Analecto

26 de setembro de 2018

É a justiça social um movimento legítimo?

Então, esses dias, a Fundação Linux resolveu adotar o Contributor Covenant, o que causou grande ira na comunidade de desenvolvedores. As notícias parecem otimistas em relação a isso, enquanto que a comunidade em si parece furiosa. Como as notícias parecem oferecer apenas um lado da história, eu gostaria de oferecer uma visão brasileira sobre o que está acontecendo num país que não é o meu, mas que produz um monte de software que eu uso.

Para os desenvolvedores, o código de conduta adotado pela fundação, baseado num documento produzido fora de seu âmbito, representa uma intrusão política em negócios totalmente objetivos e orientados por funcionalidade, no caso, a programação. O código seria, a priori, desnecessário, porquanto muitas de suas políticas já são adotadas sem sua presença. Por último, o código é altamente relativo e vago, permitindo que virtualmente qualquer pessoa possa expulsar outra do projeto com alegações de assédio ou discriminação, as quais podem ter ferido apenas sentimentos. Isso é agravado pelo fato de que as pessoas que mais contribuem com o código não são minorias, de forma que pessoas que contribuem menos poderão eliminar do projeto aqueles que contribuem mais. A comunidade argumenta que isso aconteceu em outros grandes projetos que adotaram políticas parecidas, as quais eles sumarizam como “diversidade sobre habilidade”, causando deterioramento dos serviços prestados e retardamento no andar do desenvolvimento. A resposta dos desenvolvedores mais ativos foi ameaçar remover as partes do código Linux que foram contribuídas por eles do projeto, o que prejudicaria tanto clientes (como eu, que uso Manjaro, e usuários de Android) e servidores (porquanto a maioria dos sites mais usados hoje, mesmo os pornográficos, são hospedados em máquinas com Linux).

Essa é uma atitude extrema, mas, na minha opinião, compreensível. Eu venho pensando nisso faz algum tempo e eu publiquei um pequeno comentário em outro lugar, em inglês, sobre o que está acontecendo e resolvi colocar essas ideias aqui para leitores brasileiros. Mas antes de entrar em detalhes, tenho três amigos trans aos quais eu me refiro com os pronomes que eles desejam (embora eles mesmos não se importem em ser referidos por seu sexo biológico) e, embora eu não me considere mais esquerda, não sou direita também. De fato, ainda tendo à esquerda. E é por isso que me preocupo com a justiça social, mas não porque acho que ela é boa: a justiça social não cessa de envergonhar a esquerda.

Deixa eu explicar: o Contributor Covenant permite que grupos minoritários ataquem grupos majoritários por razões pequenas, ou mesmo hipócritas, o que, na verdade, aumenta o ódio que a maioria tem da minoria. Isso acontece porque a justiça social tem um pecado original herdado do feminismo, que é a busca pela igualdade pela consideração de apenas de um lado da balança. É por isso que se chama “feminismo”: somente os problemas da mulher são levados em consideração. Tudo para o feminismo é problema da mulher. O homem e o menino só entram nesses discursos como entidades opressoras, mesmo que homens e meninos particulares não sejam opressores. Mas, para fazer uma analogia, podemos equilibrar uma balança sem saber o conteúdo do outro lado, especialmente quando tudo o que fazemos é colocar cada vez mais peso no lado para o qual olhamos? Não, a tendência é que o lado sobre o qual prestamos atenção fique cada vez mais pesado. A justiça social é, talvez inadvertidamente, a aplicação do mesmo princípio para todas as minorias. É por isso que não existe (ou parece não existir) justiça social para homens, por exemplo.

O ponto em que quero chegar é que o movimento da justiça social está arruinando cada vez mais coisas, porque ele não está avaliando os custos de seus atos. A universidade Evergreen perdeu três professores, teve uma queda de 40% no número de matrículas e perdeu milhões de dólares em fundos porque alunos enfurecidos expulsaram um professor branco da sala, durante um dia especial, aprovado pela direção, em que brancos não poderiam entrar no campus. Esse, claro, é apenas um exemplo. Mas não parece estranho que um movimento que pregue a igualdade e a justiça tenha aprovado e talvez sugerido um “dia especial” no calendário acadêmico no qual nenhum branco, seja aluno ou professor, poderia entrar no campus? Para mim, isso é hipocrisia, mas também é injustiça. Assim, um movimento que fala de justiça social ganha contornos hipócritas. Isso legitima a reação dos grupos majoritários. Mas agora vem a pergunta-chave: quantas pessoas que são contra essas atitudes culpam o movimento como entidade política e quantas pessoas culpam as minorias que tal movimento afirma proteger?

Novamente, o exemplo do feminismo: esse movimento afirma representar o melhor interesse de todas as mulheres, apesar a maioria das mulheres não ser feminista. Assim, um ataque ao feminismo pode ser interpretado como um ataque à mulher e é prontamente rotulado como misoginia. O problema é que o uso dessa linguagem e desse significado reforça a ligação entre feminismo e mulheres em geral, dando oportunidade ao surgimento de misoginia verdadeira. O mesmo ocorre com a justiça social. Com um movimento que se comporta dessa forma, a tendência é que cada vez mais pessoas culpem negros, mulheres, imigrantes, trangêneros e outros grupos minoritários por tudo de ruim que acontece. Não culpam o movimento ou a ideologia, mas suas causa materiais visíveis, que são os que compõem o movimento, cujas atitudes são generalizadas por estes afirmarem agir no melhor interesse dos grupos que representam. Para verificar minha teoria, basta olhar para as pesquisas de intenção de voto no Brasil: Bolsonaro, líder da extrema direita, tem chances sérias de ganhar. Assim, o movimento da justiça social fortalece a direita, porquanto, ao agir de forma fundamentalmente injusta e hipócrita, fomenta atitudes reacionárias. E sim, o movimento da justiça social foi importado pela mídia brasileira e inoculado na população geral, a ponto de uma nação de mestiços ser capaz de apontar quem é “negro” e quem é “branco”, quando nossos genes descendentes de europeus, africanos e indígenas traem essas denições. Nunca houve tanto racismo aqui.

Suponhamos que o protesto dos desenvolvedores se efetue e um monte de linhas de código sejam removidas do núcleo Linux, podemos nos preparar para a falência da Internet. Linux é o núcleo mais seguro da atualidade, razão pela qual vários servidores o usam. Remover código do Linux representa a remoção da segurança de vários setores da Internet. Para ilustrar como isso é grave, você lembra do shellshock? Bom, o shellshock foi uma falha no GNU Bourne Again Shell, mais conhecido como bash, que permitia a execução de código arbitrário de fonte remota utilizando variáveis de ambiente. Em língua de leigos, isso significa que qualquer pessoa que descobrisse um meio de passar variáveis de ambiente para um servidor tomaria controle dele. Isso não teria causado o pânico que causou se a maioria dos servidores da Internet não executasse Linux, afinal o bash é incorporado em distribuições desse núcleo. Imagine se os desenvolvedores que resolveram esse problema tirassem dali a solução que eles implementaram. A vulnerabilidade voltaria. Assim, com os danos causados pela justiça social e a raiva acumulada contra esse movimento, a população que soubesse do ocorrido daria razão ao desenvolvedor. Eu daria razão ao desenvolvedor, porquanto não se deve misturar política e ciência, política e programação: que o mais habilidoso seja capaz de contribuir, isso não prejudica a diversidade, mas priorizar a diversidade pode excluir o habilidoso. Isso é meritocracia, mas sou forçado a admitir que é a meritocracia que sustenta o núcleo sobre o qual se assenta o Tumblr.

Resumindo: a justiça social como movimento radical age contra os interesses das minorias que afirma representar e, por afirmar agir no melhor interesse de todas essas minorias, aumenta o ódio por essas minorias a cada ato claramente injusto ou hipócrita, alimentando discursos reacionários e favorecendo a direita, tudo isso porque sua premissa fundamental, de considerar apenas um lado sem avaliar custos de suas ações, prejudica a todos. Assim, a pergunta à qual eu queria chegar: a justiça social é um movimento legítimo? Cuido que não. É provável que o movimento da justiça social seja uma operação de “bandeira falsa”. Eu sei que isso soa como uma teoria da conspiração, mas imagine só: e se pessoas-chave da justiça social forem, na verdade, proponentes da direita, que instrumentalizam pessoas da esquerda para agir contra seus interesses? Talvez eu esteja errado, mas o fato é que a justiça social tem sido o maior aliado da direita nesta década.

Para encerrar, peço que as minorias que se posicionam contra os atos extremos do movimento da justiça social se juntem e vocalizem seu desgosto por essas ações, que publicamente repudiem o que está acontecendo. Novamente, o exemplo do feminismo: cada vez mais mulheres e meninas estão deixando o feminismo ao perceber que ele é injusto com os homens e com os meninos, além de impedi-las de construir relacionamentos desejados (já que cada vez mais homens evitam mulheres). Afinal, se o público ver que não são todas as minorias a favor do extremismo, a tendência a atacar a ideologia, não aqueles a quem a ideologia afirma proteger, será maior, e haverá pressão bilateral contra a ideologia. Isso não quer dizer abandonar as esperanças de aceitação ou de igualdade, mas que nenhuma atitude nessas direções pode ser tomada sem considerar o outro lado da balança ou sem considerar os danos sociais causados pela atitude (no caso, a implementação do Contributor Covenant pela Fundação Linux pode colocar usuários de Linux em risco com ou sem o protesto dos desenvolvedores). Segundo, peço que a Fundação Linux crie seu próprio código de conduta, em vez de adotar um que venha de fora, e que a criação do código próprio seja democrática, com as vozes dos desenvolvedores sendo ouvidas no processo, visando o melhor interesse daqueles que usam o núcleo. Se isso não for acatado, que se derive (fork) o núcleo. Por último, que todos verifiquem as consequências de seus atos e também dos atos dos outros, para que saibamos quais ativismos são lícitos e quais não são. Afinal, se a consequência de uma atitude é prejudicial até mesmo para aquele que toma a atitude, essa é uma atitude tola… ou trollagem.

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