Pedra, Papel e Tesoura.

27 de setembro de 2016

Anotações sobre o dicionário filosófico.

  1. Os árabes, segundo alegam, descendem de Abraão por meio de Ismael (Génesis 17:20). Observe como os árabes foram muito melhor sucedidos que os judeus no período de tempo narrado pelo Velho Testamento.
  2. Não é possível conhecer a nós mesmos plenamente.
  3. Alma é vida.
  4. “Três quartos” da humanidade não se importa com a questão da alma. “Um quarto” chega a fazer a pergunta. Mas respostas não se vêem.
  5. A alma só se torna um problema filosófico depois da revelação. Isso não seria problema e nem seria indagado se a crença na alma não tivesse sido espalhada pela Igreja.
  6. De onde vem o pensamento? Não é do corpo, mas vem de nós. Então, temos uma matéria incorpórea. Esse é o pensamento da época.
  7. O fato de haver movimento (vida) em órgãos que não estão sujeitos à nossa vontade levou os antigos a admitirem que mais de uma alma habita o corpo: uma pensante, uma emotiva, uma vegetativa.
  8. Os defensores da alma só podem se apoiar na religião.
  9. A Bíblia Sagrada não menciona alma imortal. A sua imortalidade é especulada. Ela fala de ressurreição dos corpos, é verdade, mas não de migração das almas.
  10. A Lei não fala de vida futura nem de imortalidade. Vida futura e ressurreição só aparecem a partir dos Profetas. A observância ou não da Lei de Moisés resultava, segundo essa própria Lei, em consequências terrenas. Por isso que o Novo Testamento, mais incisivamente em Paulo, diz que as obras da Lei não produzem vida eterna, como produz a aceitação e obediência a Jesus, porque a Lei nunca prometeu vida eterna em primeiro lugar. Então, se você quer uma boa vida terrena, a Lei de Moisés promete uma boa vida terrena se observada. A vida eterna, porém, vem do Messias. Porque cada coisa serve a um propósito, Jesus nunca invalidou a Lei de Moisés enquanto estava conosco, na Terra: é possível ao judeu observar os dois. O gentio, que nunca se submeteu à Lei de Moisés, ainda pode adotar preceitos dela para viver bem (Atos 15:13-21), mas não deve esperar a salvação por meio dela (salvo, talvez, o Decálogo, como implícito em Lucas 18:18-20).
  11. O debate teológico é irrelevante. Devemos ser bons e não querer entender coisas que não cabem no nosso entendimento e sobre as quais a revelação se cala, como 1914.
  12. Amizade é um contrato. Importante levar em consideração que “contrato” nem sempre tem uma conotação capitalista ou interesseira. O radical “trato” com o prefixo “com” (junto) sugere que o significado do termo é algo próximo a “tratar junto”, ou seja, quando duas ou mais pessoas combinam de, juntas, conviverem segundo regras. No caso da amizade, o objetivo do convívio é felicidade pura e simples. Estamos juntos porque somos felizes juntos. As regras da amizade são normalmente simples e dá pra aprender pelo bom-senso.
  13. Diz Voltaire que a lei grega antiga não sancionava a pederastia e que, na verdade, o estereótipo do grego antigo como pederasta é devido ao costume. Isso quer dizer que a lei não permitia expressamente a prática, mas, como todo o mundo fazia, ficava por isso mesmo. É que nem baixar música pela Internet. Dependendo do detentor do direito autoral e da lei local, isso pode virar caso de polícia, mas, como todo o mundo faz, normalmente fica por isso mesmo.
  14. O amor existe em muitos animais, mas a cópula não ocorre com todos. Por exemplo, peixes desovam e têm as ovas fecundadas externamente pelo esperma masculino. Esse tipo de peixe não faz sexo porque não ocorre, propriamente, parceria. Embora muitos animais experimentem luxúria, o ser humano, quando confrontado com o impulso, não precisa ter sexo imediatamente. Ele tem seu cortejo, tem os beijos, as carícias, enfim: ele torna a ocasião sexual um evento romântico. Outros animais podem, mas o ser humano é mais interessante em seu romance. Assim, para nós, o sexo é apenas o ápice. Tem preliminares e todo um carinho depois do ato. Seja criativo, faz parte da sua espécie.
  15. Para Voltaire, só o ser humano conhece a prática de beijar.
  16. O ser humano não entra no cio. Sua temporada sexual nunca acaba. De fato, existem períodos em que a fêmea está mais fértil, mas o macho humano não precisa esperar esse tempo e a fêmea humana muitas vezes também não espera. Se o sexo fosse condicionado somente à determinada época, o ser humano teria uma relação com o sexo mais próxima da dos animais, que praticam por reprodução (diz Voltaire), mas, porque podemos fazer sexo quando quisermos, isso implica que podemos fazer sexo somente por prazer, sem visar reprodução.
  17. O ser humano aperfeiçoa sua prática erótica. Pelo estudo do corpo e o avanço médico, sabemos como melhorar o ato sexual, como nos tornar mais sensíveis ao prazer do sexo, maximizamos o prazer.
  18. Sexo parece mais gostoso quando feito com quem você gosta.
  19. Como o ser humano procura mais prazeres em relação ao sexo, ele está sujeito a mais frustrações.
  20. Uma piada: um mendigo estava pedindo dinheiro na rua quando um nobre falou com ele. O nobre disse: “Você não tem vergonha de pedir dinheiro na rua em vez de trabalhar?” O mendigo responde: “Eu estou pedindo é dinheiro, não é conselho, não.”
  21. O amor próprio é natural. Se não amamos a nós mesmos, nos deixaríamos morrer.
  22. O homossexualismo nunca foi obrigatório em nenhuma lei, mas nem todos os códigos proibiam. Isso porque, em muitas nações, a homossexualidade era tão normal que puni-la legalmente atrairia a ira da população. Nenhuma pessoa na Terra legisla contra um costume, a menos que tenha problemas mentais.
  23. O termo “anjo” tem origem babilônica. Por causa disso, nos melhores textos, esse termo só aparece pela primeira vez na Profecia de Daniel. Antes, Israel não tinha um nome específico para os representantes de Deus.
  24. Depois que matamos, enterramos os mortos. Temos mais consideração pelos mortos do que pelos vivos.
  25. A caça pode levar ao canibalismo: um inimigo morto não é tão diferente de um frango abatido.
  26. O canibalismo ocorreu com menos frequência na história do que o sacrifício humano aos deuses pagãos.
  27. As igrejas primitivas rejeitavam, em uníssono, o Apocalipse de São João. Os testemunhos favoráveis ao Apocalipse vinham de pessoas de pouco crédito e tanto intelectuais como o vulgo o viam com suspeita. O atribuíam a João, mas qual João? O escritor se identifica como João apenas. O João do Santo Evangelho Segundo São João se identifica como “discípulo amado”, a Primeira Epístola de São João o identifica por nome e esses são o mesmo João por partilharem do mesmo estilo de escrita. A Segunda Epístola e São João e também a Terceira foram escritas por “João, o presbítero”, o qual tem estilo de escrita diferente. Mas o Apocalipse foi escrito somente por “João” e tem estilo de escrita díspar de todo o resto da Obra Joanina. Pra piorar, li em algum lugar que, no original em grego, “Jerusalém” está escrito errado.
  28. O Apocalipse de São João foi provavelmente escrito depois que João estava morto.
  29. Porque o livro é de natureza alegórica, os eventos ali narrados podem representar vários eventos históricos. Assim, como o fim está próximo (e está), o Apocalipse poderia significar a terceira guerra mundial contra o Estado Islâmico, como antes se pensava que ele se referia ao reinado de Carlos IX, por exemplo.
  30. Sócrates foi acusado de ateísmo e condenado por corromper a juventude. Mas quem espalhou o boato de que Sócrates era ateu foi um poeta que escrevia comédia. Em uma delas, ele usava Sócrates como personagem, o mostrando como ateu e ladrão.
  31. É muito fácil desvirtuar um texto para provar uma intenção que o escritor não tinha.
  32. Os populares absorvem más reputações com mais facilidade do que boas. É mais fácil lembrar do suspeito de um crime do que de um herói confirmado.
  33. Os chineses, na época de Voltaire, não eram cristãos, mas nem por isso ateus.  Tinham a concepção de um ser supremo e justo, que vinga injustiças e premia bons atos.
  34. É mais fácil ao fanático matar do que ao ateu.
  35. O ateu é aquele que rejeita a ideia de Deus. Quem não acredita porque nunca foi exposto à ideia de Deus não é ateu, pois, não tendo nenhuma ideia da divindade, não se posiciona nem contra e nem a favor.
  36. “O catecismo anuncia Deus às crianças e Newton o demonstra aos matemáticos” era um provérbio de época.
  37. Beleza é relativo. Para Voltaire, não existe beleza absoluta.
  38. Leibniz acreditava que vivemos no melhor dos mundos possíveis. Mas como se explicaria então a miséria humana? A miséria humana não é boa ao próprio ser humano e provavelmente não é boa para o próprio Deus.
  39. Diz Voltaire que o enigma de Epicuro não foi inventado por Epicuro, mas por um padre que, usando a fama de Epicuro como ateu, atribuiu o enigma a Epicuro para refutá-lo depois, como se estivesse refutando uma opinião em alta conta entre os ateus. O problema é que Epicuro, na Carta Sobre a Felicidade, admitia a existência de Deus como imortal e sumamente feliz. Então ele não era ateu. O enigma é o seguinte: por que Deus permite a maldade se Deus é bom? Se ele pode, mas não quer, ele não é bom. Se ele quer, mas não pode, não é onipotente. Se ele não quer e nem pode, é mau e impotente. Se ele quer e pode, então por que permite?
  40. Essa questão é mais pertinente entre religiosos do que entre ateus. Alguns, por exemplo, estipulam dois princípios: mal e bem. A razão da existência do mal é o confronto de duas forças igualmente poderosas. Raciocinam assim os maniqueístas. Agostinho foi um deles antes de se converter ao cristianismo.
  41. Tudo era bom, a razão do mal é o pecado original. Ou seja, o mal ocorre porque nós, seres imperfeitos, fazemos péssimas escolhas.
  42. Nem todas as potências se atualizam e que existem coisas que fazemos que não geram nenhum efeito grandioso no universo, como queriam alguns da época de Voltaire que achavam que todos os atos, pela cadeia de causalidades, eventualmente afetariam o mundo inteiro.
  43. A cadeia de efeitos relacionados à determinada causa eventualmente termina. Todos os meus antepassados, até eu, se reproduziram, o que ocasionou meu nascimento. Mas, do jeito que as coisas vão, tenho grandes dúvidas sobre minha capacidade de continuar esse movimento.
  44. Causas pequenas frequentemente geram efeitos pequenos, que geram efeitos menores e cada vez menores. A cadeia de efeitos, eventualmente, se extingue, porque sabemos que, depois de iniciado, a menos que seja mantido, o movimento cessa.
  45. Nossas fontes de prazer e dor, elementos constituintes do caráter, não podem mudar, embora possam ser escondidas. Você pode fingir ser algo que não é, mas não pode mudar seu caráter. Dada a oportunidade, ele se mostra. É melhor você aprender a gostar de si mesmo, porque você não pode ser ninguém mais. Mesmo que finja ser outra pessoa, tenha aprendido a se comportar, quebramos a educação que nos foi dada eventualmente e esse evento que causa tal transgressão frequentemente é a ascensão ao poder. Por isso se diz que é possível conhecer o caráter da pessoa dando poder de governo a ela. Na minha modesta opinião, isso acontece porque nós recebemos essa educação de superiores. Ela se fragiliza quanto menos pessoas são superiores a nós. Assim, se eu recebi determinada educação de minha mãe, mas virei presidente e, portanto, senhor de minha mãe, que me importa agora a educação que ela me deu? Talvez seja por isso que meu irmão se tornou tão valente com minha mãe, porque agora ele trabalha. Quando ele arrumar casa própria, temo que deixe minha mãe de todo.
  46. Na época de Voltaire, já se tinha noção de que havia outros planetas, outras estrelas solares, e que toda essa criação universo afora adorava Deus. Lembro de uma história em quadrinhos em que um personagem perguntava se o habitante da Lua descendia de Adão e Eva. Não. Mas isso não implica dizer que Deus não fez outras criaturas universo afora. Afinal, até os cães, gatos e outras criaturas aqui na Terra mesmo não descendem de Adão e Eva. Portanto, o argumento de que “todos partimos de Adão e Eva” não invalida a possibilidade de vida inteligente em outro lugar. Alguém pode se perguntar então porque Deus teria um carinho especial só com a humanidade. Ele ama a criação inteira, mas tem um pacto com Israel. Então, é por Israel que sua atenção se volta frequentemente sobre nós, humanos. E, se não se voltasse, não teria enviado seu filho para ensinar o caminho da salvação também aos gentios. Mas isso é especulação da minha parte, acate quem achar válido.
  47. Não esconda sua ignorância. Quando não souber, confesse que não sabe.
  48. Se Deus está em tudo, inclusive em mim mesmo, não seria eu parte da divindade? Bom, se a luz perpassa o vidro, por acaso é parte do vidro?
  49. Se Deus está em mim, como não envergonhá-lo com meus atos? Basta fazer o que Deus exige de mim, que, segundo o livro, é ser justo.
  50. Faça ao outro o que gostaria que fosse feito a você, é como se define justiça no diálogo do catecismo chinês. Pascal chama isso de “caridade“.
  51. Deve-se viver, segundo o livro, como se viveria na vida seguinte.
  52. Se as recompensas vêm depois da morte, muitos concluem por isso que a alma deve ser imortal.
  53. Alma é princípio de movimento. Segundo o livro, razão, memória e paixões também habitam na alma. Mas “alma” é apenas um substantivo coletivo para designar todas essas coisas, não tendo existência real ou autônoma. Quando nos referimos à vida e às qualidades mentais, usamos o termo “alma”.
  54. Animais têm memória, paixões e ideias. Têm “alma”, isto é, vida e mentalidade. De onde vem a alma? Ela vem de outro lugar? É feita no instante da geração? Não sabemos. E talvez não convenha saber.
  55. Se Deus está em mim, pra quê preciso eu de alma?
  56. A crença na imortalidade da alma nos compele à justiça. Se a alma é imortal e seu destino após a morte depende dos atos cometidos em vida, então eu quererei ser bom.
  57. Mas sejamos bons quer a alma exista ou não.
  58. Se a vida acabasse na morte, definitivamente, sem esperança de vida futura, tanto para bons quanto para maus, os crimes cometidos em vida e que não foram punidos em vida permaneceriam impunes. Isso é injusto, especialmente porque o bom e o mau acabariam do mesmo jeito. Mas, se eu creio que Deus é sumamente justo, então é necessário que os maus sejam punidos em algum instante, mesmo que seja depois da morte. Observe que isso não necessariamente justifica o Inferno, pois a punição pode vir da elevação dos bons. A recompensa dos bons com a vida eterna e a punição dos maus com a segunda, e definitiva, morte, seria justiça também.
  59. A voz da razão é a voz de Deus, diz o livro.
  60. A memória nos mantém. Se perdermos a memória, seremos outra pessoa.
  61. É meio estranho que cultos tão pequenos reivindiquem para si a verdade, como se todo o resto estivesse no engano. Bom, foi o que fez o estoicismo.
  62. Não basta não praticar o mal, deve-se praticar o bem.
  63. O bom amigo aponta os defeitos do outro, com tato, para não machucar. Se você não corrige o outro, trabalha para sua destruição. Isso não é amizade.
  64. A amizade não precisa ser norma de religião, porque a melhor amizade é espontânea. Ela acontece sozinha, pela convivência.
  65. Vários preceitos da religião cristã, como amar os próprios inimigos, já existiam em outras nações que nunca haviam ouvido falar de Cristo.
  66. Existem diferentes graus de virtude. As virtudes de menor grau são as que são úteis apenas a nós mesmos, como a temperança e a prudência. As virtudes de maior grau são aquelas que são úteis ao todo, isto é, a nós e aos outros, como a tolerância e a benevolência.
  67. A hospitalidade é uma virtude esquecida.
  68. Há riscos na prática de qualquer virtude.
  69. Não haverá necessidade de vingança se as boas ações forem recompensadas.
  70. Gosto não se discute.
  71. Contenda causa mais danos que a tolerância.
  72. Quando pregar, fale da moral, não das controvérsias. Deixe o julgamento para o ouvinte.
  73. A moral é mais importante do que a teologia.
  74. A prática da comédia pode ser construtiva, se usada como meio de aprendizado.
  75. Uma festa pode matar tanto quanto uma batalha. Um torneiro de futebol pode matar tanto quanto uma guerra.
  76. Talvez houvesse menos abuso de drogas se houvesse mais trabalho.
  77. A Escritura não precisa ser questionada. Mas se deve questionar a opinião humana.
  78. É possível ter certeza e estar errado.
  79. A certeza matemática é propriamente certeza.
  80. A certeza lógica é propriamente certeza.
  81. Os babilônios já sabiam que a Terra girava em torno do Sol.
  82. Muitos filósofos esconderam a verdade para não serem perseguidos, uma vez que a verdade poderia não ser entendida. Isso aconteceu mesmo no caso de Heráclito, que editou sua filosofia em folhas douradas que eram colocadas num cofre, o qual só poderia ser aberto depois de sua morte. Assim, se alguém achasse suas ideias escandalosas, não poderia persegui-lo; estava morto.
  83. “Cada planeta coloca seu céu no planeta vizinho.” Isso me lembra de uma música.
  84. Não é necessário saber física pra ser santo.
  85. Não é de hoje que filósofos do ocidente admiram a filosofia oriental.
  86. Mas se a filosofia oriental não ficou popular no ocidente até recentemente é porque se tinha, na Idade Moderna, o preconceito de que a China, por exemplo, era um governo ateu. Havia um grande preconceito contra ateus.
  87. No oriente, se tinha o hábito de recompensar as virtudes e punir os crimes. Mas, no ocidente, nunca um governo foi bem-sucedido em recompensar dignamente a virtude de alguém, limitando-se apenas ao castigo do crime.
  88. O ocidente cresceu mais rapidamente em ciências naturais. Mas o oriente cresceu mais rapidamente em humanidades. Pelo menos, até a Idade Moderna.
  89. O oriente obteve o basilar primeiro.
  90. A nação judaica absorveu, segundo o livro, um grande número de práticas já adotadas no Egito.
  91. Se essas práticas entraram no culto judaico é porque Deus as santificou. Isso é interessante porque eu tenho a impressão de que Voltaire é católico. Os protestantes têm como principal argumento contra o catolicismo o fato de que um número grande de práticas pagãs entraram no culto católico. Mas Voltaire aqui está argumentando que não importa se as práticas são pagãs se Deus não as condena. Se assim o fosse, nem mesmo o batismo, diz o livro, seria ritual cristão, pois já era praticado religiosamente antes da vinda de Cristo em religiões da Ásia. Assim, Deus poderia santificar algumas práticas, argumenta Voltaire, e incorporá-las no culto.
  92. Podemos enumerar propriedades do corpo, mas sem exatamente saber o que ele é.
  93. Voltaire critica Berkeley: se nada é corpo e tudo são ideias do nosso espírito, como é que eu morro se levar um tiro?
  94. Voltaire critica Berkeley também com o mesmo argumento que usei antes: medições subjetivas são contraditórias, é verdade, mas o sistema métrico não é. Esse ataque pode também ser feito aos céticos, ironicamente combatidos por Berkeley, e que sustentavam a mesma coisa sobre a extensão dos corpos, embora mais modestamente. Os céticos não concluíam que não existe extensão só porque tamanho “depende” de quem o vê, mas simplesmente supunham que, por causa disso, tamanho é relativo e não se pode se pronunciar sobre extensão de maneira absoluta.
  95. Muitos platônicos dos três primeiros séculos se converteram ao cristianismo. Trouxeram consigo a filosofia platônica.
  96. Para Voltaire, fazia “pouco tempo” que os cristãos tinham perdido o poder de fazer exorcismos, poder antes confiado aos judeus, os quais também o perderam.
  97. Há mais evidência bíblica contra a Trindade do que a favor. Mas a doutrina da divindade de Cristo prevaleceu por votação nos concílios ecumênicos, quando duzentos e noventa e nove dos presentes se mostraram a favor da divindade de Cristo e dezoito apenas o consideravam filho e criatura.
  98. As primeiras conversões ao cristianismo na China começaram porque os cristãos se mostraram úteis e pacatos. Se mostrassem muito diferentes da cultura local ou se não trouxessem algo de útil, seriam recebidos com suspeita. A conversão não foi feita à escândalos e extravagâncias, mas por amizade e utilidade pública.
  99. Mesmo que eu pregue para cem pessoas, é natural que nem todos se convertam. Para Voltaire, esse é o sentido do provérbio “muitos são chamados, mas poucos são escolhidos” (Mateus 22:14).
  100. Os populares brigam com os punhos, mas os intelectuais brigam com críticas escritas. Da mesma forma que um desentendimento mesquinho pode degenerar em agressão física, muitas críticas filosóficas são movidas por inveja, mesquinharia ou orgulho, em vez de compromisso com a verdade.
  101. O gênio irritável é escusável nos artistas, na maioria das vezes.
  102. O conteúdo de uma peça ou música muitas vezes escapa à plateia, que está lá pra se divertir, não necessariamente pra pensar ou criticar o trabalho do compositor. Por isso os que compõem letras profundas, de crítica social e coisa e tal são relegados ao “nicho”, a um público pequeno em relação aos artistas que dão prioridade ao apelo estético potencial de seu trabalho.
  103. Na arte, dar prazer é o principal. Se você quer vincular uma ideia a um trabalho artístico, mas não consegue fazê-lo de forma “bela” ou “sublime” ou, de alguma forma, agradável à plateia, então sua ideia ficaria melhor numa dissertação, não no meio artístico. Porque, quando se ouve uma música, se pensa em se divertir. Se a música não agrada, ninguém se importará com a ideia que a música está tentando mostrar. O mesmo é válido pra pintura, pro teatro, pro cinema, pra todas as formas de arte, sejam estéticas, sejam técnicas (como jogos eletrônicos). Prazer primeiro, ideia depois.
  104. Um artista tem autoridade pra criticar outro artista. Difícil é achar um artista com integridade o bastante pra fazer isso satisfatoriamente.
  105. O melhor crítico de arte é o bom artista, de bom gosto e bem treinado, que não deixa seu julgamento ser prejudicado pela inveja ou pelo orgulho.
  106. Na mitologia grega, o destino é maior que os próprios deuses.
  107. O ser humano não pode mudar as leis da natureza. No máximo, pode usá-las a seu favor.
  108. Deus entende todos os idiomas. Não há necessidade de orar em latim.
  109. Para o devoto vulgar, teologia não lhe passa pela cabeça. Sua fé é toda prática.
  110. Saber teologia não ajuda a ser justo, bom ou civil.
  111. Por que se pinta Deus com uma barba? Por acaso ele é humano? Se a toupeira adorasse a Deus, provavelmente o conceberia como uma toupeira divina. “Imagem e semelhança” não é literal.
  112. Já se pensavam que existiam espécies de homens que haviam sido extintos. Nossa espécie, de fato, foi apenas um dos tipos de homem: havia outros dois. Esses eram o arcaico e o neandertal. Sabe-se que viveram juntos, como espécies diferentes da mesma família (não como raças diferentes, mas como bichos diferentes), como ocorre com as diferentes espécies de gato, cada uma com diferentes raças
  113. Escalas de gradação de seres estão fadadas a ser incompletas.
  114. O pessoal da Idade Moderna media planetas com muito acerto, mesmo sem ter nossos instrumentos.
  115. Todos têm opinião política.
  116. Não adianta aconselhar um mau governante: ele não quererá ouvir. Deve-se aconselhar aqueles que ainda não subiram ao governo, isto é, a nova geração de governantes.
  117. Nenhum governo humano dura pra sempre.
  118. A virtude é mais necessária numa monarquia, para que o monarca governe bem. Numa república, é mais necessária a honra, porque ninguém que tenha má reputação perante a maioria seria eleito.
  119. Existem muitos insatisfeitos com o próprio governo e que prefeririam viver em outro país.
  120. Leis variam de lugar para lugar também por causa do clima e da geografia.
  121. Mas não existe um lugar onde só se deva obedecer às leis.
  122. Não se deve julgar costumes passados usando os modernos como referência, diz o livro.
  123. Antigamente, tocar os genitais um do outro era um sinal de respeito e de promessa. Hoje, quando fechamos negócio, preferimos apertar as mãos. Imagine você, depois de fechar negócio, ser afagado entre as pernas e ter de fazer o mesmo com o negociante.
  124. Diz Voltaire que a palavra hebraica frequentemente traduzida por “coxa” significa, na verdade, “testículos”. Então, colocar a mão sob a coxa de alguém (Génesis 24:2) seria, se o raciocínio proceder, um eufemismo para colocar a mão sob o saco. Diz Voltaire que esse tipo de tradução era normal na época porque os tempos haviam mudado e os genitais se tornaram motivo de pudor e de vergonha. Então, seria deselegante traduzir literalmente esses termos na literatura sagrada. Mas não eram motivo de vergonha nos tempos narrados no Velho Testamento. Eram como qualquer outra parte do corpo.
  125. Isso mostra como os costumes mudam segundo região e contexto histórico.
  126. Virtude é praticar o bem.
  127. Fanatismo é o excesso de fé. É a fé que mata.
  128. A marca do fanatismo é condenar à morte quem não pensa como o fanático.
  129. Os fanáticos, ao falar de sua fé, tremem, ganham um brilho diferente nos olhos, aumentam o tom da voz, irrompem em movimentos súbitos. São apaixonados. A fé excedeu a razão.
  130. O fanático cristão tem em mente os exemplos de célebres assassinatos do Velho Testamento. Não passa pela cabeça deles a tolerância, a compaixão, a caridade e o amor de Cristo. Os tempos em que os judeus tinham que subjugar as gentes da Terra Prometida passaram. Não há, hoje, contexto para assassinar ninguém em nome da fé cristã ou judaica. No caso dos judeus porque as sentenças de morte previstas na Lei só podem ser executadas na presença de pelo menos duas testemunhas (Deuteronômio 17:6 / Deuteronômio 19:15) cujos testemunhos devem ser analisados por um sacerdote legítimo (Deuteronômio 17:9). Só que o templo onde isso acontecia está inviabilizado. No caso dos cristãos, matar fere o Decálogo (Êxodo 20:13 / Mateus 19:18), o amor (Lucas 10:27) e a Lei Áurea (Mateus 7:12).
  131. Se o fanático se julga inspirado por Deus, ele não ouvirá aos magistrados. As leis nada são para ele.
  132. Como persuadir alguém que julga que está matando em nome de Deus?
  133. As religiões orientais não têm fanáticos, por serem predominantemente filosóficas. Não há espaço para a paixão em movimentos conduzidos racionalmente. Como a fé é um sentimento e as religiões do Livro incorporam a fé, o judaísmo e o cristianismo estão fadados a ter fieis fanáticos. Claro que nem todos o são, mas a existência deles é, infelizmente, natural. Isso também não implica que as religiões do Livro não incorporam razão: a filosofia teve muita contribuição delas. Mas como não há necessidade de fé numa religião oriental, pois tudo está explicado racionalmente e o caminho para a divindade é reverso (normalmente, Deus se revela a nós, mas, nas religiões orientais, o fiel chega ao sobrenatural pela razão), só seria possível se tornar fanático sendo doente.
  134. Seitas de filósofos sinceros também não têm fanáticos. Argumentam entre si para converter uns aos outros de escola para escola, mas não vão ao ponto de matar quem se opõe. Isso porque forçar o outro a se calar (pra sempre) é quase um atestado de derrota: o matei porque não aceito que estou errado. Aí é que ninguém vai dar ouvidos a você.
  135. Deus fez tudo visando um propósito, pensam os otimistas metafísicos. Então, se eu coloco um anel no dedo é porque Deus fez o dedo também pra receber o anel. O problema é que os produtos humanos são ordenados por humanos, enquanto os naturais são ordenados pelo divino. Não foi Deus que fez o anel. Se eu o fiz, dou a ele a função que eu desejar.
  136. Quando os sentidos se enganam na percepção de algo, isso não quer dizer que Deus está nos enganando, como diz Platão em um diálogo cujo nome esqueci. Exemplo: quando olhamos a Lua, a vemos pequena. Será que Deus nos engana mostrando aos nossos olhos uma Lua pequena? Não é isso. É que estamos concebendo o tamanho da Lua com informação insuficiente. Nós cometemos o engano porque esperamos que Deus revele a verdade sempre facilmente, mas não é o que ocorre. Não basta só olhar, é preciso pensar. O engano está, então, na atitude de tomar as coisas pelas suas aparências, como se estas bastassem. Portanto, mentir “em nome de Deus” não é justificável.
  137. Não é que nossos olhos estejam enganados, é que a informação dada foi mal-interpretada pela razão.
  138. Mentir para uma criança a fim de deixá-la mais receptiva ao remédio amargo também não é boa ideia. Quando ela colocar o remédio na boca, vai te achar um mentiroso. Você se dá à perda de crédito por seu próprio filho. Além disso, se você for sincero ao dizer que o remédio, apesar de amargo, o fará bem, ele talvez até entenda que é necessário se expor ao desprazer para obter algo melhor. Isso o torna corajoso e sábio, pois entenderá que é possível julgar perdas e ganhos de cada ação e que algumas dores são necessárias.
  139. Mentir para fins religiosos leva ao ateísmo. A religião passa a ter fama de ridícula.
  140. Os operários poderiam ser instruídos como os letrados. Seria interessante que todos recebessem a mesma educação.
  141. Mas, para Voltaire, não se deve fazer isso senão com certos saberes. Existem saberes úteis a todos, que devem ser ensinados a todos. Platão dirá que é a matemática, Voltaire dirá ser a justiça.
  142. A crença de que Deus recompensa os bons e pune os maus basta para conduzir as pessoas crentes ao bem. Mais teologia que isso não é necessário.
  143. Se o filósofo descrente critica a religião, quanto mais atacará tudo o mais. Nada é impassível de dúvida para ele. Esse é o comportamento padrão da filosofia, aliás. Filósofos que salvaguardem certas coisas da dúvida, como os filósofos que também são religiosos, são raros (a menos que se conte os fanáticos da universidade, que passam a vida inteira repetindo um escritor sem nunca cogitar a possibilidade de que este possa estar errado, ainda mais quando é um desconhecido da Itália cujo nome começa com “Vi” e termina com “co”).
  144. “Quem te disse que Deus pune?” Ora, “quem te disse que não?”. Para Voltaire, suspender o juízo do filósofo basta. Não precisamos convertê-lo. Já a Carta dirá que é preciso proibir o discurso ateu.
  145. Chamamos nossas faculdade mentais de “espírito” por razões aleatórias. Queríamos um nome legal pra dar a uma coisa que não compreendemos.
  146. Tem muita coisa que não sabemos. Quando consideramos o quanto ignoramos, ficamos até com vergonha de assumir o cargo de doutor ou professor.
  147. Sem misericórdia, poucos estariam vivos. Basta ver com que facilidade matam os que são tomados pelo desejo de consumir drogas. Seu vício supera sua humanidade e, sufocando sua misericórdia, tornam o assassinato seguinte mais fácil do que o último.
  148. Fazer algo “para a glória de Deus”, segundo Voltaire, é inútil: que benefício poderia Deus tirar da glória dos atos humanos? De fato, a Bíblia diz que devemos dar glória a Deus, mas veja lá como vai fazer.
  149. Dar glória a Deus com atos vãos pode até ferir o terceiro mandamento (Êxodo 20:7). Matar ou roubar para a glória de Deus, imagine só.
  150. Para Voltaire, Deus não se ocupa dos seres humanos o tempo todo. Ele tem o universo inteiro com que se preocupar. É por isso que temos que orar para que ele atente para nós. Ele não virá se não formos em sua direção.
  151. Toda a Criação tem um grau de autonomia. Deus não precisa intervir o tempo todo em sua criação porque ela tem condições de funcionar sozinha. Ela é toda inteligente e ordenada. Se Deus tivesse que intervir com tanta frequência, em que sentido a Criação teria sido concluída no dia seis?
  152. Voltaire é um escritor bem sarcástico. Dá pra rir lendo.
  153. Passar fome ou adoecer nem sempre dependem da vontade humana. Mas entrar em guerra, sim.
  154. Para dar leis a alguém, é necessário consenso do que recebe a lei.
  155. Há soldados que vão pra guerra sem saber contra quem lutarão e por que lutarão. Só querem ser pagos.
  156. Antigamente, os exércitos eram abençoados por padres, os quais pediam a ajuda de Deus para vencer o exército oposto. Isso já é pecado grande o bastante. Depois da guerra, nem sempre agradeciam a Deus, mesmo que tivessem um bom saldo de mortes. Isso provavelmente é um pecado menor, já que eu acredito que Deus não ajudaria na guerra (fazia no tempo do Velho Testamento para o estabelecimento da nação judaica como especial).
  157. O cristão que participa da guerra e que prega contra todos os tipos de vício fora da ocasião de guerra comete hipocrisia: fala contra pecados pequenos, que nem sempre são pecados, mas comete os grandes. Como corrigir o outro se eu faço pior que ele (Mateus 7:5 / João 8:7)?
  158. O amor é a única esperança de reparo da conduta humana. Mas frequentemente trabalhamos contra o amor.
  159. Os pecados que não são cometidos contra o amor parecem ser menores do que os cometidos contra o amor. Na verdade, alguém escreveu que a prática da caridade, uma manifestação de amor, perdoa pecados (1 Pedro 4:8). De fato, não há quem não peque, mas sejamos bons pelo menos.
  160. A guerra causa mais males do que todos os vícios cometidos por uma só pessoa em toda a sua vida.
  161. De que vale a virtude numa guerra?
  162. É especialmente triste quando os que morrem na guerra são jovens guerreiros. Tinham uma vida inteira pela frente e morrem aos vinte anos.
  163. Pra não falar das crianças mortas entre as batalhas.
  164. Antes da subida do primeiro rei, Israel era governada por juízes, enviados de Deus. Quando Israel resolveu que seria bom se subjugar a um rei, como os gentios faziam, estavam rejeitando o próprio Deus (1 Samuel 8:7). Isso não necessariamente invalida a política, se seguimos o mandamento divino como algo acima das leis humanas. Então, participamos da política na medida em que isso nos traz benefício, mas não absolutamente. Além do mais, Deus governava Israel, mas não as gentes. Se Deus se mostrar a nós para nos governar, o seguiremos, certo? Se ele realmente se manifestar através da Bíblia Sagrada, então tudo bem, pois ele não proíbe que os seres humanos tenham chefes entre si. Especialmente se ele não instaurou chefe visível entre nós. Enquanto Deus estiver afastado de nós politicamente, a política humana é o melhor que temos. Podemos praticá-la na medida do benefício e enquanto ela não prejudica nossa obediência ao chefe maior, que é Deus.
  165. O governo de Israel passou a ser monárquico e humano. O pecado de Adão se repete.
  166. Voltaire identifica contradições entre os livros dos Reis e os livros das Crônicas. Como Deus já não mais governava Israel diretamente, mas podia apenas dar conselho por meio dos profetas, é natural que a história tenha sido escrita de forma secular. Se Deus fosse o único escritor dos livros de Samuel, Reis e Crônicas, esses livros não deveriam se contradizer em relação à ordem em que os fatos acontecem. Isso mostra que os escritores estavam narrando os fatos conforme sua lembrança. O mesmo se dá no Novo Testamento: os Evangelhos têm contradições históricas. Isso não quer dizer que Jesus nunca existiu ou que ele não é o Messias (sua vida está cheia de profecias concluídas), mas que os livros que narram sua história, principalmente o Santo Evangelho Segundo São Lucas (o qual, em Lucas 1:3, admite que seu evangelho é fruto de uma pesquisa e não de divina inspiração), foram escritos por humanos, esforçando suas memórias humanas e capacidades humanas. É importante lembrar que os evangelhos se contradizem apenas em relação à cronologia, mas não em relação à doutrina, ou seja, a Bíblia pode até ser infalível moralmente, mas não é, certamente, inerrante. Além do mais, se os Evangelhos fossem inspirados, ou seja, como que “ditados” por Deus para humanos copiarem, todos os Evangelhos canônicos deveriam concordar em tudo, de forma que um só bastaria. Mas, se temos quatro, é para que o leitor, lendo os quatro, identifique a história real, que transparece nos quatro pontos de vista (um aluno, uma testemunha ocular, um pesquisador e um apóstolo).
  167. Outro argumento de Voltaire contra a possível inspiração divina por trás de Reis e Crônicas é de que são histórias com quase zero valor moral, segundo ele. A Lei e as Profecias são bastante edificantes em termos morais. Mas a História (de Josué até Ester) é, para Voltaire, um banho de sangue: é morte após morte, assassinato após assassinato.
  168. Idolatria é adorar uma imagem ou representação. Render culto a uma imagem, como uma estátua, lhe oferecendo orações, sacrifícios, súplicas e gestos de respeito. Tomás, canonizado como santo pela Igreja Católica, já condenava a adoração de imagens e até mesmo de Maria, embora implicitamente. Para ele, Deus deveria ser sempre o centro do culto. Se hoje se sustenta que os católicos rendem culto à Maria ou aos santos canonizados, me pergunto como e quando a Igreja começou a fazê-lo, porque Tomás, na Idade Média, já achava isso errado. Ironicamente, depois que morreu, Tomás foi feito o santo padroeiro da educação e recebe culto.
  169. Muitas vezes, a estátua ou a imagem é meramente um meio do fiel se concentrar na divindade ou pessoa que está representada. Ele não é tolo o bastante para achar que a estátua é a pessoa representada.
  170. O engano do idólatra não é adorar a estátua, mas adorar a divindade falsa, diz Voltaire. Na verdade, e com isso concorda Tomás, o engano está em adorar qualquer coisa que não o Deus verdadeiro.
  171. Assim, o fiel que reverencia uma estátua de Maria, diz Voltaire, não está rendendo culto à estátua, mas à Maria, a qual é representada pela estátua.
  172. A procissão tem origem pagã. Hobbes dirá que isso não invalida a carga pagã do ato, mas Voltaire diz que um costume, se incorporado à religião verdadeira, pode ser santificado. Com efeito, a circuncisão, conforme Voltaire diz um pouco antes, já era adotada no Egito e foi feita por Deus um sinal sagrado. Também segundo ele, o próprio batismo também era praticado entre gentios e entre judeus prosélitos. Então, muitos costumes hoje tidos por religiosos não se originam no cristianismo ou no judaísmo.
  173. Outras religiões jejuam.
  174. Porque os fieis ora chamam Maria de “Nossa Senhora de Fátima”, “Nossa Senhora da Assunção” e coisas que tais, se são a mesma Maria? Antigamente, porque as estátuas de Maria eram nomeadas segundo o lugar onde ficavam. Assim, por exemplo, se tivesse uma estátua de Maria numa cidade chamada Neves, ela seria chamada “Nossa Senhora de Neves”, referindo-se à estátua e não à Maria. Então, ver a “Nossa Senhora de Neves” quer dizer ir à Neves, ver a estátua de Maria que lá está.
  175. Se fosse a estátua a ser adorada e não a divindade por trás da estátua, então haveria vários deuses Apolo, um para cada templo.
  176. O termo “idólatra” tem origem cristã. Antes do cristianismo, ninguém falava de idolatria, porque não existia essa palavra.
  177. As coisas sagradas podem se tornar ídolos. Por exemplo, a serpente de cobre feita por Moisés para curar os israelitas do veneno das víboras (Números 21:9) teve que ser destruída porque o pessoal estava lhe oferecendo sacrifícios e a adorando (2 Reis 18:4).
  178. Não era a estátua de Júpiter que lançava os raios e nem a estátua de Netuno que agitava os mares. As estátuas não eram vistas como deuses.
  179. Os protestantes atacam a igreja católica chamando-a de idólatra, mas as imagens dos santos não são os santos. A imagem de Jesus ou a cruz não são Jesus. Se o fiel se ajoelha diante dessas coisas, está adorando aquilo que a cruz representa, que é Jesus. Ele não tem em mente que está rendendo graças à imagem diante dele.
  180. O ser humano parece ter sido feito pra crer em Deus, pois vários povos têm suas religiões. Mas as diferentes religiões mostram que cada povo concebe uma divindade como acha plausível. Seria necessário que o Deus verdadeiro aparecesse pra alguém e se revelasse como tal para que fosse de outra forma.
  181. Havia uma pressão católica para fazer oferendas às estátuas, no Renascimento. Isso porque os padres recolhiam as oferendas depois. Então, mesmo que o fiel não visse a ligação entre estátua e santo, era interessante ao padre fazer essa ligação para obter, depois, as oferendas feitas aos pés da imagem.
  182. Não é possível ler história universal sem sentir vergonha, em algum ponto, de participar do gênero humano, tamanhas atrocidades por ele feitas e exaustivamente documentadas historicamente.
  183. Só Deus pode tirar a vida de um ser humano. O assassinato seria, dada essa premissa, usurpação de direito divino.
  184. Os sábios da antiguidade, mesmo que não professassem publicamente, chegavam frequentemente à conclusão monoteísta: se existe algum Deus em algum lugar, ele é único.
  185. O muçulmano tem mais razão em chamar os cristãos de idólatras: maior parte do cristianismo é católica e os católicos, mesmo quando não adoram as imagens, fazem um bom trabalho parecendo que o fazem.
  186. São nossas necessidades que nos levam a nos servir uns dos outros. Se não houvesse necessidade de serviço, não haveria necessidade de servidores. Sem servidores, não haveria chefes.
  187. Para Voltaire, o inimigo não é a desigualdade, mas a dependência. Se não dependêssemos uns dos outros, não precisaríamos nos submeter e seríamos iguais. Eu, porém, penso que a dependência entre os seres humanos não necessariamente causa a desigualdade. O que causa a desigualdade é a urgência de determinadas necessidades. Como algumas são mais urgentes que outras, são tidas em mais conta, recebem maior número de trabalhadores e se tornam ambientes mais propícios à exploração. Se todas as necessidades tivessem o mesmo valor, haveria um mutualismo: o com cada um capaz de suprir uma ou outra demanda, os papeis de senhor e servo seriam alternados periodicamente. Além do mais, sejamos realistas: não é possível acabar com a dependência entre seres humanos. Sempre precisaremos um do outro.
  188. Voltaire já via a sociedade humana como dividida em duas classes: opressor e oprimido. Marx chamará essas classes de dominante e trabalhadora.
  189. Voltaire diz que o ritmo ativo do trabalho impede o trabalhador de perceber sua própria miséria. Marx dirá que isso é uma manifestação de alienação.
  190. É possível uma revolução se a classe oprimida se servir bem do ferro contra a classe opressora sem coragem.
  191. A existência de dominadores é possível porque o ser humano tem tendência à maximizar o prazer. Se lhe for dado o meio para isso, ele quererá apenas ter sexo, comer e ganhar dinheiro sem trabalhar.
  192. A sociedade atual só pode subsistir se houver gente miserável: alguém que já tenha tudo e baste a si mesmo não quererá trabalhar pra ninguém. Se todos tivessem condições de sobreviverem de seu próprio trabalho, não teriam chefes, não haveria dinheiro nem exploração, não haveria trabalho assalariado e nem escravidão. Como existem pessoas que não têm condições suficientes de subsistência, elas precisam se subjugar a quem possa dá-las.
  193. Igualdade é o estado natural do ser humano. Mas está perdida há muito tempo e provavelmente não voltará por forças humanas. Voltaire conclui que não é possível voltar ao estado de igualdade.
  194. Algumas nações eram tão mal-governadas que estipulavam leis que proibiam os cidadãos de se mudarem pra outro lugar. Afinal, se pudessem, não ficariam lá e o Estado não poderia lucrar com arrecadação de imposto e força de trabalho.
  195. A coisa certa a ser feita é governar tão bem que os súditos queiram ficar e que os outros queiram vir pra cá.
  196. É especialmente ruim se sujeitar a quem tem menos capacidade que você.
  197. Todos os povos, para colocar um freio nos crimes secretos, criaram religiões segundo as quais os deuses punem as pessoas depois da morte. Assim, há uma barreira dupla contra os crimes: a cadeia para crimes públicos e o Inferno para crimes secretos. Mas o judeus foram um povo singular também nisso: Deus não revelou a Moisés nada sobre a vida futura. Deus pune, sim, mas nesta vida. Esse é o parecer judaico. Com efeito, a Lei não promete vida eterna, mas somente bens presentes, materiais (chuva, paz, saúde…). Pondo as coisas dessa forma, pra quê esse negócio de “evangelho da prosperidade“? A Lei de Moisés promete tudo o que o evangelho da prosperidade promete sem cobrar dinheiro por isso. Então, se o que você quer é fartura, saúde e segurança, terá mais chances de obter virando judeu em vez de atender à Universal.
  198. Para o judeu, alma é vida. Ela não é imortal.
  199. O problema é que muitos maus prosperam.
  200. A crença no Inferno tem finalidade política.
  201. O dilúvio total parece impossível: não tem água o suficiente no mundo. Porém, um dilúvio local é mais crível.
  202. Se o dilúvio foi universal, então foi um milagre.
  203. É inútil explicar cientificamente o dilúvio, se ele tiver sido universal e, portanto, milagroso. Afinal, um milagre é uma providência divina que ignora as leis de causalidade a que estamos acostumados. Como não se faz ciência sem causalidade (relação de causa e efeito, segundo a qual um efeito natural provem de uma causa natural), é impossível pra ciência explicar o dilúvio universal, caso tenha acontecido. É melhor nem tentar.
  204. É ingênuo pensar que os animais são máquinas só porque são “irracionais”.
  205. Treinar um animal mostra que os animais não agem sempre da mesma forma. Seu comportamento muda com a ação humana.
  206. A presença da linguagem não é o único sinal de razão, emoção ou sentimentos. Animais os têm e não usam a linguagem humana.
  207. Os animais sentem dor. Pra quê teriam nervos se não fosse também para sentirem prazer e dor?
  208. Será que os animais têm alma? Isso também não importa: o fato é que sentem, lembram, vivem, se comunicam entre si, aprendem…
  209. Muitas afirmações sobre as almas dos animais são gratuitas, como se não quisesse dar uma reflexão profunda sobre criaturas tidas por irracionais.
  210. Não se deve querer saber o que é uma coisa sem saber antes se ela existe. É o que fez Anselmo e todo o mundo sabe no que deu.
  211. Máquinas não têm alma, mas a marca da máquina é a operação humana. Quem opera os animais? Se operam sozinhos como nós fazemos, têm vontade, que é uma faculdade mental e, portanto, espiritual, anímica.
  212. Não é possível julgar sem antes conhecer.
  213. As leis variam de país para país, estado para estado, cidade para cidade. Os valores variam de pessoa para pessoa. Se as leis são tão voláteis, no final das contas, o que vale, é fazer bons acordos.
  214. Muitas leis justas acarretam punições injustas.
  215. Existem muitas leis perigosas.
  216. Bom senso nos leva a legislar. Justiça interior nos leva a legislar bem.
  217. O país conquistado fica sob leis arbitrárias. Leis justas são decididas de comum acordo.
  218. O cachorro do déspota vive melhor que seus súditos.
  219. Em Atenas e em Roma, uma regra religiosa só poderia existir se o Estado deixasse. Assim, se a Igreja quisesse que algum dia fosse dedicado a um santo ou coisa assim, portanto feriado, teria que pedir autorização ao Estado. Afinal, imagine se a Igreja, sem consenso estatal, tornasse feriado todos os dias do ano, de forma que a maioria da população não trabalhasse por razões religiosas. Isso seria um atentado assassino à economia.
  220. Os padres e os pastores são súditos do Estado.
  221. O padre não deve matar um cara porque ele é pecador: o padre deve orar pelos pecadores e não julgá-los.
  222. Sacerdotes não devem ser isentos de impostos.
  223. Leis que precisam ser interpretadas são facilmente corrompidas. Hobbes, ciente do problema, dirá que convém que cada lei venha com uma descrição das condições que levaram à sua promulgação (para que a lei expire quando esses condições não mais existirem) e o propósito ao qual ela serve (para que só se possa interpretá-la de um modo).
  224. Impostos devem ser proporcionais. Quando mais ganha, mais imposto paga.
  225. A lei que proíbe algo bom é inválida, ninguém a respeitará.
  226. Liberdade é o poder de escolher entre aquilo que me é dado escolher. Ela não é absoluta, pois há coisas que me ocorrem e que estão além da minha escolha.
  227. Isso significa que a liberdade é a mesma em todos os animais. O ser humano não tem mais liberdade que o cachorro, por exemplo, no sentido de que a liberdade é a mesma em ambos: o poder de escolher entre as opções dadas. No máximo, se eu quisesse sustentar que o ser humano é mais livre, eu poderia argumentar que a quantidade de opções para nós é maior.
  228. A liberdade é igual em todos, o que varia é o número de opções.
  229. Não é possível querer sem razão. Fazemos escolhas visando nossa felicidade.
  230. “Quero porque quero” é absurdo.
  231. A nossa liberdade é racional. Nós pensamos antes de escolher, para verificar quais razões nos levam a escolher uma opção e não as outras. Os insensatos reflectem menos tempo.
  232. Não escolhemos o que desejamos, mas escolhemos se é ou não sábio satisfazer o desejo.
  233. Indiferença é uma escolha. Sartre diz a mesma coisa quando ele diz que a inação já é um posicionamento. Então, não existem escolhas “neutras”. Pascal dá um exemplo prático na dicotomia entre cético e dogmático.
  234. A loucura em Voltaire é a doença, não simplesmente o comportamento anormal, como em Erasmo. Como uma pessoa pode agir loucamente se a alma (residente no cérebro) é de igual natureza às outras almas, de pessoas saudáveis?
  235. Todos são loucos para a loucura, diz Voltaire, porque os sábios, teorizando sobre a loucura, chegam a conclusões sem sentido. A única saída, a meu ver, assumindo a alma incorruptível como pressuposto, seria teorizar uma lesão ou doença no caminho entre a sensação e a alma, seja essa imperfeição no cérebro, no órgão sensorial ou em qualquer lugar entre um e outro. Isso não parece repudiar a pureza da alma, a qual é alimentada com informações distorcidas e, portanto, emitindo julgamentos distorcidos. Claro que a medicina atual tem visões diferentes sobre o assunto e eu mesmo talvez não sustentasse esta opinião que acabo de formular. Estou apenas tentando dar uma resposta adequada à época em que o livro foi escrito.
  236. É fácil se manter virtuoso quando não há tentação a enfrentar.
  237. Alguns costumavam dizer que é lícito roubar se não formos usar o produto do roubo. Mas veja se isso faz algum sentido.
  238. Ricos e pobres são passíveis de morte. Então, por que não morrer rico?
  239. O excesso de riqueza é que é ruim. “Excesso” é algo que está em tão grande volume ou quantidade que torna-se prejudicial. O excesso de riqueza seria então uma quantidade exorbitante de dinheiro a ponto de prejudicar alguém. Faz sentido no período de Voltaire: por volta desse tempo, se tinha a sensação de que o comércio era um “jogo de soma zero”. Então, para cada homem muito rico há homens muito pobres. Para o pensamento da época (posso estar enganado), se alguém tem excesso é porque, mesmo que indiretamente, esse alguém está privando outros de sua parte.
  240. As inovações são vistas como desnecessárias por muitos, como sendo fúteis e, portanto, viciosas. Pra quê computador se tenho máquina de escrever? Pra quê cortar as unhas ou aparar os cabelos se crescerão de novo? Essas coisas já foram novidade e muitas novidades são vistas com maus olhos por pessoas que estão acostumadas com o que já têm.
  241. Falar muito pra responder uma pergunta é tão suspeito quanto ficar calado. Em um caso, se finge saber. Em outro caso, se admite não saber.
  242. O que é a alma? Ou melhor: o que é a matéria? Todos sabem a resposta sensualmente, mas poucos são capazes de colocar essa resposta em palavras de maneira satisfatória (por favor, não diga que é cada divisória do caderno).
  243. A geometria é mais segura que a metafísica.
  244. Nada vem do nada.
  245. Nenhuma mitologia concebe, diz Voltaire, um universo que tenha vindo do nada. Elas pressupõem um caos anterior. Tem que ser um Marcelo para bolar um mito tão absurdo. Que bom que ele não o levou a sério, reservando-o ao seu cenário de campanha.
  246. Somente para as religiões do Livro é que a eternidade da matéria é ofensiva: a criação divina é a exceção ao “nada vem do nada”, porque foi do nada que Deus criou as coisas.
  247. De acordo com Voltaire, por muito tempo, também os judeus não sabiam exatamente se Deus tinha feito tudo do nada ou se a matéria lhe era co-eterna.
  248. No princípio, Deus criou os céus e a terra (Génesis 1:1), mas isso não necessariamente quer dizer que Deus criou céus e terra do nada. O verso seguinte (“a terra era informe e vazia…”) também não sugere isso.
  249. Voltaire aponta que, em hebraico, o termo utilizado para designar Deus no Génesis 1:1 está no plural.
  250. Um punhado de estudiosos judeus de antes da época de Voltaire afirmam a co-eternidade da matéria, como um princípio mau. Deus teria, dizem, a moldado para torná-la boa, ordenando o caos.
  251. Esse pensamento não é exclusivamente judaico e nem neles se origina. O estudioso foi provavelmente inspirado por outras versões do princípio do cosmos.
  252. Só é possível dividir por movimento, diz Voltaire.
  253. O sistema de co-eternidade da matéria é problemático.
  254. Admitir a co-eternidade da matéria não afeta a moral, para Voltaire, porque essas questões teológicas não nos impedem de sermos bons como Deus quer que sejamos. Só me pergunto se isso não seria alguma blasfêmia…
  255. A maioria das questões metafísicas e teológicas é irrelevante em termos morais.
  256. Para Voltaire, o ser humano não nasce mau. O pecado de Adão e Eva ficou lá com os dois, então. Ele não seria transmitido de pai para filho como quer Tomás. Hobbes também dirá algo parecido, quando ele diz que o ritual de batismo católico envolve algo que parece um exorcismo, como se o bebê a ser batizado já estivesse possuído por um demônio. Para Hobbes, batismo é só se banhar na água com alguém dizendo a fórmula batismal, não havendo necessidade do óleo sagrado ou da saliva do padre sendo quase que enfiada no nariz do bebê (me pergunto se isso ainda é feito). Importante ressaltar que a opinião da Igreja Católica é a de que qualquer um pode batizar na ausência de um sacerdote. Meu pai, por exemplo, batizou uma criança no bairro em que eu morava. Ora, mas esse batismo, considerado válido, não tem a tal saliva nem o óleo sagrado. Fica assim patente que maior parte do ritual do batismo é desnecessário, com os únicos elementos indispensáveis sendo a água e a fórmula (“fulano, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” ou “em nome de Jesus”, dependendo do viés doutrinário). Sem falar nas preliminares (confissão e arrependimento dos pecados, os quais a criança não precisaria fazer porque nasceu faz pouco tempo). Se o pensamento de Voltaire se estende até à doutrina do pecado original, ele está contradizendo Paulo, para quem todos têm uma mancha de maldade (Romanos 5:12) que só pode desaparecer pela doutrina de Cristo. Se ele contradiz Paulo sem contradizer Jesus, então pouco me importa.
  257. Se eu nascesse doente, não haveria médico capaz de me curar. Minha “doença” seria parte de minha natureza.
  258. A criança não é má por natureza. Se ela pratica o mal, é porque teve uma educação ruim. Ela aprendeu a fazer isso, diz Voltaire. Isso parece uma questão de ponto de vista. Os delitos infantis são, para uns, marcas de inocência e, para outros, marcas do pecado original. Eu sempre achei que essa reflexão sobre a natureza do ser humano, ser mau ou bom de nascimento, é uma questão de ponto de vista. Agostinho, por exemplo, discorda. Estudiosos contemporâneos também vêem as coisas assim, as crianças agem por instinto, como bichinhos. Se esses instintos são aceitáveis na sociedade, a sociedade as verá como boas. Do contrário, as verão como más. Então, pelo menos pra mim, a bondade ou maldade inerente à criança depende do contexto histórico e social, dos valores que os adultos têm, porque são os adultos que julgam se a criança é boa ou má, se ela precisa de correção ou incentivo, se em apenas alguns comportamentos ou em todos os comportamentos.
  259. “O primeiro ambicioso corrompeu a terra.” Os comportamentos ruins passam de pessoa para pessoa, como doenças, transmitidas pelo exemplo.
  260. Nem todos os que estão expostos a males morais os contraem.
  261. Voltaire compara a maldade inerente com os animais que caçam sem culpa. Isso me parece outra evidência do lance do ponto de vista: o comportamento moral dos animais também é questão de ponto de vista. Aliás, eu não gosto de aplicar conceitos humanos, como moral, aos animais. Não têm essa preocupação de certo ou errado, tendo seu comportamento guiado pelo prazer, pela utilidade pessoal ou pela utilidade da espécie. Bem e mal, moral, são conceitos estranhos aos bichos. Mas Voltaire diz que, se o ser humano fosse mau por natureza, agiria como os animais que caçam sem remorso.
  262. Praticar o mal requer tempo livre. Quem trabalha muito não tem tempo pra roubar, diz Voltaire. Observe que hoje, porém, há quem faça profissão do crime.
  263. De acordo com os cálculos de Voltaire, uma em cada mil pessoas pode ser chamada “má”.
  264. Há menos maldade na Terra do que se pensa, segundo Voltaire. O que nos faz pensar que estamos perdidos é a constante exposição à notícias, boatos, lamentos de pessoas que sofreram injustiças de alguém. Foi assim que perdemos a presidente, com as notícias fazendo parecer que o país estava perdido sob sua administração, quando tinha muita gente que, desligando a televisão pra ir pro trabalho ou pra farra, não via nada disso de que as notícias falavam. Se o Brasil estivesse tão ruim, não precisaríamos das notícias pra nos dizer isso.
  265. O povo judeu foi oprimido várias vezes e cruelmente. Esperavam um salvador poderoso e grande. Quando Jesus apareceu, não acreditaram, porque Jesus veio pacificamente e tinha tomado a forma de ser humano. Ficava difícil acreditar que Jesus libertaria alguma coisa.
  266. Isso levou os judeus a acreditarem em vários falsos messias que apareceram depois de Jesus. Quando um deles, condenado à morte, tentou obter misericórdia se convertendo ao Islã, resolveram deixar de crer em messias humanos, diz Voltaire. Esse último falso messias foi morto pelo exército do sultão, se tornando piada para muçulmanos e vergonha para os judeus da época.
  267. A migração das almas para outros corpos depois da morte é um dogma de origem oriental e é mais velho do que muitos pensam. Com efeito, Platão, herdando dos pitagóricos, se refere a essa ideia como muito confiável.
  268. Se milagre é uma coisa admirável, então tudo é milagre: pra que milagre maior do que o de estarmos vivos? Como isso pode acontecer? Por que nós e não outros?
  269. O milagre, em sentido estrito, porém, é a providência divina que age fora da causalidade. É quando Deus resolve fazer algo que exceda o funcionamento normal da natureza. Exemplo: ressuscitar alguém (2 Macabeus 7:9 / Mateus 16:21).
  270. Dizer que Deus não iria querer “quebrar” as regras da criação, mesmo sendo dono delas, para favorecer um povo seleto que tem um acordo com ele (como os judeus, por exemplo) é negar a compaixão divina. É como se Deus tivesse feito suas criaturas e não as amasse a ponto de fazer uma modificação perfeitamente reversível e temporária nas leis cósmicas, um acontecimento que poderia inclusive ser local.
  271. Para os que crêem, mas não em milagres, a execução de milagres é contraditória: as ações divinas não seriam perfeitas, dizem, se Deus tivesse que mudá-las, mesmo que temporariamente.
  272. Para o mecanicista, tudo sempre tem explicação lógica. Milagres podem ser cientificamente explicados, dizem.
  273. Imagine se a academia recebesse a denúncia de um milagre em execução, mandasse um professor ao local pra interromper e pedir que ele executasse o milagre na faculdade, assistido por médicos e físicos só pra saber se o milagre é realmente tal. Seria embaraçoso.
  274. Óbvio que não foi Moisés que escreveu o Pentateuco, uma vez que o Pentateuco termina com a morte de Moisés e a declaração de que seu túmulo nunca foi encontrado (Deuteronômio 34:5-6). Como Moisés poderia ter escrito isso? Ele provavelmente tinha um escriba. Hobbes dirá que quem escreveu o Pentateuco foi Josué. Ainda existe a possibilidade, embora remota, considerando o estilo de escrita, de que maior parte tenha sido escrita por Moisés e somente o Deuteronômio ou mesmo somente o final de Deuteronômio tenha sido escrito por Josué. Assim, seriam “livros de Moisés” no sentido de que são livros sobre Moisés (com adição do Génesis, que fala do que havia antes de Moisés), tal como os Evangelhos são livros sobre Jesus.
  275. De acordo com a tradição ortodoxa, a Lei foi queimada durante o exílio babilônico. Um escriba teve que reescrever tudo. Então, se levamos em consideração os livros desse escriba contidos na Versão dos Setenta, foi ele quem escreveu toda a Lei e mesmo todo o Velho Testamento como o conhecemos.
  276. Foi provavelmente esse escriba quem completou o Deuteronômio.
  277. O Levítico, diz Voltaire, proíbe casar com cunhadas, mas o Deuteronômio deixa. Isso porque o Deuteronômio representa as “segundas leis”, que entram em vigor na entrada de Israel na terra prometida. Então, o Deuteronômio tem prioridade.
  278. “Pátria” é o conjunto de famílias em determinado território. Quanto maior a pátria, mais difícil é amá-la, porque famílias distantes se estranham.
  279. A perseguição obcecada de títulos elevados (como na política) revela mais o amor próprio do que o amor pela pátria.
  280. Todo o mundo deseja as mesmas coisas: educação, saúde, segurança… Então, quando votamos, não votamos pela pátria, mas por nós mesmos, porque esperamos que o Estado nos garanta essas coisas. Então, é sua vida que deveria formar a base para sua escolha eleitoral, não as notícias. Pense bem: se a vida estiver ruim pra maioria, então a situação não será reeleita, mas a oposição, porque a maioria não quer mais a situação. Porém, se você leva as notícias em consideração, a propaganda feita por elas desequilibra a eleição, porque se insere um elemento estranho ao julgamento do voto democrático. Se sua vida estiver indo bem, reeleja a situação para que continue como está. Se ela estiver indo pior do que no mandato anterior, procure outros candidatos. As escolhas políticas do país são péssimas porque se pensa que assistir às notícias te torna culto e informado, mas não necessariamente é assim. “E se o político for ladrão e isso passar nas notícias, devo levar isso em consideração?”, alguém pode perguntar. Bom, você sente os efeitos de seu roubo? A educação, a saúde e a segurança estão ruins pra você apesar desses roubos? Se estiverem, então não vote mais nele. Se estiverem, então ele é do tipo “rouba, mas faz”. “Mas eu não deveria escolher políticos que não roubam?”, alguém pode perguntar. Se você pensar dessa forma, não votará em ninguém, porque só se fala nos que roubam. Sobre os honestos, se guarda silêncio na mídia. Preste atenção: existe notícia sobre político honesto? Quase zero ou mesmo zero. São desconhecidos. Por essa razão, as notícias não deveriam ser critério de julgamento para o voto individual, porque ela é parcial, focando-se no negativo apenas, o que dá a impressão de que todos os políticos nacionais são ruins (é notável como o político mais bem-falado no Brasil é o presidente dos Estados Unidos). Se o voto é individual, a vida da pessoa é que deveria dizer se reelege ou não. Afinal, se a vida da maioria estiver ruim, claro que não ele não irá se reeleger.
  281. Para Voltaire, todos os governos foram repúblicas algum dia. Outros dirão algo parecido ao afirmar que todas as monarquias foram eletivas em algum ponto.
  282. Que tipo de governo é o melhor? Os reis preferem a monarquia, os ricos preferem a aristocracia e o povo prefere a democracia. Claro que a “melhor forma de governo” depende do interesse pessoal…
  283. Por que, na época de Voltaire, a maioria dos governos europeus era monárquico? Ele diz “perguntai-o aos ratos que decidiram amarrar um sino no pescoço do gato.” Eu conheço essa fábula. Era um vez um gato assassino que perseguia os ratos da casa a fim de comê-los e fazia um bom trabalho nesse esporte. Os ratos, tementes por suas vidas, se reuniram numa assembleia para decidir o que fazer. Quem desse a melhor ideia seria proclamado rei dos ratos. Então, um deles se levantou e disse: “irmãos, o gato só nos pega porque ele é sorrateiro, mas, se agarrarmos um sino ao redor de seu pescoço, ouviremos sua aproximação e teremos tempo de fugir!”. Ele foi proclamado rei dos ratos sob muita festa e gulodice. Mas, no dia seguinte, alguém tinha que colocar o plano em execução. Quem? Os ratos começaram a pressionar o novo rei até que ele abdicou do cargo, porque ficara evidente que ele é quem eventualmente teria que fazê-lo. Moral da história: fácil falar, difícil fazer. A alusão que Voltaire faz é provavelmente a de que os europeus da época gostavam da monarquia porque todo o trabalho político ficava com o rei, a quem podiam pressionar e culpar. É o ambiente propício à alienação de responsabilidade.
  284. O ódio às nações opostas às ideias da pátria, infelizmente, parece fazer parte do sentimento de patriotismo.
  285. Você é patriota quando não se importa quando sua nação enriquece às custas de outras. Você é patriota quando não se conforma quando outra nação enriquece às custas da sua.
  286. Jesus deu a Pedro as chaves do reino dos céus e disse que sobre ele seria a Igreja construída (Mateus 16:18-19). Essas frases ambíguas foram entendidas de formas diferentes dependendo de quem as interpretava, ora servindo como argumento a favor da não sujeição da Igreja ao Estado, ora servindo como argumento de que Pedro foi o primeiro papa…
  287. As igrejas primitivas eram comunidades. A Igreja única só apareceu no fim do segundo século. E deixou de ser única no Grande Cisma. E ficou ainda menos única com a Reforma Protestante. Agora a Igreja é dividida em três denominações: católica, ortodoxa e protestante.
  288. Voltaire diz: não há prova de que Pedro esteve em Roma ou que tenha sido posto numa cruz invertida.
  289. Os papas não eram perfeitos. Então, suspeitar de sua infalibilidade é escusável. Esse argumento também serve contra Paulo e Pedro. Entravam em conflito (Gálatas 2:14). Fica difícil saber qual dos dois, então, é inspirado, mesmo quando ambos operaram feitos sobrenaturais (Atos 3:6 / Atos 14:13), o que não é garantia de comunhão com Jesus (Mateus 7:21-23).
  290. Preconceito é uma opinião sem julgamento.
  291. A criança é cheia deles, recebendo valores dos pais antes de ter idade para julgá-los.
  292. Existem “bons” preconceitos. São aqueles que o julgamento vê que estão corretos quando o julgamento é exercido. Se fôssemos esperar que as crianças desenvolvessem juízo para educá-las, não o faríamos antes da adolescência, o que poderia ter efeitos catastróficos.
  293. Os olhos enganam, mas o ouvido não o faz.
  294. Antigamente, nos tempos do Velho Testamento, se subjugar a Deus não necessariamente significava que os deuses das outras nações eram falsos, diz Voltaire.
  295. O fato de o Santo Evangelho Segundo São João se referir a Jesus como o “Verbo” tem motivações filosóficas. De acordo com alguém, o movimento filosófico da patrística começa com João e com Paulo, os quais, vendo a dificuldade do ensino de Cristo em ganhar adeptos entre os gentios, escrevem seus textos em resposta às objeções feitas pelos filósofos da época. “Verbo”, no original em grego, é “logos“, um conceito filosófico já existente entre os gentios. João identifica em Jesus aquilo que os filósofos sabiam que existia sem nunca terem visto. O ensino de Cristo se impõe, então, como a verdade procurada exaustivamente pela filosofia.
  296. Alguns erros de raciocínio ocorrem. Por que Deus os permite? Diz Voltaire que é porque esses erros não alteram a doutrina principal.
  297. Os crimes cometidos em nome da religião cristã superam os crimes cometidos em nome de qualquer outra religião.
  298. Se você for falar de alguma coisa com alguém, não dê provas a menos que o ouvinte as peça. Se você começar por dizer que o que você está falando já está provado, o ouvinte se prepara para julgar, o que requer a tomada de uma posição incrédula. Se depois dessa prova ele ainda se mantiver incrédulo e você disser que a culpa é dele, ele ficará com raiva de você. Então, deixe as provas para os que as querem.
  299. Quando alguém não pensa como você e você fica com raiva dessa pessoa, você está manifestando orgulho. Você tem para si que seu raciocínio é melhor e a recusa a ele é uma afronta à sua auto-estima.
  300. Antigamente, se acreditava que a alma residia no peito, porque emoções fortes são sentidas no coração primeiro.
  301. Dar sentidos forçados a textos claros é trabalhar contra o entendimento do texto.
  302. Pra quê Salomão tinha tantos cavalos em tempos de paz? Ora, pra passear com as mulheres dele!
  303. “Entender num escritor o contrário do que ele diz é zombar da humanidade.” Meu Deus, a gente bola de rir.
  304. Voltaire deixa bem claro ao dizer que ele abominava os judeus. Aliás, ele (um tanto presunçosamente) estende esse pensamento à toda a cristandade quando diz “nós”, isto é, os cristãos, “abominamos os judeus”. Ora, mas não era Jesus judeu? Ele faz uma exceção ao dizer que, se os cristãos recebem algo dos judeus, esse algo deve carregar a marca divina. Jesus é o filho de Deus, então ele traz essa marca. Do ponto de vista de Voltaire, um bom número de livros do Velho Testamento não é inspirado. Ai, põe esse no Índice. Se Voltaire escrevesse algo assim hoje, seria preso por intolerância religiosa. Fica claro que ele odiava os judeus (apesar de falar da tolerância mais à frente).
  305. Só temos cinco sentidos. Não há como imaginar como seria ter um outro. Os cientistas modernos consideram, contudo, o equilíbrio como um sexto sentido.
  306. Pode existir, em algum lugar, seres com mais de cinco sentidos. Se esse animal pudesse fazer ciência…
  307. Mas pense como deve ser a vida de alguém com mais de cinco sentidos. Não temos poder sobre nossos sentidos, não escolhemos quando nossos sentidos se sensibilizam a determinado objeto. Nós acordamos com a luz em nossos olhos, o barulho em nossos ouvidos, cheiros e gostos também nos acordam e acordamos por causa do frio e do calor. Mais sentidos significa mais sensibilidade e mais estímulo, mais estresse e mais insônia.
  308. Pensamento e sensação são igualmente interessantes.
  309. A sensação também é uma faculdade dada a nós pela divindade. Então, há algo de divino em toda a criação, inclusive nos animais ditos irracionais.
  310. Descartes foi o primeiro cara, segundo Voltaire, a dizer que já nascemos sabendo alguma coisa. Alguém demonstrou que Descartes esquece que essas verdades inatas não passam pela cabeça das crianças.
  311. Alguns erros são afirmados porque alguém de má reputação afirma o contrário. Se um mal-falado fala a verdade, se assumirá, com base em sua reputação, que ele mente e se tomará como verdade o oposto, uma falsidade.
  312. Para Voltaire, “memória” é sensação contínua.
  313. Voltaire se pergunta: como sentimos algo nos sonhos se os sentidos adormecem? É que os sentidos nunca adormecem.
  314. Se adormecem e a alma está livre pra pensar no que quiser, então nossa alma é doida, pois sonhos são doidos.
  315. Premonições oníricas são coincidência, para Voltaire. Disso eu não sei, mas minha irmã já sonhou com a morte de três pessoas, as quais morreram enquanto ela dormia: o marido dela morreu baleado, uma amiga nossa morreu de câncer e o outro morreu sabe-se lá do quê. Importante lembrar que essas pessoas estavam todas vivas no dia anterior aos sonhos e mortas ao fim destes.
  316. Mas se os sonhos realmente predizem algo, por que falham na maioria das vezes? Nem tudo com o que sonhamos se efetiva.
  317. A Lei não proíbe a interpretação mística dos sonhos. Com efeito, Daniel (2:36 em diante) a praticava, embora com a ajuda de Deus.
  318. A obtenção do perdão divino é um fato. Mas alguns supersticiosos pensam que podem obtê-lo por meio de alguns rituais que podem ser repetidos para cada infração. Até mesmo na religião judaica, o abuso dos sacrifícios de animal se tornou algo irritante ao Deus (veja o contexto de Jeremias 6:20), porque se estava usando esse canal de perdão irresponsavelmente, como um meio de licença para pecar. O atual canal de perdão divino é o perdão mútuo (Mateus 6:14 em diante), que muitas vezes é difícil fazer, especialmente quando a ofensa é grande.
  319. É melhor não pecar do que pecar e depois se expiar. Falar é fácil.
  320. Para Voltaire, é possível adorar sem culto.
  321. Os tempos mais horríveis eram ricos em superstições.
  322. O tirano é a pessoa que faz de sua vontade a lei, toma as posses dos súditos e as usa para tomar as posses dos outros países. Assim, se clarifica o que é o “mau monarca” mencionado antes.
  323. A oligarquia é pior que a tirania. Com efeito, um homem ruim tem bons momentos. Mas um grupo de homens ruins não os tem: um esforça a maldade do outro.
  324. Um tirano é mais fácil de seduzir. Mas uma assembleia de corruptos não se pode seduzir. Se você seduz um, os outros integrantes provavelmente tornarão nulo seu esforço, colocando o seduzido de volta no mau caminho.
  325. Resumo da sociedade ocidental: ou se é bigorna ou martelo.
  326. Tolerância é perdoar o defeito do outro.
  327. Seita de Nicolau“, diz Voltaire, é o nome que os opositores davam aos que praticavam comunismo cristão (todas as posses deveriam ser públicas e se mulheres fossem posses seriam também públicas).
  328. A Igreja, antes do advento do catolicismo, não era única. Não havia “a Igreja do Primeiro Século”, mas igrejas do primeiro século e do segundo século antes de aparecer a Católica. Essa igreja para todos (católico quer dizer universal, uma igreja só para todos os cristãos) não durou, pois o Grande Cisma dividiu a Igreja em igrejas, a católica e a ortodoxa. A Igreja Católica foi ulteriormente divida com a Reforma Protestante. A denominação protestante inclui um sem-número de igrejas (Universal, Evangélica, Adventista, testemunhas de Jeová, Santos dos Últimos Dias, Luterana, Calvinista, Presbiteriana…). Então, a coisa mais parecida com o primeiro século, ironicamente, é agora. E mesmo sendo todos cristãos, adeptos da religião do amor, se odeiam mutuamente.
  329. Os judeus não forçam os outros a se converterem. Na verdade, o parecer judaico é de que também os que não são judeus (os gentios) podem obter o favor divino observando as leis de Noé, ao passo que muitos cristãos crêem que somente cristãos poderão ser salvos.
  330. A tolerância judaica deveria ser imitada pelos cristãos, mas o estereótipo que os cristãos têm dos judeus é só o de nação guerreira e amam usar exemplos do Velho Testamento pra justificar seu ódio.
  331. É monstruoso perseguir alguém por diferença de opinião. É lícito se indignar se ele pratica algum mal, mas não se ele fala alguma besteira. Se o problema é só de opinião, convença-o de que está errado. Se não puder, paciência. Já se o problema é de atos cometidos, seja em decorrência da opinião ou não, existe uma justiça para coisas assim.
  332. Há exemplos históricos de cristãos que se aliaram a muçulmanos para guerrear contra cristãos.
  333. Francisco I se aliou aos luteranos alemães contra o imperador, ao mesmo tempo que permitia que se queimassem luteranos em sua própria casa (na França) por razões políticas.
  334. Se houver duas religiões em um território, atacarão uma a outra. Se houver trinta, não haverá ataques.
  335. Virtude é beneficência para com o próximo.
  336. Temperança é uma virtude pessoal. Ela é de menor monta que as virtudes que servem ao coletivo. Por causa de seu caráter pessoal, Voltaire desqualifica a temperança como algo que nos torna “virtuosos”. Somos virtuosos fazendo bem a outros além de nós mesmos.
  337. Como vivemos em sociedade, algo só nos é realmente bom se serve também aos outros.
  338. A pessoa que vive reclusa não faz bem nem mal a ninguém. Se não faz bem, como é virtuosa?
  339. É possível, para Voltaire, ser santo sem ser virtuoso.
  340. Da mesma forma, se alguém é vil, não será vicioso se sua vileza não prejudicar ninguém.
  341. Pra Voltaire, a sociedade aumenta os defeitos e diminui as qualidades.
  342. É possível não ser virtuoso sempre. É possível não ser vicioso sempre.
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