Analecto

12 de dezembro de 2016

Anotações sobre o Emílio.

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  1. Já se falou muito sobre o porquê de nossa educação não funcionar e como ela deveria funcionar. Esse assunto é tão batido que impressiona o fato de a educação ainda não estar boa o bastante. Impressiona mais o fato de haver esforço de deixar nosso ensino médio pior.
  2. Não basta se opor ao que já existe se você não sugere o que poderia substitui-lo. Foi o que fez Bacon: criticou o método científico da época, mas não esqueceu de propor um outro método.
  3. Os livros que se propõem a ser publicamente úteis deveriam ter fator formativo. Existem livros que não ensinam nada que eu possa usar.
  4. A criança está situação de aprendizado. Se não se pode mais formar os adultos, nos voltemos às crianças.
  5. A criança não é adulto, não deve ser tratada como tal.
  6. Interessante como Rousseau diz que se dedicou ao estudo da infância com afinco, considerando que ele teve vários filhos sem criar nenhum.
  7. O professor deve conhecer seus alunos, ao menos satisfatoriamente.
  8. O livro é seu quando você escreve sobre suas ideias e não sobre as de outros.
  9. Pensar por conta própria não é digno de censura.
  10. Quando um escritor faz uma afirmação, ele está dizendo o que ele pensa, não necessariamente está dizendo algo que é verdade. Assim, sempre que um livro se mostra em tom afirmativo ou negativo, é importante lembrar que ele está mostrando a opinião do escritor, que pode não corresponder à realidade.
  11. Antes de empreender algum projeto, verifique o quão útil ele é, depois verifique o quão fácil ele é de executar.
  12. A utilidade é o primeiro critério, ele é sólido. Mas a facilidade é volátil, depende das circunstâncias de execução. É bom ter casa própria, isso é útil. Mas não é fácil se não houve dinheiro pra comprá-la ou material para fazê-la depois de comprado o terreno. A execução de um projeto útil fica, então, prejudicada e o resultado não será bom como se pensou. Então, não basta querer fazer algo útil, é preciso também ter meios de fazê-lo.
  13. A natureza, obra divina, é perfeita. O ser humano, imperfeito, muitas vezes arruína o trabalho divino. Não se falava tanto de ecologia no tempo de Rousseau quanto se fala hoje, então isto é surpreendentemente atual.
  14. Nós, humanos, transformamos a natureza. Mas muitas transformações são monstruosas. A castração de animais, por exemplo, e a violência contra a terra para produzir algo que não foi feita para produzir em determinada estação ou local. A educação pode também se mostrar como um meio de violência contra o próprio ser humano, que é adestrado, como um animal qualquer, a assumir um comportamento padrão, que não é seu comportamento natural. Tipo ser forçado a estudar ciências da natureza quando se tem vocação pra humanidades.
  15. O ser humano, se abandonado a si mesmo, não desenvolveria características propriamente humanas. É a convivência com outros humanos que nos torna humanos. Sem esse ingrediente, nos tornamos outro tipo de animal.
  16. A vida em sociedade destrói a natureza de um ser humano, mas não a substitui por algo superior. Assim, para Rousseau, a educação tradicional destrói um comportamento sem construir um outro.
  17. A educação caseira pode construir, mas a educação institucional não necessariamente o faz. As melhores pessoas para assegurar o amadurecimento do comportamento do filho são os pais. Os professores ensinam conteúdo, é verdade, ensinam ciências, educação física e filosofia. Mas esses saberes não substituem a educação familiar, que é de outra natureza. Então, se o indivíduo tem a educação escolar, mas não a familiar, tem uma educação incompleta. Compare com isso a reflexão sobre a crise da autoridade e seu efeito sobre a educação.
  18. A velhice é a validação da educação dos filhos. Se você os educou bem, quererão te apoiar quando estiver velho. Se não quiserem, você errou e pagará pelo seu engano com uma velhice solitária.
  19. A mãe constrói paredes ao redor do filho. Isso é familiar. A mãe deve proteger, mas não em excesso.
  20. Plantas são podadas, homens são educados.
  21. O ser humano nasce frágil. Isso o força a aprender aquilo que os mais fortes o ensinam. Se ele nascesse forte, recusaria a educação dos pais, que são maiores e mais fortes.
  22. Desrespeitar o pai pode ser desculpado. Desrespeitar a mãe deveria ser crime, diz Rousseau.
  23. Antes estragar o filho do que matá-lo.
  24. Há três fontes de educação: as coisas, a natureza e o convívio com outras pessoas.
  25. As diferentes fontes têm que ser harmônicas. Uma educação na qual as pessoas ensinam uma coisa, as coisas ensinam outra e a natureza ensina ainda outra é uma má educação.
  26. É fácil ser educado errado, então: não temos controle sobre a natureza e apenas controle parcial sobre as coisas e sobre o convívio.
  27. Educar perfeitamente depende de habilidade e de sorte. Só com habilidade não é possível acertar por completo, mas apenas se aproximar.
  28. É necessário se orientar para a educação natural, porque ela não depende de nós. Então, se ensinamos alguma coisa que a natureza contradiz, estamos educando errado, porque haverá desarmonia de fontes.
  29. Quando começamos a sentir, temos nossas primeiras noções de prazer e de dor. Procuramos os estímulos prazerosos e evitamos os dolorosos.
  30. Não é que as três fontes devam ensinar a mesma coisa. É só que as três fontes, mesmo quando ensinam coisas diferentes, não deveriam ensinar coisas opostas. Basta que não se contradigam. O educador não pode contradizer a natureza e cuidar para que os outros que convivem com o aluno não contradigam ele.
  31. Muitos filósofos procuram livros que sustentem suas tendências e as validem, isso é natural. O problema é que alguns fazem isso a fim de justificar seus vícios. Por exemplo: se eu não acredito no amor ao próximo, eu vou, para me sentir justificado, estudar filósofos que apoiam o ódio. O principal sintoma deste vício é estudar somente uma escola de pensamento e passar longe de seus críticos. Como estudante de filosofia, eu vejo isso na faculdade, entre os professores que são fanáticos dos filósofos que estudam.
  32. O homem natural é todo para si. O homem civil só tem valor com os outros. Ele só sente completo no convívio social, esquecendo que ele já é completo em si mesmo.
  33. A cidadania é anti-natural. É normal que queiramos viver juntos, mas as regras de cidadania nos levam a assumir comportamentos que não são naturais e não seriam aprendidos de outra forma, como ficar feliz com a morte dos filhos, porque lutaram numa guerra de boa causa. Que mãe em bom juízo fica feliz com a morte dos filhos? A cidadã patriota, se foi pela causa da sociedade.
  34. Tentar exercer um comportamento natural em um meio civil é não ser nem natural e nem civil. Só é possível ser plenamente natural se abstraído do convívio civil.
  35. O natural é determinado. Fala o que pensa e age como fala.
  36. É possível ser natural em casa e civil no trabalho.
  37. Para Rousseau, a República não é um livro de política, mas de educação.
  38. Platão, ao conceber sua sociedade perfeita, precisou conhecer a natureza humana a fim de ter vantagem nela. Ele não quis levar os seres humanos a um comportamento menos humano.
  39. A educação na época de Rousseau formava hipócritas.
  40. A educação que nos leva para longe da natureza é prejudicial.
  41. Existem bons professores, mas os professores, enquanto submetidos ao Estado ou ao chefe, se vêem forçados a perpetuar o modo de pensar estabelecido para não perderem o emprego. Ensinam o que não acreditam.
  42. A educação no tempo de Rousseau não era para formar um homem de potencialidades, isto é, que poderia crescer e fazer o que quisesse. Naquela época, a educação servia para formar pessoas que exerceriam uma só função social. Seriam condicionados a fazer uma coisa a vida toda. E nem eram quem escolhiam o que fazer.
  43. A educação deveria começar por ensinar a viver, a ser pessoa. Os professores têm que formar pessoas, não empregados. Quando saírem da escola, decidirão o que fazer.
  44. A boa educação consiste em ensinar o indivíduo a tirar proveito dos bens e suportar bem os males. Assim, ela deve ter mais aspectos práticos do que teóricos.
  45. A primeira professora é a mãe.
  46. A criança precisa de uma prioridade pedagógica: o pai e o professor não devem ter igual valor. Ou ela valoriza mais a educação familiar ou a institucional. Se ela der prioridade igual aos dois, ficará confusa.
  47. Se o mundo muda, é preciso ensinar a lidar com a mudança.
  48. Proteger a criança não basta. É preciso ensiná-la a se proteger quando os pais não estiverem lá.
  49. Viver não é somente sobreviver. Se você protege a criança, mas não a ensina a usar suas faculdades plenamente para si mesma, está a tratando como uma planta.
  50. Quem tem mais idade não necessariamente viveu muito.
  51. O recém-nascido precisa de movimento. Seus músculos não se desenvolverão bem se ele não exercitá-los.
  52. Limitar os movimentos do recém-nascido por meio de amarras ou faixas para mantê-lo sempre na mesma posição é quase perpetuar seu estado de feto. Afinal, quando ele estava no ventre materno, tinha algum espaço para mexer os braços e pernas. Agora não os tem. Está numa situação pior do que se não tivesse nascido.
  53. Impedir o movimento infantil completamente é frustrar o desenvolvimento do pequeno.
  54. Se o recém-nascido não pode se mover, pois enfrenta resistência das condições, ele chora, claro. A primeira coisa que a mãe fez, para “protegê-lo”, foi frustrar seus movimentos. Não se deve enfaixar bebês.
  55. Você gostaria de estar numa camisa de força? Se não, então não vista seu filho em uma.
  56. A mãe que deixa o filho com a babá pra ir se divertir longe de casa é uma péssima mãe. Babá é último recurso, não deveria ser chamada pra mãe “se divertir”.
  57. Uma criança é fraca demais pra se machucar com os próprios movimentos. Não há necessidade de enfaixá-la.
  58. Ser mãe é uma escolha que não deve ser feita irresponsavelmente. Se você não está pronta para despender seu tempo alimentando, descansando, limpando e educando uma criança sempre que esta precisar, não se torne mãe. Porque a pior mãe é a que se cansa de ser mãe.
  59. Havia a crença de que o leite materno não era saudável. Hoje se sabe que não é assim, ao menos em seu estado puro (pois a mãe que come muita besteira passa para o leite as substâncias tóxicas que consome).
  60. Se a mãe não ama o filho, o pai deve continuar amando ele. Sacrificar o amor do filho pelo amor da esposa, nesse caso, seria como deixar a criança viver sem pai nem mãe.
  61. Se o leite da mãe é inadequado, o bebê deveria mamar de outra pessoa.
  62. Porém, se essa pessoa se recusa a amamentar os próprios filhos, não é adequada para substituir a mãe no aleitamento.
  63. A ama de leite raramente ama o protegido.
  64. Onde há o cuidado materno, há o apego do filho. O filho pode ter por mãe a babá, se ela cuida dele melhor que a própria mãe biológica. Assim, o filho bem criado por uma babá terá amor por ela, especialmente se negligenciado pela mãe verdadeira.
  65. Punir o filho por gostar da babá mais do que da mãe aumenta o ódio do filho pela mãe, consequentemente aumentando o amor pela babá.
  66. Filhos criados por pais abusivos não estão nem aí para o fato de terem sido gerados por seus pais. Do ponto de vista paterno, isso é ingratidão. Mas, para o filho, está plenamente justificado.
  67. Como a mãe é o primeiro exemplo do filho, educar bem as mães equivale a educar bem os filhos.
  68. A falência da mãe é também a falência da família.
  69. As mães desleixadas riem-se das mães dedicadas. As mães que são dedicadas, pelo exemplo e repressão das negligentes, acabam negligenciado seus filhos “porque todo o mundo faz”.
  70. Para Rousseau, o apego materno ao filho é a solução de todos os problemas da família, como a infidelidade conjugal e problemas de saúde da mulher. Lindo, mas isso não acontece. Acho que ele se empolgou demais falando do aleitamento. Vale lembrar que o testemunho da história é de que Rousseau gostava de agir e ser tratado como criança por uma de suas múltiplas amantes, uma consequência do seu gosto sexual por ser disciplinado (ele gostava que lhe batessem no traseiro, como as mães fazem com os filhos desobedientes). Então esse discurso exagerado de exaltação da mãe, mais especificamente do aleitamento, pode ser motivado por seu fetiche. Rousseau sustentava que masturbação era uma prática errada, então, apesar de se sentir excitado, ele provavelmente tinha sexo com algumas pessoas que lho disciplinavam.
  71. Sem o laço entre mãe e filho, que deveria ser o mais forte, os outros laços familiares se enfraquecem. A educação familiar fica prejudicada. Como ela é única (existem coisas que só se aprende no convívio familiar), o sujeito fica com a educação incompleta.
  72. Apesar de amar os filhos, os pais não devem protegê-los demais. “Poupar” o filho do mundo é desprepará-lo. É quando, por exemplo, os pais impedem que os filhos sintam as más consequências de seus atos. O pai deve evitar que o filho morra ou que sofra algum dano permanente, mas não deve bloquear todo o tipo de dor, porque a dor também é útil à educação. Então, se o filho sobe de maneira errada numa cadeira, cai, sente a dor da queda, chora, mas não morreu nem sofreu um dano pra vida toda, bem feito pra ele. Essa é a hora em que o pai chega e explica pro filho seu engano. Lembrando que isso não quer dizer que o filho deve ser exposto a todo o tipo de perigo, pois o papel dos pais ainda é manter o filho vivo, educado e saudável até sua independência.
  73. O filho deve crescer forte, mas ele só pode ser forte experimentando dor e frustração. Se os pais protegem os filhos até mesmo dessa “boa dor” que disciplina, esses pais estão mantendo os filhos fracos.
  74. Na época de Rousseau, a criança criada delicadamente, protegida de tudo, enfaixada, morria mais cedo.
  75. A criança deve experimentar moderadamente o sofrimento que terá quando adulta. Não se deve esconder dela que ela pode adoecer, se ferir ou morrer.
  76. Devemos criar nossos filhos pensando em que tipo de adulto elas poderão ser. Nesse caso, devemos criá-las para a independência sem abandoná-la.
  77. As crianças sofrem menos. Uma criança com o corpo machucado tem menos vontade de morrer do que um homem de corpo perfeito, mas que é pai desempregado. As dores físicas doem menos do que as mazelas mentais e sociais, que são sentidas intensamente na independência. O peso de nossas escolhas. Como os pais, responsáveis pelas crianças, fazem as escolhas importantes por elas, poupam-nas de sentir esse peso.
  78. Não se deve castigar a criança sem explicar seu engano antes. Castigar sem dizer o porquê pode levar a criança a repetir o engano, porque não sabe o que fez de errado. Ela tem que entender o que fez de errado e por que é errado, só então ser castigada.
  79. Se a criança cresce e se torna um estorvo, é porque não foi bem educada, diz Rousseau.
  80. Uma criança que não recebe uma boa educação em casa acabará de ser estragada na escola.
  81. A pessoa pode receber educação profissional e acadêmica. Mas, sem formação para ser humano, ela será viciosa e contribuirá para a falência da sociedade.
  82. Não largue seu filho, mantenha-o sob sua tutela (a tutela dos pais), até que ele seja independente dos pais. Não entregue seu filho aos outros.
  83. Os deveres do pai e os da mãe devem ser acertados de mútuo acordo, para evitar que o filho use as contradições a seu favor.
  84. O melhor professor é um pai sábio.
  85. A mãe que não alimenta o filho, achará desnecessário que o pai o eduque.
  86. O pai não deve se ocupar demais com o trabalho, para não descuidar da educação do filho. Embora o pai possa usar o sustento da família como desculpa para ser ausente, não há desculpa para a mãe não amamentar o filho.
  87. Olha que hipocrisia: os filhos que despendem tempo demais longe dos pais ficam sem apego. Se isso é tão ruim, por que ele abandonou cinco filhos para nunca mais vê-los? Para Nietzsche, Rousseau não vivia a filosofia que pregava.
  88. A base da família é a casa. Quando pais e filhos passam muito tempo sem se reunirem em casa, isto é, quando os afazeres do cotidiano os levam a despender tempo demais longe um do outro, os familiares se tratam como estranhos, não se conhecem.
  89. “Desde que não haja mais intimidade entre parentes […] será necessário recorrer aos maus costumes para supri-la. Quem será bastante estúpido para não ver o encadeamento de tudo isso?Rousseau, claro. Sua vida responde sua pergunta.
  90. O pai tem tríplice responsabilidade: formar um ser humano, formar um cidadão, formar um ser civil, na mesma pessoa.
  91. Quem não puder arcar com as responsabilidades de ser pai, não tem o direito de ser pai. Ser um pai irresponsável é crime. Não é, senhor Rousseau?
  92. Se não fosse tão embaraçoso rir ao comparar este livro com as Confissões do mesmo escritor, eu riria. Eu espero que Rousseau tenha se arrependido de ter abandonado seus filhos antes de escrever o Emílio. Do contrário, ele é mais cara-de-pau que Maquiavel.
  93. Talvez o Emílio tenha sido escrito depois que Rousseau se converteu de seu antigo proceder. Será que ele esperava, com o Emílio, reparar seu engano?
  94. Um bom governante não se vende.
  95. Há deveres tão nobres que é indigno desempenhá-los por dinheiro.
  96. Quem vai educar meu filho? Eu mesmo. Tenho razões de sobra para que procurar a prioridade do meu filho, de forma que ele prefira minha educação à do professor.
  97. Se não puder ser pai, seja pelo menos amigo. Deu certo com meu pai.
  98. Para Rousseau, ser pai completa o homem. Se um homem não cria filhos, mesmo que os tenha adotado, falhou em ser homem plenamente.
  99. Para Rousseau, o bom pai teve bons pais. Como dar a meu filho a educação que eu não tive? Acho que isso explica muita coisa…
  100. Para Rousseau, se considerando o que devemos fazer, encontraremos o que deve ser. O problema é que o contrário acontece: só podemos nos ordenar para o bem visado.
  101. Se você quiser um amigo, eduque seu filho para ser seu amigo.
  102. Rousseau recusava educar os filhos dos outros. Bom saber.
  103. Alguns filósofos prescrevem o impossível e se dão por satisfeitos, como se tivessem contribuído com alguma coisa. Sugerir que façamos algo impossível não é contribuir.
  104. O método de Rousseau: imaginemos uma criança e vamos dar a ela a educação que achamos melhor, então imaginamos como ela se desenvolverá. Ele tentará um experimento mental.
  105. A criança aprende melhor se for ensinada por outra criança. O problema é o conteúdo. É por isso que crianças que vivem juntas aprendem tanto coisas boas como ruins, porque ficam amigas. Então, se a criança está voltando da escola falando novas besteiras, é sinal de que tem amigos. Se todos os pais fossem bons, o convívio entre crianças talvez fosse mais construtivo, porque os valores paternos se mostram no infantil. Boas crianças que ficam amigas se educam uma a outra. Como não se pode forçar crianças a serem amigas, não adianta os pais aproximarem duas crianças específicas à força. As amizades dependem dos filhos. Se o pai não pode forçar duas crianças a serem amigas, pode pelo menos afastar uma da outra (o que Rousseau não aprovaria, mas é bom lembrar).
  106. Se a educação do primeiro filho foi ruim, o pai pode se sentir desencorajado de arrumar um segundo filho.
  107. O bom professor deve fazer com que o aluno encontre a resposta sozinho, conduzindo-o, como Sócrates fazia. Sócrates, em vez de dar respostas, fazia perguntas, a fim de conduzir o pensamento do que dialogava com ele. Conforme fazia perguntas, o ouvinte respondia e, quando o ouvinte encontrava uma resposta, Sócrates verificava se a resposta encontrava eco na realidade (era como ele distinguia “filhos” de “fantasmas”). O professor não deve dar respostas, mas orientar o aluno na prática de aprender sozinho, é o que diz Rousseau.
  108. Se você tiver que escolher um aluno, é inútil escolher o que tem melhor temperamento, porque você ainda não conhece quem tem o melhor temperamento. Você só conhece o aluno depois que o adota como aluno, não antes.
  109. Partir de um ponto central para só então ir a um dos extremos. Se formos de extremo a extremo, o caminho é mais longo. Do meio, é possível escolher qual extremo é melhor e ir pra lá.
  110. Para Rousseau, o negro tem um cérebro menos equilibrado do que o de um europeu. Além de hipócrita é racista.
  111. Se o solo é pobre, o agricultor trabalha mais e valoriza mais o trabalho. Se o solo é fértil, o agricultor pode trabalhar menos e valoriza mais o tempo livre.
  112. Para Rousseau, o pobre se vira com a educação que a vida lhe dá, enquanto que o rico frequentemente aprende o que não quer aprender.
  113. O pobre amadurece sozinho, mas, estranhamente, os filhos ricos não conseguem fazer isso. Por quê?
  114. Para Rousseau, honrar pai e mãe não é o mesmo que obedecer pai e mãe, como quer Hobbes.
  115. Não assuma a responsabilidade que não pode cumprir. Se você assumir assim mesmo, é culpado por não desempenhar corretamente.
  116. Rousseau usa o exemplo dos alunos de saúde frágil, mas um bom exemplo da atualidade seria o caso dos alunos com necessidades especiais. O professor que não se sente pronto para lidar com esses casos, não deveria assumi-los. Com a política de integração, a possibilidade de lidar com alunos assim é inalienável ao ofício de professor.
  117. O corpo precisa de vigor para obedecer à alma. Assim, a boa educação implica cuidado com o corpo. Por isso eu digo que deveria ter educação física em todos os anos do ensino básico.
  118. Exagerar no prazer e exagerar na abstenção de prazer, ambos estragam o corpo.
  119. O corpo bem disciplinado obedece. Se o corpo é fraco por carências, ele desobedece. Se o corpo é fraco por excessos, ele desobedece. É preciso ser moderado.
  120. Para Rousseau, a presença de médicos se justifica por haver pessoas que não são capazes de cuidar de seus próprios corpos. Esse também é o pensamento de Platão. O problema é que Platão não diz que a medicina é perniciosa, embora implique que não há necessidade de médicos onde as pessoas se cuidam, enquanto Rousseau diz com todas as letras que os médicos são vetores de covardia, infundindo nas pessoas o medo e a pusilanimidade. Isso quer dizer que, para Rousseau, a medicina deveria ser extinta de todo. Hoje sabemos que isso é impraticável, mas, considerando que os médicos franceses da época de Rousseau só serviam pra dizer que as mulheres tinham razão no quer que dissessem (porque ganhavam dinheiro concordando elas), é escusável que ele pense dessa forma. Afinal, os médicos franceses da época estavam pouco interessados mesmo em saúde.
  121. Para Rousseau, a medicina se sustenta no medo da morte.
  122. Uma crença da época era a de que a medicina é infalível e quem falha é o médico. Ora, grande besteira: a medicina só é operada por médicos, então é falha. É claro que a medicina pode falhar e hoje bem sabemos disso, mas, na época, se pensava que a culpa era do médico e não da medicina, como se a medicina pudesse existir sem médicos.
  123. O raciocínio de Rousseau: se não fossem os médicos nos dizendo que podemos adoecer, não teríamos medo de adoecer. Me diz se isso faz sentido. Não é melhor avisar do perigo do que deixar que o outro adoeça? Para Rousseau, porém, é melhor gozar de doce ignorância.
  124. Para Rousseau, viver sob amparo da medicina tira do indivíduo o “heroísmo” de sobreviver sozinho às doenças. Olha, eu já ouvi muita besteira, mas essa bate recordes. Prefiro ser um anônimo vivo do que um herói morto. E que se dane o Nietzsche.
  125. Devemos nos afastar do medo da morte. Essa é outra semelhança com Platão. No caso, Rousseau diz que os padres, os médicos e os filósofos nos deixam com medo de morrer, ao passo que Platão acusa a poesia trágica, que narra os terrores da vida após a morte, dos quais nem os heróis estão a salvo.
  126. Para Rousseau, o médico é último recurso, porque, numa situação de vida ou morte, o engano do médico é escusável (para ele): se o paciente vai morrer sem atendimento médico, não haveria, segundo seu raciocínio, um saldo negativo em morrer por engano médico. Então, numa situação assim, a ajuda médica é aceitável, porque ele pode ser curado e viver ou morrer, o que aconteceria de qualquer jeito. Numa situação em que não há risco de morte, há a possibilidade do médico deixar o paciente pior, então há possibilidade de saldo negativo. Esse é seu raciocínio. Eu, particularmente, vou ao hospital sempre que uma doença ou ferimento me atrapalha o sono e ao posto de saúde se a injúria atrapalha o trabalho ou as diversões.
  127. Um outro filósofo dizia que nunca se deve medicar uma criança. Eu também acho que não se deve interferir desnecessariamente no equilíbrio químico infantil, mas abro exceção para casos em que eu próprio me renderia ao médico. Quero dizer, se meu filho está com um mal que me faria procurar um médico se eu próprio tivesse esse mal, não vejo por que não levá-lo ao médico, já que eu próprio, na situação dele, iria ao médico. Eu também não gosto de me medicar sem necessidade, porque eu gosto da minha vida sem efeitos colaterais. Então só tomo medicamentos que o médico me manda tomar, não por conta própria. Mas aí é minha opinião.
  128. Para Rousseau, algumas doenças têm que ser toleradas.
  129. Alguns tratamentos matam mais que certas doenças.
  130. Os animais, na natureza, parecem adoecer menos. Mas nós, humanos, afastados da natureza, ficamos doentes com frequência. Aquela moça do Partido Verde uma vez disse que investir em preservação ambiental é, automaticamente, investir na saúde. Não lha tiro a razão.
  131. Para Rousseau, a única coisa boa dos médicos é que ensinam higiene. Porém, sendo a higiene uma “virtude”, pode ser aprendida sem auxílio dos médicos. Fala isso pro pessoal que hoje faz leite pasteurizado. Será que teriam aprendido a pasteurização sozinhos, sem conhecimento de medicina (ou biologia, pelo menos, e bons aparelhos)?
  132. Dois bons jeitos de evitar doenças são trabalhando e sendo temperante, diz Rousseau. Concordo com a parte da temperança, porque o bônus de insalubridade depõe contra a parte do trabalho. Faz sentido em seu contexto afirmar que o trabalho é um “médico natural”, mas não no contexto atual. Alguém pode achar errado eu tentar trazer pro presente o pensamento dos filósofos do passado, em vez de entendê-los em seus contextos, mas é que eu quero algo que eu possa usar hoje e cotidianamente, em vez de algo que eu só venha a usar nos estudos de história.
  133. O melhor estilo de vida disponível é o estilo de vida dos povos que vivem mais tempo. Faz sentido.
  134. Atividade física está relacionada à longevidade: os povos mais que vivem mais tempo são os que mais trabalham manualmente e mais toleram a fadiga.
  135. Se quer uma coisa bem feita, faça você mesmo.
  136. Longevidade parece estar relacionada ao baixo consumo de carne.
  137. O leite materno amadurece com o filho. Ele engrossa conforme a criança fica mais velha.
  138. Enquanto as coisas seguem sua ordem natural, é fácil fazer o bem. Quando as coisas saem do natural, fazer bem é difícil.
  139. Rousseau cogitava a possibilidade de o leite materno ser alterado pelas emoções da mãe. Assim, a mãe raivosa ou deprimida teria um leite diferente.
  140. Uma mãe de leite ruim é um perigo. Uma mãe desleixada é outro perigo. Minha irmã, por exemplo, que recentemente teve seu terceiro filho, não se importa muito de cantar aos gritos em sua casa com o rádio às alturas. Inclusive, sua filha do meio só fala com voz alta, talvez tenha perda auditiva. Além do mais, olha o exemplo que ela dá aos filhos. Assim, os vícios maternos afetam a criança. Outros exemplos incluem mães alcoólatras ou fumantes.
  141. A criança que passa de mãe para babá e de babá para babá recebe diferentes instruções, sem se aprofundar em nenhuma. Não está sendo bem educada. Pelo contrário, ela desenvolve um julgamento comparativo entre as instruções recebidas, dando-lhes um inconveniente sentimento de autoridade.
  142. A criança deve reconhecer autoridade, a autoridade paterna. Reciprocamente, pai e mãe devem ser responsáveis, para que sua autoridade não se torne autoritarismo.
  143. Pai e mãe devem funcionar como uma entidade só. Se derem instruções diferentes, a criança tomará vantagem disso.
  144. Mudanças súbitas prejudicam a saúde.
  145. Não conserte o que não está quebrado.
  146. Para Rousseau, o leite da mãe que come muita carne prejudica a resistência do bebê aos vermes. Para ele, um bebê alimentado por uma mãe carnívora desenvolverá vermes mais facilmente.
  147. Animais carnívoros pastam quando precisam amamentar. Então, deve haver alguma relação entre dieta vegetariana e bom leite. Rousseau recomenda pão, legumes e laticínios para mulheres que amamentam.
  148. Alguém pode argumentar que a dieta vegetariana faz o leite azedar mais cedo, mas Rousseau diz que a pessoa que não tem intolerância à lactose pode beber qualquer leite. Para Rousseau, não há problema em uma pessoa normal beber leite azedo. Eu tenho minhas dúvidas…
  149. E quanto ao leite coalhado? Diz Rousseau que o leite fica coalhado no estômago de qualquer forma, então não teria diferença ingeri-lo coalhado ou não. Eu não sei se isso ainda é válido.
  150. Rousseau diz que não é a natureza do alimento que faz mal, mas a forma como é temperado. Ele aconselha as mães a não comerem fritura.
  151. Rousseau diz que o ser humano não deveria viver coletivamente, isto é, em aglomerados. Muita gente junta permite fácil propagação de doenças.
  152. A zona rural é mais saudável do que a zona urbana.
  153. Os primeiros banhos da criança devem ser com água morna. Rousseau recomenda que a temperatura do banho diminua conforme a criança amadurece, até que ela não se importe em tomar banhos gelados na adolescência. Ela pode tomar banhos quentes, mas só às vezes, para não perder o costume.
  154. O berço do recém-nascido tem que ser grande. Ele tem que se mexer, mas não cair. As fraldas não podem ser apertadas nem devem ser muito quentes. Elas devem favorecer o movimento, não torná-los desconfortáveis.
  155. Quando a criança começar a engatinhar, deixe-a no chão, para que engatinhe livremente ao longo do térreo.
  156. A criança não deve ser embalada para dormir, isto é, sacudida numa rede ou num berço que o permita, porque isso prejudica o desenvolvimento dos movimentos e pode lhas dar mal estar.
  157. Proteger demais uma criança usando faixas para coibir o recém-nascido é frequentemente tido por uma medida de segurança, mas não é o que acontece: as mães faziam isso porque podiam pendurar os filhos em cabides ou colocá-los no canto dos berços e então sair para fazer outra coisa. Se a criança ficasse livre pra se mover, a mãe teria que despender mais tempo prestando atenção no bebê, a fim de que este não se machucasse. Alguém pode argumentar que manter a criança solta atrapalha os afazeres domésticos, pois divide a atenção da mãe. Ora, mas ninguém disse que ser mãe é fácil. Se não estiver pronta pra isso, não tenha filhos ainda. Manter a criança coibida em faixas atrapalha o desenvolvimento de seus músculos e pendurá-la atrapalha a circulação (na época de Rousseau, pelo menos, quando as crianças eram penduradas de cabeça pra baixo).
  158. Nascemos sem saber de nada, mas nascemos com capacidade de aprender.
  159. Se nascessem adultos, ainda teriam que aprender a andar e falar. Não é porque temos corpo que sabemos fazer tudo o que ele pode fazer. Por exemplo: um corpo normal é capaz de fazer acrobacias, mas só por isso um indivíduo normal conseguiria fazê-las? Não teria antes que aprender a fazê-las? Então, nossos atos corporais dependem da disposição do corpo e da disciplina mental. Sem um ou outro, a ação é impossível. É como se a cabeça, tendo um projeto, o repassasse para o corpo.
  160. Não sabemos até onde nós podemos ir.
  161. As primeiras sensações são o prazer e a dor.
  162. Um pássaro que foge da gaiola não consegue voar, porque nunca voou.
  163. É ruim comer por hábito, sem estar com fome, diz Rousseau. É preciso satisfazer as necessidades (nutrição, sono, eliminação) quando elas vêm, não quando elas não estão lá.
  164. A criança não deve ter hábitos, diz Rousseau. Falar é fácil. Se ela não adquirir pelo menos o hábito de dormir nos horários certos, eu não durmo.
  165. O medo se instaura quando ocorre uma situação desagradável de grande intensidade. Então, para que uma criança não tenha medo de máscaras, o ideal seria que ela fosse exposta, quando pequena, à máscaras bonitas. Então, aos poucos, com o passar do tempo, expô-la à máscaras cada vez mais feias. Se ela fosse apresentada a uma máscara feia logo de cara, ela teria medo de todas as máscaras, mas se for obedecido o princípio gradativo ela não temerá nenhuma.
  166. O fato de o bebê tentar pegar objetos que estão fora do alcance da mão, como se não percebesse sua real distância, mostra que é o nosso movimento que nos dá a ideia de extensão. Por isso se costumava medir distância com passos.
  167. Chorar é normal, é a forma que a criança tem de dizer que precisa de algo.
  168. Para Rousseau, os bebês têm uma linguagem própria.
  169. Quem convive com bebês sabe o que cada choro ou balbucio significa. Essas pessoas respondem aos bebês e têm um tipo de diálogo.
  170. Para se comunicar, o bebê também usa gestos e expressões faciais, para suprir a falta de palavras. Porém, é interessante lembrar que as expressões faciais muitas vezes são involuntárias, até em adultos.
  171. Nunca se deve irritar uma criança de propósito, por capricho.
  172. Não contrarie a criança sem razão, para que ela não aprenda a fazer isso e se torne como meu sobrinho.
  173. Não se deve obedecer a criança, mas não se deve causá-la dor (castigos, por exemplo) sem necessidade.
  174. Os primeiros choros são pedidos. Mas, se a criança é atendida sempre prioritariamente, entende que seus pais cedem às birras. Aí o choro se torna ordem. Por exemplo, minha irmã, ouvindo o choro do filho, vai e o segura, andando pela casa. Chega a um ponto em que o menino vai chorar sempre que quiser passear, o que a faz parar o que está fazendo para segurá-lo e andar com ele. Kant dirá que existem choros que não devem ser atendidos, para que a criança entenda que seu divertimento não é prioridade paterna, embora sua sobrevivência o seja (então, o choro de fome, sede ou sono deve ser atendido, mas o choro por capricho não deveria, embora o pai possa, quando quiser e puder, acariciar e dar atenção ao filho, desde que isso não fique no caminho de outras coisas mais importantes, assim a criança entende que há prioridades).
  175. Alguns bebês frustrados gritam às coisas, como se as coisas as entendessem e devessem satisfação. Alguns adultos também fazem isso, xingando objetos.
  176. Quando o filho quiser alguma coisa, não leve a coisa a ele, mas o contrário: leve-o à coisa. Porque quando você leva a coisa a ele, o bebê entende que é possível conseguir objetos ficando parado. Essa prática continuará depois que ele aprender a andar. Meu sobrinho, por exemplo, tem a mania horrível de pedir que peguem pra ele o que ele precisa, mesmo quando essa coisa está na sala ao lado, porque ele tem preguiça de procurá-la e pegá-la. Porém, se você leva ele à coisa, ele entende que conseguir as coisas requer movimento. Quando ele aprender a andar, andará até o que quer.
  177. A maldade vem da fraqueza. O indivíduo forte (inclusive moralmente) será bom. Se ele for fraco, não poderá facilmente obter o que quer, sendo tentado aos meios mais fáceis, mas ilícitos. É importante fortalecer corpo e moral.
  178. Os deuses maus, dentre os pagãos, eram inferiores. Para Rousseau, isso é porque o bem é um atributo divino. Mas poderia ser também motivado pelo medo (eu conceberia a morte como fraca diante do bem se eu tivesse medo da morte, por exemplo).
  179. A criança não destrói por maldade, pois não conhece esse conceito e frequentemente é amoral, mas destrói por diversão.
  180. Atender aos desejos fúteis da criança o tempo todo a torna mimada e egocêntrica.
  181. Não dê à criança um direito do qual ela pode abusar.
  182. A educação deve ser ministrada de uma forma que a criança precise do mínimo possível de ajuda e seja capaz de fazer as coisas sozinhas. Não faça por ela, ensine-a a fazer.
  183. Assim, ela aprenderá a querer apenas o que puder ter com seu esforço.
  184. Acariciar uma criança porque ela está chorando pode não curar a causa do choro, mas a criança pode acabar entendendo que há uma relação entre chorar e receber carinho. Ela então chora sem razão, apenas para receber carícias.
  185. Se a criança está chorando por birra, a fim de conseguir algo que você não pode dar, deixe que chore até se cansar. Kant dirá o mesmo.
  186. Se a criança chora sem estar doente, sem estar com fome, sem estar com sede, sem estar com sono, sem estar apertada, sem estar triste, sem estar com medo, ela não tem razão pra chorar.
  187. A criança só deve deixar de mamar quando os dentes começarem a crescer. Ela não deve ser desmamada antes disso.
  188. Se os dentes estão nascendo, a criança quererá mastigar. Dê a ela brinquedos de borracha, mas de borracha grossa, pra que ela não engula pedaços. Nessa idade, não é boa ideia fazer com que ela brinque com objetos de plástico, metal ou vidro, porque ela os invariavelmente os colocará na boca e poderá machucar as gengivas com objetos tão duros.
  189. Os brinquedos devem ser baratos (bola amadora, carrinhos, lápis de cor) ou mesmo gratuitos (galhos de árvore, cocos secos). Se a criança tiver brinquedos de luxo, ficará mal-acostumada.
  190. Com o aparecimento dos dentes, chega a hora de introduzir à criança os alimentos sólidos. Não muito sólidos, claro. Como o desconforto do nascer dos dentes a leva a mastigar as coisas, alimentos sólidos, mas macios, colocados em sua boca a levarão a mastigá-los também. Assim você não precisa ensinar a criança a mastigar a comida.
  191. Não se deve balbuciar com a criança. Fale com ela a língua materna. Como as crianças têm a tendência de imitar, se falarmos português com elas, mesmo que não entendam, elas tentarão sua articulação de sons. Aprenderão a falar corretamente com mais velocidade.
  192. As primeiras palavras que a criança deve aprender são as que se referem aos objetos sensíveis com que ela convive. Assim, se o que se quer é ensinar a ela a palavra “gato”, seria interessante ter um gato em casa, para o qual você pudesse apontar e dizer “gato”. Se você ensina palavras que não correspondem ao que ela percebe, ela não entenderá seu significado e pode entender a palavra como um balbucio. Então, ela poderá voltar a balbuciar coisas sem sentido, porque, para ela, você também balbucia.
  193. Isso pode dar a criança o costume de se conformar com palavras que não entende. Isso acontece com seres humanos também, que aceitam o que autoridades dizem, mesmo quando não entendem o raciocínio, por excesso de jargão.
  194. A criança tem uma linguagem muito poética, ela faz comparações e alusões que os adultos não pensariam em fazer. Embora faça sentido literal pra elas, o adulto por vezes deve interpretar a linguagem infantil de maneira metafórica.
  195. A menos que esteja lendo, não há necessidade de corrigir a pronúncia infantil. A língua falada só tem uma regra: está bem quando eu falo e você entende. Não se deve cobrar da criança uma pronúncia 100% exata. Além do mais, observando a pronúncia dos outros, ela acaba corrigindo a dela sozinha.
  196. A criança não deve aprender a falar rápido, em nenhum sentido. Não deve pronunciar rapidamente e não deve também ser estimulada a falar antes da idade certa.
  197. Conviver com mais de uma pessoa permite que a pronúncia infantil seja melhor; se ela convive só com o pai, ele acabará entendendo o que cada balbucio quer dizer, mas, convivendo com outros, a criança precisa se esforçar para pronunciar de maneira inteligível porque os outros não estão acostumados à linguagem que ela usa em casa com o pai. Por isso muitas crianças desenvolvem a pronúncia rapidamente na escola. Não que a ensinem a fazê-lo, mas porque ela precisa ser entendida pelos professores, servidores e por outros alunos, com os quais não convive diariamente.
  198. Quando você fala e não é entendido, você provavelmente está falando errado.
  199. Não se deve envergonhar a criança por pronunciar errado, porque isso pode torná-la tímida quando precisar falar em público.
  200. Às vezes a criança fala uma coisa querendo dizer outra, porque não entende o verdadeiro significado de determinado termo. Isso pode ter resultados surpreendentes, quando a criança diz que te trará um atiçador, sai e volta trazendo um pato. Quando eu era criança, por exemplo, achava que Satanás era um tipo de pastel. Se eu dissesse pra minha mãe que eu queria um pastel de Satanás, talvez ela risse (ou eu apanhasse). Mas eu me referia a um tipo específico de pastel, que hoje sei o nome: pastel de queijo.
  201. A criança não deve saber mais palavras do que o necessário para descrever suas ideias. Do contrário, ela pode chamar queijo de Satanás.
  202. A criança que aprende a falar chora menos, porque terá outros meios de comunicar o que sente. Ela passa a chorar somente quando têm emoções ou sentimentos fortes.
  203. Se a criança se machuca quando está sozinha, pode ser que não chore. A chance de chorar é maior se houver quem ouça.
  204. O medo do pai passa para o filho. Mantenha-se calmo.
  205. A criança não se mata sozinha, se o pai for responsável o bastante para lembrar de afastar do campo de ação da criança as coisas que a possam ferir. Se a criança está sozinha num amplo terraço, onde só há brinquedos, não vai morrer. Mas se o pai resolve que é uma boa ideia colocá-la perto de uma panela fervente ou de um fio elétrico exposto, a história é outra.
  206. A forma errada de ensinar: dizer pra criança o que ela pode aprender sozinha e se calar sobre o que ela só pode aprender com os adultos. Se você ensina o que ela vai aprender de qualquer jeito, está perdendo o seu tempo, que deveria ser usado pra ensinar aquilo que ela só poderia aprender quando se tornasse adulta ou mesmo nunca.
  207. Não precisa ensinar a criança a andar, ela vai fazer isso sozinha.
  208. A criança precisa do espaço para brincar, esse espaço deveria ser amplo. Se ela levar uma queda enquanto corre, se for num lugar onde não pode morrer ou se ferir gravemente, faz parte da vida: ela aprenderá mais cedo a se levantar e a não cair. Um bom lugar pra brincar é um campo de futebol, pátio, quintal ou outros locais a céu aberto.
  209. Melhor uma criança machucada e feliz do que uma triste criança limpa. Ninguém disse que ser mãe é fácil.
  210. A criança que brinca e desenvolve suas forças físicas pelo jogo se queixa menos, pois seu corpo é mais capaz. Ela, tornando-se mais autônoma, pede menos ajuda aos adultos.
  211. Maior parte dos perigos à vida está no seu início. Quanto mais tempo se vive, mais tempo se pode esperar viver. É muito fácil que a criança morra antes dos cinco anos. Mas, se ela chegou aos cinquenta com boa saúde e se mantém nessa saúde pode até viver aos cem.
  212. A educação deveria servir ao presente mais do que ao futuro. Porque o futuro é incerto. Não há garantia de que eu usarei tudo o que aprendi. Então, seria melhor aprender alguma coisa que eu pudesse usar desde já.
  213. A educação errada e os cuidados errados levam pais bem intencionados a matar seus filhos, pensando que lhes fazem bem. Por exemplo: passar soro caseiro nos olhos. Que ideia estúpida: soro leva sal. Muitos pais, achando que fazem bem, fazem mal a suas crianças, com medidas protetivas incorretas, educação falha e medicação errada.
  214. A infância se vai. A pior coisa na vida de alguém é não ter aproveitado a infância como criança.
  215. Existem coisas que a criança aprende que atrapalham ela na vida adulta, como o filho que aprende do pai a ser homofóbico.
  216. Algumas crianças fazem besteira porque os pais mandaram. Ou porque entenderam errado as ordens. Nesse caso a culpa é dos pais.
  217. Não se deve fazer alguém infeliz a fim de que ele seja feliz no futuro. A pessoa deve ser feliz desde agora.
  218. Não se deve estragar a criança, mas não se deve torná-la infeliz.
  219. Para prosseguir, Rousseau distingue homem e criança, como seres a serem tomados em separado, em vez de estágios evolutivos.
  220. Para Rousseau, tudo está misturado nesta vida, de forma que não é possível experimentar felicidade sem também experimentar algum sofrimento. Em polêmica com o estoicismo e, em certo sentido, com o Ari.
  221. A pessoa mais feliz é, simplesmente, a que sofre menos. Corte suas fontes de sofrimento e será feliz. Se ele não dissesse que o mais infeliz é o que sente menos prazer, poderia alguém concluir que o estado mais feliz é a morte, mas não é isso que diz Rousseau. Se felicidade é falta de sofrimento, ele concorda com Epicuro.
  222. A miséria, então, é desejar o que não se pode obter, porque o desejo já é um sofrimento. Quanto mais se deseja, mais se é miserável, mais sofremos.
  223. Um ser absolutamente feliz seria aquele que pode conseguir tudo aquilo que quer. Observe que Rousseau não cogita a possibilidade de o ser mais feliz ser aquele que não deseja, porque a fome e a sede também são desejos, por comida e água. Então, não desejar é querer morrer. Aqui, outro paralelo com Epicuro, para quem o sofrimento pode ser afastado pela satisfação sistemática dos desejos naturais necessários (sede, fome, sono, aperto), pela satisfação dos desejos naturais não-necessários apenas na medida em que redundam em saldo segundo o cálculo do prazer (só se causarem mais prazer do que dor, considerando também as consequências futuras), pela total abstenção de satisfazer desejos não naturais (riqueza e fama).
  224. A miséria, então, vem do fato de que desejamos além da nossa capacidade de satisfazer nossos desejos.
  225. Superar a miséria é desejar somente aquilo que está ao meu alcance. Isso é tratado também na Vida Feliz.
  226. Se a força ultrapassa nossa necessidade, somos fortes.
  227. Pondo as coisas dessa forma, é forte quem se contenta com o que se é. Por isso se diz que Rousseau é um pregador do conformismo.
  228. Quem se conforma não se queixa.
  229. Todos os animais têm apenas o que lhe basta para sobreviver. Mas nós, humanos, temos habilidades de que não precisamos.
  230. Se você desejasse somente estar vivo, seria automaticamente feliz durante toda a sua vida. Já sendo feliz, não teria necessidade de praticar a maldade. Então o desejo nos leva também à tentação de usar meios ilícitos para obter o que queremos.
  231. Para Rousseau, a imortalidade só valeria a pena se o mundo fosse perfeito.
  232. “Nossos males físicos se destroem ou nos destroem.”
  233. A medicina salva muitas vidas, mas o engano médico também tira muitas vidas.
  234. É preciso saber sofrer.
  235. Para Rousseau, o indivíduo com cirrose tem mais é que continuar bebendo. Assim morrerá feliz. Pra quê, pergunta Rousseau, chamar o médico se ele me tirará um dos meus maiores prazeres: álcool? A visão de Rousseau sobre a medicina é como a de Heráclito, mas, em tempos em que a medicina era mesmo pouco confiável, parece justificável pensar assim. Talvez, se Rousseau vivesse hoje, pensasse de forma diferente.
  236. É cruel que um velho morra sem ter vivido (bem).
  237. O presidente não é tão poderoso se ele precisa das mãos de outras pessoas para efetivar sua vontade. Ele, sozinho, nada é.
  238. Mais vale liberdade do que autoridade.
  239. Deve-se ensinar a criança a desejar somente o que puder ter. Se toda a educação for orientada pra isso, ela crescerá feliz.
  240. “Fantasia” é qualquer desejo que não podemos satisfazer sozinhos e que não dizem respeito à necessidades reais (eu não vou morrer se não satisfazer uma fantasia).
  241. Dar à criança mais necessidades é viciá-la.
  242. A criança deve pedir, mas não mandar. Ela não é um animal, mas também não é adulto.
  243. O pai só deve mandar o filho fazer algo que seja útil a ela. Se ele manda a criança fazer alguma coisa que não lha ensina nada, está educando errado.
  244. Um adulto não deveria depender de outros adultos. Essa necessidade vem da vida em grupo e não é natural.
  245. A vontade de pular, correr e gritar que as crianças têm é natural. O impulso por trás disso é a vontade de fortalecer e amadurecer o corpo. As crianças que não fazem isso podem, talvez, ficar fracas ou obesas.
  246. Se a criança chora para conseguir algo (depois que aprende a falar), não conceda esse algo, a menos que seja necessário à sua sobrevivência. Isso porque você estaria incentivando ela a chorar sempre que quer alguma coisa. Se ela chora porque quer água, tudo bem dar-lhe água, levando-a até onde possa beber. Mas, se ela chora por um brinquedo e você traz o brinquedo, você está ensinando a ela que chorar por capricho dá resultado e ela repetirá o truque até que vire hábito fazer birra.
  247. Se o pai for muito inflexível com a criança, ela o verá como mau e será má também por força do exemplo. Mas se o pai for muito flexível, a criança o verá como fraco e tirará vantagem disso. Nem mau, nem fraco, o pai deve ser justo.
  248. O uso das “palavras mágicas” por favor, obrigado, desculpe-me, não deve ser pervertido. Se a criança usa essas palavras porque sabe que os adultos reagem melhor à crianças educadas, ela será educada por interesse. Ela deve entender que essas palavras são apenas para que ela seja civil, não para conseguir tudo o que quer quando quer. O exemplo mais claro disso é o “desculpe-me”.
  249. Melhor ser mau educado do que arrogante.
  250. A nossa fraqueza é que nos torna capazes de empatia. Se não sofremos, não poderíamos nos colocar no lugar do outro que sofre. Só é possível sentir empatia por alguém que sente o que já sentimos, que é a dor e o sofrimento.
  251. Dói mais a uma criança mimada receber um “não” do que realmente a falta daquilo que quer. Se você diz que não dará o doce a uma criança acostumada a ter tudo o que quer, ela não chora porque está sem o doce, mas porque foi contrariada. Ela foi ferida em seu orgulho. Uma criança orgulhosa não é nada saudável.
  252. Se a criança é acostumada a ter tudo o que quer, verá todos como escravos.
  253. A criança mimada é infeliz no instante em que percebe que não pode obter tudo o que quer. Verá seus pais escravos se rebelando.
  254. A criança mimada, tendo muitos desejos, é frustrada com frequência.
  255. A criança mimada será massacrada na vida adulta.
  256. Só se deve dar a criança o que ela pede quando é algo de que ela precisa. Se ela pedir algo de que não precisa, também você não precisa dar.
  257. Prazer também é necessário, então a criança precisa brincar pra se desenvolver bem. Então como saber quando ela pede o que não precisa? Verifique a motivação de seu pedido. Se ela está pedindo algo de que não precisa somente para verificar se você a obedece ou para mostrar autoridade, recuse. Esse é o único prazer que a criança nunca deveria sentir: o de ser obedecida. Ela deve ter zero autoridade.
  258. A criança não tem a razão plenamente formada. A razão é a última coisa a amadurecer numa pessoa. Por causa disso, diz Rousseau, não se deve raciocinar com crianças. Elas não precisam saber as razões por trás de seus atos.
  259. Se você discute racionalmente com uma criança, ela aprende a subverter seus princípios, a discutir e a não se dar por vencida em um debate que já perdeu. Ela questiona a autoridade dos pais e a tudo o mais, como um sofista. A razão acaba não sendo mais suficiente e a criança precisaria ser então convencida com outros meios (ameaças, prêmios, mentiras).
  260. Filosofando com uma criança: “Não faça isso”, “Por quê?”, “Porque está errado.”, “Por quê?”, “Porque é proibido.”, “Por quê?”, “Porque se te pegarem, te castigarão.”, “E se eu me esconder?”, “Te acharão.”, “E se eu mentir dizendo que eu não fiz isso?”, “Você não pode mentir.”, “Por quê?”, “Porque está errado.”…
  261. Saber por que algo é bom ou ruim não é algo que a criança precise saber. Ela saberá de qualquer jeito quando for adulta e tiver juízo. Mas aprender isso na infância é reduzir a autoridade paterna. Platão diria algo parecido, pois ele defendia que ninguém deveria aprender dialética antes dos trinta anos para não subverter o Estado.
  262. Além de que a criança não precisa desse conhecimento na infância.
  263. Pior que o castigo pelo mau comportamento é a promessa de algo bom por bom comportamento. A criança passa a te cobrar.
  264. Castigar uma criança que insiste em fazer algo que os pais consideram errado é incentivá-la a fazer escondido.
  265. Isso porque a criança não entende por que certa coisa é errada. Os pais só deveriam fazer proibições de coisas que a criança pode sentir que são erradas (colocar o dedo na tomada, pular refeições, beber água sanitária, ficar sem dormir…). Se os pais fazem uma proibição de algo que a criança não vê como errado porque não é capaz de sentir suas consequências negativas, ela tem a sensação de que os pais estão apenas sendo maus com ela, o que diminui o amor da criança pelos pais. Se é preciso que uma criança não faça algo e ela não entende que esse algo é errado, os pais devem procurar outros meios de interferir sem proibi-la diretamente. Exemplo: vício de vídeo-game. Você pode desconectar totalmente o jogo e guardá-lo à noite. Quando a criança tiver vontade de jogar, virá até você. Se você achar que ela já se negou o bastante, pode reconectar o jogo. Se você achar que ela não passou tempo o bastante sem jogar, diga que guardou para evitar que quebre e que irá reconectar depois, porque está ocupado agora. Ela entenderá que isso está sendo feito para a integridade do jogo, que é melhor ficar sem jogar por um tempinho do que o jogo quebrar e nunca mais funcionar. Antes de proibir uma coisa a uma criança, pense se isso é realmente necessário.
  266. O sábio não precisa de leis; já faz tudo certo. Leis o prejudicam.
  267. A criança não deve sequer sonhar que o pai está sendo autoritário. Ela deve fazer as coisas que o pai diz porque entende que ele é mais forte e mais sábio. Ela não pode cogitar que o pai manda “por mandar”, mas que o pai sabe o que é melhor e pode protegê-la.
  268. Se você diz “não” a uma criança, é ponto final. Se ela insistir, mantenha sua decisão. Meu sobrinho, por exemplo, sabe que minha mãe revoga suas negativas se ele perturbá-la o bastante. O resultado é um menino mimado e uma mulher perturbada.
  269. Manter o “não” ensina resignação. Aprender a lidar com a frustração faz parte do amadurecimento.
  270. Não se deve ensinar uma criança a não ter ciúme fazendo-a ter ciúme para depois ensiná-la a combatê-lo. Não se deve ensinar a não ter vícios permitindo que a criança experimente o vício.
  271. Não force uma criança a pedir desculpas. Se ela pedir desculpas só da boca pra fora pra apaziguar os adultos, ela aprenderá a pedir desculpas por qualquer coisa. Como não está realmente arrependida, faz de novo as maldades pelas quais se desculpou.
  272. Para Rousseau, o ser humano é naturalmente bom, de um ponto de vista moral. Afinal, não tendo ideia de certo e de errado, não faz o mal de propósito, não sendo, por isso, digno de castigo. É como Adão e Eva. Antes de comerem da árvore do conhecimento do bem e do mal (Génesis 2:17), gozavam de uma abençoada ignorância moral: não viam a maldade do que faziam (Génesis 3:5). Quando comeram a fruta proibida, entenderam que algumas ações são boas e outras são más (Génesis 3:7). Assim, se praticassem o mal sabendo que é mal, não haveria desculpa para o que fazem. Como agravante, a natureza humana não foi concebida para ser capaz de julgar bem e mal com precisão. Então, nosso julgamento pode ser falho: ora tomamos o bem por mal, ora tomamos o mal por bem (por exemplo, ficar pelado não é realmente mal, mas Adão e Eva viram isso como errado apesar de terem estado nus até aquele instante). Observe que aqui o bom selvagem de Rousseau é o mesmo selvagem de Hobbes, mas encarado de maneira otimista. Hobbes diria: “o ser humano em seu estado de natureza mata indiscriminadamente.” Mas Rousseau diria: “ele o faz para sobreviver, numa época em que não há leis e, portanto, não há crime, logo esse humano não é criminoso por matar.”
  273. A criança aprenderá que alguns de seus comportamentos são errados quando crescer, de qualquer maneira. Por exemplo, eu só comecei a usar desodorante quando eu tentei arrumar uma namorada no ensino médio. Antes tarde que nunca.
  274. A maldade depende da intenção, segundo Rousseau. Portanto, a criança só faz uma má ação se ela o faz com intenção de prejudicar. Rousseau diz que a criança que faz isso é má quase além da esperança de qualquer reparo.
  275. Se a criança quebra um vaso sem querer, a culpa é do pai que deixou o vaso ali. Quando a criança brinca, é bom que não tenha nada de valor por perto. Assim, ela brinca plenamente e não haverá prejuízo.
  276. A criança deveria fazer a decoração de seu quarto. Eu, pelo menos, deixo meus sobrinhos pintarem as paredes do meu quarto. Seria legal se as crianças pudessem desenhar pelo menos nas paredes de seus próprios recintos.
  277. Se alguma coisa quebra enquanto a criança brinca, não reclame disso. Porque, se você reclamar, ela pode acabar concluindo que é possível te atingir quebrando objetos. Quando tiver raiva de você, quebrará suas coisas. É melhor tirar de perto dela o que ela possa quebrar do que reclamar depois dela tê-lo quebrado.
  278. A criança pode desenvolver vícios, mas, sendo criança, não dispõe de meios para combatê-los. Quando ela for adulta, ela terá esses meios, mas o vício pode estar tão fundo nela que ela não terá força de vontade para se livrar dele. Vício é mau hábito.
  279. O educador não precisa ensinar a verdade, mas precisa afastar do engano. Ele deve corrigir, mas não dizer como é que se faz. A criança deve descobrir a verdade sozinha, com o educador se limitando somente a corrigi-la quando está errada. Rousseau provavelmente se refere exclusivamente ao campo moral, já que sua educação infantil é puramente moral.
  280. Existem conhecimentos que não podem ser compreendidos pela criança. Não tente ensiná-los.
  281. Se a correção se faz necessária, não a dê agora, se não for fazer mal à criança que ela persista no engano por mais um tempo. Outros filósofos discordariam desse ponto, pois há quem diga que os erros que as crianças aprendem são mais dificilmente eliminados na idade adulta.
  282. É preciso conhecer o aluno antes de educá-lo. Conhecendo seu temperamento, é possível elaborar um curso de ação para educá-lo da maneira correta. Se tentarmos educar todas as crianças do mesmo jeito, estaremos agindo ao acaso.
  283. Esse tempo de conhecer a criança é a primeira infância.
  284. O médico apressado mata mais facilmente o paciente.
  285. A educação é uma coisa de professor e aluno. Não se deve interferir.
  286. O método de Rousseau é difícil, talvez impossível. Ele se põe como ideia reguladora. Se você conseguir aplicá-lo 100%, está, para Rousseau, indo perfeitamente. Mas se você só consegue se aproximar dele, está indo bem o bastante.
  287. Não é possível educar sem ter sido educado.
  288. Ter autoridade sobre a criança implica ter autoridade sobre tudo o mais que a possa afetar. Se há interferência, sua autoridade está em risco.
  289. Deve haver intimidade entre professor e aluno, para que o aluno goste do professor. Isso o tornará mais receptivo.
  290. Algumas pessoas pobres não precisam de dinheiro, mas de consolo.
  291. Ame e será amado.
  292. Se você ensina várias coisas a uma criança, é claro que ela aprenderá pelo menos uma coisa de forma errada. Ela vai se enganar, isso é normal.
  293. É lícito mentir para educar, diz Rousseau, com Platão. Exemplo: inventar que paixões (emoções fortes) são doenças, para que o aluno tema senti-las.
  294. Uma criança não ataca outra que é mais velha. Ela acaba descobrindo, por experiência, que não se deve atacar quem é mais velho. Mas, se a criança tem raiva, ela atacará aquilo que não pode se defender: as coisas. É mais fácil a criança destruir objetos do que atacar pessoas. Então, uma das primeiras noções a ser ensinadas não é a de liberdade, mas a de propriedade. Ela não deve destruir o que não é dela.
  295. Para ensinar a ideia de propriedade, é preciso que a criança tenha propriedade. Ela deve ter suas coisas. Mas é importante lembrar que esse método só funciona perfeitamente se a criança tiver obtido alguma coisa com seu próprio esforço. As pessoas desenvolvem um apego maior às coisas que conseguiram com dificuldade. Então, se a criança tem uma posse que conseguiu sozinha, sem que ninguém a tenha dado, eis uma boa hora pra falar de propriedade.
  296. Se a criança quer bater em alguém agora, quererá matar quando for adulta.
  297. Um bom meio de discutir propriedade é incentivando a criança à jardinagem. Ou talvez a criar um animal, embora eu não goste dessa ideia. As plantas que nascerem no jardim são da criança, obtidas com seu esforço, e o cachorro adulto é resultado dos cuidados que a criança teve com ele quando filhote.
  298. Se deve educar com exemplo, não só com palavra. As crianças facilmente esquecem o que ouvem, mas raramente esquecem o que fazem ou vêem.
  299. Se a criança quebrar algum objeto útil à casa, não o substitua imediatamente: deixe que a criança sinta os efeitos da falta. Isso funciona muito bem quando ela quebra algo que ela própria usa na casa. Meu sobrinho, por exemplo, quebrou o chuveiro. Só há um problema com isso: ela pode se acostumar à falta e a lição fica perdida. O objeto deve ser substituído eventualmente, mas não muito tarde para que não faça mais falta.
  300. Castigo é uma boa ideia, mas não deve ser administrado sem dizer a razão dele. Se a criança quebra uma janela, você deve dizer que a janela é sua e que a criança feriu sua propriedade e por isso será castigada. Aí você a manda pro quarto e deixa ela lá até que ela diga que não quebrará mais as janelas. Não há tempo limite pra isso. Um castigo severo deve ser usado como último recurso, porque abusar da severidade faz com que a criança se acostume com ela. Aí mandar pro quarto, aquecer o traseiro, ficar sem video-game, nada mais funcionará. A criança se torna uma cínica.
  301. Só se mantém uma promessa até que não mais valha a pena mantê-la. As pessoas quebram promessas porque vêem benefício nisso. É injusto, mas acontece.
  302. Se a criança faz algo errado, a punição padrão seria sempre fazê-la sentir as consequências de seus atos. Se ela mentir e você descobrir a mentira, faça ela sentir as consequências: não acredite mais nela e, quando aparecer alguma coisa quebrada e ela dizer que não foi ela, culpe-a do que não fez. Afinal, se ela mente, como confiar nela? Isso é uma punição prática. Se você fazê-la sentir as consequências de seus atos, terá melhor resultado do que agir com severidade todas as vezes.
  303. Existem dois tipos de mentira: de fato (mentir sobre o que aconteceu) e de direito (mentir sobre o que acontecerá, como fazer uma promessa que não vai cumprir).
  304. Quem sente que precisa do outro não mente pra esse outro, diz Rousseau.
  305. As crianças não mentem por natureza, mas o fazem porque têm que obedecer e a obediência é penosa. Então, procuram evitar a obediência tanto quanto possível, cobrindo suas infrações pela mentira. Porém, diz meu sobrinho, algumas crianças mentem por prazer de enganar.
  306. Todas as promessas feitas por crianças são, por definição, nulas. Não confie em promessas feitas por crianças.
  307. A criança lembra que fez a promessa, mas nem sempre entende a importância de cumpri-la.
  308. Se você ensina o que é verdade, acaba ensinando que existe algo que não é verdade, isto é, a mentira. Então, é mais fácil ensinar uma criança a não mentir se você não ensiná-la a dizer a verdade, diz Rousseau.
  309. A criança tem mais interesse em cumprir promessas se ela vê os benefícios disso desde já. Ela também tem mais interesse em cumprir promessas que ela propõe, em vez das promessas propostas pelo pai.
  310. Quanto menos se confronta uma criança sobre alguma coisa que ela fez, menos ela nega. Quanto menos nega, menos prática tem em mentir. Quando precisar mentir, não saberá fazê-lo. Então, se a criança faz algo de errado, não pergunte se foi ela. Se você não tiver visto, não a acuse. Deixe passar.
  311. Se você sabe que a criança fez algo errado, não pergunte “foi você quem fez isso?”. Se sim, ela apanha; se não, ela apanha. Mas a tendência é ela responder “não”. Então, se você sabe que foi a criança, não pergunte, para que ela não se sinta tentada a mentir. Ela precisa mentir o mínimo possível ou não mentir de jeito nenhum, para que não pegue prática.
  312. Se você cobra o cumprimento de uma promessa com frequência, você irrita o outro. Ele pode acabar não querendo mais cumprir. Eu já vi acontecer.
  313. Não force a criança a ser religiosa. Se ela for à missa à força e rezar à força, acabará tendo nojo à religião. Fé é algo pessoal. A criança deveria desenvolvê-la sozinha. Frequentemente, nenhuma criança o faz, tendo que virar adulta antes.
  314. Em vez de forçar a criança a participar dos rituais, faça os rituais de forma que ela possa vê-los. Assim, ela ficará curiosa e talvez queira participar.
  315. A caridade é fazer ao próximo o que eu gostaria que fosse feito a mim (Mateus 7:12). Isso significa que eu entendo a necessidade que o outro tem daquilo que dou. Como nem todas as crianças entendem a caridade, forçar a criança a praticá-la é um ato nulo porque, se ela dá por obrigação, não é caridade, diz Rousseau.
  316. Se a criança não entende o valor do dinheiro, fazê-la praticar caridade dando esmolas de dinheiro não ensina nada. Teria que ser com algo que ela acha precioso, como brinquedos ou doces. Isso é muito mais difícil pra ela. Claro, se quiséssemos ensiná-la a caridade, mas não é o que faremos.
  317. Devolver a criança aquilo que ela doou não ensina caridade. Isso a estimula a dar apenas aquilo que ela sabe que receberá de volta.
  318. A lição mais importante que se pode ensinar a uma criança é a de não fazer mal a ninguém. O pai que falhou em ensinar isso ao filho, falhou completamente.
  319. Para uma mãe, seu filho sempre é prodígio.
  320. O mau não pode ser mau sozinho. O mau só pode ser mau em sociedade, pois precisa praticar o mal, o que implica um receptor. Portanto, é mais fácil ser bom sozinho e mais fácil ser mau em companhia.
  321. Mesmo que a criança seja mesmo um prodígio, ainda é uma criança. Também a criança com dificuldades de aprender é uma criança. Elas não precisam ser tratadas como gênios ou retardados, mas como crianças. Tenha paciência com elas.
  322. Não se deve ter altas esperanças sobre o desenvolvimento da criança. Talvez ela não seja tudo o que você pensa que ela é. Trate-a normalmente, não como um gênio. Da mesma forma, a criança com dificuldades não precisa ser encarada como um caso perdido.
  323. Não se apresse a educar uma criança, pois ela irá aprender errado se o conhecimento que se quer ministrar exceder suas capacidades. É perda de tempo fazer uma criança aprender errado agora o que aprenderá melhor quando mais velha.
  324. Brincar, para a criança, não é perda de tempo. Ela exercita o corpo assim. E brincando, ela desenvolve faculdades mentais também, a seu próprio passo e com prazer. Deixe-a brincar.
  325. Muitas vezes a criança fala o que não entende.
  326. A criança aprende sensorialmente. Se as condições de sensação mudam, a situação muda e o conhecimento sensorial anterior não serve mais. Só seria possível aplicar um saber à várias situações pela abstração. Isso só vem depois dos dez ou doze anos. Além disso, a retenção de informações é pobre, por isso a criança que aprende alguma coisa pode esquecê-la, tendo que aprendê-la novamente. Eu, por exemplo, antes de dominar as regras de leitura aos seis anos, aprendi com sucesso a ler pelo menos três vezes antes disso. Só que eu esquecia como ler depois de ter aprendido.
  327. As crianças raciocinam sobre o que é sensível e presente. Elas só poderiam pensar sobre ideias ou sobre coisas passadas ou futuras mediante abstração.
  328. As crianças não prestam atenção no que não diz respeito ao presente. Se você tentar ensinar pra ela sobre o futuro, de quando ela for adulta, que o conhecimento que ela tem agora servirá no futuro, elas ficam com tédio. Então, quando você diz que o conhecimento da escola serve pra passar no vestibular, tenha misericórdia.
  329. A criança precisa aprender o que precisa usar. Ela deve aprender coisas que servem ao presente dela. Então, não tem sentido ensinar a criança a falar duas línguas, se uma delas ela não usará com frequência.
  330. Quando a criança pensa falar dois idiomas, na verdade está falando um só usando palavras estrangeiras. É como ensinar sinônimos. Para aprender propriamente um idioma, é necessário entender algo além do vocabulário, que é o “espírito” da palavra, o que ela significa em cada situação e em cada tonalidade. A palavra “meia”, por exemplo. Meia pode ser aquele troço que se usa com o sapato, a abreviação de meia-passagem, sinônimo de seis (meia-dúzia) e cada metade de uma hora (como “seis e meia” significa “seis horas e trinta minutos”). A criança estrangeira que tenta aprender português, quando confrontada com esta situação, se encontraria em apuros, pois não teria como aprender todas as acepções do termo fazendo ligações com seu próprio idioma, especialmente quando o seu idioma materno usa uma palavra para cada uma dessas situações. Como “meia” pode significar tanta coisa? Qual é o seu sentido em determinada situação? Assim, ensinar palavras estrangeiras fazendo paralelos de sinônimos com o idioma materno é apenas uma parte de todo o processo.
  331. As palavras serão vazias se não se reportarem às coisas reais.
  332. Depois de dois anos estudando geografia, a criança não necessariamente saberá como chegar a determinado bairro da cidade vizinha. A geografia escolar raramente fala de lugares que a criança pode visitar e de sua relação com o lugar onde ela vive. Assim, a geografia escolar não serve ao aluno.
  333. A história deve ser ensinada junto com as razões por trás de cada fato histórico. Assim, a história teria valor formativo. Se a história é ensinada somente como sucessão de fatos, como se os personagens históricos fossem bonecos na mão do destino, sem explicar o que motivou suas ações, a história torna-se decoreba.
  334. Aprendendo uma palavra, a criança não necessariamente aprende o que ela significa. Mas interagindo com algo, ela usará palavras para descrevê-los. Então, o conhecimento da coisa deveria vir antes, só depois deveria se ensinar a palavra para descrever.
  335. Se elas aprendem palavras com dificuldade e você diz que isso é ciência, elas têm a impressão de que ciência é aprender palavras difíceis.
  336. A criança não deve memorizar nada à força. Se for importante pra ela, será memorizado.
  337. Entender uma fábula, especialmente em estilo poético, requer uma bagagem cultural que a criança não tem. Isso é especialmente ruim porque fábulas têm crianças como público-alvo, quando só são perfeitamente entendidas por adultos.
  338. A fábula clássica usa elementos com os quais a criança não convive. Ela não dispõe de imagens em sua mente que correspondam às palavras usadas. Isso é remediado com a prática atual de ilustrar as fábulas, para que as imagens completem o texto.
  339. A fábula é cheia de exageros e imprecisões. Se a criança as dá crédito, dará crédito à qualquer coisa.
  340. O sarcasmo confunde as crianças. Dizer que alguém é “bom” quando se quer dizer que é “tolo” faz na cabeça delas uma ligação entre tolice e bondade.
  341. O adulador vive às custas de quem o escuta. Se você escuta um adulador e o dá corda, ele continua até obter o benefício que quer.
  342. A moral da história, se não for revelada, não é captada.
  343. Se exposta aos exemplos ruins que as fábulas podem dar (pois muitos personagens se dão bem com astúcia), as crianças ficarão mais viciosas com elas, em vez de virtuosas.
  344. A fábula ensina sua moral pondo o ouvinte no lugar do prejudicado. Mas a criança se porá no lugar de quem prejudica. A fábula do corvo e da raposa, por exemplo, deveria ensinar a não se deixar adular (a raposa, elogiando o corvo, o faz abrir o bico e deixar cair o queijo que queria comer), mas a criança acaba aprendendo que pode tirar vantagem dos outros usando a adulação. Portanto, as fábulas só são entendidas de forma correta por um adulto. A criança não será capaz de captar sua moral a menos que se lhe declare. Hoje, a moral da história sempre fica explícita ao final da fábula, mas antes não era assim, cabendo ao aluno interpretá-la.
  345. Para Rousseau, a criança deve ficar longe dos livros. Ela só deve entrar em contato com livros na adolescência. Isso não quer dizer que não deva aprender a ler, mas que deve ler outras coisas, não livros. Isso porque livros são comunicadores de opinião, causando interferência na relação entre professor e aluno, como se fosse uma terceira pessoa.
  346. A criança só deve aprender a ler quando tiver idade para sentir sua utilidade. Nunca se deve ensinar a uma criança algo que ela não poderá usar desde já, para que ela não fique com tédio e crie nojo aos estudos.
  347. Se a criança é forçada a aprender matemática e acha isso chato, ela não quererá progredir. Afinal, se ela progredir, as questões seguintes serão mais difíceis. É como afiar o facão com o qual te cortam. Ou como um jogo de perguntas e respostas no qual o prêmio por responder corretamente são mais perguntas.
  348. Se a criança não ver utilidade no que aprende, não irá aprender de boa vontade. Terá tédio, não prestará atenção. Também nós adultos não queremos aprender aquilo que não achamos que nos servirá. Se quiséssemos aprender algo que serve para aperfeiçoamento da moral, do espírito crítico e da atitude inquisitiva, todos estudariam filosofia. Mas uma pessoa que não se interessa por essas coisas ou, pelo menos, que se interessa mais por outras, não quererá aprender filosofia e, se for adulta, não irá. Não deveríamos exigir de nossos filhos ou alunos aquilo que não exigimos de nós mesmos.
  349. Aprender não é tanto uma questão de método como uma questão de desejo. Se a criança tiver desejo de aprender, qualquer método servirá. Se ela não tiver, nenhum método será suficiente.
  350. Caligrafia é desnecessária. Com o tanto que entendam o que eu escrevo, não importa se escrevo bonito. Muitos professores têm letra horrível e os alunos não reclamam, porque entendem. Aliás, se a criança tem desejo de ser entendida por escrito, se esforçará para escrever de forma legível.
  351. Se não houver pressa em aprender, pode ser até que se aprenda mais rápido (se houver interesse).
  352. A pressa de aprender, o tédio e a sensação de que se está aprendendo algo que não será útil pode afastar alguém de um conhecimento para sempre. Meu irmão, por exemplo, aprendeu a ler debaixo de régua. Por uma década, ele não quis saber de leitura e lia muito mal porque não praticava. Ele só se tornou bom leitor porque se converteu às testemunhas de Jeová, o que requer leitura diária dos textos sagrados. Mas até nisso, ele raramente lê por curiosidade e descuida do estudo pessoal, que deveria ser feito com frequência. Então, ensinar à força e às pressas pode levar o aluno a desprezar o que está sendo aprendido para sempre.
  353. Se o aluno não está aprendendo nada com o professor, seja por falta de método ou desinteresse, ele aprenderá de outra pessoa ou sozinho. Isso é problemático, porque não há completo controle sobre o que ele irá aprender. Ele estará sujeito à más influências.
  354. Proibir a criança de brincar o leva à fraqueza.
  355. A criança deve ter certa dose de autonomia. Se ela é sempre controlada pelos pais, não desenvolverá seu próprio juízo.
  356. O espírito não necessariamente se opõe ao corpo. Devem se desenvolver juntos. Exercitar o corpo não irá empobrecer o cérebro.
  357. Se a pessoa só faz o que lhe mandam, fará a mesma coisa a vida toda. Deixará que outros pensem por ele. Agirá por hábito e será adepto da rotina.
  358. A pessoa que nunca teve alguém para lhe dar ordens, por outro lado, raciocina o tempo todo, porque só pode contar consigo própria.
  359. A pessoa que só faz o que lhe mandam também torna-se preguiçosa e lenta. Se acostuma a ser mandada, tornando-se conformada. Por exemplo: o remédio do meu sobrinho. Eu sempre me opus à ideia de que meu sobrinho devesse tomar remédios por conta própria, mas minha mãe resolveu instruí-lo a fazê-lo, depois de anos tomando o remédio só quando mandado. Ele deixou de tomar. A mãe então reclamou com ele: “Depois de tanto tempo tomando o remédio sempre na mesma hora, você deveria estar acostumado a tomá-lo!” Ele respondeu: “Estou acostumado a você me mandar tomá-lo.”
  360. A criança deve bastar a si mesma na medida do possível. Não a dê aquilo que ela pode obter por esforço próprio.
  361. Dizer à criança “agora você vai aprender”, como se houvesse um instante para aprender, já lhe dá tédio. Ensine tão-somente, sem dizer que está ensinando.
  362. Não é que a criança não preste atenção, ela só não presta atenção em uma só coisa de cada vez. Ela presta atenção em várias coisas. Isso amplia seu conhecimento de causalidade (relação de causa e efeito). De fato, lhe falta concentração, isto é, ela não se foca numa coisa só, mas isso não quer dizer que ela não aprende nada.
  363. Os melhores sábios foram moleques na infância.
  364. Na educação tradicional, a criança acaba governando. É preciso sempre fechar acordos com ela. Acaba ficando ruim pro professor.
  365. É mais fácil a criança conhecer o professor do que o contrário. Isso porque a criança, quando não gosta do professor, presta atenção no comportamento dele para o entender, achando meios de contra-atacar. Já o professor, não vendo perigo na criança, não é tão estimulado a conhecê-la. A criança se arma contra o professor, tornando sua aula um inferno.
  366. A criança pode fazer o que quiser, mas o professor deve ser capaz de fazer com que a criança queira somente aquilo que ele quer. Assim, a criança pensa que é livre.
  367. Uma das primeiras preocupações da criança é descobrir o ponto fraco de seus superiores. Isso só acontece, contudo, se a criança não gostar de quem a governa ou não gostar de ser governada. Se você for um mau pai ou professor, as crianças se armam contra você.
  368. Se a criança tem o hábito de procurar defeitos nos outros para se defender deles, crescerá astuta e insubordinada.
  369. A criança caprichosa o é por má educação.
  370. Às vezes a criança é irritante somente porque se diverte com nossa raiva. Não tendo raiva delas, elas param. Exemplo: minha sobrinha. Ela tem o hábito de enraivecer meu sobrinho. Lembro-me de quando ela percebera que gritar perto dele o fazia esbravejar e gritar de volta. Certo dia, minha mãe disse ao meu sobrinho que a menina só fazia aquilo a fim de o tirar do sério. Foi difícil ele ignorá-la, porque ela era persistente. Numa certa noite, enquanto ele estava lendo, ela se aproximou e gritou uma vez. Meu sobrinho permaneceu calado. Ela gritou de novo e gritou uma terceira vez, dando um longo grito. Quando meu sobrinho não se moveu nem falou nada no terceiro grito, ela saiu do quarto em silêncio. Ou seja, ela não entrou no quarto pra outra coisa senão irritá-lo e, vendo que não dava certo, saiu.
  371. Não contrariar uma criança não significa fazer tudo o que ela quer, diz Rousseau.
  372. Quando a mãe é fraca e diz que o filho deve ser bem tratado, isto é, obedecido, os próprios professores que são pagos pela mãe acabam tendo que se subordinar também. Se a educação for feita na presença da mãe e a mãe for permissiva, ela não admitirá que o educador (seja o professor, o pai ou um familiar qualquer) desobedeça a criança. Assim, a criança passa a subverter a educação que recebe sempre que a mãe está por perto. É o caso do meu sobrinho. Minha mãe não acredita que meu sobrinho passa o dia muito bem comigo e só se torna uma peste quando ela chega em casa. E todos dizem isso a ela: minha irmã, os irmãos dela da igreja, meu pai… E, como resultado, minha mãe que sofre com isso, presa das vontades do meu sobrinho, o qual ela cria.
  373. A criança obtém seus primeiros conhecimentos comparando o mundo com ela própria, visando maximização do prazer e minimização da dor. É, como diz Rousseau, uma física experimental que visa a conservação.
  374. O conhecimento experimental não substitui o conhecimento obtido nos livros. Quando damos crédito a um escritor, estamos “acreditando” somente. Mas, quando experimentamos aquilo que o livro ensina e constatamos que é assim, “sabemos que é”, na plena acepção da expressão. Então, na infância, não se deve educar com livros, mas com a experiência, com o tato, com a visão, com a audição, com os sentidos.
  375. É preciso fortalecer o corpo porque ele é nossa ferramenta de interação com o mundo, o qual está à serviço da razão. Educação física, portanto, deveria ser obrigatória. Se nosso corpo vai mal, nossa razão não pode usá-lo plenamente, ficando ela própria prejudicada.
  376. Um corpo bem cuidado resiste melhor às injúrias e às doenças. Não dá pra raciocinar plenamente estando doente ou ferido. Na minha modesta opinião, se tivéssemos que escolher que disciplinas os alunos seriam obrigados a cursar, eu diria português, matemática e educação física somente. Porque esses três são condição de possibilidades para aprender todo o resto. Eu não vejo por que física e química tem que ser obrigatórias e filosofia e sociologia não. Se queremos que o aluno se foque no que ele gosta, por que forçá-lo a aprender física e química mesmo quando ele não gosta? Só deveria ser obrigatório o basilar, ou então tudo deve ser obrigatório.
  377. Não ensine a seu filho o que ele pode aprender sozinho.
  378. O cuidado com o corpo é negligenciado pela educação institucional.
  379. As roupas devem permitir o livre movimento. Não devem ser apertadas.
  380. Os defeitos mentais e físicos da criança muitas vezes vêm de uma mesma causa: a pressa dos pais em fazer a criança se comportar como adulta.
  381. A criança escolhe bens de consumo por sua aparência atraente, o que é natural; a criança é atraída pelo que é bonito. Se a criança passa a escolher um brinquedo porque é caro, isso já não é natural. São os adultos que ensinam a criança a ser consumista, a julgar pelo preço.
  382. Se você pune a criança fazendo-a usar roupas mais modestas ou a recompensa com roupas bonitas, ela tende a julgar os outros pelas roupas que usam. Afinal, se ela usa roupas ruins porque se comportou mal, quem usa roupas ruins provavelmente está se comportando mal em casa. Assim, a criança passa a pensar que quem se veste mal é uma pessoa ruim.
  383. Quanto mais jovem é a criança, de menos roupas precisa.
  384. As crianças morrem mais facilmente de calor do que de frio, diz Rousseau.
  385. Beber quando tem sede, comer quando tem fome, dormir quando tem sono…
  386. Dormir à noite é melhor: a temperatura e a luminosidade favorecem o sono. Parece natural dormir à noite apenas.
  387. Quando o sol se por, se deve se preparar pra dormir. Quando o sono vier, se deve ir pra cama imediatamente. Não se deve levantar da cama antes do nascer do sol.
  388. A regra número um de qualquer sistema social: se deve quebrar as outras regras sempre que for necessário e sempre que for possível se safar disso.
  389. A cama não precisa ser super confortável. Se a cama for muito boa, a criança pode não conseguir dormir em camas piores. Porém, se a cama for ruim e a criança consegue dormir nela, conseguirá dormir em qualquer cama.
  390. Se você tem uma rotina cansativa, vai dormir mais facilmente independente da cama.
  391. Se a criança não quiser dormir na hora certa, faça que ela tenha desgosto de estar acordada.
  392. Se a criança está brincando, não sentirá a dor de se machucar (muitas vezes).
  393. Muitas virtudes que se mantém depois de adulto são aprendidas na infância por hábito.
  394. Pra que ensinar equitação… se natação é mais barato e muito mais útil?
  395. Só é possível ser temerário na frente de outra pessoa. Pra quê fazer uma coisa que sabemos que vai dar errado só pra “mostrar coragem” se não há ninguém ali pra ver?
  396. Não faça seu filho fazer uma coisa que é tão perigosa que nem você faria.
  397. Não se deve empregar meios para fazer uma coisa cujo efeito não é conhecido. É preciso saber o que estamos fazendo.
  398. Não se deve fazer um esforço que não vale a pena.
  399. A criança pode se beneficiar de aprender a se orientar no escuro.
  400. O cego pode guiar na escuridão alguém que vê perfeitamente quando há luz.
  401. Se orientar pelo tato e pela audição, sem a visão, requer tempo e prática.
  402. Algumas coisas se percebe melhor de olhos fechados. Isso porque, sem a visão, a atenção dos outros sentidos é aumentada, uma vez que a visão acaba sendo uma distração quando você quer se concentrar num determinado tipo de informação sensorial.
  403. Por que temos medo de escuro? Simples: porque nosso melhor sentido está inutilizado. Assim, não sabemos tanto sobre os arredores como normalmente. O medo de escuro, então, é uma manifestação do medo do desconhecido: não estamos vendo nada, não sabemos o que está lá.
  404. A razão de algumas crianças verem monstros no escuro é que só podemos ver silhuetas na escuridão. Da mesma forma, não é possível julgar a distância de algo com alguma exatidão, de forma que objetos grandes, mas próximos, parecem estar longe, o que faz a criança pensar que há algo gigante ali.
  405. Somente coisas novas provocam a imaginação. Não tememos aquilo com que aprendemos a conviver diariamente.
  406. O medo do escuro é melhor enfrentado em grupo. Uma criança encoraja a outra. Ou o contrário…
  407. Jogos no escuro são uma boa ideia.
  408. Uma criança que tem boas memórias de jogos no escuro, especialmente em grupo, apreciará a noite quando adulto.
  409. Assustar a criança no escuro a fim de “curá-la” de seu medo tem efeito contrário. A criança deve gostar do escuro e não ser ainda mais assustada.
  410. Se algo te surpreende no escuro e você não sabe o que é, desça o cacete.
  411. O tato tem várias funções, mas é interessante a função sensual corretiva. Se não conhecemos bem um objeto à distância, senti-lo com as mãos frequentemente sana muitas dúvidas.
  412. Se apoiar demais na visão prejudica o desenvolvimento dos outros sentidos. Convém usar todos os sentidos para conhecer bem um objeto. Não dá pra conhecer algo só de vista.
  413. Para Rousseau, é possível falar de música aos surdos pois estes percebem vibrações, que são a essência do som. O problema é que vibrações não são o som. Nietzsche concorrerá neste ponto, ao dizer que não adianta falar de música para surdos, pois mesmo que vejam notação musical e sintam a vibração de um instrumento, não captam pela visão ou pelo tato aquilo que é propriamente da audição.
  414. Nada de errado em andar descalço em casa. Se você excluir as verminoses.
  415. Se o prêmio não for grande, o competidor não se esforçará tanto.
  416. Melhor passear no campo que na cidade.
  417. Correr pode servir pra ganhar competições. A criança terá interesse em aprender alguma coisa se ver nisso benefício, mesmo que seja o mais baixo benefício de um ponto de vista adulto. O educador não precisa oferecer recompensas, nem deveria, mas o próprio aluno precisa ver o benefício por conta própria. Um exemplo que meu antigo coordenador (hoje diretor da escola em que eu quero ensinar) me ensinou: ele era muito estudioso e algumas meninas perceberam que podiam usar seu conhecimento pra se darem bem nas provas. Ele foi convidado pra casa delas e gostou. Foi quando ele percebeu que ser estudioso tem seus benefícios, porque, de repente, todas as meninas de sua sala queriam estudar com ele. Claro que isso é um motivo baixo pra um adulto, mas é uma conquista pra um adolescente na ebulição dos hormônios.
  418. Sucessivas vitórias em um esporte mantém o interesse do esportista.
  419. O esporte também ensina, embora não de maneira teórica, coisas como lógica, medição e probabilidade. O indivíduo aprende à sua maneira, sem os livros, só com a experiência, um conhecimento seguro o bastante para usar inclusive fora da atividade esportiva.
  420. Rousseau, mostrando o lado prático do conhecimento para a criança, me faz lembrar que eu li em algum lugar que o conhecimento que a criança hoje aprende na escola acaba ficando na escola. Fora leitura e contagem, ela não usa no cotidiano nenhum conhecimento que aprende na sala de aula.
  421. A prática artística também serve para refinar os sentidos, a coordenação motora e a atenção. Rousseau escreveu este livro visando atacar o Temer: fazendo filosofia, ele mostra a importância da educação física e da educação artística.
  422. O dom artístico é desenvolvido sem professor. A decisão de ter um professor deveria ser feita somente pelos que querem fazer profissão da arte. Em adição, é muito limitado ensinar a desenhar, por exemplo, copiando outros desenhos, ou a praticar música repetindo composições famosas. Se esse recurso for abusado, prejudicará a originalidade.
  423. Só é possível saber o verdadeiro uso de um órgão tendo-o empregado. Lascou-se.
  424. As crianças são capazes de desenvolver seu corpo a ponto de se tornarem tão capazes quanto adultos. Mas só terão bons corpos se os exercitarem. A criança é frágil e desastrada muitas vezes por falta de prática.
  425. O som depende de movimento, pois é o movimento que agita o ar.
  426. É possível saber se um raio caiu longe ou perto verificando a latência entre a luz e o som. Se a luz é vista primeiro e só depois é ouvido o som, o raio caiu longe. Se a luz e o som são percebidos quase ao mesmo tempo, foi perto.
  427. Sinal distintivo de quem sabe música é a capacidade de compor música.
  428. Não se deve complicar uma arte sem necessidade, ainda mais quando não compensa.
  429. Arte deve ser aprendida com prazer. Se o indivíduo não tem prazer na prática da arte, não adianta forçá-lo. Se ele sente prazer em fazer arte, isso é talento. Aprenderá sozinho.
  430. Quando mais cedo se começa a beber, mais cedo se acostuma ao álcool.
  431. Para Rousseau, se algo é gostoso é porque faz bem. Hoje se sabe que não é assim. Seu argumento é de que o prazer e a necessidade andam juntos. Então, ele conclui que meu corpo precisa daquilo que eu tenho desejo de comer. Isso é correto até certo ponto: temos vontade de comer carne se temos deficiência de proteína. Porém, a abstenção excessiva, tal como o excesso de consumo de determinada comida, vicia esse instinto salutar. Assim, temos vontade de comer açúcar quando a glicose está em níveis indesejáveis, mas também podemos ter vontade de comer açúcar por estarmos viciados nele. Da mesma forma, pela abstenção completa de carne, por exemplo, não a desejamos mais, mesmo na necessidade de proteína ou sódio. Esse instinto primeiro deve ser mantido na criança, a qual deve comer um pouco de tudo, mas nunca muito de uma coisa só. Em adição, os pratos têm que ser simples. Não se deve dar às crianças comidas muito elaboradas, porque essas têm maior chance de rejeição, diz Rousseau.
  432. Alimentos de adulto não necessariamente convém às crianças. Crianças têm corpos diferentes, com necessidades diferentes. Deveria haver uma alimentação específica para esse estágio evolutivo.
  433. Não se deve contrair hábitos difíceis de quebrar.
  434. A criança é facilmente comandada pela boca.
  435. A criança não deve comer carne. Pode tomar leite e comer ovos, tal como outros alimentos de origem animal, mas carne nunca. Ela adquirirá o gosto pela carne depois de adulta ou talvez na adolescência, mas a infância não precisa da carne, diz Rousseau.
  436. Rousseau defende o vegetariano.
  437. Comemos carne principalmente de animais herbívoros. Mas são dos herbívoros que extraímos leite, lã e até mesmo afeto. Comer esses animais, diz Rousseau, é um ato de grande ingratidão.
  438. A carne em seu estado puro causa nojo, ela tem que ser preparada antes.
  439. Uma alimentação regrada demais leva a criança a desejar mais comida. Comerá até que lhe saia pelas narinas na primeira oportunidade. A criança deve comer sempre que tem fome e deve comer o bastante para se saciar. Se ela passar muito tempo sem comer, quererá comer mais, óbvio. Mas comer uma grande quantidade de comida de uma vez favorece problemas gastro-intestinais. Deixe os alimentos ao seu alcance, sempre os saudáveis, como as frutas, para que ela coma sempre que tiver vontade.
  440. A criança que come por compulsão, porém, pode ser distraída de seu desejo de comer (que não é fome) por jogos e brincadeiras. Meu sobrinho, por exemplo, come por tédio. Eu fazia a mesma coisa na infância.
  441. Essa distração não pode ser o estudo, se a criança não gosta de estudar.
  442. Encare a história não como uma descrição do passado, mas como um livro de fábulas no qual se deve procurar a moral da história.
  443. O prazer causado por um cheiro depende das ideias associadas a ele também. Eu, por exemplo, amo o cheiro dos meus lençóis, apesar de minha mãe detestar. Isso porque o cheiro deles me lembra a cama e o sono, por isso me agrado nesse cheiro. Isso não quer dizer que o cheiro não possa ser prazeroso por si mesmo: meu sobrinho também gosta do cheiro dos meus lençóis, mas sem razão aparente.
  444. Associar cheiros bons a sensações ruins faz o olfato perder crédito. Além do mais, isso torna a associação inabalável. Lembro de um episódio da minha infância em que senti náusea em casa, minha mãe tinha acabado de comprar um perfume. O cheiro do perfume me deu dor de cabeça e eventualmente a náusea de que falei. Finalmente, acabei vomitando. Até hoje, acho intolerável o cheiro de perfume. Não ocorre o mesmo com colônia ou desodorante, só perfume.
  445. As crianças têm pouca concentração. Se você tenta ensiná-las com perguntas, elas param de ouvir depois de um tempo e respondem aleatoriamente. Isso é válido também em testes escritos. Elas ficam com tédio e respondem mal.
  446. O mesmo ocorre com longas perguntas.
  447. Fraqueza é a diferença entre desejo e força, se resulta positiva. Se temos muito desejo, mas pouca força para satisfazê-lo, somos fracos demais para obter aquilo que desejamos.
  448. Se a criança foi bem educada, ela terá mais forças para realizar desejos do que realmente desejos. Esse evento ocorre na “terceira” infância, logo antes da adolescência. Se a criança deseja mais do que pode ter, ou seja, algo além de suas capacidades, a educação falhou, diz Rousseau.
  449. Se deve estudar aquilo que melhora nossa condição. Existem estudos inúteis. Voltaire aponta a teologia como inútil, porque é inútil querer saber sobre Deus algo que a revelação não diz, sendo Deus maior que a razão (tornando todos os esforços racionais de conhecê-lo inúteis). Bacon diz que é inútil estudar ciência pela via aristotélica, porque ela limita a ciência ao que já foi explicado, impedindo avanços rumo ao desconhecido. Então, todo o conhecimento deve clarificar nossa visão de mundo, tornar nosso discurso mais claro, permitir distinguir verdade e mentira, permitir refletir sobre o próprio conhecimento, nos ajudar a dizer o que é certo e o que é errado, nos ajudar a dizer o que é belo e o que é feio, permitir produzir melhor arte e nos ajudar a governar. A filosofia e a ciência fazem isso e muito mais.
  450. Entre os dez e os doze anos a criança terá, se educada corretamente, excesso de capacidades físicas e mentais para satisfazer os poucos desejos que tem. Agora, sim, é uma boa hora de introduzi-la aos estudos sérios.
  451. Devemos ensinar à criança o que é útil a ela. Mas não tudo o que é útil, pois até dentre esses conhecimentos existem alguns que as crianças não compreendem.
  452. Não é a ignorância que causa os males, diz Rousseau, mas o engano: ninguém comete mal por não saber de uma coisa, mas por ter aprendido errado, isto é, por ter aprendido uma mentira no lugar de verdade.
  453. Esse pessoal todo, em todos os livros de filosofia que eu leio desde 2014, fala de geometria como se fosse algo facílimo. Eu nunca entendi geometria, sempre a achei difícil. Me pergunto se o problema foi meu desinteresse ou a mediocridade dos professores de matemática (exceto um) que eu tive. Ironicamente, eu sou fera em porcentagem.
  454. No primeiro estágio, a criança aprende o necessário. Neste segundo estágio, ela aprende o que é útil. No estágio seguinte, ela aprenderá o que é bom. No primeiro, ela aprende a sobreviver; no segundo, ela aprende a empregar suas forças para viver melhor; no último, ela aprende a agir moralmente.
  455. O nosso conhecimento só é interessante se ele é útil. Se eu estivesse numa ilha deserta, eu não me importaria com meus livros, mas em andar pra conhecer a ilha a fim de tirar algum proveito dela e sobreviver. Maior parte de nosso conhecimento só serve em sociedade.
  456. A criança que lê livros sem ter perguntas a sanar, não pensará enquanto lê, mas lerá de mente ausente. É necessário antes que ela tenha curiosidade sobre o conteúdo. Se ela vê em algum lugar que existem vulcões e chegar a perguntar pra você “por que vulcões existem e como entram em erupção?”, você responde que “há um livro que explica isso”. Ele se interessará pelos livros se neles puder encontrar a resposta pra suas perguntas.
  457. No máximo possível, permita que a criança responda sozinha às suas perguntas.
  458. O conhecimento acadêmico deve começar pelo que cerca a criança. Se ela quer aprender geografia, deve primeiro aprender a geografia local, para que o conhecimento lhe seja útil. Não tem sentido uma criança brasileira aprender a geografia da França se nunca for pra lá.
  459. A criança deve ver os objetos de estudo antes de estudá-los. Se trata de aprender sobre as revoluções do céu, leve-a para ver um grande exemplo disso: o nascer do Sol.
  460. Não ajude a criança a estudar nem explique os objetos de estudo. Ela deve perguntar. E você não deve responder se souber que ela tem condições de achar sozinha a resposta.
  461. Se deve mostrar os objetos, não representações deles, a menos que isso seja extremamente necessário.
  462. Fiquemos no método, não no conteúdo. Se a criança dispor do método correto, perceberá seus próprios erros e se corrigirá. Se a criança errar, deixe que ela veja seu próprio engano, em vez de lhe ensinar como está certo.
  463. Não ensine o certo, se limite a evitar o engano. Era o que Sócrates fazia. Através de perguntas, Sócrates testava se o conhecimento de alguém era ou não válido, sem contudo dar uma resposta às perguntas que ele próprio fazia. Assim, o indivíduo percebia seu engano, porque seu conhecimento não se sustentava contra as perguntas socráticas.
  464. Rousseau diz que essa fase da infância que precede a adolescência é corrida, porque, agora que as capacidades infantis chegam a seu ápice, há pouco tempo antes do despertar das “paixões”, que tomarão sua atenção invariavelmente. Freud irá falar algo parecido sobre o estado de latência, depois da fase fálica e antes da fase genital, no qual a atenção da criança se volta para o mundo, quando antes era voltada para seu próprio corpo. Depois do estado de latência, a atenção se volta sobre o corpo do outro. É quando desperta o erotismo propriamente dito. Ou, pelo menos, é o que ocorre com pessoas normais
  465. Nesse curto tempo, seria impossível transformar a criança num sábio. Mas é tempo o bastante para muni-la de meios de aprender coisas por conta própria. Em vez de torná-la “sábia”, limite-se a fazê-la autodidata.
  466. Se a criança te faz uma pergunta que não tem condições de responder sozinha, responda. Mas não vá além da pergunta. Responda tão-somente o que ela perguntou, sem dar exemplos, sem entrar em detalhes sobre a história do conceito, sem dar informações adicionais.
  467. Se a criança pergunta demais, não responda; pode ser que ela esteja fazendo isso só pra te irritar.
  468. Nessa idade parece lícito iniciar a desenvolver um vício na criança apenas para massacrá-la por causa desse vício, a fim de que dele se afaste o menino. Exemplo: o vício da vaidade.
  469. Física para crianças se ensina em casa. Ensinar física fora de casa ultrapassa o entendimento infantil.
  470. Não ensine por meios difíceis o que se pode aprender de forma fácil.
  471. Não é porque a criança agora está usando o cérebro de forma mais séria que ele vai descuidar do corpo. O corpo não deve perder sua vitalidade.
  472. Não é porque temos calculadoras que iremos descuidar da nossa capacidade de fazer cálculos sem elas. De fato, isso seria útil num ambiente acadêmico, mas seria pouco útil na vida, se você tivesse que fazer uma conta sem uma calculadora por perto.
  473. Usar uma ferramenta não melhora nossas capacidades naturais. Mas fazer uma ferramenta requer domínio da função que ela prestará. Então, fazer desenvolve, usar não necessariamente desenvolve.
  474. Alguns são filósofos sem perceber.
  475. A felicidade natural é não sofrer. Somos felizes quando não temos do que reclamar.
  476. A criança deve aprender o que é útil a ela. Não no futuro, mas agora. Ela não deve aprender algo somente “pare seu próprio bem”.
  477. Se a criança está te fazendo perguntas só pra te irritar, pergunte de volta: “por que isso te interessa?” Se ela der uma resposta insuficiente, não responda mais.
  478. Só descreva alguma coisa se não puder fazê-la.
  479. Situações práticas, mesmo que fingidas, interessam a criança.
  480. Não compare a criança com outras: se ela for melhor, será orgulhosa e arrogante; se ela for pior, será invejosa e cínica. Portanto, a competição causa males ao vencedor e ao perdedor. A criança só deve ser comparada consigo própria, seu antes e seu depois, para saber se melhorou ou piorou em relação ao seu estado anterior.
  481. A criança deve ter poucos livros, talvez até somente um. O livro deve tratar de algo de seu interesse. Se ele tiver vários livros, talvez não termine todos. Isso me lembra da minha própria infância, quando cartuchos de video-game eram sempre muito caros. Quando eu ganhava um jogo novo, eu acabava jogando quase até esgotá-lo, porque eu não ganharia outro por um bom tempo. Como discos são mais fáceis de fabricar e são mais baratos, eu tinha muitos jogos quando meu pai resolveu comprar um mais moderno pra substituir o anterior. Como consequência, eu não joguei quase nenhum com o mesmo afinco que eu jogava os do antigo.
  482. Se as coisas forem julgadas segundo sua utilidade, teremos menos preconceitos.
  483. Enquanto procuramos somente o nosso sustento, nos suprimos a nós mesmos em nosso estado natural. Então, a divisão do trabalho e a relação entre senhor e empregado se origina do desejo pelo supérfluo, segundo o raciocínio de Rousseau.
  484. Todo o conhecimento técnico deve ter sua faceta prática. Uma hora de trabalho vale mais que um dia de explicação sobre o trabalho. Não se aprende a andar de bicicleta lendo sobre isso, mas tentando andar de bicicleta.
  485. O que torna muitas coisas caras é o fato de serem alvo de estima dos ricos. Tendo o necessário para minha subsistência, minha atenção se volta para o luxo. Por isso que as coisas mais caras são as de que menos se precisa, porque quem vai comprar essas coisas supérfluas são os que já têm sua existência garantida: os ricos.
  486. Se bem isso até pode ser positivo. Se as coisas mais tolas são as mais caras, então ao menos o necessário se pode obter facilmente.
  487. Se a criança se torna consumista, a educação está perdida. Tudo que foi ensinado a ela será perdido.
  488. O conhecimento das coisas é útil, mas é mais útil o conhecimento das pessoas. Frequentemente, uma pessoa é ferramenta de outra. Os seres humanos se usam mutuamente para progredir. Então, conhecer as pessoas é algo mais útil do que conhecer as coisas. Sócrates dirá que esse conhecimento é necessário à arte de bem governar, porque precisamos conhecer uns aos outros, o que implica conhecer a nós mesmos também. Rousseau, porém discorda da ideia de ensinar o conhecimento das pessoas a uma criança. O ser humano é um objeto de estudo difícil, então a criança não deveria aprender a arte de estudar o comportamento humano. Me parece, então, que Rousseau seria contra o ensino obrigatório de humanidades. Ele acaba de cair no meu conceito, como se já não estivesse baixo o bastante. Se meu raciocínio estiver correto, Rousseau provavelmente pensa que humanidades é coisa de adulto, que a criança deveria se dedicar ao estudo técnico.
  489. Faz parte da sabedoria distinguir o que é sábio do que não é.
  490. A criança deve aprender a ter juízo em casa, sem com isso herdar os juízos dos pais.
  491. Rousseau fala que as coisas necessárias valem mais que as supérfluas, mas isso não implica dizer que o necessário deva custar mais caro.
  492. As ciências mais básicas que não dependem de outras são as que valem mais. As ciências que dependem de outras, sendo menos independentes, deveriam valer menos. Se bem que essas ciências são as que alcançam mais longe em um sentido coletivo, mas Rousseau quer uma criança que se baste a si mesma quando adulta, por isso sua ênfase em conhecimentos simples.
  493. A ciência que todos deveriam conhecer é a agricultura.
  494. Quando ensinar um assunto que você gosta, não suponha que o aluno gosta do assunto tanto quanto você.
  495. Há troca em todas as sociedades, mas a troca justa pressupõe um tipo de medida comum. No nosso caso, o dinheiro. Para garantir que essa medida comum não seja abusada e permaneça justa, a lei deve intervir.
  496. A criança deve aprender as leis, mas só as que lhe dizem respeito em seu cotidiano, diz Rousseau. Ela não precisa saber tudo.
  497. Dinheiro não precisa ser metal. Antigamente, se usava comida como dinheiro (sal, nesse caso, donde vem a palavra “salário”).
  498. Primeiro ensine o uso (lícito) e depois ensine o abuso (ilícito), um para aproveitar e o outro para evitar.
  499. Um bom meio de fazer alguém refletir é perguntar quantos empregados trabalharam em determinado objeto comprado. Quanto será que cada um recebe? Quantos morreram na confecção?
  500. Rousseau não vê problema em dar vinho às crianças.
  501. É triste trabalhar pelo prazer do outro sem tirar disso algum prazer.
  502. Muitos prazeres dos ricos são análogos a certos prazeres de pobres, se julgarmos por sua utilidade.
  503. A criança deve tratar igualmente homens e mulheres. Ela não deve dispensar um tratamento diferente para cada gênero.
  504. Se um jantar for fino, requintado, mas as pessoas à mesa são chatas e irritantes, é melhor comer num lugar mais modesto.
  505. Educar bem uma criança requer conhecer seu temperamento.
  506. Conhecer o todo para saber onde vai cada parte é coisa do homem prudente, de bom senso. Conhecer muito bem só uma parte é coisa do homem sábio. Na educação de uma criança, é melhor ensiná-la a ser prudente e não a ser sábia.
  507. Não é possível que um só saia do estado de natureza e sobreviva. É necessário levar outros consigo.
  508. Cada um sobrevive como pode. Se é pra não morrer, não existe lei humana que me pare.
  509. Devemos continuar sendo homens mesmo quando estamos azarados. Não devemos pensar que somos o que produzimos ou o que ganhamos, nosso ser não está nos bens materiais.
  510. É necessário saber fazer mais uma coisa. Não se deve aprender um só ofício, mas mais de um. Eu, por exemplo, embora tenha filosofia como minha prioridade (quero ser professor de filosofia no ensino médio público), sou também operador de sistemas. Eu poderia dar aula de introdução à informática. Também está na minha lista o curso de montagem e reparo de computadores, para que eu possa oferecer serviços de manutenção. Então, além de filosofia, tenho interesse em computadores. Se um não estiver disponível, posso fazer outra coisa. Se a pessoa aprendeu somente um ofício, corre risco de ficar desempregada facilmente e por muito tempo.
  511. A herança que se dá ao filho não deve ser tanta a ponto de que ele possa viver sem trabalhar; é injusto. Isso porque, na sociedade, um depende do outro. A pessoa que recebe tal herança pode, através dela, usufruir dos outros sem lhes pagar com sua própria força de trabalho. É verdade, ele paga. Mas se não trabalha, isso não basta, porque ele é útil apenas em nível particular e social, não em nível comunitário. Me pergunto se Rousseau pensaria a mesma coisa dos que não podem trabalhar porque não têm condições (doentes, lesionados e idosos, por exemplo).
  512. Viver sem trabalhar, diz Rousseau, é como ser ladrão. É bom eu começar a me mexer…
  513. O lavrador depende da terra, que muitas vezes não é dele, mas o artesão depende somente de suas mãos e dos materiais que encontrar. É mais difícil ficar sem renda se você é capaz de produzir sozinho o que venderá.
  514. O mais útil ofício, segundo Rousseau: agricultura.
  515. Ser pobre é ruim, ser escravo é ruim, mas ser pobre e escravo é o pior possível, fora morrer.
  516. Se trabalhamos o bastante para sobreviver, o trabalho é suficiente. Trabalhar mais que isso é desnecessário.
  517. Se um trabalho é de utilidade pública, é um trabalho legítimo e digno de respeito.
  518. A criança deve aprender um ofício de sua escolha, mas, diz Rousseau, o pai deve proibir qualquer ofício que não tenha utilidade pública. Além desse que ela escolhe, ela deveria aprender um outro que sirva de “plano B”, caso a outra profissão não possa ser exercida.
  519. O talento e a determinação produzem efeitos semelhantes.
  520. Há diferença entre gostar de uma tarefa e ser indicado para ela. Eu sei informática, mas não é o que eu quero fazer. Da mesma forma, embora eu saiba Linux e gostaria de dar aula de Linux, não sou certificado pra isso. Talento, tenho. Indicação, não tenho.
  521. Se você tem condições físicas e mentais de fazer um trabalho, a única razão de você não ser um mestre nesse trabalho é por falta de prática. Continue praticando e você melhorará.
  522. Para Rousseau, existem trabalhos de mulher e trabalhos de homem. O homem não deveria se dedicar a um trabalho “feminino” a menos que não tivesse escolha ou não tivesse condições emocionais de ser macho.
  523. Diz Rousseau que o homem que se dedica à tarefas femininas merece ser castrado. Olha, este livro fala umas coisas interessantes, mas uma boa parte é péssima.
  524. Rousseau não escreve o Emílio para se desculpar de seus erros passados (ter abandonado cinco filhos no orfanato e depois escrito um livro sobre educação de filhos e alunos), mas para que os outros não cometam os mesmos erros que ele. Claro, com certeza.
  525. Existem trabalhos que as mulheres jamais toparam fazer. Então o homem que invade o mercado de trabalho feminino é, na visão de Rousseau, um sem-vergonha, porque deixa um amplo mercado de trabalho voltado pra ele a fim de tirar emprego que poderia ser das moças. É, ele é bastante conservador, mas tenhamos misericórdia; é um francês que viveu antes do século dezoito (eu acho).
  526. Não se deve ter vergonha de exercer um ofício digno. Existe preconceito contra certos trabalhos, mas o trabalhador que sofre preconceito deve permanecer determinado.
  527. Dentre os ofícios lícitos (publicamente úteis), o jovem deve escolher aquele que mais lhe convém.
  528. A criança que tem gosto pela ciência e pela filosofia deveria se voltar nessas áreas, se não encontra nenhum ofício artesanal ou técnico que lhe agrade. Ela ainda pode juntar ao seu gosto as habilidades de artesão. Newton, por exemplo, fazia seus próprios instrumentos. Assim, se a criança que gosta de astronomia ficar frustrada em sua carreira, pode pelo menos fazer e vender lunetas. O ponto aqui é: a criança que desenvolver gosto pela ciência ou pela filosofia deve ser capaz de fazer seus próprios instrumentos, tanto para ter um “plano B” quanto para não ter que depender de ferramentas feitas por outros.
  529. Se a criança aprende um ofício novo, seria interessante que seus outros professores (ou seus pais) aprendessem também esse ofício.
  530. Aprendiz não é aluno. O aluno aprende um ofício tão-somente. O aprendiz aprende o ofício para exercê-lo.
  531. O salário deve ser dado segundo o produto, não segundo a reputação do operário. Se o papa fosse balconista de restaurante tailandês, deveria receber tanto quanto os outros balconistas, mesmo sendo o papa. Isso quer dizer que estudar para virar doutor não deveria lhe garantir um salário melhor se você fosse exercer a profissão de professor de escola pública. Na visão de Rousseau, o doutor que exercesse esse ofício deveria ganhar tanto quanto os que são somente licenciados, porque o que importa é o produto do trabalho, e não a bagagem cultural, importância ou reputação do empregado. Acabo de descobrir porque nunca estudei Rousseau na academia.
  532. Para Rousseau, a pessoa deve mostrar seu trabalho para que as pessoas vejam que ele sabe exercer o ofício. Hoje, não se atenta para isso para dizer que alguém sabe ou não sabe, mas se atenta para seu certificado. Uma pessoa como eu, que sabe muito de Linux, mas sem certificação em Linux, não conseguiria um emprego onde essa habilidade fosse necessária. Outros menos capazes conseguiriam, se fossem certificados nessa área (mesmo que o certificado, umas poucas vezes, seja falso). Rousseau diz que a prova de que alguém sabe determinado ofício é o produto, não sua reputação. E o que é o certificado senão reputação?
  533. Trabalhar como camponês, pensar como filósofo.
  534. O segredo da educação é fazer com que o aluno tenha prazer em aprender. Se o professor for capaz disso, o aluno poderá aprender até mesmo sozinho o conteúdo curricular. Seria interessante que a aula servisse a esse propósito e o aluno teria vontade de aprender mais em casa.
  535. Para Rousseau, ideia é um tipo de sensação.
  536. A grandeza da razão é a capacidade de comparar ideias.
  537. Descrever uma sensação é fácil e quase impassível de engano. É mais fácil errar ao julgar e comparar sensações.
  538. Se eu descrevo o que eu vejo, não posso errar. Mas se eu digo que o que eu vejo realmente é o que parece ser, posso estar enganado. Eu vejo um lago à distância, fato. Mas se eu digo que há realmente um lago onde eu vejo, posso estar enganado. Eu disse o que vi, com acerto. Mas eu posso ter tido uma ilusão. Então o engano estaria em afirmar verdadeiro aquilo que eu vi quando o que eu vi não corresponde à realidade. É confuso. Vamos tentar assim: quando eu descrevo meu ponto de vista, estou sempre certo, mas eu posso errar se eu disser que meu ponto de vista corresponde à realidade. As coisas podem não ser como eu as vejo.
  539. Para Rousseau, quanto mais se sabe, mais fácil é errar, de forma que eu nunca farei erros se eu for ignorante. Agora, eu já li de tudo.
  540. Se você não julgar, não errará, a menos que seja em um sentido moral: por vezes suspender o julgamento é errado.
  541. Não ensine a verdade, ensine a encontrar a verdade.
  542. As mudanças na adolescência não são somente exteriores. A puberdade causa alterações espirituais, isto é, emocionais. É um instante difícil. A criança, a qual não é mais criança, só não sabe que deixou de ser, não entende o que está acontecendo com ela. Acho estranho quando as pessoas falam da adolescência como um período no qual a criança fica desorientada, porque eu mesmo não fiquei. As mudanças no meu corpo sempre foram encaradas com indiferença, talvez porque meu pai me educou sexualmente com muito detalhe. Nada do que acontecia comigo parecia obscuro: a mudança da voz, os pelos, a sensibilidade aumentada, a estatura e a força, nada disso me causava qualquer espanto. As mudanças emocionais foram suaves em sua maioria e eu as encarava como simples amadurecimento. O único instante difícil da minha adolescência foi a depressão, mas era porque eu me sentia sozinho. Se eu sentisse que eu tinha amigos (eu tinha, mas não os sentia dessa forma), minha adolescência teria sido vazia de crises e conturbações. Eu não identifiquei em mim esse sofrimento adolescente. Vale lembra que não é todo o mundo que entra na faculdade aos dezesseis, então talvez eu seja uma exceção.
  543. As paixões adolescentes e o despertar da sexualidade, em sua manifestação exterior, é natural e ordenado por Deus. Querer destruir essas paixões é antinatural e afronta ao projeto divino. É verdade que devemos satisfazer essas paixões de forma aceitável, mas nunca deveríamos tentar nos livrar delas.
  544. A natureza também tem suas leis, escritas pelo próprio Deus. A sexualidade é natural, então é parte do plano divino que a tenhamos.
  545. Não se deve impedir a sexualidade de nascer.
  546. Somos apegados ao que nos permite ficar a salvo, pois o amor próprio é o primeiro amor. Então, gostamos do que nos faz subsistir. Por isso a criança gosta da mãe. Mas o que transforma o gosto em amor é a intenção de fazer bem, vinda de qualquer dos lados. Da mesma forma, a aversão se transforma em ódio quando é percebida a intenção manifesta de prejudicar.
  547. O que nos torna boas pessoas é termos poucas necessidades e não nos compararmos aos outros. Se temos muitas necessidades e somos sensíveis ao que os outros pensam de nós, damos espaço à maldade em nós.
  548. A vida em sociedade cria novas necessidades e nos expõe à opinião pública. Seguindo esse raciocínio, fica explicada a tese de Rousseau de que o ser humano é bom por natureza e que é a vida em sociedade que o torna mau. Absorvemos a maldade da miséria (necessidade insatisfeita) e dos outros.
  549. O primeiro amor é ocasião para ambas as dependências do mal: precisamos de outra pessoa e precisamos ser preferíveis às outras pessoas. Se queremos conquistar alguém, temos que nos esforçar para ser elegíveis. Isso gera o ciúme, a mentira, a violência passional, entre outros males.
  550. Queremos ser amados e essa é uma necessidade muito forte. Por isso somos tão suscetíveis à opinião que os outros têm de nós. Não queremos que nos odeiem.
  551. A puberdade não precisa começar sempre na mesma idade. Alguns a atingem mais cedo e outros mais tarde. Isso pode ter causas físicas (clima, comida, equilíbrio químico) ou mentais (temperamento, excitação sexual precoce).
  552. Esconder a sexualidade, purificar o lar e a família, fingir que sexo não existe, essas coisas têm efeito contrário: quanto mais se tenta afastar a criança da sexualidade, mais interessada ela fica em descobri-la. Para Rousseau, isso explica porque a criança selvagem chega à puberdade mais tarde do que a criança da cidade. Isso explica também minha indiferença em relação a assuntos sexuais. Graças a meu pai, eu nunca tive qualquer curiosidade sexual, todas as minhas potenciais perguntas foram respondidas de antemão. Enquanto meus colegas que chegavam à puberdade ficavam loucos com as coisas que sentiam e que descobriam (como a pornografia), eu estava sempre anestesiado. Eu tenho a impressão de que isso se deve ao fato de que a curiosidade insatisfeita, aliada ao desejo sexual nascente, causa essa loucura juvenil. Como a minha curiosidade estava satisfeita, o desejo sexual não tinha tanto impulso pra mim. Então a educação sexual antes da puberdade elimina o aspecto de “novidade” dessas sensações quando elas de fato chegam, fazendo com que prestemos menos atenção a elas. Para Rousseau, então, a criança selvagem que encara o sexo como normal chega à puberdade mais lentamente, porque o sexo não lhe causa espanto nem admiração.
  553. Esconder a sexualidade faz com que as perguntas que surgem, sem encontrar respostas na experiência, tenham que ser respondidas pelo próprio adolescente. E como ele vai respondê-las? Na prática! Então, uma educação puritana assim pode até fomentar a promiscuidade.
  554. Como Rousseau não é a favor de responder sistematicamente a curiosidade das crianças, mas reconhece que essa curiosidade está por trás de seu amadurecimento precoce, ele diz que seria interessante evitar que a curiosidade apareça em primeiro lugar. Para ele, convém atrasar a puberdade tanto quanto possível.
  555. Se a criança desenvolver curiosidade e lhe perguntar sobre sexo, responda. Se a pergunta ficar na cabeça dela, ela procurará outros meios de responder. Então, embora o ideal seja evitar que a curiosidade apareça, é melhor satisfazê-la caso ela acabe aparecendo.
  556. Se a criança pergunta sobre sexo, deve receber uma resposta verdadeira. Não minta pro seu filho ou ele vai começar a duvidar de tudo o que você diz e disse.
  557. Existem coisas que não é possível esconder pra sempre. A criança deve saber aprender esses “mistérios” quando se der conta de sua possibilidade. Não responda as perguntas sexuais com risos, sarcasmo, hesitação ou eufemismo, ou a criança terá a sensação de que há algo mais a saber. A resposta deve ser completa e dada em tom indiferente, responda como você responderia qualquer outra pergunta. Não há necessidade de detalhe, mas não deixe faltar o principal.
  558. Use termos ofensivos se necessário. Chame as coisas pelos nomes, mesmo que sejam sujos. “Pênis”, “vagina”, “ânus”, são palavras sujas (embora não palavrões), mas não se deve evitar usá-las se for necessário ao entendimento. Não se deve ensinar à criança coisas obscenas por ocasião de uma conversa sexual, mas tampouco se deve expurgar da explicação os termos que lhe são inerentes.
  559. “A verdadeira inocência não tem vergonha de nada.” Essa é boa.
  560. De onde vêm os bebês? Veja lá como vai responder. A resposta pode afetar os hábitos, pensamentos, ansiedades, medos e até higiene das crianças.
  561. Não responder a pergunta ou dizer que a criança saberá quando for mais velha só faz sentido se ela sempre é respondida dessa forma. Mas se ela não é acostumada a receber respostas assim e de repente recebe, ela vai querer saber desde já essa coisa que só deveria saber quando fosse mais velha…
  562. A resposta que Rousseau recomenda: “a mulher mija o bebê para fora, com dores que muitas vezes lhe custam a vida.” É verdade, a criança não quererá mais perguntar nada sobre sexo; já teve o bastante disso pela vida inteira. Tanto que talvez nem queira ter sexo no futuro pra não matar a mulher. Quando ele souber que sexo induz à gravidez, não quererá ter sexo para evitar que sua amada sofra essas dores fatais. Rousseau não vê muito além.
  563. Rousseau gosto muito da ideia de manter o aluno ignorante para que ele descubra as coisas “no tempo certo”, embora faça uma ressalva para as perguntas, que devem ser respondidas tanto quanto isso for útil ao amadurecimento. É claro que um homem desses seria a favor da retirada da filosofia do ensino médio pra colocar em seu lugar ensino técnico.
  564. Se a criança que sabe ler não tem suas perguntas respondidas, procurará as respostas nos livros (ou, no caso de hoje, na Internet). Se ele não aprender dos pais o que é sexo ou de onde vêm os bebês, ele aprenderá de outras fontes. Mas não há como controlar a qualidade dessas fontes. Ele aprender na escola, com outras crianças ou com professores, mas nem isso é o ideal. Ele deve obter essas respostas dos pais.
  565. O primeiro apego humano não é o amor, mas a amizade. Ora, mas o que amizade senão um tipo de amor?
  566. Nossas fraquezas nos aproximam. Se não precisássemos um do outro, não viveríamos em sociedade. Se todo o apego é sinal de insuficiência, então não sentiríamos nem amor se fôssemos perfeitos, segundo o raciocínio de Rousseau e Platão.
  567. Se não precisamos de nada, não amamos. Se não amamos, não somos felizes, mas solitários e miseráveis. O único ser que não precisa de nada, mas ama e é feliz, é Deus. A felicidade divina é tratada por Epicuro (ele não era ateu, pessoal), embora não de forma judaica-cristã. Aristóteles afirma, indiretamente, que é possível ser feliz sozinho, pois ele diz na sua Ética que felicidade é estar na condição que se ama, a felicidade humana mais estável sendo a do homem que se compraz na virtude. Então, se a pessoa ama a solidão, pode ser feliz sozinha. Porém, esse próprio Aristóteles diz que uma pessoa nessa condição, isto é, que pode ser feliz sozinha, sem precisar dos outros, não é humana.
  568. Se uma pessoa com que nos identificamos está triste, temos pena e queremos confortá-la. Logo nos tornamos amigos. Se uma pessoa com que nos identificamos está feliz, temos inveja e sentimos que ela não precisa de nós. Logo nos tornamos inimigos. Esse é um dos raciocínios de Rousseau e faz uma boa dose de sentido. Eu, por exemplo, só me aproximei de minha amada coelhinha porque ela me mostrou sua fragilidade, “onde dói”, e nos tornamos muito amigos, amantes, mesmo que pela Internet (se vivêssemos perto um do outro, estaríamos namorando com certeza). Mas cinco anos depois, ela se torna cada vez mais feliz, segura de si. Talvez ela esteja agora numa condição melhor que a minha. E me sinto às vezes desesperado, porque temo que ela fique tão bem que não precise mais de mim. Eu temo que ela me esqueça algum dia, mas isso parece que não vai acontecer. Muitos pais sentem isso em relação aos filhos.
  569. Só é possível sentir empatia por quem vemos sofrer.
  570. Só é possível sentir inveja por quem goza de uma situação que nos é vetada. Não sentimos inveja de alguém que tem algo que também podemos ter e que está dentro de nossas forças. A inveja só aparece quando alguém tem o que não podemos ter.
  571. É mais fácil sentir empatia por alguém que passa uma miséria que nós podemos passar algum dia. Se o outro sofre algo que provavelmente não sofreremos, não podemos sentir empatia, diz Rousseau, embora eu creia que possamos de maneira limitada. Isso porque parte da empatia depende da identificação do sofrimento com o nosso próprio e é impossível se identificar com o que não compreendemos. Antes de dizer “sinto por você”, é preciso ser capaz de dizer “eu entendo você”.
  572. Não sentimos empatia por pessoas que sofrem “pouco” segundo nosso julgamento. Se uma pessoa está mal por causa de uma coisa que você considera de pouca importância, você não terá empatia dela. Eu ainda acho isso cruel, porque eu sei que diferentes pessoas têm diferentes níveis de tolerância ao sofrimento, de forma que algumas sentem dor com menos estímulo, quer seja física ou emocional. Mas o raciocínio de Rousseau permanece válido na vida, porque as pessoas fazem pouco do sofrimento das outras quando esse sofrimento é por uma causa “de pouca importância”.
  573. Não é o dinheiro que traz infelicidade, é seu abuso que traz.
  574. Uma vaia no meio dos aplausos basta pra ferir o orgulho.
  575. A criança mimada é humilhada pelo mundo na vida adulta. Experimenta frustrações com frequência, pois foi acostumada a ter tudo o que queria ao passo que encontra negações em todos os lugares quando cresce.
  576. Para Rousseau, só tem pena dos outros quem sofreu ou que sente que sofrerá. Quem sofre no instante só tem pena de si mesmo, diz Rousseau.
  577. A pessoa alegre pode muito bem ser infeliz. A pessoa alegre pode muito bem causar infelicidade.
  578. “Não nos irritamos nunca com nossa condição se não conhecemos outra mais agradável.” É claro que é fácil ser feliz conformado.
  579. O excesso de prazer produz o tédio.
  580. É possível saber o temperamento da pessoa pelas suas marcas de expressão facial. Aquele que sorri com frequência tem, quando chega aos trinta anos, marcas de expressão diferentes daqueles que se irritam com frequência.
  581. Mesmo quando a pessoa tenta esconder, seu corpo denuncia seu estado de espírito.
  582. Se a criança é acostumada com o sofrimento, não sente mais comiseração. Ela deve ver que o outro sofre, mas não deve fazê-lo cotidianamente, pois isso banaliza o fato. Por exemplo: ontem vi duas crianças brincando de darem tiros uma na outra. Isso porque os pais, na hora do almoço, assistem Barra Pesada ou Cidade 190 com os filhos. Estão acostumados com a violência, não lhe dão uma carga tão negativa quanto deviam, especialmente porque vêem os pais assistirem com indiferença, comendo.
  583. Para Rousseau, a pessoa que recebe um benefício real será grata e quererá retribuir. Eu não sou contra o bolsa-família, mas será que o pessoal que recebe esse benefício real quer retribuir o Estado por ele? Nem sempre. Lembro de um episódio de Nas Garras da Patrulha em que um dos personagens diz pra mãe dele: “Mãe, eu já disse que eu não preciso trabalhar; eu recebo Bolsa-Família!” O propósito do Bolsa-Família é de que o indivíduo, não se preocupando com a subsistência, pois terá o mínimo para sobreviver, se capacite, se qualifique, a fim de encontrar um emprego que pague melhor que o benefício. Infelizmente, muitos não percebem isso e se conformam com essas “esmola”, não querendo melhorar sua condição de vida. De fato, o Bolsa-Família é uma boa ideia, mas as pessoas não entendem que poderiam ganhar mais se usassem esse dinheiro para subsistir (porque é pouco mesmo) enquanto procuram por curso gratuito ou um trabalho que pague bem. Afinal, um salário mínimo é maior que o Bolsa Família e o trabalho redunda em benefício ao Estado. Então, cadê a retribuição por benefício real?
  584. O filho bem cuidado, bem educado e bem sucedido é grato a seus pais. Eu sou tão grato à minha mãe que eu pretendo dar todo o meu salário a ela quando eu estiver trabalhando (posso continuar vivendo no meu quarto).
  585. A lei que não se baseia em alguma necessidade humana é uma fantasia. As leis precisam servir para sanar nossas necessidades, como educação, saúde e segurança.
  586. É fácil sentir inveja quando estamos sempre nos comparando aos outros.
  587. Se deve fazer aos outros o que eu gostaria que fosse feito a mim (Mateus 7:12). Esse preceito não é puramente racional, porque os outros tirariam vantagem de nós. Então, para que ele se sustente, é necessário que haja um sentimento por trás. Esse sentimento é a comiseração, a empatia, o “sofrer junto”. Então, se fazemos caridade é porque com isso nos sentimos bem. Se olharmos de um ponto de vista puramente racional, esse preceito nem sempre retorna benefício. Logo é necessário que haja um motivo não racional para praticá-lo, que é o incômodo de ver alguém sofrer.
  588. Ética e política devem ser estudadas juntas, pois não é possível compreender o comportamento coletivo do ser humano sem compreender seu comportamento individual.
  589. A justiça e o código moral civil podem ser usados como meio de opressão e frequentemente são usadas pela classe dominante minoritária contra a classe trabalhadora majoritária. Não há, diz Rousseau, igualdade entre as pessoas na sociedade civil.
  590. Para Rousseau, a lei só existe pra favorecer o forte. Com efeito, é o forte quem impõe a lei.
  591. O indivíduo é digno de estima, não a multidão.
  592. Se deve julgar pelo que é feito, não pelo que é dito.
  593. A história parece dar mais atenção ao declínio e aos fatos ruins do que ao sucesso. Quer acabar com o governo de uma presidenta atraindo a ira da população sobre ela? Mostre só o que foi feito de ruim, calando sobre o que foi bem-feito.
  594. As políticas mais bem-sucedidas são as de que menos se fala. Só se fala do que vai mal.
  595. Com tanta notícia ruim é fácil pensar que o ser humano é um caso perdido e que todo o mundo deveria votar nulo. Afinal, ninguém olha para os lugares onde as coisas dão certo, nem pras coisas que dão certo em nosso território.
  596. Narrar um fato verdadeiro sob um ponto de vista condicionado não implica aceitação completa. Você pode me dizer que a ditadura militar (que ocorreu) foi um bom período na história brasileira. Embora eu acredite que a ditadura foi um fato, eu não vou acreditar com você que ela foi boa pro Brasil. Então, dizer uma verdade sob seu ponto de vista não implica que eu tenha que aceitar o que você diz. É verdade (a ditadura aconteceu), mas eu vejo as coisas de outra forma (ela não foi um bom período).
  597. Julgar pelos fatos, não por conjectura.
  598. A história deve apresentar fatos, mas não deve julgá-los (bem, mal, belo, feio, justo, injusto, útil, inútil…). Quem deve julgar é o estudante, não o historiador, ao menos não em seu ofício. O historiador pode emitir julgamento em outra ocasião, em um outro tipo de obra, mas não enquanto desempenha seu papel de historiador. Enquanto ele estiver trabalhando em seu ofício de pesquisar o passado, o que interessa é o fato e a evidência, não sua opinião sobre o fato ou a evidência. Quando ele julga, é filósofo, não historiador.
  599. A filosofia em máximas, isto é, frases que resumem o pensamento do filósofo, não é adequada à juventude, diz Rousseau, que não saberá usar essas frases. Elas lhe serão inúteis (Provérbios 26:7), uma curiosidade ou divertimento. A filosofia em máximas só serve para quem tem experiência, para quem já viveu muito.
  600. O jovem deve julgar segundo casos particulares. Ele não viveu o bastante para fazer grandes generalizações. Ele não deve generalizar.
  601. Para Rousseau, o jovem não deve dar ouvidos à políticos. Ora, mas não é ouvir os políticos parte da atividade política? Fica implícito em Rousseau, desde o começo, que crianças e adolescentes não devem participar da política, que é coisa de adulto. Esse cara entra no balaio dos filósofos da direita (ao contrário do que se pensa, tal coisa existe).
  602. Há mais razões para uma guerra do que aquelas que a história conta.
  603. Não devemos interpretar as coisas segundo um sistema, mas interpretar as coisas segundo elas mesmas e depois verificar se elas se adequam ou não ao sistema. Foi o que Hegel não fez.
  604. A história não acompanha seus personagens em sua intimidade, diz Rousseau. Mas isso não é mais válido. Há uma demanda moderna pelo lado humano dos heróis e vilões da história. Napoleão, por exemplo. Todo o mundo sabe que ele era um francês tampinha que conquistava territórios. Mas há um trabalho dedicado a esmiuçar sua vida pessoal. Não se deve esquecer que os personagens da história humana são humanos. Marco Aurélio aponta pra isso.
  605. Nosso verdadeiro eu se mostra na vida cotidiana. Não somos plenamente nós em nossas ações políticas ou históricas. Ali mostramos somente parte de nós.
  606. De todos os fatos históricos curiosos que Rousseau poderia narrar para mostrar esse ponto, ele fala de como um lacaio bateu no traseiro de seu senhor por tê-lo confundido com seu auxiliar. Gosto como ele adiciona o pormenor de que o senhor esfregou a retaguarda depois dessa. Se fosse eu, escolheria alguma anedota sobre urina referente a algum personagem célebre. Espera, já sei.
  607. O objetivo conquistado revela o desejo que se tem.
  608. Não se deve estudar história se isso significa lamentar-se por ser você mesmo. É preciso lembrar que são pessoas como você.
  609. Seja você mesmo, porque você não pode ser ninguém mais.
  610. Ficamos apaixonados pelo que não conhecemos bem. As paixões erradas e os impulsos destrutivos vêm de erros de julgamento. Tiram a presidenta, porque não julgavam que isto fosse acontecer. Mas, enquanto ela estava lá, desejavam ardentemente sua saída. Não haviam considerado bem a questão, mas assumido que as coisas necessariamente melhorariam.
  611. Para Rousseau, os maus fazem mal a si mesmos quando praticam o mal aos outros.
  612. A maldade vem de um tormento interior ou para este caminha. O mal era infeliz ou se tornará infeliz.
  613. Às vezes, censuramos nos outros o que gostaríamos de imitar. Por exemplo, tem um cara que começou o curso de filosofia comigo, em 2010. Ele entrou no mestrado de peixada e teve sua contagem de atividades complementares abonada, de forma que ele se formou sem ter aquilo que eu me esforço tanto pra conseguir, que são as atividades complementares. É injusto? Sim! Mas será que eu reclamaria se eu entrasse de peixada no mestrado ou se eu pelo menos me formasse sem as atividades complementares?
  614. Só é possível ver a maldade do outro não participando dela. Só um bom pode apontar o que é mau.
  615. Esta parte do livro, sobre “conhecer os homens”, parece uma resposta ao Alcibíades I. Nesse livro, Platão se pergunta, através de Sócrates, como é possível alguém governar seres humanos sem antes conhecer o que é um ser humano. Rousseau está mostrando como ele faria para conhecer as pessoas, seu método de observação do comportamento humano.
  616. Para Rousseau, os três requisitos para conhecer o que é um ser humano são: curiosidade, imparcialidade, sensibilidade.
  617. A educação deve também se ocupar do corpo.
  618. A boa educação e a felicidade não devem ser razão de arrogância.
  619. A vaidade é quase indestrutível.
  620. Avise sua criança antes dela fazer uma besteira. Se ela insistir e fizer uma besteira, não diga mais nada; a besteira que ela fez lha servirá de punição.
  621. Se você insistir e zombar da criança que sofre por ter feito uma besteira, ela ficará com raiva. Uma lição assim não é proveitosa. Ela pode acabar querendo fazer a mesma besteira de novo só pra te desafiar.
  622. Não precisa dizer algo como “eu te avisei.” Isso não vai tornar as coisas melhores.
  623. Para fazer alguém lembrar de uma lição, finja que esqueceu que a deu. Se você ficar lembrando, a lição fica banalizada. Ele nem mais vai ouvir.
  624. Se você avisou e a criança foi lá, fez assim mesmo e se lascou, não termine de esmagá-la, mas levante-a e seja bonzinho com ela. Não precisa dizer que o que ela fez está certo, porque ela sabe que não está, mas não diga que está errado pra que ela não fique com mais raiva.
  625. Essa, sim, seria uma boa hora pra contar uma fábula que se associa ao engano cometido.
  626. Não existe conhecimento moral que não se possa tirar da própria experiência ou da dos outros.
  627. Depois que a criança se ferra por ter feito uma besteira, você pode invocar o exemplo de outras pessoas que fizeram o mesmo e tiveram o mesmo resultado. Esses exemplos podem vir das fábulas ou mesmo da história.
  628. Se você for claro, talvez não precise dizer tudo.
  629. Fábulas não precisam de “moral da história” no final. Afinal, na maior parte dos casos, é possível entender a moral só lendo a fábula. Uma fábula que precisa ser explicada é uma má fábula.
  630. Não é necessário da aula segundo o índice do livro. O ideal é escolher os assuntos segundo a necessidade.
  631. As crianças, em geral, não aplicam o que aprendem nas fábulas.
  632. Alguns bens materiais chegam a valer mais que nossa força de trabalho. A própria pessoa pode ser mercadoria barata.
  633. O conhecimento prático de alguma coisa deve anteceder o conhecimento especulativo.
  634. O adolescente não pode trabalhar. Mas ele chegará ao mercado de trabalho sem preparo se não tiver nenhuma experiência antes.
  635. A empatia é natural. Ela é eliminável pela má educação.
  636. Deve-se recorrer aos livros, diz Rousseau, somente quando temos que aprender algo que não podemos aprender sozinhos.
  637. Para Rousseau, não se deve ter pena dos maus, porque isso é prejudicial à espécie humana.
  638. Para Rousseau, não se deve falar de Deus pra uma criança ou um adolescente. Essa deve ser uma preocupação pessoal. Porém, levando em consideração o fato de que a educação que Rousseau dá é altamente materialista, isto é, focada nas coisas concretas, eu duvido que a criança não se desenvolva ateia. Tenho a impressão de que ela não levaria Deus a sério mesmo depois de adulta.
  639. Aprenda com o engano dos outros.
  640. A criação dá testemunho de Deus. Mas quem é Deus? O que ele é? Como ele fez o que vemos? Onde está? É eterno? Por que ele faz o que faz? Não há como a razão responder a essas perguntas.
  641. Para outros filósofos, os estudos espirituais devem vir antes do estudo dos corpos. Só que isso é inverter a ordem normal da razão. Rousseau chega a dizer que isso é “fechar os olhos pra aprender a ver”.
  642. O andar da ciência é partir dos corpos particulares para os conceitos gerais.
  643. Para Rousseau, agir na contramão serve somente pra estabelecer o materialismo.
  644. As coisas materiais produzem ideias imediatas.
  645. Acostumar uma pessoa a dizer coisas que não entende é torná-la suscetível de dizer o que nós quisermos que ela diga. Controlamos seu discurso, fazendo-a pensar que diz uma coisa, quando diz outra.
  646. Para o judaísmo, Deus tem atributos corpóreos como fala (Génesis 1:3) e membros (Deuteronômio 4:34). Deus teria também emoções (Génesis 6:7). A ideia de um Deus revelado que é todo espírito é cristã. Tomás de Aquino chega a afirmar que as emoções divinas são todas metafóricas, porque Deus não seria imutável se tivesse humor. Eu tenho minhas dúvidas quanto a existência de um Deus sem emoções, especialmente quando a evidência textual parece sem traços de metáfora. Aliás, a ideia de que imutabilidade não comporta humor é aristotélica, sendo Aristóteles a principal fonte do pensamento tomista. Em adição, eu sempre vi “imutabilidade” bíblica da mesma forma que “perfeição”, isto é, como conceitos físicos. Adão era “perfeito”, mas em que sentido, se ele pecou? Em sentido corpóreo, físico. Eu imagino que a imutabilidade divina é física, isto é, os atributos corpóreos de Deus (ou sua ausência) são sempre os mesmos, mas não seus sentimentos ou emoções. Rousseau, porém, diz que esses dados escritos são antropomorfismo e atribuições indevidas ao divino.
  647. Os primitivos pensavam que fenômenos naturais eram deuses por tais fenômenos serem mais poderosos que o simples homem. Tinham a impressão de que a força natural  era ilimitada.
  648. A ideia do Deus único só apareceu na mente das pessoas quando elas perceberam que a existência deveria ter um ponto de partida. Como isso requeria um esforço especulativo grande, o monoteísmo foi uma religião de intelectuais por algum tempo. Só o povão adorava vários deuses.
  649. A criança, ao ouvir falar de Deus e que este deve ser adorado, pode acabar adorando um deus de que faz uma ideia errada. Ela pode pensar que Deus é um ser diferente daquele que seus pais adoram. Ela passa a adorar um deus que concebe erradamente. Rousseau diz que a criança que ouve falar de Deus e que deve adorá-lo, sem ser capaz de entender esse Deus corretamente, acaba adorando Deus fazendo uma ideia errada dele. Rousseau conclui que isso torna a criança idólatra, porque não sabe exatamente o que está adorando quando seus pais dizem que ela deve adorar Deus.
  650. A criança não está pronta pra conceber a natureza divina. Mesmo quando parece entender tudo, provavelmente não está entendendo.
  651. Se tentar aprender alguma coisa cedo demais, pode acabar nunca aprendendo.
  652. A criança compreende tão pouco o que querem que ela acredite que ela pode mudar de crença dependendo de quem diz no que ela deve acreditar.
  653. Os católicos batizam crianças pra que elas sejam salvas mesmo se morrerem antes da idade da razão. Ora, isso quer dizer que a criança pode ser salva sem acreditar em Deus, se ela nunca ouviu falar dele, pois nunca o rejeitou. Essa contradição (que só é contradição para os de fora do catolicismo) é criticada pelos certas igrejas protestantes, que acreditam que o batismo só deve ser dado a quem tem idade para escolher ser cristão. Ora, mas que acontece com a criança que morre antes de receber o batismo? De um ponto de vista protestante (de alguns protestantes), o batismo não é necessário à salvação, porque Cristo não disse que era. Ele mandou batizar (Mateus 28:19), mas não condicionou o batismo à salvação, a menos que se considere João 3:5 como uma referência ao batismo. Mas se for, como se explica que Jesus salvou um bandido não batizado (Lucas 23:43)? Aí temos um problema. Some-se a isso a diversidade de rituais batismais que existem: por imersão, por infusão, com fórmula trinitária, só em nome de Jesus, em água corrente, em água parada, em água limpa, em água suja, com sacerdote, sem sacerdote, na infância, depois da adolescência… Será possível que essa porta chega a ser tão estreita assim? Quem logo pode salvar-se?
  654. Existem pessoas que não estão prontas pra verdade.
  655. Deus é assunto sério. A criança que cresce crente de certa forma pode se tornar fanática e não querer se converter a um culto que considere melhor no futuro, mesmo que dedicado à mesma divindade. Quem é católico já faz tempo tem dificuldade em deixar o catolicismo quando percebe que aquele talvez não seja o caminho certo. Se a criança for educada religiosamente tarde, ela não criará raízes fundas em nenhum culto, estando em melhores condições de escolher aquele que a razão orienta.
  656. Não force a religião à criança; deixe-a curiosa para que queira aprendê-la.
  657. Qualquer bem genuíno é bem-vindo.
  658. Não há moral pra quem só quer sobreviver.
  659. Talvez não seja possível tornar alguém virtuoso, mas talvez seja possível impedi-lo de se tornar vicioso.
  660. É mais fácil educar alguém sendo amigo dele. Mostre-se parecido, não oposto.
  661. A dúvida sobre algo importante é dolorosa. Muitos, a maioria, são levados a decidir às pressas, como se fosse melhor errar do que continuar na dúvida.
  662. Por orgulho, se sustenta algo que se sabe ser mentira.
  663. Nem todos os filósofos buscam a verdade.
  664. Quando não se pode contar com mais ninguém, contigo mesmo.
  665. Rousseau fala contra a presunção e arrogância dos filósofos, mas se parece se manifestar tão presunçosamente e arrogantemente quanto.
  666. Julgar e sentir não são a mesma coisa.
  667. Outras pessoas praticam a dúvida hiperbólica.
  668. Não controlamos o que sentimos, mas controlamos o exame das sensações.
  669. A verdade não está em nós. Temos que buscá-la. Rousseau em oposição a Agostinho.
  670. O estado natural da matéria é o repouso. Algo entra em movimento quando posto em movimento. Isso, de certa forma, polemiza com Descartes, para quem algo está em movimento até que seja parado por outro objeto, sem excluir que o repouso é anulado pelo movimento. Então não há como saber, em Descartes, seguindo esse raciocínio, se a matéria encontra seu estado natural no movimento ou no repouso.
  671. A matéria não se move sozinha. Se ela andasse sozinha seria um animal. Então, o estado natural da matéria é o repouso. Isso torna Deus necessário.
  672. As leis da natureza não representam coisas objetivas. Elas são máximas lógicas inventadas pelos seres humanos para prever fenômenos naturais, baseadas em regularidade de fenômenos. Elas são seguras, mas não foi a natureza quem as escreveu. Elas existem na mente das pessoas, formadas pelo hábito e enunciadas matematicamente.
  673. A origem do movimento não está na matéria.
  674. As causas não podem ser infinitamente traçadas. Deve haver um primeiro agente para que haja agentes intermediários e agente final.
  675. Para imaginar como Deus movimenta a universo pela sua vontade, basta verificar como nosso braço move sempre que lhe damos ordem pra mover. Mas algumas pessoas que não estão em boa saúde perdem parcialmente ou totalmente os movimentos. Então, para que alguém consiga mover o universo e colocar a matéria em movimento, ele deve ser perfeito (pois nós, em estado perfeito, movemos nosso corpo à vontade dentro de seus limites) e infinito (pois nós, mesmo em bom estado, não podemos mover todo o universo).
  676. Não é possível, cientificamente, conceber efeito sem causa.
  677. Não é possível refutar uma opinião que não faz sentido.
  678. Rousseau entende que o jargão metafísico “movimento” é igual a “transporte”. Só que ele está errado: movimento, em metafísica, é qualquer mudança de estado, não somente mudança de lugar.
  679. Se a natureza segue regularidade, então ela é ordenada. Mas ordem só pode ser dada por um ser inteligente.
  680. Mesmo que se diga que Deus é causa da regularidade da natureza e de seu movimento, não podemos saber quais as razões por trás dos atos divinos. De fato, todo movimento tende para um fim, um objetivo. Mas não podemos dizer com certeza que Deus fez algo visando este ou aquele objetivo. Pra que serve o carrapato?
  681. A criação poderia ter sido feita de uma vez, sem momento. Isso porque cada parte da criação parece depender de outras partes. Exemplo: imagine o corpo humano. Se ele fosse criado pedaço por pedaço, cada órgão morreria antes de ser juntado aos outros. Então, se uma parte da criação depende da outra, Deus deveria ter criado tudo de uma vez. Há sequencialidade no Génesis, mas, se lembramos o que diz Dionísio, pode ser que Moisés, escrevendo o Génesis, tenha usado termos aproximados, porque tinha que escrever aquilo para o que não tinha palavras. Por outro lado, o corpo humano é formado todo de uma vez expandindo de uma massa inicial, que é o embrião, nascido quase que de súbito no ventre materno (depois, claro, da fecundação). E, no Génesis, vemos que a terra é nascida de súbito (Génesis 1:1) e que dessa massa informe da qual o planeta é moldado nascem as criaturas, conforme progridem os dias criativos. Se levamos em consideração o primeiro verso do Génesis e o embrião humano, a argumentação de Rousseau (ou do padre que fala nesta parte do texto) faz pouco sentido tanto pra revelação quanto pra ciência. Uma matéria homogênea é criada, ela se diversifica e a interdependência das partes diversificadas vem depois.
  682. Se não há Deus, de onde vem a regularidade da natureza? Será que “ordem” é algo subjetivo que depende do ponto de vista humano? Mesmo que seja, qual a explicação do comportamento natural? Por que um interlúdio metafísico deste tamanho numa obra sobre educação?
  683. A hipótese de o universo ter saído do acaso é tão improvável que pode ser seguramente tida por mentira.
  684. A matéria não sente. De onde vem o intelecto, a memória e outras faculdades espirituais? O primeiro impulso é responder “do cérebro”, mas, na época de Rousseau, isso não faria tanto sentido como hoje. Essas faculdades espirituais não eram ligadas a nenhum órgão, porque coisas físicas não são capazes de espiritualidade. Esse raciocínio tornava necessário a existência da substância pensante. Se essas faculdades são nossas, mas não são corpóreas, devem ser atribuídas à alma. Por isso que a alma judaica que era tão somente vida passou a ganhar atributos mentais, psíquicos. Chegou-se a pensar que fosse imortal, conceito estranho à alma do Velho Testamento.
  685. Rousseau é da opinião de que a razão tem limites. Mas sempre que pensamos que a razão tem limites, lembramos de Kant. Isso é injusto; outros antes dele pensavam da mesma forma.
  686. A razão mostra que há um Deus. Mas a natureza de Deus é questão de . A razão pode, de fato, enumerar algumas características desse Deus, mas dizem que há outros deuses com tais características.
  687. Se alguém me protege, não devo a esse alguém o meu amor?
  688. Só um ser que pensa pode chegar à conclusão de que não pensa.
  689. Suponhamos que um surdo negue a existência dos sons. Se um som faz uma corda vibrar, ele concluirá que a corda vibra por conta própria. Como não vemos Deus, é fácil concluir que o universo se fez sozinho. Como temos só cinco sentidos e estes são limitados em qualidade, é claro que estamos perdendo muita coisa no universo. Por causa disso, nunca a ciência conseguirá explicar tudo.
  690. Não temos liberdade total, mas temos liberdade.

  691. Se há liberdade, não há destino.

  692. Os atos humanos não são culpa de Deus.

  693. Se Deus permite que o mal ocorra, pode ser (a) porque o mal cometido por seres tão pequenos seja nulo pra ele ou (b) porque ele não quer influenciar no livre-arbítrio que ele próprio concedeu. A primeira opção nega a bondade divina, enquanto a segunda a evidencia. O livre-arbítrio é um bem, dado por Deus. Qual seria o sentido de dá-lo para depois privar o ser humano dele? Para trazer o ser humano de volta ao bem sem lhe negar o livre-arbítrio, Deus diz às pessoas o que ele quer que seja feito, sob quais consequências e com qual premiação. Assim, se julgamos que a punição divina não é o bastante para fazer nosso delito não valer a pena, somos livres pra desobedecer e arcar com as consequências. Também somos livres pra ignorar de todo. Então, é possível escolher fazer o que Deus pede e Deus está até disposto a nos recompensar por isso. Exercer a faculdade de julgar estando ciente das consequências de cada ato é o que Sartre chama de liberdade.

  694. O mal que o ser humano faz recai sobre ele mesmo sem afetar permanentemente a criação. Se nos machucamos por causa de uma má escolha, a culpa é nossa.

  695. A origem do mal é o abuso de nossa liberdade.

  696. Ninguém sofre pra sempre.

  697. A perseguição de bens artificiais, como fama e riqueza, nos leva a vários males bem reais.

  698. Quem não sabe sofrer sofre mais.

  699. Uma vida desregrada leva à falta de saúde. Quando não se previne contra os males, se espera curá-los com remédios. Melhor prevenir do que remediar, porque remédios sempre têm efeitos colaterais.

  700. A existência do mal é culpa nossa, diz Rousseau.

  701. Ele fugiu totalmente do assunto. Aposto que ele vai se desculpar quando essa digressão de trinta páginas acabar.

  702. Rousseau tem dificuldade em acreditar no tormento eterno no Inferno. Para ele, os males advindos da vida desregrada tornam esta vida um inferno. O mau é punido na vida. Outros que duvidam do Inferno são as testemunhas de Jeová e Thomas Hobbes.

  703. Se a alma é imortal, incorpórea, como pode “queimar” no Inferno? Que punição pode sobrevir a um ser sem corpo? A extinção completa, como a segunda morte de Apocalipse 21:8.

  704. Se o mau pode ser feliz, o bom também pode.

  705. Também as pessoas más são nossas irmãs (comparar com Mateus 5:45).

  706. Nada vem do nada.

  707. Se Deus nos deu a vida, não devemos pelo menos obediência a ele?

  708. Para Rousseau, não é bom aquilo que nos causa culpa. O problema é que “culpa” é uma construção cultural. O que nos causa culpa no Brasil não causa na China, por exemplo, nem o que nos causa culpa hoje nos causou ontem.

  709. Nossa moral é pessoal.

  710. Para Rousseau, a primeira consequência da justiça é sentir que a praticamos. Mas quantos males são feitos em nome da justiça!

  711. Quando entramos em contato com a ficção, torcemos pelo protagonista bonzinho. Porque Rousseau nunca ouviu falar da rota genocida. Ele talvez ficasse horrorizado com a ideia de pessoas que torcem pelos maus porque assumem o papel deles.

  712. “São os crimes que vos dão prazer?” Rota genocida.

  713. Se o instinto não é inato nos animais, quem os ensinou a se comportar como se comportam?

  714. Só gostamos da injustiça quando ela nos faz bem. No mais, preferimos a justiça. Então a justiça é preferível na maior parte das vezes.

  715. As leis muitas vezes nos tiram o direito de proteger uns aos outros. Um ladrão invade sua casa, ameaça sua família, você o desarma, o amarra, chama a polícia e, certo dia, o advogado do ladrão te diz que você tem audiência com o juiz porque colocou o ladrão em cárcere privado. A lei, muitas vezes, nos estimula a “não ligar” pra injustiça, porque a denúncia pode se voltar contra você dependendo da retórica da defesa. Você também não pode fazer justiça com as próprias mãos, o que é aceitável, mas muitas vezes inconveniente quando a justiça é lenta ou imprecisa.

  716. O prazer da bondade e a dor da maldade são atemporais. Quando lemos história, sentimos prazer com os atos famosos dos personagens célebres, mesmo que já tenham morrido há muito tempo. Também sentimos dor com os atos infames dos personagens históricos que trouxeram vergonha à humanidade.

  717. Embora os costumes variem de sociedade em sociedade, todas elas têm um conceito análogo à beleza, à justiça, à utilidade, à bondade. Então, todos sabem o que é justiça. Mas o que é considerado justo é que varia. O geral abstrato é o mesmo, o que difere são os particulares sensíveis.

  718. Existir, em nível pessoal, é sentir. Quando dormimos e nada sentimos, não percebemos nossa existência. Só quem a percebe é quem nos vê dormir. Só temos consciência de nós mesmos enquanto nossos sentidos funcionam.

  719. Se algo é lógico, mas o contrário é verificável sensivelmente, então o lógico é suspeito. As palavras (lógica) não podem ser tomadas como verdadeiras, se a experiência sensível as desmente.

  720. É possível ser homem sem ser sábio. É possível também ser máquina sem ser sábio.

  721. É possível, pelo hábito, não sentir mais peso na consciência.

  722. O bem é bom para todos. O mal é bom só pra quem o pratica. Platão quase concordaria, se ele não fosse da opinião de que o mau faz mal também a si mesmo. Platão diz que fazer o bem ao todo redunda em benefício próprio, mas fazer bem a si mesmo não necessariamente redunda em bem coletivo.

  723. Os laços que fazemos com a vida tornam a morte mais penosa. Por isso as pessoas escrevem testamentos, deixando instruções para serem executadas depois da morte, de forma que alguém complete o que elas não conseguiram.

  724. Para Rousseau, existem destinos piores que a morte.

  725. Para Rousseau, não existe crime forçado. Assim nasceu o existencialismo.

  726. Só se pensa na ética quando se percebe o vício.

  727. Queremos ser felizes, mas não sabemos como.

  728. Para Rousseau, não se deve orar por mudanças na ordem cósmica. A natureza enquanto obra divina é perfeita. Isso não elimina a possibilidade de orar por ajuda contra males humanos. Com efeito, não é errado pedir coisas a Deus (João 15:16, por exemplo).

  729. Quando você pensa que acabou, lá vem mais. Vamos continuar fugindo do assunto.

  730. “Não quero abrir meu coração só pela metade.” Quer dizer que foi só a metade?

  731. Existe uma religião não revelada que é a religião natural, o deísmo.

  732. Se Rousseau concorda com o padre que fala através do texto, então ele concorda que a Bíblia Sagrada, isto é, a revelação escrita, degenera a ideia de divino que nós, humanos, temos, servindo como instrumento a favor do ódio e da guerra. Levando em consideração o contexto histórico e o detalhe desta narrativa, creio que o lance do padre é invenção de Rousseau, que ele está falando de sua opinião, mas dizendo que ele ouviu de uma outra pessoa, a fim de não parecer culpado de ser deísta.

  733. Se Rousseau é o padre (e como é estranho um padre pensar daquela forma), então ele diz que a diversidade de cultos ao redor do mundo vem justamente do fato de que cada culto tem sua revelação. Se não houvesse a ideia de que Deus fala conosco, ele diz, só haveria um culto, que é o culto natural.

  734. Para o “padre”, a religião é a moral, não a cerimônia, e a moral pode ser inferida racionalmente.

  735. Adorar Deus com ato moral, isto é, espírito e verdade, não com cerimônia, não é oposto à revelação (João 4:23-24).

  736. A religião em Rousseau é interior. Os ritos exteriores seriam desnecessários. Posição bem protestante para o padre que fala. Para o “padre”, a forma exterior do culto é de tão pouca importância que poderia ser decidida pelo Estado (questão de polícia).

  737. Afirmar revelação divina muitas vezes é presunção. Crítica à Universal antes deles aparecerem.

  738. Qual é a religião certa? A minha, claro. E como eu sei? No final das contas, é uma questão de fé. É algo tão pessoal que, no fundo, sustentar esta ou aquela religião, o que frequentemente significa assumir todas as outras como erradas, não pode ser feito somente com a razão. É verdade que uma fé só tem efeito se nós a temos por verdadeira, mas o fato de todos os grupos de crentes terem credos incompatíveis torna o debate entre uma fé e outra impossível, na medida em que um fiel está absorto em seu credo. Só é possível converter quem tem dúvidas.

  739. Quem disse que sua religião é a certa? Seu pastor ou sacerdote? Qual é a garantia de que ele tem razão?

  740. Interessante como Rousseau diz que a salvação não é questão de fé, isto é, de credo, de qual igreja é a “certa”. Quando Jesus veio à Terra, ele foi duas vezes inquirido sobre o que fazer pra merecermos a vida eterna, uma vez em Mateus 19:16-19 e Lucas 18:18-20 e outra vez em Lucas 10:25-28. Em ambos os casos, o caminho da salvação não depende de pertencer a uma igreja específica. Se Jesus veio pra todos, então qualquer um que siga esses mandamentos pode entrar na vida eterna.

  741. Se só há uma religião certa, Deus não seria injusto de privar os humanos de meios para identificá-la.

  742. Rousseau propõe que a religião verdadeira seja procurada pela via da razão. Sempre que uma fé nos é exposta, deveríamos identificar, pela razão, se ela é boa, bela, justa e útil. Isso quer dizer duvidar dos padres, dos pastores e das autoridades da fé.

  743. Não se deve abdicar da razão em nome da fé só porque alguém diz que se deve. A razão se submete à fé que ela considera verdadeira. Pense primeiro, acredite depois.

  744. É confuso.

  745. Uma religião de “mistérios” é suspeita. A religião verdadeira precisa ser clara.

  746. Deus não fez o ser humano racional pra lhe proibir de usar a razão.

  747. A religião não deveria, por causa disso, tornar o ser humano mais ignorante. A religião deveria trazer sabedoria, e não ignorância.

  748. Se você diz que a razão é inválida, não pode se valer da razão pra provar isso.

  749. Consenso da maioria, ou mesmo do todo, não necessariamente estabelece a verdade. É possível todos concordarem estando errados.

  750. Não se deve julgar uma contradição verificando somente um lado. Num debate, ambos os lados devem ser considerados.

  751. As línguas originais da Bíblia Sagrada são desconhecidas para nós. Mesmo que soubéssemos hebraico, aramaico e grego, não dispomos mais dos originais. Assim, a única forma de se aproximar da verdade bíblica original, conforme intencionada pelos autores originais, é comparando traduções, de diferentes estilos e diferentes fontes textuais. Não se deve eleger uma tradução como perfeita, porque isso implica que a pessoa sabe os idiomas originais (com efeito, o critério de avaliação da tradução é o original) e está de posse dos textos originais (o que é impossível).

  752. Será que Deus condenaria as pessoas que nunca receberam pregação ou nunca tiveram acesso à Bíblia?

  753. O fato de os cristãos não examinarem as objeções dos judeus revela fé fraca. É necessário ouvir as críticas que vêm da fonte. Assim, se o cristão aprende num livro escrito por cristãos os argumentos judaicos contra a fé cristã, não está aprendendo como deve. Ele deve ler autores judaicos para isso.

  754. Mesmo depois da pregação, pode demorar pra alguém aceitar o que foi dito e se converter. Alguns nunca o fazem.

  755. Os que morrem sem saber de Cristo serão condenados? De um ponto de vista das escrituras, não (veja anotação 742). Mas, na época, não havia consenso sobre essa questão.

  756. Sim, ele é deísta.

  757. Se só há uma religião verdadeira e não sabemos qual, deveríamos examinar todas as que existem, em vez de ficar com a primeira que se propõe. Mas isso é impossível por razões práticas.

  758. Proceder dessa forma é perigoso: há o risco de só achar a religião verdadeira quando for tarde demais.

  759. O fato é que nós ficamos com a religião na qual nascemos, em nossa maioria. Isso não é um comportamento errado se olharmos o aspecto prático da coisa. Então, eu não deveria condenar o muçulmano por ter acatado o culto no qual nasceu. De fato, Jesus disse pra fazermos discípulos em todas as nações (Mateus 28:19), mas isso não significa converter todo o mundo. Afinal, nem ele mesmo conseguiu, tendo sido rejeitado por quem ele queria salvar.

  760. Se Sócrates fosse um sofista ou um orador retórico qualquer, como Protágoras, que crê que as coisas são questão de ponto de vista e que a verdade é relativa, ele teria mudado de discurso pra escapar da morte. Mas não. Ele preferiu morrer pelas ideias em que acreditava. Ele não era, então, sofista. Pois, se o fosse, abandonaria seus argumentos ao primeiro perigo, como os sofistas faziam.

  761. A pessoa justa que Platão imaginou parece muito com Jesus, que viria séculos depois. Isso parece ilustrar, em Rousseau, como a justiça pode ser inferida racionalmente. Com efeito, a justiça idealizada por Platão se aproxima da justiça exercida por Jesus, que era sobrehumano e tinha um comportamento perfeitamente justo. Mas mesmo que isso seja possível, é difícil se manter fiel à justiça perfeita mesma quando inferida pela razão. É fácil pensar em preceitos, difícil é segui-los.

  762. Dizem que Sócrates inventou a moral, mas ela já existia antes, embora não como estudo sistemático. Rousseau diz que Sócrates só se limitava a mencionar esses atos morais, em vez de criar uma moral de sua própria parte.

  763. Há menos registro histórico de Sócrates do que de Jesus, diz Rousseau. Se bem que pode haver uma divergência entre o que é considerado registro histórico e o que era considerado antes.

  764. Devemos nos preocupar com a moral, não com a teologia. Existem coisas que a razão humana não pode conceber e provavelmente teremos ódio uns aos outros se tentarmos. Se existe ou não pecado original, como a alma pode queimar no Inferno se é incorpórea (ou se ela não existe de todo), se o Paraíso é na Terra ou no Céu, nada disso é causa de salvação ou de perdição. Sejamos bons, não precisamos ser teólogos. Então, a teologia particular não deve nunca ser causa de contenda, porque é de pouca importância. Brigar por teologia é frivolidade, revelando mais um desculpa para odiar quem é de fora da igreja (aí você lembra que as cartas de Paulo são cheias dessa teologia, enquanto que Jesus é zero teologia e 100% moral).

  765. Uma igreja cristã não é melhor que a outra por sua teologia.

  766. O culto principal é pessoal (João 4:23 / Mateus 18:20).

  767. Rousseau (“o padre”) aceita a religião cristã porque é a que menos entra em conflito com a razão natural, de seu ponto de vista. Do meu também.

  768. Não cabe a nós dizer quem vai pro Inferno. Isso é pretexto pra odiar, quando devemos amar (Mateus 22:39). Contraste o comportamento de Jesus (Mateus 9:11 / Marcos 2:16) e o ensino apostólico (1 João 3:11 / 1 João 3:23 / 2 João 1:5) com o que Paulo ensina (1 Coríntios 5:11).

  769. Quanto mais alta a posição, mais poder se tem e mais mal se pode fazer. Uma pessoa não deve se dedicar à grandes responsabilidades se sente será tentado a usar o poder para o mal.

  770. O ensino do Evangelho é mais razoável e frutífero que o da igreja.

  771. Que todos vivam em paz dentro de seus credos.

  772. Não precisa falar abertamente de sua religião se não for perguntado. Há hora e local pra isso.

  773. Fora da revelação, toda as questões religiosas são questão de achar. Não se manifeste positivamente, como se tivesse a verdade.

  774. A reflexão é preferível à discussão, pois o debate incita a obstinação e o orgulho. Alguns não conseguem discutir de boa-fé.

  775. O ceticismo é dogmático ao afirmar enfaticamente que não há verdade absoluta, fora a verdade de que não há verdade, se é que me entende. Esse pressuposto é dogmático, porque não é questionado.

  776. Desacreditar da verdade retira o freio que nos impede de cometer excessos e tira a esperança dos pobres miseráveis. O ceticismo é péssimo para a ética e para a política.

  777. A verdade não pode ser nociva ao gênero humano.

  778. Como se não bastante uma longa digressão, agora vem uma nota de rodapé de três páginas. É a digressão dentro da digressão. Será que ele lembra do assunto que tratamos?

  779. O fanatismo mata mais que o ateísmo.

  780. A criança que sofreu muitas privações será rebelde na adolescência. É importante que a criança obedeça, mas também que brinque e não seja punida sem necessidade. Se ela for punida por tudo e não sentir prazer sob a tutela dos pais, quererá se livrar dos pais o quanto antes.

  781. A exposição excessiva à religião na infância, às lições da fé, lha dão tédio e desgosto. A criança não quererá ser religiosa no futuro se foi forçada a isso na infância. Meu sobrinho, por exemplo, não vê a hora de deixar esse negócio de salão do Reino.

  782. Nada de errado em manter a virgindade por muito tempo. Não precisa fazer sexo porque está na moda fazer.

  783. Existe um instante para a instrução. Não se deve instruir alguém quando essa pessoa não está em condições de tirar proveito da instrução (quando está com raiva, por exemplo).

  784. É imoral matar animais pra comê-los, diz Rousseau. Mas… ele diz que a caça esportiva é lícita se for para evitar um mal maior. Me pergunto que tipo de prioridade moral ele segue ou se há alguma. Se ele estiver vivo em algum lugar me vendo digitar isto, talvez esteja rindo da minha cara.

  785. Se acabar com a religião, o que se porá em seu lugar?

  786. As grandes revoluções foram operadas mais pela paixão do que pela razão.

  787. Se puder mostrar, não fale.

  788. A razão não opera sem o corpo. O ser humano não é puro pensamento. Contraste com Descartes.

  789. É preciso pensar, mas também fazer.

  790. Antes de dar uma aula, excite a imaginação do aluno. Esse processo é análogo à sensibilização, no livro Ensinar Filosofia: Um Manual Para Professores.

  791. O professor não deve parecer sentir tédio do que ele ensina.

  792. É besta quem acha um sentido obsceno em tudo.

  793. A obscenidade muitas vezes está na cabeça de que vê, ouve ou sente.

  794. Muitos amam o vício mais do que a vida. É por isso que muitas pessoas fazem coisas claramente erradas e que poderiam lhes matar. Não há melhor exemplo para ilustrar isso do que o dos usuários de drogas. A vasta maioria entra nisso de caso pensado, sabendo que pode viciar e sabendo que pode matar, mas amam a aventura mais do que a própria vida.

  795. Você é realmente visto como professor quando seu aluno acha seguro contar pra você os segredos dele.

  796. Avise seu filho que continuar sob ordens do pai depois de adulto pode ser inconveniente e que ele provavelmente vai se libertar desse jugo sozinho.

  797. Ser professor ou pai é muito difícil. Continuar sob custódia dos pais ou do professor quando não mais é necessário não traz benefício, mas somente cansaço ao pai ou professor.

  798. É possível sentir amor e ser adolescente. Amor não é só coisa de adulto.

  799. Se alguém diz que não é possível a um adolescente amar, ele apenas ficará temporariamente confuso. Porque ele eventualmente sentirá amor e verificará que lhe deram um ensinamento errado.

  800. Use as paixões joviais como ponto de partida para uma lição sobre como bem conduzi-las. Ele quer namorar? Então, beleza: hora de ensiná-lo a como escolher bem sua parceira.

  801. Uma criança não é naturalmente má. Ela se torna má pelo exemplo dos outros.

  802. O fato de algumas regras serem facilmente quebradas depois de adulto leva alguns a pensar que moral é coisa infantil, de quem ainda tem que obedecer aos pais.

  803. Alguns não gostam de praticar o mal, mas o fazem por hábito ou por medo de passar vergonha.

  804. Os jovens, não querendo ser “escravos” dos pais, se escravizam às más companhias.

  805. Para não se incomodar com a zombaria dos outros, lembre por qual razão zombam de você e o que esperam com isso.

  806. Quando uma mulher acredita que tudo é lícito, não aceita que seu marido pense da mesma forma.

  807. Quem se acostuma a fingir que não vê certos delitos eventualmente terá que ser forçado a não ver nada mais, porque o delito, quando não é punido, acarreta outros e se torna mais frequente.

  808. Como a identificação é importante para a educação, o aluno precisa ver que o professor é humano. Isso quer dizer que quem ensina não pode parecer perfeito. Não estou falando de conteúdo, mas outras coisas: saúde, vícios, medos… O professor não tem que se mostrar a pior pessoa do mundo, que não tente parecer sem defeitos diante de seus alunos, porque os jovens não seguem exemplos de pessoas perfeitas.

  809. Às vezes se erra menos quanto menos se tenta ser perfeito.

  810. Os jovens passam a juventude respeitando os velhos. Os velhos deveriam respeitar os jovens também.

  811. Muitas pessoas fingem ter virtudes que não têm por questão de educação. Se todos tivessem essas virtudes, não seria necessário fingir e todos seríamos educados.

  812. Gosto é a faculdade de julgar o que agrada. Em outras palavras, é pessoal. Há paralelos aqui entre o gosto de Rousseau com o amor de Aristóteles, que também é pessoal e por isso o caminho pra felicidade varia de pessoa para pessoa.

  813. O “bom gosto”, então, é um consenso de maioria. Ter “mau gosto” é simplesmente não gostar do que a maioria gosta.

  814. “Gosto” e “não gosto” seguem critérios pessoais.

  815. Gosto varia conforme sexo, caráter, idade, cultura, território, determinação biológica, valores e uma série de outras disposições e critérios. É inútil discutir quem tem melhor gosto.

  816. Moda não coincide com gosto. Posso estar na moda sem gostar do que visto.

  817. Observe como muitas coisas de bom gosto são coisas às quais não prestamos atenção. Se eu vejo uma mulher bonita, não é pro brinco que eu vou olhar.

  818. O julgamento emitido pelos outros não deve ser acatado como lei, mas como meio de formar nosso próprio julgamento.

  819. Não se diga herói. Antes, mostre o que você fez para ser digno do título de herói.

  820. Apresente primeiro a boa cultura, depois a ruim. Assim, o aluno aprenderá a rejeitar a ruim. Se ele parte da ruim para a boa, rejeitará a boa, por ser muito “elevada” e difícil. Não é que ele tenha que aprender o que é mais difícil, mas que ele tenha acesso à boa cultura primeiro.

  821. É preciso ser sábio e sensível. Ser sensível sem ser sábio te torna pusilânime. Ser sábio sem ser sensível te torna alienado.

  822. Para sentir prazer, é preciso estar saudável. Mas para ser saudável, é preciso ser moderado. Logo, é possível ser moderado por prazer.

  823. Frutas de época são mais gostosas.

  824. O tédio é próprio da vida sedentária.

  825. Se quer algo bem feito, faça você mesmo.

  826. Só peça ajuda para o que você não pode fazer sozinho.

  827. Muitos velhos procuram jovens porque vêem na ingenuidade jovial de uma virgem uma vantagem para o cortejo. Usando sua experiência, podem tentar a moça mais jovem, a qual pode achar seguro ter sua primeira experiência sexual com alguém já bem experiente nisso. Não é um pensamento completamente errado. O fato é que existem velhos, diz Rousseau, que fazem isso porque não conseguem queixar alguém mais adulto, apesar de querer.

  828. Sexo não é tudo na vida. Existem outras coisas que dão prazer.

  829. Parte do charme de um jantar é a companhia dos amigos. Se a comida é ruim, não prestam atenção no gosto.

  830. Se eu sou meu servo, sou senhor de mim mesmo.

  831. A diferença entre homem e mulher é pouca, se abstrair a cultura. Maior parte da diferença entre homem e mulher vem dos papeis sociais, os quais aparentemente são baseados em diferenças físicas.

  832. O que nos aproxima é a humanidade. Homem e mulher são humanos. Se diferenciam em detalhes sexuais. Eu acho difícil engolir isso.

  833. No que têm de comum, homem e mulher são iguais, mas, diz Rousseau, não se comparam um ao outro no que têm de diferente. Óbvio, você não vê homens engravidando.

  834. Homens e mulheres são diferentes e devem exercer sua diferença. Isso não invalida a igualdade legal entre os gêneros, que não é mais que uma encarnação do já existente direito à isonomia.

  835. Para Rousseau, o fato de a mulher ser sexualmente passiva basta para provar que o homem deve ter um papel dominante na sociedade enquanto a mulher deve resistir pouco. Não me parece lícito fazer essa ligação, já que o sexo visa a reprodução, mas a civilização visa a prosperidade e a segurança. Com objetivos diferentes longe da cama, não vejo razão para a passividade feminina continuar fora do quarto. Mas tentemos entendê-lo na lógica da França moderna.

  836. Para Rousseau, a mulher deve agradar o homem. O homem, sendo forte, agrada a mulher indiretamente, diz ele.

  837. Diz Rousseau que a lei da natureza deve ser obedecida preferencialmente ao amor. Então, o homem não deve, na visão dele, ser agradável por amor se deve ser forte por natureza.

  838. A mulher não deve subjugar o homem pela sedução a fim de conseguir o que quer, diz Rousseau, porque a tentativa de subjugar a vontade masculina, mesmo quando bem-sucedida, é contra a natureza na visão dele.

  839. O sexo também é ferramenta de destruição. É a única forma natural de perpetuar a espécie humana, mas veja quantos males esse dispositivo pode acarretar. Quer acabar com a confiança conjugal? Traia seu marido tendo sexo com outro. A prática sexual pode se tornar meio de iniciar condutas passionais reprováveis e até criminosas. Pra não falar das doenças ocasionadas pela prática com múltiplos parceiros. Então, o meio de preservação da espécie serve também para destruir.

  840. O desejo sexual é o ponto fraco masculino, diz Rousseau. A mulher não deve abusar disso.

  841. O pudor cultural antigamente estimulado entre as mulheres tinha essa função de coibir o abuso mencionado por Rousseau, consequentemente evitando a escravização da vontade masculina por meio do sexo. Então, se você se pergunta de onde vem o estereótipo de mulher bela, recatada e do lar, aí está sua resposta.

  842. Para Rousseau, a mulher deveria viver em função do homem. Ele chega ao ponto de dizer que elas seriam inúteis sem nós. Será que alguma mulher faz profissão do estudo de Rousseau? Tenho quase certeza de que não existem no mestrado daqui.

  843. Uma tática: recusar sexo mesmo quando o parceiro está em vias de explodir de vontade. Isso é feito para deixar o parceiro mais suscetível a fazer o que ela quer que ele faça, usando sexo como recompensa e o negando como punição. Assim você transforma o parceiro num pombo (ou num estuprador, ou num adúltero…).

  844. Gosto como ele diz que a relação entre gêneros não deve comportar violência “real”, porque ele provavelmente recebia uns tapas no traseiro na hora do vamos ver. A violência sexual que Rousseau recebia não era “real”, porque era combinada, condicionada ao sexo, mas não à vida pública. Interessante ele falar de como o homem deve dominar a mulher, quando ele passou boa parte da vida querendo ser dominado por uma mulher forte e de mão pesada que fizesse papel de sua mamãe. É de se esperar de alguém que abandona todos os filhos e mais tarde escreve um livro sobre educação.

  845. As mulheres reivindicam sua fraqueza quando convém a elas. Isso é válido hoje em tempos de feminismo. As mulheres, hoje, querem igualdade de direitos, o que é válido. Mas algumas, e isso já aconteceu comigo, se dizem “fracas” para se aproveitar do cavalheirismo. Num ônibus, uma mulher diz a um homem: “dá-me teu lugar, porque sou mulher.” Ela se apoia no estereótipo de mulher como pessoa mais fraca. Mas se a mulher quer igualdade de direitos não deveria usar esse argumento. Deveria pedir o lugar porque está cansada, com criança, porque é idosa, mas não por ser mulher. E se homem recusasse, como os outros passageiros reagiriam?

  846. A mulher deve seduzir, mas só na medida em que isso é necessário para o bem da reprodução.

  847. Para Rousseau, o papel do homem termina depois que engravida a mulher. A partir daí, cuidar do filho é tarefa da mulher. Não me admira que a guarda do filho raramente fique com o homem, com caras como Rousseau pavimentando uma longa trilha de preconceito.

  848. O homem que trai a mulher, diz Rousseau, é só injusto. A mulher que trai, diz ele, é quase criminosa. Isso porque, na visão de Rousseau, a traição masculina é quase inconsequente, enquanto a traição feminina é capaz de destruir toda a família.

  849. A mulher não pode somente ser fiel; tem também que parecer sê-lo, diz Rousseau.

  850. Na época de Rousseau, a mortalidade infantil era alta. Se o governo queria um número decente de cidadãos apesar disso, era necessário que cada mulher tive quatro ou cinco filhos, porque metade iria morrer de doença.

  851. A família deve ser preservada, diz Rousseau.

  852. Rousseau é extremamente crítico de qualquer um que sustente que a mulher deve ser igual ao homem em termos sociais.

  853. Os “defeitos” das mulheres são apenas diferenças necessárias. Se as mulheres fossem em tudo iguais aos homens, nem reprodução haveria.

  854. Rousseau acharia legal se não existisse escola e se a educação viesse somente de casa.

  855. Se a mulher se torna igual ao homem, de um ponto de vista social, se torna menos atraente ao homem, diz Rousseau. Logo, ninguém mais quererá se casar. Para Rousseau, sem essa sedutora fragilidade e sem esses papeis sociais que a mulher de sua época tinha, os homens, não sendo seduzidos, não teriam seus pontos fracos explorados tão facilmente. Então, não haveria razão para o homem se subjugar à mulher. Talvez até tivesse ódio dela. Então, na visão de Rousseau, as diferenças sociais entre homem e mulher servem para salvaguardar o casamento.

  856. Diz Rousseau que as mulheres sempre ficam abaixo dos homens em certas coisas. Então, elas não deveriam prestar certos serviços. Ela deve ter direitos próprios, que os homens não têm, mas não deveria, na visão de Rousseau, ter todos os direitos que o homem tem.

  857. Uma mulher é digna de censura se ela tenta manter seus direitos como mulher e adquirir direitos antes exclusivamente masculinos. Um lado pode se igualar ao outro, mas o pólo de opressão não pode ser invertido sem hipocrisia.

  858. Isso não quer dizer que existam conhecimentos vetados à mulher. A mulher deve aprender o que quiser e se aperfeiçoar intelectualmente à vontade. O que Rousseau sustenta são os papeis (funções) sociais. Ela pode aprender e estudar o que quiser, mas existem profissões, direitos e funções que não convém a ela, diz Rousseau.

  859. Rousseau diz que o homem pode subsistir sem a mulher, mas a mulher não pode subsistir sem o homem. Isso não é mais atual.

  860. Rousseau defende que a educação feminina deve ser centrada no homem. Para ele, a mulher deve viver para o homem, em função dele somente.

  861. Para Rousseau, o menino deve aprender a desprezar a opinião que os outros têm dele, mas a menina deve dar à opinião toda a consideração. Ele diz que a opinião é o “túmulo” da virtude masculina, mas o “trono” da feminina.

  862. A primeira educação é a do corpo. Só depois se educa o espírito.

  863. A educação corporal do homem, diz Rousseau, é para desenvolver sua força. A educação corporal da mulher, diz Rousseau, é para desenvolver sua beleza.

  864. O homem deve fazer as coisas de forma fácil, a mulher deve fazer as coisas de forma bela, diz Rousseau.

  865. A mulher de Rousseau pode desenvolver robustez, mas só se isso for necessário para não gerar filhos fracos.

  866. A mulher sedutora é a mulher saudável. Ela deve fazer exercício.

  867. Para Rousseau, é natural que a mulher seja caseira. Bom, isso é meio impossível hoje, em tempos de capitalismo avançado, onde toda a família tem que trabalhar.

  868. A mulher, tal como o homem, deve usar roupas que facilitem o movimento. Nada muito apertado, nunca, para evitar problemas de saúde.

  869. Brincar de boneca estimula o desejo de ser mãe. Brincar de maquiar e vestir estimula o desejo de agradar.

  870. A menina, vendo a mãe costurar, quererá costurar também. Quer seguir o exemplo com o qual sente identificação. Alguém escreveu que a tendência feminina de alguns meninos se deve a falta de exemplos masculinos (embora isso nem sempre seja verdade).

  871. O bom-senso é comum a ambos os gêneros.

  872. Em adição, a mulher não deve ser educada fora do princípio usado para os homens, segundo o qual a criança não deve aprender nada em que ela não veja utilidade.

  873. Para Rousseau, a inteligência aparece na menina mais cedo do que no menino.

  874. A menina não deve crescer preguiçosa.

  875. Para Rousseau, a menina deve aprender a ser contrariada porque isso “faz parte de seu sexo”. O machismo do século de Rousseau é estranho pra mim, mesmo eu tendo medo de mulher.

  876. Na educação, não se deve colocar todo o prazer de um lado e todo o tédio do outro. A aula tem que ser interessante o bastante pra que o aluno queira ir, mesmo que só quando não tiver coisa melhor pra fazer.

  877. Minha irmã gostava muito de ir pra escola, mas por quê? Seus amigos estavam lá. Ela preferia ir pra escola assistir aula pelo prazer de encontrar seus amigos no intervalo ou mesmo de conversar e passar bilhete durante a aula. Ela ia e aprendia alguma coisa, afinal nunca repetiu de ano (talvez uma vez). Então, é mais tolerável fazer uma tarefa tediosa se você tiver amigos por perto fazendo a mesma coisa. Mesmo que não se concentrem 100%, pois conversarão, progridem com prazer, desde que lembrados do trabalho que têm que fazer.

  878. Não se deve dizer que se deve amar os pais. Se a criança sentir que há obrigação nisso e que há recompensa em seguir essa obrigação, ela vai falsificar esse amor. É preciso que a criança ame seus pais sem ser mandada a isso, para não amar falsamente.

  879. Os pais podem fazer isso não provocando a criança ao ódio. Se a criança não odiar seus pais, provavelmente os amará. Isso não quer dizer sem bonzinho demais com a criança, mas não se deve infligir nenhuma dor a ela que não redunde em benefício pra ela. Pense no bem dela. Se for necessário causar alguma dor pra obter esse bem, é lícito, diz Rousseau.

  880. “[…] sendo a dependência condição natural das mulheres, as jovens se sentem feitas para obedecer.” Fala isso pra minha sobrinha ou pra minha irmã. Criatura insubordinada é um adolescente normal, seja menino ou menina.

  881. A menina deve aprender a não gostar de uma coisa que desprezará amanhã, ou seja, a andar segundo uma “moda”. O desejo por novidade tem que ter limites.

  882. Para Rousseau, a mulher, partindo do pressuposto de que foi feita para agradar o homem, deve aguentar as injustiças do marido sem reclamar.

  883. A mulher tem uma inteligência especial que o homem não tem. Agora a coisa ficou ainda mais estranha.

  884. A mulher que obedece suaviza o marido, na visão de Rousseau.

  885. Se o primeiro não é irrevogável sempre, a criança não pedirá de novo. Se ela perceber que pode fazer você dizer “sim” se ela perturbar muito, vai fazer isso o tempo todo.

  886. Não se deve abandonar um bom recurso porque pessoas más podem usá-lo de forma errada. As pessoas aplicam golpes pelo banco, pelos correios e pela Internet. Por causa disso, vamos banir os bancos, correios e Internet?

  887. Enfeites demais, maquilagem demais, roupas muito atraentes, tudo isso serve para esconder defeitos. Para Rousseau, a mulher que abusa desses artifícios o faz porque se acha feia, o que revela insegurança. A mulher deveria ser capaz de beleza sem esses artifícios.

  888. Quando a roupa cai bem, não há necessidade de acompanhar a moda.

  889. Em vez de dizer “como você está linda” para uma menina que está com a cara pintada e bem vestida, se deveria perguntar “será que você não ficaria mais bela sem isso?”.

  890. Caso o uso desses artifícios seja extremamente necessário, não devem ser artifícios caros: o uso de maquilagem e roupas caras faz a pessoa parecer exibida e babaca.

  891. Se não puder ser bonito, seja rico. Quem sabe assim alguém te ache bonito.

  892. Se a pessoa sabe escolher roupas que combinam com ela, sempre andará bonita, mesmo usando as mesmas quatro roupas.

  893. Sabe quem inventa a moda? Os feios. E passam a não ser tão feios quando encontram quem siga a moda.

  894. Sedução é mais linguagem corporal e atitude do que aparência.

  895. O tempo de fazer besteira é a infância. Se a criança não for infantil na idade certa, será na idade errada. Tal como eu, minha irmã foi muito protegida na infância. Quando ficou adolescente, resolveu fazer muita besteira, porque não havia aprendido com os erros que ainda não tinha cometido. O resultado foi ela ter engravidado de um bandido, que depois morreu executado por um policial. Se ela tivesse tido mais liberdade na infância, talvez tivesse aprendido que existem companhias que são ruins. Se só se aprende quebrando a cara, é melhor quebrar a cara quando criança.

  896. A mulher educada rigorosamente não interessa ao homem.

  897. Rousseau repudia a visão cristã do casamento, por sobrecarregá-lo de deveres pesados que o tornam uma opção pouco atraente. Já é pesado demais permanecer fiel. Ainda querer que a mulher se vista de determinada forma, que tenha determinada conduta “insossa”, é demais. Isso dá a entender que o machismo de Rousseau não vem da religião.

  898. O casamento cristão, para Rousseau, torna as mulheres menos amáveis, a ponto de tornar os maridos indiferentes.

  899. Se a mulher fosse mais amável, o marido não precisaria procurar diversão fora de casa.

  900. Cada membro da família deve contribuir para o divertimento do outro.

  901. Se uma pessoa está aprendendo algo por diversão, o professor não deve se mostrar severo, nem teria qualquer necessidade disso. Música, dança, canto, são artes alegres. Os alunos aprendem isso pra entretenimento também, porque achariam legal desenvolver seus talentos com o prazer que têm ao colocá-los em prática. Então, um professor como o daquele filme estaria melhor desempregado.

  902. Usar o mesmo método em todas as situações mostra que não se sabe o que se está fazendo.

  903. O primeiro juiz de arte é o próprio artista. Se não estiver bom primeiro pra ele, então há pouca chance de ser bem-sucedido em público. Que o trabalho seja aprovado primeiro por você.

  904. Os homens acusam as mulheres de falarem demais. Fato é que elas geralmente aprender a falar mais cedo, diz Rousseau.

  905. Para Rousseau, o homem fala do que sabe, ao passo que a mulher fala do que gosta. Um visa o útil. A outra visa o agradável.

  906. O homem só deve falar coisas úteis. A mulher só deve falar coisas agradáveis. Ou pelo menos é o que diz Rousseau.

  907. Retiro o que disse sobre este ser o livro mais machista que eu li: Rousseau não diz que a mulher é inferior em tudo, mas somente em certas coisas, e em outras coisas ela é superior. Assim, a união dos gêneros é alimentada também pelo complemento que um provê ao outro.

  908. Pra Rousseau, embora o filho não deva ter religião (mesmo que receba valores morais religiosos e os pratique), a filha deve ter a religião da mãe e a mãe deve ter a religião do pai, mesmo que seja falsa.

  909. Para Rousseau, a mulher é extrema em termos de religião: ou é beata ou devassa. Ela não tem, diz Rousseau, o equilíbrio que o homem tem entre sagrado e profano.

  910. O ensino religioso mal ministrado leva ao ateísmo ou ao fanatismo, mas nunca à fé que se deve ter.

  911. Religião não deve ser ensinada formalmente em uma classe, não deve ser tornada obrigação para a criança. É um assunto muito sério. Então, a criança não deve ver na religião um objeto para seu tormento. Se a religião for uma responsabilidade muito imposta pelos pais, como um fardo que a criança deve carregar, ela terá ódio de religião.

  912. A criança deve aprender a religião dos pais vendo-os praticá-la. Assim, ela fica curiosa e faz perguntas. Aí você responde. Assim, guiada pela própria curiosidade, ela se envereda nessa direção.

  913. As orações devem ser curtas. Se a criança for tragada às orações longas, como o rosário (terço), ela vai ficar com tanto tédio que não quererá fazer aquilo nunca mais. Minha irmã, por exemplo, abandonou a fé católica, porque não tinha mais saco pra rezar um terço todas as noites com minha mãe.

  914. Não ordene tarefas religiosas às crianças se você mesmo não faz essas tarefas. Se a criança tem que ser iniciada numa religião, deve ser a religião que os pais praticam, que não necessariamente condiz com a que os pais acreditam. Com efeito, muitos católicos se masturbam, apesar de o parecer do catecismo ser de que não se deve fazê-lo. Muitos crentes pensam “Deus realmente se importa com isso?” e fazem aquilo que crêem ser algo com o qual Deus não se importa, mesmo quando a recomendação eclesiástica é não fazer. Então, há dissonância entre fé pregada e fé praticada. O filho deve ter as práticas do pai. Se o pai quer que o filho faça tudo certo como está prescrito na religião que ele crê, então o pai deve fazer isso primeiro, para só depois exigir isso do filho. E nunca antes de certa idade. O filho é mais guiado pelo exemplo do que pelas palavras.

  915. Para ensinar artigos de fé, deve-se usar instrução direta, em vez de perguntas e respostas, diz Rousseau. As testemunhas de Jeová fazem exatamente o contrário.

  916. A criança deve responder o que pensa, não necessariamente o que lembra como sendo a resposta que o professor disse antes.

  917. “Quem te criou?” A menina pensa “mamãe”, mas responde “Deus”. Não está sendo sincera consigo própria. A criança muito nova, então, que não está em condições de entender como isso é possível, não está pronta pra esse artigo de fé. Porque todas as vezes que responder essa pergunta dessa forma, ela está falando algo que não acredita, logo, está mentindo por religião.

  918. Deve haver um catecismo diferente para as crianças.

  919. Se conhece Deus pelas obras dele.

  920. Questões teológicas não têm relevância na conduta do fiel. Elas não causam salvação. A salvação vem de Deus como prêmio pela conduta, que é a moral (Mateus 19:17-19 / Marcos 10:17-19 / Lucas 10:25-28 / Lucas 18:18-20).

  921. Os pais são obrigados a ensinar as crianças a se amarem umas às outras.

  922. Rousseau diz que é pela obediência que a mulher governa o homem.

  923. Se a mulher quiser ter vários parceiros sem que um elimine o outro, deve convencer cada um de que é o favorito. Do contrário, os amantes tentarão afastar a concorrência.

  924. A mulher tem capacidades de manipulação que permitem a ela trair com mais facilidade, diz Rousseau.

  925. A mulher que tem vários parceiros está mais preocupada consigo própria do que com os parceiros.

  926. A habilidade social da mulher é incomparável com a do homem. Ela é muito melhor nisso, diz Rousseau.

  927. Rousseau é conservador até para o tempo dele.

  928. O homem está para a mulher como a universidade para o ensino técnico, diz Rousseau. Um pensa, o outro faz.

  929. Para Rousseau, a mulher que quer algo e não pode conseguir sozinha tenta fazer os capazes quererem essa coisa também, para que se torne viável a ela.

  930. Não se deve esconder nada de uma mulher, a menos que seja algo imoral.

  931. A mulher que não foi bem educada pela mãe, não quererá educar bem os seus filhos.

  932. Para Rousseau, a mulher deveria ser caseira, porque os divertimentos da sociedade (francesa de sua época) as corrompem.

  933. Algumas mulheres se casam pensando já no benefício da separação.

  934. A vida na cidade nem sempre é melhor pra pessoa do campo. Muitos que vêm pra cá querem voltar pro interior.

  935. Para Rousseau, a mulher é a juíza do mérito do homem.

  936. Ninguém quer ser reprovado pelas mulheres, diz Rousseau, nem mesmo os que não gostam delas. Só que isso é falho. Eu não me importo de ser rejeitado pelas mulheres; já me acostumei.

  937. A mulher deve ser respeitada. Observe que Rousseau tem um conceito diferente do nosso sobre esse respeito que se deve às mulheres.

  938. Quem não comete o mal porque foi impedido já é culpado.

  939. Identidade sexual é um conceito em crise para Rousseau. Afinal, o que é “ser homem” numa época em que os papeis sociais estão misturados? Se ele estivesse vivo pra ver como o conceito de gênero foi relativizado hoje, morreria.

  940. Odeio este livro.

  941. Quando um parceiro ama o outro, não há necessidade de corrigir os defeitos. Mudar por amor é provar que não se é amado pelo que se é. Se alguém diz que te ama do jeito que é, mudar, mesmo que seja tentando mudar pra melhor, a se arriscar a ser amado menos.

  942. Se a mulher é boa companheira, não precisa ser bela. Causa inveja nas mulheres bonitas a gorda agradável que tem amigos homens. Ainda mais se essa gorda tem um namorado cobiçado por mulheres que se acham muito mais lindas que ela.

  943. Não precisa seguir a moda. É possível ser bonito com uma combinação original, desde que lhe caia bem.Para Rousseau, a mulher ideal (chamada Sofia no livro) deve ser capaz de reprimir o choro na presença dos outros.

  944. Também os homens são juízes naturais do comportamento feminino, diz Rousseau.

  945. A pior desgraça é ser infeliz por própria culpa, diz Rousseau.

  946. Para Rousseau, a mulher apaixonada não deve aprovar ou reprovar parceiros. Ela é senhora de si na medida em que age na razão. Se ela se apaixona, pode fazer péssimas escolhas amorosas. Foi o que aconteceu com minha irmã. Todos os homens com quem ela se envolveu foram reprovados pela minha mãe, mas ela persistiu neles. Um deles morreu baleado pela polícia e o outro se mostrou um monstro movido à ciúme. Mesmo assim, me parece abusivo que não se possa escolher com quem se quer ficar.

  947. A mulher que escolhe alguém, diz Rousseau, deve submetê-lo ao julgamento dos pais.

  948. A felicidade do filho é um bem além da aprovação pública. Mas, levando em consideração o que já foi dito, não é um objetivo além da moral.

  949. É fácil se frustrar procurando a pessoa perfeita pra namorar. O parceiro ideal é uma ideia reguladora. Na falta dele, alguém que dele se aproxime serve.

  950. Quem ama a virtude, quererá um parceiro virtuoso. É por isso que os bonzinhos sofrem por amor, porque é difícil achar alguém virtuoso na medida que querem. Isso frequentemente é um engano da educação dos pais.

  951. Para alguns, se casar é pior que morrer.

  952. Às vezes é preciso baixar o nível pra conseguir companhia.

  953. Os casamentos não devem ser arranjados por motivo social ou econômico, mas por amor entre os parceiros.

  954. Se um não gosta do outro, nem a riqueza de ambos tornará essa companhia tolerável.

  955. Pai é quem cria. Se o pai dá seu filho a alguém para que o eduque, esse alguém é que é pai. Como você pode conhecer seu filho se ele está na escola de tempo integral de dia e você é vigia à noite? O pai do menino acaba sendo o professor.

  956. Para Rousseau, o ser humano não pensa naturalmente, ou seja, ele aprende a pensar com a maturidade. Isso, claro, dependendo do que ele chama de “pensar”.

  957. Não é preciso saber o que é virtude pra ser virtuoso.

  958. O homem que pensa deve se casar com uma mulher que pensa, para que não conduza os afazeres da família sozinho. Ainda assim, a mulher é ministra, diz Rousseau, não presidenta. Se a mulher não souber refletir, pensar, não irá educar bem seus filhos. É o tipo de mãe que educa na base do chinelo.

  959. Para Rousseau, a mulher diplomada, que trabalha de humanidades, é uma farsante. Ele chega a dizer que é um homem que provavelmente dita pra ela os textos que escreve. Pegou pesado agora. Quer dizer que, para Rousseau, não existem mulheres praticantes de filosofia, historiadoras, geógrafas, mulheres literatas ou artistas, nem tampouco sociólogas ou o que quer que seja. Um cara desses nunca colocou os pés na universidade estadual.

  960. Rousseau faz uma ressalva: mesmo que a mulher tenha talento para humanidades, perseguir o prestígio do público é sempre pretensão. Isso quer dizer que, pra ele, a mulher tem que ser ignorada em público e se dar aos afazeres domésticos. Nada de enveredar pro caminho científico ou filosófico. Me pergunto o que ele pensaria de uma mulher presidenta.

  961. Para Rousseau, a mulher diplomada nunca se casará.

  962. Depois de casado, o homem enjoa da beleza da esposa. Então, não há necessidade de ficar linda pro casamento.

  963. A vida é curta, mas tem gente que reclama que o tempo passa devagar.

  964. Filósofo que é filósofo anda à pé. Carro ou ônibus só se tem pressa.

  965. O motorista é estressado, mas o pedestre é despreocupado. Claro, quando não se vive num lugar violento como a capital.

  966. Se você não sabe o bastante, não será curioso. Se você sabe demais, não será curioso. Só é curioso quem sabe de sua ignorância.

  967. Quem recebe visitas com pouca frequência pode ser mais hospitaleiro. Quando se recebe hóspedes demais, se deixa de sê-lo.

  968. Este livro fala de três coisas alternadamente: do óbvio, do errado e do irritante.

  969. “Dão-nos, nos tratados de educação, grandes digressões inúteis […]”. É assim que alguém me racha de rir.

  970. O pecado dos livros de educação é prestar pouca ou nenhuma atenção à dificuldade da transição de criança para adulto. Não se fala o bastante de como as lutas da adolescência afetam o aprendizado.

  971. Se amo alguém, não quererei envergonhar esse alguém com meu comportamento.

  972. Se cortarmos o romance dentro deste livro e o transformarmos em um tratado decente, teria duzentas páginas a menos.

  973. Ele usa uma historinha como argumento. Trabalha encima de condições ideais. Isso é um castelo nas nuvens, que ele acusa outros de construir. Hipócrita do início ao fim.

  974. A mulher tem o direito, diz Rousseau, de escravizar o marido afectivamente, usando amor ou sua privação como meios de equilibrar a autoridade do marido sobre ela.

  975. O marido deve ensinar à esposa filosofia ou ciência na medida em que isso lha for útil.

  976. Para Rousseau, o pai não deve saber tudo sobre os relacionamentos dos filhos.

  977. Rousseau acredita que a competição entre animais por causa de fêmeas ocorre mais facilmente numa situação em que ter várias fêmeas é possível. Como o ser humano tende à monogamia, segundo Rousseau, seu ciúme é diferente do dos animais.

  978. Para Rousseau, homens que têm mais de uma mulher são mais ciumentos. Eu não acho, mas aí é minha opinião.

  979. Aos dez anos, se quer doce. Aos vinte anos, se quer mulher. Aos trinta anos, se quer prazer. Aos quarenta anos, se quer fama. Aos cinquenta anos, se quer dinheiro. Quando se quer sabedoria?

  980. Ser adulto não significa deixar de lado tudo o que se fez e pensou na infância. Se assim o fosse, pra quê educar crianças, se elas terão que se desfazer de sua educação quando adultas? E é o que frequentemente acontece, pois o adulto, ao ver que as coisas funcionam diferente do que ele imaginava, deixa de lado os valores que aprendeu na infância, mesmo que sejam boas. O que a criança aprende deve lhe servir para a vida toda. Não se deve ensinar a uma criança aquilo que ela não usará quando adulta (o que não implica ensinar a ela tudo o que um adulto pode aprender, mas tão somente o que ela pode aprender e que lhe servirá sempre).

  981. O desejo por mudança constante é marca de intemperança. Quem é moderado, não anseia sempre a novidade.

  982. Aprender a se frustrar por um objetivo maior faz parte de ser adulto.

  983. É incrível: Rousseau parece não viver sua filosofia.

  984. Maior parte das doenças dos pobres é de origem alimentar, ou melhor, da falta de alimento, diz Rousseau. Um organismo debilitado pela fome não pode mesmo ser saudável.

  985. Para Rousseau, a mulher não é feita pra correr. Que dizer então das corredoras olímpicas profissionais?

  986. Você só entende o que enfrenta um pobre depois de participar de sua labuta.

  987. Não é moral se valer do dinheiro para desonrar um compromisso.

  988. Para Rousseau, a boa mulher é aquele que se sente trocada quando o marido sai cedo pro trabalho e negligenciada quando o marido se atrasa pra voltar. Se uma mulher assim é boa, não quero nunca casar.

  989. A mulher sensata não deveria julgar o marido sem antes ouvi-lo.

  990. A causa do mal é a infelicidade. Quando se está infeliz, se percebe a possibilidade de ser feliz pela maldade. Se bem que não é preciso estar feliz para praticar o bem. Aliás, muitos praticam o bem porque esperam obter felicidade nisso.

  991. A morte do amado é como uma morte para o amante. Assim, de certa forma, é possível morrer duas vezes. O amante deve estar pronto para esse evento, mesmo que não venha a ocorrer, a fim de não ser pego de surpresa.

  992. O medo de perder o que se tem nos leva a não aproveitar bem as nossas conquistas.

  993. Quem tem como única lei os próprios desejos se torna mau.

  994. Virtude é se esforçar para ser bom e conseguir sê-lo, mesmo quando se é naturalmente fraco, diz Rousseau. Aristóteles diz que virtude é o meio-termo entre dois vícios. Então, enquanto que para Aristóteles a virtude é o ponto de chegada, Rousseau vê a virtude como o processo. Por isso que se diz que coragem não é a virtude do que não tem medo, mas daquele que age corajosamente na presença do medo, isto é, aquele que luta contra uma fraqueza que se tem. Para Rousseau isso é virtude, enquanto que Aristóteles vê virtude como comportamento moderado entre dois vícios (a exemplo da coragem, ela é meio termo entre covardia e imprudência).

  995. Para Rousseau, é possível ser bondade e virtude não crescem na mesma proporção. São coisas diferentes.

  996. Só permanece virtuoso quem tem prazer na prática da virtude. Aristóteles explica isso dizendo que todos querem a felicidade e uma pessoa não vai persistir na busca da virtude se não achar que isso lhe traz felicidade.

  997. É virtuoso o homem que domina suas paixões e que ouve sua razão.Todas as emoções regradas são boas. Só são ruins quando obscurecem a razão.
  998. Não escolhemos o que sentimos vontade de fazer. Mas podemos não querer fazer aquilo que temos vontade de fazer, mas sabemos que errado. Não escolhemos os nossos desejos, mas escolhemos se os satisfazemos ou não.
  999. Os pais têm que estar prontos para a morte dos filhos. E vice-versa.
  1000. “A morte é o fim da vida do mau e o começo da do justo.” Que bom que este livro não é uma perda total.
  1001. Se casar às pressas é por vezes reflexo de um duplo pensamento. O primeiro é de que o amor não se engana. Isto é, se eu amo alguém é porque ele foi “feito pra mim”. É minha “alma gêmea”. O segundo é de que eu nunca terei ódio quem amo. Se eu me caso logo, poderei descobrir logo depois que eu não gosto tanto dessa pessoa como eu pensei que gostasse. Então, é preciso esperar: o amor pode se enganar (talvez haja alguém melhor) e a pessoa pode te decepcionar.
  1002. Será que essa pessoa te ama tanto quanto você a ama?
  1003. Será que você conhece o humor dela tão bem assim? E se você descobrir como ela realmente é só depois de casar?
  1004. A mulher não deve engravidar antes da vida adulta, pois, diz Rousseau, uma gravidez tão cedo seria de risco.
  1005. Ter um filho muito cedo é ruim para mãe e criança.
  1006. Estranhamente, Rousseau, recomenda que os amantes passam um bom tempo longe um do outro antes de se casarem. No caso, quando está decidido que irão se casar, Rousseau recomenda antes uma separação de dois anos. A ideia é ensinar autocontrole e o costume com a ausência do amado.
  1007. Ler demais não significa ter muito conhecimento. A maioria das coisas só se conhece realmente entrando em contato com elas, não lendo sobre elas. É diferente você ler sobre Rio de Janeiro e visitá-lo. Por isso é importante viajar, pra ver se o que lemos realmente reflecte as coisas como são.
  1008. Relatos de viagem feitos sobre um mesmo lugar podem se contradizer. Então é melhor visitar o lugar você mesmo.
  1009. Existem escritores que mentem deliberadamente em seus livros.
  1010. Não é possível dizer que se conhece o gênero humano se você nunca viajou. Na verdade, você só conhece as pessoas com quem viveu.
  1011. Você só pode dizer que conhece o gênero humano de forma decente se já viajou pra pelo menos dez países.
  1012. Já na época de Rousseau havia uma mistura dos costumes e da fisiologia de pessoas de diversos países. O conceito de especificidade nacional vem perdendo força há muito tempo. Não que tenha deixado de existir (ainda).
  1013. Quanto mais lugares você conhecer, com maior exatidão poderá escolher onde pode viver melhor.
  1014. “É sempre nas capitais que o sangue humano se vende mais barato.” Quando se está desesperado, se migra pra São Paulo ou Rio de Janeiro pra se oferecer como mão-de-obra barata.
  1015. Trabalhar é seguir regras, é se disciplinar.
  1016. Fazer profissão do assassinato é admitir pra si próprio que não serve pra outra coisa.
  1017. Embora uma esposa e um terreno sejam coisas que fazem a felicidade de muitos, não é algo que todos têm.
  1018. Dessas duas coisas, terreno é mais fácil obter.
  1019. Mais difícil do que ser rico é viver de uma forma que a riqueza não seja necessária pra se sentir satisfeito.
  1020. Tendo terreno cultivável, onde se possa plantar e colher frutas e verduras diversas, se elimina uma das principais necessidades da sociedade, que é a de comprar alimento.
  1021. Mesmo assim, há o risco de o Estado confiscar sua terra.
  1022. Nesses dois anos em que os pretendentes estão separados, seria interessante que o futuro marido procurasse um lugar seguro e tranquilo para onde levar a mulher. É a hora perfeita pra procurar onde estabelecer a futura família.
  1023. O escravo deixa de existir antes da morte. Enquanto escravo, é ferramenta do seu senhor, não um ser humano.
  1024. Estado não-democrático é grande escravatura: os oligarcas ou o monarca escravizam o povo inteiro.
  1025. A personificação da vontade geral (o que todo o mundo quer) são as leis, enquanto que a personificação da vontade particular (o que cada um quer) é o costume.
  1026. Para Rousseau, quanto mais o Estado se impõe, menos há liberdade.
  1027. Quanto maior o povo, menos força têm as leis.
  1028. Os verdadeiros cidadãos não estão nas capitais, mas nas metrópoles e ainda mais nas outras cidades. Como as capitais têm um comércio muito acentuado, elas têm convenções que não há em outros lugares da região. Afinal, onde há menos trabalho se é mais espontâneo.
  1029. Se o Estado faz com que os súditos queiram deixar o país, ele está se arruinando, porque não existe Estado sem súditos.
  1030. Ter muito dinheiro em grandes cidades e quase nada em outros lugares enfraquece o comércio. É muito dinheiro, mas pouco se faz com ele.
  1031. A forma de expressar emoções varia conforme país.
  1032. Manter correspondência com amigos de outros países nos ajuda a quebrar preconceitos nacionais. Às vezes, a forma como se faz as coisas aqui não é a melhor, mas é preciso alguém de fora pra nos dizer isso.
  1033. É estranho que as pessoas se submetam umas às outras visando a independência.
  1034. Pátria e país não são sinônimos.
  1035. Para Rousseau, amar o lugar onde você nasceu é uma obrigação.
  1036. Quem ama fazer o bem provavelmente odeia a cidade, onde há abundância de maus.
  1037. Para Rousseau, o nível de maldade nas cidades se deve ao fato de que são populosas demais.
  1038. Se o nível de felicidade que se tem ao altar fosse mantido ao longo de todo o casamento, a quantidade de separações seria menor.
  1039. Para Rousseau, é mais fácil que o homem se canse da mulher primeiro, não contrário. É o que torna as mulheres ciumentas. Eu não precisava ouvir isso de um filósofo.
  1040. Para Rousseau, aquilo que conquista um coração não serve para mantê-lo.
  1041. Para manter um casamento, deve-se continuar a agir como se fossem namorados.
  1042. “Os laços que se querem apertar demasiado, rompem-se.” Não se deve exigir que o parceiro se prive demais de sua liberdade pelo outro. É preciso decidir de mútuo acordo até onde se pode ir por “fidelidade” e onde começa o abuso.
  1043. Se o casamento se tornar uma responsabilidade muito pesada, outras relações serão mais agradáveis e tomarão o lugar do casamento.
  1044. Odeio, odeio este livro!
  1045. Para Rousseau, a mulher tem o direito de fazer o marido infeliz às vezes e zombar dele. Não vale a pena se casar, nunca!
  1046. Para Rousseau, a esposa deve afastar o marido a fim de mantê-lo aos seus pés. Desde que não faça isso demais, ele será mais solícito sem duvidar de seu amor.
  1047. Sinceramente, ler essas coisas me faz pensar que eu só seria feliz na companhia de um homem. Parece até que as mulheres não estão interessadas em maridos, mas em escravos.
  1048. Amar a casa bem arrumada é, por extensão, amar a mulher que a arruma.
  1049. A educação do pai e do professor termina no casamento do filho ou do aluno. Ele passa a ser senhor de sua vida, pois terá família.
  1050. O trabalho do pai e do professor recomeça com o filho do filho ou aluno. O avô tem sua parcela na educação e o professor pode ensinar a geração seguinte.
  1051. Não acredito que esta porcaria de quinhentas páginas rendeu duzentas anotações a mais que a Suma Contra os Gentios.
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5 Comentários »

  1. […] Para Kant, quebrar as leis é sempre presunção. Se ela trabalha contra o amor próprio, é desejável que nos rebaixemos às leis. Porque ele não vive no Brasil hoje. E eu pensando que Rousseau era conformista. […]

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    Pingback por Anotações sobre a crítica da razão prática. | Pedra, Papel e Tesoura. — 22 de janeiro de 2017 @ 20:35

  2. […] que mínima, um comportamento realmente animal em todas as acepções da palavra. Rousseau tem um método quase decente para educar uma criança, se você estiver interessado em procriar mesmo […]

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    Pingback por Anotações sobre o elogio da loucura. | Pedra, Papel e Tesoura. — 6 de janeiro de 2017 @ 20:12

  3. […] sorte das mulheres, diz Rousseau, é governar os homens. Cara, que vontade de nunca mais sair do meu […]

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    Pingback por Anotações sobre os fundamentos da desigualdade entre os homens. | Pedra, Papel e Tesoura. — 5 de janeiro de 2017 @ 21:52

  4. […] choro é a vingança da criança sobre os adultos que se recusam a […]

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