Analecto

27 de setembro de 2016

Anotações sobre o “Dicionário Filosófico” de Voltaire.

“Dicionário Filosófico” foi escrito por Voltaire. Abaixo, algumas anotações feitas sobre seu texto.

  1. Não é possível conhecer a nós mesmos plenamente.
  2. Alma é vida.
  3. “Três quartos” da humanidade não se importa com a questão da alma e “um quarto” chega a fazer a pergunta.
  4. A alma só se torna um problema filosófico depois da revelação.
  5. O pensamento não vem do corpo, mas vem de nós.
  6. O fato de haver movimento (vida) em órgãos que não estão sujeitos à nossa vontade levou os antigos a admitirem que mais de uma alma habita o corpo: uma pensante, uma emotiva, uma vegetativa.
  7. Os defensores da alma só podem se apoiar na religião.
  8. A Bíblia Sagrada não menciona alma imortal.
  9. A Lei de Moisés não fala de vida futura nem de imortalidade.
  10. O debate teológico é irrelevante.
  11. Amizade é um contrato.
  12. O amor existe em muitos animais, mas a cópula não ocorre com todos.
  13. A temporada sexual do ser humano nunca acaba, não se fala em “cio” das mulheres.
  14. O ser humano aperfeiçoa sua prática erótica.
  15. Sexo parece mais gostoso quando feito com quem você gosta.
  16. Como o ser humano procura mais prazeres em relação ao sexo, ele está sujeito a mais frustrações.
  17. O amor próprio é natural.
  18. O homossexualismo nunca foi obrigatório em nenhuma lei, mas nem todos os códigos proibiam.
  19. O termo “anjo” tem origem babilônica.
  20. Temos mais consideração pelos mortos do que pelos vivos.
  21. A caça pode levar ao canibalismo: um inimigo morto não é tão diferente de um frango abatido.
  22. O canibalismo ocorreu com menos frequência na história do que o sacrifício humano aos deuses pagãos.
  23. As igrejas primitivas rejeitavam, em uníssono, o Apocalipse de São João.
  24. O Apocalipse de São João foi provavelmente escrito depois que João estava morto.
  25. Porque o livro é de natureza alegórica, os eventos ali narrados podem representar vários eventos históricos: como o fim está próximo (e está), o Apocalipse poderia significar a terceira guerra mundial contra o Estado Islâmico, como antes se pensava que ele se referia ao reinado de Carlos IX, por exemplo.
  26. Quem espalhou o boato de que Sócrates era ateu foi um poeta que escrevia comédia.
  27. É muito fácil desvirtuar um texto para provar uma intenção que o escritor não tinha.
  28. É mais fácil lembrar do suspeito de um crime do que de um herói confirmado.
  29. Os chineses, na época de Voltaire, não eram cristãos, mas nem por isso ateus; eles tinham a concepção de um ser supremo e justo, que vinga injustiças e premia bons atos.
  30. É mais fácil ao fanático matar do que ao ateu.
  31. Se este é o melhor dos mundos possíveis, como se explica a miséria humana?
  32. O enigma de Epicuro não foi inventado por Epicuro, mas por um padre.
  33. Essa questão é mais pertinente entre religiosos do que entre ateus.
  34. Nem todas as potências se atualizam e existem coisas que fazemos que não geram nenhum efeito grandioso no universo, como queriam alguns da época de Voltaire que achavam que todos os atos, pela cadeia de causalidades, eventualmente afetariam o mundo inteiro.
  35. A cadeia de efeitos relacionados à determinada causa eventualmente termina.
  36. Nossas fontes de prazer e dor, elementos constituintes do caráter, não podem mudar, embora possam ser escondidas.
  37. Quando não souber, confesse que não sabe.
  38. Se Deus está em tudo, inclusive em mim mesmo, eu não seria parte da divindade, tal como a luz que passa pelo vidro não se torna por isso parte dele.
  39. Faça ao outro o que gostaria que fosse feito a você, é como se define justiça no diálogo do catecismo chinês.
  40. Quando nos referimos à vida e às qualidades mentais, usamos o termo “alma”, mas isso não implica dizer que a alma é imortal.
  41. Animais têm memória, paixões e ideias, ou seja, têm “alma”.
  42. A crença na imortalidade da alma nos compele à justiça.
  43. Mas sejamos bons quer a alma exista ou não.
  44. Se a vida acabasse na morte, definitivamente, sem esperança de vida futura, tanto para bons quanto para maus, os crimes cometidos em vida e que não foram punidos em vida permaneceriam impunes.
  45. Se perdermos a memória, seremos outra pessoa.
  46. É meio estranho que cultos tão pequenos reivindiquem para si a verdade, como se todo o resto estivesse no engano.
  47. Não basta não praticar o mal, deve-se praticar o bem.
  48. O bom amigo aponta os defeitos do outro, com tato, para não machucar.
  49. A amizade não precisa ser norma de religião, porque a melhor amizade é espontânea.
  50. Vários preceitos da religião cristã, como amar os próprios inimigos, já existiam em outras nações que nunca haviam ouvido falar de Cristo.
  51. Existem as virtudes úteis apenas a nós mesmos e as virtudes úteis a todo o mundo.
  52. A hospitalidade é uma virtude esquecida.
  53. Há riscos na prática de qualquer virtude.
  54. Não haverá necessidade de vingança se as boas ações forem recompensadas.
  55. Gosto não se discute.
  56. Contenda causa mais danos que a tolerância.
  57. Quando pregar, fale da moral, não das controvérsias.
  58. A moral é mais importante do que a teologia.
  59. A prática da comédia pode ser construtiva, se usada como meio de aprendizado.
  60. Uma festa pode matar tanto quanto uma batalha.
  61. Talvez houvesse menos abuso de drogas se houvesse mais trabalho.
  62. A Escritura não precisa ser questionada, mas se deve questionar a opinião humana sobre a Escritura.
  63. É possível ter certeza e estar errado.
  64. A certeza matemática é propriamente certeza.
  65. A certeza lógica é propriamente certeza.
  66. Os babilônios já sabiam que a Terra girava em torno do Sol.
  67. Muitos filósofos esconderam a verdade para não serem perseguidos, uma vez que a verdade poderia não ser entendida.
  68. Não é necessário saber física pra ser santo.
  69. Não é de hoje que filósofos do ocidente admiram a filosofia oriental.
  70. Mas se a filosofia oriental não ficou popular no ocidente até recentemente é porque se tinha, na Idade Moderna, o preconceito de que a China, por exemplo, era um governo ateu.
  71. No oriente, se tinha o hábito de recompensar as virtudes e punir os crimes, mas, no ocidente, nunca um governo foi bem-sucedido em recompensar dignamente a virtude de alguém, limitando-se apenas ao castigo do crime.
  72. Podemos enumerar propriedades do corpo, mas sem exatamente saber o que ele é.
  73. Voltaire critica Berkeley: se nada é corpo e tudo são ideias do nosso espírito, como é que eu morro se levar um tiro?
  74. Quente e frio são relativos, mas trinta graus Célsius não é relativo.
  75. Perto e longe são relativos, mas um quilômetro não é relativo.
  76. Muitos platônicos dos três primeiros séculos se converteram ao cristianismo, levando consigo a filosofia platônica.
  77. Há mais evidência bíblica contra a Trindade do que a favor.
  78. As primeiras conversões ao cristianismo na China começaram porque os cristãos se mostraram úteis e pacatos, em vez de escandalosos e extravagantes.
  79. Mesmo que eu pregue para cem pessoas, é natural que nem todos se convertam.
  80. Os populares brigam com os punhos, mas os intelectuais brigam com críticas escritas, por vezes motivadas por inveja e mesquinharia.
  81. O gênio irritável é escusável nos artistas, na maioria das vezes.
  82. O conteúdo de uma peça ou música muitas vezes escapa à plateia, que está lá pra se divertir, não necessariamente pra pensar ou criticar o trabalho do compositor.
  83. Na arte, dar prazer é o principal.
  84. O melhor crítico de arte é o bom artista, de bom gosto e bem treinado, que não deixa seu julgamento ser prejudicado pela inveja ou pelo orgulho.
  85. Na mitologia grega, o destino é maior que os próprios deuses.
  86. O ser humano não pode mudar as leis da natureza.
  87. Se Deus entende todos os idiomas, não há necessidade de orar em latim.
  88. Saber teologia não ajuda a ser justo, bom ou civil.
  89. Já se pensavam que existiam espécies de homens que haviam sido extintos.
  90. Escalas de gradação de seres estão fadadas a ser incompletas.
  91. Todos têm opinião política.
  92. Não adianta aconselhar um mau governante: ele não quererá ouvir.
  93. Nenhum governo humano dura pra sempre.
  94. Existem muitos insatisfeitos com o próprio governo e que prefeririam viver em outro país.
  95. Leis variam de lugar para lugar também por causa do clima e da geografia.
  96. Mas não existe um lugar onde só se deva obedecer às leis.
  97. Não se deve julgar costumes passados usando os modernos como referência.
  98. Antigamente, tocar os genitais um do outro era um sinal de respeito e de promessa.
  99. Sabia que a Bíblia Sagrada usa “coxa” como eufemismo pra “saco”?
  100. Virtude é praticar o bem.
  101. Fanatismo é a fé que mata.
  102. A marca do fanatismo é condenar à morte quem não pensa como o fanático.
  103. Os fanáticos, ao falar de sua fé, tremem, ganham um brilho diferente nos olhos, aumentam o tom da voz, irrompem em movimentos súbitos.
  104. O fanático cristão tem em mente os exemplos de célebres assassinatos do Velho Testamento.
  105. Se o fanático se julga inspirado por Deus, ele se acredita acima da lei.
  106. Como persuadir alguém que julga que está matando em nome de Deus?
  107. As religiões orientais não têm fanáticos, por serem predominantemente filosóficas.
  108. Seitas de filósofos sinceros também não têm fanáticos.
  109. Quando os sentidos se enganam na percepção de algo, não é porque nossos olhos estejam enganados, mas sim que a informação dada foi mal-interpretada pela razão.
  110. Mentir para uma criança a fim de deixá-la mais receptiva ao remédio amargo também não é boa ideia, porque, quando ela colocar o remédio na boca, vai te achar um mentiroso, prejudicando a confiança entre você e a criança.
  111. Mentir para fins religiosos leva ao ateísmo.
  112. A crença de que Deus recompensa os bons e pune os maus basta para conduzir as pessoas crentes ao bem, tornando a teologia inútil.
  113. Pare de tentar converter os ateus.
  114. Chamamos nossas faculdade mentais de “espírito” por razões aleatórias.
  115. Considerando quantas coisas nós ignoramos, o título de mestre ou doutor não quer dizer muita coisa.
  116. Sem misericórdia, poucos estariam vivos.
  117. Deus não se beneficia de ações humanas.
  118. Dar glória a Deus com atos vãos pode até ferir o terceiro mandamento (Êxodo 20:7).
  119. Deus não precisa intervir no universo o tempo todo, porque sua criação tem um nível de autonomia.
  120. Passar fome ou adoecer nem sempre dependem da vontade humana, mas entrar em guerra, sim.
  121. Para dar leis a alguém, é necessário consenso do que recebe a lei.
  122. Há soldados que vão pra guerra sem saber contra quem lutarão e por que lutarão. Só querem ser pagos.
  123. Antigamente, os exércitos eram abençoados por padres, os quais pediam a ajuda de Deus para vencer o exército oposto. Isso já é pecado grande o bastante. Depois da guerra, nem sempre agradeciam a Deus, mesmo que tivessem um bom saldo de mortes. Isso provavelmente é um pecado menor, já que eu acredito que Deus não ajudaria na guerra (fazia no tempo do Velho Testamento para o estabelecimento da nação judaica como especial).
  124. O cristão que participa da guerra e que prega contra todos os tipos de vício fora da ocasião de guerra comete hipocrisia: fala contra pecados pequenos, que nem sempre são pecados, mas comete os grandes. Como corrigir o outro se eu faço pior que ele (Mateus 7:5 / João 8:7)?
  125. O amor é a única esperança de reparo da conduta humana. Mas frequentemente trabalhamos contra o amor.
  126. Os pecados que não são cometidos contra o amor parecem ser menores do que os cometidos contra o amor. Na verdade, alguém escreveu que a prática da caridade, uma manifestação de amor, perdoa pecados (1 Pedro 4:8). De fato, não há quem não peque, mas sejamos bons pelo menos.
  127. A guerra causa mais males do que todos os vícios cometidos por uma só pessoa em toda a sua vida.
  128. De que vale a virtude numa guerra?
  129. É especialmente triste quando os que morrem na guerra são jovens guerreiros. Tinham uma vida inteira pela frente e morrem aos vinte anos.
  130. Pra não falar das crianças mortas entre as batalhas.
  131. Antes da subida do primeiro rei, Israel era governada por juízes, enviados de Deus. Quando Israel resolveu que seria bom se subjugar a um rei, como os gentios faziam, estavam rejeitando o próprio Deus (1 Samuel 8:7). Isso não necessariamente invalida a política, se seguimos o mandamento divino como algo acima das leis humanas. Então, participamos da política na medida em que isso nos traz benefício, mas não absolutamente. Além do mais, Deus governava Israel, mas não as gentes. Se Deus se mostrar a nós para nos governar, o seguiremos, certo? Se ele realmente se manifestar através da Bíblia Sagrada, então tudo bem, pois ele não proíbe que os seres humanos tenham chefes entre si. Especialmente se ele não instaurou chefe visível entre nós. Enquanto Deus estiver afastado de nós politicamente, a política humana é o melhor que temos. Podemos praticá-la na medida do benefício e enquanto ela não prejudica nossa obediência ao chefe maior, que é Deus.
  132. O governo de Israel passou a ser monárquico e humano. O pecado de Adão se repete.
  133. Voltaire identifica contradições entre os livros dos Reis e os livros das Crônicas. Como Deus já não mais governava Israel diretamente, mas podia apenas dar conselho por meio dos profetas, é natural que a história tenha sido escrita de forma secular. Se Deus fosse o único escritor dos livros de Samuel, Reis e Crônicas, esses livros não deveriam se contradizer em relação à ordem em que os fatos acontecem. Isso mostra que os escritores estavam narrando os fatos conforme sua lembrança. O mesmo se dá no Novo Testamento: os Evangelhos têm contradições históricas. Isso não quer dizer que Jesus nunca existiu ou que ele não é o Messias (sua vida está cheia de profecias concluídas), mas que os livros que narram sua história, principalmente o Santo Evangelho Segundo São Lucas (o qual, em Lucas 1:3, admite que seu evangelho é fruto de uma pesquisa e não de divina inspiração), foram escritos por humanos, esforçando suas memórias humanas e capacidades humanas. É importante lembrar que os evangelhos se contradizem apenas em relação à cronologia, mas não em relação à doutrina, ou seja, a Bíblia pode até ser infalível moralmente, mas não é, certamente, inerrante. Além do mais, se os Evangelhos fossem inspirados, ou seja, como que “ditados” por Deus para humanos copiarem, todos os Evangelhos canônicos deveriam concordar em tudo, de forma que um só bastaria. Mas, se temos quatro, é para que o leitor, lendo os quatro, identifique a história real, que transparece nos quatro pontos de vista (um aluno, uma testemunha ocular, um pesquisador e um apóstolo).
  134. Outro argumento de Voltaire contra a possível inspiração divina por trás de Reis e Crônicas é de que são histórias com quase zero valor moral, segundo ele. A Lei e as Profecias são bastante edificantes em termos morais. Mas a História (de Josué até Ester) é, para Voltaire, um banho de sangue: é morte após morte, assassinato após assassinato.
  135. Idolatria é adorar uma imagem ou representação. Render culto a uma imagem, como uma estátua, lhe oferecendo orações, sacrifícios, súplicas e gestos de respeito. Tomás, canonizado como santo pela Igreja Católica, já condenava a adoração de imagens e até mesmo de Maria, embora implicitamente. Para ele, Deus deveria ser sempre o centro do culto. Se hoje se sustenta que os católicos rendem culto à Maria ou aos santos canonizados, me pergunto como e quando a Igreja começou a fazê-lo, porque Tomás, na Idade Média, já achava isso errado. Ironicamente, depois que morreu, Tomás foi feito o santo padroeiro da educação e recebe culto.
  136. Muitas vezes, a estátua ou a imagem é meramente um meio do fiel se concentrar na divindade ou pessoa que está representada. Ele não é tolo o bastante para achar que a estátua é a pessoa representada.
  137. O engano do idólatra não é adorar a estátua, mas adorar a divindade falsa, diz Voltaire. Na verdade, e com isso concorda Tomás, o engano está em adorar qualquer coisa que não o Deus verdadeiro.
  138. Assim, o fiel que reverencia uma estátua de Maria, diz Voltaire, não está rendendo culto à estátua, mas à Maria, a qual é representada pela estátua.
  139. A procissão tem origem pagã. Hobbes dirá que isso não invalida a carga pagã do ato, mas Voltaire diz que um costume, se incorporado à religião verdadeira, pode ser santificado. Com efeito, a circuncisão, conforme Voltaire diz um pouco antes, já era adotada no Egito e foi feita por Deus um sinal sagrado. Também segundo ele, o próprio batismo também era praticado entre gentios e entre judeus prosélitos. Então, muitos costumes hoje tidos por religiosos não se originam no cristianismo ou no judaísmo.
  140. Outras religiões jejuam.
  141. Porque os fieis ora chamam Maria de “Nossa Senhora de Fátima”, “Nossa Senhora da Assunção” e coisas que tais, se são a mesma Maria? Antigamente, porque as estátuas de Maria eram nomeadas segundo o lugar onde ficavam. Assim, por exemplo, se tivesse uma estátua de Maria numa cidade chamada Neves, ela seria chamada “Nossa Senhora de Neves”, referindo-se à estátua e não à Maria. Então, ver a “Nossa Senhora de Neves” quer dizer ir à Neves, ver a estátua de Maria que lá está.
  142. Se fosse a estátua a ser adorada e não a divindade por trás da estátua, então haveria vários deuses Apolo, um para cada templo.
  143. O termo “idólatra” tem origem cristã. Antes do cristianismo, ninguém falava de idolatria, porque não existia essa palavra.
  144. As coisas sagradas podem se tornar ídolos. Por exemplo, a serpente de cobre feita por Moisés para curar os israelitas do veneno das víboras (Números 21:9) teve que ser destruída porque o pessoal estava lhe oferecendo sacrifícios e a adorando (2 Reis 18:4).
  145. Não era a estátua de Júpiter que lançava os raios e nem a estátua de Netuno que agitava os mares. As estátuas não eram vistas como deuses.
  146. Os protestantes atacam a igreja católica chamando-a de idólatra, mas as imagens dos santos não são os santos. A imagem de Jesus ou a cruz não são Jesus. Se o fiel se ajoelha diante dessas coisas, está adorando aquilo que a cruz representa, que é Jesus. Ele não tem em mente que está rendendo graças à imagem diante dele.
  147. O ser humano parece ter sido feito pra crer em Deus, pois vários povos têm suas religiões. Mas as diferentes religiões mostram que cada povo concebe uma divindade como acha plausível. Seria necessário que o Deus verdadeiro aparecesse pra alguém e se revelasse como tal para que fosse de outra forma.
  148. Havia uma pressão católica para fazer oferendas às estátuas, no Renascimento. Isso porque os padres recolhiam as oferendas depois. Então, mesmo que o fiel não visse a ligação entre estátua e santo, era interessante ao padre fazer essa ligação para obter, depois, as oferendas feitas aos pés da imagem.
  149. Não é possível ler história universal sem sentir vergonha, em algum ponto, de participar do gênero humano, tamanhas atrocidades por ele feitas e exaustivamente documentadas historicamente.
  150. Só Deus pode tirar a vida de um ser humano. O assassinato seria, dada essa premissa, usurpação de direito divino.
  151. Os sábios da antiguidade, mesmo que não professassem publicamente, chegavam frequentemente à conclusão monoteísta: se existe algum Deus em algum lugar, ele é único.
  152. O muçulmano tem mais razão em chamar os cristãos de idólatras: maior parte do cristianismo é católica e os católicos, mesmo quando não adoram as imagens, fazem um bom trabalho parecendo que o fazem.
  153. São nossas necessidades que nos levam a nos servir uns dos outros. Se não houvesse necessidade de serviço, não haveria necessidade de servidores. Sem servidores, não haveria chefes.
  154. Para Voltaire, o inimigo não é a desigualdade, mas a dependência. Se não dependêssemos uns dos outros, não precisaríamos nos submeter e seríamos iguais. Eu, porém, penso que a dependência entre os seres humanos não necessariamente causa a desigualdade. O que causa a desigualdade é a urgência de determinadas necessidades. Como algumas são mais urgentes que outras, são tidas em mais conta, recebem maior número de trabalhadores e se tornam ambientes mais propícios à exploração. Se todas as necessidades tivessem o mesmo valor, haveria um mutualismo: o com cada um capaz de suprir uma ou outra demanda, os papeis de senhor e servo seriam alternados periodicamente. Além do mais, sejamos realistas: não é possível acabar com a dependência entre seres humanos. Sempre precisaremos um do outro.
  155. Voltaire já via a sociedade humana como dividida em duas classes: opressor e oprimido. Marx chamará essas classes de dominante e trabalhadora.
  156. Voltaire diz que o ritmo ativo do trabalho impede o trabalhador de perceber sua própria miséria. Marx dirá que isso é uma manifestação de alienação.
  157. É possível uma revolução se a classe oprimida se servir bem do ferro contra a classe opressora sem coragem.
  158. A existência de dominadores é possível porque o ser humano tem tendência à maximizar o prazer. Se lhe for dado o meio para isso, ele quererá apenas ter sexo, comer e ganhar dinheiro sem trabalhar.
  159. A sociedade atual só pode subsistir se houver gente miserável: alguém que já tenha tudo e baste a si mesmo não quererá trabalhar pra ninguém. Se todos tivessem condições de sobreviverem de seu próprio trabalho, não teriam chefes, não haveria dinheiro nem exploração, não haveria trabalho assalariado e nem escravidão. Como existem pessoas que não têm condições suficientes de subsistência, elas precisam se subjugar a quem possa dá-las.
  160. Igualdade é o estado natural do ser humano. Mas está perdida há muito tempo e provavelmente não voltará por forças humanas. Voltaire conclui que não é possível voltar ao estado de igualdade.
  161. Algumas nações eram tão mal-governadas que estipulavam leis que proibiam os cidadãos de se mudarem pra outro lugar. Afinal, se pudessem, não ficariam lá e o Estado não poderia lucrar com arrecadação de imposto e força de trabalho.
  162. A coisa certa a ser feita é governar tão bem que os súditos queiram ficar e que os outros queiram vir pra cá.
  163. É especialmente ruim se sujeitar a quem tem menos capacidade que você.
  164. Todos os povos, para colocar um freio nos crimes secretos, criaram religiões segundo as quais os deuses punem as pessoas depois da morte. Assim, há uma barreira dupla contra os crimes: a cadeia para crimes públicos e o Inferno para crimes secretos. Mas o judeus foram um povo singular também nisso: Deus não revelou a Moisés nada sobre a vida futura. Deus pune, sim, mas nesta vida. Esse é o parecer judaico. Com efeito, a Lei não promete vida eterna, mas somente bens presentes, materiais (chuva, paz, saúde…). Pondo as coisas dessa forma, pra quê esse negócio de “evangelho da prosperidade“? A Lei de Moisés promete tudo o que o evangelho da prosperidade promete sem cobrar dinheiro por isso. Então, se o que você quer é fartura, saúde e segurança, terá mais chances de obter virando judeu em vez de atender à Universal.
  165. Para o judeu, alma é vida. Ela não é imortal.
  166. O problema é que muitos maus prosperam.
  167. A crença no Inferno tem finalidade política.
  168. O dilúvio total parece impossível: não tem água o suficiente no mundo. Porém, um dilúvio local é mais crível.
  169. Se o dilúvio foi universal, então foi um milagre.
  170. É inútil explicar cientificamente o dilúvio, se ele tiver sido universal e, portanto, milagroso. Afinal, um milagre é uma providência divina que ignora as leis de causalidade a que estamos acostumados. Como não se faz ciência sem causalidade (relação de causa e efeito, segundo a qual um efeito natural provem de uma causa natural), é impossível pra ciência explicar o dilúvio universal, caso tenha acontecido. É melhor nem tentar.
  171. É ingênuo pensar que os animais são máquinas só porque são “irracionais”.
  172. Treinar um animal mostra que os animais não agem sempre da mesma forma. Seu comportamento muda com a ação humana.
  173. A presença da linguagem não é o único sinal de razão, emoção ou sentimentos. Animais os têm e não usam a linguagem humana.
  174. Os animais sentem dor. Pra quê teriam nervos se não fosse também para sentirem prazer e dor?
  175. Será que os animais têm alma? Isso também não importa: o fato é que sentem, lembram, vivem, se comunicam entre si, aprendem…
  176. Muitas afirmações sobre as almas dos animais são gratuitas, como se não quisesse dar uma reflexão profunda sobre criaturas tidas por irracionais.
  177. Não se deve querer saber o que é uma coisa sem saber antes se ela existe. É o que fez Anselmo e todo o mundo sabe no que deu.
  178. Máquinas não têm alma, mas a marca da máquina é a operação humana. Quem opera os animais? Se operam sozinhos como nós fazemos, têm vontade, que é uma faculdade mental e, portanto, espiritual, anímica.
  179. Não é possível julgar sem antes conhecer.
  180. As leis variam de país para país, estado para estado, cidade para cidade. Os valores variam de pessoa para pessoa. Se as leis são tão voláteis, no final das contas, o que vale, é fazer bons acordos.
  181. Muitas leis justas acarretam punições injustas.
  182. Existem muitas leis perigosas.
  183. Bom senso nos leva a legislar. Justiça interior nos leva a legislar bem.
  184. O país conquistado fica sob leis arbitrárias. Leis justas são decididas de comum acordo.
  185. O cachorro do déspota vive melhor que seus súditos.
  186. Em Atenas e em Roma, uma regra religiosa só poderia existir se o Estado deixasse. Assim, se a Igreja quisesse que algum dia fosse dedicado a um santo ou coisa assim, portanto feriado, teria que pedir autorização ao Estado. Afinal, imagine se a Igreja, sem consenso estatal, tornasse feriado todos os dias do ano, de forma que a maioria da população não trabalhasse por razões religiosas. Isso seria um atentado assassino à economia.
  187. Os padres e os pastores são súditos do Estado.
  188. O padre não deve matar um cara porque ele é pecador: o padre deve orar pelos pecadores e não julgá-los.
  189. Sacerdotes não devem ser isentos de impostos.
  190. Leis que precisam ser interpretadas são facilmente corrompidas. Hobbes, ciente do problema, dirá que convém que cada lei venha com uma descrição das condições que levaram à sua promulgação (para que a lei expire quando esses condições não mais existirem) e o propósito ao qual ela serve (para que só se possa interpretá-la de um modo).
  191. Impostos devem ser proporcionais. Quando mais ganha, mais imposto paga.
  192. A lei que proíbe algo bom é inválida, ninguém a respeitará.
  193. Liberdade é o poder de escolher entre aquilo que me é dado escolher. Ela não é absoluta, pois há coisas que me ocorrem e que estão além da minha escolha.
  194. Isso significa que a liberdade é a mesma em todos os animais. O ser humano não tem mais liberdade que o cachorro, por exemplo, no sentido de que a liberdade é a mesma em ambos: o poder de escolher entre as opções dadas. No máximo, se eu quisesse sustentar que o ser humano é mais livre, eu poderia argumentar que a quantidade de opções para nós é maior.
  195. A liberdade é igual em todos, o que varia é o número de opções.
  196. Não é possível querer sem razão. Fazemos escolhas visando nossa felicidade.
  197. “Quero porque quero” é absurdo.
  198. A nossa liberdade é racional. Nós pensamos antes de escolher, para verificar quais razões nos levam a escolher uma opção e não as outras. Os insensatos reflectem menos tempo.
  199. Não escolhemos o que desejamos, mas escolhemos se é ou não sábio satisfazer o desejo.
  200. Indiferença é uma escolha. Sartre diz a mesma coisa quando ele diz que a inação já é um posicionamento. Então, não existem escolhas “neutras”. Pascal dá um exemplo prático na dicotomia entre cético e dogmático.
  201. A loucura em Voltaire é a doença, não simplesmente o comportamento anormal, como em Erasmo. Como uma pessoa pode agir loucamente se a alma (residente no cérebro) é de igual natureza às outras almas, de pessoas saudáveis?
  202. Todos são loucos para a loucura, diz Voltaire, porque os sábios, teorizando sobre a loucura, chegam a conclusões sem sentido. A única saída, a meu ver, assumindo a alma incorruptível como pressuposto, seria teorizar uma lesão ou doença no caminho entre a sensação e a alma, seja essa imperfeição no cérebro, no órgão sensorial ou em qualquer lugar entre um e outro. Isso não parece repudiar a pureza da alma, a qual é alimentada com informações distorcidas e, portanto, emitindo julgamentos distorcidos. Claro que a medicina atual tem visões diferentes sobre o assunto e eu mesmo talvez não sustentasse esta opinião que acabo de formular. Estou apenas tentando dar uma resposta adequada à época em que o livro foi escrito.
  203. É fácil se manter virtuoso quando não há tentação a enfrentar.
  204. Alguns costumavam dizer que é lícito roubar se não formos usar o produto do roubo. Mas veja se isso faz algum sentido.
  205. Ricos e pobres são passíveis de morte. Então, por que não morrer rico?
  206. O excesso de riqueza é que é ruim. “Excesso” é algo que está em tão grande volume ou quantidade que torna-se prejudicial. O excesso de riqueza seria então uma quantidade exorbitante de dinheiro a ponto de prejudicar alguém. Faz sentido no período de Voltaire: por volta desse tempo, se tinha a sensação de que o comércio era um “jogo de soma zero”. Então, para cada homem muito rico há homens muito pobres. Para o pensamento da época (posso estar enganado), se alguém tem excesso é porque, mesmo que indiretamente, esse alguém está privando outros de sua parte.
  207. As inovações são vistas como desnecessárias por muitos, como sendo fúteis e, portanto, viciosas. Pra quê computador se tenho máquina de escrever? Pra quê cortar as unhas ou aparar os cabelos se crescerão de novo? Essas coisas já foram novidade e muitas novidades são vistas com maus olhos por pessoas que estão acostumadas com o que já têm.
  208. Falar muito pra responder uma pergunta é tão suspeito quanto ficar calado. Em um caso, se finge saber. Em outro caso, se admite não saber.
  209. O que é a alma? Ou melhor: o que é a matéria? Todos sabem a resposta sensualmente, mas poucos são capazes de colocar essa resposta em palavras de maneira satisfatória (por favor, não diga que é cada divisória do caderno).
  210. A geometria é mais segura que a metafísica.
  211. Nada vem do nada.
  212. Nenhuma mitologia concebe, diz Voltaire, um universo que tenha vindo do nada. Elas pressupõem um caos anterior. Tem que ser um Marcelo para bolar um mito tão absurdo. Que bom que ele não o levou a sério, reservando-o ao seu cenário de campanha.
  213. Somente para as religiões do Livro é que a eternidade da matéria é ofensiva: a criação divina é a exceção ao “nada vem do nada”, porque foi do nada que Deus criou as coisas.
  214. De acordo com Voltaire, por muito tempo, também os judeus não sabiam exatamente se Deus tinha feito tudo do nada ou se a matéria lhe era co-eterna.
  215. No princípio, Deus criou os céus e a terra (Génesis 1:1), mas isso não necessariamente quer dizer que Deus criou céus e terra do nada. O verso seguinte (“a terra era informe e vazia…”) também não sugere isso.
  216. Voltaire aponta que, em hebraico, o termo utilizado para designar Deus no Génesis 1:1 está no plural.
  217. Um punhado de estudiosos judeus de antes da época de Voltaire afirmam a co-eternidade da matéria, como um princípio mau. Deus teria, dizem, a moldado para torná-la boa, ordenando o caos.
  218. Esse pensamento não é exclusivamente judaico e nem neles se origina. O estudioso foi provavelmente inspirado por outras versões do princípio do cosmos.
  219. Só é possível dividir por movimento, diz Voltaire.
  220. O sistema de co-eternidade da matéria é problemático.
  221. Admitir a co-eternidade da matéria não afeta a moral, para Voltaire, porque essas questões teológicas não nos impedem de sermos bons como Deus quer que sejamos. Só me pergunto se isso não seria alguma blasfêmia…
  222. A maioria das questões metafísicas e teológicas é irrelevante em termos morais.
  223. Para Voltaire, o ser humano não nasce mau. O pecado de Adão e Eva ficou lá com os dois, então. Ele não seria transmitido de pai para filho como quer Tomás. Hobbes também dirá algo parecido, quando ele diz que o ritual de batismo católico envolve algo que parece um exorcismo, como se o bebê a ser batizado já estivesse possuído por um demônio. Para Hobbes, batismo é só se banhar na água com alguém dizendo a fórmula batismal, não havendo necessidade do óleo sagrado ou da saliva do padre sendo quase que enfiada no nariz do bebê (me pergunto se isso ainda é feito). Importante ressaltar que a opinião da Igreja Católica é a de que qualquer um pode batizar na ausência de um sacerdote. Meu pai, por exemplo, batizou uma criança no bairro em que eu morava. Ora, mas esse batismo, considerado válido, não tem a tal saliva nem o óleo sagrado. Fica assim patente que maior parte do ritual do batismo é desnecessário, com os únicos elementos indispensáveis sendo a água e a fórmula (“fulano, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” ou “em nome de Jesus”, dependendo do viés doutrinário). Sem falar nas preliminares (confissão e arrependimento dos pecados, os quais a criança não precisaria fazer porque nasceu faz pouco tempo). Se o pensamento de Voltaire se estende até à doutrina do pecado original, ele está contradizendo Paulo, para quem todos têm uma mancha de maldade (Romanos 5:12) que só pode desaparecer pela doutrina de Cristo. Se ele contradiz Paulo sem contradizer Jesus, então pouco me importa.
  224. Se eu nascesse doente, não haveria médico capaz de me curar. Minha “doença” seria parte de minha natureza.
  225. A criança não é má por natureza. Se ela pratica o mal, é porque teve uma educação ruim. Ela aprendeu a fazer isso, diz Voltaire. Isso parece uma questão de ponto de vista. Os delitos infantis são, para uns, marcas de inocência e, para outros, marcas do pecado original. Eu sempre achei que essa reflexão sobre a natureza do ser humano, ser mau ou bom de nascimento, é uma questão de ponto de vista. Agostinho, por exemplo, discorda. Estudiosos contemporâneos também vêem as coisas assim, as crianças agem por instinto, como bichinhos. Se esses instintos são aceitáveis na sociedade, a sociedade as verá como boas. Do contrário, as verão como más. Então, pelo menos pra mim, a bondade ou maldade inerente à criança depende do contexto histórico e social, dos valores que os adultos têm, porque são os adultos que julgam se a criança é boa ou má, se ela precisa de correção ou incentivo, se em apenas alguns comportamentos ou em todos os comportamentos.
  226. “O primeiro ambicioso corrompeu a terra.” Os comportamentos ruins passam de pessoa para pessoa, como doenças, transmitidas pelo exemplo.
  227. Nem todos os que estão expostos a males morais os contraem.
  228. Voltaire compara a maldade inerente com os animais que caçam sem culpa. Isso me parece outra evidência do lance do ponto de vista: o comportamento moral dos animais também é questão de ponto de vista. Aliás, eu não gosto de aplicar conceitos humanos, como moral, aos animais. Não têm essa preocupação de certo ou errado, tendo seu comportamento guiado pelo prazer, pela utilidade pessoal ou pela utilidade da espécie. Bem e mal, moral, são conceitos estranhos aos bichos. Mas Voltaire diz que, se o ser humano fosse mau por natureza, agiria como os animais que caçam sem remorso.
  229. Praticar o mal requer tempo livre. Quem trabalha muito não tem tempo pra roubar, diz Voltaire. Observe que hoje, porém, há quem faça profissão do crime.
  230. De acordo com os cálculos de Voltaire, uma em cada mil pessoas pode ser chamada “má”.
  231. Há menos maldade na Terra do que se pensa, segundo Voltaire. O que nos faz pensar que estamos perdidos é a constante exposição à notícias, boatos, lamentos de pessoas que sofreram injustiças de alguém. Foi assim que perdemos a presidente, com as notícias fazendo parecer que o país estava perdido sob sua administração, quando tinha muita gente que, desligando a televisão pra ir pro trabalho ou pra farra, não via nada disso de que as notícias falavam. Se o Brasil estivesse tão ruim, não precisaríamos das notícias pra nos dizer isso.
  232. O povo judeu foi oprimido várias vezes e cruelmente. Esperavam um salvador poderoso e grande. Quando Jesus apareceu, não acreditaram, porque Jesus veio pacificamente e tinha tomado a forma de ser humano. Ficava difícil acreditar que Jesus libertaria alguma coisa.
  233. Isso levou os judeus a acreditarem em vários falsos messias que apareceram depois de Jesus. Quando um deles, condenado à morte, tentou obter misericórdia se convertendo ao Islã, resolveram deixar de crer em messias humanos, diz Voltaire. Esse último falso messias foi morto pelo exército do sultão, se tornando piada para muçulmanos e vergonha para os judeus da época.
  234. A migração das almas para outros corpos depois da morte é um dogma de origem oriental e é mais velho do que muitos pensam. Com efeito, Platão, herdando dos pitagóricos, se refere a essa ideia como muito confiável.
  235. Se milagre é uma coisa admirável, então tudo é milagre: pra que milagre maior do que o de estarmos vivos? Como isso pode acontecer? Por que nós e não outros?
  236. O milagre, em sentido estrito, porém, é a providência divina que age fora da causalidade. É quando Deus resolve fazer algo que exceda o funcionamento normal da natureza. Exemplo: ressuscitar alguém (2 Macabeus 7:9 / Mateus 16:21).
  237. Dizer que Deus não iria querer “quebrar” as regras da criação, mesmo sendo dono delas, para favorecer um povo seleto que tem um acordo com ele (como os judeus, por exemplo) é negar a compaixão divina. É como se Deus tivesse feito suas criaturas e não as amasse a ponto de fazer uma modificação perfeitamente reversível e temporária nas leis cósmicas, um acontecimento que poderia inclusive ser local.
  238. Para os que crêem, mas não em milagres, a execução de milagres é contraditória: as ações divinas não seriam perfeitas, dizem, se Deus tivesse que mudá-las, mesmo que temporariamente.
  239. Para o mecanicista, tudo sempre tem explicação lógica. Milagres podem ser cientificamente explicados, dizem.
  240. Imagine se a academia recebesse a denúncia de um milagre em execução, mandasse um professor ao local pra interromper e pedir que ele executasse o milagre na faculdade, assistido por médicos e físicos só pra saber se o milagre é realmente tal. Seria embaraçoso.
  241. Óbvio que não foi Moisés que escreveu o Pentateuco, uma vez que o Pentateuco termina com a morte de Moisés e a declaração de que seu túmulo nunca foi encontrado (Deuteronômio 34:5-6). Como Moisés poderia ter escrito isso? Ele provavelmente tinha um escriba. Hobbes dirá que quem escreveu o Pentateuco foi Josué. Ainda existe a possibilidade, embora remota, considerando o estilo de escrita, de que maior parte tenha sido escrita por Moisés e somente o Deuteronômio ou mesmo somente o final de Deuteronômio tenha sido escrito por Josué. Assim, seriam “livros de Moisés” no sentido de que são livros sobre Moisés (com adição do Génesis, que fala do que havia antes de Moisés), tal como os Evangelhos são livros sobre Jesus.
  242. De acordo com a tradição ortodoxa, a Lei foi queimada durante o exílio babilônico. Um escriba teve que reescrever tudo. Então, se levamos em consideração os livros desse escriba contidos na Versão dos Setenta, foi ele quem escreveu toda a Lei e mesmo todo o Velho Testamento como o conhecemos.
  243. Foi provavelmente esse escriba quem completou o Deuteronômio.
  244. O Levítico, diz Voltaire, proíbe casar com cunhadas, mas o Deuteronômio deixa. Isso porque o Deuteronômio representa as “segundas leis”, que entram em vigor na entrada de Israel na terra prometida. Então, o Deuteronômio tem prioridade.
  245. “Pátria” é o conjunto de famílias em determinado território. Quanto maior a pátria, mais difícil é amá-la, porque famílias distantes se estranham.
  246. A perseguição obcecada de títulos elevados (como na política) revela mais o amor próprio do que o amor pela pátria.
  247. Todo o mundo deseja as mesmas coisas: educação, saúde, segurança… Então, quando votamos, não votamos pela pátria, mas por nós mesmos, porque esperamos que o Estado nos garanta essas coisas. Então, é sua vida que deveria formar a base para sua escolha eleitoral, não as notícias. Pense bem: se a vida estiver ruim pra maioria, então a situação não será reeleita, mas a oposição, porque a maioria não quer mais a situação. Porém, se você leva as notícias em consideração, a propaganda feita por elas desequilibra a eleição, porque se insere um elemento estranho ao julgamento do voto democrático. Se sua vida estiver indo bem, reeleja a situação para que continue como está. Se ela estiver indo pior do que no mandato anterior, procure outros candidatos. As escolhas políticas do país são péssimas porque se pensa que assistir às notícias te torna culto e informado, mas não necessariamente é assim. “E se o político for ladrão e isso passar nas notícias, devo levar isso em consideração?”, alguém pode perguntar. Bom, você sente os efeitos de seu roubo? A educação, a saúde e a segurança estão ruins pra você apesar desses roubos? Se estiverem, então não vote mais nele. Se estiverem, então ele é do tipo “rouba, mas faz”. “Mas eu não deveria escolher políticos que não roubam?”, alguém pode perguntar. Se você pensar dessa forma, não votará em ninguém, porque só se fala nos que roubam. Sobre os honestos, se guarda silêncio na mídia. Preste atenção: existe notícia sobre político honesto? Quase zero ou mesmo zero. São desconhecidos. Por essa razão, as notícias não deveriam ser critério de julgamento para o voto individual, porque ela é parcial, focando-se no negativo apenas, o que dá a impressão de que todos os políticos nacionais são ruins (é notável como o político mais bem-falado no Brasil é o presidente dos Estados Unidos). Se o voto é individual, a vida da pessoa é que deveria dizer se reelege ou não. Afinal, se a vida da maioria estiver ruim, claro que não ele não irá se reeleger.
  248. Para Voltaire, todos os governos foram repúblicas algum dia. Outros dirão algo parecido ao afirmar que todas as monarquias foram eletivas em algum ponto.
  249. Que tipo de governo é o melhor? Os reis preferem a monarquia, os ricos preferem a aristocracia e o povo prefere a democracia. Claro que a “melhor forma de governo” depende do interesse pessoal…
  250. Por que, na época de Voltaire, a maioria dos governos europeus era monárquico? Ele diz “perguntai-o aos ratos que decidiram amarrar um sino no pescoço do gato.” Eu conheço essa fábula. Era um vez um gato assassino que perseguia os ratos da casa a fim de comê-los e fazia um bom trabalho nesse esporte. Os ratos, tementes por suas vidas, se reuniram numa assembleia para decidir o que fazer. Quem desse a melhor ideia seria proclamado rei dos ratos. Então, um deles se levantou e disse: “irmãos, o gato só nos pega porque ele é sorrateiro, mas, se agarrarmos um sino ao redor de seu pescoço, ouviremos sua aproximação e teremos tempo de fugir!”. Ele foi proclamado rei dos ratos sob muita festa e gulodice. Mas, no dia seguinte, alguém tinha que colocar o plano em execução. Quem? Os ratos começaram a pressionar o novo rei até que ele abdicou do cargo, porque ficara evidente que ele é quem eventualmente teria que fazê-lo. Moral da história: fácil falar, difícil fazer. A alusão que Voltaire faz é provavelmente a de que os europeus da época gostavam da monarquia porque todo o trabalho político ficava com o rei, a quem podiam pressionar e culpar. É o ambiente propício à alienação de responsabilidade.
  251. O ódio às nações opostas às ideias da pátria, infelizmente, parece fazer parte do sentimento de patriotismo.
  252. Você é patriota quando não se importa quando sua nação enriquece às custas de outras. Você é patriota quando não se conforma quando outra nação enriquece às custas da sua.
  253. Jesus deu a Pedro as chaves do reino dos céus e disse que sobre ele seria a Igreja construída (Mateus 16:18-19). Essas frases ambíguas foram entendidas de formas diferentes dependendo de quem as interpretava, ora servindo como argumento a favor da não sujeição da Igreja ao Estado, ora servindo como argumento de que Pedro foi o primeiro papa…
  254. As igrejas primitivas eram comunidades. A Igreja única só apareceu no fim do segundo século. E deixou de ser única no Grande Cisma. E ficou ainda menos única com a Reforma Protestante. Agora a Igreja é dividida em três denominações: católica, ortodoxa e protestante.
  255. Voltaire diz: não há prova de que Pedro esteve em Roma ou que tenha sido posto numa cruz invertida.
  256. Os papas não eram perfeitos. Então, suspeitar de sua infalibilidade é escusável. Esse argumento também serve contra Paulo e Pedro. Entravam em conflito (Gálatas 2:14). Fica difícil saber qual dos dois, então, é inspirado, mesmo quando ambos operaram feitos sobrenaturais (Atos 3:6 / Atos 14:13), o que não é garantia de comunhão com Jesus (Mateus 7:21-23).
  257. Preconceito é uma opinião sem julgamento.
  258. A criança é cheia deles, recebendo valores dos pais antes de ter idade para julgá-los.
  259. Existem “bons” preconceitos. São aqueles que o julgamento vê que estão corretos quando o julgamento é exercido. Se fôssemos esperar que as crianças desenvolvessem juízo para educá-las, não o faríamos antes da adolescência, o que poderia ter efeitos catastróficos.
  260. Os olhos enganam, mas o ouvido não o faz.
  261. Antigamente, nos tempos do Velho Testamento, se subjugar a Deus não necessariamente significava que os deuses das outras nações eram falsos, diz Voltaire.
  262. O fato de o Santo Evangelho Segundo São João se referir a Jesus como o “Verbo” tem motivações filosóficas. De acordo com alguém, o movimento filosófico da patrística começa com João e com Paulo, os quais, vendo a dificuldade do ensino de Cristo em ganhar adeptos entre os gentios, escrevem seus textos em resposta às objeções feitas pelos filósofos da época. “Verbo”, no original em grego, é “logos“, um conceito filosófico já existente entre os gentios. João identifica em Jesus aquilo que os filósofos sabiam que existia sem nunca terem visto. O ensino de Cristo se impõe, então, como a verdade procurada exaustivamente pela filosofia.
  263. Alguns erros de raciocínio ocorrem. Por que Deus os permite? Diz Voltaire que é porque esses erros não alteram a doutrina principal.
  264. Os crimes cometidos em nome da religião cristã superam os crimes cometidos em nome de qualquer outra religião.
  265. Se você for falar de alguma coisa com alguém, não dê provas a menos que o ouvinte as peça. Se você começar por dizer que o que você está falando já está provado, o ouvinte se prepara para julgar, o que requer a tomada de uma posição incrédula. Se depois dessa prova ele ainda se mantiver incrédulo e você disser que a culpa é dele, ele ficará com raiva de você. Então, deixe as provas para os que as querem.
  266. Quando alguém não pensa como você e você fica com raiva dessa pessoa, você está manifestando orgulho. Você tem para si que seu raciocínio é melhor e a recusa a ele é uma afronta à sua auto-estima.
  267. Antigamente, se acreditava que a alma residia no peito, porque emoções fortes são sentidas no coração primeiro.
  268. Dar sentidos forçados a textos claros é trabalhar contra o entendimento do texto.
  269. Pra quê Salomão tinha tantos cavalos em tempos de paz? Ora, pra passear com as mulheres dele!
  270. “Entender num escritor o contrário do que ele diz é zombar da humanidade.” Meu Deus, a gente bola de rir.
  271. Voltaire deixa bem claro ao dizer que ele abominava os judeus. Aliás, ele (um tanto presunçosamente) estende esse pensamento à toda a cristandade quando diz “nós”, isto é, os cristãos, “abominamos os judeus”. Ora, mas não era Jesus judeu? Ele faz uma exceção ao dizer que, se os cristãos recebem algo dos judeus, esse algo deve carregar a marca divina. Jesus é o filho de Deus, então ele traz essa marca. Do ponto de vista de Voltaire, um bom número de livros do Velho Testamento não é inspirado. Ai, põe esse no Índice. Se Voltaire escrevesse algo assim hoje, seria preso por intolerância religiosa. Fica claro que ele odiava os judeus (apesar de falar da tolerância mais à frente).
  272. Só temos cinco sentidos. Não há como imaginar como seria ter um outro. Os cientistas modernos consideram, contudo, o equilíbrio como um sexto sentido.
  273. Pode existir, em algum lugar, seres com mais de cinco sentidos. Se esse animal pudesse fazer ciência…
  274. Mas pense como deve ser a vida de alguém com mais de cinco sentidos. Não temos poder sobre nossos sentidos, não escolhemos quando nossos sentidos se sensibilizam a determinado objeto. Nós acordamos com a luz em nossos olhos, o barulho em nossos ouvidos, cheiros e gostos também nos acordam e acordamos por causa do frio e do calor. Mais sentidos significa mais sensibilidade e mais estímulo, mais estresse e mais insônia.
  275. Pensamento e sensação são igualmente interessantes.
  276. A sensação também é uma faculdade dada a nós pela divindade. Então, há algo de divino em toda a criação, inclusive nos animais ditos irracionais.
  277. Descartes foi o primeiro cara, segundo Voltaire, a dizer que já nascemos sabendo alguma coisa. Alguém demonstrou que Descartes esquece que essas verdades inatas não passam pela cabeça das crianças.
  278. Alguns erros são afirmados porque alguém de má reputação afirma o contrário. Se um mal-falado fala a verdade, se assumirá, com base em sua reputação, que ele mente e se tomará como verdade o oposto, uma falsidade.
  279. Para Voltaire, “memória” é sensação contínua.
  280. Voltaire se pergunta: como sentimos algo nos sonhos se os sentidos adormecem? É que os sentidos nunca adormecem.
  281. Se adormecem e a alma está livre pra pensar no que quiser, então nossa alma é doida, pois sonhos são doidos.
  282. Premonições oníricas são coincidência, para Voltaire. Disso eu não sei, mas minha irmã já sonhou com a morte de três pessoas, as quais morreram enquanto ela dormia: o marido dela morreu baleado, uma amiga nossa morreu de câncer e o outro morreu sabe-se lá do quê. Importante lembrar que essas pessoas estavam todas vivas no dia anterior aos sonhos e mortas ao fim destes.
  283. Mas se os sonhos realmente predizem algo, por que falham na maioria das vezes? Nem tudo com o que sonhamos se efetiva.
  284. A Lei não proíbe a interpretação mística dos sonhos. Com efeito, Daniel (2:36 em diante) a praticava, embora com a ajuda de Deus.
  285. A obtenção do perdão divino é um fato. Mas alguns supersticiosos pensam que podem obtê-lo por meio de alguns rituais que podem ser repetidos para cada infração. Até mesmo na religião judaica, o abuso dos sacrifícios de animal se tornou algo irritante ao Deus (veja o contexto de Jeremias 6:20), porque se estava usando esse canal de perdão irresponsavelmente, como um meio de licença para pecar. O atual canal de perdão divino é o perdão mútuo (Mateus 6:14 em diante), que muitas vezes é difícil fazer, especialmente quando a ofensa é grande.
  286. É melhor não pecar do que pecar e depois se expiar. Falar é fácil.
  287. Para Voltaire, é possível adorar sem culto.
  288. Os tempos mais horríveis eram ricos em superstições.
  289. O tirano é a pessoa que faz de sua vontade a lei, toma as posses dos súditos e as usa para tomar as posses dos outros países. Assim, se clarifica o que é o “mau monarca” mencionado antes.
  290. A oligarquia é pior que a tirania. Com efeito, um homem ruim tem bons momentos. Mas um grupo de homens ruins não os tem: um esforça a maldade do outro.
  291. Um tirano é mais fácil de seduzir. Mas uma assembleia de corruptos não se pode seduzir. Se você seduz um, os outros integrantes provavelmente tornarão nulo seu esforço, colocando o seduzido de volta no mau caminho.
  292. Resumo da sociedade ocidental: ou se é bigorna ou martelo.
  293. Tolerância é perdoar o defeito do outro.
  294. Seita de Nicolau“, diz Voltaire, é o nome que os opositores davam aos que praticavam comunismo cristão (todas as posses deveriam ser públicas e se mulheres fossem posses seriam também públicas).
  295. A Igreja, antes do advento do catolicismo, não era única. Não havia “a Igreja do Primeiro Século”, mas igrejas do primeiro século e do segundo século antes de aparecer a Católica. Essa igreja para todos (católico quer dizer universal, uma igreja só para todos os cristãos) não durou, pois o Grande Cisma dividiu a Igreja em igrejas, a católica e a ortodoxa. A Igreja Católica foi ulteriormente divida com a Reforma Protestante. A denominação protestante inclui um sem-número de igrejas (Universal, Evangélica, Adventista, testemunhas de Jeová, Santos dos Últimos Dias, Luterana, Calvinista, Presbiteriana…). Então, a coisa mais parecida com o primeiro século, ironicamente, é agora. E mesmo sendo todos cristãos, adeptos da religião do amor, se odeiam mutuamente.
  296. Os judeus não forçam os outros a se converterem. Na verdade, o parecer judaico é de que também os que não são judeus (os gentios) podem obter o favor divino observando as leis de Noé, ao passo que muitos cristãos crêem que somente cristãos poderão ser salvos.
  297. A tolerância judaica deveria ser imitada pelos cristãos, mas o estereótipo que os cristãos têm dos judeus é só o de nação guerreira e amam usar exemplos do Velho Testamento pra justificar seu ódio.
  298. É monstruoso perseguir alguém por diferença de opinião. É lícito se indignar se ele pratica algum mal, mas não se ele fala alguma besteira. Se o problema é só de opinião, convença-o de que está errado. Se não puder, paciência. Já se o problema é de atos cometidos, seja em decorrência da opinião ou não, existe uma justiça para coisas assim.
  299. Há exemplos históricos de cristãos que se aliaram a muçulmanos para guerrear contra cristãos.
  300. Francisco I se aliou aos luteranos alemães contra o imperador, ao mesmo tempo que permitia que se queimassem luteranos em sua própria casa (na França) por razões políticas.
  301. Se houver duas religiões em um território, atacarão uma a outra. Se houver trinta, não haverá ataques.
  302. Virtude é beneficência para com o próximo.
  303. Temperança é uma virtude pessoal. Ela é de menor monta que as virtudes que servem ao coletivo. Por causa de seu caráter pessoal, Voltaire desqualifica a temperança como algo que nos torna “virtuosos”. Somos virtuosos fazendo bem a outros além de nós mesmos.
  304. Como vivemos em sociedade, algo só nos é realmente bom se serve também aos outros.
  305. A pessoa que vive reclusa não faz bem nem mal a ninguém. Se não faz bem, como é virtuosa?
  306. É possível, para Voltaire, ser santo sem ser virtuoso.
  307. Da mesma forma, se alguém é vil, não será vicioso se sua vileza não prejudicar ninguém.
  308. Pra Voltaire, a sociedade aumenta os defeitos e diminui as qualidades.
  309. É possível não ser virtuoso sempre. É possível não ser vicioso sempre.
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8 de setembro de 2016

O “Exame Metanalítico Sobre Propriedades Assumidas do Abuso Sexual de Crianças, Utilizando Amostras Universitárias” de Rind, Bauserman e Tromovitch.

“A Meta-Analytic Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Using College Samples” foi escrita por Bruce Rind, Robert Bausermand e Phillip Tromovitch. Abaixo, algumas afirmações feitas nesse texto. Elas podem ou não refletir minha opinião sobre este assunto. Perguntas sobre minha opinião pessoal podem ser feitas nos comentários.

  1. A afirmação de que relações íntimas na infância e na adolescência sempre causam dano intenso apesar do gênero do menor não encontram base empírica.

  2. A mídia nos dá a sensação de que relações envolvendo menores são sempre prejudiciais, quer em casos onde um dos participantes é adulto, quer em casos onde todos os participantes são menores.

  3. Vários estudiosos concordam com essa visão da mídia, afirmando que a maioria, ou mesmo todas, as relações envolvendo menores são prejudiciais.

  4. Alguns estudiosos chegaram ao cúmulo de dizer que todos os problemas mentais que aparecem na idade adulta são resultado de abuso sexual na infância.

  5. Mas será que isso é verdade? O imaginário popular dita que todas as relações com menores, quer envolvam adultos ou não, são intensamente danosas todas as vezes em que ocorrem, não obstante o gênero da “vítima” (se menino ou menina). O propósito do exame feito pelos autores é verificar se esta crença está correta.

  6. Nós temos o hábito de dizer que todas as relações envolvendo menores são “abuso sexual infantil”, que todos esses menores são “vítimas”, que todos os adultos ou menores mais velhos são “criminosos”, mas o uso desses termos na literatura científica é problemático, porque existem experiências envolvendo menores que não são negativas. Nesses casos, não há vítima e, não havendo vítima, não há abuso. Logo, não há razão científica pra chamar todas essas relações de abusivas. Além disso, o uso de termos com carga negativa impede a availação imparcial desses eventos.

  7. A quebra de valores sociais não necessariamente constitui abuso. Masturbação e homossexualidade já foram consideradas socialmente erradas (com a masturbação inclusive sendo referida como “autoabuso”) e, no entanto, ambas as práticas não causam dano, não podendo ser consideradas abuso no mais das vezes. Assim, não há nexo causal entre quebra de valores sociais e prejuízo aos envolvidos.

  8. Um ato imoral não necessariamente é prejudicial.

  9. É diferente o pai penetrar à força sua filha de cinco anos e um jovem de treze anos beijar sua namorada de quinze na boca. Faz sentido punir o segundo caso? Por acaso o segundo caso pode ser chamado de “estupro”?

  10. Quando a ciência chama relações íntimas entre adultos e menores de “abuso” em todas as vezes que ocorrem, mesmo quando não há dano, mesmo quando o menor diz que o ato foi benéfico, revela que a ciência está trabalhando com categorias morais ou legais. Mas a ciência, se quer ser imparcial, não pode emitir juízo de valor. Deixe os dados falarem; o leitor dirá se é abuso ou não.

  11. Antigamente, todos os atos sexuais “imorais” eram considerados abusivos, mas, hoje, a relação envolvendo menores (entre adulto e criança, por exemplo) é a última fronteira da sexualidade moral tradicional. É um dos poucos atos sexuais que ainda são chamados de “sempre abusivos”.

  12. Embora haja pesquisadores que digam que relações íntimas entre dois menores ou entre menor e maior sejam sempre danosas, também existem pesquisadores que discordam. Assim, a literatura científica não é unânime nesse ponto.

  13. O problema de algumas pesquisas é a falta de controle de variáveis. Por exemplo: um menino de oito anos tem alguns jogos sexuais exploratórios com um irmão dez anos mais velho, mas esse mesmo menino recebe golpes de cinturão diariamente do pai. Ele então cresce com disajuste psicológico. Alguns pesquisadores fariam vista grossa pros atos do pai e apontariam que o irmão é a causa do disajuste, por ter abusado sexualmente do menino, mesmo que o menino diga que esses jogos foram inofensivos.

  14. Relações íntimas entre adultos e menores ou entre dois menores, mesmo que o menor seja uma criança, não necessariamente são negativas e nem sempre resultam em dano.

  15. Alguns estudiosos raciocinam que o resultado, se negativo ou positivo, é mais influenciado por fatores extrassexuais. Não é o ato em si, mas as condições que o cercam (por exemplo, se o ato foi forçado por um estranho, se os pais descobriram e fizeram alarde, entre outros).

  16. Já para outros estudiosos, o dano causado aos menores é superestimado porque os pesquisadores querem saber quantos casos são negativos entrevistando pacientes que já estão em tratamento por causa de sequelas. É como ir a um hospital pra saber a porcentagem de pessoas doentes. Claro que você receberá um resultado próximo de 100%. Assim, indivíduos clínicos não são uma demográfica confiável pra saber qual é o impacto de relações íntimas entre adultos e menores ou entre dois menores na população em geral.

  17. Para os pesquisadores contrários, o fato de haver pessoas que tiveram relações íntimas na infância ou na adolescência, mas que não relatam experiências negativas ou efeitos negativos decorrentes, apenas indica que os sintomas não tiveram tempo de aparecer. Antes de 2009, no Brasil, relações com menores de catorze anos só seriam crime se o ato não fosse aprovado pelo menor, se não fosse aprovado pelos pais do menor ou se fosse prejudicial ao menor. Uma relação que preenchia requisitos de segurança e era aprovada pelo menor e pelos pais não era nem considerada “pedofilia”. Então eu duvido que tenha um só homem da minha idade no Nordeste que não teve umas “brincaderinhas” com o pai. Somos todos assintomáticos?

  18. Esses estudiosos usam essas amostras pra generalizações, apesar de amostras clínicas e legais não poderem ser usadas pra generalizações fora do âmbito clínico ou legal, ou seja, não podem ser usadas como representantes de toda a população.

  19. Pessoas que tiveram relações íntimas na infância e na adolescência, mas que não denunciaram, nem procuraram tratamento, podem não o ter feito porque não sentiram efeito negativo. Assim, há uma população de “abusados” que não sofreu com o “abuso”. Fica difícil chamar isso de abuso então. Pense: com que idade você perdeu a virgindade e qual foi a idade do parceiro? Essas relações são tão incomuns assim?

  20. No que diz respeito à equivalência de gênero, tanto existem estudiosos que afirmam que relações na infância ou na adolescência causam efeito igual em meninos e meninas quanto há estudiosos que dizem que meninos reagem mais positivamente. É importante lembrar que “relações sexuais” aqui não inclui somente sexo em sentido estrito (penetração fálica pela boca, ânus ou vagina). Afinal, penetrar uma criança causa dor, nojo e trauma no mais das vezes. Logo, se estivéssemos falando só de sexo em sentido estrito, seria impossível concluir que tem crianças que não sofrem com relações. Os estudiosos estão incluindo nesse balaio de relações sexuais os “atos libidinosos” (beijos nos lábios, carícias íntimas, cócegas nos genitais, admiração mútua da nudez, entre outros atos não-penetrativos).

  21. Os autores do estudo descobriram que, na população universitária e na população nacional, homens que tiveram experiências sexuais na infância, sim, reagem bem melhor a elas do que mulheres.

  22. Outros estudiosos, porém, concluem que a afirmação de que meninos reagem melhor é mito.

  23. Existe outro problema em alguns estudos: o pesquisador tende a prestar mais atenção às experiências negativas, a despeito das positivas. Ele exclui, diminui ou resume as positivas, dando a impressão de insignificância.

  24. Eventos traumáticos são minoria estatística entre a população de indivíduos que tiveram relações na infância ou adolescência. Para saber a razão pela qual apenas relations negativas aparecem na mídia, veja Atração Por Menores: Guia Para Iniciantes.

  25. Mesmo eventos traumáticos podem ser uma comorbidade: além de ter relações íntimas, a criança era também negligenciada pelos pais ou abusada não-sexualmente. Será que o trauma é culpa só do “molestamento”?

  26. Muitas crianças que sofrem trauma não apenas tiveram relações íntimas, forçadas ou não, mas também sofriam bullying, pressão emocional, negligência, entre outras coisas, de forma que seu trauma pode muito bem ter sido uma combinação de fatores, com as relações, especialmente se não tiverem sido forçadas, nem dolorosas, tendo um papel de menor importância.

  27. Muitos estudiosos estão de acordo que não é a relação íntima em si que causa o dano, mas “variáveis terceiras”, como grau de permissão, grau de dor e dinâmica familiar.

  28. Quem estuda abuso sexual de menores deve relevar os aspectos não-sexuais na formação do julgamento.

  29. Mesmo os resultados negativos não traumáticos são minoria.

  30. Se você estiver recrutando pessoas que tiveram relações na infância ou adolescência, não faça um anúncio pedindo a presença de pessoas que foram “molestadas”, porque assim as pessoas que tiveram experiências positivas e que não se sentem vítimas não irão atender ao estudo, prejudicando sua imparcialidade. Afinal, pessoas que tiveram experiências positivas, como eu, não se sentem “molestadas”.

  31. Não apenas o dano dessas relações é infrequente como raramente é intenso.

  32. Como é que tem estudiosos dizendo que intimidade entre adulto e criança tem igual efeito em meninos e meninas… se eles não querem pesquisar meninos?

  33. Estudos anteriores aos anos noventa tem problemas de subjetividade, imprecisão e de amostragem, o que os leva a concluir de forma contraditória.

  34. Para resolver esse problema de uma vez por todas, os autores do estudo conduziram uma meta-análise usando amostras neutras: estudantes universitários. Dentre a população universitária, deve haver um bom número de indivíduos de ambos os gêneros que tiveram envolvimentos íntimos na infância ou na adolescência, mas que podem ou não ter gostado, consequentemente, que podem ou não ter denunciado ou procurado tratamento.

  35. Para ser justo, os autores fizeram essa meta-análise por meio de revisão literária. Eles pegaram estudos já feitos e fizeram os cálculos, em vez de fazer entrevistas diretas. No entanto, seus resultados são validados por estudos posteriores feitos com métodos melhores, um deles, inclusive, conduzido em Campinas, aqui, no Brasil.

  36. Nos Estados Unidos, metade da população é exposta à universidade de alguma forma. Então, a população universitária é perfeita pra esse tipo de estudo, em termos de generalização.

  37. Estranhamente, estudos sobre abuso sexual de crianças usando amostras universitárias são raros… Por quê?

  38. Este estudo usará somente amostras universitárias.

  39. Antes que alguém fique “irritado”, este estudo não leva em conta somente atos forçados. Do contrário, não poderia concluir como conclui. Ele leva em conta “graus de liberdade” e a presença de elementos como penetração ou força. Assim, nem todos os casos analisados na população universitária envolvem violência ou coerção, incluindo também atos sexuais nos quais os menores se engajaram de boa vontade.

  40. O estudo procura também por males somáticos, como problemas de sono ou distúrbios gastrointestinais, que possam estar ligados às relações.

  41. O que é abuso sexual de crianças? Dependendo do seu viés doutrinário, pode ser qualquer contato íntimo entre uma criança ou um adulto, a despeito da ausência de dano e da vontade da criança em participar, ou pode ser somente experiências indesejadas, pois o rótulo de “abuso” só seria cabível em casos onde há prejuízo.

  42. O que é uma criança? Para a maioria dos estudos revisados pelos autores, “criança” é alguém menor de dezesseis anos. Para a lei brasileira, “criança” é o indivíduo menor de doze anos. No entanto, mais da metade dos estudos revisados chama também de abuso uma situação em que dois menores se envolvem, na medida em que um deles é cinco anos mais velho (exemplo: menino de treze e menina de oito, ou menina de doze e menino de sete).

  43. Se levarmos em consideração todas as definições possíveis de abuso, a quantidade de casos que podem ser inclusos em todas as definições é muito pequena.

  44. Os casos analisados pelos autores do estudo variam em intensidade. Um simples convite pra fazer algo íntimo já contaria como abuso. A escala seria: convite, exibicionismo, carícias, masturbação, sexo oral, tentativa de coito e coito consumado. Pondo as coisas dessa forma, dá pra ver como o estudo conclui que muitos casos de abuso não terminam em dano, pois tudo abaixo da masturbação geralmente não causa dor nem sofrimento, a menos que o sujeito seja forçado.

  45. O dano varia segundo intimidade do ato e grau de proximidade entre os dois. Uma carícia íntima feita por alguém de confiança provavelmente não causa dano, enquanto que a penetração por um estranho completo pode causar um trauma.

  46. Cerca de metade das pessoas que tiveram relacionamentos íntimos na infância ou adolescência repetem a experiência antes da idade adulta.

  47. Uso de força em relações entre adulto e criança ou entre duas crianças não ocorre sequer em metade dos casos. Mais da metade das vezes, o menor não é forçado.

  48. Se uma relação chega a causar dano (por força ou penetração, por exemplo), o grau de desajuste provocado pelo ato em si é pequeno. A violência associada ao ato causa maior parte do dano.

  49. Importante lembrar que esses dados se referem à população geral, não àqueles que procuraram tratamento para sequelas por abuso sexual (os quais compõem minoria da população e cujas experiências não podem ser generalizadas).

  50. Os autores verificaram os sujeitos do estudo em busca de qualquer dos sintomas a seguir: alcoolismo, ansiedade, depressão, dissociação, desordem alimentar, hostilidade, problemas interpessoais, sensação de falta de controle sobre a própria vida, transtorno obsessivo-compulsivo, paranoia, fobias, psicopatia, baixa autoestima, desajuste sexual, desajuste social, somatização, tendência suicida.

  51. Dois fatores que contribuem para o desajuste são a força empregada (estupro) e o fato de a vítima ser menina (penetração, provavelmente). Assim, meninos tendem a sofrer menos ou a não sofrer em experiências sexuais na infância ou adolescência, na medida em que não houve emprego de força.

  52. O número de relações forçadas com menores é pequeno, comparado ao número de relações consentidas, seja com adultos ou com outros menores.

  53. Verdadeiramente, o que prejudica o menor é a violência da relação, não a relação em si. Fora o elemento violento, desaparece a vítima. Se você for menino, contudo.

  54. Meninos não diferem do grupo de controle se não houver violência na relação que tiveram. Mas meninas, estranhamente, manifestam problemas mesmo em relações consentidas.

  55. Intimidade indesejada é sempre danosa.

  56. A chance de haver prejuízo é maior se houver penetração. Ainda mais se o ato for repetido ou for de longa duração. Ainda mais se forçado e feito por uma figura de autoridade, como o pai.

  57. Das amostras estudadas, 72% das meninas e 33% dos meninos concordaram que as experiências sexuais que tiveram na infância ou adolescência foram “negativas”. No entanto, 37% dos meninos e 11% das meninas concordaram que suas experiências foram “positivas”. Donde decorre que relações na infância ou adolescência não são sempre negativas, o que significa que não é a relação em si que causa o dano, mas elementos que lhe são associados. Além disso, isso mostra que meninos reagem muito melhor.

  58. Um dos estudos revisados pelos autores fez os entrevistados classificarem suas experiências sexuais na menoridade em uma escala que vai de 1 (muito positiva) a 7 (muito negativa), de forma que as experiências seriam melhores quanto menor fosse o número. A média dos meninos foi 3,38, ao passo que a média das meninas foi 5,83. Então, sim: meninos tendem a reagir melhor à intimidade com adultos ou outros menores durante sua menoridade. Isso também mostra que intimidade antes dos dezoito anos não necessariamente resulta em prejuízo.

  59. Se por um lado a experiência foi boa quando ela ocorreu, como essas crianças veem o que aconteceu depois que amadurecem? 59% de 514 mulheres vê essas experiências como negativas, mesmo que as tenham sentido como positivas quando ocorreram, mas apenas 26% dos homens (118 amostras) têm a mesma sensação. Por outro lado, 42% dos homens vê essas experiências como positivas mesmo depois de chegarem à idade adulta, enquanto que 16% das mulheres mantém a posição de que a experiência foi positiva mesmo depois de amadurecerem.

  60. É muito difícil que relações antes da idade de consentimento prejudiquem o desempenho sexual na vida adulta.

  61. Aqueles que foram prejudicados pelo ato se recuperam em algum tempo. O que significa que dano permanente é também incomum. Isso quer dizer que, quando há prejuízo, o dano não é tipicamente intenso. Experiências sexuais traumáticas são uma minoria ínfima.

  62. Depois de tudo o que foi visto, está claro que intimidade entre dois menores ou entre adulto e menor não causa dano em grande parte das vezes em que ocorre. Então, terapêutas que trabalham com menores que tiveram jogos ou relacionamentos sexuais não devem assumir que essas experiências são negativas e devem perguntar ao paciente como ele se sente em relação a elas. O psicólogo não deve tratar um problema que não existe. Analogamente, os pais não devem tomar o namoro do filho como um mau sinal automático.

  63. Mas algo ainda não está claro: se existem relações positivas e relações negativas, então o que é que causa o dano? Claro que fatores como penetração, dor e coerção influenciam o resultado negativamente, de forma que uma experiência sexual sem esses elementos pode muito bem ser inofensiva. Mas como se explica a presença de desajuste em pessoas que só relatam experiências positivas?

  64. Parece que a resposta reside na família. Além da experiência sexual do menor, que foi positiva, problemas familiares não relacionados a sua sexualidade podem ter causado o desajuste. Assim, desajuste em pessoas com experiências positivas pode ser explicado por outros fatores, como negligência (deixar a criança passar fome ou ignorar seu choro) e abuso não-sexual (chineladas, golpes de cinturão).

  65. Dessa forma, se uma pessoa teve experiências sexuais positivas na infância ou adolescência, mas ainda assim apresenta algum tipo de problema psicológico, faz mais sentido atribuir seu problema a outros fatores, não a sua experiência sexual.

  66. Alguns adultos foram perguntados se seus problemas emocionais têm como fonte as relações que tiveram quando menores ou problemas familiares atuais. Muitos reportam que as relações não os afetam mais, mas a família continua ruim.

  67. Os autores concluem que, na população universitária, cerca de 14% dos homens e 27% das mulheres tiveram intimidade sexual na infância ou adolescência. No entanto, se algum deles tinha algum problema psicológico, ele raramente tinha raízes nessa intimidade.

  68. Envolvimentos traumáticos são, portanto, uma minoria estatística.

  69. Assim, a afirmação de que experiências sexuais na infância ou adolescência, principalmente se não forem forçadas ou dolorosas, sempre são prejudiciais é preconceito. Elas podem ser prejudiciais, mas, estatisticamente, elas normalmente não são e, quando são, o dano é geralmente pequeno. Traumas por experiências sexuais são raros.

  70. Um terço dos homens estudados reportam que a experiência foi negativa, mas dois terços dizem que não foi(ou seja, pode ter sido positiva ou neutra). Com mulheres, é o contrário. No entanto, quando ocorre dano, ele normalmente é superado.

  71. Três de cada oito homens que tiveram experiências íntimas na infância ou adolescência reportam que a experiência foi positiva. Com mulheres, o número foi uma em dez.

  72. A razão disso é cultural: meninos veem experiências sexuais como uma “aventura” ou um meio de satisfação da curiosidade natural, mas meninas, por causa de padrões sociais construídos acerca do sexo feminino, tendem a ver essas experiências como imorais. Isso é especialmente grave se ocorre penetração.

  73. Menores podem sentir prazer.

  74. Meninas tendem a sentir vergonha desses encontros, mas meninos os veem como uma prova de maturidade, principalmente se interagem com o sexo oposto, principalmente se a mulher for mais velha. Quando a experiência não é positiva, o menino é geralmente indiferente.

  75. Outra razão pra que o menino responda melhor a esses encontros é que seu corpo precisa de menos estímulo para sentir prazer. Eles se envolvem com o ato mais rapidamente. Parece que o sexo masculino é mais ativo.

  76. As reações ao ato, quando o ato não é doloroso e nem violento, podem ser facilmente atribuídas aos papeis sexuais tradicionalmente atribuídos a homens e mulheres. Homens aprendem na adolescência que devem ser viris, libidinosos, dominantes, em movimento. Mulheres são ensinadas a ser passivas, castas, sexualmente reticentes. Mas o mundo está se livrando de papeis sociais baseados em gênero.

  77. Por que o número de experiências negativas com meninas é tão alto? Porque, por alguma razão, elas são mais alvo de experiências sexuais forçadas. Assim, não é o ato em si, mas a dor e a violência que causa o dano. As mulheres que respondem positivamente ou indiferentemente não experimentaram nem dor e nem violência.

  78. Se por um lado reações de meninas e meninos a experiências sexuais são muito diferentes, por outro elas são muito parecidas, se levarmos em consideração somente as experiências em que o menor foi forçado. Porque os efeitos são quase iguais quando coerção está presente.

  79. Muitos indivíduos que tiveram experiências sexuais na infância ou adolescência e que têm algum tipo de desajuste emocional já tinham esse desajuste antes da experiência.

  80. Experiências sexuais negativas ocorrem mais comumente dentro da família.

  81. Às vezes, não é o pai que tem relações íntimas com os filhos, mas os filhos entre si. Irmãos podem forçar um ao outro.

  82. Experiências sexuais raremente afetam a estrutura familiar. Geralmente, é a estrutura familiar que facilita essas experiências. Por exemplo: uma criança que se envolve sexualmente com um adulto, debaixo do nariz dos pais, está, com certeza, sendo negligenciada em outras coisas também. Os pais não estão ligando. Por isso a criança fica desajustada, mesmo que a relação seja positiva: uma relação assim, na sociedade atual, é sinal de negligência.

  83. Se seu filho vai mal na escola, há uma boa chance de que ele esteja sendo fisicamente, emocionalmente ou verbalmente abusado, em vez de sexualmente abusado.

  84. Abuso verbal é mais danoso do que relações íntimas na infância ou adolescência, segundo o estudo. Isso porque abuso verbal é mais comum e é sempre violento, ao passo que experiências sexuais não são tão comuns e podem ser voluntárias.

  85. Se a relação ocorrer dentro da família, a chance de prejuízo é maior. Não foi meu caso.

  86. Muitas vezes, tudo vai bem… até que alguém descobre.

  87. Relações entre menor e menor ou entre adulto e menor foram mais analisadas por um viés legal e moral do que empírico.

  88. Se não há prejuízo, não é abuso, de um ponto de vista científico. Então a ciência não deve chamar relações inofensivas de abusivas. Pra merecer o título de “abuso”, deve haver dano em algum lugar.

  89. Chamar tudo de abuso induz o pesquisador e o leitor a assumir que o ato foi negativo, mesmo que não tenha sido.

  90. No século dezoito, masturbação era imoral. No século dezenove, homossexualidade era imoral. No século vinte, relações envolvendo menores são imorais. Neste século, elas podem deixar de ser. Eu tenho certeza que foi esta pista que levou a direita cristã conservadora ao limite.

  91. Tratar a masturbação como doença levou à criação de tratamentos que causavam mais dano do que benefício, pois tratavam um problema que não estava lá. Tratar relações com menores como doentias proporciona o mesmo efeito, se não existir prejuízo nessas relações. Claro que alguns menores podem sofrer com o ato. Mas se ele não sofreu, não precisa ser tratado.

  92. Algumas de nossas definições médicas têm laços com o direito, que por sua vez tem laços fatuais com os costumes e, logo, com a religião.

  93. Masturbação, promiscuidade, sexo oral e homossexualidade já foram todos comportamentos tidos por doentios. Agora estão tratando a sexualidade infantil como doentia.

  94. Um ato socialmente inaceitável não necessariamente é doença.

  95. “Para esses estudantes universitários do sexo masculino, 37% viram suas experiências sexuais na menoridade como positivas no momento em que ocorreram; 42% veem essas experiências como positivas quando refletem sobre elas; e em dois estudos que perguntavam sobre efeitos positivos percebidos, um número entre 27% e 37% afirmam que essas experiências proporcionaram influência positiva em suas vidas sexuais atuais. Mais importante, esses homens, não obstante o nível de consentimento (isto é, voluntário ou não) não diferem do grupo de controle em ajuste psicológico atual, embora homens que só tiveram experiências forçadas diferissem, implicando que aprovação voluntária do ato está associada com ajuste psicológico normal.” Como pode um “abuso” trazer benefício?

  96. Se o ato não for forçado, a chance de prejuízo é muito menor. Experiências sexuais negativas na infância e adolescência, mesmo que com parceiros adultos, são minoria estatística.

  97. Dizer a uma criança “você foi abusada” quando ela não se sente abusada simplesmente a fará ignorar você. A experiência permanece a mesma. Se você tentar forçar a ideia de abuso na criança, o abusador é você.

  98. Muitos menores que têm essas relações se recusam a ser chamados de “vítimas”.

  99. Quem deve julgar a experiência é o menor.

  100. De acordo com os autores, se um ato teve participação voluntária do menor e redundou em benefício, o termo correto a ser empregado é “sexo entre menor e menor” ou “sexo entre adulto e menor”, guardando o termo “abuso sexual de menor” para experiências forçadas ou negativas. Eu, no entanto, acho que o termo “sexo” deve ser substituído por “intimidade”, porque “sexo” entrega a ideia de penetração, o que não ocorre todas as vezes.

  101. Outro problema é que as definições atuais tratam crianças e adolescentes como seres de igual maturidade. Uma criança de cinco anos é diferente de um adolescente de quinze.

  102. Relações entre adulto e adolescente são mais comuns e já foram socialmente aceitas na antiguidade.

  103. Não há necessidade de presumir violência em relações com menores abaixo da idade de consentimento. Mas isso não necessariamente implica que os pesquisadores querem mudança nas leis.

  104. Casos de experiências sexuais que ocorrem fora da família antes da maioridade podem afetar a família se descobertos, por causa da intervenção jurídica. No entanto, o número de menores que conta o segredo representa menos de um quarto dos casos. O que significa que três quartos dos casos nunca são revelados.

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