Analecto

17 de agosto de 2016

Anotações sobre a carta sobre a tolerância.

  1. A tolerância entre cristãos é sinal distintivo de uma verdadeira igreja, em sentido tradicional da palavra como “coletivo de cristãos”. Se orgulhar de ser católico, se orgulhar de ser ortodoxo, se orgulhar de ser protestante, no final são manifestações de orgulho, que revelam muito mais o desejo de superioridade do que a doutrina de Cristo, que inclui a humildade (Mateus 11:29), o oposto do orgulho. Erasmo chamará esse orgulho de “presunção“.
  2. O cristão deveria ser caridoso e ter boa vontade para com todo o mundo, inclusive com os que não são cristãos. Como é, então, que muitos cristãos não são capazes de caridade e boa vontade até com outros cristãos?
  3. A religião é um regulador de comportamento. O cristão que não se comporta como cristão não é cristão, mesmo sendo batizado, por exemplo.
  4. As ações revelam o cristão, não o endereço da igreja onde se congrega.
  5. Se você não se esforça em amar o próximo, não está tão preocupado com sua salvação. Quanto mais com a dos outros.
  6. Por exemplo: pastores que cometem todo o tipo de loucura claramente errada de um ponto de vista bíblico. São, propriamente, cegos guiando cegos. Porque, não querendo a salvação eterna, guiam aqueles que querem. Cairão ambos no abismo (Mateus 15:14). O padre ou o pastor deveria ser exemplo de comportamento cristão. Do contrário, não serve ao ofício.
  7. Suponhamos que você persiga uma menina que cometeu aborto, mas pouco tempo depois sua própria filha o faz. Você vai perseguir sua filha da mesma forma que persegue a estranha? Se sim, você não ama sua filha. Se não, você é parcial e injusto. Portanto, não se deve perseguir ninguém.
  8. Não se deve converter à força. Nem todos os que não vão à igreja não são cristãos.
  9. No dia do julgamento, Jesus julgará um por um (Apocalipse 20:12), e não igreja por igreja. Portanto a controvérsia sobre qual igreja é a correta não tem relevância para a salvação, que é obtida por esforço pessoal do crente de se aproximar de Deus pelas boas obras.
  10. Não é a teologia da outra igreja que merece ataques, mas os vícios praticados pelos crentes. Não se deve pregar contra os católicos, contra os ortodoxos, contra os protestantes, mas contra o roubo, contra o adultério, contra o assassinato…
  11. A conversão não deve ser forçada pela força individual, pelo exército ou pelo Estado. Ninguém é obrigado a crer. Se fosse crime não ser cristão, como o juizado me julgaria, sendo a fé pessoal? Eu poderia até ir pra igreja, comer o pão partido, tomar o vinho, ouvir o sermão, atender à escola dominical e praticar tudo aquilo que é tido por cristão (católico, neste caso), mas, se for à força, não vale pra Deus. Se fosse pra converter pela força, Deus poderia fazer todo o mundo acreditar neste instante. Mas isso violaria o livre-arbítrio dado a nós por ele.
  12. Por causa disso, não se deve misturar Igreja e Estado. Se o cristianismo, por exemplo, se tornasse uma obrigação civil punida por leis humanas, que bem isso faria aos ateus? Nenhum bem, mas o contrário: veriam a religião como uma obrigação, tão civil quanto o serviço militar obrigatório. Talvez isso até os afastasse da fé verdadeira, que é interior. O filósofo, aqui, em polêmica com Hobbes. Surpreso? Não deveria estar.
  13. O Estado não deve, nem pode, “cuidar das almas”.
  14. Isso porque o poder estatal é coercitivo material, não tendo, portanto, nenhum poder sobre o espírito. Se você espanca o ateu até ele dizer que virou cristão, é claro que ele falou da boca pra fora. Além do mais, uma conversão assim é errada, porque Jesus não ensinou isso. Jesus argumentava. Isso tem poder sobre o espírito.
  15. Além do mais, Deus não deu ao Estado o direito de impor a religião. Ao menos, não ao Estado gentio, pois sabemos que Estado e religião andavam juntos em Israel, através da Lei, que é ao mesmo tempo religiosa e civil.
  16. O Estado regula este mundo. Ele não tem poder sobre o outro mundo.
  17. Além do mais, leis mudam de país para país. Se o Estado tivesse o poder de sancionar um culto que ocasionasse a salvação, mas outro Estado fizesse o mesmo com outro tipo de culto, apenas um poderia estar certo. Será plausível que alguém seja condenado por ter nascido em outro país?
  18. A Igreja é uma associação voluntária de homens livres que procuram juntos a salvação eterna.
  19. Não é estranho que igrejas tenham regras diferentes, como condições de exclusão, distribuição de cargos e datas de reunião. Essas regras são particulares e variam de igreja pra igreja, não produzem salvação.
  20. Não há necessidade de bispo descendente de apóstolo para que Cristo esteja entre nós (Mateus 18:20). Este é um ataque à ortodoxia. Se os ortodoxos acreditam que uma igreja só pode ser validada pela descendência apostólica, tudo bem, mas que fique claro que isso é uma exigência particular da igreja deles e que não fornece salvação se for seguida ou quebrada. Mandamento de homem.
  21. Há diferentes igrejas, vá pra qual você achar melhor. Mas tenha em mente que não é essa escolha que te salvará, mas sua aderência à doutrina de Jesus.
  22. Há mais chance de se salvar lendo a Bíblia do que indo pra igreja. Muitas igrejas demandam de seus fieis comportamentos que a Bíblia nem sequer menciona. A Bíblia diz o que é necessário à salvação (Lucas 18:20) e você nem sequer precisa pertencer a uma igreja pra fazer essas coisas. De fato, é recomendado, mas não é fundamental.
  23. Eu não posso excluir da minha igreja alguém que Cristo não excluiria da vida eterna.
  24. Os cristãos não deveriam perseguir, mas pelo contrário: Jesus disse que os cristãos seriam perseguidos. Há mais razão de se estar feliz em receber perseguição, se for em nome da justiça (Mateus 5:10).
  25. Tal como o Estado deve se aparelhar para o bem-estar material do povo, a Igreja deve se aparelhar para seu bem-estar espiritual. Então a igreja não deve impor aos fieis nenhuma regra que não tenha essa finalidade. Dízimo de dez por cento? Não precisa; isso já era considerado abuso na Idade Média.
  26. Se a Igreja não deve usar a força, como vou punir quem não obedece? No máximo, você pode excluir a pessoa da Igreja. Deixe o resto pra Deus.
  27. O Estado deve tratar todos de maneira igual, independente do credo.
  28. As outras religiões talvez façam piada das perseguições dentro do cristianismo.
  29. Com direito uma igreja persegue outra?
  30. A igreja certa tem direito de perseguir as erradas, não é? Mas qual é a certa? A minha, claro.
  31. Se eu devo amar meus inimigos (Lucas 6:27), quanto mais os que não me fizeram nenhum mal.
  32. A autoridade eclesiástica é somente eclesiástica. O papa não deveria ser rei e nem pastor deveria ser deputado.
  33. Se alguém não vai pra igreja ou pro culto, é problema dele. Não cabe a mim punir o pecado do outro. Como pode um pecador punir um pecador, se a punição só pode ser ministrada por um superior, neste caso, alguém que não peca (João 8:7)?
  34. Observe como a dissidência entre cristãos é sobre coisas de pouca importância. Essas controvérsias são exagero.
  35. Se há apenas uma cura para uma doença, mas essa cura é desconhecida, eu tenho culpa por escolher a que eu acho certa? Se só houver uma igreja “certa”, ninguém sabe qual é. Então a minha escolha não é condenável.
  36. Eu não sou obrigado a acreditar em ninguém em matéria de salvação, mas na revelação apenas. Se eu lesse a Bíblia, poderia julgar com mais propriedade a qual grupo pertencer, se eu tivesse necessidade. Como a salvação é pessoal e como não há consenso sobre como chegar lá, eu não tenho obrigação de acatar a opinião de alguém tão ignorante como eu.
  37. Os israelitas, preferindo seus reis em relação aos profetas, foram levados à práticas erradas. Não há garantia da segurança do ensinamento do padre ou do pastor. Se eu não conheço a Bíblia, não serei capaz de dizer se estão ensinando corretamente. Então, se eu tiver em confiar na interpretação de alguém sobre revelação divina, por que não em minha interpretação? Afinal, os profetas escreveram livros. Estão aí e eu posso lê-los.
  38. Se um país tiver uma religião oficial, não será a religião do governante? É muita presunção filiar todos à igreja do presidente.
  39. Se Igreja e Estado fossem a mesma coisa, isso seria um desastre em termos de culto: as práticas da religião poderiam mudar dependendo de quem está na administração estatal. Imagine só: o culto à moda da social-democracia, o culto à moda do PT, o culto à moda do Partido Verde ou do Partido Socialista Cristão, do do Pratido Comunista (paradoxo)… Será que eu poderia mudar de culto assim tão facilmente sem um pingo de peso na consciência?
  40. Cultuar por obrigação não produz salvação. Observe que Pascal sustenta que ir pra igreja à força repetidas vezes acaba fazendo o indivíduo dar uma chance à fé.
  41. A religião só é frutífera se o fiel acredita que ela é a verdadeira.
  42. Não se deve exigir dos fieis algo que Deus não exige.
  43. Aquilo que é ilegal não deve ser parte de nenhum culto dentro do território onde tal comportamento é ilegal. Por exemplo: o mórmon pode, religiosamente, se casar com mais de uma mulher. Como isso é ilegal no país, não podem ter várias mulheres em território nacional, mesmo que seja religiosamente aceito.
  44. “Ninguém pode ser despojado de seus bens terrenos por motivo religioso.” Fala isso pra Universal.
  45. Se Igreja e Estado se fundem, quem não é cristão pode ter seus bens, liberdade e vida sob risco. Confiscar bens porque o súdito é “idólatra” seria um exemplo de como o governante se sentiria tentado a usar a religião como desculpa pra explorar a população.
  46. A cobiça é pecado, mas não é crime. Será que se Estado e Igreja se fundissem, os políticos corruptos seriam perseguidos por manifestarem cobiça? Ou será que usariam a oportunidade para aumentar ainda mais suas posses?
  47. Se o Estado obriga os ateus à Igreja, mesmo que ateu não acredite, não entende nada de salvação.
  48. O dever do Estado é salvaguardar a segurança e a paz em seu território. Ele deve punir apenas comportamentos que ameacem a paz. Então, por exemplo, embora Paulo diga que ser homossexual é pecado (1 Coríntios 6:9), isso não precisa ser proibido por lei, porque ser homossexual não necessariamente ameaça a paz no território estatal. Ao menos, num contexto cristão.
  49. A verdade pode ser descoberta sozinha, mas o engano precisa ser mantido por mais de uma pessoa ao mesmo tempo para se perpetuar.
  50. O cristão deve converter os outros, mas não deve usar a força pra isso.
  51. A vida em sociedade é mais longa.
  52. Se o Estado é democrático e a maior parte da população é cristã, ele provavelmente não entrará em conflito com a Igreja. Afinal, o Estado democrático zela pela felicidade da maioria, então ele não entrará em conflito com a Igreja se a maioria das pessoas é cristã.
  53. Se o Estado prescreve algo que a Igreja condena, o fiel realmente fiel preferirá ser punido pela lei do que pecar. Isso não ocorreria se as autoridades fossem realmente apoiadas por Deus (Romanos 13:1).
  54. Se uma igreja quer ter privilégios legais sobre as outras ou sobre quem é ateu, deve ter esse interesse combatido; isso só seria possível se a Igreja tivesse laços com o Estado, o que não pode acontecer. Além de que isso seria injusto.
  55. A Igreja não pode se opor ao Estado. Hobbes dirá o mesmo.
  56. O filósofo diz que o ateísmo é intolerável, mas, considerando que ele diz que ninguém é obrigado a crer, ele provavelmente está se referindo às pregações ateias, isto é, à difusão na sociedade do discurso anti-teísta. Se o filósofo diz que isso é intolerável, ele está dizendo que convencer os outros de que Deus não existe deveria ser crime. Parece contraditório. Mas a razão disso é que a crença em Deus é um duplo estanque contra comportamentos destrutivos ao Estado. Alguém que não teme as leis, mas teme a Deus, não quererá roubar. Então, remover a crença no divino é remover uma barreira que contém a tendência criminosa.
  57. Uma igreja que não tolera as outras provavelmente está mais interessada em conseguir fieis pra sua denominação do que realmente salvar as almas do rebanho.
  58. A tolerância religiosa deve se tornar lei. É importante lembrar que o filósofo está se referindo às religiões que não trabalham contra o Estado, como aquelas que requerem sacrifício humano, quando o assassinato é crime.
  59. A religião é causa de dissenções estatais, dirão alguns, mas isso porque os membros de determinada religião podem estar se sentindo oprimidos. É como a cor da pele. Não é a “raça” que é causa de dissenção, mas a opressão sofrida pelos de determinada cor. Pessoas oprimidas se rebelam, é natural. A causa nesses casos não é nem religião e nem cor da pele, mas a discriminação.
  60. Uma missa, por exemplo, pode ocorrer fora do templo. Lembro de quando eu era parte da Legião de Maria (na infância, se me lembro bem), por vezes fazíamos “ofícios”, que eram orações e cânticos públicos. Era embaraçoso, mas ocorria. As testemunhas de Jeová, também, têm atividades públicas, como a pregação itinerante. Se as religiões têm um aspecto público, então elas não devem ter o que esconder do Estado.
  61. Uma igreja que encoraja comportamentos criminosos deve ser punida, mas as que não encorajam nem por isso devem receber benefício estatal.
  62. O Evangelho não sanciona a exclusão social com base em religião. Não há base religiosa para banir do país os judeus, os muçulmanos ou os ateus.
  63. A existência de outras religiões não necessariamente é uma ameaça aos cristãos.
  64. Em muitos sentidos, a religião cristã é a pior, por causa das dissidências e perseguições entre os próprios cristãos.
  65. Nesse sentido, não é a religião que é ruim, mas os fieis.
  66. Deixar a Igreja Católica em favor da Protestante é normal. O contrário acontece também. Isso não é apostasia. A apostasia é deixar o cristianismo, isso é, deixar de crer em Cristo como cristão. Por exemplo: tornar-se ateu, judeu, muçulmano… Apesar de que existem judeus que crêem em Cristo e observam a Lei de Moisés, diferindo dos outros judeus apenas por terem aceito Jesus como o Messias. Alguém pode se perguntar se é possível seguir o Evangelho e a Lei ao mesmo tempo, mas basta lembrar que a Lei não promete salvação eterna, mas benefícios terrenos (Deuteronômio 28:1-14). Então um complementa o outro para o judeu crente: a Lei para benefício terreno e o Evangelho para a salvação. Com a vinda de Jesus, foi revelado que existem porções da Lei que nos tornam elegíveis à salvação (Mateus 19:16-19). Então, observar toda a Lei causa a salvação e benefício terreno, mas, se tudo o que o indivíduo quer é ser salvo, o Evangelho basta. Acho que foi isso que Tiago quis dizer quando recomendou porções da Lei aos gentios convertidos (Atos 15:28-29), sem, contudo, condicioná-las à salvação, porque a observância dos preceitos da Lei, mesmo por quem não é judeu, permite benefício terreno e uma boa vida. Mas isso é minha opinião.
  67. Para o filósofo, católicos e protestantes, embora ambos cristãos, participam religiões diferentes, por terem diferentes regras de fé. A distinção é simples para o filósofo, é a mesma distinção feita pelo Deu A Louca Na História: o protestante acredita na Bíblia, mas não acredita no Papa. Hoje, os reconhecemos como diferentes denominações na mesma religião.
  68. Ser um herege é simplesmente dividir uma religião ou denominação em diferentes grupos com base em questões sobre as quais os fundamentos calam. No protestantismo, no qual a Bíblia é a única regra de religião: é lícito batizar bebês? A Bíblia não diz claramente que não. Então, se a opinião corrente era de que sim, os que disserem não são hereges.
  69. Assim, herege é quem divide a Igreja.
  70. Mas se a discordância é sobre algo que a regra de fé não cobre, então que diferença faz? Assim, as heresias são sempre desnecessárias, com a decisão de escolher um ou outro caminho sendo totalmente pessoal e não uma razão para dividir a igreja em grupos diferentes.
  71. A heresia é uma divergência em regras de fé (fundamentos) e o cisma é uma divergência de culto ou disciplina (práticas).
  72. Acreditar na Bíblia basta. Se você não a nega e nem toma outros fundamentos além dela como norma de religião, provavelmente não é herege nem cismático.
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3 Comentários »

  1. […] Isso dá a impressão, pro leigo que não sabe o que é filosofia nem o quanto a religião deve a esta, de que filosofia é coisa de ateu e que a filosofia te tornará ateu se você deixar. Diga-se de […]

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    Pingback por Eu assiti “Deus Não Está Morto.” | Pedra, Papel e Tesoura. — 25 de fevereiro de 2017 @ 12:38

  2. […] cabe ao estado se preocupar com a alma dos […]

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  3. […] na Idade Moderna, o preconceito de que a China, por exemplo, era um governo ateu. Havia um grande preconceito contra […]

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