Analecto

21 de fevereiro de 2017

Anotações sobre a crítica do juízo.

Filed under: Entretenimento, Jogos, Livros, Música, Passatempos — Tags:, , , — Yure @ 14:19
  1. Se você vê um monumento suntuoso, você pode dizer que reprova o uso de recursos de maneira supérflua para demonstrar poder. Mas que é bonito, isso é.

  2. Outros elementos além da beleza, e que trabalham com ela, influenciam no meu gosto.

  3. O gosto de alguém só se torna objeto de interesse em sociedade.

  4. O objeto do gosto é o belo. O gosto julga o belo. Assim, nem todos gostam de todas as coisas belas. Todos concordam que a Monalisa é um belo quadro, mas nem todo o mundo gosta. Assim, se o belo é universal, o gosto é pessoal. O Prelúdio e Fuga em A Menor também é belo, mas eu entendo perfeitamente se você não gostar.

  5. Mas e se eu gostar de uma coisa feia?

  6. O conceito de agradável é sempre pessoal. Assim, nem tudo o que é bom é agradável, como o remédio que tem gosto ruim apesar de ser bom.

  7. Embora beleza possa ser inconfundível, o gosto não pode ser censurado como se fosse logicamente errado e como se fosse possível se corrigir. Gosto não se discute, cada um tem o seu.

  8. Pra algo ser belo é preciso obter consenso. É preciso que todos concordem que é belo, mesmo que nem todos gostem.

  9. Se alguém diz que algo é belo, está se pronunciando por todos.

  10. Belo apraz universalmente e esteticamente. Isso é muito difícil de acontecer, se não impossível.

  11. Uma pessoa de bom gosto aprecia a beleza sem necessitar que algo seja adicionado. Se a pessoa precisa de “atrativos” ulteriores para apreciar algo belo, como quem põe catchup na pizza, ainda não tem gosto amadurecido.

  12. É mais fácil ser belo aquilo que é simples, como as cores tomadas isoladamente. Já as combinações de cores podem não ser belas, mesmo que as cores isoladas sejam.

  13. Nada de errado em utilizar atrativos pra realçar a beleza, mas tenha em mente que realçar a beleza não é aumentá-la.

  14. Se deve julgar a beleza por ela mesma, não pelos atrativos adicionados pra chamar atenção pra ela. Seria como julgar a beleza de uma mulher por sua maquiagem.

  15. Um filósofo e um vulgo podem se apoiar nos mesmos princípios, mas o filósofo conhece o princípio com mais clareza.

  16. A beleza de algo não tem nada a ver com sua função.

  17. Kant diz que é belo algo que é aceito como belo unanimemente. Mas os exemplos que ele dá não são considerados belos unanimemente.

  18. É possível uma música sem letra ser bela.

  19. Não existe regra objetiva para determinar o que é belo.

  20. Não há modelo de beleza, mas há objetos belos. As “belas árvores” não são iguais entre si, como se seguissem um modelo.

  21. Para Kant, artes do discurso têm que ser exercidas sobre idiomas mortos pra evitar que o poema tenha que ser reescrito por alterações na gramática ou ortografia oficiais, bem como para evitar o risco de suas expressões se tornarem estranhas às gerações futuras. Então, pra Kant, é recomendável que o poeta escreva seu trabalho em latim. Um exemplo de expressão que se torna estranha às gerações seguintes é o “desfraldando” do Hino do Ceará. “Fralda”, antigamente, era roupa. Então, “desfraldando” é “despindo-se”. Mas você provavelmente não sabia disso. Então, se você lesse o Hino do Ceará sem saber disso, talvez o “desfraldando” soasse engraçado. Outra situação engraçada desse feitio está na Bíblia Sagrada traduzida por João Ferreira de Almeida. Na edição de 1819, é dito que as “fraldas” de Deus enchiam o templo. Trata-se de suas vestes.

  22. Em artes representativas, como a pintura, a “vaca-modelo” é uma média entre todas as vacas que o pintor viu na vida. Isso não quer dizer que essa vaca seja bela, mas que o ideal.

  23. A imagem que exagera características de um modelo é uma caricatura. É o que ocorre nos desenhos animados. Há compromisso com a realidade, mas não somente com ela, de forma que o artista pode tomar liberdade de exagerar certos atributos e ignorar outros.

  24. Dizer que algo é belo implica a intenção de que outros concordarão que esse algo é belo.

  25. A imaginação não pode ser “livre” e ao mesmo tempo estar em conformidade a uma lei. Então, como pode ser? A minha imaginação, se é livre, não deveria obedecer regra alguma.

  26. Se a imaginação obedece regras, então ela não está comprometida com o belo, e sim com o bom. Estando comprometida com o bom, não produz arte, mas moral.

  27. Restringir a imaginação à regras coibe o juízo com base no gosto. O juízo não é mais estético.

  28. Se duas pessoas se manifestam de forma diferente sobre a beleza de um objeto, uma delas está errada. Quem tem razão: o artista ou os críticos? Se o critério de beleza varia entre os dois, discordarão.

  29. Se algo não foi feito pela imaginação e não parece representar nada, esse algo dá tédio de olhar. É como um quadrado. Não preciso de imaginação pra fazer um quadrado. E o que um quadrado numa folha de papel representa? Por que poucas pessoas curtem arte contemporânea, em relação a formas de arte mais vulgares, por assim dizer? Não entendem qual é o fim da arte contemporânea, isto é, o que ela deveria representar. É legal, mas você fica boiando. Da mesma forma, se algo tem uma clara representação, mas não é produto de imaginação, não é visto como arte, ao menos no sentido estético, mas como outra coisa. Como as fórmulas matemáticas, que são representações lógicas de fenômenos, mas não tem nada a ver com imaginação. Não dá pra olhar pra B – 4 ° A ° C e sentir prazer estético. Não dá nem pra chamar de bonito.

  30. Uma boa arte é aquela para qual você sempre volta. Algo feito com grande quantidade de imaginação faz a pessoa voltar mais vezes, porque é como se fosse sempre novo. Algo feito seguindo um excesso de regras pode até impressionar na primeira vez, mas perde a graça se for repetido muitas vezes. É como a música que você gostava e depois de ouvi-la várias vezes, você percebe que não gostava tanto assim. Afinal, se você gostasse, não deveria se cansar de ouvi-la tão facilmente.

  31. O sublime é diferente do belo. A beleza impressiona pela harmonia, pela simetria, pela boa execução e coisas que tais. É a Monalisa ou aqueles menininhos gordinhos pelados do barroco. O sublime impressiona pelo poder, pela grande quantidade e pela magnitude. É uma erupção vulcânica ou uma tempestade de raios. Antes que você pergunte como apreciar uma erupção vulcânica estando dois palmos abaixo da lava, o sublime só pode ser apreciado por quem não pode ser negativamente afetado por sua execução. Ainda é preciso estar em segurança.

  32. O sublime é a imaginação levada a sério. Seus objetos podem ser mortais.

  33. O sublime comporta uma momentânea inibição da força vital, seguida de uma grande liberação dessa mesma força. Há um aturdimento, talvez até um medo. Como um show do Slipknot (se bem que eu prefiro System).

  34. A beleza pode ser realçada por atrativos. Mas atrativos atrapalham o sublime.

  35. O sublime é violento.

  36. Para haver sublime é preciso haver poder e grandeza. Se houver perigo, o sublime já não pode mais ser percebido.

  37. Há dois tipos de sublime: matemático e dinâmico.

  38. Sublime é grandão!

  39. O sublime é absolutamente grande, invocando a ideia de algo sem comparação.

  40. O sublime é um sentimento em nós. Ele pode ser causado por coisas da natureza, mas não está nelas e sim na comoção espiritual que elas causam em nós.

  41. O sublime nos faz perceber como somos pequenos diante de algo.

  42. Algo é monstruosamente grande quando sua grandeza trabalha contra sua natureza.

  43. Não há razão pra crer que o universo é finito.

  44. A sensação de sublime pode advir de objetos que normalmente causam medo.

  45. Algo dá prazer por ser agradável, belo, sublime ou bom. Estranho; será que ele coloca o útil no agradável e o justo no bom?

  46. A estética tem sua função formativa. A beleza nos refina a capacidade de amar e o sublime nos refina a capacidade de respeitar.

  47. Exaltação é um negócio ridículo.

  48. Estar entusiasmado acontece, faz parte da vida, todo o mundo fica em algum momento. Mas estar exaltado é se colocar em estado doentio.

  49. Se libertar de uma necessidade é sublime também. Como aquele cara que se desfaz dos vínculos sociais pra viver no profundo isolamento… porque ele considera isso bom pra ele, se furtando daquilo que lhe dá prazer para obter aprimoramento pessoal.

  50. Se isolar por aprimoramento pessoal é diferente de se isolar por ódio ou por timidez.

  51. Algumas pessoas se isolam porque não querem odiar os outros. O convívio social é frustrante e às vezes confuso, porque as pessoas parecem que fazem mal a si próprias e umas às outras.

  52. A desolação moral é justificada.

  53. Deleite e dor nem sempre são corporais. Existem prazeres que não se originam do corpo (o prazer de receber uma boa notícia se origina na mente que a capta), bem como dores que não se sente em membro algum (a tristeza e o pesar não podem ser atribuídas a nenhum órgão particular, ao menos enquanto não saibamos exatamente como o cérebro funciona).

  54. O gosto deveria ser autônomo. Você não deveria dizer que “gosta” de algo só porque todo o mundo gosta. É como a adolescente que afirmar gostar de boy bands só pra ser aceita num grupo de amigos. Não se deve usar critérios de gosto de outra pessoa.

  55. Não é possível forçar alguém a gostar de alguma coisa. Se esse gosto for estético, isso é ainda mais válido. Seria como forçar um heterossexual a gostar de ter sexo com alguém do mesmo gênero.

  56. Dizer que você escreveu um trabalho aclamado pela crítica não garante que eu vá ler e gostar. Uma obra de arte nunca agrada todo o mundo.

  57. Julgar uma sensação implica critérios pessoais intransferíveis. Esses critérios não são objetivos e usá-los como se fossem acabaria em contradição.

  58. O gosto é o resultado sobre o estado do indivíduo quando estimulado esteticamente. Se algo me dá prazer, então eu gosto. Por causa disso, é ridículo dizer que alguém que tem um gosto diferente do seu tem mau gosto. Uma pessoa não pode se forçar a sentir prazer em algo, embora possa fingir e dizer que sente.

  59. Não dá pra fazer uma regra objetiva do gosto. “Um bom desenho tem tais e tais características, todos os que não se conformam com esta regra são maus desenhos.” Bobagem. A função da arte é dar prazer. Se ela dá prazer, é boa. Mas, como o prazer afeta pessoas diferentemente, sempre haverá quem não goste. Se você consegue, com sua arte, causar prazer a pelo menos uma pessoa, já está fazendo corretamente. Mas se o que você quer é uma regra prática que você possa usar pra agradar todos, nunca encontrará.

  60. A arte não dá conceitos, mas mostra exemplos.

  61. Os críticos de arte não podem julgar segundo seu gosto, a menos que estejam manifestando opinião pessoal. Você não pode dizer “é ruim porque eu não gosto”.

  62. Para algo ser universalmente aceito como prazeroso, é preciso que os sentidos de todo o mundo fossem iguais e que todos estivessem em contato com o mesmo objeto ou com um objeto exatamente idêntico.

  63. Preconceito leva ao prejuízo.

  64. Preconceito é um juízo provisório tomado como princípio. É uma afirmação apressada que dá origem a julgamentos errados.

  65. Se o ser humano é um animal social e o gosto é um atributo social, então todos os seres humanos têm gosto. O gosto serve também à função de comunicar aos outros suas inclinações.

  66. O gosto só se manifesta externamente se estivermos em sociedade. Pra quê roupa bonita numa ilha deserta?

  67. Uma inclinação passa a ser admirável na medida em que é publicamente aceita. Se você tem um gosto que precisa esconder, você automaticamente se sente mal por isso.

  68. As pessoas com sensibilidade à beleza são frequentemente vistas com bons olhos.

  69. Se uma pessoa admira uma flor artificial pensando que é natural e depois descobre que não é natural, pode ser que ela admire a flor de outra forma, como uma bela imitação bem executada. Talvez até queira levar pra casa para adornar a mesa.

  70. As cores do arco-íris: sublime vermelho, audaz laranja, franco amarelo, amável verde, modesto azul, constante anil, tenro violeta. O branco seria a inocência.

  71. Por alguma razão, quando entramos em contato com algo artificial pensando ser natural e depois descobrimos que é artificial, pode ser que nosso gosto por aquilo desapareça de todo, graças à sensação de que fomos enganados.

  72. Arte é qualquer técnica pra produzir algo que a natureza não produz sozinha. Assim, arte não é só a “arte estética”, como pintura, poesia e canto, mas também as “arte técnica”, como a programação. Então parace que jogo eletrônico é arte afinal, já que o jogo de computador não é um produto natural, mas ainda assim produto! Não apenas como um todo, mas até mesmo separadamente: os gráficos, a história e a música são belas artes (visam gosto estético), enquanto a programação é arte técnica (visa eficiência na obtenção de um fim não estético).

  73. A arte precisa ser produto da liberdade, sendo a liberdade uma consequência da razão. Então, para Kant, animais não produzem arte na medida em que operam por instinto.

  74. Arte não é ciência. A ciência sozinha não visa um fim prático, mas a resolução teórica de um problema. Arte sempre tem produto e esse produto é sempre material. Então, enquanto teorizar um útero artificial é ciência, efetivamente construí-lo é arte. Arte e ciência podem trabalhar juntas, como o corpo trabalha em conjunto com o cérebro. A ciência resolve na mente o problema e o artista põe essa ideia em execução. Nesse caso, a arte que trabalha com a ciência é frequentemente chamada de “tecnologia”.

  75. Kant distingue a arte do ofício. Se eu faço arte somente porque dá dinheiro, então eu não gosto de praticá-la, mas sim de ganhar dinheiro. Se a arte não é praticada com prazer, mas somente porque paga bem, então é profissão. Você não seria artista, mas um trabalhador assalariado.

  76. Praticar arte pra sobreviver é artesanato. Praticar artesanato por prazer é arte.

  77. Não se faz ciência da arte, mas crítica de arte. E crítica de arte não é ciência.

  78. A ciência tem que estar preocupada com a verdade ou, pelo menos, com o útil. Não com o belo. Deixe a beleza pros artistas. Se a ciência está preocupada com beleza, deixa de ser ciência. É como o jogo que se preocupa tanto em ser belo que, no final das contas, acaba tendo só gráfico. É legal de assistir alguém jogar, mas você mesmo não curte jogar.

  79. A ciência sem arte é inútil. A arte sem ciência é pobre. Uma pessoa que pratica o desenho livremente, sem ter estudado técnicas de desenho, faz um pior trabalho. Ora, mas as técnicas de desenho partem de vários estudos científicos, como a anatomia (para desenvolver formas humanas), a geografia (para paisagens), a botânica, a zoologia… Então, o artista é bom não apenas na medida de seu talento, mas também de seu conhecimento. O mesmo é válido pra escritores, os quais estudam literatura e retórica, e músicos, que estudam teoria da música.

  80. A função da arte como arte estética é dar prazer estético. Então, embora jogos eletrônicos sejam arte, seu comprometimento é com o prazer lúdico. Logo, não são uma arte estética, embora sejam arte. Porém, se dividirmos o jogo em seus quatro aspectos, a saber, história, gráficos, música e programa, então três de seus aspectos são belas artes em seu próprio mérito: literatura, desenho bidimensional (ou escultura tridimensional) e música. Tanto que frequentemente ouvimos música de jogo sem nos importarmos em jogar o jogo. A música nos dá prazer estético, é verdade, mas não é nesse prazer que focamos quando jogamos: não dá pra parar e contemplar a beleza dos gráficos, por exemplo, enquanto estamos tentando passar por um corredor cheio de zumbis com apenas duas balas carregadas na escopeta, enquanto estamos procurando um erro no padrão de ataque do chefe, enquanto pensamos na resolução do enigma ou enquanto pensamos, às pressas, aonde vai o próximo bloco de tetris. Se o propósito do jogo, como um todo, é divertir, então o jogo, como um todo, não é uma arte estética, mesmo que alguns de seus elementos tomados separadamente o sejam. O jogo ainda é arte, mas de outra natureza. Isso também confirma o pensamento de muitos jogadores: se uma equipe de desenvolvimento não tem diversão como máxima prioridade, fará um mal jogo. Não precisa ser um jogo horrível, sem música e sem história, mas é necessário que diversão seja a maior prioridade.

  81. Algumas músicas só servem mesmo pra eliminar o silêncio das festas. Não se presta atenção nelas, embora sua presença sirva pra manter o ânimo que a ocasião requer. Exemplo: o funk dos bailes. Por qual outra razão se gostaria daquele troço senão porque ele “agita a festa”?

  82. “Gênio” é uma disposição do ânimo, caracterizada por grande originalidade artística, que não parece ser adquirida (talento natural). O gênio não precisa seguir regras, porque as inventa.

  83. O gênio é o mestre, os outros são alunos.

  84. O gênio é uma força da natureza. É o meio da natureza de colocar regra na arte.

  85. Algumas pessoas chamam aquele que sabe de muitas coisas de “gênio”, mas isso está incorreto: aprender é imitar, enquanto ser gênio é inventar. Se uma pessoa que sabe muitas coisas nunca fez algo de original, ela não é genial.

  86. Se você não tiver originalidade, aprender a desenhar, escrever ou compor não vai te tornar um bom desenhista, escritor ou músico. Em vão se joga uma criança num curso de desenho aonde lhe é dada uma imagem que ele tem que reproduzir (esses, aliás, não são cursos de verdade e não são ministrados por um desenhista).

  87. Não é possível ensinar a ter inspiração. O gênio trabalha sob inspiração, a qual ele não sabe de onde vem. Schelling tratará disso mais profundamente.

  88. Na ciência, a diferença entre o aluno e o professor é só de grau, diz Kant.

  89. Todas as artes visam um fim. Se não tem objetivo, não é arte. No caso da arte estética, é agradar os sentidos. Kant parece estar remetendo a Sexto Empírico aqui, o qual afirma a mesma coisa em seu segmento Contra os Retóricos, parte da obra Contra os Professores. Nessa obra, Sexto ataca a retórica como uma “arte sem objeto”, ou seja, como uma coisa que tenta se passar por arte sem conseguir. Ele conclui que a retórica não é arte, não é ciência, não é nada. Basta ser capaz de falar bem. Isso por si não é arte.

  90. Um artista genial, mesmo sendo original, não precisa prescindir de todas as regras da arte pra assegurar sua originalidade. Ele pode ser original usando o que aprendeu nas aulas de educação artística ou no curso de mangá.

  91. Não é preciso ser artista pra apreciar arte.

  92. A arte imita a natureza, em maior ou menor grau. Não é possível produzir arte que prescinda totalmente daquilo a que estamos acostumados.

  93. Por que “é belo” é universal e “eu gosto” não é, em Kant? Porque beleza comporta uma conformação do objeto a seu fim, ele responderia. Exemplo: uma mulher é “bela” quanto mais se aproxima do ideal de beleza feminina universalmente aceito, o que implica uso da razão para saber que ideal é esse. O problema é que não existe tal coisa e, mesmo que existisse, não dá pra garantir que todos gostarão de algo porque se conforma a tal conceito. Eu, por exemplo, gosto de mulher gorda. Ora, mas mulher gorda é “feia”. Bom, antigamente, mulheres magras eram “feias”. Então, onde está esse assentimento universal, se ele muda segundo tempo e região? E mesmo que não mudasse, por que eu não me agrado dele? Então belo e feio não são universais. A teoria de Kant não descreve a realidade (é uma forma educada de dizer que está errado).

  94. A arte pode representar de maneira agradável coisas que são horríveis na natureza.

  95. A arte também é capaz de inventar matéria pra coisas intelectuais pela via da alegoria. Por exemplo: por muito tempo, pra representar Deus nas pinturas se usou um triângulo (símbolo do sobrenatural) com um olho no centro (símbolo da onividência). Um exemplo mais fácil: suponhamos que você queira desenhar a guerra. Não uma guerra, mas a guerra, como uma entidade separada. Basta desenhar, sei lá, um anjo vermelho com uma espada. É importante lembrar que, em última análise, um anjo (homem com asas) e o olho que tudo vê (triângulo com olho) são misturas de coisas da natureza (exceto no caso do triângulo, que é, na verdade, uma abstração oriunda da comparação de vários objetos triangulares). Assim, as metáforas artísticas não prescindem totalmente da natureza, mesmo que o produto final não encontre exemplo nela.

  96. Faz parte da habilidade artística exprimir conceitos (ideias) de maneira inusitada. É por isso que se diz que arte é uma forma de expressão, logo, parte das linguagens e códigos.

  97. O artista pode aprender de outros, bem como pode aprender da natureza.

  98. O artista, enquanto trabalha sua arte, utiliza seu gênio e também seu gosto, para que ele possa saber se está ficando agradável ou não.

  99. É possível gostar do que não é belo.

  100. É possível que alguém produza algo que é agradável sem ser original, bem como é possível fazer algo original e desagradável.

  101. Uma bela arte precisa de “espírito”, isto é, precisa ser capaz de incitar emoções. É possível algo ser bem executado e ainda assim chato. Isso é feito pela expressão inusitada de conceitos, isto é, quando você expressa de maneira original algo que se passa em sua cabeça. É mais fácil na poesia; pra quê homem mais espirituoso que o cara que compôs Um Índio?

  102. O gênio funda uma escola de arte, mesmo que não seja uma instituição com prédio e mensalidade. Ele ensina aos outros e esses outros ensinam a mais outros.

  103. Mas o aluno precisa ter alguma originalidade. Se ele imitar o estilo do professor em seus mínimos detalhes, copiará também seus erros.

  104. Quatro habilidades são necessárias às belas artes: imaginação, entendimento, espírito e gosto.

  105. Uma pessoa de visão perfeitamente sadia pode não ver o que o outro vê em um quadro. É porque estão julgando o quadro de forma diferente. Não chegarão à mesma conclusão, mesmo que estejam olhando pro mesmo quadro, mesmo que tenham ambos visão perfeita. O mesmo é válido para outras formas de arte, como o caso de pessoas de audição normal que chegam à conclusões diferentes sobre a mesma música.

  106. Continuando sua referência a Sexto Empírico, Kant diz que a oratória, como arte de convencer, não é adequada aos tribunais e nem às igrejas. Não se deve coagir a pessoa a aceitar um ponto de vista por outro meio que não a razão. E falar bem nem sempre é ter razão, mesmo quando a fala é lógica.

  107. A oratória, como arte de convencer, nos torna aptos a tirar proveito dos outros.

  108. Kant também parafraseia Platão… sem dizer que o faz.

  109. Mesmo quando visa bons fins, a retórica ainda é um truque sujo.

  110. A retórica pretende tornar um ponto de vista mais aceito cutucando as emoções do ouvinte, para que ele não raciocione como devia sobre o que está sendo dito. Isso pode ser feito pelo discurso que visa a fraqueza de alguém. Era interessante estancar a Lava-Jato, mas era necessário fazer um grande alvoroço pra que isso fosse possível. Quando Dilma passou a cair em popularidade, por ter anunciado uma forma de governar e depois ter governado de outra forma, se viu a oportunidade perfeita: se aproveitar da insatisfação do povo para causar uma expugnação, que seria um ótimo alvoroço para atrasar a Lava-Jato. Não deu certo. Mas veja como mexer com as emoções do povo surtiu ótimo efeito. Quase ninguém em nenhum momento se lembrou que Temer assumiria com a saída da Dilma. Os que pensaram nisso tinham a sensação de que poderiam colocar Temer pra fora tal como colocaram Dilma, isto é, fazendo pressão. Mas contra o governo, a pressão só tem efeito se for ouvida. Como o governo tinha interesse em mandar Dilma embora, a pressão inicial foi ouvida. Como há interesse em manter Temer, a pressão atual pra que ele saia foi ouvida (a menos que se considere a oposição, que pode fazer alguma coisa a longo prazo). Ninguém pensou nisso. A fala da mídia teve dupla utilidade: mobilizar o povo contra Dilma e anestesiar a insegurança sobre o vindouro governo Temer dando a sensação de que o povo teria poder para tirá-lo de lá.

  111. A matemática, na música, tem a função de fazer as partes (melodia, ritmo e pulso) concordarem entre si. Mas a própria matemática não é o que faz a música ser boa. É possível alternar duas notas por quatro minutos em intervalos regulares. Seria uma música matematicamente perfeita, mas perfeitamente entediante. A matemática, então, embora importante para manter a música coerente, não é responsável pelo prazer que a música incita. Mas alguém pode perguntar se uma música incoerente pode ser agradável, isto é, se é possível fazer música boa sem matemática. A resposta é que uma música incoerente não é música. A matemática é a diferença entre música e barulho, mas não a diferença entre música boa e música ruim. Se fosse, o funk carioca deveria ser ótimo; sempre usa o mesmo pulso e todas as músicas partilham a mesma fórmula, que passa de mão em mão como uma tradição.

  112. Se você não quer ser influenciado por uma pintura, basta olhar em outra direção ou fechar os olhos. Mas fugir da música é mais difícil. Quando estou estudando e começa a passar uma música com uma parte instrumental boa, eu tenho que tampar os ouvidos, ou perderei o foco. É por isso que não posso estudar ouvindo música. Mas posso escrever ouvindo música, porque a música, especialmente a instrumental, me permite colocar emoção mais facilmente no texto.

  113. Mais difícil de escapar da música é escapar de um perfume.

  114. Existem prazeres que desagradam e dores que agradam. Isso porque alguns prazeres trazem depois dores maiores, de forma que você se sente mal em experimentá-los, mesmo que em certo sentido. É o caso das drogas. Existem também dores que trazem grandes prazeres depois de suportadas virilmente. É o caso dos tratamentos médicos.

  115. Uma boa piada é absurda. É preciso haver algo incomum no que se conta pra que seja engraçado. Se você narra um acontecimento normal, não deveria esperar que alguém ria disso. A piada também tem mais chance de dar certo quando a piada contraria a expectativa normal. Exemplo: um mendingo está pedindo dinheiro pra um nobre e o nobre pergunta se o mendingo não tem vergonha do que faz. O que se espera é que o mendigo se desculpe e saia, mas ele diz em vez disso: “eu quero é dinheiro, não é conselho, não.” A expectativa normal foi frustrada por uma conclusão absurda, pois não se esperava tal reação de um mendigo frente a um nobre. Por isso piadas que constróem expectativa são mais engraçadas, como aquelas em que o sujeito tenta algo duas vezes e o absurdo ocorre na terceira vez. Você está rindo antes mesmo da piada acabar. A expectativa pode ser frustrada também quando o plano do sujeito falha, como o cara que amarrou um cachorro na mangueira pra que os meninos não roubassem mais mangas, mas se surpreende ao ver que os meninos roubaram as mangas e o cachorro na manhã seguinte.

  116. Uma piada pode ser ainda mais engraçada se não for contada como uma piada, mas com seriedade. Essa propriedade do discurso é especialmente desconsertante porque pode nos levar a rir de uma desgraça real.

  117. Três coisas que tornam a vida tolerável: o sono, a esperança e o riso.

  118. Não dá pra fazer ciência do nosso próprio gosto. Não sabemos exatamente o que nos atrai no que gostamos. Por que eu gosto tanto de gente gorda?

  119. Descrever não é demonstrar. A descrição de uma ideia não equivale a demonstração no objeto concreto que a origina. Demonstração é prova do conceito.

  120. Há três faculdades do conhecimento: entendimento, razão e juízo. Como cada uma tem seus princípios, nós às vezes ficamos indecisos sobre o que escolher, quando cada faculdade chega à sua própria conclusão.

  121. Não é possível fazer ciência da beleza. A beleza acaba sendo então área da filosofia. A parte da filosofia que estuda a beleza, bem como outras manifestações de prazer e dor sensoriais, chama-se “estética”. Se ela se volta exclusivamente sobre a arte, então estamos falando de “filosofia da arte”.

  122. A sociedade perfeita só é possível se os filósofos conseguirem se comunicar com os leigos. É preciso, portanto, que falem a mesma língua. De fato, a maioria da população não entende filosofia. Se não entenderem, então os intelectuais, que são minoria, nunca poderão fazer nada. É preciso obter toda a ajuda possível, o que requer pactuar com a grande massa dos incultos.

  123. A admiração não diminui com o tempo. Já a estupefação só ocorre enquanto há novidade.

  124. “Sentimentalismo” é a tendência a experimentar emoções ternas com mais frequência ou intensidade, mesmo quando não há realmente um objeto que as incite. É o caso da pessoa que chora vendo filmes. Os personagens não são reais, mas a dor que você sente ao assistir é bem real. Também é o caso dos que se entregam à tristeza de propósito, sem querer consolo, como se houvesse algo interessante em sofrer moderadamente. Para Kant, essas pessoas são doces, mas fracas.

  125. O que diferencia a religião da superstição é que na religião há medo, mas também há admiração pela divindade. Na superstição há somente medo. Ela se resume a aplacar a ira de uma divindade a qual não se pode admirar.

  126. Pra saber se algo é bom, é preciso conceito, saber o que a coisa é. Mas para saber se algo é belo, não há necessidade de conceito, basta ver, ouvir, sentir. A beleza é um fenômeno estético, não necessita da razão.

  127. Bom não é agradável. Refrigerante é agradável sem ser bom. Se fosse bom, não faria mal. Mas que é gostoso, isso é.

  128. Gostar de todos é gostar de nenhum. Se a pessoa é saudável o bastante pra comer de tudo quanto é comestível, ela não vai escolher o que “gosta” e o que “não gosta”, uma vez que gosto é um tipo de preferência.

  129. Quem está faminto come qualquer coisa. Se escolhe, não está com tanta fome quanto diz.

  130. Por causa disso, só é possível ter “gosto” (preferência) quando não estamos passando necessidade. Na necessidade, nossa preocupação é com o útil.

  131. Se quer aquilo que nos interessa. Querer e estar interessado são a mesma coisa.

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2 Comentários »

  1. Actually no matter if someone doesn’t know then its up to other people that they will
    assist, so here it takes place.

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    Comentário por como desenhar mangá aprenda a criar personagens — 6 de dezembro de 2017 @ 14:38


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