Pedra, Papel e Tesoura.

31 de janeiro de 2017

Anotações sobre a crítica da razão pura.

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  1. Todos os conhecimentos dependem da experiência em maior ou menor grau. Não é possível aprender não tendo sentidos, diz Kant.
  2. Mas muitos conhecimentos são mais que simples experiência. As operações mentais modificam essas experiências, as juntam, as separam, chegando a conhecimentos novos a partir de experiências já velhas. Então alguns conhecimentos, embora englobem experiência, não são experiência.
  3. O conhecimento “a priori” é lógico, não precisa ser provado experimentalmente (todos os corpos têm peso, eu não preciso tocar todos). O conhecimento que não é a priori é experimental, precisa ser provado (este corpo é pesado, só posso dizer se é pesado ou não depois de tocá-lo).
  4. As grandes questões da filosofia, tais como Deus e liberdade, são tratadas pela metafísica, a área da filosofia que se propõe como a mais elevada. Mas, até Kant, ela andava de forma “dogmática”: ela tentava conhecer certos objetos sem se preocupar se realmente era possível conhecê-los.
  5. Por se afastarem demais da experiência, os metafísicos não têm credibilidade. Kant diz que discorrer sobre essas coisas nos leva a absurdos. A experiência é nosso alicerce. Como construir um edifício sem alicerce? É um edifício frágil quanto mais frágil é o alicerce. Então, a metafísica, quanto menos se apoia na experiência, mais frágil é, mais difícil é acreditar nela.
  6. Se a metafísica não é experimental, não pode ser provada errada. Porque provas efetivas são experimentais. Então, o debate metafísico se faz somente sobre palavras e não sobre fatos.
  7. Muito do conhecimento metafísico, portanto, é ficção.
  8. “B faz parte de A” é juízo analítico. “B não é A” é juízo sintético. O analítico pega algo e o divide. O sintético junta.
  9. O juízo empírico e o juízo matemático são sempre sintéticos, diz Kant.
  10. Existem questões que não dá pra responder com a razão.
  11. Kant diz que enquanto houver pessoas haverá metafísica. Ele não destruiu a metafísica, só mostrou que ela tem problemas fundamentais em seus fundamentos. A metafísica não deve se afastar muito da experiência, pois, quanto mais se afasta, menos crédito tem. Se isso tiver que ser feito, é preciso assumir que é “especulação”, em sentido vulgar de “pode não estar certo, é uma possibilidade, não me leve muito a sério”. É nesse sentido que Kant diz que existe um limite, cuja transposição implica abandonar a pretensão de certeza.
  12. Quando a pessoa se encontra entre várias afirmações igualmente prováveis, fica tentada a assumir que nenhuma está certa e que a questão é insolúvel. Isso se chama ceticismo.
  13. Os problemas da metafísica, diz Kant, vêm da própria metafísica, em vez de outra fonte. É como se ela percebesse problemas em si e tivesse que resolvê-los sem se destruir.
  14. O que torna a metafísica desacreditada são suas contradições. Um metafísico não concorda com o outro.
  15. Kant não quer destruir a metafísica, só reformá-la.
  16. É preciso uma ciência que diga o que é possível conhecer e o que não é possível conhecer. Assim, a metafísica saberia como não falar besteira.
  17. “transcendental” é como Kant chama o estudo dos nossos métodos de conhecimento. É o conhecimento sobre como conhecemos. Assim, se você estuda determinado objeto, esse conhecimento não é transcendental. Mas se você estuda como vou conhecer esse objeto, esse conhecimento é transcendental. Pra favorecer o entendimento do iniciado (embora às custas da atenção do leigo), o conhecimento transcendental tem como objeto o meio de conhecer um segundo objeto. Sinto muito se te confundi, mas tenho certeza de que isto esclarece algo a alguém.
  18. Os objetos da nossa razão nos são dados pela sensibilidade. Mas só formamos ideias desses objetos pelo entendimento. Os sentidos nos mostram e o entendimento interpreta.
  19. “Estética transcendental” é o estudo dos princípios da sensibilidade. “Lógica transcendental” é o estudo dos princípios do pensamento.
  20. Não é possível pensar sem “espaço” e “tempo”. É impossível imaginar que o espaço não exista, mesmo que nele não haja objeto. Para Descartes, o espaço funciona um pouco diferente.
  21. Só há um espaço. Quando se fala em múltiplos espaços, estamos nos referindo a partes diferentes do mesmo espaço. Assim, tal como a divisão da eternidade em momentos é uma operação temporal, dividir o infinito em áreas é uma ação espacial.
  22. Existem características momentâneas. Um ser não é definido por seus acidentes.
  23. Para Kant, o tempo não nos vem pela experiência. Uma demonstração sobre como a ideia de tempo pode nos aparecer pela experiência se encontra no Ensaio.
  24. Também não é possível pensar sem tempo. Nossa compreensão dos fenômenos depende de conceitos como “antes” e “depois”, que implicam tempo.
  25. Só há um espaço: aqui. Só há um tempo: agora. A totalidade dessas duas coisas não cabe na mente humana, porque o aqui é infinito e o agora é eterno. Compreendê-los requer seccionamento. O infinito precisa ser divido em espaços, que são medidos com centímetros, metros, quilômetros. O eterno precisa ser dividido em tempos, que são medidos com segundos, minutos, horas.
  26. Tempo e espaço existem em nós, são órgãos da cognição. Fora de nós, não existe antes ou depois, ou aqui e acolá. Só aqui e agora, eterno e infinito. Pra coisas sem existência objetiva, tempo e espaço ditam demais a nossa vida.
  27. O estudo do espaço e do tempo cabem à estética transcendental.
  28. O tempo é sempre o mesmo, o que muda são as coisas que agem no tempo.
  29. Uma “coisa em si” é algo que não parece diferente para sentidos em condições diferentes. É difícil pensar em algo assim, a menos que seja abstrato.
  30. Um juízo empírico não pode ser universalizado absolutamente.
  31. Todos os objetos que conhecemos são fenômenos. Esses fenômenos são organizados na mente através do nosso aparato de cognição (espaço e tempo).
  32. Todo o conhecimento relacionado a um sentido é fenômeno. Assim, existem coisas que “conhecemos” que não são fenômenos, como as substâncias intelectuais: amor, justiça, triângulo… Se bem que, fora da geometria e da matemática, as substâncias intelectuais são metafísicas. Kant ainda questiona se dá pra “conhecer” essas coisas.
  33. Existem duas fontes de conhecimento: intuições e conceitos.
  34. A intuição é sensível. O entendimento é a interpretação do sensível a fim de formar conceito (ideia).
  35. Existem regras comuns a todas as ciências. Mas cada ciência tem também regras particulares.
  36. O que é a verdade? É a conformação do conceito à realidade. É quando eu penso ou digo algo que realmente aconteceu, acontece ou acontecerá. Se eu digo “isto é uma bola” e a coisa realmente é uma bola, falei a verdade. Do contrário, estou enganado.
  37. É possível fazer sentido e estar errado. Um argumento lógico que não descreva a realidade, mesmo que faça sentido e conclua corretamente, está errado.
  38. A forma do raciocínio pode estar certa e a conclusão pode ser lógica, mas o conteúdo pode estar errado. Nesse caso, mesmo que o raciocínio esteja reto, vai parir uma mentira. Exemplo: a Proposta de Emenda à Constituição 55 de 2016 quer congelar gastos públicos para sanar as dívidas do Estado, 59% dos brasileiros apoia o congelamento de gastos públicos para sanar as dívidas do Estado, logo 59% dos brasileiros apoia a Proposta de Emenda à Constituição 55 de 2016. A forma do raciocínio está correta e ele conclui logicamente, mas está errado: a Proposta congela gastos em setores que a maioria da população não aprovaria (educação e saúde), então o fato de 59% dos brasileiros apoiar congelamentos em gastos públicos não garante que esses 59% apoiam a Proposta, uma vez que não lhes foi concedido saber onde os congelamentos ocorreriam.
  39. À decomposição do conhecimento a priori se dá o nome de “analítica transcendental”.
  40. Ela trabalha com aquilo que dispensa prova empírica.
  41. Em vez de decompor o objeto, decompor o sujeito.
  42. O entendimento não trabalha com as coisas sensíveis, como faz a sensibilidade, mas com as ideias que fazemos das coisas sensíveis. Ele trabalha com conceitos, abstraídos das sensações, e não com as próprias sensações presentes.
  43. “Síntese” é juntar o conhecimento de múltiplos objetos em um conhecimento único. Um conhecimento para vários objetos.
  44. Se o conhecimento é do fenômeno, não é a priori.
  45. As categorias de Kant são a priori, porque a experiência depende delas. Então, elas devem ser admitidas sem prova empírica (embora desfrutem de prova lógica).
  46. Intuição é representar (forma uma ideia de) uma coisa sobre a qual ainda não se pensou.
  47. O “espaço” é mais uma condição de conhecer do que um conhecimento mesmo.
  48. Eis outra obra da qual quase sou incapaz de extrair alguma coisa. Kant é difícil.
  49. Imaginação é representar um objeto intuitivamente sem a presença desse objeto.
  50. Sendo a intuição sensível, a imaginação depende dos sentidos. É por isso que não podemos imaginar algo totalmente estranho a tudo o que já vimos, ouvimos ou sentimos. Mesmo que eu imagine uma montanha de ouro, isso não é uma informação independente dos sentidos, porque eu já vi uma montanha e já vi ouro. Tudo o que fiz foi combinar duas informações visuais. É possível fazer o mesmo com outras sensações, notavelmente a audição. Eu, pelo menos, nunca consegui imaginar um cheiro, gosto ou sensação táctil com a mesma fidelidade com que imagino uma aparência ou som.
  51. Não é possível imaginar o tempo puro. É possível imaginar algo relacionado ao tempo, mas não o próprio tempo.
  52. Não podemos conhecer a nós mesmos completamente, mas somente enquanto fenômeno.
  53. A natureza (realidade) é o conjunto de todos os fenômenos, dizem alguns. Eu prefiro pensar de outra forma: tudo o que está acontecendo agora, isso é a realidade. Isso porque, quando digo que a natureza é fenômeno, eu excluo da natureza aquilo que não posso perceber sensualmente. Mas existem coisas que existem e eu não percebo. É pra isso que alguns animais nascem com mais de cinco sentidos. Se todos fôssemos surdos, por isso os sons deixariam de fazer parte da natureza? O pássaro ainda cantaria e, se houvesse um ser com audição, perceberia a vibração do ar como som.
  54. Não existe escola que ensine bom-senso. Isso só se aprende sozinho.
  55. O bom-senso é a aplicação correta do conhecimento. É possível ser muito sábio e conhecer muitas coisas e ainda assim fazer muita besteira. Isso pode acontecer por falta de experiência ou falta de exemplos.
  56. Algumas pessoas precisam de exemplos, porque seu bom-senso ainda não é bom o bastante. É como se educa alguém “sem juízo”.
  57. É real o que existe em determinado tempo. É necessário o que existe em todo tempo.
  58. Um raciocínio que se contradiz é falso.
  59. Se algo é de um jeito agora e de outro jeito depois, isso não é contraditório. Ele pode mudar.
  60. Um conhecimento é objetivo se ele se refere a alguma coisa. Sejamos práticos: não é possível ter conhecimento do nada e um conhecimento de algo impreciso é também impreciso.
  61. Verdade é a conformação do conceito ao objeto, diz Kant.
  62. “Percepção” é sensação consciente.
  63. Antecipação” é determinar sem provas algo que vai acontecer, somente pela sucessão lógica. É como o hábito de David. “Se eu colocar a mão no fogo, vou me queimar”, é uma antecipação. Mas eu só vou ter certeza se eu colocar a mão lá e constatar que me queimei depois disso. Seguro, sim. Exato, não.
  64. Há cores abaixo do vermelho. Só não as vemos.
  65. É possível dividir tempo e espaço infinitamente.
  66. Algumas ideias metafísicas estão tão arraigadas em nosso intelecto, que são usadas como se fossem provadas empiricamente. Estão dadas por garantidas. É especialmente trágico quando o cientista que rejeita a metafísica usa pressupostos da metafísica sem perceber.
  67. “Empirismo” é conhecer um objeto pelas percepções que tenho dele. Não quero saber do que a coisa “é”, mas de sua realidade do fenômeno, isto é, do que posso ver, ouvir e sentir. O empirista muitas vezes não toma essas informações como sendo o objeto apreendido, preferindo abdicar de um conhecimento que poderia ser exato (mas cuja conclusão é insegura) para obter um conhecimento bastante (e seguro).
  68. Sucessão, permanência e simultaneidade são as três leis que determinam o conhecimento de algo segundo critério temporal.
  69. Para Kant, a substância não muda. Mas depende do que ele chama de substância. Aristóteles chama de substância a união de uma essência imutável com acidentes que lhe acometem, que mudam o estado da substância sem lhe alterar a essência. Então a substância muda, não se a essência mudar, mas se seus acidentes mudarem.
  70. Kant parece usar “substância” como sinônimo de “essência”, ao dizer que a substância não muda, só seus acidentes.
  71. Para Kant, nascer não é vir à existência, mas apenas uma modificação de algo que já existia. Analogamente, para ele, a morte não seria o fim da existência. Na Crítica da Razão Prática, ele insiste na imortalidade da alma. Esse talvez seja um dos argumentos que ele usaria pra demonstrá-la. Isso se estivermos falando de cada ser em particular, pois, se estivéssemos falando da existência como um todo, então ele estaria se reportando ao ser dos pré-socráticos e o nascimento seria somente uma modificação do que já existia (a realidade). O problema aqui é que a alma, mesmo imortal, ainda precisa de um começo. Eventualmente, algo teria que vir do nada através de um ato criativo. Do contrário, todas as almas seriam co-eternas a Deus.
  72. Nada se cria, nada se destrói, tudo se transforma.
  73. Não é possível conhecer as coisas em si. Só se pode conhecer os fenômenos.
  74. A causa e o efeito podem subsistir ao mesmo tempo. A aparição de um efeito, portanto, não necessariamente marca a extinção da causa.
  75. Se algo atende às condições formais de execução, é possível.
  76. Se algo atende às condições materiais de execução, é real.
  77. Se algo é real e determinado, é necessário.
  78. Não somos capazes de sentir campos magnéticos porque não temos um sentido pra isso. Precisamos convertê-los em algo que possamos sentir. Por exemplo, uma representação na tela, gerada a partir de dados obtidos por um sensor.
  79. Existiam dois tipos de idealista na época de Kant: os que achavam que existência de coisas fora de nós era duvidosa e os que a achavam ser impossível.
  80. Tudo o que é real é possível, mas nem tudo o que é possível é real.
  81. Um “postulado” é uma afirmação conclusiva sem provas e sem demonstração. Não é diferente de dizer “eu acho que”. A diferença é que “achar” tem uma conotação mais leviana, como se a pessoa estivesse dando um chute, mas não é assim. Muitos “acham” depois de raciocinar. É só que “eu postulo que” não cabe, ainda, na fala vulgar. Na prática, “eu acho” é apenas a forma vulgar de “postulo”.
  82. Mesmo quando você “acha” é preciso dizer por que você “acha” aquilo.
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