Analecto

7 de novembro de 2016

Sobre o movimento estudantil.

Filed under: Notícias e política — Tags:, , — Yure @ 19:17

Um certo colunista da Época comparou a Ana Júlia com aquelas pessoas que fazem desmatamento na Amazônia para que outros paguem a conta. Seu argumento é de que o movimento estudantil está prejudicando muitos para obter pouco benefício, pois tanto a medida provisória como a proposta de emenda constitucional contra as quais os estudantes protestam estão avançando a despeito do movimento.
Na verdade, é o contrário: o governo é que faz “desmatamento”, o movimento estudantil é que é a “paga da conta”. A maioria da população é contra tanto a proposta quanto a medida, então os parlamentares que votam a favor dessas medidas votam contra a democracia, a qual deveria zelar pelo desejo da maioria.
Quando o Estado deixa de honrar seus compromissos com os súditos, tampouco os súditos precisam honrar seus compromissos com o Estado. O Estado começou e se o movimento se calasse, nós teríamos que “pagar” uma conta ainda maior. Imagine você, cearense que assiste Cidade 190, Barra Pesada, Os Malas e a Lei, se a proposta de emenda constitucional que limita os gastos públicos fosse aprovada. O que aconteceria conosco? Quem, afinal, está fazendo “desmatamento” aqui? Teríamos que “pagar a conta” com nossa submissão à violência?
O argumento de que o movimento estudantil não dá resultado não se sustenta: a presença da ideologia do movimento ganha espaço no parlamento, com pressões para retirar a medida provisória e voltar ao projeto de lei, que tinha o texto diferente, que vinha sendo debatido há cerca de uma década. De fato, é quase trocar seis por meia-dúzia, mas é alguma coisa.
Aqui, na minha cidade, os alunos estão conformados, o movimento estudantil é zero aqui. Não há escolas ocupadas. Como eu não posso fazer nada, comecei a rezar, pedindo que Deus ajude aos estudantes que lutam pela democracia e pela justiça, debaixo de som alto à noite, porque nosso Deus é Deus de justiça.
Outro ponto da coluna da Época é que a rede particular não adere ao movimento. Mas isso é natural: o Estado deve zelar pelas coisas públicas, apenas secundariamente pelas privadas. Então, se os alunos da rede privada não aderem, fazem bem, embora melhor fariam se aderissem, pois mostrariam que se preocupam. Nada tem a ver colocar a rede de ensino privado na história, como se isso fosse um dado relevante. Aliás, pode até ser, porque com aumento de tempo de estada do aluno na escola, ao passo que os gastos com a educação diminuem, a escola pública se tornará uma opção inviável; com efeito, no ensino de tempo regular, nem todas as escolas têm merenda, então imagine passar sete horas lá. Com o aumento da carga horária, é de se esperar que a mensalidade da rede privada aumente também. Educação não será coisa de rico, mas de muito rico. É o Estado nos traindo.

Anúncios

2 Comentários »

  1. O Brasil tem muito, mas muito o que aprender com a Finlândia no quesito educação.

    Curtir

    Comentário por Anônimo — 7 de novembro de 2016 @ 20:14

    • Me explique em que sentido, por favor. Não que eu esteja te criticando, é que você não foi direto o bastante. Tem muita coisa boa na educação finlandesa, mas a qual exatamente você se refere?

      Curtir

      Comentário por Yure — 8 de novembro de 2016 @ 09:19


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: