Analecto

10 de janeiro de 2017

Anotações sobre o ensaio sobre a origem das línguas.

  1. O humano se diferencia do animal também pelas palavras. Mas uma nação humana se diferencia de outra pela linguagem (vocabulário e gramática).
  2. É possível saber de onde uma pessoa é ouvindo-a falar. Não somente se ela tiver um idioma diferente, pois mesmo os brasileiros diferenciam-se pelo sotaque.
  3. A pergunta do livro: por que falamos nosso idioma? Levando em consideração que Rousseau diz quase de imediato que a razão é natural, ele não será capaz de explicar o caso do Brasil, uma vez que falamos português porque a nação brasileira foi forçada a isso pelos europeus que invadiram o território indígena. Nada tem isso de natural. Uma explicação melhor para isso será a do Discurso à Nação Alemã. Infelizmente, é um livro puxa-saco que eu acho até que é precursor do nazismo.
  4. Só podemos agir sobre os outros pelos sentidos. Então, a linguagem só poderia ser pautada em sinais sensíveis voluntários: sons e gestos.
  5. O gesto fala mais com menos, no estado primitivo de linguagem. As línguas dos surdos são de gramática muito simples. É até mais fácil aprender a falar por gestos.
  6. Mostrar vale mais que falar.
  7. É possível ser eloquente sem palavras, se você conhecer meios de comunicação não-verbal.
  8. A linguagem dos gestos e dos sinais (“mostre, não conte”) é ótima para comunicar coisas objetivas. Mas as palavras são ótimas para comunicar coisas subjetivas. Com efeito, não dá pra mostrar minha tristeza, tenho que contá-la para que seja corretamente entendida.
  9. O fato de os animais se comunicarem sempre da mesma forma segundo suas espécies parece sugerir que animais nascem sabendo essa linguagem. Com efeito, se fosse adquirida, haveria diferenças regionais entre a linguagem dos castores, por exemplo.
  10. Se as primeiras palavras comunicavam emoções. Sentimentos fortes nos fazem gritar, rir, chorar ou gemer. Já os gestos comunicavam coisas concretas, então as línguas não tinham nada de muito preciso, pois que emoções tendem a ser vagas. Pense na língua das crianças. Elas se expressam de forma que soa quase poética, sendo na verdade apenas pueril e rudimentar, como “a lua é o sol da meia-noite” ou “tranquilidade é quando o pai diz que vai te bater e muda de ideia.” Rousseau usa o exemplo das línguas orientais, de como são poéticas. Então, a concisão e precisão de linguagem veio depois. As primeiras línguas eram figuradas, analógicas, metafóricas, e precisavam ser assim porque ainda não havia coisa melhor.
  11. As interjeições têm pouca articulação. Porque elas são imediatas. São muito mais sons que palavras.
  12. Se existe tonalidade (acentos) nas vogais, a necessidade de consoantes é menor. Por exemplo, no chinês, “má” pode ter três significados dependendo da forma como você pronuncia o “a” (alongado é “mãe”, aumentando a agudez é “cavalo” e pronunciando por curto tempo é xingamento).
  13. A linguagem que ganha em claridade perde em beleza. A linguagem bela frequentemente não é clara. Pegue a música uma música do Zé Ramalho, como Chão de Giz, e tente me dizer do que ele está falando.
  14. Uma mesma palavra pode ser pronunciada diferente por pessoas de diferentes línguas ou sotaques.
  15. Falar como se escreve é ler sem livro. Não é o ideal. A língua falada tem que ser espontânea pra ser boa.
  16. Uma vogal acentuada é diferente de todo de uma vogal sem acento. É como se tivéssemos mais que cinco vogais, se contássemos cada vogal acentuada como uma vogal própria.
  17. Quem não escreve, mas canta, tende a ser melhor de poesia.
  18. Por que palavras que se pronunciam igual não são escritas igual?
  19. A língua culta não tem energia. Os pobres, à sua maneira, falam de forma mais bonita. Sua fala tem a vivacidade que o culto não tem. É por isso que eu digo: não se deve falar como se escreve. A linguagem falada só tem uma regra: eu devo falar para o outro entender. Se ele estiver entendendo o que eu falo, que importa que minha linguagem não seja de livro?
  20. Para alguns, como eu, o inglês deve ser aprendido duas vezes: módulo de escrita, módulo de fala.
  21. A crueldade nasce do temor e da fraqueza.
  22. O conhecimento do novo vem da comparação com o velho.
  23. Sentimentos sociais, como vingança e piedade, não ocorrem aos isolados.
  24. É possível esquecer o próprio idioma.
  25. Guerra é caça de gente.
  26. O progresso se deve ao ataque dos problemas. Se a humanidade não resolvesse seus problemas, se acostumaria a esses problemas. Se não os visse, não procuraria melhorar. Em ambos os casos, não há progresso.
  27. Quem nasce em um país ruim, migra pra um melhor.
  28. Um desastre de grandes proporções une os seres humanos. Humanos se ajudam pra reparar os danos e voltar a suas vidas.
  29. Numa cruel provação, o que sobrevive fica mais forte, e o que é fraco acaba morrendo. Ele está dizendo com outras palavras o que Nietzsche dirá depois: o que não me mata, me torna mais forte.
  30. Isso antecipa a teoria da evolução das espécies. Nós, humanos, por exemplo, nos dividimos em etnias. Porque determinada etnia é nativa de determinado lugar? Porque, naquele lugar, quem não tinha determinada configuração biológica morria. Ao longo dos anos, isso fez com que certos humanos se virassem melhor em determinado terreno, pois herdaram de seus antepassados um conjunto de características que foram decisivas para a sobrevivência deles. Como os diferentes morriam, só os que tinham condições de sobreviver se reproduziam, perpetuando essas características e modulando a descendência de determinada forma.
  31. O ócio alimenta as emoções. O trabalho as controla.
  32. A sonoridade da voz, a articulação, o volume, enfim, a forma como se fala contribui para transformar alguém num fanático religioso. Porque a voz treinada pra isso, é uma voz que seduz o ouvinte e lhe incita emoções. Para alguns grupos islâmicos, música é pecado por suspender a razão. Irônico o fato de falar também não ser, pela mesma razão.
  33. Pra ser fanático, é preciso estar convicto. O pastor ladrão só parece fanático; ele mesmo não acredita no que diz. Só quer dinheiro dos fiéis.
  34. As primeiras histórias e leis eram ditas em versos rimados. Isso tinha a função de torná-las facilmente memorizáveis. Isso era especialmente útil numa época em que não existia escrita.
  35. A música nasceu da modulação da voz na hora de recitar esses versos. Assim, música e poesia nascem juntas na mesma função, quer Rousseau.
  36. Dizem que o nordestino fala “cantando”, desafinando as sílabas gradualmente em uma direção e de volta enquanto fala. Isso é positivo pra Rousseau, é belo.
  37. A eloquência incorpora técnicas poéticas também.
  38. Antigamente, o professor de gramática ensinava música também. Era como se gramática e música fossem uma coisa só.
  39. O grego também se falava “cantando”, para melhor mostrar emoções.
  40. A pintura agrada também por razões além do físico. Há uma relação espiritual entre pessoa e obra de arte. Se fosse algo somente físico, pessoas de disposição física igual reagiriam da mesma forma ao ver o mesmo quadro. Se assim fosse, arte seria uma ciência natural.
  41. Compor melodia é desenhar com sons.
  42. A melodia incita emoções por imitar as inflexões da voz humana. Quando a pessoa chora, ela fala de um jeito. Se a melodia for capaz de imitar, à sua maneira, esse jeito de falar, ela irá incitar tristeza no ouvinte. Da mesma forma, quando a pessoa está alegre, ela fala de outro jeito. Se a melodia lembra esse jeito, tem-se uma melodia alegre. Assim, compor melodias que invoquem determinada emoção requer que a melodia lembre a forma como uma pessoa que experimenta aquela emoção fala. É preciso que o ouvinte reconheça um sujeito lírico que sente. Isso explica porque algumas pessoas, como eu, choram com algumas músicas alegres: minha experiência diz que existem diferentes matizes entre alegre e triste e algumas músicas alegres me parecem pender para o lado triste, normalmente o melancólico, além de que o humor de uma melodia pode mudar durante sua execução. Por exemplo, aquela música me soa neutra-melancólica. Fora do refrão, ela me faz sentir como se alguém estivesse desanimado, mas empurrando a vida com a barriga. O refrão é neutro no máximo, pra mim. Assim, a reação a uma melodia muda dependendo da experiência que determinada pessoa tem com as emoções. Eu tive depressão, então conheço mais matizes de entonação tristes que alegres.
  43. É questão de imitar os impulsos da alma em sua consequência. Certo impulso produz um som na voz humana. Tente produzir impulso análogo com um instrumento e você falará para a alma do ouvinte.
  44. A harmonia não deve atrapalhar a melodia. Elas devem estar de acordo, mas, se isso não for possível, a melodia tem prioridade.
  45. A música que não agrada e não emociona não presta. Causa tédio. É preciso que a música, como qualquer bela arte cause prazer em quem a consome.
  46. A música só surte efeito em quem reconhece algo de familiar na música. Nem todos os países apreciam música brasileira. Meu colega o Reino Unido não curte música popular brasileira, por exemplo. Porque não existe nada parecido onde ele mora. É algo totalmente estranho a ele. Uma música tem que ser um pouco diferente daquilo que já foi ouvido, mas não pode ser completamente diferente. Soará uma confusão, na pior das hipóteses. Por isso que ritmos nascem de outros ritmos já apreciados. Rousseau inclusive fala que é preciso saber o idioma da música pra gostar dela, mas isso está errado: muitos de nós gostamos de música internacional sem saber o que está sendo cantado e alguns de nós deixam de gostar da música ao saber da tradução. Então, também neste ponto, Rousseau não é atual. É em outros, mas não neste da letra.
  47. A beleza da cor é sua permanência e a beleza do som é sua sucessão, diz Rousseau. Logo, é inútil pintar para os ouvidos tanto quanto é inútil cantar para os olhos.
  48. Não há nenhuma relação entre cor e som. Isso é coisa de quem quer fazer sistema. Não é ruim fazer um, mas que se faça um menos ridículo.
  49. A pintura se relaciona com o espaço. A música se relaciona com o tempo.
  50. A música interessa mais porque é mais humana do que a pintura. A pintura reflecte a natureza, mas a música reflecte o humano. Isso não quer dizer que uma é melhor que a outra, mas que uma tem uma tendência maior a agradar.
  51. O engano dos músicos: tratando a música como mera harmonia e algo meramente mecânico, se expurga dela o sentimento. Ela se torna mais do mesmo, não emociona. Ela tem harmonia, mas a harmonia é vazia sem melodia.
  52. Se faz ciência da harmonia. A teoria musical é quase completamente isso. Aqueles que se ocupam demais da harmonia e esquecem a melodia, fazem música que enjoa rapidinho.
  53. Às vezes fazemos algo que não sabemos ser o correto só porque todo o mundo faz.
  54. Para manter o estado de coisas estabelecido pelo governo, convém continuar com o que se faz (se o povo está gostando) ou impedir que as pessoas se juntem (se o povo não está gostando).
  55. Causar emoção com línguas monótonas requer gritos. O cara se esgota fazendo a plateia agitar com um discurso. Mas em línguas melodiosas, é mais fácil excitar emoções sem cansar a voz.
  56. Se uma língua não é capaz de falar às multidões eficientemente, então aquele povo se reunirá menos sobre questões importantes. Por isso Rousseau as chama “línguas escravizadas”, porque não há revolução sem união e não há união sem discurso. Um mau discurso engendra má união.
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