Analecto

29 de agosto de 2017

Anotações sobre o manifesto do partido comunista.

  1. Quando as pessoas acusam umas as outras de comunistas, sendo que elas não o são, é hora de um comunista de verdade aparecer e explicar o que ele é.

  2. “Comunista” é frequentemente usado pejorativamente.

  3. Há duas classes que se combatem em todos os períodos históricos: opressores e oprimidos. Essa guerra sempre culmina de uma das duas formas: os dois morrem ou a sociedade muda de paradigma. Dá pra fazer paralelos entre isso e a dialética hegeliana. Estabelecido e oposição se combatem, causando um resultado diferente dos dois.

  4. A indústria tornou a manufatura artesanal obsoleta.

  5. As liberdades conquistadas com esforços foram todas sacrificadas em nome da liberdade de comércio.

  6. A opressão burguesa subjuga os talentos pessoais pelo poder do salário.

  7. A existência da burguesia depende do avanço dos meios e das relações de produção. Observe que isso também afeta a sociedade, fazendo-a se transformar.

  8. O avanço da burguesia não pode mais retroceder. Tomou o mundo inteiro pela exportação e importação.

  9. Temos agora necessidade de material internacional. Parece que nenhuma nação pode mais subsistir sozinha. Por isso que ditaduras comunistas que se isolam do mundo majoritariamente capitalista passam fome ou empobrecem. Nessas condições, seria preciso que o mundo inteiro (ou, pelo menos, maioria) se tornasse comunista pra que uma nação comunista pudesse prosperar.

  10. O mesmo ocorre com o material intelectual. Publicar na Internet é publicar no mundo. O “pensamento nacional” está próximo do desaparecimento, se já não tiver desaparecido.

  11. O avanço do modo de vida burguês faz com que nações mais ricas e poderosas subjuguem culturalmente as mais fracas. Olha os Estados Unidos achando ruim que o Japão produza pornografia em forma de revistas em quadrinhos.

  12. Isso também unificou territórios.

  13. Graças a esse avanço, contudo, tivemos um avanço tecnológico sem precedentes.

  14. A classe burguesa começou a ascender quando as forças de produção superaram a capacidade do sistema feudal já velho.

  15. Sua ascensão, então, deve-se à falta de liberdade que um sistema antigo proporcionava e à crescente demanda por um benefício que essa liberdade traria.

  16. O crescimento excessivamente rápido das forças de produção, porém, proporciona crises de superprodução.

  17. Parece que o fim do capitalismo será um evento natural, porque as crises de superprodução crescem em intensidade. Eventualmente, entraremos numa crise econômica da qual não sairemos.

  18. O trabalhador também é mercadoria. Com efeito, se vende.

  19. Muita gente vive pra trabalhar.

  20. Quando os meios de produção evoluem, alguns trabalhos são menos requisitados. Talentos se tornam indesejados.

  21. Se você está lutando contra alguém, não ataque os inimigos desse alguém. Qualquer vitória contra os inimigos dos seus inimigos é uma derrota pra você.

  22. A vitória do sindicato não dura pra sempre. Precisa ser mantida e só pode ser mantida com muito custo.

  23. Se há uma coisa certa nessas vitórias é a união que elas proporcionam entre os trabalhadores.

  24. Um partido dos trabalhadores só dará certo se os trabalhadores pararem de competir entre si.

  25. Uma classe política não ganha tudo de uma vez. Não, a luta é constante. Ganha-se algumas batalhas, perde-se outras, mas nunca se deve parar de lutar por direitos enquanto os direitos forem insuficientes.

  26. A elite nem sempre está de acordo entre si. Isso é uma vantagem para as massas.

  27. Para que um lado da elite prevaleça sobre outro, é preciso ajuda do povão. O lado da elite que convencer o maior número de pessoas comuns vence.

  28. Trabalhador é igual em qualquer lugar do mundo. Ganha-se mais, ganha-se menos, mas sempre explorado.

  29. Uma revolução feita pela classe trabalhadora é uma revolução feita pela maioria. Normalmente, revoluções são feitas por minorias e elas até que dão certo. Imagine se todos os trabalhadores se unissem pra fazer um mundo à sua imagem e semelhança.

  30. Os trabalhadores devem destruir a elite e não podem fazer isso sem violência.

  31. A elite precisa dos trabalhadores, por isso os dá meios de subsistência. Mas será que os trabalhadores precisam da elite?

  32. Desarticular trabalhadores requer manipulação dos salários: pague melhor quem tem mais adesão ao sistema vigente. No entanto, se os trabalhadores se unirem em grupos que reivindicam aumento pra todos, fica mais difícil. Então, é importante que o trabalhador sacrifique o ganho pessoal em nome da luta pelo ganho de todos.

  33. Nem todo o trabalhador é comunista.

  34. O comunismo não tem mentores. Ou, pelo menos, não deveria ter. Seu referencial teórico são os próprios trabalhadores que decidem a pauta em conjunto.

  35. A propriedade privada deve ser abolida (Atos 2:42-45).

  36. O salário-mínimo se chama “mínimo” porque compreende apenas o necessário pra que a pessoa possa subsistir e continuar trabalhando. Se o salário-mínimo aumenta, é porque o custo de vida também aumentou. Por outro lado, é possível aumentar o salário-mínimo sem que o custo de vida tenha aumentado, mas isso permite que comerciantes aumentem os preços. Logo, aumentar o salário-mínimo também aumenta o custo de vida. Você não pode ter conforto ganhando salário-mínimo, a menos que seu custo de vida seja especialmente baixo (como é o caso de homens solteiros e sem filhos).

  37. Quanto menos você ganha, mais você sente necessidade do patrão. Fará o que for necessário pra se manter no emprego, mesmo a custo da dignidade pessoal. Isso é especialmente verdade em tempos de desemprego. Talvez o desemprego atual no Brasil seja até proposital, pra que o trabalhador desesperado não se opusesse às reformas.

  38. Quando alguém diz que algo trará mais liberdade, verifique se não trará mais liberdade só pra quem está falando.

  39. A liberdade da elite é a de compra e venda.

  40. Assim, a liberdade da elite nada tem a ver com a liberdade do povo.

  41. No comunismo, o que você produz é seu. A diferença é que ninguém se apropria do que você produz. Olha que interessante: você trabalha numa fábrica de carros e, no entanto, o carro que você ajuda a fazer não é seu. Não, você recebe um salário e, se puder, guardando dinheiro, poderá comprar o carro que, no final das contas, foi você quem fez.

  42. É possível ganhar dinheiro sem trabalhar. O empresário trabalha menos que o operário e se cansa menos, mas ganha mais. E os políticos? A presença de um deputado não é obrigatória na câmara em todas as reuniões, mas ele ganha do mesmo jeito. Já você, se faltar um dia, tem o salário reduzido.

  43. Se não houver patrões, as pessoas não pararão de trabalhar? Não, mas trabalharão só pra si mesmas.

  44. A família deve ser abolida. Amém.

  45. A família favorece a exploração infantil, se feita da parte dos próprios pais.

  46. Dizem que o comunismo quer destruir a educação familiar. Ora, mas ela já foi destruída quando a elite inventou a escola e a infância. A educação é responsabilidade estatal agora, não familiar.

  47. Dizer que as mulheres serão de todos não implica dizer que a mulher poderá ser coitada por qualquer um como se fosse um objeto. Comunidade de mulheres não é o mesmo que liberdade pra estuprar.

  48. Liberdade de se relacionar saudavelmente com qualquer um que concorde com a relação.

  49. Além do mais, o discurso contra a comunidade de mulheres é hipócrita: ninguém está a salvo do chifre, nem a elite. Aliás, pra que coisa pra pagar mais prostituta do que rico? E ainda dizem que cada um tem sua única mulher. Não, a mulher não pertence a ninguém, nem o homem. No comunismo, só o que existem são parceiros consentidos. Só pra lembrar que o Partido Comunista Francês quer a abolição da idade de consentimento.

  50. Na elite, a mulher é comunitária. É a comunidade de mulheres casadas. Basicamente, o império do chifre, voluntário ou não. A mulher é objeto entre a elite, diz Marx.

  51. Não havendo necessidade de “vender seu corpo”, a prostituição não existe no comunismo.

  52. Trabalhador é trabalhador aqui e na China. Não há necessidade de “pátria” no comunismo.

  53. Trabalhadores são uma nação.

  54. As ideias dominantes são as da elite. Nosso conceito de certo e errado, por exemplo, é imposto de cima.

  55. A elite quer que um intelectual concorra com o outro, não que trabalhem juntos.

  56. Crianças não devem trabalhar em fábricas, mas devem produzir também, isto é, devem trabalhar de alguma forma indistinta da educação humanística. Ela deve aprender o conteúdo curricular normal, mas deve aprender, junto com esse currículo ou como parte dele, uma profissão.

  57. Se a luta política não é possível no momento, lute ao menos no campo intelectual. Liberdade de expressão é um direito humano, certo?

  58. O socialismo pode ser reacionário também. Alguém escreveu: “direita idiota, esquerda retrógrada.”

  59. Quando você lê uma obra feita em outro país, tenha em mente que trazer o livro pro Brasil não significa trazer com você o país de origem. Uma análise política feita na França sobre a França não se aplica ao Brasil. Então, é importante lembrar que um livro estrangeiro, por mais preciso e prestigiado que seja, pode não descrever a realidade que você vive.

  60. As aspirações humanas não necessariamente coincidem com as aspirações de uma classe. Uma classe pode querer outras coisas.

  61. Não ponha tudo a perder se você não tiver o que ganhar.

  62. Existem socialistas na elite também. Eles querem resolver os problemas sociais, mas sem alterar o sistema de exploração implícito nem a sociedade de classes, além de quererem fazer isso sem luta e sem perigo.

  63. Zona rural e zona urbana devem se tornar uma coisa só, a família deve ser abolida e, se houver um estado, este deve apenas gerenciar a produção coletiva.

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26 de agosto de 2017

Anotações sobre “Curso de Filosofia Positiva”.

“Curso de Filosofia Positiva” foi escrito por Auguste Comte. Abaixo, alguns pensamentos encontrados no texto dele.

  1. Se filosofar é procurar a verdade, então há três formas de filosofia: pela religião, pela metafísica e pela ciência.

  2. Uma só lei não explica o universo inteiro.

  3. Nos dois primeiros estágios de desenvolvimento, a filosofia está interessada nas causas primeiras e nas causas finais, mas, no último estágio, ela renuncia a essa pretensão em nome da busca das leis que governam os fenômenos particulares.

  4. O ápice do instante teológico foi o monoteísmo, enquanto que o ápice do estado metafísico foi a filosofia da natureza, mas a ciência sempre progride, sem chegar a um instante em que se possa dizer “nada mais há para ser explicado”.

  5. A ciência deve romper com a religião (o que não implica que uma deva combater a outra, mas que, por serem formas diferentes de filosofia, não podem ser totalmente conciliadas e uma tentativa de conciliação implicaria subjugação e prejuízo à livre prática científica).

  6. Se a ciência funciona pela validação ou refutação de uma premissa, é claro que ela não poderia ter surgido antes da metafísica ou da teologia, as quais proveram as premissas.

  7. Observar (procurar por algo) não é o mesmo que olhar.

  8. Tentativa e vacilo fazem parte do andar filosófico.

  9. O estado metafísico é provisório, intermediário.

  10. O escritor não quer saber das causas dos, nem pra que servem os, fenômenos, além da medida do necessário para entender como funcionam.

  11. Mais importa saber como a gravidade funciona do que saber o que é a gravidade.

  12. O ser humano não precisa de perguntas sem resposta, do tipo “de onde viemos, o que somos, para onde vamos?” para guiá-lo na vida.

  13. Quando algo se torna ciência, não deixa de ser filosofia, mas deixa de ser metafísica.

  14. O movimento da filosofia para a direção positiva (priorização da ciência em lugar da metafísica) começou com Bacon, Descartes e Galileu.

  15. Estudos sociais precisam se tornar ciência (“física social”, mais tarde renomeada “sociologia”).

  16. Teologia e metafísica não explicam fenômenos sociais.

  17. Antigamente, nosso conhecimento não era dividido em campos.

  18. A divisão do conhecimento em áreas é positiva, pois permite que cada pesquisador estude um detalhe em profundidade.

  19. Essa divisão de conhecimentos permite o avanço mais rápido das ciências.

  20. Mas a divisão excessiva das ciências também traz problemas.

  21. É mais fácil ser bom em tudo quando se conhece tudo superficialmente.

  22. A divisão das ciências é artificial, foi feita por nós, enquanto que, na natureza, a biologia, por exemplo, não está separada da química.

  23. Um cientista deve trabalhar com o outro, as áreas científicas devem manter um diálogo.

  24. É preciso que as descobertas particulares encontrem seu lugar num sistema geral, organizado por uma outra classe de cientista.

  25. Se uma ciência é velha, sem acordo entre os cientistas que a praticam, a partir da qual nada foi descoberto, qual é o sentido de persistir nela?

  26. Um procedimento lógico é melhor explicado em sua aplicação.

  27. É possível criar um estudo pela combinação de duas ciências.

  28. Um estudo envolvendo mais de uma área científica explica mais detalhes de um objeto estudado.

  29. A anarquia de pensamento, isto é, uma situação em que nenhum pensador concorda com o outro, é causa de males sociais.

  30. A ciência deve estabelecer a verdade que a política aplicará.

  31. A filosofia discorda de si pela divergência de método.

  32. Se a teologia, a metafísica e a ciência continuarem perdendo tempo em tentar superar uma a outra, o pensamento humano não evoluirá.

  33. Querer uma filosofia capaz de explicar tudo, como quis Hegel, é coisa de quem pensa que o corpo total de conhecimento acumulado é menor do que na verdade é.

  34. A ciência não pode conhecer tudo.

  35. Se fosse possível um sistema filosófico capaz de explicar todos os fenômenos, será que isso faria muita diferença, se comparado à moda atual de explicar cada fenômeno segundo leis próprias?

  36. Você pode propor objetivos que você mesmo não pode atingir sozinho em seu tempo de vida, porque outros continuarão de onde você parou.

  37. Nem tudo o que é útil é verdade.

  38. Qualquer divisão das ciências é artificial por definição.

  39. O fato de falharmos várias vezes ao perseguir um objetivo não implica que é impossível alcançá-lo.

  40. Só é possível classificar as ciências pelos seus objetos observáveis.

  41. O objetivo da ciência é prever fenômenos e modificá-los.

  42. Estudar um fenômeno por prazer não é errado.

  43. Embora cada ciência possa ocupar-se de si mesma, sua aplicação técnica requer a ajuda de outros saberes.

  44. Quando um estudo já tem muito tempo de existência, como a filosofia, uma exposição cronológica decente fica cada vez menos possível, porque não dá pra expor tudo em suas relações.

  45. No entanto, essa forma de entender as coisas têm a desvantagem de não explicar como o conhecimento foi formado.

  46. A ciência e a técnica se ajudam no progresso de ambas.

  47. Os conhecimentos mais gerais são os mais estranhos a nós, por guardarem menos ligação com o prático.

  48. O fenômeno “puro” deve ser estudado primeiro, para depois estudarmos suas modificações.

  49. O entendimento completo da química requer o conhecimento básico de física, pois os fenômenos químicos são condicionados por calor, eletricidade e movimento, todas coisas estudadas na física.

  50. Apesar disso, a química não é parte da física e deve ser tratada como uma ciência à parte.

  51. A sociologia depende de todas as outras ciências, mas suas leis não influenciam as outras ciências.

  52. Um ramo do conhecimento pode ainda ser metafísico ou teológico quando outros ramos contemporâneos já são positivos.

  53. Precisão não iguala certeza.

  54. A matemática perpassa e valida tudo na ciência.

16 de agosto de 2017

Anotações sobre temor e tremor.

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  1. Coerência é um comportamento incomum. Muitos não fazem o que dizem que outros deveriam fazer. Muitos fazem o que reprovam nos outros. A regra é ser hipócrita, ser coerente é exceção.

  2. Um filósofo pode convidar outros a duvidar com ele, mas jamais pode forçá-los a isso.

  3. O que deu certo comigo pode não dar certo contigo.

  4. O autor deste livro não é filósofo.

  5. Os sistemas filosóficos existentes estão incompletos.

  6. Os escritores mais relevantes muitas vezes são os que vendem menos cópias.

  7. Sistemas filosóficos são um excesso, diz o autor.

  8. Para afastar alguém, perca o atrativo.

  9. Pessoas célebres ainda são seres humanos.

  10. Vencer uma luta sem recorrer aos meios que outros usaram, os meios óbvios, é digno de respeito. Abraão não era erudito, não era forte, não era atlético. E, no entanto, Abraão é Abraão.

  11. Ter fé e ser otimista retarda o envelhecimento.

  12. Já imaginou se Abraão tivesse recusado a ordem divina? Talvez tivesse acontecido a mesma coisa que poderia ter acontecido se Isaac não tivesse se casado com Rebeca (que tinha dez anos).

  13. Em matérias religiosas, a fé tem valor maior do que a razão. Depende de em que você tem fé, contudo….

  14. A marca da juventude é o desejo. Quem deseja, se move. Quem se conforma, para. Parado se envelhece mais.

  15. Moisés não entrou na terra prometida, diz o autor, porque ele não acreditou que Deus iria realmente fazer água jorrar da pedra (Números 20:10-13). Eu tenho minhas dúvidas.

  16. Como a vida de Isaque valia pra Abraão mais que sua própria vida, Deus não pediu um suicídio da parte de Abraão. Um verdadeiro teste de fé requeria sacrificar o que havia de mais importante. No entanto, se Abraão tivesse se matado por ordem divina, seu impacto talvez fosse o mesmo.

  17. Abraão respondeu positivamente ao destino do qual qualquer outro fugiria.

  18. Até quem não era judeu respeitava a fama de Abraão.

  19. Quem mais trabalha não necessariamente é o que garante sua comida. Tem gente que come sem trabalhar. Então, se alguém te diz que você só pode comer se trabalhar, deveria acrescentar: “ao menos de forma lícita”.

  20. Nobreza não salva ninguém.

  21. Saber uma história não implica envolvimento emocional. Eu posso ser indiferente aos personagens dela.

  22. Inteligência se obtém na prática.

  23. O que tornou Abraão tão venerável, diz o autor, foi a angústia que ele sentiu ao escolher entre Deus e seu filho. Essa angústia está implícita no texto, para o autor. Não é uma questão de sacrificar o melhor, mas de sofrer com isso por amor a Deus.

  24. Embora Abraão seja um exemplo de fé, não vamos sair por aí matando os próprios filhos. Há outras formas de demonstrar fé, especialmente se Deus não fala diretamente com você, como o fez com Abraão. No entanto, alguém que ouve esse relato pode querer fazer um sacrifício a Deus, e de boa vontade e bom coração. Daí, ele resolve sacrificar o que há de mais importante. Já pensou se for seu filho? Por isso que ler a Bíblia Sagrada requer bom senso.

  25. Nem tudo na vida sucede como na pregação pastoral.

  26. O que passa na cabeça do fanático: “Se Abraão tentou matar o próprio filho, por que eu não posso?” É como se ele questionasse se atos santos só o são se praticados por certas pessoas e ele tem razão em pensar dessa forma. O problema é ele tentar imitar a aparência do ato, não sua motivação. O que moveu Abraão a fazer o que fez foi sua fé. Não é pra imitar o ato exterior (o sacrifício), mas o interior (a fé). Cultivando esses valores e mantendo-os como motivação, nossas ações serão todas santas (Tito 1:5). Assim, se você tem um valor que lhe motiva, esse valor não precisa se manifestar de forma socialmente inaceitável, a menos que Deus assim ordene.

  27. Pra que lembrar do que não pode acontecer de novo? Ora, pra enriquecimento moral.

  28. Abraão era santo ou homicida? Essa é a pergunta do autor.

  29. Um raciocínio deve sempre ser levado às últimas consequências.

  30. Para o autor, algumas reflexões não devem ser comunicadas. Supondo que ele conclua que Abraão era assassino, ele não diria aos outros que pensa dessa forma pra não fazer tropeçar. Além do mais, isso seria fonte de conflito pro pensador crente, pois a fé diz “santo”, ao passo que a razão diz “homicida”. No entanto, o raciocínio deve ser levado às últimas consequências não importa o quê. Se o raciocínio concluir dessa forma, seja.

  31. Se eu não teria coragem de imitar a fé de Abraão, eu não seria hipócrita por invocar seu exemplo? Falo que os outros devem ter a fé de um cara que eu não posso imitar. Como eu posso exortar alguém a imitar alguém que eu não consigo imitar ou, por vezes, nem quero imitar? Falo isso porque tem gente que não está interessado em imitar bons exemplos bíblicos e, no entanto, diz que os outros devem fazê-lo (é o caso de muito pastor por aí).

  32. Parece que o autor concluirá que a fé justifica o ato. Isso é perigoso….

  33. Faz sentido que o autor fale tanto da fé de Abraão, sendo ele protestante. Católicos preferem enfatizar a caridade cristã, isto é, o exemplo de Jesus. Ortodoxos…. Bom, não sei nada deles.

  34. Se todos fizessem o que Abraão fez, seu exemplo seria perdido na banalização. Ele deixaria de ser o que é se todos o imitassem. Donde decorre que a fé de Abraão deve ser imitada, mas sua aparência (o sacrifício do próprio filho) não deve, ou Abraão perderia sua relevância. É um “exemplo a não ser seguido”. Estranho.

  35. Não podemos imitar o sacrifício do filho sem antes imitar a fé. Querer matar o filho sem ter obtido o grau de fé que Abraão tinha não justifica o ato, diz o autor. Concentre-se na fé primeiro, depois Deus pode até falar com você e lhe propor uma prova. Enquanto ele não faz isso, solte a faca.

  36. Depois de imitar a fé, é preciso imitar o amor que Abraão tinha por Isaque.

  37. O autor endorsa falar do teste de Abraão como algo horrível e angustiante, pra que os outros percam a vontade de usar a fé pra sustentar o assassinato do filho.

  38. Falar da prova de Abraão antes de falar de sua fé e do seu amor pode colocar em risco o desejo do fiel de continuar crendo.

  39. Se alguém quiser acompanhar o exemplo de Abraão e matar o próprio filho, o autor diz que se deve desencorajar esse crente. Conduta estranha pra um protestante.

  40. Hegel é tão obscuro que até filósofos e críticos de filosofia não o compreendem. Só quem pode compreender Hegel é ele próprio e Deus. Isso, claro, na suposição de que Hegel tinha intenção de ser entendido e não estava pregando uma peça em todo o mundo. Já pensou se Hegel ressuscita e vai até uma faculdade de filosofia e vê o sofrimento dos alunos a ponto de confessar “gente, eu tava brincando!”?

  41. A filosofia não pode supor que um problema é sem importância. Todos os problemas filosóficos são importantes, mesmo que não igualmente. Se algo não tem importância, não se faz filosofia disso. Se é feita filosofia de algo, é porque esse algo tem importância.

  42. A fé dá coragem. Olha esses caras que se jogam em aviões contra prédios.

  43. Quanto mais cedo começa o sofrimento, mais cedo ele acaba. Por causa disso, começar logo o sofrimento pode ser uma prova de ansiedade. “Quanto mais cedo eu começar, mais cedo termino com isso.” A pessoa está sofrendo com a espera, talvez mais do que com o próprio ato. Está com medo.

  44. Abraão não pensou, só fez.

  45. Amar Deus sem fé é o fenômeno descrito por Feuerbach (o humano amando a si), que Kierkegaard também mostra com fatual, mas não como única expressão religiosa.

  46. É estranho que até religiosos queiram ir além da fé.

  47. Ação piedosa independe de classe social.

  48. O homem realmente crente, de fé sincera, não parece especial por fora. Ele parece tão humano como qualquer outro.

  49. O homem realmente crente participa do mundo sendo indiferente a ele. Age como uma pessoa normal, mediana.

  50. Ele não tem apego aos bens materiais. Ter ou não ter, tanto faz.

  51. É tranquilo, observa.

  52. Não se sente tentado pelos prazeres mundanos, não se sente pressionado pelos cuidados mundanos.

  53. Quando o homem religioso cessa a atividade religiosa, tem dificuldade em voltar aos afazeres mundanos.

  54. O homem religioso não vê progresso em deixar a religião.

  55. O homem religioso não gosta do que era antes.

  56. Nem tudo é possível. Dizer que tudo é possível é algo pueril…. Ou simplesmente idiota.

  57. Tente ser independente, mesmo quando ama.

  58. Resignação é parte da autossuficiência. Se você abdicar do que não pode conseguir sozinho, não precisará de ninguém.

  59. A cultura é o caminho através do qual uma pessoa conhece a si própria. Assim, conhecer a produção intelectual anterior ajuda na produção do próprio conhecimento, inclusive do autoconhecimento. Rejeitar a produção anterior é desperdício.

  60. Tudo é possível pra Deus. Isso normalmente implica consciência de que nem tudo é possível ao ser humano.

  61. Não é possível, diz o autor, ter fé sem se resignar primeiro.

  62. A fé é coisa de quem a compreende. Acreditar sem compreender é convicção, não fé, diz o autor.

  63. Se não é possível ter fé sem se resignar e a resignação é uma conclusão filosófica, não é possível ter fé verdadeira sem ser filósofo. No entanto, o autor nega ser filósofo. Estranho também.

  64. As pessoas podem “perder a fé” no momento da resignação. Para o autor, essas pessoas nunca tiveram fé em primeiro lugar, porque a fé só pode ser obtida depois da resignação. “Nem tudo está ao meu alcance. Para aquilo que não posso alcançar, deixarei que Deus decida o melhor.” Isso é resignação, admitir que nem tudo te é possível e deixar que Deus decida se o que não te é possível deve ou não te ser dado.

  65. Quem quer ter fé sem se resignar é covarde, mole ou não quer tanto assim, diz o autor.

  66. Renunciar a tudo em nome da fé é ganhar tudo de volta e muito mais, diz o autor. Isso parece guardar relação com os preceitos morais contidos em Mateus 6:33 e em Mateus 19:29.

  67. Quando o autor diz que não é possível renunciar a fé sem contradição, parece querer dizer que aqueles que deixam a fé o fazem por terem fé fraca e não porque a fé está errada.

  68. Por que algumas pessoas têm vergonha de sua fé?

  69. A fé começa onde a razão acaba.

  70. Cada indivíduo é próprio. Não seja obcecado em ser como os outros. Abdicar da sua individualidade em favor do geral é besteira.

  71. Sociedades não-cristãs não necessariamente são inferiores.

  72. Atos feitos na fé são incompreensíveis aos que não a tem. Explicar não clarificará as coisas.

  73. Porque Abraão fez o que fez? Porque Deus mandou.

  74. Para o autor, o dever é a manifestação da vontade divina.

  75. Abraão sacrifica o finito em nome do infinito.

  76. Tem gente que esquece o próprio sofrimento de tanto pensar no sofrimento dos outros. É meu caso.

  77. Já pensou se Abraão não tivesse realmente ouvido Deus e só estivesse esquizofrênico?

  78. Quando algo não é evidentemente errado nem evidentemente certo, só se pode julgá-lo por suas consequências.

  79. Se uma pessoa só faz uma coisa se o resultado dela for imediato, ela fará pouca coisa ou nada. Não devemos nos intimidar com a distância entre nosso ponto inicial e o ponto de chegada. Aliás, se vale a pena lutar por algo, não importa se é possível ou não. Lute somente. Pode até demorar demais, mas não vamos chegar a lugar nenhum pensando se vale a pena perseguir um objetivo tão distante.

  80. As pessoas, quando lembram da história de Abraão, geralmente não pensam na angústia que Abraão deve ter sentido ao saber que tinha que sacrificar Isaac.

  81. Ao relevar um ato heroico ou de grande importância, é preciso pensar nos sentimentos humanos que estão por trás do ato. O que o agente sentia quando fez o que fez? Se você tirar a humanidade, isto é, os sentimentos desses atos, eles deixam de ser grandes. São só histórias.

  82. A história de Abraão é a suspensão da moral normal por um objetivo divino. A ordem de Deus tem mais valor do que as máximas terrenas.

  83. Quando Deus me dá um dever, eu tenho um dever para com ele. Se ele me dá o dever de amar ao próximo, o faço por dever para com Deus. No entanto, Deus me deu um dever para com o próximo, então, por uma certa ótica, não é um dever para com Deus, mas para com o próximo, porque não interajo diretamente com Deus e nem ele ganha qualquer coisa com isso.

  84. A doutrina cristã é difícil de ser seguida em alguns pontos cruciais, como o abandono de tudo pelo amor a Deus. Mesmo nos Evangelhos, que enfatizam o amor, tem coisas que muitas pessoas, mesmo tendo muito amor, não estão dispostas a fazer (Mateus 19:21-22 / Lucas 10:27-37 / Lucas 14:26).

  85. Eu tenho que amar o próximo, diz 1 João 3:23, mas como posso, se eu tenho que odiar qualquer um que não é Cristo, conforme algumas traduções de Lucas 14:26? Por isso a tradução moderna de Lucas 14:26 é “quem ama […] mais que a mim”. Não é que eu tenha que odiar todo o mundo, claro que não! Mas eu devo amar Jesus mais do que aos outros e Deus acima de tudo. Assim, é proibido ao cristão odiar qualquer pessoa. Por isso não é possível um estado cristão; cairia ao primeiro sinal de guerra. Qualquer cristão que professe seu ódio, especialmente na política, é hipócrita.

  86. A igreja é um estado dentro de outro.

  87. O ódio ao mundo em nome de Cristo é perigoso ao estado. Imagine se você conhecesse um cara que segue só os quatro Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Sabe o que ele seria, em termos de ideologia política? Anarco-comunista. Não tem coisa mais ofensiva ao estado estabelecido do que a ideologia cristã pura. Claro, ele tem Jeová como Deus e Jesus como rei, mas nenhuma autoridade terrena é superior a deles. Ideais de castidade, por exemplo, de desapego aos bens materiais, de pacifismo, comunhão de bens e partilha de recursos a cada um segundo sua necessidade (Atos 2:42-45), todas essas coisas, se praticadas em larga escala, arruinam o estado.

  88. O crente de verdade é visto como mentalmente perturbado. Se alguém diz ter fé, mas não adota um comportamento peculiar pro mundano, talvez não tenha tanta fé assim.

  89. Mas como saber se o indivíduo está realmente lunático ou está agindo por ordem de Deus? Ninguém sabe! Só quem pode responder isso é a própria pessoa e, ironicamente, ela não saberá se estiver realmente lunática.

  90. As lágrimas comovem.

  91. Está escrito: o que Deus uniu, não o separe o homem (Mateus 19:6). Mas isso não exclui a possibilidade de Deus intervir pra separar. Não que eu pense que ele tenha boas razões pra isso. Parece estranho Deus intervir negativamente no casamento de alguém.

  92. O noivo calado não está gostando de casar.

  93. Nenhuma mulher é perfeita.

  94. Se todos agissem como quer a filosofia, o mundo seria uma comédia, diz o autor.

  95. Na época do autor, a dúvida sobre a imortalidade da alma estava “espalhada”. Imagine se ele vivesse hoje.

  96. Pouca gente tem a paixão necessária pra refletir criticamente e imparcialmente sobre a imortalidade da alma. Claro que isso só é possível por um viés cristão, mas nem no cristianismo essa crença é total.

  97. As pessoas riem umas das outras, mas, no final das contas, estão todos rindo de si mesmos….

  98. Ridículo alguém dizer que obteve a suprema sabedoria aos vinte anos. Nem Jesus começou seu ministério antes dos trinta.

  99. Os mais cultos são os que menos assumem o erro.

  100. Qual o sentido de assistir uma comédia cujo tema ocorre à nossa frente o tempo todo?

  101. Ter azar no amor por ter tentado é uma coisa. Ter azar no amor por destino é outra totalmente diferente. Imagine nascer com uma sexualidade gravemente condenável pela sua sociedade.

  102. É duro não obter aquele a quem nos podemos entregar, mas é indizivelmente duro não nos podermos entregar.”

  103. Qual é a função social de um poeta sem talento?

  104. Não existe gênio normal. Ser genial já é anormal.

  105. Professores universitários não necessariamente pensam. Por exemplo, meus professores de filosofia eram todos doutores, treinados em um autor específico. Assim, eles acabam devotando sua vida a repetir o pensamento desses autores em maior ou menor grau, em vez de desenvolver o próprio. Isso não quer dizer que eles não pensam, mas, como trabalham principalmente com a memória, podem até dar aulas de espírito ausente.

  106. Quando aparece um grande “sábio” de uma época, as pessoas tendem a não divergir muito dele. Assim, não se contestam verdades basilares postas em voga por grandes mentes de um tempo. Isso se chama “paradigma intelectual”, que muda conforme o nível tecnológico da campanha. Antigamente, ninguém duvidava do Aristóteles. Por muito tempo, se acreditou que Aristóteles sabia tudo o que se podia saber. Se pensava que divergir de Aristóteles era, necessariamente, errar. Depois, veio Tomás de Aquino, que, na verdade, repaginou Aristóteles. Depois, tivemos Bacon, então Descartes, então Kant, depois Hegel. Agora é a Globo. Amanhã pode ser Newgon.

  107. Subjetividade e realidade são coisas diferentes. Eu não preciso manifestar o que sinto.

  108. Considerando tudo isso, o autor não consegue entender Abraão. Só pra lembrar que esse livro é sobre ele.

  109. Abraão não falou nada a Isaac, Eliezer, nem a ninguém, porque ninguém entenderia se ele falasse. Se você tem que fazer algo que ninguém vai entender se você explicar, não explique. Só faça.

  110. Melhor lutar contra o mundo inteiro do que contra si mesmo.

  111. A moral pode ser uma tentação também. Às vezes, a coisa certa a ser feita é imoral.

  112. Para o autor, a humanidade de seu tempo já havia chegado ao ápice. Ele concluiu que tentar progredir mais, “imaginando” que havia mais para descobrir, era perda de tempo e engano de si mesmo. Já pensou se lhe tivessem dado ouvidos?

  113. Humanidade se aprende sozinho. Humanidade, para o autor, é a paixão. Não é possível ensinar a amar.

  114. Fé também é paixão. Não é possível ensinar a ter fé.

  115. Toda a brincadeira tem um nível de seriedade.

  116. É um risco constante que o progresso traga regresso.

  117. Uma pessoa não pode explicar o que não compreendeu.

  118. Somos predispostos ao mal.

  119. Na hora que eu escrevi a anotação anterior, ouvi quatro tiros lá fora. Depois ouvi uma mulher gritando. Por que será?

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