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9 de dezembro de 2018

O que aprendi lendo “Harmful to Minors”.

Filed under: Livros, Notícias e política, Passatempos, Saúde e bem-estar — Tags:, — Yure @ 16:41

Harmful to Minors: the perils of protecting children from sex” foi escritopor Judith Levine. Abaixo, o que aprendi lendo esse livro.

  1. Meios de censurar conteúdo automaticamente acabam censurando conteúdo legítimo.
  2. Por exemplo, a América Online chegou a bloquear a palavra “mama”, o que bloqueou resultados de pesquisa sobre câncer de mama.
  3. Além disso, esses filtros podem sorrateiramente bloquear coisas que não tem nada a ver com sexualidade, como certas ideologias políticas.
  4. Há uma crise sexual acontecendo na América.
  5. Americanos são líderes em gravidez adolescente, aborto, doenças sexualmente transmissíveis, estupro, abuso sexual infantil, entre outros problemas.
  6. Apesar disso, ninguém quer falar sobre educação sexual ou sobre sexo em geral.
  7. Há um medo de discutir esses problemas, porque os especialistas que tocam no assunto são alvo de críticas que lhes podem custar o emprego.
  8. Há pais que querem que seus filhos recebam educação sexual, mas o governo é relutante em tornar esse tema um componente obrigatório no currículo escolar.
  9. A educação sexual que temos é orientada por nossas ideologias políticas, mais do que é orientada por dados cientificamente precisos.
  10. Se nossas crianças e adolescentes forem sexualmente desinformados, nenhum desses problemas diminuirá.
  11. Nossos jovens já estão fazendo sexo sem camisinha, então como dar camisinha pra eles é incentivo à trepa?
  12. É mais fácil um voto de castidade quebrar do que uma camisinha romper.
  13. Os jovens são os que mais precisam de informação sexual: se eles não aprenderem de nós, aprenderão de outro lugar.
  14. Há uma agenda política conservadora implícita em muitos esforços de proteção à criança.
  15. Tudo bem você ser contra o aborto, mas qual é o sentido de você dar mais importância ao feto do que à criança depois que ela nasce?
  16. Deve haver acesso à informação sexual em qualquer idade.
  17. É perigoso tratar sexo como algo perigoso.
  18. Educação sexual é ensinar autoestima, a fazer boas decisões e a respeitar a si mesmo.
  19. A indústria dos livros sofre com a falta de gente com erudição, seriedade e coragem.
  20. O perigo é a mãe da moral.
  21. É possível que uma criança ou adolescente experimente prazer sexual sem se colocar em risco.
  22. Livros sobre esse assunto são extremamente impopulares e não vendem.
  23. Isso não é algo inerente ao livro, mas ao clima social; não era assim antes.
  24. Quem mais lê esse tipo de material são os pais e eles não querem algo que conflite com suas crenças.
  25. Uma discussão sobre sexualidade infantil torna-se questionável se o termo “prazer” é incluso.
  26. Por pouco o livro não foi publicado, porque nenhum editor quereria um livro que não venderia bem, por razões culturais, políticas ou econômicas (o livro é de 2002, quatro anos após a publicação do Relatório Rind e três anos após o início da controvérsia).
  27. Ironicamente, o livro é justamente sobre essas forças que quase impediram a publicação do livro.
  28. Essas forças podem ser sintetizadas em uma palavra: medo.
  29. O medo da sexualidade infantil é recente, mas fundado em uma combinação de elementos históricos.
  30. Um monte de dano desferido às crianças é feito cinicamente sob a máscara da “proteção”.
  31. Essas políticas de repressão à sexualidade infantil frequentemente operam o contrário da proteção.
  32. Crianças e adolescentes não precisam de uma política baseada no medo.
  33. Interessantemente, é quando há mais privatizações que mais se fala em valores familiares.
  34. Em uma sociedade que valoriza a família, pessoas que “não têm” família são marginalizadas (incluindo idosos negligenciados e homossexuais).
  35. Chefes confusos de família acabam se voltando para o “aconselhamento profissional” da mídia.
  36. Revistas voltadas aos pais capitalizam sobre o medo que os pais sentem.
  37. Quanto mais vago for um artigo nessas revistas, mais elas vendem, pois títulos vagos atraem mais atenção de um número maior de pessoas.
  38. Depois de deixar os pais mortos de medo com o que pode acontecer com seus filhos, essas revistas então oferecem uma solução, mas claro que não é uma solução gratuita.
  39. São, portanto, anúncios disfarçados.
  40. Se pai se torna algo mais difícil do que normalmente é, com tantas fontes dizendo que você está criando seus filhos de forma errada.
  41. Assim, ótimos pais acabam se sentindo mal, pensando que estão falhando como pais.
  42. Nessa atmosfera, incutir medo da sexualidade infantil é outra forma de ganhar dinheiro.
  43. Se sexo pode tornar uma pessoa tanto feliz quanto infeliz, a preocupação para fazer sexo “da forma correta” cresce.
  44. Sexo passa a ser um risco para pessoas vulneráveis (mulheres e crianças).
  45. Essa sensação de risco veio de duas grandes fontes: feminismo e religião.
  46. O feminismo propagou a ideia de que mulheres são vítimas frequentes e a direita religiosa propagou a ideia de que crianças e mulheres são naturalmente avessas ao sexo (o resultado só pode ser a ideia de dano inerente).
  47. Assim, ocorreu a aliança entre o feminismo e a direita cristã conservadora, os quais estão por trás, por exemplo, do ódio à pornografia ou à prostituição, chamando-as de “violência contra a mulher”.
  48. Se não ocorreu abuso, o mercado de saúde mental está disposto a inventar um pra você.
  49. O medo do aborto, do divórcio, da homossexualidade, do contato sexual entre menores e da educação sexual são todos um: medo de que a sacrossanta família tradicional seja eliminada.
  50. Isso fomenta teorias da conspiração.
  51. Tudo isso alimenta estratégias políticas e oportunismo profissional.
  52. Em uma situação histérica, é difícil achar uma pessoa disposta a discutir esses assuntos racionalmente.
  53. A histeria pode chegar ao judiciário.
  54. A criança ou adolescente que deseja contato sexual é ensinada a se negar satisfação quando a oportunidade surge.
  55. 90% dos heterossexuais americanos perde a virgindade antes do casamento, mesmo antes dos vinte anos.
  56. Sexo ocorre cada vez mais cedo, de forma cada vez mais sofisticada.
  57. Um em cada quatro adolescentes sexualmente ativos contrai (nos Estados Unidos) uma doença sexualmente transmissível (talvez porque ninguém quer esses moleques com camisinha)
  58. A revolução sexual foi uma revolução mais pra mulher: ela se sentiu empoderada pra ter mais agência sexual, enquanto que homens continuaram agindo como sempre agiram.
  59. Então, se a revolução sexual foi um período de muito sexo, isso ocorreu porque mais mulheres disseram “sim” ao sexo.
  60. Elas se sentiam mais livres.
  61. Duas em cada dez meninas faz sexo pela primeira vez antes dos quinze anos.
  62. Nos anos cinquenta, ninguém reclamava se adolescentes se casavam.
  63. Perder a virgindade não indica que o guri será um tarado: muitos jovens têm sexo menos de dez vezes por ano.
  64. Os pais preferem ignorar o conhecimento sexual de seus filhos e sempre ficam surpresos ao saber o quanto eles sabem sobre sexo sem que “ninguém” os tenha ensinado.
  65. “Especialistas” não estão prontos para admitir que crianças e adolescentes têm contato sexual porque gostam, preferindo racionalizar o comportamento com uma série de presunções negativas (dizem que os pequenos fazem por pressão, por aliciamento, porque veem pornô, porque usam drogas, sempre dizem que é uma razão ruim).
  66. Pra piorar, essas racionalizações encontram pouca ou nenhuma base empírica.
  67. Isso porque esse tipo de assunto é tabu até na ciência, a qual é fundada pelo governo, o qual se mantém sobre a opinião pública.
  68. Ninguém quer admitir que a criança ou adolescente tem contato sexual porque é gostoso, porque eles gostam da pessoa com quem têm esse contato, porque isso lhes aumenta a autoestima….
  69. Lembrando: é possível se prevenir da AIDS.
  70. Se sexo é ruim, não se pode falar que ele é gostoso.
  71. Adolescentes sabem como usar camisinha e às vezes são usuários mais assíduos dela do que adultos.
  72. Você não quer que seus filhos se machuquem, mas pais estão dispostos a deixar seus filhos correrem riscos.
  73. Por que seria diferente com a sexualidade?
  74. A crença de sexo é perigoso não tem nem dois séculos de existência.
  75. Doutrinas como “a mente é uma folha em branco” ou “o ser humano nasce bom e é corrompido pela sociedade” foram os primeiros motores da preocupação com o que a criança está aprendo de nós, adultos.
  76. Antigamente, o crescimento era algo gradual, mas hoje ele passa por etapas fixas.
  77. Conhecimento sexual também vinha gradualmente, em vez de ficar reservado para pessoas de determinada faixa etária.
  78. Em lugares onde há poucas mulheres, elas têm mais liberdade sexual, mas também são vitimadas mais frequentemente.
  79. A idade mínima para casar em alguns lugares já foi doze anos e sexo dentro e fora do casamento era comum.
  80. Em comunidades religiosas antigas, sexo antes do casamento podia ser perdoado se os envolvidos se casassem, de forma que muitas mulheres se casavam grávidas.
  81. Com a invenção da adolescência como “estágio crítico da vida”, até o adolescente passou a ter sua sexualidade reprimida pela preocupação de criá-lo da forma correta.
  82. Fala-se da sexualidade como uma força maligna, em vez de inata e construtiva.
  83. É como se a sexualidade fosse uma “patologia normal”.
  84. Isso acontece porque muitos conceitos vitorianos ainda estão em voga no inconsciente coletivo, incluindo, claro, o conceito de “criança inocente”.
  85. Políticas progressistas construíram um muro entre infância e idade adulta, com cada novo avanço separando os dois mundos cada vez mais.
  86. Por outro lado, o avanço, inclusive econômico, tenta abrir buracos nessa parede utilizando o conceito de adolescência.
  87. Por exemplo, o emprego de adolescentes como força de trabalho, o que, claro, os expõe ao mundo “adulto”, onde a sexualidade é um elemento presente (aliás, um elemento visível).
  88. A mídia de massa, inclusive a Internet, dá conhecimento às crianças e adolescentes, o que inclui conhecimento sexual.
  89. Hoje em dia, tem criança na faculdade e adultos na escola, não se pode mais falar de universos exclusivamente pautados em faixa etária.
  90. Adulto e criança são categorias que tendem a se reconciliar.
  91. A única diferença entre adulto e criança é a dependência, porquanto em tudo o mais (economia, política, sexualidade e, quando esta ocorre, a guerra) ela participa de vicissitudes adultas.
  92. Pergunte a si mesmo: por acaso sexo faz mal?
  93. Como crianças podem ser inocentes se somos nascidos em pecado?
  94. “Adolescência” é um conceito social, não biológico.
  95. Há grande ansiedade entre os pais que querem desenvolver filhos perfeitos, o que acaba servindo para criar também pais frustrados que punem a criança em excesso.
  96. Se a criança é inocente, como ela pratica atos “maus” com tanta facilidade sem tê-los aprendido?
  97. Em muitos países, a idade de consentimento é maior do que a idade de responsabilidade penal.
  98. Assim, nos Estados Unidos, o adolescente de doze anos não pode fazer sexo, mas pode ser julgado como adulto se cometer um crime grave (o inclui sexo antes dos dezesseis anos) ou se o sistema que lida com menores infratores decidir que ele merece receber tratamento penal adulto (no Brasil, você pode fazer sexo aos catorze anos e só pode ser julgado como adulto a partir dos dezoito anos).
  99. Isso é feito no melhor interesse do menor, supostamente.
  100. Como a infância é um construto social, ela acaba também sendo preenchida com elementos ideológicos, por isso ninguém concorda com o que seria esse “melhor interesse” do menor.
  101. A relação entre infância e sexualidade é uma questão moral.
  102. Para algumas pessoas, a idade é o primeiro critério de moralidade de uma relação sexual, de forma que, a menos que a pessoa esteja na idade de consentimento, sexo é imoral a priori, a despeito de quaisquer outros elementos do relacionamento.
  103. Para outros, os critérios de estado civil e orientação sexual vêm em segundo lugar: a menos que a pessoa seja heterossexual, adulta e casada, sexo seria imoral.
  104. Educação sexual pressupõe que a criança ou adolescente terá contato sexual ao longo de sua vida, mesmo que não penetrativo, antes da idade adulta, então é melhor ensiná-los a lidar com isso.
  105. A criança ou adolescente que encaram a sexualidade como algo positivo não necessariamente crescerão infelizes e nem imorais.
  106. O objetivo da educação sexual é ensinar a criança e o adolescente a viverem sua sexualidade responsavelmente.
  107. Se isso não for feito, o número de jovens infectados por HIV a cada ano (20.000) não vai diminuir.
  108. Estamos agravando a crise sexual.
  109. Contato sexual não é inerentemente danoso; são as circunstâncias que podem tornar a experiência sexual danosa que devem ser evitadas.
  110. Os elementos da crise sexual também estão presentes em outros problemas sociais.
  111. Algumas pessoas acham que mulheres odeiam sexo e nunca o fariam de boa vontade.
  112. O maior fator de risco para abuso sexual não é o desejo por intimidade física, mas a desigualdade social, que impede que certos setores da sociedade tenham boa educação, boa saúde e meios de subsistência.
  113. Sexo faz parte da vida, ele não deve receber tratamento diferente de outros setores da vida (não há necessidade de diferenciar entre a arte “normal” e a “pornográfica”, entre educação normal e sexual, entre política normal e política sexual).
  114. Não deve haver uma categoria “abuso sexual” como se fosse algo diferente de outas formas de abuso.
  115. Contato sexual antes dos catorze anos não precisa ser algo sempre imoral.
  116. Da mesma forma, nosso posicionamento em relação ao desejo do menor nem sempre é moral.
  117. Proteger alguém de um risco inexistente é prejudicial.
  118. Sexualidade não é inerentemente prejudicial, então o que se deve combater são as circunstâncias que tornam a experiência sexual objetivamente negativa.
  119. Nossa cultura põe extrema importância no sexo.
  120. Se espera que o adulto seja sexualmente experiente, então os rudimentos da sexualidade devem ser ensinados antes da idade adulta pra que a vida sexual adulta seja boa.
  121. A criança é, ao mesmo tempo, subestimada por ser ignorante em matérias sexuais, mas também louvada por sua “inocência”, de forma que a ignorância infantil é tida como positiva ou negativa dependendo do contexto (duplo padrão).
  122. A principal forma de manter a criança ignorante de qualquer coisa  através da censura.
  123. Se censura qualquer material “sexual” que poderia cair nas mãos de “crianças”, mas os termos “sexo” e “criança” não estão definidos de maneira clara.
  124. Alguns trabalhos de ficção que incluem nudez infantil, mesmo que não na forma de imagens, mas somente na forma de texto, causam espanto.
  125. Um grupo de cervejeiros no recebeu licença pra operar porque a mascote do grupo era um sapo mostrando o dedo do meio, com uma legenda escrito “anfíbio com atitude”.
  126. “Humor de banheiro” também é considerado impróprio pros pequenos, apesar de ser o assunto favorito deles.
  127. É trágico quando nem professores de educação sexual podem falar de sexo com os pequenos que atendem às aulas.
  128. Quando a mídia se torna massificada, separar audiências se torna muito difícil, mas já se percebeu que “sexo vende” e que há crianças que consomem objetos que nós adultos, consideramos “impróprios”.
  129. Mas séculos atrás, nada disso importava e a criança participava também do mundo sexual adulto.
  130. Portanto, não se pode dizer que as crianças de hoje estão “mais sexualizadas que nunca”; se você olhar pra história da infância, verá que houve épocas em que a criança fazia também.
  131. O significado do termo “sexo” passou a incluir coisas que nem sequer têm existência física.
  132. Crianças e adolescentes por vezes preferem fazer experimentos sexuais “online”.
  133. Aprendem sobre sexo pela televisão.
  134. É possível aprender sobre sexo e ter as primeiras fantasias consumindo as notícias.
  135. Classificação indicativa é coisa do século passado, bem recente.
  136. A mídia infantil se organiza segundo o que a criança quer ver.
  137.  As crianças de hoje consomem a mídia que ontem só adolescentes podiam consumir.
  138. A sexualidade infantil não pode ser eliminada, então o que estamos fazendo?
  139. Estamos tornando ela invisível, pensando que estamos eliminando ela, quando só estamos a direcionando pra longe de nossos olhos.
  140. Conhecimento é um direito humano.
  141. A criança é curiosa e consideramos sua curiosidade uma virtude.
  142. Mas dizer que a criança está curiosa também é uma forma de racionalizar comportamento sexual que, na verdade, tem como fundamento a busca por prazer.
  143. A criança que aprende sobre sexo não necessariamente quererá tentar fazer sexo.
  144. Práticas sexuais variam segundo tempo e lugar (por exemplo: houve um tempo em que o homem atraído por outros homens não era visto como homossexual, pois era uma época em que identidade sexual não existia, não se falava de cada sexualidade como uma categoria separada).
  145. Por que não se fala dos atos sexuais presentes na Bíblia Sagrada (tem incesto lá, bem como  prostituição, adultério, entre outros)?
  146. Uma educação sexual conservadora acaba sendo doutrinação sexual.
  147. A obscenidade está nos olhos de quem vê.
  148. Diga para uma criança que ela no deve fazer tal coisa e talvez ela querer fazer.
  149. Talvez o princípio fundamental de leis contra obscenidade seja a ideia de que “algumas pessoas podem ter pensamentos errados”.
  150. Assim, leis contra obscenidade que punem atos inofensivos são leis que prezam um bem jurídico metafísico: a pureza de pensamento.
  151. Onde está a evidência de que a exposição à sexualidade, na forma de imagens ou palavras, é prejudicial aos menores?
  152. No caso de adultos, essa conexão é inexistente: o adulto que vê pornografia não vira estuprador.
  153. Pelo contrário: a presença de pornografia reduz crimes sexuais em territórios onde ela é facilmente acessível.
  154. Não há evidência de que pornografia prejudica menores.
  155. Entrevistas com criminosos revela que crianças que se tornam criminosas sexuais na verdade são as que menos tiveram contato com pornografia.
  156. Maior parte das pessoas que desenvolvem parafilias (desejos sexuais anormais, mas não necessariamente prejudiciais) sofreu repressão sexual na infância.
  157. O problema desses dados é que eles são politicamente irrelevantes: a menos que o clima político de uma sociedade esteja aberto a esses achados, a população e o governo preferirá ignorá-los.
  158. Leis contra o acesso à pornografia são criadas e sancionadas sem qualquer apoio empírico.
  159. É também sem apoio empírico que feministas atacam o pornô.
  160. É como se pornografia fosse prejudicial só a quem tem menos de dezoito e se tornasse inócua ao décimo oitavo aniversário.
  161. Até certas obras de arte em museu também não estão a salvo.
  162. Qualquer um é “especialista” se disser o que se quer ouvir.
  163. O silêncio científico sobre esses assuntos não apenas impede evidência científica contrária à exposição de menores à sexualidade de aparecer, como também impede a emergência de argumentos a favor.
  164. Acaba ficando por isso mesmo.
  165. Um monte de crianças teve educação sexual, quantas delas viraram adultos tarados?
  166. Se você tentar proibir a pornografia para menores em meios digitais, a criança que conhece e compreende esses meios os subverterá.
  167. Por exemplo: teve um moleque de doze anos que programou um programa pra roubar a senha do próprio pai a fim de baixar pornô e vender pros coleguinhas.
  168. Qual é o problema de permitir que os pais, não o governo, digam o que seus filhos podem ver?
  169. Se a liberdade de expressão é um direito humano, ela também é um direito da criança.
  170. Ensine sua criança a se defender e não terá que defendê-la.
  171. A criança que aprende sobre sexo ficará, no máximo, enojada, mas não traumatizada.
  172. A criança de três anos que vê uma imagem sexual não a compreenderá ou a ignorará, o adolescente de dezessete anos que vê a mesma imagem provavelmente já viu várias outras e não lhe dará tanta atenção se tiver coisa melhor.
  173. Se não houver segredos, não haverá infância, porquanto o que define a “inocência” é uma forma de ignorância.
  174. O livre comércio, a guerra e a tecnologia da informação trouxeram às crianças três habilidades que antes eram somente adultas: comprar, vender, lutar e conhecer.
  175. Tem criança assistindo Cidade 190 e não tá nem aí.
  176. As crianças deste século conhecem coisas que os adultos do século passado talvez não conhecessem: buraco na camada de ozônio, efeito estufa, uso e efeitos da maconha e onde achar pornô.
  177. Será que todas essas crianças estão traumatizadas?
  178. Controlar seus filhos implica privá-los de liberdade, mas controle não é proteção.
  179. Fale pro seu filho sobre experiências sexuais ilegais, mas não ao ponto de lhes dar medo de sair de casa, só o bastante para que possam se defender e minimizar o dano, caso tal contato aconteça.
  180. Crueldade seguido de infanticídio é um crime estatisticamente raro, quase inexistente, especialmente se comparado com outros crimes.
  181. As pessoas confluem pedofilia e violência em suas mentes, mas pedofilia, por si, nada tem a ver com violência (pedofilia é a atração sexual por crianças, a qual pode até nunca ser posta em prática).
  182. A ideia errada que se faz da pedofilia é sustentada pela mídia, que chama de “pedofilia” quase todos os crimes violentos feitos contra crianças, mesmo até os que não são sexuais.
  183. Isso porque a mídia gosta de usar palavras populares pra descrever certas ocorrências, tanto por familiaridade quanto por atenção.
  184. Se tivesse mesmo pedófilo em tudo quanto é lugar e se fossem mesmo tão violentos, não ia mais ter criança no mundo.
  185. Palavras como “monstro” e “perigoso” aparecem em nossas mentes quando ouvimos a temida palavra com P.
  186. Várias características estranhas ao conceito clínico (atração por crianças) são agrupadas no conceito popular de pedofilia: o pedófilo é inerentemente mau, age às escuras, tem mais comparsas do que se pode contar, é muito inteligente…
  187. Isso alimenta bizarras teorias da conspiração.
  188. A mais popular foi o escândalo de rituais satânicos de abuso, e todo o mundo sabe o que aconteceu ali.
  189. “Uma associação mundial de pedófilos perigosos deve, portanto, ser muito rica, logo o dinheiro deve vir de um negócio muito lucrativo” e talvez tenha sido de um pensamento como esse que surgiu a crença de que pornô infantil é uma indústria multimilionária.
  190. Há um esforço desproporcional pra detectar pedófilos: como pode ser que esses bilhões de pedófilos não foram ainda todos descobertos com toda a tecnologia e monitoramento disponível pra detectar o que parece ser um grupo tão grande?
  191. É que pedófilosativos” são um grupo minúsculo, na verdade.
  192. Organizações de combate à pedofilia, por causa do pânico moral, acabam se tornando empresas muito lucrativas.
  193. Por causa do excesso de preocupação com esse problema, há uma grande demanda por tais serviços, demanda que vem de pais assustados.
  194. Se medo vende, medo precisa existir.
  195. Pense: se tem pedófilo em toda parte, como é que eu nunca vi um?
  196. A maioria (95%) das “crianças sequestradas” na verdade fugiu de casa, foi rejeitada pelos pais ou foi realmente sequestrada por um dos pais após o divórcio.
  197. A chance de uma criança morrer num acidente de carro é entre vinte e cinco e setenta e cinco vezes maior do que a chance de ela ser sequestrada por um pedófilo.
  198. Algumas pessoas acusam outras de pedofilia, mesmo quando não há nenhuma conduta sexual visível, para se autopromoverem.
  199. Crimes violentos contra crianças não estão ficando mais frequentes.
  200. Não há dados conclusivos sobre a prevalência de pedofilia na população geral, porque a definição de pedofilia varia de juiz pra juiz, de psicólogo pra psicólogo, de jornalista pra jornalista, de forma que a porcentagem de pedófilos nos Estados Unidos pode ser 1%, 5%, 21% ou 50%, dependendo do que você chama de pedófilo.
  201. As leis cada vez mais pesadas aumentaram a quantidade de crimes cometidos, mas, ainda assim, crimes sexuais contra crianças são um dos tipos mais raros de crime.
  202. “Violência sexual” pode ser um termo literal (violência real) ou moral (sem violência, mas há violação de padrões comunitários).
  203. Geralmente, pedófilos “reais”, isto é, pessoas atraídas por crianças, não são violentas nem apresentam traços de psicopatia.
  204. Quando um adulto se relaciona com uma criança, o uso de força não é ocorrência comum.
  205. Quando há atração por alguém, geralmente você não quer machucar a pessoa por quem você é atraído, então o pedófilo que cede à tentação pode não estar interessado em nada penetrativo.
  206. Várias das propriedades comumente atribuídas a pedófilos não têm significância estatística (por exemplo: baixo quociente de inteligência, ser canhoto, ter sido sexualmente ativo na infância, entre outros, nada disso é frequente em pedófilos amostrados da população geral).
  207. Isso faz com que o termo “pedófilo” seja contestado: será que essa palavra realmente tem significado?
  208. Atividade sexual na infância não transforma a criança num pedófilo.
  209. Maior parte dos contatos sexuais entre adulto e criança não são cometidos por pedófilos, mas por pessoas “normais” que, na ausência de um parceiro adulto, se contentam com uma criança ou adolescente.
  210. Para ser diagnosticado como pedófilo é preciso que a criança não seja “segunda opção”: o desejo pela criança deve ser maior que o desejo por adultos (não-exclusivo) ou substituir o desejo por adultos (exclusivo).
  211. Ora, mas se existem adultos atraídos por menores, mas cuja atração por menores não é exclusiva ou preferencial, isso quer dizer que nem mesmo a atração física por crianças é uma característica exclusiva do pedófilo.
  212. Qual é a necessidade da palavra então?
  213. Se por um lado a maioria das pessoas que se relaciona com menores falha no diagnóstico de pedofilia, por outro existem pedófilos que, entendendo que sua atração é rejeitada pela sociedade, passam a vida inteira sem tocar numa criança.
  214. Isso ajuda a explicar porque pedófilos que foram presos por contato sexual com menor raramente recaem no comportamento depois de soltos.
  215. Crimes sexuais são o tipo com menor taxa de reincidência, mesmo sem contar os que recebem tratamento.
  216. Apesar de todos esses achados científicos, os pais preferem continuar com medo.
  217. Você pode dizer que de cada quarenta e cinco milhões de crianças, apenas nove é estuprada e depois morta, mas ninguém que teve seu filho estuprado e morto vai se importar com esses dados.
  218. O medo da pedofilia é uma tentativa de tornar estranho o que é ordinário: muitos de nós sentimos atração por crianças e a projetamos em alguém distante, porque rejeitamos essa faceta nossa.
  219. Assim, o medo da pedofilia é, ao menos em parte, formação reativa.
  220. A estrutura familiar tradicional facilita o incesto, então o ódio à pedofilia pode ser uma forma de dizer “é, mas não na minha família.”
  221. É por isso que temos dificuldade de aceitar que maior parte dos casos de sexo com menor ou entre menores ocorre entre pessoas conhecidas, não com estranhos.
  222. Se aceitarmos que a família tradicional facilita esse tipo de contato, a sacrossanta família tradicional entrará em crise.
  223. Em 1993, dois terços dos estudos sobre sexo com menores ou entre menores tinha problemas dos tipos “afirmação gratuita” e definições erradas.
  224. Há a crença de que é possível ter sofrido um abuso sexual traumático sem ser capaz de lembrá-lo.
  225. Qualquer lista fixa de sintomas de abuso é suspeita.
  226. Não é o contato sexual que é prejudicial em si, mas as circunstâncias (como a traição da confiança, a dor ou a violência).
  227. Maior parte das experiências sexuais prejudiciais entre menores ou com menores são de natureza incestuosa.
  228. O crime sexual mais frequentemente cometido contra crianças é a pornografia infantil.
  229. O desejo por adolescentes é muito mais comum do que o desejo por crianças.
  230. Atração por adolescentes se chama “hebefilia”.
  231. Hebefilia, apesar de ser um termo clínico, é comum demais pra ser considerada doença.
  232. Qual o homem que dirá que nunca achou uma adolescente gostosa na vida?
  233. O pânico moral em relação à pedofilia avança pautas conservadoras, como a entrada das mulheres no mercado de trabalho após o divórcio com o marido (“quem cuidará do seu filho?”).
  234. Pânicos morais se proliferam em situações de falência institucional, crise econômica ou quando a sociedade deixa de se sentir no controle da própria vida.
  235. Em épocas como essas, todo o mundo é direita.
  236. E foi numa época de grandes mudanças sociais, com o medo que sempre acompanha tais mudanças, que a idade de consentimento bretã subiu de treze para dezesseis, pra não falar da criminalização da homossexualidade.
  237. Quando a sociedade começou a aceitar essas mudanças no século vinte e a se adaptar a elas, não se falava mais tanto de crimes sexuais.
  238. O pânico moral voltou a crescer na Grande Depressão e adormeceu durante a Segunda Grande Guerra.
  239. Quando a segunda guerra acabou, era hora de restaurar as famílias que entraram em colapso por causa da guerra, e o pânico moral voltou a aparecer.
  240. Assim, o pânico moral em relação a pedofilia tem finalidade política.
  241. Essa também já foi a função do pânico moral em relação à homossexualidade e também é a função, hoje, do pânico moral em relação ao comunismo.
  242. Antigamente, se dizia “é um absurdo que existam homossexuais em posições de prestígio, temos que tirá-los de lá!”
  243. Tudo aquilo que prejudicava o ideal de família tradicional era “degenerado”.
  244. O tratamento hoje dado a pedófilos é o tratamento antes dado a homossexuais.
  245. O fato de algo estar sempre na mídia não implica que tal acontecimento seja frequente.
  246. A ideia era prender quem fosse contra a agenda do sistema e a agenda do sistema americano pós segunda guerra era branca, heterossexual e protestante.
  247. Havia grupos de vigilantes pra caçar homossexuais, como existem hoje grupos de vigilantes para caçar pedófilos.
  248. Aí vieram os anos sessenta e a situação se inverteu.
  249. Durante a revolução sexual, começou a se falar sobre o direito da criança à sexualidade.
  250. Escritores da época diziam “se você quer fazer sexo, é porque está maduro para fazer sexo” (lembrando que isso aconteceu há apenas cinquenta anos).
  251. Adivinha quem chamaram pra por ordem na casa?
  252. O pedófilo, claro: o pânico moral da pedofilia foi ressuscitado tanto pela direita conservadora como pelo feminismo de vítima pra abortar a revolução sexual.
  253. Se você ganhasse vinte paus pra cada foto de moleque nu que você vendesse, você ficaria pobre.
  254. Os primeiros a se opor à pornografia infantil foram os cristãos e moralistas.
  255. Muitas de suas afirmações eram tão chocantes quanto infundadas.
  256. Se dizia, na época em que a cruzada estava em alta, que homicídio era um crime pior do que o chamado “estupro de vulnerável”, que pode não ser estupro em primeiro lugar (implicando que todas as crianças e adolescentes sexualmente ativos deveriam se matar, porquanto estão melhor mortos do que em relacionamento).
  257. Pornografia infantil é, na verdade, rara demais pra virar negócio independente.
  258. A ativista cristã e o policial moralista que simbolizaram a guerra contra a pornografia infantil no século passado foram acusados de estar agindo com motivação puramente financeira e também de falsificação de evidência.
  259. Apesar disso, as leis inspiradas por seu ativismo nunca foram revogadas e mesmo livros de educação sexual foram censurados.
  260. As acusações de abuso sexual satânico dos anos oitenta seriam difíceis de engolir hoje: se essa ocorrência é tão frequente e ocorre em locais públicos onde qualquer um pode inspecionar, como não foram descobertas antes?
  261. Mas a parte interessante é que todas as crianças que acusaram professores ou servidores de abuso sexual “satânico” na época foram entrevistados pela mesma equipe de empregados do serviço social.
  262. Quando as fitas contendo gravações das entrevistas vazaram, os principais acusados foram inocentados: a culpa era dos entrevistadores, que forçavam confissões falsas das crianças.
  263. Apesar disso, acusações de abuso sexual satânico continuaram se proliferando pelos anos oitenta até início dos noventa.
  264. Até que, em 1994, um relatório policial concluiu que nenhuma das 12.000 denúncias de abuso sexual satânico podia ser provada e que nenhum arquivo, foto ou vídeo pornográfico tinha sido produzido em consequência desses supostos atos.
  265. Mesmo depois disso, mais acusações improváveis chegaram à polícia.
  266. Em 1995, em Wenatchee, Washinton, quarenta e três pessoas foram acusadas de ter tido sexo com sessenta crianças 29.000 vezes e nenhuma prova foi encontrada.
  267. Apesar de muita gente ter sido inocentada depois que essas acusações foram reveladas como desvarios, ainda tem gente que foi condenada por “abuso sexual satânico” nos anos oitenta e noventa e que nunca foi solta, apesar da falta de prova.
  268. Esse tipo de acusação era popular porque, na época, havia um medo muito grande da entrada de mulheres no mercado de trabalho, o que as prontificaria a colocar seus filhos sob os cuidados de outros (observe como quase todas as acusações de abuso ritual satânico envolvem escolas ou creches).
  269. E novamente, quem alimentava esse medo era a direita conservadora e o feminismo (parece que o feminismo é conservador demais pra ser considerado uma ideia “esquerdista”).
  270. Existe uma camada feminista que é moralista e não está nem aí pra problemas de igualdade.
  271. A luta contra a pornografia é mantida hoje pelo feminismo e suprimida pelo direito constitucional à liberdade de expressão.
  272. A direita conservadora também participa dessa luta, mas, se antes ela lutava pela causa da “decência”, hoje ela luta pela causa da “família” e pela causa da “criança”.
  273. Tanto que várias organizações de censura fundadas na direita abandonaram a causa da decência em prol da causa familiar.
  274. Pensavam “se não podemos vencer a pornografia adulta, vençamos a infantil”.
  275. Com o aparecimento da Internet, tal como aconteceu com o aparecimento da televisão, ficou a sensação de que o inimigo estava em casa.
  276. Mesmo na Internet, a circulação de pornografia infantil é minúscula.
  277. A autora teve acesso a algumas imagens “abusivas” que a polícia obteve e percebeu que apenas três, num maço de cinquenta arquivos impressos, podiam ser considerados explícitos.
  278. O resto era nudez ou seminudez sem atividade sexual (como as fotos que seu pai tirou de você).
  279. Mas se essas imagens aparecem na Internet, de onde elas vêm?
  280. Quem diria: existem policiais que escaneiam e distribuem pornografia infantil apreendida.
  281. A polícia pode seduzir um cidadão a cometer um crime para confirmar suspeitas, de forma que, se a polícia não tivesse levado o indivíduo a quebrar a lei, não haveria crime.
  282. Eles fazem isso porque foram empregados graças a sensação de que a pedofilia é um fenômeno muito frequente e perigoso, mas, como é na verdade um fenômeno raríssimo, eles precisam tentar as pessoas suspeitas a cometer o crime.
  283. Do contrário, seu trabalho não é justificável: se a pedofilia não for aquilo que se pensa, não haverá necessidade de tanto contingente policial nessa causa, o que poderia causar remanejamentos, corte de gastos ou demissões.
  284. Por isso ocorre a criminalização de cada vez mais imagens de crianças, mesmo de desenhos nos quais não há nem sequer crianças reais: é preciso fazer com que as estatísticas sejam reais.
  285. Se você criminaliza imagens nas quais não há crianças reais, a quem você está protegendo?
  286. Você está protegendo os interesses da direita e das feministas antipornografia, porque, se você está censurando uma imagem na qual existe um adulto que parece um adolescente, você está, indiretamente, censurando pornô adulto (no Reino Unido, existem situações nas quais uma imagem pornográfica mostrando dois adultos pode ser legalmente questionada se um dos adultos não parecer ter dezoito anos).
  287. Esses esforços dão certo?
  288. Entre 1996 e 2000, uma força tarefa do FBI, feita para prender pessoas envolvidas com pornografia infantil, fez 2.609 investigações, vinte por cento delas resultaram em processos, dezessete por cento resultaram em prisão.
  289. Mesmo criminalizando o máximo possível, a incidência desses crimes ainda é baixa, pondo em risco o investimento nessa força tarefa (segundo a autora, US$10.000.000).
  290. Tem um monte de pedófilos tentando viver dentro da lei e até conseguiriam se a polícia não os tentasse deliberadamente pra pegá-los (o fato de um monte das pessoas pegas dessa forma não ter passagem pela polícia piora as coisas).
  291. Violência sexual contra crianças já era crime antes de inventarem leis contra pornografia infantil, antes de inventarem a idade de consentimento, antes de cercarem a sexualidade com tantas regras que prejudicam mesmo a relação entre adultos.
  292. O resultado disso é que adultos estão sendo levados pra cadeia por razões absurdas e uma onda de censura.
  293. Pais, por exemplo, foram denunciados por fotografar seus filhos no banho e produções cinematográficas antigas tornaram-se ilegais.
  294. Assim, não é possível saber com certeza se sua conduta em relação a crianças é ou não legal.
  295. Essas leis promovem segurança da população ou se voltam contra a população que deveria proteger?
  296. Os recursos consumidos por leis abusivas seriam melhor empregados em coisas que a sociedade realmente precisa.
  297. Além disso, se a lei impede a reintegração da pessoa à sociedade (através de um registro de ofensores sexuais, por exemplo), o governo está estimulando a pessoa a cometer o crime novamente, porque ela não tem mais o que perder mesmo e não pode reconstruir sua vida.
  298. Legislar é uma função política que muitas vezes pouco tem a ver com rehabilitação ou segurança da população.
  299. Excesso de leis causa aumento no número de encarceramentos, dando a impressão de que o crime está ficando mais frequente, o que, por sua vez, prontifica a demanda por mais leis.
  300. Excesso de leis dá a sensação de falsa segurança enquanto múltiplos encarceramentos aumentam o medo.
  301. Com leis ou sem leis, odiamos o mundo.
  302. O pânico moral em relação à pedofilia prejudica também as crianças.
  303. Dar à criança o medo de estranhos (e dar a estranhos o medo de crianças) pode fazer com que o adulto recuse ajuda à criança necessitada.
  304. Deixar tudo nas mãos dos legisladores faz a mãe sentir que está livre do dever de ensinar seu filho a se defender, o que o torna mais vulnerável, porquanto ele passa a ter menos liberdade.
  305. Contato sexual entre crianças é biologicamente normal, mas socialmente inapropriado.
  306. A criança, em alguns países desenvolvidos, pode ser levada pra terapia por coisas que nós achamos inofensivas, como “brincar de médico”, olhar embaixo da saia da irmã (em casa), falar palavrões sexuais ou tomar banho com outra criança.
  307. A criança de nove anos pode ser chamado pelo terapeuta de “projeto de criminoso sexual”.
  308. A sexualidade infantil torna-se a nova epidemia mundial, descrita em termos de “sexualização”, “comportamento impróprio” ou “criança que abusa”.
  309. Já houve crianças de até dois anos que foram “tratadas” e processadas por comportamento sexual normal com outras crianças da mesma idade (tocar os genitais do coleguinha, mostrar os próprios genitais pra outra criança, tocar os próprios genitais em público, entre outras coisas que você já fez).
  310. O comportamento sexual entre irmãos é tido como o mais grave, embora seja o mais comum.
  311. Presume-se violência, embora contato sexual entre duas crianças seja normalmente voluntário e prazeroso para ambos.
  312. Assim, enquanto que problemas sérios de comportamento (como agressividade e notas ruins) nem sempre são vistos como dignos de correção, o comportamento sexual inofensivo, quando manifestado pelo menor, é causa de alarme imediato.
  313. Isso é especialmente grave em locais onde a maioridade penal é menor que a idade de consentimento.
  314. As consequências da repressão sexual legal podem levar um menor de idade a se matar.
  315. Tem criança sendo julgada e condenada por “estupro” de vulnerável em países desenvolvidos.
  316. Não precisa ser menino pra ser condenado por estupro nesses países; meninas também podem ser condenadas como estupradoras.
  317. Se uma criança é acusada de conduta sexual ilegal, tal como o adulto, as autoridades podem insistir com a criança até que ela confesse, mesmo quando ela não cometeu de fato o ato.
  318. O comportamento sexual infantil é majoritário e estamos tentando torná-lo patológico.
  319. “Normal” não é um conceito exato.
  320. O conceito de normal varia de pessoa pra pessoa.
  321. Por não ser um conceito fechado, o conceito de normal pode ser manipulado pelo clima político e pelo período histórico.
  322. “Normal” e “normativo” podem ter significados diferentes.
  323. É melhor falar com comportamento “majoritário” e comportamento “minoritário”, porque esses são termos neutros.
  324. Já se você falar de “normal”, acabará tendo que dizer, mesmo implicitamente, o que é “anormal”, que é um termo de carga negativa.
  325. A patologização da sexualidade infantil tem raízes na direita conservadora (“sexo deve ser feito de determinada forma”) e, você adivinhou, no feminismo (“existem abusadores em toda parte, a criança não pode atrai-los”).
  326. Em países desenvolvidos, a criança que pede outra em namoro pode ser processada por assédio sexual.
  327. Isso deixa implícito que os adultos têm para si que o comportamento romântico infantil é também sexual e que, se é sexual e se o sujeito é criança, deve ser, pela lógica, traumático.
  328. O pânico moral em relação à sexualidade infantil arruina famílias.
  329. Associações de proteção à criança também querem lucro e, se elas forem mantidas por doações, precisarão dar às pessoas razões para doar.
  330. A patologização da sexualidade infantil não tem apoio científico, porque a sexualidade infantil é um campo do comportamento humano que ninguém quer estudar.
  331. Se não se sabe o que é comportamento sexual normal na criança, de onde esses profissionais tiram suas definições de anormal?
  332. Extender a definição de “abuso” ou de “estupro” é uma tentativa de produzir provas de que abuso e estupro ocorrem mais frequentemente.
  333. Cuidado com o que você chama de abuso.
  334. Um monte de coisa que não é estupro é agora chamada de estupro.
  335. Terapia para tratar a sexualidade normal da criança é um negócio.
  336. Lembrando que, enquanto não houver estudos sérios sobre a sexualidade infantil, nenhuma dessas terapias é cientificamente comprovada como “terapêutica”.
  337. Se não há estudos suficientes para dizer o que é comportamento sexual infantil normal, qualquer definição de “comportamento sexual apropriado à idade” é arbitrária.
  338. Criar novas doenças cria novas terapias, o que cria novos negócios.
  339. A criança que faz algo sexual com outra criança não pode ser chamada de “pedófila” sem que com isso se cause um escândalo, então os psiquiatras preferiam chamar o fenômeno de “comportamento sexual infantil impróprio”, que é a mesma coisa dita com outras palavras.
  340. O pai que não vê problema com a sexualidade infantil acaba sendo classificado como “abusador”, por não reprimir a sexualidade do filho.
  341. Além disso, temos a crença de que a criança inocente só pode se tornar sexual se entrar em contato com a sexualidade (a mesma crença costumava ser aplicada às mulheres), então a criança sexual põe os adultos ao redor dela sob suspeita, porque se presume que alguém a molestou.
  342. Com isso, manifestações de afeto tornam-se suspeitas.
  343. Se a criança exibe comportamento sexual natural e os pais são os que mais amam a criança, o carinha do serviço social pode pensar que os pais estão a molestando.
  344. Se os pais negarem, serão tidos por mentirosos, mas, se afirmarem, serão tidos por criminosos, de forma que não haverá saída para a situação, especialmente se o poder familiar tiver sido suspenso ou terminado.
  345. Isso prejudica o menor, que é separado dos pais por atos cuja presumida violência não foi sentida.
  346. A criança sexual o é por natureza, não por condicionamento.
  347. Não existem “sintomas de abuso” que não possam ser apontados em crianças que têm problemas, mas que não foram abusadas.
  348. O mundo não está pronto pra admitir que a criança pode se engajar em comportamento sexual por prazer.
  349. A patologização da sexualidade infantil ocorre porque tal fenômeno deixa os pais desconfortáveis, não sendo portanto uma atitude que prioriza o bem-estar do menor.
  350. Para alguns profissionais, beijar os lábios dos filhos, abraçá-los com frequência ou não se importar com a nudez doméstica são sinais de alerta de que aquele pai está criando seu filho de forma errada e que ambos merecem tratamento (putz, tudo isso aconteceu comigo e eu nunca precisei de tratamento pra nada).
  351. Presumimos que o comportamento sexual infantil é prejudicial e traumático sem perguntar à criança se ela foi prejudicada ou traumatizada.
  352. Isso porque acreditamos que reprimir a sexualidade infantil é algo que pode ser feito no melhor interesse do menor.
  353. Novamente, sistemas de proteção à criança trabalham com pesquisas mínimas sobre sexualidade infantil, pondo em questão a presunção de que eles sabem o que estão fazendo.
  354. Um estudo longitudinal que acompanhou crianças e adolescentes desde a tenra idade até os dezoito anos descobriu que três quartos dos sujeitos estudados havia se masturbado ou tido contato sexual com outra pessoa antes mesmo de completarem seis anos, mas o mesmo estudo não encontrou quaisquer sintomas negativos na vida adulta que pudessem ser atribuídos a essas experiências.
  355. Contato sexual entre crianças pode ser abominável em uma sociedade, tolerável em outras e norma em outras.
  356. Segundo o estudo Patterns of Sexual Behavior, o qual analiza dados de pessoas de várias culturas, o comportamento sexual infantil depende da vontade dos adultos: se os adultos deixarem, crianças em certas culturas podem até mesmo tentar montar umas às outras.
  357. Então, a sexualidade é inerente à criança, mas sofre interferência das expectativas dos adultos.
  358. Crianças imitando o comportamento sexual adulto ocorre em vários lugares estudados por antropólogos.
  359. Sociedades avançadas têm vergonha da sexualidade dos seus filhos.
  360. Por isso crianças aprendem logo a esconder sua sexualidade.
  361. Se o problema é a associação entre sexualidade e agressão, então basta que demonstrações agressivas de sexualidade sejam proibidas.
  362. Não há definição final do termo “consentimento”.
  363. O fato de alguém ser maior ou mais velho não o torna automaticamente mais poderoso.
  364. Novamente, o medo da sexualidade infantil é um medo que se origina na insegurança dos pais.
  365. Reprimir a sexualidade infantil pode causar mais prejuízo do que lhe dar livre curso.
  366. A sexualidade infantil não pode ser razão para separar a criança de sua família.
  367. Se o primeiro passo para o tratamento de criminosos sexuais é admitir que você é um criminoso, a criança que não vê mal no que fez terá dificuldade em progredir com o tratamento, o que atrasará seu reencontro com a família.
  368. O carinha do serviço social pode ter que praticamente forçar o menino a se ver como um criminoso sexual, da mesma forma que ele pode ter que praticamente forçar outro menino a se ver como vítima.
  369. Uma terapia que não pode começar é furada.
  370. Se você não quer que uma pessoa cometa crimes sexuais no futuro, não reforce a ideia de que ela é uma criminosa sexual.
  371. Quando um tratamento deixa de ser tratamento pra se tornar punição?
  372. Existem terapias abusivas.
  373. Existem terapias inefetivas.
  374. Terapia sexualmente repressiva é comportamentalista e geralmente baseada em ideais conservadores.
  375. Certos tratamentos implicam força e abdicação de direitos tanto da criança quanto dos pais (processo neles).
  376. Quando alguém se propõe a tratar seu filho por comportamento sexual, não se questiona se o que ele fez foi ou não errado; se assume que foi e que a criança deve ser corrigida.
  377. Não existe presunção de inocência em tratamento pra “criança que abusa”: se a criança diz que não fez nada de errado, se assume que ela está mentindo.
  378. Para uma criança dessas, mesmo contato sexual afetivo é negado, porque se assume que ela não conhece quaisquer limites.
  379. Qualquer amigo que a criança tenha é afastado dela.
  380. Se o mesmo tratamento fosse dado a adultos, haveria processos contra essas clínicas terapêuticas, processos inclusive baseados na lei contra tortura (ou “punição estranha e cruel”, em códigos americanos).
  381. Não é possível apagar sua sexualidade.
  382. O tratamento para crianças “com problemas de conduta sexual” é muito parecido com tratamentos do tipo “cura gay”, exceto que a cura gay tenta fazer você se sentir atraído por pessoas do sexo oposto, enquanto que a “cura da sexualidade infantil” tenta fazer você não se sentir atraído por nada.
  383. A “intervenção heróica” na sexualidade infantil é reminiscente da “intervenção heróica” na sexualidade feminina.
  384. Depois que a narrativa de abuso é estabelecida, ela é tida por incontestável.
  385. A criança separada dos pais sempre sofre.
  386. A intervenção pode prejudicar mais que o comportamento que a originou.
  387. Isso é especialmente grave quando a intervenção é feita por pessoas incompetentes.
  388. As crianças que são mandadas pra tratamento sexual podem ver o tratamento como cruel, mas não necessariamente seus atos.
  389. Os moralistas saíram das igrejas pra entrar nas clínicas; deixaram de ser pastores e tornaram-se médicos.
  390. O “imoral” tornou-se “doentio”.
  391. O tratamento que a sexualidade infantil recebe hoje é o tratamento que a masturbação recebia duzentos anos atrás.
  392. No dia em que a homossexualidade saiu do DSM, a disforia de gênero tomou seu lugar no manual.
  393. Se você quer saber se uma criança foi prejudicada por alguma coisa, por que você não pergunta pra ela?
  394. Enquanto não houve informação científica sobre o que é o comportamento sexual infantil normal, intervenções sobre a sexualidade infantil serão orientadas por valores sociais.
  395. O maior valor social é a bondade, não a normalidade.
  396. Quando uma adolescente é pêga em relação com adulto, não se pensa que a adolescente desejasse esse adulto.
  397. Quando os pais põem obstáculos ao namoro de uma adolescente, suas amigas podem ajudá-la a superar esses obstáculos.
  398. Alguns criminosos sexuais só são considerados perigosos porque a lei diz que sexo é perigoso.
  399. Se a criança foge de casa, a mídia não dá tanta importância… a menos que ela tenha fugido com um adulto.
  400. Quando a criança desenvolve senso crítico, passa a subverter recomendações adultas.
  401. A essência da idade de consentimento é a presunção de incompetência, não de violência, não de vulnerabilidade.
  402. Um relacionamento voluntário com ou entre menores é resistido pelo estado, não pela suposta vítima; o estupro, ato sexual resistido, é ocasionado pela resistência estatal, ao menos em casos nos quais não há violência real.
  403. A idade de consentimento foi originalmente concebida para guardar a virgindade da menina, especificamente da menina, pois a virgindade da menina era propriedade do pai.
  404. Até 1981, nos Estados Unidos, sexo com menor não seria crime se o menor fosse menino.
  405. Também até esse período, se admitia que havia meninas que queriam sexo, mas tinham que ser proibidas de tê-lo, para que não ficassem grávidas.
  406. A proibição de relação com menino menor de idade foi facilitada pelo preconceito de que “o menino que se relaciona com homem deve ser tratado como menina”.
  407. É sexismo dizer que só o homem deseja sexo.
  408. Parece que a lei quer que tudo seja culpa do homem.
  409. É como se dissessem “você pensa que queria transar com aquele cara, mas, quando você crescer, você verá que, na verdade, não era isso que você queria.”
  410. Para que haja uma vítima, é preciso que haja uma pessoa que deponha contra o suposto criminoso.
  411. A vítima que diz que o ato foi consensual ridiculariza a causa do processo, tornando difícil seu prosseguimento e difícil a condenação: onde já se viu falar de “estupro consentido”?
  412. Notícias sobre relacionamentos entre adultos e menores rapidamente degeneram em crônicas policiais, com os mocinhos e bandidos, deixando de ser notícia pra virar novela.
  413. Se assume que houve manipulação, mesmo que ela não tenha ocorrido, de forma que o menor teria perdido sua liberdade “sem saber” (o que faz com que suas ações não sejam voluntárias).
  414. Se você estiver saindo com uma adolescente e você já tiver tido uma esposa, pode ser que ela use o incidente como ocasião pra fazer denúncias falsas contra você; quem liga pros direitos humanos de um pedófilo?
  415. Quando se é tachado de pedófilo, qualquer denúncia duvidosa é tida como verdadeira.
  416. Assumirão que você está mentindo.
  417. Tirarão conclusões absurdas das suas palavras.
  418. Já a “vítima” é tida por idiota e incompetente, incapaz de fazer suas próprias escolhas.
  419. Supõe-se que adolescentes são incapazes de compreender o amor, porque não estão maduros o bastante para reconhecê-lo.
  420. Supõe-se que “todas as vítimas são iguais” e os traços de personalidade do adolescente são apagados, sua forma sendo preenchida pelos preconceitos da mídia e da sociedade.
  421. Para evitar que essa imagem seja prejudicada, observe como muitas vezes as notícias omitem o depoimento do menor: se o depoimento põe seu estatuto de vítima em dúvida, ele não será mostrado.
  422. O nível intelectual do adolescente não é o da criança e pode não condizer com estereótipos.
  423. Dizer que “criança não consente” é o mesmo que dizer “a criança não está suficiente informada para dar aceite válido a relacionamentos eróticos” e esse é o caso “porque assim diz a lei”.
  424. Dois terços desses relacionamentos são denunciados pelos pais, não pelo próprio menor.
  425. Se o contato sexual tiver ocorrido, o crime aconteceu, mesmo que o ato tenha sido inofensivo e feito de mútuo acordo.
  426. A lei de idade de consentimento pode ser usada pelos pais pra colocar qualquer namorado de seus filhos na cadeia.
  427. Pais têm o péssimo hábito de confundir educação e proibição.
  428. Isso porque é mais fácil proibir do que educar.
  429. Felizmente, nem todos os pais são assim.
  430. Alguns menores têm relacionamentos com adultos porque não se sentem amados em casa.
  431. O adulto em relacionamento com um menor pode ser melhor pai que os pais desse menor.
  432. Pais divorciados podem usar o relacionamento do filho pra culpar o ex-esposo ou ex-esposa de “facilitar” a relação ilegal, desequilibrando processos de guarda.
  433. Se a família é uma droga, não é surpresa que a criança ou adolescente procure amor em outros lugares.
  434. Pense no rolo em que você está colocando seu filho.
  435. A polícia se comporta racionalmente dentro da insanidade legal.
  436. Se a menina amar o cara que a engravidou, a lei se certificará de que não haverá pai pra ajudá-la a criar esse menino.
  437. O culpado sempre é homem.
  438. Alguém tem prova de que essa lei impede adolescentes ou crianças de praticarem atos libidinosos entre si?
  439. Alguém tem prova de que essa lei reduz a taxa de gravidez adolescente (se reduz, o Japão, território no qual a menor idade de consentimento é treze anos, não deveria ter a menor taxa de gravidez adolescente do mundo)?
  440. Felizmente, apenas um em cada cinco advogados pensa que colocar o homem na cadeia é uma resposta apropriada ao problema da gravidez adolescente.
  441. Em alguns lugares, o serviço social oferece aos sujeitos em relação a possibilidade de se casarem para evitar a ruptura violenta do relacionamento (em alguns estados dos Estados Unidos, isso é uma possibilidade).
  442. A idade de consentimento pode funcionar como uma lei antifornicação.
  443. Até os adolescentes sabem que a melhor forma de reduzir a taxa de gravidez adolescente é com educação sexual de qualidade.
  444. A lei de idade de consentimento tem origem no desejo de controlar a sexualidade feminina.
  445. A menina sexual é vista como “vadia”, palavra que não se dirige mais nem à mulher que assume um papel sexualmente ativo.
  446. A menina sexual pode ser processada.
  447. Nos anos sessenta, três quartos das meninas na cadeia americana estavam lá por crimes sexuais, muitos dos quais sem vítima.
  448. Os principais afetados pela idade de consentimento são os menores, não os adultos.
  449. Dentre os menores negativamente afetados estão as meninas e os meninos homossexuais.
  450. Não obstante a idade, pesquisa revela que a maioria das meninas perde a virgindade com alguém mais velho que elas.
  451. Dentre esses mais velhos, algo entre um décimo e um quarto podem ser considerados criminosos.
  452. A lei de idade de consentimeno não considera coisas como amor, orientação, autonomia financeira, respeito, status, autodeterminação sexual, nem nenhuma dessas razões que levam menores a se juntar com adultos em primeiro lugar, além de colocar obstáculos à contracepção.
  453. Qual o efeito dessa lei no adulto que é preso?
  454. A sentença em si tem potencial reabilitativo (a sentença em si, sem contar com o tratamento)?
  455. Para alguns juízes, se relacionar com um menor é pior do que matar alguém.
  456. Já outros juízes esperam que o julgamento do menor mude quando ele crescer, que ele algum dia reconheça que foi prejudicado fisicamente, mentalmente e que ele é uma vítima.
  457. A reação dos pais ao ocorrido pode transformar uma experiência positiva em fonte de sentimentos negativos, tal como também pode piorar sentimentos negativos originados de uma experiência negativa.
  458. Se a criança ou adolescente tiver um julgamento positivo do relacionamento, ele crescerá assintomático, então a pior coisa que se poderia fazer seria convencê-lo de que ele é uma vítima.
  459. Respeite o julgamento do menor.
  460. Em um estudo feito pela Kilpatrick, em 1992, cinquenta e cinco por cento de quinhentas e uma mulheres tiveram algum contato sexual com outra pessoa antes dos catorze anos, número que aumenta para oitenta e três por cento entre as idade de quinze e dezessete.
  461. Se o contato sexual foi prazeroso, a resposta do menor será a mesma independente de sua idade.
  462. Ainda segundo o mesmo estudo, dezessete por cento afirma que o contato sexual foi abusivo e vinte e oito por cento afirma que o contato foi danoso, mas a maioria não respondeu dessa forma.
  463. Adolescentes desejam pessoas mais velhas também porque estas têm, supostamente, mais experiência e perícia, de forma que a qualidade do contato seria potencialmente melhor do que seria a qualidade do contato com pessoas de mesma idade.
  464. A quebra da lei de idade de consentimento pode ser, de certa forma, um crime passional.
  465. Se faz sexo cada vez mais cedo, mas, apesar disso, a idade de consentimento em alguns lugares aumentou.
  466. Nos Estados Unidos, você pode ser julgado e condenado como adulto aos doze anos, mas só pode fazer sexo a partir dos dezesseis e somente em alguns estados.
  467. Negar consentimento a todos abaixo de certa idade nega o grau de crescimento individual dos que pertencem a esse grupo.
  468. Mudar o mundo requer aceitar o potencial da geração seguinte, em vez de pisá-lo.
  469. Existe educação sexual moderna (para a abstinência), educação sexual de direita (para a castidade), mas não existe educação sexual de esquerda (para a liberdade).
  470. É ridículo você querer lutar contra a gravidez adolescente destruindo programas de educação sexual que ensinam contracepção!
  471. Não há uma organização que especificamente defenda a educação sexual, de forma que cada apologista trabalha por si só, o que dificulta a proteção dessa matéria.
  472. Os ataques contra a educação sexual vêm de um número pequeno de pessoas, então a censura dessa matéria só ocorre porque o número de pessoas que defende a educação sexual é ainda menor.
  473. Ao contrário da crença popular, vários pais gostam da ideia de que seus filhos recebam educação sexual, mas o medo de doenças sexualmente transmissíveis os leva a também desejar que a educação sexual cubra o assunto da abstinência.
  474. Para a maioria dos pais, o assunto que deveria ser priorizado em aulas de educação sexual é a prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis, principalmente a AIDS.
  475. O consenso de que adolescentes devem permanecer abstinentes é um consenso adulto, não existente entre os adolescentes.
  476. Um monte de adultos perdeu a virgindade na adolescência.
  477. Educação para a abstinência funciona?
  478. Se a abstinência é uma forma de lidar com a sexualidade, o suicídio também deve ser, né?
  479. A inclusão da abstinência no currículo de educação sexual é uma decisão ideológica, não prática.
  480. Em países desenvolvidos, a educação sexual é ministrada de uma forma que dificulta o sexo.
  481. Se a educação sexual estiver comprometida em ensinar às crianças e adolescentes qual é o comportamento sexual que os adultos acham que eles devem adotar, claro que será uma educação para a repressão sexual: admitimos que crianças e adolescentes têm experiências sexuais entre si, mas muitos de nós prefeririam que eles não as tivessem.
  482. Podemos até não aprovar que adolescentes tenham experiências sexuais entre si, mas essa desaprovação não os impede.
  483. Será que a taxa de gravidez adolescente é tão grande como se pensa?
  484. A taxa de gravidez adolescente já foi muito maior.
  485. Se você quer acabar com a gravidez adolescente, não dificulte acesso a contraceptivos.
  486. Alguns currículos de educação sexual em países desenvolvidos não vão além do “somente diga não”, como se sexo fosse uma droga.
  487. Isso porque esses escritores de currículo foram bancados com o dinheiro que foi desviado, legalmente, de programas de planejamento familiar.
  488. É mais fácil lidar com o aborto, com a gravidez adolescente e com mães adolescentes sem suporte como problemas separados do que tentar impedir adolescentes de se relacionarem antes do casamento.
  489. O raciocínio conservador: contracepção torna sexo menos arriscado, o que faz com que adolescentes façam sexo e, portanto, engravidem.
  490. A confidencialidade promovida pelas clínicas de planejamento familiar faziam os conservadores sentirem que o estado estava prejudicando a família.
  491. O problema é que “família” e “pais” são usados ora no mesmo sentido e ora em sentidos diferentes (tome por exemplo a expressão “poder familiar”, que não é um poder da família sobre si mesma, mas o poder dos pais sobre os filhos).
  492. Então, ao dizer que a sexualidade se resolve “em família”, pode ser que o que se está dizendo é “sexualidade é coisa de papai e mamãe”.
  493. Educação sexual que ensina contracepção funciona e reduz as taxas de gravidez adolescente e DST, mas ensinar abstinência não funciona para reduzir nada disso.
  494. Pessoas perdem a virgindade na adolescência em vários lugares do mundo, mas os locais com a melhor educação sexual têm as menores taxas de gravidez adolescente.
  495. Na verdade, segundo um estudo que saiu em 1997, meninos que tiveram educação sexual focada exclusivamente em abstinência acabavam fazendo mais sexo do que aqueles que não receberam esse tipo de educação sexual.
  496. Além do mais, há o agravante de que esses meninos estavam fazendo mais sexo sem ter qualquer informação sobre sexo seguro.
  497. Então qual é o sentido de estadunidenses darem fundos estatais pra um negócio que não funciona (à época em que o livro foi lançado, apenas programas de educação sexual focados em abstinência recebiam fundos federais americanos)?
  498. Assim, não falar com nossos filhos sobre sexo seguro é uma decisão potencialmente letal.
  499. A lei de idade de consentimento pode ser uma tentativa de reimpor o sexo como um elemento exclusivo do casamento.
  500. Quando um adulto é sexualmente ativo, ele é sadio; mas a criança ou adolescente sexualmente ativos são tratados como doentes.
  501. Por que a esquerda parou de fazer currículos de educação sexual?
  502. Porque a direita não deixa.
  503. O conservador é um liberal com uma filha adolescente.
  504. “Se sexo faz mal, por que meus pais fazem sexo?”
  505. É improvável que você morra por ser sexualmente ativo e, se você tiver meios de ter sexo seguro, é também improvável que você engravide ou adoeça.
  506. Há pais que querem que seus filhos permaneçam dependentes, mas isso quer dizer privá-los de crescimento.
  507. Sabemos que nossos filhos farão sexo cedo ou tarde, mas precisa ser cedo?
  508. Esse é o tipo de pergunta feita por uma mãe que não gostaria que seu filho a deixasse.
  509. É uma dor para a mãe saber que ela não é mais a mulher mais importante da vida do filho.
  510. Negligenciar o desenvolvimento sexual infantil é uma forma de abandono: tornamos nossos filhos presas do risco de aprender sobre sexo por tentativa e erro.
  511. Não é possível amadurecer sem experiência, porquanto amadurecer é ter experiência.
  512. Calar os professores e informar pela mídia ou por outras figuras de crédito (mas sem treino) é parte do processo de desinformação.
  513. Quantas famílias fariam um bom trabalho dando educação sexual aos seus filhos?
  514. Outros países têm jovens tão sexualmente ativos como os nossos, mas menores taxas de gravidez adolescente.
  515. Na Holanda, a gravidez adolescente foi praticamente erradicada: anticoncepcionais são gratuitos, tem máquina de vender camisinha (como as nossas máquinas de vender refrigerante) e educação sexual é ensinada desde a infância (e sem a abstinência como componente curricular).
  516. Se você ensina que sexo é perigoso mesmo quando feito de forma segura, o adolescente pode pensar “ah, se camisinha não funciona, por que eu vou usar?”.
  517. Atitude e comportamento são coisas diferentes.
  518. Se você ensina abstinência, mas não ensina sexo seguro, o que o menino fará quando ceder à tentanção?
  519. O número de meninas que diz que se manterá abstinente até a vida adulta é maior que o número de meninas que consegue manter esse voto.
  520. A menina que tem planos de se manter abstinente, quando submetida à sobrepujante tentação, não terá com ela nem contraceptivos e certamente nem camisinhas.
  521. Assim, pessoas que tiveram uma educação sexual voltada para a abstinência têm menos chances de se proteger na primeira vez.
  522. Se você sabe que existe sexo inseguro e sexo seguro, qual rota você prefere ir?
  523. A taxa de atividade sexual caiu entre meninos, mas não entre meninas.
  524. Por outro lado, a taxa de sexo inseguro caiu entre meninas.
  525. Locais com atitudes sexuais conservadoras têm mais gravidez adolescente e mais doenças sexualmente transmissíveis.
  526. Em outros lugares, nos quais os pais não veem problema em seus filhos fazerem sexo, os moleques sabem que não devem fazer sexo sem proteção (“se não for seguro, não faço”).
  527. Pessoas contra a educação sexual são minoria.
  528. A vitória da direita conservadora é uma vitória sobre a juventude.
  529. Se você fica grávida porque não sabia nada sobre sexo seguro, onde arrumar camisinha ou anticoncepcional, não sabia como usar métodos contraceptivos ou porque sua relação é ilegal, a culpa não é sua e nem do seu namorado, mas do governo, que reprimiu suas aulas de educação sexual, se é que você teve alguma (você sabe que dá pra processar o estado por causa disso).
  530. O erro da esquerda foi ter deixado a direita ganhar território.
  531. A falta de educação sexual desta geração será mal vista pela geração seguinte.
  532. A função do policiamento da sexualidade infantil é retornar ao sexo sua função exclusivamente procriativa.
  533. Uma em cada cinco mulheres que procura clínicas de aborto (legais ou não) são religiosas, muitas delas inclusive evangélicas.
  534. Leis que forçam autoridades a notificar os pais que seu filho está fazendo isto ou aquilo não aumentam o nível de comunicação familiar.
  535. A principal razão para uma pessoa procurar o aborto ilegal é o anonimato: clínicas de aborto legal avisam os pais da menor quando esta tenta abortar de maneira lícita.
  536. Algumas leis não são feitas para proteger o menor, mas para proteger a custódia que os pais têm desse menor.
  537. Nesses casos, a vida do menor pode ter menos valor do que a integridade familiar.
  538. Soluções velhas e disfuncionais são tidas como inovações hoje.
  539. Se a sexualidade do adolescente deve ser ocultada dos pais, a menina grávida sente que terá que se desfazer do bebê de algum jeito, seja jogando-o fora depois de nascido ou abortando-o.
  540. A educação sexual moderna não ensina sobre prazer.
  541. A educação sexual moderna não ensina sobre desejo.
  542. Sem discutir o prazer sexual ou o desejo feminino, o único aspecto antropológico que resta discutir é a vitimização e a violência sexual.
  543. Fica a sensação de que o sexo é sempre uma experiência ruim pra menina.
  544. Há poucos trabalhos sobre a inclusão do prazer na educação sexual, tanto que não dá pra fazer muita citação disso em artigo científico.
  545. Os adolescentes sentem desejo e essa realidade tão presente é ignorada pelo currículo escolar.
  546. Como o prazer e, portanto, o desejo estão ausentes da discussão acadêmica sobre sexualidade infantil, os adultos acabam achando que o menor sexualmente ativo o é por pressão social.
  547. Antigamente, a repressão sexual era coisa feita somente à menina, mas agora também meninos sofrem repressão sexual.
  548. Se a educação sexual só ensina risco, mas não prazer, ela acaba se focando no ato que é mais arriscado: a conjunção carnal, ou penetração.
  549. Assuntos como a masturbação mútua ou a pornografia passam longe do currículo porque não são arriscados e são prazerosos, duas características que não são interessantes para quem escreve esses currículos (fetiches, então…).
  550. A ideia é “não dar ideias” aos pequenos.
  551. Um vibrador pode dar mais prazer do que um homem.
  552. Se a educação sexual só trata penetração, a ideia que crianças e adolescentes têm é que somente a penetração é ato sexual, ou seja, se eles quiserem fazer sexo, só serve se for penetrativo.
  553. Logo, não falar de alternativas à penetração aumenta a chance de sexo penetrativo (“se eu tenho desejo, só há esta forma de saciá-lo”).
  554. Além disso, tal prática gera confusão (“se sexo é só o penetrativo entre pênis e vagina, então oral e anal não devem ser sexo”).
  555. Isso dá margem à conclusões estranhas, como “sexo é perigoso, sexo é sempre vaginal, logo anal não é perigoso, porquanto anal não é sexo”.
  556. Existem várias formas de expressão sexual, a penetração vaginal é somente uma delas.
  557. A penetração é perigosa, mas existem formas inócuas de expressão sexual.
  558. Se a educação sexual não ensina nada sobre sexo seguro nem sobre formas não-penetrativas (no caso, o único ato sexual ensinado na educação sexual clássica é o sexo vaginal) de expressão sexual, está contribuindo para a disseminação de AIDS e outras DSTs entre a população adolescente.
  559. Por exemplo, nos Estados Unidos, há um número de adolescentes que acredita que sexo anal não traz nenhum risco.
  560. A verdade é outra: o tipo mais perigoso de sexo é o anal.
  561. Assim, se a educação sexual não é uma educação de verdade, ela mata, talvez tanto quanto não ter educação sexual nenhuma.
  562. Se você não pode impedir que adolescentes façam sexo, ao menos tente impedir que eles adoeçam por causa disso.
  563. O medo da AIDS está reduzindo a incidência de práticas sexuais penetrativas entre adolescentes e pré-adolescentes.
  564. Crianças namoram.
  565. Um estudo feito com garotos de quatorze anos revela que muitos já beijaram uma garota de forma erotizada e que uma porcentagem menor já havia tocado genitais de alguém do sexo oposto.
  566. Num estudo conduzido na Califórnia, foi descoberto que cerca de um terço dos estudantes do ensino médio já tinha masturbado alguém ou feito oral.
  567. Para esta geração de adolescentes, sexo oral pode ser feito no âmbito do “fica”, não significando compromisso.
  568. Há poucos estudos sobre a qualidade desses relacionamentos (óbvio).
  569. Estudos retrospectivos (perguntar ao adulto sobre suas experiências sexuais infantis ou juvenis) já são difíceis de fazer, mas estudos com menores sobre suas experiências sexuais pode até ser considerado ilegal.
  570. Por exemplo: nos Estados Unidos, questionários dados a menores não podem fazer menção a sexo oral.
  571. Para alguns congressistas em países desenvolvidos, essas pesquisas já seriam uma forma de abuso sexual infantil.
  572. Qual é a diferença entre o prazer do pequeno e o do adulto?
  573. Prazer requer prática.
  574. Se você não praticar, sua performance será péssima.
  575. Sem educação sexual, não há como diferenciar coerção e consentimento.
  576. Os relacionamentos adolescentes deste geração são piores do que os relacionamentos adolescentes da geração passada.
  577. Seus filhos estão sujeitos às mesmas vontades sexuais às quais você estava na sua infância ou adolescência, mas pode ser que estejam menos informados (não falando aqui de informação técnica) do que você está.
  578. É comum que a primeira vez seja protegida, mas o número de adolescentes que usam camisinha nas trepas subsequentes é menor que a quantidade de adolescentes que continua usando camisinha mesmo depois da primeira vez.
  579. Diga-se de passagem, o sexo entre adolescentes é rápido, relâmpago, não é tão bom como poderia ser se eles soubessem outras técnicas ou tivessem preliminares.
  580. Isso faz com que muitos adolescentes sejam péssimos de cama (antes que alguém fique “irritado”, sexo adolescente não é ilegal no Brasil provido que ambos os envolvidos tenham pelo menos catorze anos, nossa idade de consentimento).
  581. Se assume que a criança ou adolescente sempre recusará avanços sexuais, então ninguém ensina o sujeito a dizer não, o que os torna passivos e vulneráveis.
  582. Geralmente, meninas fazem sexo sem ter vontade, porque não sabem como dizer “não” a um menino de quem gostam sem ferir os sentimentos do pequeno tarado.
  583. Cuidado com estudos que não definem seus termos-chave.
  584. Para alguns menores, “abuso” pode também ser uma experiência desejada, desde que seja ilegal (implica que alguns menores consideram alguns “abusos” como experiências não negativas).
  585. Isso causa sentimentos de vergonha.
  586. Dizem “sexualidade infantil é normal”, mas também dizem “ato libidinoso antes dos catorze anos é estupro de vulnerável” (seria então normal ter vontade, mas seria crime saciar a vontade, embora seja uma vontade natural de fazer um ato normalmente inofensivo).
  587. Prazer erótico é um dom que pode ser usado de forma positiva por pessoas de qualquer idade.
  588. O desejo por informação sexual é um desejo também intelectual, não apenas físico.
  589. Desejo por prazer e desejo sobre informação acerca desse prazer são forças complementares.
  590. Em tempos de AIDS, fornecer informação é crucial.
  591. Se a tarefa de ensinar sobre sexo couber somente aos pais, poucas crianças serão informadas: muitos pais não querem discutir isso.
  592. Isso acontece porque é desconfortável falar sobre sexo com seus filhos.
  593. Além disso, o fato de muitos pais reprovarem a atividade sexual do filho faz com que esse filho não queira falar de sexo com esses pais, a fim de não levantar suspeita.
  594. O menor pode evitar falar sobre sua atividade sexual porque sente que isso não é da conta de ninguém mais além dele.
  595. Nessas condições, ele preferirá aprender sobre sexo no mundo, não em casa.
  596. Tanto os pais têm vergonha de discutir sobre sexo com seus filhos quanto seus filhos têm vergonha de discutir sua vida sexual com os pais.
  597. A educação sexual deve ser dada por outra pessoa, então (mesmo que sejam os tios).
  598. Estranhamente, não existem muitos livros ou revistas de educação sexual para meninos, porque, pensam os editores, meninos não leem.
  599. Felizmente, temos a Internet.
  600. Há informação sexual sem censura na Internet.
  601. Alguns sítios de educação sexual são hospedados em universidades e os leitores mandam perguntas anônimas pra especialistas responderem.
  602. Bom sexo requer informação.
  603. Informação sexual boa sempre é “gráfica”: não dá pra discutir sexo sem ser explícito.
  604. Dos 5.000 adolescentes que se matam por ano, 30% é homossexual ou “indeciso”.
  605. Em termos sexuais, a Internet é mais segura que o mundo real.
  606. A autora menciona brevemente o cybersexo, mais conhecido hoje como erotic role-play, como algo mais seguro do que a experiência sexual física.
  607. O anonimato no cybersexo torna a experiência mais fluida.
  608. O anonimato protege os adolescentes que se engajam em tais práticas.
  609. Tem coisas que você só tem coragem de dizer pela Internet.
  610. Crianças e adolescentes que se sentem parte de minorias sexuais, às vezes odiadas, podem encontrar comunidades online de pessoas que enfrentam os mesmos sentimentos de rejeição.
  611. Ninguém conseguiu provar que pornografia prejudica crianças ou, principalmente, adolescentes.
  612. A pornografia pode confirmar a orientação sexual de alguém: verifique a resposta do seu corpo ao ver dois caras se pegando e você vai saber se você é ou não balde.
  613. No entanto, por razões claras, a pornografia não subtitui a educação sexual (as “razões claras” são o fato de que elas são objetivas, sem comentários, sem explicações e você tem que tirar conclusões do que vê).
  614. Pela Internet você também sabe o que fazer se sua parceira resolve te bater.
  615. Se você não tem informação sexual, você irá concluir besteiras críveis (do tipo “transar com virgem cura AIDS”).
  616. Embora isso não apareça na televisão, os feios têm, sim, chance.
  617. Estranhamente, ao menos no fim dos anos noventa, a sexualidade infantil era realisticamente mostrada na televisão, mas até hoje a sexualidade adulta dos filmes e das séries não parece a sexualidade do quotidiano de adultos reais.
  618. Boa parte das crianças e adolescentes do século passado aprendeu a beijar graças aos filmes.
  619. Educação sexual poderia ser tema transversal, a ser tratado por todas as disciplinas.
  620. A autora sugere que a educação sexual, se sexo é pensamento, ação e sentimento, deveria fazer parte das linguagens e códigos.
  621. Na prática, não é fácil conciliar igualdade e sexo.
  622. Por que não estudar romances mais picantes nas aulas de literatura?
  623. Uma relação desigual pode ser romântica.
  624. A linguagem erótica pode ser forte ou sutil.
  625. Há romance na literatura infantil.
  626. Há romance em outras mídias infantis.
  627. Se a imaginação proporciona bom sexo, tornar sexo menos atraente requer censura sobre as artes.
  628. Artistas são população carcerária considerável em qualquer regime repressivo.
  629. Tem gente querendo que Romeu e Julieta receba classificação indicativa 18.
  630. Não existe idade mínima para sentir amor.
  631. A menina submissa é estatisticamente estuprada mais vezes.
  632. A menina mais “dona de si” se relaciona voluntariamente mais vezes.
  633. “Vício em sexo” e “frigidez” representam excesso e falta, respectivamente, mas qual é o ponto de referência para caracterizar o excesso ou a falta de desejo?
  634. Diagnósticos médicos raramente consideram contexto cultural: o que é doença aqui e agora pode não ter sido doença antes ou não ser doença em outro lugar.
  635. Repressao sexual causa males sociais.
  636. Garotas são capazes de sentir e reconhecer os sinais biológicos de desejo sexual.
  637. Mas essa habilidade desaparece se não for treinada e a menina passa a ficar confusa sobre o que ela está sentindo: ela está ou não desejando, ela está ou não sentindo prazer?
  638. Reprimir a sexualidade da menina reprimirá a independência da mulher.
  639. A masturbação é uma ótima forma de estudar o próprio desejo.
  640. A masturbação mostra que o prazer sexual não é uma propriedade da relação ou da pessoa com quem se relaciona, mas uma propriedade do próprio corpo.
  641. Cultivar o hábito da masturbação permite mais facilmente deixar um relacionamento sexualmente gostoso, mas abusivo ou prejudicial (porque algumas mulheres gostosas querem também matar você).
  642. Porque somos ensinados que crianças são inocentes, a criança ou adolescente que sente desejo não sabe como lidar com ele e o esconde, se alienando do próprio corpo.
  643. Se você diz que meninas normais (ou crianças normais) não têm esses sentimentos, a criança que os têm pensará que está doente ou que é um indivíduo raro.
  644. A menina que pula de um relacionamento pra outro pode não se sentir objeto, mas sujeita ativa.
  645. Para alguns, sexualidade feminina e independência não são conciliáveis.
  646. Agir sexualmente (voluntariamente) é admitir que se é um sujeito sexual, é o desejo de usar uma parte que lhe é inerente.
  647. A menina que se maquia não necessariamente está se objetificando, mas tentando agir “como adulta” (se a mãe usa maquiagem, por que ela não pode?).
  648. Sexualidade não torna seu corpo indigno.
  649. Se o sexo não foi satisfatório, isso não é um sinal automático de que há algo errado com você em particular.
  650. Isso porque parte da graça do sexo é fazê-lo com alguém de quem se gosta, não casualmente.
  651. Mas mesmo na presença de afeto, o prazer pode estar ausente.
  652. Isso pode ocorrer por falta de prática ou falta de técnica: a pessoa não sabe o que lhe dá prazer e, mesmo quando sabe, não sabe satisfazê-lo.
  653. É difícil pra alguns (inclusive eu) imaginar como sexo pode ser prazeroso.
  654. Mulheres e meninas se masturbam, mas têm mais vergonha disso do que os meninos têm.
  655. Se você não é capaz de se masturbar até ter um orgasmo, provavelmente não será capaz de ter um orgasmo durante uma relação sexual.
  656. Apesar disso, é mais fácil sofrer por amor (decepção amorosa) do que por sexo (decepção sexual).
  657. A pior parte é que atividade sexual pode prejudicar relacionamentos amorosos.
  658. Mas esse não é um problema do sexo, mas da cultura: a menina sexualmente ativa é vista como cachorra, é um problema da reação social.
  659. Você pode aprender sobre sexo pela masturbação ou através de alguém mais experiente.
  660. Não espere um romance perfeito quando se apaixonar; sempre esteja pronto para uma decepção.
  661. Amor e luxúria não são a mesma coisa e a presença de amor não garante uma boa relação sexual (embora ajude).
  662. Aprenda a separar amor e luxúria, para que você não pense que está amando qualquer pessoa que te faz subir.
  663. Esse problema pode ser causa de infelicidade se persistir até a vida adulta.
  664. Por exemplo, há muitos adultos que não sabem quando têm desejo e quando não têm, quando estão amando e quando não.
  665. É uma vergonha para o pai ser menos sexualmente informado do que seu filho.
  666. E isso é preocupante porque o pai sente que seu filho está para cometer os mesmos erros que ele cometeu, mas não tem autoridade ou instrução para ajudá-lo.
  667. Compreender a própria sexualidade leva tempo.
  668. A menina sussurra seu desejo, mas o menino o diz bem alto.
  669. O entusiasmo sexual masculino não é uma coisa negativa.
  670. Um grupo de meninos de sete anos sabe como se referir de maneira chula às ereções.
  671. Isso porque se espera que o menino saiba sobre sexo e seja bom de sexo na vida adulta, então ele não recebe tanta repressão quanto a menina.
  672. A menina aprende que o que ela quer é amor e sua educação sobre desejo sexual é profundamente censurada.
  673. O contrário ocorre com os meninos: embora sua educação sexual seja, sim, censurada (mas moderada pela permissividade sexual), a ênfase sobre o desejo é maior que a ênfase sobre o romance.
  674. Isso torna a educação sexual completa (amor + luxúria) inacessível aos dois.
  675. Isso também causa preconceitos: meninas acham que o menino que se aproxima delas só quer mesmo trepar com ela e passar pra outra quando tiver vontade, como se homens fossem incapazes de sentimentos de amor.
  676. O menino que internaliza esses preconceitos coisifica o sexo, o que pode também alinená-lo de seu corpo: o sexo passa a ser algo externo, não parte de você.
  677. Isso prejudica a performance, porque é como se você estivesse fazendo sexo por obrigação social ou automaticamente, sem realmente se envolver com o ato.
  678. As meninas não são seres sexualmente dormentes e nem os meninos são máquinas de fazer sexo, então a culpa não “das meninas” por resistirem e nem “dos meninos” por desejarem, mas da ideia que fazemos dos dois: deveríamos celebrar o relacionamento mutuamente desejado, não focar nos casos ruins como se só eles acontecessem.
  679. A menina pode ser sujeito e objeto no sexo, mas também o menino nem sempre é sujeito; há meninos que se objetificam pela menina.
  680. Isso porque a pressão pra trepar leva alguns meninos que não estão conseguido relacionamentos a adotar medidas extremas pra conseguir esses encontros.
  681. Isso é agravado quando o menino está apaixonado, mas já foi rejeitado antes por outra pessoa.
  682. Igualar meninos e meninas não requer a dessexualização do menino ou da menina.
  683. A autoconfiança sexual do menino não é algo digno de vergonha.
  684. Se cada caso é um caso, não se pode dizer que “todos os meninos” querem fazer sexo (alguns não querem) nem que “todas as meninas” resistem ao sexo (algumas querem muito).
  685. Cultivar a “inocência infantil” não é a mesma coisa que respeitar a criança ou o adolescente.
  686. Na verdade, cultivar a inocência como ideal divide as crianças e adolescentes entre “puros” (bons) e “corrompidos” (maus), quando a sexualidade é uma força natural.
  687. Se a menina não te escuta, não perca seu tempo tentando namorá-la; tem muita mulher no mundo pra você perder tempo com quem não tem tempo pra você.
  688. Meninas também violentam meninos, elas não são vítimas 100% das vezes.
  689. Ao contrário da crença popular, homens entendem que “não” é “não” (basta lembrar que, de todos os homens no mundo, uma minoria estupra).
  690. O mesmo é válido pra mulheres, ao serem recusadas por homens.
  691. Mas se “não” é tudo o que se ouve, algo está errado em algum lugar.
  692. Jargão sexual, palavras obscenas, nada disso precisa ser tomado como derrogatório.
  693. Meninas deveriam usar termos sexuais na fala quotidiana como meninos usam.
  694. Se meninos usam jargão sexual pra falar bem do corpo de alguém, eles estão atribuindo àquela pessoa um valor positivo, é um tipo de elogio.
  695. É no mínimo ambivalente que uma mulher xingue um menino lhe atribuindo características femininas, como chamá-lo de “mulherzinha” (é uma forma também de xingar a si mesma, porque nada há de mais feminino que uma mulher).
  696. Professores que falam palavrões são hipócritas por ensinarem seus alunos a não falar palavrões.
  697. Para muitas mulheres, ser chamada de “safada” é elogio, se o contexto indicar que “safada” é pessoa sem pudores sexuais, uma pessoa que não é puritana e que se orgulha disso.
  698. Assim, purificar a fala do menino não é a solução do problema, mas estimular a fala sexual em contextos positivos, tanto pelo menino como pela menina.
  699. Além disso, termos sexuais podem ser usados de forma neutra, sem transmitir juízo de valor.
  700. Sexo vulnerabiliza, mas isso nem sempre é ruim.
  701. Se relacionar é correr riscos e quem não arrisca não petisca.
  702. Se abrir para o risco é algo que começa com o desejo.
  703. Decepção é o maior dos riscos.
  704. Alguns meninos podem até pensar que serão virgens pra sempre.
  705. Se não for rejeitar todas as oportunidades, nem por isso aceite todas.
  706. Todos os relacionamentos são apostas.
  707. O homem “cabra macho” é um estereótipo de origem sociopolítica.
  708. Meninos que querem ser diferentes são incentivados a se conformar.
  709. O próprio ambiente escolar e a cultura tentam forçar o menino a ser daquela forma.
  710. Adotar uma postura de “não tô nem aí” pode ser sinal de medo de ser criticado ou humilhado.
  711. A amizade “distante” entre meninos é motivada por homofobia: você não abraça seus amigos pra não dizerem que você é balde.
  712. Ironicamente, a falta de prática em mostra afeto prejudica relacionamentos heterossexuais.
  713. Ao criar uma atmosfera de “não fale de sexo”, você acaba criando, por acidente, uma atmosfera que censura outros tópicos além de sexo (como excreção).
  714. Como ocorre com todos os mamíferos, ser tocado, abraçado e beijado é saudável.
  715. Mamíferos adoecem ou mesmo morrem se forem privados de afeto físico.
  716. Mamíferos muito jovens preferem o afeto providos pelos pais, mesmo quando têm que escolher entre esse afeto e comida.
  717. No caso do ser humano, a privação de afeto físico prejudica o desenvolvimento de perícias sociais.
  718. Você não pode cuidar de um ser humano como se cuidasse de uma planta: se você não lhe der afeto, ele adoecerá por isso, mesmo que tenha comida, casa, roupa lavada, água, um quarto e diversões.
  719. Se você priva um bebê de afeto físico, ele morre.
  720. Falta de afeto físico já foi considerado causa de anorexia e ecsema.
  721. Afeto físico promove harmonia social.
  722. Sociedades indígenas sem tabus em relação ao afeto físico têm menores taxas de roubo, menores taxas de assassinato, menos necessidade de punição dos filhos, menor incidência de mutilação e menor incidência de tortura.
  723. O contrário ocorre em sociedades nas quais afeto físico é desencorajado.
  724. Assim, a privação de afeto físico na infância contribui para o desenvolvimento de tendências criminosas ou violentas.
  725. A relação entre pouco afeto físico e tendência violenta não é social, mas biológica.
  726. Isso é evidenciado em países desenvolvidos violentos, como os Estados Unidos.
  727. Se você desencoraja afeto físico e encoraja coisas como “meu espaço pessoal”, você cria pessoas que são obcecadas pela autoproteção, pessoas territoriais, que veem violação em todas as formas de aproximação.
  728. Contato sexual entre filhotes (ou com filhotes) ocorre o tempo todo em outras espécies.
  729. A sexualidade infantil é punida pelos humanos.
  730. Isso não é ocasionado pela natureza da sexualidade infantil ou do corpo infantil ou de deste ou daquele órgão ou zona erógena, mas pelo significado socialmente atribuído a essas coisas: por padrão, a sexualidade infantil é neutra, nem boa e nem “má”.
  731. Qual é o significado que a sexualidade infantil tem para a criança ou para o adolescente?
  732. O problema dos estudos sobre a sexualidade infantil é a parcialidade do estudo: brincar de “médico” ou passar nudes são práticas que podem serobjetivamenteprazerosas, mas esses atos podem ser subjetivamente avaliados como “jogo” ou “ato libidinoso” dependendo de quem avalia.
  733. Beijo na bochecha ou nos lábios, banho juntos, ficar nu em casa na presença dos familiares, partilhar a cama, essas coisas são ou não sexuais?
  734. Proibir essas práticas revela medo de sexualização “precoce”: e se o guri ficar excitado?
  735. Mesmo quem não acredita nisso não pode ignorar que a tese da sexualização precoce é influente, tanto que, mesmo desconfiado, o adulto terá que observar essas regras, porque pode ser preso ou perder o emprego se não as observar.
  736. Isso também leva à “síndrome do falso pedófilo”: adultos que gostam de abraçar e ficar perto de crianças podem temer que se aproximar delas dará origem a sentimentos reprováveis.
  737. O medo de se excitar pelos próprios filhos leva pais a policiar suas próprias manifestações de afeto.
  738. O pior é que o pai que realmente sente atração pelo filho pode ser preso ou perder a guarda do filho ao procurar ajuda, já que ele não pode receber ajuda se não confessar o problema.
  739. Professores também não tocam mais os alunos.
  740. O contato não precisa ser sexual, basta parecer sexual.
  741. De repente, todas as crianças são também molestadoras.
  742. Se por um lado os adultos fogem de crianças, por outro as crianças são treinadas a desconfiar de adultos.
  743. Além dos efeitos da privação de contato físico, ensinar às crianças que virtualmente qualquer adulto pode tocá-la do jeito errado e que ela deve estar atenta a esses toques errados aumenta os níveis de ansiedade do moleque: tem pedófilo em todo o lugar, então ele tem que avaliar todos os adultos.
  744. A autora conta a história de uma menina do jardim de infância que passou semanas sem falar com a profesora nova, porque “não se deve falar com estranhos”.
  745. Eventualmente, a criança passa a suspeitar dos próprios pais.
  746. Assim, a repressão do afeto físico, do toque “que parece sexual”, prejudica adultos e crianças.
  747. Abrace e beije seus filhos, mas os ensine que eles só devem abraçar e beijar outros se eles também assim quiserem.
  748. Enquanto as crianças não estiverem machucando ou ofendendo umas às outras, permita que brinquem como quiserem.
  749. Educação sexual deve estar disponível, mas não deve ser forçada.
  750. “Apropriado”, na frase “comportamento aproriado à idade”, pode facilmente ser substituído por “lícito”.
  751. “Comportamento apropriado à idade” não leva em consideração a maturidade pessoal de cada criança ou adolescente, presumindo que todas as crianças de determinada idade agem da mesma forma, a menos que sejam anormais.
  752. Tinha um tempo em que a masturbação era chamada de autoabuso.
  753. Existem adultos que invejam as crianças porque estas podem se masturbar à vontade sem medo de serem humilhadas por isso (isso porque muitos adultos que se masturbam sentem que são menos capazes do que os adultos que se satisfazem exclusivamente pelo sexo).
  754. Ninguém culpa a criança por se masturbar, mas o adulto que confessa que se masturba é visto como antissocial.
  755. Cuidado com os “especialistas” que dizem que masturbação faz mal.
  756. Geralmente, os pais aceitam que seus filhos se masturbem, mas poucos desejam que seus filhos encarem isso como algo positivo.
  757. Uma cirurgiã perdeu o emprego em 1994 por ter dito em público que a masturbação poderia ser um tema de discussão em sala de aula (disseram que ela estava destruindo a fibra moral da América).
  758. Isso foi censura.
  759. Se espera que nossos adultos sejam sexualmente ativos, mas reprimimos sua sexualidade na infância e na adolescência e lhes privamos de informação.
  760. Algumas pessoas pensam que a masturbação é um fenômeno minoritário.
  761. Um monte de brincadeiras que os adultos de hoje fizeram quando pequenos não podem ser repetidas pelos pequenos de hoje.
  762. Aprender sobre seu corpo faz parte do autoconhecimento.
  763. Há menos conflito físico em creches que estimulam o abraço e não se importam com demonstrações físicas de afeto.
  764. Enquanto as crianças estiverem gostando e não estiverem se colocando em risco, nenhuma brincadeira é ruim.
  765. Quando uma criança olha ou toca os genitais de outra, é improvável que ela esteja pensando em sacanagem.
  766. Políticas antitoque são seletivamente aplicadas a homens somente.
  767. Há uma pressa pra civilizar a criança e essa pressa se manifesta na escola.
  768. Em alguns sentidos, a escola é como o exército: existem regras análogas entre o regimento escolar e o serviço militar.
  769. A educação sexual é moldada pelo medo da sexualidade infantil: ela é sobretudo uma forma de civilizar a sexualidade da criança.
  770. Como essas aulas são largamente teóricas, quase nunca práticas, a aplicação do conhecimento obtido na educação sexual é dificultada, quando esse conhecimento é demandado em situações práticas.
  771. É por isso que é difícil dar educação sexual pra um menino de quatro anos, que precisa ver, ouvir e sentir pra entender.
  772. Se a criança faz conexões entre o que ela aprende e o que ela já sabe, é muito estranho que a masturbação nem seja mencionada em programas de educação sexual pra crianças pequenas, já que elas se tocam pra caramba.
  773. As duas coisas que se aprende na educação sexual: biologia e abuso sexual.
  774. Se você dá significado sexual a toques que parecem sexuais, mas não são, a criança e o adolescente crescem pensando que só se pode tocar a pessoa quem você quer transar e logo, na vida adulta, qualquer abraço que você dá já faz o pessoal pensar que você tá ficando com aquela pessoa.
  775. Crianças negociam consentimento.
  776. Se por um lado a criança não dá aos seus atos os mesmos significados que nós adultos damos aos nossos, é certo que elas fazem o que fazem por prazer.
  777. Dê às crianças algo interessante pra elas manterem nas mãos e logo o esforço de supervisioná-las será menor.
  778. A criança deve ter privacidade.
  779. Se tudo vai bem, não interfira.
  780. Se sua sexualidade não é da conta de ninguém, que dizer da sexualidade do seu filho?
  781. Satisfação sexual é mais fácil de obter se o sujeito tem informação pra isso.
  782. Ignorância sexual prejudica o desempenho sexual.
  783. Nem todos os bons atos libidinosos incluem conjunções carnais.
  784. Se for possível obter orgasmos sem penetração, a demanda por sexo penetrativo diminui.
  785. Se o ato for voluntário e inofensivo, não há por que chamar de doentio.
  786. A medicina reduz as desigualdades entre os sexos.
  787. A própria vida moderna, por causa da demanda de mulheres no mercado de trabalho, ameaça papeis sexuais.
  788. “Performance”, “função”, “preparação” e outros conceitos têm importância reduzida em situações de contato sexual não-penetrativo.
  789. Além do mais, dar menos ênfase à penetração é dar menos ênfase à heterossexualidade.
  790. O prazer sexual é mais condicionado à imaginação do que propriamente aos genitais.
  791. Para muitas mulheres, é mais fácil ter orgasmos sem penetração.
  792. A maioria dos atos libidinosos não penetrativos não posa nenhum risco aos envolvidos, seja esse risco de gravidez ou risco de doença.
  793. Como atos libidinosos não penetrativos podem atrasar a necessidade de atos penetrativos, haverá mais planejamento antes de tomar a decisão de fazer sexo “à vera”, reduzindo a chance de gravidez ou de doença.
  794. Quando alguém diz que a sexualidade infantil deve ser aceita, a primeira coisa que o debatedor pensa em dizer é “e se o guri adoecer?”.
  795. O que está implícito nesse argumento é que, a menos que doenças sexualmente transmissíveis (em particular, a AIDS) sejam erradicadas, crianças e adolescentes têm que se manter longe da sexualidade (ver nota 792).
  796. Foi a epidemia de AIDS que mudou a forma como vemos a educação sexual: se a AIDS existe, o ideal de liberdade sexual precisa ser repensado… ou abandonado.
  797. Mas não ensinar sobre sexo não diminui a vontade do adolescente de fazer sexo, então eles continuaram fazendo, só que passaram a fazer mesmo desinformados.
  798. Na metade dos anos noventa, um adolescente por hora era infectado com AIDS nos Estados Unidos, logo após a mudança de atitude em relação à educação sexual.
  799. Isso é refletido no fato de que a principal causa de morte em adultos entre vinte e cinco e quarenta e quatro anos nos Estados Unidos é a AIDS, já que esses sujeitos contraíram o vírus na adolescência.
  800. Uma estimativa americana dos anos noventa mostra que algo entre 20% e 30% dos adolescentes homossexuais seriam infectados com AIDS antes dos treze anos.
  801. Ser homossexual assumido reduz o risco de AIDS.
  802. A incidência de AIDS pode ser mitigada por boas políticas sanitárias, educação de qualidade e melhora do poder aquisitivo.
  803. É preciso lembrar que sexo não é a única forma de pegar AIDS: usuários de drogas injetáveis ou pessoas que recebem transfusões de sangue contaminado podem receber o vírus sem transar.
  804. Então mesmo que todo o mundo virasse monge, ainda seria possível pegar AIDS.
  805. Se programas de prevenção funcionam, você não pode tirar os fundos desses programas porque a clientela diminuiu!
  806. Quando uma pessoa assume sua sexualidade, as pessoas são forçadas a encará-la como um ser sexual: ela não saberia se é heterossexual, bissexual ou homossexual se não sentisse desejo por determinado sexo.
  807. Então, quando o sujeito diz “sou gay”, ele está dando uma forte declaração de que não é inocente.
  808. O pior preconceito que um homossexual ou bissexual pode sofrer é o que vem da própria família.
  809. Por exemplo: ainda existem pais que expulsam esses meninos (quase sempre meninos) de casa.
  810. Em 1997, no Distrito 202, 40% dos homossexuais menores de idade haviam sido expulsos de casa ao menos temporariamente (150 sujeitos foram entrevistados).
  811. E é por terem que sobreviver sem os pais que muitos desses meninos se prostituem.
  812. Com isso, a família posa o maior risco a um homossexual ou bissexual que ainda não é adulto.
  813. Outras coisas associadas a esse fenômeno são o alto consumo de álcool e drogas e uma taxa maior de suicídio.
  814. Se fazer sexo é sinal de felicidade, então a classe média é deprimida, diferente do indígena e do trabalhador.
  815. Talvez a cultura capitalista ocidental não seja mesmo o melhor modelo para os que buscam satisfação sexual.
  816. Família, comunidade e mesmo a espiritualidade podem ser usadas para satisfação e aceitação sexual, coisas cujos valores passam longe da vitimologia.
  817. Se a igreja quer salvar todo o mundo, não deveria banir os bissexuais ou homossexuais de seus assentos, especialmente porque isso os leva a procurar outra fé.
  818. Um problema dos programas de prevenção à AIDS é classficar este ou aquele sujeito como alguém “de risco”, porque você, com palavras, coloca o cara na quarentena, afastando-o dos outros.
  819. Isso permite categorizar pessoas pelo seu potencial de contaminação, mas essa prática pode ser usada oportunamente pra aumentar a homofobia, o racismo ou a xenofobia (africanos são “de alto risco”, por exemplo).
  820. Assim, a pessoa que quer trepar, mas não quer fazer perguntas sobre o histórico de DST do parceiro, não irá perguntar sobre a saúde do sujeito; simplesmente evitará quem parecer “de alto risco”, como parceiros negros, imigrantes ou gays.
  821. Logo, você rejeita o parceiro não pela sua saúde efetiva, mas por sua categoria geral.
  822. Isso influencia políticas públicas, estimulando a criação de políticas mais educativas pra populações “de baixo risco” e medidas mais sanitárias pra populações “de alto risco”, como se estilo de vida do negro ou do gay fosse inerentemente autodestrutivo: não daria, em tese, pra educá-los, só tratá-los ou, preferencialmente, isolá-los.
  823. Em vez de falar de “grupos de risco” (homossexuais, negros e outros), falemos de “comportamentos de risco” (como o sexo anal não protegido, por exemplo): se evitarmos comportamentos e não pessoas, todos serão educados e protegidos, não apenas este ou aquele grupo.
  824. Dá pra pegar AIDS por causa de equipamento contaminado, quando se vai colocar um piercing ou fazer tatuagem.
  825. Também dá pra pegar AIDS ainda bebê, bebendo o leite da mãe contaminada.
  826. Existem homossexuais que não gostam de sexo penetrativo!
  827. Uma prostituta pode exigir que você use camisinha ou recusar serviço se você não usar.
  828. Ao contrário da crença popular, um monte de menores em relacionamento com adultos está suficientemente informado.
  829. Não subestime a informação sexual de um adolescente.
  830. É mais fácil fazer decisões informadas em países onde a demanda por informação é atendida pelo estado.
  831. Quando ninguém te respeita, a tendência é que também você pare de se respeitar.
  832. Sexo é mais fácil de achar do que amor.
  833. Ironicamente, se faz menos sexo seguro numa relação amorosa do que numa relação casual.
  834. Isso porque você confia no parceiro de longa data.
  835. E se confia mais no parceiro de longa data porque se assume que esse parceiro não está fazendo sexo fora da relação com outra pessoa…
  836. Logo, o fato de que você está numa longa relação monogâmica não impede que você tenha doenças sexualmente transmissíveis se sua comadre estiver traindo você.
  837. Então há razão pra ter sexo seguro mesmo depois de bem casado.
  838. Não assuma que seu parceiro não guarda segredos de você.
  839. Porque se assume que o parceiro não está se relacionando com outra pessoa, o sujeito fica sem graça de pedir que preservativos sejam usados na próxima relação, e esse fato pode tornar uma relação estável mais perigosa do que uma casual, porque não há nenhum embaraço em usar camisinha com estranhas, nem para ele e nem para ela.
  840. Existe o preconceito de que “boas mulheres” não traem.
  841. Quando a mulher se importa muito com o tema da saúde sexual, esse preconceito trabalha contra ela: a mulher que se importa com a saúde sexual pode ser vista como cachorra, já que não precisaria se importar com isso se tivesse só um parceiro.
  842. Se espera que quem ofereça o preservativo seja o homem.
  843. Quando a mulher é quem carrega os preservativos e os dá ao homem na ocasião da relação, ela se expõe ao risco de ser julgada: “se ela carrega isso, é porque sempre está pronta pra dar pra quem aparecer”.
  844. Mencionar sexo seguro numa relação estável ameaça a confiança entre parceiros.
  845. A menos que o amor priorize a saúde, não a confiança, relações amorosas podem ser mais perigosas que relações casuais.
  846. Um terço dos adolescentes trai o parceiro.
  847. 60% dos adolescentes usam camisinha todas as vezes que se relacionam.
  848. É mais importante a vida do seu parceiro ou a continuação do relacionamento?
  849. Se você trai, adoece e não conta ao seu parceiro, você está matando um inocente aos poucos (e o pior é que é um inocente que você afirma amar muito).
  850. Doenças sexualmente transmissíveis em geral e AIDS em particular não escolhem seus alvos com base em níveis de amor.
  851. Nossa concepção de amor é perigosa, amor de verdade não é como nos filmes ou nas músicas, ele não é perfeito e pode ser desproporcional entre os amantes.
  852. Sobrevivência coletiva é o primeiro passo pra criar comunidades fortes e resistentes de minorias.
  853. Quando a comunidade é forte, o ódio que se tem a ela se torna uma fonte de força e até de orgulho.
  854. Boa autoestima está relacionada a maior tendência a ter sexo seguro.
  855. Ame seu parceiro mais do que você ama seu relacionamento com ele.
  856. Campanhas de conscientização devem levar isso em consideração e mostrar que sexo seguro não é apenas uma forma de autodefesa (que pode ser vista como egoismo), mas também uma forma de defender seu parceiro e até sua comunidade (o que é visto como altruismo).
  857. Cometemos vários erros na educação sexual de nossos filhos, mas esses erros exitem por causa do medo que temos da sexualidade deles.
  858. Erotismo não destruirá a civilização.
  859. Responsabilidade, planejamento, consentimento.
  860. Hostilidade gera hostilidade: se você trata a criança com respeito e carinho, é improvável que ela cresça violenta.
  861. É estranho que digamos que tratar bem a criança é tratá-la de forma “especial”, porque isso mostra que tratar crianças como lixo é uma pratica normalizada.
  862. Da pra saber se a criança é desumanizada avaliando o tipo de educação que ela recebe, inclusive da escola.
  863. É péssimo ser criança nos Estados Unidos, onde crianças e, especialmente, adolescentes são vistos como indisciplinados, rudes, mimados e selvagens.
  864. Se você ama seus filhos, faça esse amor transparecer em atos, não apenas em palavras.
  865. Quem ama, age de acordo.
  866. Estadunidenses dizem que amam suas crianças, mas agem como se as odiassem.
  867. O nível de felicidade das crianças estadunidenses é pior do que o nível de felicidade das crianças que vivem em alguns países de terceiro mundo.
  868. Os Estados Unidos são o único país desenvolvido que não tem saúde pública pra todos os seus cidadãos.
  869. À data em que o livro foi escrito, a taxa de mortalidade de crianças menores de cinco anos nos Estados Unidos era igual a de Cuba (o livro foi publicado em 2002).
  870. Políticas públicas podem favorecer a pobreza.
  871. Pobreza é condição de risco pra tudo o que nossa sociedade abomina (uso de drogas, crime, má saúde, analfabetismo, insegurança, entre outros).
  872. Pobreza é abuso infantil perpetrado pelo estado, por meio de políticas públicas que permitem e até encorajam a pobreza.
  873. Fala-se muito do abuso sexual infantil, mas a ênfase excessiva nesse assunto nos leva a esquecer que há problemas maiores e piores que acometem nossas crianças e que causam muito mais dano, com muito mais frequência.
  874. Há várias formas de abuso infantil e abuso sexual é só uma delas, a que mais distrai.
  875. A forma como organizamos nossa economia, a forma como organizamos nossa educação, nossa vida sexual e de nossos filhos estão conectadas por valores que sublinham todos esses comportamentos.
  876. Você teme menos aquilo que é comum, temendo mais aquilo que é raro.
  877. Nos preocupamos tanto com a moral de nossas crianças que esquecemos suas necessidades materiais.
  878. Essa foi uma característica fundamental do governo Bush.
  879. Ironicamente, o governo lida com nossas necessidades materiais de maneira imoral.
  880. A ligação entre pobreza e caráter fica evidente na cadeia, onde a maioria das pessoas que pra lá vai é pobre.
  881. A pobreza te força ao crime.
  882. Pessoas satisfeitas não cometem crimes.
  883. Os valores familiares não melhoram essa situação.
  884. A inutilidade de valores familiares no combate à pobreza e, portanto, no melhor desenvolvimento do menor não garante que a família deva ser abolida.
  885. Nos Estados Unidos, falar de valores familiares é um jeito de começar uma discussão sobre privatização.
  886. Isso porque “comunidade” é analogia para “público” e “familiar” é analogia para “negócio próprio”.
  887. Só pode ocorrer incesto na família.
  888. Maior parte dos casos de relação entre adulto e menor ocorre dentro da família.
  889. Se a criança estiver envolvida na comunidade e a comunidade se sentir responsável por todas as crianças, todos os adultos protegerão as crianças, não somente os pais, que são só dois (quando muito).
  890. Crianças devem ser vistas como cidadãs.
  891. Elas devem sentir que têm um papel ativo na sociedade e que esse papel é imediato, não algo que só será assumido num vago “futuro”.
  892. A criança deve sentir que ela faz diferença.
  893. Isso não quer dizer ter responsabilidades adultas, mas ter participação no progresso da comunidade a que se pertence.
  894. É porque a criança não se sente e não age como cidadã que nós a tratamos como menos que um ser humano.
  895. Se víssemos as crianças e adolescentes como iguais, sua sexualidade seria vista de forma menos negativa.
  896. Adotar uma posição moral em relação à sexualidade infantil significa avaliar suas potencialidades boas e os riscos reais.
  897. É preciso tomar como ponto de referência o melhor interesse do menor.
  898. Precisamos entender os perigos que cercam a criança para saber quais perigos são reais e quais não são, e como lidar com os perigos reais, o que requer uma abordagem mais racional e menos emotiva.
  899. Um perigo falso pode causar tanto medo quanto um perigo real.
  900. Há riscos não sexuais por natureza e que tornam a sexualidade perigosa.
  901. A sexualidade infantil não representa risco ao menor.

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