Anotações sobre “Biased Terminology Effects and Biased Information Processing in Research on Adult-Nonadult Sexual Interactions: An Empirical Investigation”.

“Biased Terminology Effects and Biased Information Processing in Research on Adult-Nonadult Sexual Interactions: An Empirical Investigation” foi escrito por Bruce Rind e Robert Bauserman. Abaixo, algumas anotações feitas sobre esse texto. Elas não necessariamente refletem minha opinião sobre o assunto.

  1. Geralmente, relações entre adultos e menores são descritas utilizando termos de carga negativa, mesmo quando a relação não foi forçada ou não prejudicou o menor (“estupro“, por exemplo, uma palavra que traz a ideia de penetração forçada, mesmo quando não houve penetração ou força).
  2. Porém, alguns pesquisadores contestam o uso desses termos pra descrever todas essas relações, mesmo as positivas, porque isso predispõe o leitor a um julgamento moral tendencioso, prejudicando a avaliação imparcial do ato.
  3. O propósito do estudo é saber até que ponto isso é verdade.
  4. Pesquisadores usam o termo “abuso sexual infantil” para designar todas as relações sexuais entre menores ou entre adulto e menor, sem fazer distinção entre experiências positivas, negativas ou neutras, de forma que os três tipos são chamados de “abuso”.
  5. No entanto, outros pesquisadores apontam que o uso dos termos “abuso”, e “exploração” são aplicados a despeito do efeito sentido pelo menor (um envolvimento sexual positivo ainda é “abuso”, mas fica difícil pro leitor entender como pode um “abuso” redundar em benefício ao menor).
  6. A base para o uso desses termos é social e não científica.
  7. Da mesma forma, mesmo que o ato não tenha vitimado o menor, ele ainda é chamado de “vítima”, “sobrevivente” ou “molestado” (importante lembrar que alguns menores se sentem ofendidos ao ser chamados de vítimas por um ato que não lhes prejudicou).
  8. Alguns pesquisadores, porém, dizem que é incorreto não chamar esses menores de vítimas, mesmo que isso contradiga o julgamento do menor, ou seja, dependendo do terapeuta, não importa o que o menor pensa do ato.
  9. O uso indiscriminado desses termos confunde o leitor: “abuso” é ato prejudicial ou simples quebra de normas sociais?
  10. Violação de normas sociais não são sempre prejudiciais (homossexualismo, isto é, relações entre pessoas do mesmo sexo, eram violação de normas sociais algumas décadas atrás).
  11. O uso desses termos revela a crença de que esses contatos são sempre errados ou sempre puramente eróticos, isto é, sem elementos de afeto, mas isso não é verdade.
  12. O escritor que usa esses termos pra descrever todos esses contatos pode não ser imparcial (por exemplo, tem comprometimento com ideologia política)… ou pode estar simplesmente com medo de causar ultraje público.
  13. Essas relações não são sempre negativas, então não se pode usar sempre termos negativos.
  14. Você não pode presumir que houve violência, a menos que haja indícios dessa violência!
  15. Encontros abusivos existem, mas existem também aqueles em que o menor concorda com o ato, o inicia ou se beneficia do ato, mesmo que seja pela mera obtenção de prazer.
  16. O uso desses termos impede a experiência de ser avaliada objetivamente.
  17. Chamar de vítima quem não se sente vítima, a ponto de fazê-lo se sentir vítima, pode causar dano psicológico.
  18. O uso de termos de valor negativo prejudica o trabalho do cientista, que pode concluir de forma errada por imaginar que houve dano onde nenhum dano ocorreu.
  19. Antigamente, chamar a homossexualidade de “perversão” levou vários cientistas a ver essas práticas como fundamentalmente erradas, impedindo a avaliação imparcial desses fenômenos, de forma que esses estudos concluíam aberrações.
  20. A prova de que “meras palavras” podem levar a pessoa a emitir um julgamento menos objetivo é o fato de que nós olhamos diferente pra pessoas que se comunicam usando termos racistas, de forma que o que ele está dizendo passa a importar menos do que a forma como ele está dizendo.
  21. Se ocorre uma relação entre um adulto e um menor e você a chama de abuso, mesmo na ausência de violência, e conta o incidente a alguém, essa pessoa pode pensar “se ele está chamando de abuso, deve ter ocorrido violência”, ou seja, a pessoa entende errado.
  22. Tem um monte de evidência de que relacionamentos benéficos entre adultos e menores existem.
  23. Se você visse um menor que se tornou uma pessoa melhor por causa do adulto que se relacionou com ele, você interpretaria o ato como abusivo?
  24. Alguns pesquisadores simplesmente não acreditam que alguns desses contatos são positivos, interpretando o aparente benefício como malefício latente (como se não tivesse ainda dado tempo pra os sintomas aparecerem).
  25. Os sintomas podem aparecer depois que ocorre intervenção médica ou legal na relação que estava sendo experimentada como positiva ou neutra.
  26. O estudo incluiu oitenta estudantes, divididos em quatro grupos, que receberam um artigo sobre relações sexuais positivas ou neutras:
    1. Um grupo recebeu o artigo condensado, com termos neutros, sem descrição da vida adulta dos menores depois que cresceram.
    2. Um grupo recebeu o artigo condensado, com termos neutros, com descrição da vida adulta dos menores depois que cresceram.
    3. Um grupo recebeu o artigo condensado, com termos negativos, sem descrição da vida adulta dos menores depois que cresceram.
    4. Um grupo recebeu o artigo condensado, com termos negativos, com descrição da vida adulta dos menores depois que cresceram.
  27. Os grupos dois e quatro sabem que essas relações não prejudicaram os menores, mas o grupo quatro recebeu uma versão com os termos neutros convertidos em negativos, permitindo que os pesquisadores testassem como os sujeitos reagiriam ao ver que o “abuso” trouxe benefício.
  28. Em todo caso, os participantes poderiam julgar se a terminologia estava correta, de forma que os estudantes que receberam o artigo com termos negativos poderiam julgar se o uso desses termos estava justificado, bem como os estudantes que receberam o artigo com termos neutros poderiam julgar se essas experiências não merecem ser chamadas de abusivas.
  29. Os alunos deveriam também julgar se os menores envolvidos nessas relações realmente sofreram.
  30. Os alunos deveriam também julgar se os menores consentiram.
  31. Os alunos deveriam também julgar se houve manipulação.
  32. Os alunos deveriam também julgar se os menores precisariam de terapia.
  33. Os alunos deveriam também julgar se os adultos envolvidos eram doentes ou não.
  34. Os alunos deveriam também julgar se os adultos deveriam ou não ser punidos.
  35. Os alunos deveriam também julgar se o escritor do artigo estava mesmo fazendo ciência ou propaganda.
  36. Alunos que foram expostos aos dados sobre a vida adulta desses menores e viram que essas relações não os prejudicaram tendiam mais a julgar esses encontros de maneira mais positiva (interessante notar que as notícias sobre relações entre adultos e menores sempre se manifestam usando termos negativos e frequentemente omitem o julgamento do menor, então estamos todos no grupo três).
  37. Parece que o uso de linguagem negativa e a supressão de informação têm um papel em predispor um leitor a um julgamento negativo para uma relação que não foi negativa.
  38. No entanto, parece que todos os grupos concordam que a terminologia estava adequada, o que significa que o leitor, embora seja predisposto a um julgamento negativo quando lê um relato que usa termos negativos, não acha que os termos neutros seriam mais apropriados, ou seja, a linguagem foi aceita sem crítica, mesmo que ela tivesse efeitos sobre o julgamento.
  39. Mais que isso, o julgamento negativo permanece quando o ato é descrito em termos negativos, mesmo na ausência de qualquer evidência de dano.
  40. Isso quer dizer que o uso indiscriminado de termos negativos para descrever relações entre adultos e menores, mesmo na completa falta de prejuízo ou violência, pode causar doutrinação do leitor.
  41. Então, o uso indiscriminado de termos negativos, em vez de reservá-los apenas para experiências negativas, prejudica a imparcialidade científica.
  42. O uso de linguagem negativa prejudica também o julgamento dos resultados no grupo quatro.
  43. Comportamento sexual minoritário não é sinônimo de doença.
  44. O comportamento dos envolvidos no estudo não pode ser generalizado, porque pessoas em geral tendem a ser menos liberais do que aqueles que são voluntários em estudos sexuais, o que significa que a pessoa normal poderia julgar essas relações negativamente mesmo na ausência de termos negativos.
  45. Além do mais, o artigo ao qual os estudantes foram expostos lidava com relações homossexuais entre adolescentes e homens adultos, mas os estudantes talvez julgassem diferentemente se, em vez de adolescentes, fossem crianças, ou se as relações fossem heterossexuais.
  46. Apesar disso, o uso de linguagem negativa é, sim, capaz de predispor o leitor a julgamento negativo, mesmo quando os envolvidos são adolescentes e mesmo que não tenha ocorrido dano, prejudicando a imparcialidade dos dados.

Publicado por Yure

Quando eu me formei, minha turma teve que fazer um juramento coletivo. Como minha religião não me permite jurar nem prometer, eu só mexi os lábios, mas resolvi viver com os objetivos do juramento em mente de qualquer forma.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: