Analecto

25 de novembro de 2016

Greve de consumidores?

Filed under: Notícias e política — Tags:, , — Yure @ 19:47

Eu vejo que muitas pessoas estão transtornadas com o desgostoso futuro que parece nos aguardar. É verdade que, segundo uma pesquisa do Ibope, maior parte da população é a favor de cortes em gastos públicos, mas esse resultado não pode ser ligado à PEC 55. A tentativa do MEC foi criar dados para provar que a PEC 55 tem apoio da população, mas veja só qual foi a pergunta feita pelo Ibope para provar isso: “você é a favor de cortes de gastos públicos?” Claro que só responderia “não” quem entendesse que isso é uma pergunta capciosa. A PEC 55 realmente corta gastos, mas não no salário dos políticos, nem em cartões corporativos ou coisas assim. Os gastos serão cortados na educação, na saúde e na segurança, coisa que nós, pobres, usamos cotidianamente. O Brasil não pode virar a Grécia, mas não pode fazer isso passando por cima de nós.
Muitos estão entrando em greve por causa disso, e isso me lembrou de uma ideia que eu tive quando eu era mais novo. Claro que eu, sozinho, não faço diferença, mas eu queria deixar esta ideia aqui pra ver o que outros pensam dela: greve de consumidores. Será que isso existe com o nome que lhe damos? Alguém já tentou fazer isso?
Existem coisas que não podemos deixar de consumir, como água e comida, então o necessário precisa ser mantido. Mas, tal como a segurança não entra em greve toda de uma vez, mas somente certos setores, não precisamos deixar de consumir de todo, mas consumir somente aquilo que é extremamente necessário ou que já nos comprometemos a pagar. Todos compramos, movimentamos muito dinheiro, às vezes mais do que deveríamos. Se cada um comprar apenas metade das futilidades que compra no mês (futilidades sendo qualquer coisa que não se comprometeu a pagar, como dívidas, ou qualquer coisa que não é essencial), imagine quanto dinheiro deixa de ser movimentado. Isso tem duas vantagens.
A primeira é que gastamos menos dinheiro, deixando os nossos recursos para emergências e economias. A segunda, e a melhor, é que o estoque de produtos aumenta. Ora, quando há muito estoque, há liquidação, ou seja, os preços diminuem. Quanto menos consumimos, mais baratas as coisas ficam, não é verdade? Isso seria uma forma segura de protesto contra o governo, além de ser muito eficiente. Com efeito, a polícia pode até entrar numa escola ocupada e talvez ferir estudantes, mas a polícia não pode entrar na nossa casa e nos forçar a ir ao supermercado. Além disso, a política do Temer é claramente neoliberal e de Estado mínimo, ou, pelo menos, para lá caminha. Então, um de seus maiores objetivos é o crescimento econômico pela via privada. Mas deixando de comprar, invalidamos esse objetivo. Claro que não vamos deixar completamente de comprar, mas deixando de comprar futilidades minamos o caminho para o objetivo deles.
Se começássemos agora, seríamos ouvidos logo, porque a temporada natalícia está às portas. O natal do ano passado foi ruim em termos de vendas e tudo indica que este será pior. O governo precisa desse dinheiro, pois arrecada impostos também assim. Nós temos o dinheiro que eles querem. Esse dinheiro é nosso refém. Alguém pode argumentar que a greve de consumidores pobres não adianta, porque os ricos ainda consumirão, pois não são afetados por esse governo. Bom, muitos ricos são empresários. Eles enriquecem com o que nós, pobres, damos a eles, comprando o que produzem. Deixando de comprar, os empobrecemos, e cada vez mais quanto mais pessoas deixam de consumir. Além disso, pobres ainda são maioria. Movimentando um pouco de dinheiro, cada um soma com os outros grandes quantidades de moeda, talvez tanto quanto os ricos movimentam. Mas se as empresas empobrecem, não demitirão funcionários? Sim, demitirão, mas ela não pode demitir a maioria, porque se arriscaria à falência. Está no melhor interesse das empresas manter mão de obra, fora que entrar numa greve assim não afeta os concursados. Ao final da greve, com o dinheiro que guardamos, voltaríamos a consumir, as empresas voltariam à estabilidade e ofereceriam empregos novamente. O seguro-desemprego deve servir até o fim da greve ou até depois.
Se feito em larga escala, isso causaria um caos tão grande, que seria necessário a imprensa dizer que nada está acontecendo. As empresas fechariam, a arrecadação de impostos diminuiria e teríamos mais dinheiro guardado. Ficaria claro que é o pobre que sustenta o Brasil. Talvez isso não acontecesse, talvez não desse certo sozinho, mas em conjunto com outros movimentos de protesto ajudaria bastante e talvez nem fosse necessário corte de gastos nas empresas. Imagine você: greve de consumidores contra a PEC 55 e a MP do Ensino Médio. É tão pirado, tão maluco, que é difícil pensar que venha a dar resultado. Mas, considerando os pressupostos e a lógica, será que não faz sentido tentar?
Se alguém quiser fazer tal audácia, basta se perguntar antes de comprar: eu preciso disto? Minha vida pioraria se eu não comprasse este item? Eu posso viver até o final da greve sem ele? Se eu não preciso, se sua falta não vai me afetar negativamente e se eu posso viver sem este item até o final da greve, não vou comprá-lo. Posso viver até o final da greve sem arroz? Claro que não! Mas posso deixar pra comprar roupas novas quando o governo me ouvir? Experimente, vá até onde puder com esse raciocínio. E papel? Lápis de cor? São coisas que eu uso muito. Mas já tenho lápis o bastante e uso pouco papel. E eletricidade? Claro que vou continuar pagando as contas, já que minha comida estragaria se minha geladeira parasse. Água e comida sempre são lícitas? Se você pudesse passar a greve sem comer ou beber, seria ótimo, mas não vou exigir o que eu não faria.
Em suma, gastar menos e cada vez menos seria uma ótima forma de protesto, tanto porque afetaria diretamente o Estado quanto porque é segura e não vai atrair a ira da polícia. É uma boa saída pra quem quer fazer alguma coisa pra ajudar, mas não sabe o quê. Mesmo que não dê certo por si só, é uma ajuda. É melhor que ficar parado assistindo.

Agora basta da minha loucura pueril. Só dá certo ser ingênuo e infantil se formos todos juntos.

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7 de novembro de 2016

Sobre o movimento estudantil.

Filed under: Notícias e política — Tags:, , — Yure @ 19:17

Um certo colunista da Época comparou a Ana Júlia com aquelas pessoas que fazem desmatamento na Amazônia para que outros paguem a conta. Seu argumento é de que o movimento estudantil está prejudicando muitos para obter pouco benefício, pois tanto a medida provisória como a proposta de emenda constitucional contra as quais os estudantes protestam estão avançando a despeito do movimento.
Na verdade, é o contrário: o governo é que faz “desmatamento”, o movimento estudantil é que é a “paga da conta”. A maioria da população é contra tanto a proposta quanto a medida, então os parlamentares que votam a favor dessas medidas votam contra a democracia, a qual deveria zelar pelo desejo da maioria.
Quando o Estado deixa de honrar seus compromissos com os súditos, tampouco os súditos precisam honrar seus compromissos com o Estado. O Estado começou e se o movimento se calasse, nós teríamos que “pagar” uma conta ainda maior. Imagine você, cearense que assiste Cidade 190, Barra Pesada, Os Malas e a Lei, se a proposta de emenda constitucional que limita os gastos públicos fosse aprovada. O que aconteceria conosco? Quem, afinal, está fazendo “desmatamento” aqui? Teríamos que “pagar a conta” com nossa submissão à violência?
O argumento de que o movimento estudantil não dá resultado não se sustenta: a presença da ideologia do movimento ganha espaço no parlamento, com pressões para retirar a medida provisória e voltar ao projeto de lei, que tinha o texto diferente, que vinha sendo debatido há cerca de uma década. De fato, é quase trocar seis por meia-dúzia, mas é alguma coisa.
Aqui, na minha cidade, os alunos estão conformados, o movimento estudantil é zero aqui. Não há escolas ocupadas. Como eu não posso fazer nada, comecei a rezar, pedindo que Deus ajude aos estudantes que lutam pela democracia e pela justiça, debaixo de som alto à noite, porque nosso Deus é Deus de justiça.
Outro ponto da coluna da Época é que a rede particular não adere ao movimento. Mas isso é natural: o Estado deve zelar pelas coisas públicas, apenas secundariamente pelas privadas. Então, se os alunos da rede privada não aderem, fazem bem, embora melhor fariam se aderissem, pois mostrariam que se preocupam. Nada tem a ver colocar a rede de ensino privado na história, como se isso fosse um dado relevante. Aliás, pode até ser, porque com aumento de tempo de estada do aluno na escola, ao passo que os gastos com a educação diminuem, a escola pública se tornará uma opção inviável; com efeito, no ensino de tempo regular, nem todas as escolas têm merenda, então imagine passar sete horas lá. Com o aumento da carga horária, é de se esperar que a mensalidade da rede privada aumente também. Educação não será coisa de rico, mas de muito rico. É o Estado nos traindo.

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