Analecto

27 de setembro de 2016

Anotações sobre o “Dicionário Filosófico” de Voltaire.

“Dicionário Filosófico” foi escrito por Voltaire. Abaixo, algumas anotações feitas sobre seu texto.

  1. Não é possível conhecer a nós mesmos plenamente.
  2. Alma é vida.
  3. “Três quartos” da humanidade não se importa com a questão da alma e “um quarto” chega a fazer a pergunta.
  4. A alma só se torna um problema filosófico depois da revelação.
  5. O pensamento não vem do corpo, mas vem de nós.
  6. O fato de haver movimento (vida) em órgãos que não estão sujeitos à nossa vontade levou os antigos a pensarem que mais de uma alma habita o corpo: uma pensante, uma emotiva, uma vegetativa.
  7. Os defensores da alma só podem se apoiar na religião.
  8. A Bíblia Sagrada não menciona alma imortal.
  9. A Lei de Moisés não fala de vida futura nem de imortalidade.
  10. O debate teológico é irrelevante.
  11. Amizade é um contrato.
  12. O amor existe em muitos animais, mas a cópula não ocorre com todos.
  13. A temporada sexual do ser humano nunca acaba, não se fala em “cio” das mulheres.
  14. O ser humano aperfeiçoa sua prática erótica.
  15. Sexo parece mais gostoso quando feito com quem você gosta.
  16. Como o ser humano procura mais prazeres em relação ao sexo, ele está sujeito a mais frustrações.
  17. O amor próprio é natural.
  18. O homossexualismo nunca foi obrigatório em nenhuma lei, mas nem todos os códigos proibiam.
  19. O termo “anjo” tem origem babilônica.
  20. Temos mais consideração pelos mortos do que pelos vivos.
  21. A caça pode levar ao canibalismo: um inimigo morto não é tão diferente de um frango abatido.
  22. O canibalismo ocorreu com menos frequência na história do que o sacrifício humano aos deuses pagãos.
  23. As igrejas primitivas rejeitavam, em uníssono, o Apocalipse de São João.
  24. O Apocalipse de São João foi provavelmente escrito depois que João estava morto.
  25. Porque o livro é de natureza alegórica, os eventos ali narrados podem representar vários eventos históricos: como o fim está próximo (e está), o Apocalipse poderia significar a terceira guerra mundial contra o Estado Islâmico, como antes se pensava que ele se referia ao reinado de Carlos IX, por exemplo.
  26. Quem espalhou o boato de que Sócrates era ateu foi um poeta que escrevia comédia.
  27. É muito fácil desvirtuar um texto para provar uma intenção que o escritor não tinha.
  28. É mais fácil lembrar do suspeito de um crime do que de um herói confirmado.
  29. Os chineses, na época de Voltaire, não eram cristãos, mas nem por isso ateus; eles tinham a concepção de um ser supremo e justo, que vinga injustiças e premia bons atos.
  30. É mais fácil ao fanático matar do que ao ateu.
  31. Se este é o melhor dos mundos possíveis, como se explica a miséria humana?
  32. O enigma de Epicuro não foi inventado por Epicuro, mas por um padre.
  33. Essa questão é mais pertinente entre religiosos do que entre ateus.
  34. Nem todas as potências se atualizam e existem coisas que fazemos que não geram nenhum efeito grandioso no universo, como queriam alguns da época de Voltaire que achavam que todos os atos, pela cadeia de causalidades, eventualmente afetariam o mundo inteiro.
  35. A cadeia de efeitos relacionados à determinada causa eventualmente termina.
  36. Nossas fontes de prazer e dor, elementos constituintes do caráter, não podem mudar, embora possam ser escondidas.
  37. Quando não souber, confesse que não sabe.
  38. Se Deus está em tudo, inclusive em mim mesmo, nem por isso eu seria parte da divindade, tal como a luz que passa pelo vidro não se torna por isso parte dele.
  39. Faça ao outro o que gostaria que fosse feito a você, é como se define justiça no diálogo do catecismo chinês.
  40. Quando nos referimos à vida e às qualidades mentais, usamos o termo “alma”, mas isso não implica dizer que a alma é imortal.
  41. Animais têm memória, paixões e ideias, ou seja, têm “alma”.
  42. A crença na imortalidade da alma nos compele à justiça.
  43. Mas sejamos bons quer a alma exista ou não.
  44. Se a vida acabasse na morte, definitivamente, sem esperança de vida futura, tanto para bons quanto para maus, os crimes cometidos em vida e que não foram punidos em vida permaneceriam impunes.
  45. Se perdermos a memória, seremos outra pessoa.
  46. É meio estranho que cultos tão pequenos reivindiquem para si a verdade, como se todo o resto estivesse no engano.
  47. Não basta não praticar o mal, deve-se praticar o bem.
  48. O bom amigo aponta os defeitos do outro, com tato, para não machucar.
  49. A amizade não precisa ser norma de religião, porque a melhor amizade é espontânea.
  50. Vários preceitos da religião cristã, como amar os próprios inimigos, já existiam em outras nações que nunca haviam ouvido falar de Cristo.
  51. Existem as virtudes úteis apenas a nós mesmos e as virtudes úteis a todo o mundo.
  52. A hospitalidade é uma virtude esquecida.
  53. Há riscos na prática de qualquer virtude.
  54. Não haverá necessidade de vingança se as boas ações forem recompensadas.
  55. Gosto não se discute.
  56. Contenda causa mais danos que a tolerância.
  57. Quando pregar, fale da moral, não das controvérsias.
  58. A moral é mais importante do que a teologia.
  59. A prática da comédia pode ser construtiva, se usada como meio de aprendizado.
  60. Uma festa pode matar tanto quanto uma batalha.
  61. Talvez houvesse menos abuso de drogas se houvesse mais trabalho.
  62. A Escritura não precisa ser questionada, mas se deve questionar a opinião humana sobre a Escritura.
  63. É possível ter certeza e estar errado.
  64. A certeza matemática é propriamente certeza.
  65. A certeza lógica é propriamente certeza.
  66. Os babilônios já sabiam que a Terra girava em torno do Sol.
  67. Muitos filósofos esconderam a verdade para não serem perseguidos, uma vez que a verdade poderia não ser entendida.
  68. Não é necessário saber física pra ser santo.
  69. Não é de hoje que filósofos do ocidente admiram a filosofia oriental.
  70. Mas se a filosofia oriental não ficou popular no ocidente até recentemente é porque se tinha, na Idade Moderna, o preconceito de que a China, por exemplo, era um governo ateu.
  71. No oriente, se tinha o hábito de recompensar as virtudes e punir os crimes, mas, no ocidente, nunca um governo foi bem-sucedido em recompensar dignamente a virtude de alguém, limitando-se apenas ao castigo do crime.
  72. Podemos enumerar propriedades do corpo, mas sem exatamente saber o que ele é.
  73. Voltaire critica Berkeley: se nada é corpo e tudo são ideias do nosso espírito, como é que eu morro se levar um tiro?
  74. Quente e frio são relativos, mas trinta graus Célsius não é relativo.
  75. Perto e longe são relativos, mas um quilômetro não é relativo.
  76. Muitos platônicos dos três primeiros séculos se converteram ao cristianismo, levando consigo a filosofia platônica.
  77. Há mais evidência bíblica contra a Trindade do que a favor.
  78. As primeiras conversões ao cristianismo na China começaram porque os cristãos se mostraram úteis e pacatos, em vez de escandalosos e extravagantes.
  79. Mesmo que eu pregue para cem pessoas, é natural que nem todos se convertam.
  80. Os populares brigam com os punhos, mas os intelectuais brigam com críticas escritas, por vezes motivadas por inveja e mesquinharia.
  81. O gênio irritável é escusável nos artistas, na maioria das vezes.
  82. O conteúdo de uma peça ou música muitas vezes escapa à plateia, que está lá pra se divertir, não necessariamente pra pensar ou criticar o trabalho do compositor.
  83. Na arte, dar prazer é o principal.
  84. O melhor crítico de arte é o bom artista, que não deixa seu julgamento ser prejudicado pela inveja ou pelo orgulho.
  85. Na mitologia grega, o destino é maior que os próprios deuses.
  86. O ser humano não pode mudar as leis da natureza.
  87. Se Deus entende todos os idiomas, não há necessidade de orar em latim.
  88. Saber teologia não ajuda a ser justo, bom ou civil.
  89. Já se pensavam que existiam espécies de homens que haviam sido extintos.
  90. Escalas de gradação de seres estão fadadas a ser incompletas.
  91. Todos têm opinião política.
  92. Não adianta aconselhar um mau governante: ele não quererá ouvir.
  93. Nenhum governo humano dura pra sempre.
  94. Existem muitos insatisfeitos com o próprio governo e que prefeririam viver em outro país.
  95. Leis variam de lugar para lugar também por causa do clima e da geografia.
  96. Mas não existe um lugar onde só se deva obedecer às leis.
  97. Não se deve julgar costumes passados usando os modernos como referência.
  98. Antigamente, tocar os genitais um do outro era um sinal de respeito e de promessa.
  99. Sabia que a Bíblia Sagrada usa “coxa” como eufemismo pra “saco”?
  100. Virtude é praticar o bem.
  101. Fanatismo é a fé que mata.
  102. A marca do fanatismo é condenar à morte quem não pensa como o fanático.
  103. Os fanáticos, ao falar de sua fé, tremem, ganham um brilho diferente nos olhos, aumentam o tom da voz, irrompem em movimentos súbitos.
  104. O fanático cristão tem em mente os exemplos de célebres assassinatos do Velho Testamento.
  105. Se o fanático se julga inspirado por Deus, ele se acredita acima da lei.
  106. Como persuadir alguém que julga que está matando em nome de Deus?
  107. As religiões orientais não têm fanáticos, por serem predominantemente filosóficas.
  108. Seitas de filósofos sinceros também não têm fanáticos.
  109. Quando os sentidos se enganam na percepção de algo, não é porque nossos olhos estejam enganados, mas sim que a informação dada foi mal-interpretada pela razão.
  110. Mentir para uma criança a fim de deixá-la mais receptiva ao remédio amargo também não é boa ideia, porque, quando ela colocar o remédio na boca, vai te achar um mentiroso, prejudicando a confiança entre você e a criança.
  111. Mentir para fins religiosos leva ao ateísmo.
  112. A crença de que Deus recompensa os bons e pune os maus basta para conduzir as pessoas crentes ao bem, tornando a teologia inútil.
  113. Pare de tentar converter os ateus.
  114. Chamamos nossas faculdades mentais de “espírito” por razões aleatórias.
  115. Considerando quantas coisas nós ignoramos, o título de mestre ou doutor não quer dizer muita coisa.
  116. Sem misericórdia, poucos estariam vivos.
  117. Deus não se beneficia de ações humanas.
  118. Dar glória a Deus com atos vãos pode até ferir o terceiro mandamento (Êxodo 20:7).
  119. Deus não precisa intervir no universo o tempo todo, porque sua criação tem um nível de autonomia.
  120. Passar fome ou adoecer nem sempre dependem da vontade humana, mas entrar em guerra, sim.
  121. Para dar leis a alguém, é necessário consenso do que recebe a lei.
  122. Há soldados que vão pra guerra sem saber contra quem lutarão e por que lutarão.
  123. Antigamente, os exércitos eram abençoados por padres, os quais pediam a ajuda de Deus para vencer o exército oposto.
  124. O cristão que participa da guerra e que prega contra todos os tipos de vício fora da ocasião de guerra comete hipocrisia: fala contra pecados pequenos, que nem sempre são pecados, mas comete os grandes.
  125. O amor é a única esperança de reparo da conduta humana.
  126. Os pecados que não são cometidos contra o amor parecem ser menores do que os cometidos contra o amor.
  127. A guerra causa mais males do que todos os vícios cometidos por uma só pessoa em toda a sua vida.
  128. De que vale a virtude numa guerra?
  129. É especialmente triste quando os que morrem na guerra são jovens guerreiros.
  130. Pra não falar das crianças mortas entre as batalhas.
  131. O governo de Israel passou a ser monárquico e humano.
  132. Voltaire identifica contradições entre os livros dos Reis e os livros das Crônicas.
  133. Idolatria é adorar uma imagem ou representação.
  134. Muitas vezes, a estátua ou a imagem é meramente um meio do fiel se concentrar na divindade ou pessoa que está representada.
  135. O fiel que reverencia uma estátua de Maria não está rendendo culto à estátua, mas à Maria, a qual é representada pela estátua.
  136. A procissão tem origem pagã.
  137. Outras religiões jejuam.
  138. Se fosse a estátua a ser adorada e não a divindade por trás da estátua, então haveria vários deuses Apolo, um para cada templo.
  139. O termo “idólatra” tem origem cristã.
  140. As coisas sagradas podem se tornar ídolos.
  141. Não era a estátua de Júpiter que lançava os raios e nem a estátua de Netuno que agitava os mares.
  142. Os protestantes atacam a igreja católica chamando-a de idólatra, mas as imagens dos santos não são os santos.
  143. O ser humano parece ter sido feito pra crer em Deus, pois vários povos têm suas religiões.
  144. Não é possível ler história universal sem sentir vergonha, em algum ponto, de participar do gênero humano, tamanhas atrocidades por ele feitas e exaustivamente documentadas historicamente.
  145. O assassinato é usurpação de direito divino, porque só Deus tem o direito de tirar a vida de alguém.
  146. Os sábios da antiguidade, mesmo que não professassem publicamente, chegavam frequentemente à conclusão monoteísta: se existe algum Deus em algum lugar, ele é único.
  147. O muçulmano tem mais razão em chamar os cristãos de idólatras: maior parte do cristianismo é católica e os católicos, mesmo quando não adoram as imagens, fazem um bom trabalho parecendo que o fazem.
  148. São nossas necessidades que nos levam a nos servir uns dos outros.
  149. O inimigo não é a desigualdade, mas a dependência.
  150. Voltaire já via a sociedade humana como dividida em duas classes: opressor e oprimido.
  151. Voltaire diz que o ritmo ativo do trabalho impede o trabalhador de perceber sua própria miséria.
  152. É possível uma revolução se a classe oprimida se servir bem do ferro contra a classe opressora sem coragem.
  153. A existência de dominadores é possível porque o ser humano tem tendência à maximizar o prazer.
  154. Se todos tivessem condições de sobreviverem de seu próprio trabalho, não teriam chefes, não haveria dinheiro nem exploração, não haveria trabalho assalariado e nem escravidão.
  155. Igualdade é o estado natural do ser humano.
  156. Algumas nações eram tão mal-governadas que estipulavam leis que proibiam os cidadãos de se mudarem pra outro lugar.
  157. A coisa certa a ser feita é governar tão bem que os súditos queiram ficar e que os outros queiram vir pra cá.
  158. É especialmente ruim se sujeitar a quem tem menos capacidade que você.
  159. Todos os povos, para colocar um freio nos crimes secretos, criaram religiões segundo as quais os deuses punem as pessoas depois da morte.
  160. Para o judeu, alma é vida.
  161. O problema é que muitos maus prosperam.
  162. A crença no Inferno tem finalidade política.
  163. O dilúvio total parece impossível: não tem água o suficiente no mundo.
  164. Se o dilúvio foi universal, então foi um milagre.
  165. É inútil explicar cientificamente o dilúvio, se ele tiver sido universal e, portanto, milagroso.
  166. É ingênuo pensar que os animais são máquinas só porque são “irracionais”.
  167. Treinar um animal mostra que os animais não agem sempre da mesma forma.
  168. A presença da linguagem não é o único sinal de razão, emoção ou sentimentos.
  169. Os animais sentem dor.
  170. Não importa se animais têm ou não alma: o fato é que sentem, lembram, vivem, se comunicam entre si, aprendem…
  171. Muitas afirmações sobre as almas dos animais são gratuitas, como se não quisesse dar uma reflexão profunda sobre criaturas tidas por irracionais.
  172. Não se deve querer saber o que é uma coisa sem saber antes se ela existe.
  173. Máquinas não têm alma, mas a marca da máquina é a operação humana.
  174. Não é possível julgar sem antes conhecer.
  175. As leis variam de país para país, estado para estado, cidade para cidade, mas os valores variam de pessoa para pessoa.
  176. Muitas leis justas acarretam punições injustas.
  177. Existem muitas leis perigosas.
  178. Bom senso nos leva a legislar, mas justiça interior nos leva a legislar bem.
  179. O país conquistado fica sob leis arbitrárias.
  180. O cachorro do déspota vive melhor que seus súditos.
  181. Em Atenas e em Roma, uma regra religiosa só poderia existir se o Estado deixasse.
  182. Os padres e os pastores são súditos do Estado.
  183. O padre não deve matar um cara porque ele é pecador: o padre deve orar pelos pecadores e não julgá-los.
  184. Sacerdotes não devem ser isentos de impostos.
  185. Leis que precisam ser interpretadas são facilmente corrompidas.
  186. Impostos devem ser proporcionais.
  187. A lei que proíbe algo bom é inválida, ninguém a respeitará.
  188. Liberdade é o poder de escolher entre aquilo que me é dado escolher, mas existem coisas além da minha capacidade de escolha, ou seja, liberdade não é absoluta.
  189. Isso significa que a liberdade é a mesma em todos os animais.
  190. A liberdade é igual em todos, o que varia é o número de opções.
  191. Fazemos escolhas visando nossa felicidade.
  192. “Quero porque quero” é absurdo.
  193. A nossa liberdade é racional.
  194. Não escolhemos o que desejamos, mas escolhemos se é ou não sábio satisfazer o desejo.
  195. Indiferença é uma escolha, não falta de escolha: não ligar já é um posicionamento.
  196. É fácil se manter virtuoso quando não há tentação a enfrentar.
  197. Alguns costumavam dizer que é lícito roubar se não formos usar o produto do roubo, mas veja se isso faz algum sentido.
  198. Ricos e pobres são passíveis de morte, então, por que não morrer rico?
  199. O excesso de riqueza é que é ruim.
  200. Falar muito pra responder uma pergunta é tão suspeito quanto ficar calado.
  201. A geometria é mais segura que a metafísica.
  202. Nada vem do nada.
  203. Nenhuma mitologia concebe um universo que tenha vindo do nada.
  204. Somente para as religiões do Livro é que a eternidade da matéria é ofensiva: a criação divina é a exceção ao “nada vem do nada”, porque foi do nada que Deus criou as coisas.
  205. No princípio, Deus criou os céus e a terra (Génesis 1:1), mas isso não necessariamente quer dizer que Deus criou céus e terra do nada.
  206. Em hebraico, o termo utilizado para designar Deus no Génesis 1:1 está no plural?
  207. O sistema de co-eternidade da matéria é problemático.
  208. A maioria das questões metafísicas e teológicas é irrelevante em termos morais.
  209. A criança não é má por natureza.
  210. O primeiro ambicioso, Satanás, corrompeu a terra.
  211. Nem todos os que estão expostos a males morais os contraem.
  212. A maldade inerente é como os animais que caçam sem culpa.
  213. Praticar o mal requer tempo livre.
  214. Há menos maldade na Terra do que se pensa.
  215. A migração das almas para outros corpos depois da morte é um dogma de origem oriental e é mais velho do que muitos pensam.
  216. Se milagre é uma coisa admirável, então tudo é milagre: pra que milagre maior do que o de estarmos vivos?
  217. O milagre, em sentido estrito, porém, é a providência divina que age fora da causalidade.
  218. Dizer que Deus não iria querer “quebrar” as regras da criação, mesmo sendo dono delas, para favorecer um povo seleto que tem um acordo com ele (como os judeus, por exemplo) é negar a compaixão divina.
  219. Para os que crêem, mas não em milagres, a execução de milagres é contraditória: as ações divinas não seriam perfeitas, dizem, se Deus tivesse que mudá-las, mesmo que temporariamente.
  220. Para o mecanicista, tudo sempre tem explicação lógica, inclusive milagres.
  221. Imagine se a academia recebesse a denúncia de um milagre em execução, mandasse um professor ao local pra interromper e pedir que ele executasse o milagre na faculdade, assistido por médicos e físicos só pra saber se o milagre é realmente tal.
  222. Óbvio que não foi Moisés que escreveu o Deuteronômio, uma vez que o Pentateuco termina com a morte de Moisés e a declaração de que seu túmulo nunca foi encontrado (Deuteronômio 34:5-6).
  223. De acordo com a tradição ortodoxa, a Lei foi queimada durante o exílio babilônico.
  224. O Levítico proíbe casar com cunhadas, mas o Deuteronômio deixa.
  225. “Pátria” é o conjunto de famílias em determinado território.
  226. A perseguição obcecada de títulos elevados (como na política) revela mais o amor próprio do que o amor pela pátria.
  227. Os reis preferem a monarquia, os ricos preferem a aristocracia e o povo prefere a democracia, de forma que a “melhor forma de governo” depende do interesse pessoal…
  228. O ódio às nações opostas às ideias da pátria, infelizmente, parece fazer parte do sentimento de patriotismo.
  229. Você é patriota quando não se importa quando sua nação enriquece às custas de outras.
  230. As igrejas primitivas eram comunidades.
  231. Os papas não eram perfeitos.
  232. Preconceito é uma opinião sem julgamento.
  233. A criança é cheia deles, recebendo valores dos pais antes de ter idade para julgá-los.
  234. Os crimes cometidos em nome da religião cristã superam os crimes cometidos em nome de qualquer outra religião.
  235. Se você for falar de alguma coisa com alguém, não dê provas a menos que o ouvinte as peça.
  236. Quando alguém não pensa como você e você fica com raiva dessa pessoa, você está manifestando orgulho.
  237. Antigamente, se acreditava que a alma residia no peito, porque emoções fortes são sentidas no coração primeiro.
  238. Dar sentidos forçados a textos claros é trabalhar contra o entendimento do texto.
  239. Pra quê Salomão tinha tantos cavalos em tempos de paz, se não pra passear com as mulheres dele?
  240. É zombar da humanidade entender num escritor o contrário do que ele diz.
  241. Só temos cinco sentidos, e não há como imaginar como seria ter um outro.
  242. Pode existir, em algum lugar, seres com mais de cinco sentidos.
  243. Pensamento e sensação são igualmente interessantes.
  244. A sensação também é uma faculdade dada a nós pela divindade.
  245. Alguns erros são afirmados porque alguém de má reputação afirma o contrário.
  246. A Lei não proíbe a interpretação mística dos sonhos: Daniel (2:36 em diante) a praticava, embora com a ajuda de Deus.
  247. A obtenção do perdão divino é um fato.
  248. É melhor não pecar do que pecar e depois se expiar.
  249. É possível adorar sem culto.
  250. Os tempos mais horríveis eram ricos em superstições.
  251. O tirano é a pessoa que faz de sua vontade a lei, toma as posses dos súditos e as usa para tomar as posses dos outros países.
  252. A oligarquia é pior que a tirania.
  253. Um tirano é mais fácil de seduzir, mas uma assembleia de corruptos não se pode seduzir.
  254. Resumo da sociedade ocidental: ou se é bigorna ou martelo.
  255. Tolerância é perdoar o defeito do outro.
  256. A Igreja, antes do advento do catolicismo, não era única.
  257. Os judeus não forçam os outros a se converterem.
  258. A tolerância judaica deveria ser imitada pelos cristãos, mas o estereótipo que os cristãos têm dos judeus é só o de nação guerreira e amam usar exemplos do Velho Testamento pra justificar seu ódio.
  259. É monstruoso perseguir alguém por diferença de opinião.
  260. Há exemplos históricos de cristãos que se aliaram a muçulmanos para guerrear contra cristãos.
  261. Francisco I se aliou aos luteranos alemães contra o imperador, ao mesmo tempo que permitia que se queimassem luteranos em sua própria casa (na França) por razões políticas.
  262. Se houver duas religiões em um território, atacarão uma a outra, mas se houver trinta não haverá ataques.
  263. Virtude é beneficência para com o próximo.
  264. Temperança é uma virtude pessoal e é de menor monta que as virtudes que servem ao coletivo.
  265. Você é virtuoso ao fazer bem aos outros, não somente a si mesmo.
  266. Como vivemos em sociedade, algo só nos é realmente bom se serve também aos outros.
  267. A pessoa que vive reclusa não faz bem nem mal a ninguém, mas, se não faz bem, como é virtuosa?
  268. É possível ser santo sem ser virtuoso.
  269. Da mesma forma, se alguém é vil, não será vicioso se sua vileza não prejudicar ninguém.
  270. Virtuoso hoje, vicioso amanhã.

8 de setembro de 2016

O “Exame Metanalítico Sobre Propriedades Assumidas do Abuso Sexual de Crianças, Utilizando Amostras Universitárias” de Rind, Bauserman e Tromovitch.

“A Meta-Analytic Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Using College Samples” foi escrita por Bruce Rind, Robert Bausermand e Phillip Tromovitch. Abaixo, algumas afirmações feitas nesse texto. Elas podem ou não refletir minha opinião sobre este assunto. Perguntas sobre minha opinião pessoal podem ser feitas nos comentários.

  1. A afirmação de que relações íntimas na infância e na adolescência sempre causam dano intenso apesar do gênero do menor não encontram base empírica.

  2. A mídia nos dá a sensação de que relações envolvendo menores são sempre prejudiciais, quer em casos onde um dos participantes é adulto, quer em casos onde todos os participantes são menores.

  3. Vários estudiosos concordam com essa visão da mídia, afirmando que a maioria, ou mesmo todas, as relações envolvendo menores são prejudiciais.

  4. Alguns estudiosos chegaram ao cúmulo de dizer que todos os problemas mentais que aparecem na idade adulta são resultado de abuso sexual na infância.

  5. Mas será que isso é verdade? O imaginário popular dita que todas as relações com menores, quer envolvam adultos ou não, são intensamente danosas todas as vezes em que ocorrem, não obstante o gênero da “vítima” (se menino ou menina). O propósito do exame feito pelos autores é verificar se esta crença está correta.

  6. Nós temos o hábito de dizer que todas as relações envolvendo menores são “abuso sexual infantil”, que todos esses menores são “vítimas”, que todos os adultos ou menores mais velhos são “criminosos”, mas o uso desses termos na literatura científica é problemático, porque existem experiências envolvendo menores que não são negativas. Nesses casos, não há vítima e, não havendo vítima, não há abuso. Logo, não há razão científica pra chamar todas essas relações de abusivas. Além disso, o uso de termos com carga negativa impede a availação imparcial desses eventos.

  7. A quebra de valores sociais não necessariamente constitui abuso. Masturbação e homossexualidade já foram consideradas socialmente erradas (com a masturbação inclusive sendo referida como “autoabuso”) e, no entanto, ambas as práticas não causam dano, não podendo ser consideradas abuso no mais das vezes. Assim, não há nexo causal entre quebra de valores sociais e prejuízo aos envolvidos.

  8. Um ato imoral não necessariamente é prejudicial.

  9. É diferente o pai penetrar à força sua filha de cinco anos e um jovem de treze anos beijar sua namorada de quinze na boca. Faz sentido punir o segundo caso? Por acaso o segundo caso pode ser chamado de “estupro”?

  10. Quando a ciência chama relações íntimas entre adultos e menores de “abuso” em todas as vezes que ocorrem, mesmo quando não há dano, mesmo quando o menor diz que o ato foi benéfico, revela que a ciência está trabalhando com categorias morais ou legais. Mas a ciência, se quer ser imparcial, não pode emitir juízo de valor. Deixe os dados falarem; o leitor dirá se é abuso ou não.

  11. Antigamente, todos os atos sexuais “imorais” eram considerados abusivos, mas, hoje, a relação envolvendo menores (entre adulto e criança, por exemplo) é a última fronteira da sexualidade moral tradicional. É um dos poucos atos sexuais que ainda são chamados de “sempre abusivos”.

  12. Embora haja pesquisadores que digam que relações íntimas entre dois menores ou entre menor e maior sejam sempre danosas, também existem pesquisadores que discordam. Assim, a literatura científica não é unânime nesse ponto.

  13. O problema de algumas pesquisas é a falta de controle de variáveis. Por exemplo: um menino de oito anos tem alguns jogos sexuais exploratórios com um irmão dez anos mais velho, mas esse mesmo menino recebe golpes de cinturão diariamente do pai. Ele então cresce com disajuste psicológico. Alguns pesquisadores fariam vista grossa pros atos do pai e apontariam que o irmão é a causa do disajuste, por ter abusado sexualmente do menino, mesmo que o menino diga que esses jogos foram inofensivos.

  14. Relações íntimas entre adultos e menores ou entre dois menores, mesmo que o menor seja uma criança, não necessariamente são negativas e nem sempre resultam em dano.

  15. Alguns estudiosos raciocinam que o resultado, se negativo ou positivo, é mais influenciado por fatores extrassexuais. Não é o ato em si, mas as condições que o cercam (por exemplo, se o ato foi forçado por um estranho, se os pais descobriram e fizeram alarde, entre outros).

  16. Já para outros estudiosos, o dano causado aos menores é superestimado porque os pesquisadores querem saber quantos casos são negativos entrevistando pacientes que já estão em tratamento por causa de sequelas. É como ir a um hospital pra saber a porcentagem de pessoas doentes. Claro que você receberá um resultado próximo de 100%. Assim, indivíduos clínicos não são uma demográfica confiável pra saber qual é o impacto de relações íntimas entre adultos e menores ou entre dois menores na população em geral.

  17. Para os pesquisadores contrários, o fato de haver pessoas que tiveram relações íntimas na infância ou na adolescência, mas que não relatam experiências negativas ou efeitos negativos decorrentes, apenas indica que os sintomas não tiveram tempo de aparecer. Antes de 2009, no Brasil, relações com menores de catorze anos só seriam crime se o ato não fosse aprovado pelo menor, se não fosse aprovado pelos pais do menor ou se fosse prejudicial ao menor. Uma relação que preenchia requisitos de segurança e era aprovada pelo menor e pelos pais não era nem considerada “pedofilia”. Então eu duvido que tenha um só homem da minha idade no Nordeste que não teve umas “brincaderinhas” com o pai. Somos todos assintomáticos?

  18. Esses estudiosos usam essas amostras pra generalizações, apesar de amostras clínicas e legais não poderem ser usadas pra generalizações fora do âmbito clínico ou legal, ou seja, não podem ser usadas como representantes de toda a população.

  19. Pessoas que tiveram relações íntimas na infância e na adolescência, mas que não denunciaram, nem procuraram tratamento, podem não o ter feito porque não sentiram efeito negativo. Assim, há uma população de “abusados” que não sofreu com o “abuso”. Fica difícil chamar isso de abuso então. Pense: com que idade você perdeu a virgindade e qual foi a idade do parceiro? Essas relações são tão incomuns assim?

  20. No que diz respeito à equivalência de gênero, tanto existem estudiosos que afirmam que relações na infância ou na adolescência causam efeito igual em meninos e meninas quanto há estudiosos que dizem que meninos reagem mais positivamente. É importante lembrar que “relações sexuais” aqui não inclui somente sexo em sentido estrito (penetração fálica pela boca, ânus ou vagina). Afinal, penetrar uma criança causa dor, nojo e trauma no mais das vezes. Logo, se estivéssemos falando só de sexo em sentido estrito, seria impossível concluir que tem crianças que não sofrem com relações. Os estudiosos estão incluindo nesse balaio de relações sexuais os “atos libidinosos” (beijos nos lábios, carícias íntimas, cócegas nos genitais, admiração mútua da nudez, entre outros atos não-penetrativos).

  21. Os autores do estudo descobriram que, na população universitária e na população nacional, homens que tiveram experiências sexuais na infância, sim, reagem bem melhor a elas do que mulheres.

  22. Outros estudiosos, porém, concluem que a afirmação de que meninos reagem melhor é mito.

  23. Existe outro problema em alguns estudos: o pesquisador tende a prestar mais atenção às experiências negativas, a despeito das positivas. Ele exclui, diminui ou resume as positivas, dando a impressão de insignificância.

  24. Eventos traumáticos são minoria estatística entre a população de indivíduos que tiveram relações na infância ou adolescência. Para saber a razão pela qual apenas relations negativas aparecem na mídia, veja Atração Por Menores: Guia Para Iniciantes.

  25. Mesmo eventos traumáticos podem ser uma comorbidade: além de ter relações íntimas, a criança era também negligenciada pelos pais ou abusada não-sexualmente. Será que o trauma é culpa só do “molestamento”?

  26. Muitas crianças que sofrem trauma não apenas tiveram relações íntimas, forçadas ou não, mas também sofriam bullying, pressão emocional, negligência, entre outras coisas, de forma que seu trauma pode muito bem ter sido uma combinação de fatores, com as relações, especialmente se não tiverem sido forçadas, nem dolorosas, tendo um papel de menor importância.

  27. Muitos estudiosos estão de acordo que não é a relação íntima em si que causa o dano, mas “variáveis terceiras”, como grau de permissão, grau de dor e dinâmica familiar.

  28. Quem estuda abuso sexual de menores deve relevar os aspectos não-sexuais na formação do julgamento.

  29. Mesmo os resultados negativos não traumáticos são minoria.

  30. Se você estiver recrutando pessoas que tiveram relações na infância ou adolescência, não faça um anúncio pedindo a presença de pessoas que foram “molestadas”, porque assim as pessoas que tiveram experiências positivas e que não se sentem vítimas não irão atender ao estudo, prejudicando sua imparcialidade. Afinal, pessoas que tiveram experiências positivas, como eu, não se sentem “molestadas”.

  31. Não apenas o dano dessas relações é infrequente como raramente é intenso.

  32. Como é que tem estudiosos dizendo que intimidade entre adulto e criança tem igual efeito em meninos e meninas… se eles não querem pesquisar meninos?

  33. Estudos anteriores aos anos noventa tem problemas de subjetividade, imprecisão e de amostragem, o que os leva a concluir de forma contraditória.

  34. Para resolver esse problema de uma vez por todas, os autores do estudo conduziram uma meta-análise usando amostras neutras: estudantes universitários. Dentre a população universitária, deve haver um bom número de indivíduos de ambos os gêneros que tiveram envolvimentos íntimos na infância ou na adolescência, mas que podem ou não ter gostado, consequentemente, que podem ou não ter denunciado ou procurado tratamento.

  35. Para ser justo, os autores fizeram essa meta-análise por meio de revisão literária. Eles pegaram estudos já feitos e fizeram os cálculos, em vez de fazer entrevistas diretas. No entanto, seus resultados são validados por estudos posteriores feitos com métodos melhores, um deles, inclusive, conduzido em Campinas, aqui, no Brasil.

  36. Nos Estados Unidos, metade da população é exposta à universidade de alguma forma. Então, a população universitária é perfeita pra esse tipo de estudo, em termos de generalização.

  37. Estranhamente, estudos sobre abuso sexual de crianças usando amostras universitárias são raros… Por quê?

  38. Este estudo usará somente amostras universitárias.

  39. Antes que alguém fique “irritado”, este estudo não leva em conta somente atos forçados. Do contrário, não poderia concluir como conclui. Ele leva em conta “graus de liberdade” e a presença de elementos como penetração ou força. Assim, nem todos os casos analisados na população universitária envolvem violência ou coerção, incluindo também atos sexuais nos quais os menores se engajaram de boa vontade.

  40. O estudo procura também por males somáticos, como problemas de sono ou distúrbios gastrointestinais, que possam estar ligados às relações.

  41. O que é abuso sexual de crianças? Dependendo do seu viés doutrinário, pode ser qualquer contato íntimo entre uma criança ou um adulto, a despeito da ausência de dano e da vontade da criança em participar, ou pode ser somente experiências indesejadas, pois o rótulo de “abuso” só seria cabível em casos onde há prejuízo.

  42. O que é uma criança? Para a maioria dos estudos revisados pelos autores, “criança” é alguém menor de dezesseis anos. Para a lei brasileira, “criança” é o indivíduo menor de doze anos. No entanto, mais da metade dos estudos revisados chama também de abuso uma situação em que dois menores se envolvem, na medida em que um deles é cinco anos mais velho (exemplo: menino de treze e menina de oito, ou menina de doze e menino de sete).

  43. Se levarmos em consideração todas as definições possíveis de abuso, a quantidade de casos que podem ser inclusos em todas as definições é muito pequena.

  44. Os casos analisados pelos autores do estudo variam em intensidade. Um simples convite pra fazer algo íntimo já contaria como abuso. A escala seria: convite, exibicionismo, carícias, masturbação, sexo oral, tentativa de coito e coito consumado. Pondo as coisas dessa forma, dá pra ver como o estudo conclui que muitos casos de abuso não terminam em dano, pois tudo abaixo da masturbação geralmente não causa dor nem sofrimento, a menos que o sujeito seja forçado.

  45. O dano varia segundo intimidade do ato e grau de proximidade entre os dois. Uma carícia íntima feita por alguém de confiança provavelmente não causa dano, enquanto que a penetração por um estranho completo pode causar um trauma.

  46. Cerca de metade das pessoas que tiveram relacionamentos íntimos na infância ou adolescência repetem a experiência antes da idade adulta.

  47. Uso de força em relações entre adulto e criança ou entre duas crianças não ocorre sequer em metade dos casos. Mais da metade das vezes, o menor não é forçado.

  48. Se uma relação chega a causar dano (por força ou penetração, por exemplo), o grau de desajuste provocado pelo ato em si é pequeno. A violência associada ao ato causa maior parte do dano.

  49. Importante lembrar que esses dados se referem à população geral, não àqueles que procuraram tratamento para sequelas por abuso sexual (os quais compõem minoria da população e cujas experiências não podem ser generalizadas).

  50. Os autores verificaram os sujeitos do estudo em busca de qualquer dos sintomas a seguir: alcoolismo, ansiedade, depressão, dissociação, desordem alimentar, hostilidade, problemas interpessoais, sensação de falta de controle sobre a própria vida, transtorno obsessivo-compulsivo, paranoia, fobias, psicopatia, baixa autoestima, desajuste sexual, desajuste social, somatização, tendência suicida.

  51. Dois fatores que contribuem para o desajuste são a força empregada (estupro) e o fato de a vítima ser menina (penetração, provavelmente). Assim, meninos tendem a sofrer menos ou a não sofrer em experiências sexuais na infância ou adolescência, na medida em que não houve emprego de força.

  52. O número de relações forçadas com menores é pequeno, comparado ao número de relações consentidas, seja com adultos ou com outros menores.

  53. Verdadeiramente, o que prejudica o menor é a violência da relação, não a relação em si. Fora o elemento violento, desaparece a vítima. Se você for menino, contudo.

  54. Meninos não diferem do grupo de controle se não houver violência na relação que tiveram. Mas meninas, estranhamente, manifestam problemas mesmo em relações consentidas.

  55. Intimidade indesejada é sempre danosa.

  56. A chance de haver prejuízo é maior se houver penetração. Ainda mais se o ato for repetido ou for de longa duração. Ainda mais se forçado e feito por uma figura de autoridade, como o pai.

  57. Das amostras estudadas, 72% das meninas e 33% dos meninos concordaram que as experiências sexuais que tiveram na infância ou adolescência foram “negativas”. No entanto, 37% dos meninos e 11% das meninas concordaram que suas experiências foram “positivas”. Donde decorre que relações na infância ou adolescência não são sempre negativas, o que significa que não é a relação em si que causa o dano, mas elementos que lhe são associados. Além disso, isso mostra que meninos reagem muito melhor.

  58. Um dos estudos revisados pelos autores fez os entrevistados classificarem suas experiências sexuais na menoridade em uma escala que vai de 1 (muito positiva) a 7 (muito negativa), de forma que as experiências seriam melhores quanto menor fosse o número. A média dos meninos foi 3,38, ao passo que a média das meninas foi 5,83. Então, sim: meninos tendem a reagir melhor à intimidade com adultos ou outros menores durante sua menoridade. Isso também mostra que intimidade antes dos dezoito anos não necessariamente resulta em prejuízo.

  59. Se por um lado a experiência foi boa quando ela ocorreu, como essas crianças veem o que aconteceu depois que amadurecem? 59% de 514 mulheres vê essas experiências como negativas, mesmo que as tenham sentido como positivas quando ocorreram, mas apenas 26% dos homens (118 amostras) têm a mesma sensação. Por outro lado, 42% dos homens vê essas experiências como positivas mesmo depois de chegarem à idade adulta, enquanto que 16% das mulheres mantém a posição de que a experiência foi positiva mesmo depois de amadurecerem.

  60. É muito difícil que relações antes da idade de consentimento prejudiquem o desempenho sexual na vida adulta.

  61. Aqueles que foram prejudicados pelo ato se recuperam em algum tempo. O que significa que dano permanente é também incomum. Isso quer dizer que, quando há prejuízo, o dano não é tipicamente intenso. Experiências sexuais traumáticas são uma minoria ínfima.

  62. Depois de tudo o que foi visto, está claro que intimidade entre dois menores ou entre adulto e menor não causa dano em grande parte das vezes em que ocorre. Então, terapêutas que trabalham com menores que tiveram jogos ou relacionamentos sexuais não devem assumir que essas experiências são negativas e devem perguntar ao paciente como ele se sente em relação a elas. O psicólogo não deve tratar um problema que não existe. Analogamente, os pais não devem tomar o namoro do filho como um mau sinal automático.

  63. Mas algo ainda não está claro: se existem relações positivas e relações negativas, então o que é que causa o dano? Claro que fatores como penetração, dor e coerção influenciam o resultado negativamente, de forma que uma experiência sexual sem esses elementos pode muito bem ser inofensiva. Mas como se explica a presença de desajuste em pessoas que só relatam experiências positivas?

  64. Parece que a resposta reside na família. Além da experiência sexual do menor, que foi positiva, problemas familiares não relacionados a sua sexualidade podem ter causado o desajuste. Assim, desajuste em pessoas com experiências positivas pode ser explicado por outros fatores, como negligência (deixar a criança passar fome ou ignorar seu choro) e abuso não-sexual (chineladas, golpes de cinturão).

  65. Dessa forma, se uma pessoa teve experiências sexuais positivas na infância ou adolescência, mas ainda assim apresenta algum tipo de problema psicológico, faz mais sentido atribuir seu problema a outros fatores, não a sua experiência sexual.

  66. Alguns adultos foram perguntados se seus problemas emocionais têm como fonte as relações que tiveram quando menores ou problemas familiares atuais. Muitos reportam que as relações não os afetam mais, mas a família continua ruim.

  67. Os autores concluem que, na população universitária, cerca de 14% dos homens e 27% das mulheres tiveram intimidade sexual na infância ou adolescência. No entanto, se algum deles tinha algum problema psicológico, ele raramente tinha raízes nessa intimidade.

  68. Envolvimentos traumáticos são, portanto, uma minoria estatística.

  69. Assim, a afirmação de que experiências sexuais na infância ou adolescência, principalmente se não forem forçadas ou dolorosas, sempre são prejudiciais é preconceito. Elas podem ser prejudiciais, mas, estatisticamente, elas normalmente não são e, quando são, o dano é geralmente pequeno. Traumas por experiências sexuais são raros.

  70. Um terço dos homens estudados reportam que a experiência foi negativa, mas dois terços dizem que não foi(ou seja, pode ter sido positiva ou neutra). Com mulheres, é o contrário. No entanto, quando ocorre dano, ele normalmente é superado.

  71. Três de cada oito homens que tiveram experiências íntimas na infância ou adolescência reportam que a experiência foi positiva. Com mulheres, o número foi uma em dez.

  72. A razão disso é cultural: meninos veem experiências sexuais como uma “aventura” ou um meio de satisfação da curiosidade natural, mas meninas, por causa de padrões sociais construídos acerca do sexo feminino, tendem a ver essas experiências como imorais. Isso é especialmente grave se ocorre penetração.

  73. Menores podem sentir prazer.

  74. Meninas tendem a sentir vergonha desses encontros, mas meninos os veem como uma prova de maturidade, principalmente se interagem com o sexo oposto, principalmente se a mulher for mais velha. Quando a experiência não é positiva, o menino é geralmente indiferente.

  75. Outra razão pra que o menino responda melhor a esses encontros é que seu corpo precisa de menos estímulo para sentir prazer. Eles se envolvem com o ato mais rapidamente. Parece que o sexo masculino é mais ativo.

  76. As reações ao ato, quando o ato não é doloroso e nem violento, podem ser facilmente atribuídas aos papeis sexuais tradicionalmente atribuídos a homens e mulheres. Homens aprendem na adolescência que devem ser viris, libidinosos, dominantes, em movimento. Mulheres são ensinadas a ser passivas, castas, sexualmente reticentes. Mas o mundo está se livrando de papeis sociais baseados em gênero.

  77. Por que o número de experiências negativas com meninas é tão alto? Porque, por alguma razão, elas são mais alvo de experiências sexuais forçadas. Assim, não é o ato em si, mas a dor e a violência que causa o dano. As mulheres que respondem positivamente ou indiferentemente não experimentaram nem dor e nem violência.

  78. Se por um lado reações de meninas e meninos a experiências sexuais são muito diferentes, por outro elas são muito parecidas, se levarmos em consideração somente as experiências em que o menor foi forçado. Porque os efeitos são quase iguais quando coerção está presente.

  79. Muitos indivíduos que tiveram experiências sexuais na infância ou adolescência e que têm algum tipo de desajuste emocional já tinham esse desajuste antes da experiência.

  80. Experiências sexuais negativas ocorrem mais comumente dentro da família.

  81. Às vezes, não é o pai que tem relações íntimas com os filhos, mas os filhos entre si. Irmãos podem forçar um ao outro.

  82. Experiências sexuais raremente afetam a estrutura familiar. Geralmente, é a estrutura familiar que facilita essas experiências. Por exemplo: uma criança que se envolve sexualmente com um adulto, debaixo do nariz dos pais, está, com certeza, sendo negligenciada em outras coisas também. Os pais não estão ligando. Por isso a criança fica desajustada, mesmo que a relação seja positiva: uma relação assim, na sociedade atual, é sinal de negligência.

  83. Se seu filho vai mal na escola, há uma boa chance de que ele esteja sendo fisicamente, emocionalmente ou verbalmente abusado, em vez de sexualmente abusado.

  84. Abuso verbal é mais danoso do que relações íntimas na infância ou adolescência, segundo o estudo. Isso porque abuso verbal é mais comum e é sempre violento, ao passo que experiências sexuais não são tão comuns e podem ser voluntárias.

  85. Se a relação ocorrer dentro da família, a chance de prejuízo é maior. Não foi meu caso.

  86. Muitas vezes, tudo vai bem… até que alguém descobre.

  87. Relações entre menor e menor ou entre adulto e menor foram mais analisadas por um viés legal e moral do que empírico.

  88. Se não há prejuízo, não é abuso, de um ponto de vista científico. Então a ciência não deve chamar relações inofensivas de abusivas. Pra merecer o título de “abuso”, deve haver dano em algum lugar.

  89. Chamar tudo de abuso induz o pesquisador e o leitor a assumir que o ato foi negativo, mesmo que não tenha sido.

  90. No século dezoito, masturbação era imoral. No século dezenove, homossexualidade era imoral. No século vinte, relações envolvendo menores são imorais. Neste século, elas podem deixar de ser. Eu tenho certeza que foi esta pista que levou a direita cristã conservadora ao limite.

  91. Tratar a masturbação como doença levou à criação de tratamentos que causavam mais dano do que benefício, pois tratavam um problema que não estava lá. Tratar relações com menores como doentias proporciona o mesmo efeito, se não existir prejuízo nessas relações. Claro que alguns menores podem sofrer com o ato. Mas se ele não sofreu, não precisa ser tratado.

  92. Algumas de nossas definições médicas têm laços com o direito, que por sua vez tem laços fatuais com os costumes e, logo, com a religião.

  93. Masturbação, promiscuidade, sexo oral e homossexualidade já foram todos comportamentos tidos por doentios. Agora estão tratando a sexualidade infantil como doentia.

  94. Um ato socialmente inaceitável não necessariamente é doença.

  95. “Para esses estudantes universitários do sexo masculino, 37% viram suas experiências sexuais na menoridade como positivas no momento em que ocorreram; 42% veem essas experiências como positivas quando refletem sobre elas; e em dois estudos que perguntavam sobre efeitos positivos percebidos, um número entre 27% e 37% afirmam que essas experiências proporcionaram influência positiva em suas vidas sexuais atuais. Mais importante, esses homens, não obstante o nível de consentimento (isto é, voluntário ou não) não diferem do grupo de controle em ajuste psicológico atual, embora homens que só tiveram experiências forçadas diferissem, implicando que aprovação voluntária do ato está associada com ajuste psicológico normal.” Como pode um “abuso” trazer benefício?

  96. Se o ato não for forçado, a chance de prejuízo é muito menor. Experiências sexuais negativas na infância e adolescência, mesmo que com parceiros adultos, são minoria estatística.

  97. Dizer a uma criança “você foi abusada” quando ela não se sente abusada simplesmente a fará ignorar você. A experiência permanece a mesma. Se você tentar forçar a ideia de abuso na criança, o abusador é você.

  98. Muitos menores que têm essas relações se recusam a ser chamados de “vítimas”.

  99. Quem deve julgar a experiência é o menor.

  100. De acordo com os autores, se um ato teve participação voluntária do menor e redundou em benefício, o termo correto a ser empregado é “sexo entre menor e menor” ou “sexo entre adulto e menor”, guardando o termo “abuso sexual de menor” para experiências forçadas ou negativas. Eu, no entanto, acho que o termo “sexo” deve ser substituído por “intimidade”, porque “sexo” entrega a ideia de penetração, o que não ocorre todas as vezes.

  101. Outro problema é que as definições atuais tratam crianças e adolescentes como seres de igual maturidade. Uma criança de cinco anos é diferente de um adolescente de quinze.

  102. Relações entre adulto e adolescente são mais comuns e já foram socialmente aceitas na antiguidade.

  103. Não há necessidade de presumir violência em relações com menores abaixo da idade de consentimento. Mas isso não necessariamente implica que os pesquisadores querem mudança nas leis.

  104. Casos de experiências sexuais que ocorrem fora da família antes da maioridade podem afetar a família se descobertos, por causa da intervenção jurídica. No entanto, o número de menores que conta o segredo representa menos de um quarto dos casos. O que significa que três quartos dos casos nunca são revelados.

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