Analecto

12 de janeiro de 2017

Anotações sobre o tratado das sensações.

Filed under: Livros — Tags:, , , , — Yure @ 18:28
  1. Dizer que o conhecimento vem dos sentidos não é literal. O conhecimento vem das sensações obtidas por esses sentidos, diz o filósofo.
  2. Os sentidos captam informações, mas não produzem conhecimento. O conhecimento nasce quando a alma, isto é, a consciência interpreta essas sensações. Quando estamos dormindo, nosso ouvido continua ouvindo, nosso nariz continua cheirando, e nem por isso sabemos o que ouvimos ou cheiramos à noite (considerando que soltamos gases com mais frequência quando dormimos, isso não é ruim), porque estamos inconscientes. Na verdade, sem consciência das sensações, nem o tempo é perceptível: uma noite de sono parece durar um segundo.
  3. Investigar as sensações e a formação das ideias é fundamental. O conhecimento exterior é mais claro se conhecemos também a nós mesmos. Não vamos obter conhecimento confiável se não sabemos como conhecemos em primeiro lugar.
  4. Quanto mais estudamos essa matéria, mais percebemos que muito do que sabemos está errado. Estudar os fundamentos é se propor a renovar o que é construído sobre esses fundamentos.
  5. Quando duas pessoas escrevem a mesma coisa, um sendo alguém respeitável que está no ramo há mais tempo, outro sendo uma novidade dos nossos tempos, ambos receberão crédito diferente. Um será criticado, o outro será dado por garantido. É injusto julgar as pessoas não pelo que elas fazem, mas pelo seu crédito público. Então se você diz uma coisa sendo um ninguém, não vão te dar ouvidos. Mas se outra pessoa, de importância, disser a mesma coisa que você disse, o ouvirão.
  6. Quando se quer discordar de alguém só por discordar, se concorda com quem afirma o contrário, mesmo que só da boca pra fora. Também isso é injusto.
  7. Vamos fazer o lance da estátua. Imaginemos uma estátua sem nenhum sentido, mas consciente (com sentimento), e veremos se suas faculdades mentais não se desenvolvem também pelos sentidos. Qual é o problema disto? É que se dizemos que ela não tem faculdades mentais, mas tem sentimento, suponho uma consciência inútil, que equivale a não ter consciência. É preciso admitir faculdades inatas, além do sentimento. Mas o filósofo as negará e tentará mostrar que elas vêm também dos sentidos. Vejamos até onde ele vai.
  8. As sensações passam por nós de forma fugaz. Um som não existe mais depois que sua fonte cessa de produzi-lo. Então, se nos ficamos desinteressados das sensações depois que elas cessam, seria quase o mesmo que não sentir. A sensação não serviria de nada. O que nos faz aprender com as sensações é que algumas nos causam prazer e outras nos causam dor. Queremos buscar as prazerosas e nos afastar das dolorosas. Isso se torna um dos nossos primeiros aprendizados.
  9. A privação de algo que julgamos necessário à nossa felicidade nos causa carência, fonte dos desejos.
  10. A carência é fonte de nosso movimento. Andamos porque somos infelizes. Paramos quando estamos satisfeitos.
  11. “Sentir” é prestar atenção a um estímulo sensorial. É possível receber estímulo e não sentir, como é o caso dos estímulos que nos sobrevém quando dormimos. Não os sentimos, pois não lhes prestamos atenção.
  12. Para o filósofo, a memória também vem das sensações. Aliás, ela é uma sensação, no seu raciocínio. Isso porque ele toma memória no mesmo sentido de lembrança e não no sentido de faculdade de lembrar. Para ele, memória é o conteúdo, não o espaço. Quando recordamos, lembramos sensações vividas em um instante anterior. Logo, memória é lembrança de sensação e, quando ela se apresenta ao espírito, é, ela mesma, sensação. O problema aqui é a identificação de memória e lembrança. As lembranças devem ficar em algum “lugar” do qual possam ser puxadas à consciência. Esse “lugar” deve preceder o arquivamento de lembranças. Então a memória, não como lembrança, mas como faculdade de lembrar, é inata. Ou, pelo menos, é como eu vejo as coisas.
  13. As outras sensações originam as faculdades de julgamento, comparação, entre outras, quando estudamos sensações diferentes. De fato, isso faz sentido. O julgamento não parece inato. Ele é feito quando comparamos duas coisas. Nosso primeiro julgamento não pode ser sobre ideias abstratas, pois estas já descendem do julgamento sobre as sensíveis. Então, o primeiro julgamento é entre sensações.
  14. A sensação pode se tornar reflexão, para o filósofo. Discordo. A reflexão deve ser inata, pois a reflexão torna o julgamento possível. Sem reflexão, não há como fazer ligações entre duas sensações. A capacidade de refletir pode até ficar dormente até o instante em que sensações a despertem. Mas não estou convencido, apesar de seu raciocínio, de que a reflexão é sensação e que, portanto, vem de fora. É levar o empirismo ao seu extremo.
  15. Não tome uma metáfora como uma noção exata.
  16. Para o filósofo, o prazer e a dor produzem a atenção às sensações. Dessa atenção nascem a memória e o juízo, ele diz.
  17. Os sentidos trabalham em conjunto. Não é possível que um animal se desenvolva por completo tendo somente um. Quanto mais sentidos temos, mais habilidades temos. Mas temo que o excesso de carga sensorial nos causasse dano. Pensando assim, é até bom ter só cinco (ou seis, se você considera o equilíbrio um sentido).
  18. Sabemos que algo existe quando ele nos provê uma sensação. Isso não garante uma ideia exata do objeto. Se sentimos o cheiro de algo, sabemos que ele existe, mas não sabemos sua cor, gosto, forma ou som produzido. Mesmo que soubéssemos, o fato de nossos sentidos serem limitados em número e em qualidade, os dados sensoriais não garantem que vemos a coisa como ela realmente é. Por isso só se faz ciência sobre dados sensíveis, não sobre as coisas mesmas, porque isso seria fazer metafísica.
  19. Quando um livro é escrito pra intelectuais, não precisa falar do básico; o sabido ficará entediado se você o fizer. Por isso livros de ramos específicos são tão complicados; o escritor assume que você já sabe o básico, então ele não explica isso.
  20. Se algo se aperfeiçoa é porque não nasceu conosco, como o discernimento, diz o filósofo. Ora, mas as pernas se aperfeiçoam e nasceram conosco. O fato de algo poder melhorar em nossa mente ou corpo não implica que não nascemos com ele.
  21. O discernimento se aperfeiçoa pelas sensações.
  22. Através do olfato somente, já é possível fazer ideias de número, presença, localização, entre outras.
  23. O primeiro passo pra resolver um problema é bem elucidá-lo. É preciso colocar o problema em palavras claras, que todos os envolvidos possam compreender.
  24. A distinção entre os corpos pode ser feita pelo tato. Quando nos tocamos, há uma sensação recíproca que nos diz que estamos tocando nosso próprio corpo. Mas quando tocamos outra coisa, a sensação é diferente. O objeto não corresponde: sentimos ele, mas não sentimos a nós mesmos. Logo, é outra coisa.
  25. É possível, também só pelo tato, saber de tamanho e forma.
  26. O tato completa naquilo que os outros sentidos faltam. Sua ausência é tão nefasta que ocorre muito raramente.
  27. O olho sozinho não nos diz a distância das coisas. Sabemos a distância com certeza porque tocamos as coisas. Pelo toque, temos uma medida, que usamos para julgar a distância das coisas que não tocamos, diz o filósofo.
  28. Ter sentidos limitados impede que saibamos tudo, mas nos permite sobreviver. Se nossos sentidos fossem mais potentes, não poderíamos tolerar os estímulos que agora toleramos.
  29. Gosto do fato de o filósofo oferecer um resumo ao fim de cada capítulo.
  30. Se não é possível explicar o que uma coisa é, sua origem também fica ofuscada.
  31. Nem todas as sensações são ideias. Mas todas as ideias vêm de sensações.
  32. Se as ideias vêm de sensações e sensações são uma relação entre nossa alma e o objeto sentido, então é impossível conhecer as coisas como elas são. Kant dirá o mesmo. Só conhecemos as coisas como elas nos parecem. Essa ideia que fazemos delas pode muito bem não corresponder a elas.
  33. Existem ideias simples e ideias complexas. As simples são sensações. As complexas são sensações combinadas.
  34. Nossas ideias de coisas sensíveis são incompletas, porque somos sensualmente limitados. Mas nossas ideias de coisas abstratas podem ser completas. É o caso da matemática, que abstrai conteúdo do real. Esse conteúdo abstrato é completamente compreensível.
  35. Corpo é porção limitada de matéria. O filósofo diz de outra forma: é aquilo que você toca, ouve ou sente quando está presente. O que seria a matéria então? Ente perceptível. É uma definição incompleta, mas é o melhor que eu tenho.
  36. Ideias sensíveis são aquelas que são feitas de coisas que nos impressionam agora. Ideias intelectuais são memórias, ideias feitas de coisas que não estão mais aqui.
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2 Comentários »

  1. […] salto de dificuldade entre este livro e o que eu estava lendo antes é absurdo. É difícil entender qualquer coisa neste livro. Tem um ditado na faculdade que diz: […]

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    Pingback por Anotações sobre a crítica da razão prática. | Pedra, Papel e Tesoura. — 23 de janeiro de 2017 @ 17:06

  2. […] Como definir prazer ou dor sem acabar explicando o que é sensação? […]

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    Pingback por Anotações sobre os diálogos entre Hylas e Philonous. | Pedra, Papel e Tesoura. — 13 de janeiro de 2017 @ 18:51


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