podemos adicionar mais uma unidade ao número que imaginarmos, mas a ideia do infinito em ato, não a temos.
  77. Também a ideia de poder depende da percepção.
  78. Existem dois tipos de poder: o que age sobre outro e o que recebe a ação.
  79. Nossas ações podem se resumir em duas categorias: pensamento e movimento.
  80. O poder é relação, mas não agente.
  81. O ser humano é livre para fazer tudo o que está a seu alcance, o que não significa que ele é livre para fazer tudo o que quer.
  82. Quando usamos palavras sem saber claramente o significado, nos expressamos de forma infantil.
  83. Substância é aquilo que faz com que algo seja o que ele é, tanto em sua essência como em suas afecções (acidentes).
  84. A ideia de substância não é simples, mas complexa: não apreendemos as substâncias das coisas pelos sentidos, mas pela decomposição de seu conceito (obtendo essência) e pela reunião de características que normalmente seguem esse conceito (obtendo acidentes).
  85. Muitas vezes, o apelo à substância é um argumento gratuito: “é assim porque é propriedade de sua substância”, é como dizer “é assim porque sim”.
  86. A ideia de espírito surge do fato de não compreendermos como as emoções e os sentimentos se originam do corpo: se não vêm do corpo, mas vêm de nós, então não somos somente corpo.
  87. A ideia de substância é tão composta, em vez de simples, que sempre que alguém fala “ferro”, nossa mente compõe uma ideia a partir de várias características encontradas no ferro.
  88. Muitas palavras implicam relação, tal como “velho”, por exemplo, que só é velho em relação a algo que possamos chamar de “novo”.
  89. Como essas relações são frequentemente subjetivas, os céticos achavam que verdades absolutas não era possíveis, porque tudo seria questão de ponto de vista: “perto” e “longe”, “grande” e “pequeno”, são relações relativas (mas se você diz “tem sessenta e cinco anos”, não é mais relativo).
  90. “Criação” é fazer algo a partir do nada.
  91. Também “certo”, “errado”, “bem”, “mal”, “justo” e “injusto” são relativos à lei: só é possível emitir julgamento moral segundo uma lei estimada pelo emissor.
  92. Ideia distinta é aquela que é perfeitamente apreendida por um órgão sensorial (ou reflexão) perfeitamente funcional.
  93. A linguagem não está na capacidade de articulação sonora: os papagaios também formam sons articulados, palavras, mas não as usam para se comunicar.
  94. A linguagem está na correspondência entre estímulo e ideia: é uma tentativa de fazer o outro entender o que eu estou pensando.
  95. Uma boa linguagem comporta negações, palavras que não servem para indicar presença, mas ausência de determinada ideia.
  96. Nomes de coisas espirituais também têm sua origem em nomes de coisas sensíveis.
  97. A razão de sermos entendidos de forma errada não vem das palavras, mas das ideias que temos, as quais não correpondem às ideias que a outra pessoa tem (por exemplo, quando eu uso o termo “abuso” e você ouve o termo “abuso“, a minha definição de abuso pode não coincidir com a sua, de forma que você não entendeu o que eu quis dizer).
  98. É possível falar palavras abstraídas de seus significados.
  99. O objetivo da linguagem é a comunicação.
  100. O fato de usarmos nomes gerais na maior parte das vezes não implica que nunca usamos nomes particulares.
  101. Embora palavras refiram-se à ideias, referem-se à coisas reais por extensão, uma vez que uma coisa real originou a ideia.
  102. As ideias complexas são definidas utilizando ideias simples, mas uma ideia simples não pode ser definida por outras ideias simples (porque isso implica que ela é composta), nem tampouco pode ser definida por ideias complexas.
  103. Quando tentamos definir uma ideia simples, corremos o risco de apenas lhe apresentar um sinônimo.
  104. Se alguém não sabe o que é a luz, dizer que ela é uma onda ou feixe de partículas rápidas e minúsculas provavelmente não explicará nada ao leigo.
  105. Ideias simples só podem ser obtidas pelos sentidos.
  106. Definir um sabor com palavras, por exemplo, nunca é suficiente.
  107. Quando concebemos a ideia de casamento, podemos, pelo processo de abstração e trabalho da ideia, conceber a noção de adultério, mesmo que o adultério nunca tenha sido concebido ali.
  108. Porque nem todos chegam às mesmas concepções pela abstração ou combinação de ideias simples, isto é, porque as ideias complexas variam segundo contexto, que existem palavras que não podem ser traduzidas para outro idioma.
  109. Um objeto pode ter essência composta: corpo é “matéria limitada, extensa e sólida”.
  110. Além disso, essas características não são exclusivas à noção de corpo.
  111. Não se surpreender não significa não ser ignorante.
  112. O filósofo diz, com Tomás, que existe uma hierarquia cósmica: o animal mais baixo está próximo, em termos de perfeição, à mais elevada planta.
  113. Tomamos forma e cor como sinais distintivos das coisas, por isso que somos capazes de ver um leão em um desenho.
  114. É mais fácil nomear uma máquina do que um animal, porque sabemos exatamente o que a máquina é, o que faz, quem fez e de que é feita.
  115. As palavras servem para duas coisas: registrar pensamentos e comunicar pensamentos.
  116. Enquanto que o uso de palavras para registro é de um só tipo, é possível comunicar pensamentos por dois meios: civil e filosófico.
  117. O uso civil das palavras numa conversa serve unicamente para comunicação cotidiana.
  118. O uso filosófico, porém, serve unicamente para argumentar, discutir, provar, demonstrar, enfim, para debater um assunto filosófico ou científico.
  119. O cachorro não se chama cachorro por nenhuma razão particular, mas porque alguém teve que chamá-lo de alguma coisa e decidiu que seria assim.
  120. É possível aprender o nome primeiro e depois o que significa, também é possível o contrário.
  121. Existem diferentes palavras cujos significados não são unânimes.
  122. Nomes referentes a comportamentos humanos não são unânimes em sua maioria.
  123. O filósofo diz que o uso de nomes gerais para comunicação é adequado para conversas civis, mas não filosóficas.
  124. Existem palavras que não significam nada.
  125. Existem palavras que são usadas levianamente, por exemplo, quando falamos de algo que não conhecemos (pergunte ao seu pastor, por exemplo, o que significa “graça”, em sentido religioso, e vejamos em quanto tempo ele responde e quantas vezes gagueja).
  126. Existem palavras que são usadas, no mesmo texto, para se referir a coisas diferentes.
  127. Palavras não são coisas.
  128. Um mal-entendido pode ser causado por supor que o que eu entendo por determinado termo é entendido do mesmo modo por outra pessoa.
  129. Às vezes, duas pessoas discordam apesar de estarem dizendo a mesma coisa.
  130. Não se deve usar palavras abstraídas de seus significados.
  131. Devemos definir as palavras-chave do discurso antes de começar o discurso.
  132. Se não é possível dizer o que significa uma ideia simples, então temos que apontar um exemplar correspondente na natureza.
  133. Se duas pessoas olham a mesma pepita de ouro e um deles corretamente a identifica como falsa só de olhar pra ela, não necessariamente ele tem olhos melhores; pode ser que apenas tenha prática.
  134. Só se pode discutir sobre aquilo a que é possível atribuir identidade, relação, coexistência ou existência.
  135. É possível, e frequentemente acontece, inclusive por razões práticas, que alguém aceite algo sem provas.
  136. “Lembrar” é invocar conhecimento adquirido.
  137. Algo é verdade pra nós na medida em que nossa memória diz que é verdade.
  138. Intuição é apontar verdadeiro ou falso logo ao entrar em contato com a questão.
  139. Raciocinar, para o filósofo, é comparar ideias a fim de concluir alguma coisa.
  140. O raciocínio precisa de provas.
  141. Quanto mais provas forem necessárias, mais difícil será demonstrar algo, mesmo que seja verdade.
  142. Demonstrações sempre incluem intuições, os elementos “óbvios” do raciocínio, coisas com as quais tanto expositor e rebatedor concordam.
  143. Demonstrações, diferente das intuições, são terrenos férteis para mentiras.
  144. Há três tipos de conhecimento: intuitivo, demonstrativo e sensitivo.
  145. É possível conhecer claramente duas ideias, mas não ser capaz de ver como elas se relacionam.
  146. Não é possível conhecer além de nossas ideias.
  147. Os preceitos morais da religião não dependem da ideia da imortalidade da alma.
  148. Ninguém sabe exatamente o que é a alma.
  149. A alma é extensa ou não?
  150. Dizer que a alma não existe porque não podemos conhecê-la de todo é recalque.
  151. Sempre que afirmamos ou negamos o fazemos com base em identidade, relação, existência ou coexistência.
  152. Um objeto pode até ter duas cores e dois odores, mas cada característica precisa ser examinada de cada vez.
  153. A moral também tem princípios evidentes, como “onde não há propriedade privada não existe roubo.”
  154. Outra: “nenhum governo permite plena liberdade.”
  155. Uma das razões pelas quais a moral não é considerada ciência demonstrativa pela época é o fato de que ela é principalmente palavra, abrindo caminho para o relativismo retórico.
  156. Distância e tamanho posam como empecilhos ao conhecimento, porque nossos sentidos não são capazes de perceber coisas muito distantes ou muito pequenas.
  157. Para o filósofo, ciência (conhecimento seguro) dos corpos e coisas físicas é impossível, porque nossas ideias são imperfeitas, óbvio: nossos sentidos são limitados tanto em número como em qualidade.
  158. A relação entre corpo e alma nos escapa.
  159. Investigar certos assuntos é trabalho perdido.
  160. Identificamos verdades pela correspondência entre ideias e não entre palavras.
  161. Usar palavras com significado manipulado é mentir.
  162. A generalização cobre muitos casos particulares, mas não todos.
  163. Se dizemos que todo o ouro é amarelo e encontramos algo que tem tudo para ser ouro, exceto sua cor característica, há dois modos de resolver a questão: pela via material, podemos dizer que é um ouro “excepcional”, uma exceção à regra de que todo o ouro é amarelo, mas, pela via nominal, podemos dizer que, se todo o ouro é amarelo, aquilo não é ouro e deve ser chamado por outro nome.
  164. A coisa vem antes do nome que lha é atribuído.
  165. “Verdades” teóricas, ainda não comprovadas, não devem ser chamadas de “verdades”.
  166. Alguns conhecimentos serão sempre probabilísticos.
  167. Existe um número de afirmações das quais não é possível duvidar (exemplo: todo solteiro é um não-casado).
  168. Verdades evidentes não são as mesmas verdades que absorvemos por hábito.
  169. Quando uma ciência não se funda em coisas óbvias ou depois as nega, passa a ser suspeita.
  170. Mas uma ciência suspeita não necessariamente está errada.
  171. É necessário ir além do óbvio para obter conhecimento novo.
  172. É possível, pela lógica, provar algo que está errado: isso se chama “mentir de maneira crível”.
  173. Quem fala palavras sem saber o que significam, age como papagaio e não como ser humano.
  174. Descartes identificava a prova de sua existência no ato de duvidar, mas o filósofo aponta outra certeza: se eu sinto alguma coisa, estou vivo, porque eu não posso sentir nada se eu não existir.
  175. A ausência de ideias inatas não inviabiliza o caminho para a prova da existência de Deus.
  176. Se o nada é estéril, é necessário que haja algo de eterno e que sempre esteve lá.
  177. É necessário que exista um ser que não foi criado.
  178. Esse criador eterno é, naturalmente, o mais poderoso dos seres.
  179. Há outros seres inteligentes no universo.
  180. Se o fato de eu poder conceber um Deus em minha mente fosse uma prova de sua existência, isto é, de que ele colocou essa ideia lá, então os deuses pagãos também existem.
  181. É necessário que exista um ser necessário.
  182. Um ser irracional não pode produzir um ser racional.
  183. O filósofo também cita indiretamente a primeira via (do movimento) de Tomás: algo não pode mover sem que algo a mova primeiro.
  184. A existência de algo não pode ser provada pela definição dada a esse algo pela minha mente.
  185. Existência deve ser assumida pela via sensual.
  186. Todo aprendizado depende de sujeito (quem estuda) e objeto (o que é estudado).
  187. Memórias não nos trazem a mesma dor ou prazer que seus eventos originários.
  188. É possível saber coisas óbvias sem que sejam colocadas em palavras.
  189. A matemática nos permite conhecimento que parece sobre-humano à primeira vista.
  190. Mas as conclusões racionais precisam de validação experimental.
  191. Um conhecimento é validado pela sua utilidade.
  192. O que o filósofo chama de “julgamento”, os leigos chamam de “faculdade de chute”: é você achar que algo dará certo ou errado, achar que algo é útil ou inútil, achar que algo é prazeroso ou doloroso, isto é, dar chutes, afirmações gratuitas feitas sobre algo incerto.
  193. Conhecimento difere de julgamento (chute) por dispor de provas ou demonstrações.
  194. Entre o chute e o conhecimento está o provável.
  195. A probabilidade, tal como chute, nos leva a assumir como verdadeiro algo que ainda não sabemos se é ou não verdade.
  196. “Fé” é uma afirmação baseada em probabilidade.
  197. Usar a probabilidade de maneira justa requer não apenas o reconhecimento de que algo é “provável”, mas verificar também a opinião contrária.
  198. É preciso admitir que coisas prováveis podem não ser verdade, mesmo que a chance seja baixa.
  199. É preciso também tolerar quem tem opiniões discordantes sobre o mesmo assunto.
  200. Quando encontrar um argumento oposto ao seu, antes de condenar o argumento do outro como errado, verifique se você realmente tem razão.
  201. Reveja seus pressupostos.
  202. “Confiança” é acreditar no testemunho de muitas pessoas.
  203. Deve-se desconfiar quando o testemunho, mesmo o de muitas pessoas, contradiz algo que parece evidente ao que julga.
  204. Tudo aquilo que excedeu nossas ideias, sendo que todas elas têm início na percepção, é automaticamente suspeito.
  205. A razão vai além dos sentidos.
  206. Muitas vezes, a prática de silogismo não é necessária.
  207. Se o silogismo fosse extremamente necessário, então todos antes de Aristóteles estavam errados em tudo.
  208. Todos os raciocínios corretos podem ser reduzidos à silogismo, provido que estejam realmente corretos (bem conduzidos e incluindo apenas afirmações verdadeiras).
  209. Por vezes, utilizar silogismos pode até atrapalhar o raciocínio.
  210. É mais fácil prosseguir um raciocínio pela via sequencial ascendente em vez do silogismo.
  211. Se o silogismo precisa de prova empírica, ele não basta por si.
  212. O silogismo serve também para mentir.
  213. As proposições precisam de provas, mas as melhores provas são as empíricas e as matemáticas.
  214. O silogismo pode até organizar o pensamento que já temos, mas não serve para nos dar conhecimento novo.
  215. Embora o conhecimento das coisas gerais traga muita felicidade, ele não é tão útil como o conhecimento das coisas particulares.
  216. Mostrar que o outro está errado não necessariamente te afirma como certo: os dois podem estar errados.
  217. Diz o filósofo que, mesmo por inspiração divina, ninguém pode fazer alguém entender algo acerca do qual não tem ideias.
  218. Se o terreno da razão e o da fé não forem delimitados, então qualquer proposição, afirmando ter a ver com fé, não pode ser racionalmente contradita.
  219. Só é possível errar em probabilidade ou chute.
  220. Quatro fontes de erros: provas insuficientes, inabilidade para interpretação da prova, ignorância deliberada, critério de probabilidade suspeito.
  221. Se há interesse em saber a verdade sobre algo, a oposição deve ser ouvida.
  222. Ignorância deliberada frequentemente tem origem na preguiça.
  223. É possível errar nas probabilidades porque algumas pessoas simplesmente, diante de opiniões discordantes, em vez de ficarem com a mais provável, automaticamente assumem que não há resposta certa.
  224. Uma verdade não contradiz a outra, mas princípios por vezes o fazem e também as autoridades por vezes o fazem.
  225. A persistência no engano pode ser ocasionada por orgulho ou medo da vergonha.
  226. Como qualquer texto, a Bíblia Sagrada pode ser interpretada de diferentes formas.
  227. É exagero dizer que a maioria está sempre errada.

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