O grupo organizado.

O texto abaixo é uma honesta aula filosófica baseada em Além do princípio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos, escrito por Freud, com sugestões de como as ideias contidas em tal escrito podem ser usadas para desenvolver o país e ajudar as pessoas a se compreenderem.

O princípio do prazer.

Nosso “aparelho mental” detecta e estoca uma quantidade de tensão. Ora, tal aparelho tende a manter sua tensão no nível mais baixo possível. Isso quer dizer que toda tensão detectada e estocada provoca desconforto. Prazer é a sensação gostosa que temos quando essa tensão é aliviada. Apesar dessa definição geral, o estudo do prazer é uma das coisas mais difíceis na psicanálise, então tome cuidado ao usar essa definição. O ideal seria que o aparelho psíquico estivesse sem tensão a todo momento. Se reduzir a tensão mental causa prazer, segue-se, portanto, que tudo o que fazemos tem em vista reduzir essa tensão, esse desprazer, e evitar que ele chegue a níveis elevados. A tensão aumenta com as preocupações e desejos cotidianos: raiva, tristeza, sede, fome, sono, vontade de ir ao banheiro, tédio… Ela também aumenta ou diminui com informações sensoriais, amostradas pelos nosso corpo (cores, sons, toques, entre outros). Nos orientamos à eliminação dessa tensão pra viver em tranquilidade. Queremos ser felizes e o ser humano atinge esse estado quando não tem nada do que reclamar.

Observe o caso das crianças. Deixe-as sem nada pra fazer e olhe o que acontece. Começarão a reclamar que “tá chato”. É tédio. Crianças brincam pra reduzir a tensão mental provocada pelo tédio. Quanto mais jovem a criança for, menor é a complexidade de seus jogos. Se contentam com pouco. O que importa é fazer alguma coisa, porque o tédio provoca tensão. Se a redução da tensão provoca prazer, combater o tédio com alguma atividade é prazeroso. Claro que, se a criança dispor de duas atividades e reconhece uma delas como mais prazerosa, ela preferirá a mais prazerosa. Se for forçada a ficar com a menos prazerosa, ela sentirá tensão oriunda da frustração de não estar fazendo o que preferiria fazer, o que pode arruinar o potencial prazeroso da atividade à qual ela se dedica. É a criança que reclama de tédio com os pais e os pais dizem: “pois vá lavar os pratos ou fazer o dever, então!” Era melhor ter ficado calado.

O jogo infantil também tem outra função, principalmente o faz-de-conta. Através dele, a criança vive uma experiência que lhe foi traumática ou a qual ela teme, mas põe a experiência sob outro ponto de vista, reduzindo o desconforto de lembrar daquela experiência ou medo de passar por ela. Por isso crianças brincam de coisas que adultos consideram perturbadoras, tipo “polícia e ladrão” ou “médico”. Brincar dessas coisas põe sob controle da criança, através da fantasia, forças que lhe fizeram mal ou poderiam lhe fazer mal, reduzindo assim o desconforto de lidar com tais temas. Isso não é algo ruim, já que a violência, a doença e a morte são coisas reais. Brincar de “faz-de-conta” com essas coisas reduz o medo, portanto, da realidade, com a qual a criança se chocará no futuro. Entende por que GTA é tão popular entre os gurizinhos? Ter essas forças sob seu controle dá uma sensação de poder. A criança quererá repetir essa brincadeira. Essas brincadeiras são interessantes não apenas porque reduzem a tensão mental, mas também por serem formativas e maduras: crianças desejam ser como os adultos que admiram. Isso também é válido pra contação de histórias. Pela repetição da história, a criança também normaliza forças que seriam, se outra forma, ameaçadoras.

Eliminar completamente a tensão mental, o desprazer, não é algo que se possa fazer simplesmente no mundo moderno. Tome o caso da sexualidade infantil. Lembre que a sexualidade transcende a reprodução, englobando também sentimentos de amor, o que significa que até crianças pequenas, as quais são inférteis (a fertilidade chega no ciclo puberal), têm sexualidade, mesmo que ninguém saiba de onde a sexualidade vem. Aliás, aos cinco anos, já é possível se apaixonar e uma pessoa nem sempre se apaixona por gente da mesma idade. No mundo moderno, há poucas oportunidades de satisfação pra libido infantil, porque a sexualidade infantil é tabu. Qualquer um se sente desconfortável quando o amigo do seu filho parece que se insinua pra você, ou quando seu filho diz que quer se casar com a mãe e ter filhos com ela, ou quando você percebe que tem um gurizinho tentando te pegar trocando de roupa olhando pela fechadura (acho que é por isso que pararam de fazer portas à moda antiga). A criança, quando vai crescendo, entende que tem coisas que ela não pode fazer com seu corpo ou com o dos amiguinhos (ou amigões), porque, se ela insistir, ela apanha. Imagine seu filho se insinuando pra você, como você reage? Talvez você tenha que afastá-lo. Pra evitar situações assim, pais usam diferentes graus de rigidez, mas isso precisa ser bem dosado: um pai rígido demais afasta os próprios filhos. Quando a criança internaliza essas proibições, ela entra naquilo que chamamos de “período de latência”, no qual sua sexualidade perde o aspecto público. Isso não quer dizer que a criança perdeu a sexualidade, mas que ela tornou-se uma pessoa um pouco mais moral… ou, pelo menos, aprendeu a esconder sua sexualidade dos pais. Isso implica dizer que, se o período de latência vem de fora e é internalizado, crianças e adolescentes vivendo em sociedades mais liberais não passarão por essa fase.

A sexualidade é frustrada de outras formas também: pela decepção amorosa, pela rejeição. Até o afeto “puro” pode ser frustrado quando a pessoa deseja atenção e não consegue. É o caso da criança que, carente de atenção, passa a odiar seus irmãos, com quem divide a atenção dos pais. Tal afeto reprimido pode até ter consequências físicas na criança, porque muitas doenças físicas começam como desconfortos mentais e só podem ser curadas depois que o problema afetivo é curado. Por exemplo: quando você está com muita raiva de alguém, tenta esquecer e conversa com outra pessoa, você acidentalmente deixa transparecer (por um ato falho, por exemplo) a raiva que você tenta reprimir. Esse é um exemplo simples de como uma emoção reprimida pode se manifestar de outras formas. A criança negligenciada pelos pais pode acabar desenvolvendo problemas físicos por falta de afeto. Como o deprimido (que dorme demais ou dorme de menos) e o estressado (que desenvolve úlcera no estômago), também a criança com problemas emocionais pode ter problemas de ordem física que não pode controlar (vontades misteriosas de chorar ou xixi na cama). A criança, então, inicialmente amorosa, vai aprendendo que crescer é comportar uma parcela de cinismo em relação à vida: um monte de coisa simplesmente não vai dar certo, eu não posso ter tudo, fazer o quê? Então, o melhor que podemos fazer é reduzir o desconforto aos menores níveis possíveis. Há coisas dolorosas demais no mundo pra que se possa viver totalmente tranquilo. Infelizmente, a virtude nem sempre nos compensa e a criança logo entende que permanecer “inocente” em relação ao mundo é algo que a colocará em perigo. Por mais que os adultos tentem doutriná-la, ela aprende sozinha, crescendo, que o mundo pode ser um lugar cruel.

Uma das coisas que trabalha contra a eliminação total da tensão mental é o instinto de autopreservação. O princípio do prazer diz: “uau, aquele cara é lindo, eu vou lá transar com ele”. O princípio de autopreservação diz: “se você simplesmente for lá e começar a tirar a roupa dele, você vai ser presa…”. Esse é um claro caso de oposição entre o instinto de autoconservação e o de reprodução, ambos operando pra conservação da vida (um para a conservação do sujeito e outro pra conservação da espécie)… O desejo por prazer conflita com o desejo de se preservar. É preciso moderar as coisas.

Quando a busca pelo prazer é moderada pelas exigências da autopreservação, origina-se o “princípio da realidade”: precisamos calcular quais prazeres valem a pena buscar, de quem buscá-los, em quais condições, em qual lugar, em qual tempo e por quais razões. Só então a busca pelo prazer toma uma faceta responsável. Recorrer ao princípio da realidade torna menos penoso frustrar um desejo. Não que o princípio da realidade seja infalível: ainda haverá muitas tentações, particularmente oferecidas pelos instintos, que são uma pulsão biológica que tenta nos puxar de volta ao nosso curso “natural” quando nos afastamos muito dele. O instinto sexual em particular e os “instintos de vida” em geral aumentam a tensão mental, gerando desprazer, mas também um prazer enorme quando tais instintos são satisfeitos. Já outros tipos de instinto agem mais nos bastidores, menos intensamente, mas ainda assim provendo tentações. Donde decorre que o princípio do prazer não é absoluto. Podemos, dada a ocasião, agir contra ele na busca pela estabilidade do aparelho mental. Mas nem tampouco o princípio da realidade é absoluto: quotidianamente cedemos às tentações de fazermos coisas que sabemos que não deveríamos fazer. Isso não quer dizer que não devamos nos esforçar a nos conformar ao princípio da realidade. Tal como o estrabismo pode ser mitigado pela prática (olhando fixamente pro espelho), também a prática nos torna melhores na tarefa de resistir às tentações de fazer besteira.

Além disso, especialmente no caso de desejos sexuais, é possível controlar a tentação de fazer o que é errado procurando satisfações substitutas. Se o impulso sexual reprimido encontrará expressão de outra forma, que tal ver que formas estão disponíveis? Pense no caso de um pedófilo que quer se manter dentro da lei. O que ele vai fazer se sentir tesão? Ele vai ter que procurar meios legais de se aliviar. Se ele estiver no Japão, ele pode, legalmente, ir à banca mais próxima e comprar um volume de shotacon. Afinal, melhor se satisfazer com desenhos de crianças que nunca existiram do que procurar por fotos de crianças reais ou fazer com um parceiro infantil coisas de que ele irá depois se arrepender. É como um diabético que usa adoçante pra não usar açúcar. Então, resistir à tentação de fazer algo errado pode requerer o uso de satisfações substitutas, que não lhe ponham em risco. Afinal, todo instinto tem um objetivo (satisfação) e um objeto: o objetivo não muda, mas o objeto varia. Isso torna mais fácil a conformação ao princípio da realidade. Outra foma de lidar com os instintos é sublimando-os, isto é, tentando dar aos instintos um caminho mais elevado e útil à sociedade. Pegando de novo o exemplo do coitado do pedófilo frustrado, ele pode tentar dessexualizar sua atração buscando converter sua energia sexual em um tipo de amor mais platônico. Ele vira mentor, professor, advogado de causas da infância e juventude, ativista dos direitos da criança, líder de escoteiros, pediatra, chefe de grupo de jovens numa igreja… Quanto mais de sua energia sexual puder ser sublimada, melhor ele será nesses ofícios que o permitem amar os gurizinhos de forma inofensiva. Infelizmente, nem toda energia sexual pode ser sublimada só com a vontade da pessoa, o que explica por que escândalos de sexo com menor geralmente envolvem pessoas que fizeram bem aos menores sob sua tutela, até mesmo ganhando noteriedade por suas boas ações. Triste, não é? Isso implica dizer que muitas pessoas que fizeram coisas grandes pra humanidade provavelmente foram motivadas por instintos “baixos”. Não obstante, a motivação não muda o fato de que sua contribuição foi apreciada.

Como dissemos, isso implica dizer que nem todos os prazeres devem ser buscados e alguns prazeres não podem ser buscados em todo seu potencial. Ou seja, alguns instintos são reprimidos total ou parcialmente. O instinto busca expressão, mas, inclusive por uma questão de sobrevivência, temos que ativiamente reprimi-lo. Isso é desagradável, mas temos que concordar que agir dessa forma é menos desagradável do que fazer tudo o que temos vontade e depois sentir as consequências.

Mas surge uma dúvida: se o prazer é tão importante a ponto de dirigir nossas ações, por que existem pessoas que repetem seus erros, repetem seus fracassos? Por que existem pessoas que fazem coisas que nós vemos como sendo inúteis, desprazerosas, a curto e longo prazo? No trabalho, no amor, na família, sempre haverá quem repita seus erros. Isso acontece porque a pessoa ainda não aprendeu que a atividade à qual ela se dedica não lhe derá retorno por seu esforço. É o caso da pessoa cujos relacionamentos sempre terminam da mesma forma. A pessoa ainda não aprendeu que a forma como ela lida com relacionamentos está errada e que ela nunca derivará prazer de um relacionamento se não mudar suas maneiras. Agindo dessa forma, seria melhor desistir. Então, uma pessoa pode repetir atitudes que sempre terminam em desprazer porque ainda não sabe ou não quer admitir que nunca ela terá retorno pelo que ela está fazendo, da forma como ela está fazendo.

Os traumas.

O trauma é caracterizado por um estímulo negativo tão forte e súbito que quebra nossa defesa mental, causando um grande desprazer. A pessoa precisa, então, se livrar do desprazer ao mesmo tempo que repara suas defesas pra que possa funcionar normalmente. Mesmo após o reparo, a pessoa ainda precisa aumentar suas defesas pra evitar traumas futuros. Tal processo pode prejudicar o sujeito em outras áreas. Em outras palavras, o trauma é uma experiência negativa por causar desprazer, por causar um sentimento de impotência, por exigir que a pessoa lide com ele e por deixar sequelas. Observe que isso implica que uma pessoa preparada pra lidar com uma experiência ruim a qual antecipa terá menos chances de desenvolver um trauma por causa dessa experiência. É preciso que a pessoa esteja despreparada pro que vai acontecer, de forma que suas defesas estejam mal-equipadas pra aquela situação.

Um exemplo de sequela de comportamento é o aumento exagerado da defesa contra repetição do trauma: após sucessivas experiências negativas com relacionamentos, o homem resolve que precisa excluir mulheres da sua vida pra evitar sentimentos negativos, como sensação de inferioridade, o medo de perder seu patrimônio, o medo de perder os filhos ou a dor por ter sido traído. Ninguém pode culpá-lo por querer se preservar: se proteger de estímulos é tão importante quanto estar aberto a estímulos, além que existem mesmo mulheres que se esforçam em causar sofrimento aos homens. E entendo você, amigo. Mas precisamos convir que isso pode lhe causar problemas de outra ordem. Por exemplo: ele pode ficar desconfortável com o afeto feminino e desejar que mulheres o tratem friamente. Observe que este exemplo é um “trauma” em sentido mais geral, não em sentido clínico. Um trauma doentio, daqueles pros quais se busca um tratamento médico, requer que a experiência negativa tenha também comportado risco de morte, real ou imaginário, ou de dano permanente. Traumas tão poderosos terão manifestações físicas e pode mesmo haver sequelas após o tratamento ter termidado. Suponhamos, por exemplo, que o cara realmente tenha desenvolvido medo de mulheres (ginecofobia) após ter sido, sei lá, mutilado por um culto feminista, o trauma pode ser tão grave que, além dos sintomas típicos de um estresse pós-traumático, ele não poderá ser efetivamente tratado por uma mulher. O médico terá que ser homem.

Evolução e instintos.

A vida na Terra é perene. Desde que ela começou, ela não cessou. Nunca houve, depois que a vida na Terra se estabeleceu, um retorno ao período morto. Não houve “pausa” no período vivo da Terra. No entanto, graças a reprodução, a vida pode se perpetuar mesmo que os indivíduos que dela participem não se perpetuem. Homens morrem, mas a vida segue. Esse é um fato biológico que todos podem constatar. Talvez outras formas de conhecimento, como a filosofia, fossem enriquecidas se adotassem outras coisas ditas pela biologia.

O fato de a vida continuar, porém, não indica que ela se torne melhor ou mais apta com o tempo. É verdade, foram surgindo formas de vida mais complexas e mais aptas à sobrevivência, mas isso não quer que exista um “impulso” ou “insinto” para a perfeição. Tome o exemplo dos seres humanos. Podemos dizer que existe um instinto para a perfeição entre os humanos? Não, por duas razões: nem todos os homens procuram se aperfeiçoar e, quando procuramos aperfeiçoamento, geralmente buscamos um aperfeiçoamento porque meios anteriores de satisfação não estão mais disponíveis. A energia psíquica frustrada precisa ser descarregada. O mundo moderno não admitirá sua descarga irresponsável. Então procuramos meios de satisfação mais sofisticados ou a sublimação.

Além disso, não apenas em relação ao homem, mas em relação a toda a vida, “evolução” é um termo relativo. Uma espécie “evoluída” é apenas uma espécie de sujeitos mais aptos a sobreviver em um determinado contexto ambiental. Isso não quer dizer que a espécie é melhor em tudo, comparada à sua forma anterior. Por exemplo: o neandertal tinha um cérebro maior que o do homem moderno e tinha maior massa muscular. Como ele não sobreviveu? Porque, em tempos de fome, ele precisava de mais comida pra sustentar um corpo tão exigente. O homo sapiens sapiens, por ter um corpo mais débil, necessitava de menos comida. Assim, em invernos rigorosos e períodos de fome, o homem de modelo fisicamente medíocre sobrevivia, por ter menos demanda por comida. Não é que somos melhores, só comíamos menos. Por outro lado, uma espécie que se adapta melhor a um ambiente muitas vezes adquire problemas de outra ordem.

Assim, o que chamamos “evolução” não é algo absoluto. O fato de a vida existir há muito tempo e provavelmente continuar existindo caso nós saiamos dela não implica que a vida esteja sempre rumando ao progresso. A vida nem sequer ruma em zigue-zague. A vida segue um rumo praticamente aleatório, ora progredindo, ora regredindo, segundo a necessidade de se preservar (não de se aperfeiçoar).

Ciência e filosofia.

Embora existam objetos próprios à filosofia, que originam sua divisão clássica (metafísica, lógica, epistemologia, teoria do conhecimento, ética, estética, arte, política e metafilosofia), a filosofia muitas vezes se debruça sobre objetos que já são tratados pela ciência (por isso temos tanto filosofia da mente quanto psicologia). No entanto, como o método científico é mais profundo que a filosofia, é preciso que a filosofia tenha a humildade de abandonar suas conclusões quando a ciência as contradiz. Por exemplo: a igualdade entre os sexos e todas as teorias que dependem ou sustentam esse princípio estão em embate com a biologia. Por causa disso, sempre que a filosofia for estudar qualquer objeto que já está em estudo pela ciência, ela deve primeiro capitular a produção científica já feita sobre aquele objeto. Por outro lado, como existem coisas que não são cobertas pelo método científico, é preciso que a ciência não se meta no estudo de objetos que simplesmente não são matematizáveis e experimentais. Pra essas coisas ainda se faz filosofia.

O fato de a ciência (ou a filosofia) ser um estudo racional do mundo não indica que cientistas (ou filósofos) são algo diferente de ser humanos normais e falhos. Quanto mais importante, quanto mais pertinente for a questão em tratamento, maior é a chance de que alguém se manifeste sem a imparcialidade requerida pela busca da verdade. Ninguém está a salvo do preconceito. Por isso a ciência, em matérias mais elevadas, demora tanto pra chegar a algum lugar. Mas, quando chega, pensamos por que não chegamos lá antes. Esse é um problema real, embora cada vez menos frequente, já que as exigências da comunidade científica vêm barrando muita gente que quer usar a ciência só pra justificar as próprias crenças ou pra posar de guru. Muita gente, mas não todos. Assim, a ciência progride. Todas as conclusões científicas são de caráter provisório, porém: é verdade até ser provado errado. Se algo é provado errado, deve ser abandonado sem remorsos. Isso permite que a ciência avance se depurando dos erros. Querer que a ciência não mude é querer fazer dela um catecismo e objeto de crença.

Isso serve de aviso à filosofia que deseja complementar suas reflexões usando a ciência. Lembre que nem todos os cientistas são confiáveis. O cientista preconceituoso ou dogmático é um obscurantista infiltrado. Tal como um ocultista, ele não busca a verdade, mas a validação de suas crenças usando a ciência como uma aparência, o que o leva a escolher a dedo quais conclusões e quais processos ele usará em sua busca pela “verdade”. Uma ciência como essa é inútil no combate ao obscurantismo que está fora da ciência e da filosofia, que são as crenças erradas, mas populares. Tais crenças existem ainda hoje (um exemplo clássico é o terraplanismo), porque a ciência e também a filosofia, embora sejam conhecimentos racionais, são difíceis de compreender. O leigo, que muitas vezes não dispõe da acuidade filosófica e dos aparatos científicos, preferirá acreditar naquilo que ele pode ver, mesmo que esteja errado (no caso do terraplanismo, ele permanecerá cético enquanto não ver a curvatura da Terra). Por causa disso, mentiras simples são mais atraentes às massas do que verdades complexas. Uma ciência de verdade, uma filosofia de verdade, precisa se comprometer com a verdade e combater o obscurantismo, mas ela só conseguirá sucesso na sua tarefa de combate ao obscurantismo descendo ao nível dos leigos. Enquanto a razão se mostrar complexa, as pessoas preferirão crenças que exijam menos esforço pra serem absorvidas.

Amor, ódio, sexualidade e sua relação.

A psicanálise pode ser entendida como a ciência do inconsciente. Como tal, a psicanálise é de grande ajuda na complementação das ciências humanas (história, filosofia da religião, antropologia, entre outras). Na verdade, métodos típicos da psicanálise, como a associação livre, podem até ser usados com finalidade artítstica. Isso mostra que a psicanálise não é só sobre sexo. Ao contrário da crença popular, a psicanálise não usa a sexualidade pra explicar tudo. Nem tudo é culpa de repressão sexual. E, mesmo que fosse, a psicanálise não sustenta que o melhor a fazer é transar com todo o mundo vinte e quatro horas por dia. Isso não seria cura pra nada. Ela usa a libido pra explicar um monte de coisas (embora não tudo), mas a libido deve ser entendida como Albert Moll a define: a energia dinâmica que alimenta os atos ou desejos motivados por sexualidade ou amor. Qualquer tipo de amor. Não precisa ser o amor sexual, embora o amor sexual seja alimentado pela libido.

Então, quando se fala de libido, se está deixando implícito amor, não necessariamente tesão. Pode ser amor pelos pais, pelos filhos, pode ser a amizade, a devoção (a Deus ou a uma ideia)… porque existem vários tipos de amor, alguns simples e outros compostos. Por exemplo: o amor romântico pode ser ulteriormente dividido em amor espiritual e amor carnal. Você não necessariamente transa com quem ama, e pode transar com gente que você não ama “de verdade” (isto é, pessoas cujo o corpo é atraente, mas nada mais é), mas geralmente os dois estão presentes no romance, já que quem ama geralmente ama a pessoa como um todo, não somente seu corpo ou sua personalidade. Um tipo de amor pode se transformar em outro, como sabemos: a amizade pode virar paixão e a paixão pode virar amizade No entanto, quanto mais tempo você passa amando uma pessoa sem fazer sexo com ela, menor é a chance de uma relação dessas acontecer, então uma amizade de longa data que vira paixão pode ser bem difícil de lidar… Na verdade, existem tantas formas de amor e, consequentemente, tantas direções pra onde a libido possa ir, que frequentemente nos perguntamos se o que sentimos é ou não amor. É que amor é um termo tão abrangente quanto é o campo de ação da libido, ao ponto de nem sempre sabermos quando estamos realmente amando. Por isso que, muitas vezes, só percebemos o quanto amamos uma pessoa depois que ela desaparece e começamos a sofrer as consequências da falta que aquela pessoa faz. Uma pessoa pode até fazer falta sem que você a tenha conhecido. É o caso da mulher que aborta e depois se arrepende. Você não amava esse filho, mas poderia tê-lo amado se o tivesse conhecido… Se você ama os filhos, a vontade de abraçá-los e beijá-los é uma forma de libido. Infelizmente, o artigo 217-A do Código Penal diz que qualquer ato libidinoso feito a uma criança ou adolescente que não tenha ainda catorze anos é estupro. Entende por que pais são colocados na cadeia por beijar seus filhos?

Toda libido pressupõe amor, mesmo que não seja amor sexual. Então, o fato de a psicanálise se reportar com frequência à libido não quer dizer que a psicanálise se reporta ao sexo o tempo todo. E mesmo que se reportasse, e daí? Sexo não é mortificante, não é humilhante, não é algo de que se deva ter vergonha. Aliás, se você sente vergonha de falar sobre sexo ou alguma de suas manifestações específicas, você trabalha pra criação de um tabu, isto é, de um tema que não se pode discutir. Isso é o primeiro passo pra transformar o puritanismo numa política pública. Não precisamos de mais tabus. Pelo contrário: precisamos eliminar os tabus que já existem. E o melhor meio de se eliminar um tabu é pela sua franca discussão. Por isso, não se deve censurar qualquer discussão sobre sexo. É isso que querem os puritanos, mais presentes no povo do que no governo: envergonhar você, pra que você cale a boca e eles sigam sua agenda. Por isso pessoas geniais acabam praticando autocensura, escrevendo o que agrada, não o que pensam. Mas, como qualquer outra ciência, a psicologia não pode se dar ao luxo de negligenciar o sexo se isso for relevante. A ciência é amoral e deve continuar amoral, mesmo quando conclui, com acerto, algo que ameace a moral. A psicanálise lida com instintos e os instintos libidinais são os mais facilmente detectáveis, dentre os instintos relevantes. Existem as pulsões de amor, mas existem também as de ódio, de agressividade. Observe, porém, que um mesmo objeto pode ser visado por ambos os intintos. Veja o caso do sadismo: você ama causar dor. Você só pode causar dor e sofrimento a quem você odeia, mas o sádico geralmente sente atração por aquele a quem faz sofrer, mesmo que só ao seu corpo. Você deriva prazer ao causar dor ao sujeito (manifestação de ódio), mas ao sujeito por quem você já sente alguma atração (manifestação de amor). Se você, leitor, passa por isso e precisa conversar com alguém, eu sou todo ouvidos, embora não seja médico. Tem um formulário de contato no canto superior direito da página.

Voltando ao assunto, o sadismo internalizado, o masoquismo, também opera de forma similar: você ama se causar dor. Donde decorre que amor (atração) e ódio (agressão) são sentimentos opostos, mas de forma alguma mutuamente excludentes. É possível amar e odiar a mesma coisa, ao mesmo tempo. Por que isso acontece? Não sabemos. Existem muitas coisas sobre nossas motivações que não podemos explicar, seja porque escondemos tais motivações, seja porque realmente não sabemos as motivações. Nem sempre podemos explicar por que fazemos o que fazermos, por que sentimos o que sentimos.

O efeito do grupo sobre o indivíduo.

A psicologia social e a psicologia individual raramente estão separadas. Isso acontece porque muitos de nossos processos mentais são estimulados por pessoas próximas ou dirigidos a elas. Isso é verdade para vários instintos, como o instinto agressivo e o instinto sexual, que geralmente visam pessoas com as quais lidamos diariamente. Assim, abordar a psique de uma pessoa implica examinar também seu ambiente, inclusive seu ambiente social. Um indivíduo pode alterar seu grupo e um grupo pode alterar um indivíduo. Assim, a psicologia tem um aspecto individual (você estuda a mente de um indivíduo particular, como Antônio, Cícero ou Guilherme) e um aspecto coletivo (você estuda a mente de um indivíduo como parte de um grupo, como trabalhador, brasileiro ou homem). Faz parte do estudo da mente social o efeito que um grupo tem sobre um indivíduo. Entenda: temos um instinto para a socialização, que nos leva a procurar pessoas com quem temos algo em comum (como instintos em comum), a fim de nos conectarmos a essas pessoas.

Um grupo é formado quando pessoas, por mais diferentes que sejam, têm certas coisas cruciais em comum, como objetivos e comportamentos, e tais pessoas influenciam uma a outra a ponto de estimular comportamentos comuns a todos e peculiares ao grupo. Tanto participamos de grupos com os quais temos afinidade quanto de grupos dos quais não gostamos realmente de participar. Estar em um grupo com o qual você não se identifica (grupos artificiais, dos quais você é forçado a participar) requererá que você dissimule, o que pode causar timidez ou ansiedade. Tais grupos precisam de uma força externo pra mantê-los existindo, já que seus participantes provavelmente prefeririam deixá-lo, se pudessem. Já quando você está em um grupo com o qual você realmente se identifica, três coisas podem acontecer. Essas três coisas são um objeto de estudo recorrente da psicologia social. Essas coisas não são inerentemente ruins, mas podem se tornar ruins dependendo da índole do grupo ao qual se pertence.

A primeira coisa é o empoderamento. Quanto maior o grupo, menor é a chance de um de seus membros em particular ser punido pelos atos do grupo. Tome, por exemplo, o arrastão na praia. Quanto maior o grupo de ladrões que participa do arrastão, menor é a chance de um participante específico ser preso. Quando você está em menor número ou sozinho e lida com a sociedade, você tem que se controlar pra evitar que seus impulsos lhe causem problemas. Mas, quando você está num grupo em que todos partilham dos mesmos instintos reprimidos que você, acontecerá que você perderá a vergonha que cerca tais instintos. Você se sentirá seguro, aceito. Se o grupo for mais intelectual, temas considerados “tabus” deixam de ser e ideias explosivas são livremente discutidas. Se o grupo for criminoso, o medo da lei é reduzido. Assim, participar de um grupo de pessoas que pensam igual a você reduz a repressão que você faz sobre si mesmo, sobre o que você pensa, sobre suas ações e suas palavras. Você se mostra como realmente é. Na verdade, como muitas neuroses têm origem em algum tipo de repressão, pode até ser que certas neuroses se amenizem quando o sujeito está num grupo que o aceita. Como algumas pessoas com problemas mentais parecem agir como primitivos, o alívio proporcionado pela participação em um grupo pode até ajudar a pessoa a se “civilizar”. Isso pode surpreender o próprio sujeito, o qual, ao deixar a reunião e ir pra casa, pensa coisas como “nem pareceia eu”. Mas era você. É que, longe do grupo, frágil, em menor número, você aprende a fingir ser outra coisa pra não apanhar por suas convicções. Num grupo de pessoas como você, porém, a história é outra: pela aceitação, você deixa de ouvir as críticas que você mesmo se faz, o que te deixa muito mais feliz. Em um lugar onde você tem que policiar seu comportamento com mais intensidade, você acaba ficando triste. Isso porque você tem que se reprimir muito. Se essa crítica é feita por você mesmo, não pela sociedade, isto é, se você tem padrões elevados de comportamento que você impôs a si mesmo, você ficará triste toda vez que você falhar em se adequar a tais padrões. Num grupo ou sociedade que não prioriza esse tipo de continência, você não precisa de nada disso. E estar livre de tais coibições dá prazer. O problema é que, quando você deixa o grupo, pode ser que você sinta vergonha do seu comportamento no grupo. É como o álcool: você se sente bem quando está bêbado, mas sente vergonha do seu comportamento depois que você volta à sobriedade… apenas pra encher a cara de novo na noite seguinte.

A segunda coisa é o contágio. Quando nos conectamos com pessoas que têm coisas em comum conosco, o nosso comportamento influencia o comportamento do outro e vice-versa, porque o instinto de socialização é o que permite a sugestão. Se você ouvisse uma ideia explosiva de um estranho, você teria maior resistência a essa ideia do que se você a ouvisse de um amigo. Num grupo em que todos têm coisas em comum, é mais fácil que as ideias menos populares que cada membro tem sejam discutidas francamente, aumentando o potencial influenciador de uma ideia. Com cada membro influenciando o outro, o grupo vai formando um sistema mais ou menos coerente de crenças e comportamentos. Além disso, quando você leva outro a pensar ou agir como você, sua própria atitude é reforçada. Isso não quer dizer que todas as crenças serão aceitas por todos, mas, em tal ambiente, a chance disso acontecer é real. Quem tem ideias dissidentes não necessariamente é excluído, já que, visando fins em comum, é preciso tolerar as diferenças, o que é uma manifestação de amor ao próximo, típica dos grupos com laços afetivos mais fortes entre os membros. Afinal, se fôssemos excluir uma pessoa da nossa vida sempre que entrássemos em conflito com ela, nenhum casamento, nenhuma amizade, nenhuma família subsistiria. A menos que estejamos lidando com narcisistas, que pensam que agir ou pensar de forma diferente é uma crítica pessoal ao seu próprio estilo de vida, cada membro do grupo terá que tolerar as diferenças do outro pelo bem do objetivo que eles têm em comum. Pode ser apenas que ele entenda que aquele grupo não é lugar pra debater certas coisas. Isso é normal: pertencer a um grupo sempre implica a perde de alguma liberdade, mesmo que você ganhe outras liberdades. Ele pode até arranjar um outro grupo pra discutir isso. Afinal, cada pessoa pertence a vários grupos: nação, sexo, sindicato, religião… Se ele não fizer isso, se ele tentar impor seu modo de ser aos outros membros do grupo, ele será expelido do grupo ou o grupo deixará de existir. Isso é uma manifestação de amor próprio em excesso (você ama tanto a si mesmo que quer que todos sejam como você). Esse tipo de mentalidade está na raíz dos preconceitos nacionais. Como o amor próprio só pode ser limitado pelo amor a outros, pode muito bem ser que um sujeito desses seja incapaz de amar os outros membros do grupo e só veja o grupo como um recurso a ser explorado. Uma pessoa dessas merece o rótulo de “antissocial” ou até “neurótica” deve ser expulsa do grupo pra que o grupo subsista. Assim, graças ao contágio de ideias, os membros de um grupo têm seu comportamento cada vez mais homogeneizado.

A terceira coisa acontece com aqueles que se sentem realmente e completamente aceitos por aquele grupo. Eles correm risco de ser tão absorvidos pelo grupo que nele se dissolvem. Você perdeu sua personalidade. Você passa a viver pelo grupo e em função dele. A causa do grupo é a sua causa, e as ideias do grupo são ideias às quais você se dedica incondicionalmente. Você se tornou o grupo. Outras pessoas podem até nem te reconhecer mais. É como se você se tornasse outra pessoa. Em casos como esse, outras pessoas que também se dissolveram nesse grupo alimentam o comportamento de assimilação. Em tal condição, certezas nascem às pressas e os sentimentos são exagerados: você passa a odiar quem discorda de seu grupo e o diálogo civil torna-se impossível com quem está fora. É o cenário perfeito pra criar fanáticos, pra bem ou pra mal. Daí pra glorificação da violência é um pulo, porque, justamente por consequência do empoderamento, a pessoa toma atitudes que seriam proibidas pelo instinto de autopreservação se ela estivesse sozinha. Ela está no limite e a sensação de invencibilidade a leva a fazer coisas irresponsáveis. De um grupo desses você pode esperar palavras de ordem extremas, tipo “temos que acabar com a paternidade, pra que só mães existam”, embora não com essas palavras. Observe que, se for por uma boa causa, tal dissolução será benéfica, porque a pessoa estará na posse de todo seu potencial.

Eu gosto de chamar essa dissolução de “bestificação”, porque o sujeito acaba perdendo também seu senso crítico e a inteligência nessa sopa ideológica. Pode ser que uma pessoa que, sozinha, é culta, se torne um animal quando junto das outras pessoas que compõem seu círculo.

A bestificação torna o falso tão plausível quanto o verdadeiro. Por quê? Porque o grupo tem crenças, instintos a ser satisfeitos e a sensação de invencibilidade (quanto maior ele for). Essas pessoas não estão interessadas na verdade. Os bestificados estão interessados em satisfação, não em evidência. Pelo menos, não na evidência que discorde deles. Por causa disso, um grupo é influenciado não pela razão, mas pelo discurso dirigido aos instintos e anseios (que pode ser também dirigente desses instintos e anseios). Isso favorece o aparecimento de chefes ex officio, gente que instrumentaliza o grupo por fora. Um grupo organizado munido de engenharia social e uma fala bonita pode, lentamente, dirigir as ações de um grupo bestificado, seja provocando-o (por vezes com consequências catastróficas, uma vez que o grupo bestificado não conhece limites) ou acalmando-o e reduzindo-o à apatia, para bem ou para mal. A verdade não será usada nesse processo, mas, sim, os instintos do grupo, que são explorados pelo discurso.

Essas três coisas mostram como uma pessoa pode agir de dois jeitos diferentes, dependendo de ela estar ou não entre seus companheiros. Não é interessante como uma coisa tão provisória como um grupo, que só existe enquanto seus membros estão reunidos, pode ter um impacto tão forte sobre a psique humana a longo prazo?

O grupo organizado.

Os três efeitos do pertencimento ao grupo não são novidade e já foram delineados antes por filósofos, cientistas, políticos e basicamente qualquer pessoa com bom senso e experiência de vida. Mas como mitigar os danos que o grupo pode causar a um indivíduo? Como evitar o fanatismo, a irresponsabilidade e a perda de personalidade? Com organização. Esses efeitos, que eu chamo coletivamente de “bestificação”, são mais típicos de grupos desorganizados, do tipo “multidão enfurecida“. Organizar um grupo é algo feito em cinco passos.

Primeiro, é preciso que o grupo não seja efêmero. Grupos que só são feitos para alcançar objetivos de curto prazo e que se dissolvem quando o objetivo é atingido ou até antes disso, quando todo o mundo perde o gás, são mais facilmente bestificáveis. É preciso então que o grupo tenha meios de se perpetuar, se reunindo com frequência para deliberações, talvez com eleição de novos chefes, seja de maneira democrática ou pela indicação dos chefes anteriores. O segundo passo é a autoconsciência: cada membro do grupo precisa saber qual é a natureza do grupo, como ele é composto, quais suas capacidades e quais seus objetivos. Isso evitará que o grupo saia fazendo coisas irresponsáveis. Afinal, haverá tanto um objetivo claro em mente quanto um plano pra se chegar lá.

O terceiro passo é a associação com outros grupos semelhantes. Ênfase em “semelhantes”, não iguais. Se os grupos forem iguais, podem muito bem se fundir, o que não é uma coisa ruim. Mas, se forem semelhantes, isto é, procurarem o mesmo objetivo, mas por meios diferentes, cada grupo poderá olhar criticamente para si próprio, a fim de se depurar de suas próprias más condutas ou avaliar se alguma de suas estratégias pode ser seguida mais rapidamente ou com menos custos. O quarto passo é a formação de tradições no grupo, lemas, reuniões periódicas, coisas que façam os sujeitos sentir que pertencem. Por último, deve haver atribuição de funções a cada membro segundo suas aptidões, dispondo-os numa estrutura. A menos que o grupo tenha uma estrutura como essa, seja organizado, o que há de pior em cada membro irá aflorar. É preciso que o grupo mantenha seus benefícios e mitigue seus malefícios. Organizando o grupo, ele se torna uma potente arma de ação social, política, intelectual e até violenta, se o grupo tem objetivos malignos. Observe que isso não quer dizer que você só pode operar grandes feitos em grupo: muitos solitários também conseguiram grandes feitos.

Os problemas do amor.

Pode existir algum problema no melhor sentimento que existe? Sim, pode. O pior deles vem do prejuízo ao senso crítico proporcionado por qualquer emoção. Quando amamos demais, fazemos uma ideia errada da pessoa que amamos. Por outro lado, também é possível amar demais uma pessoa quando fazemos uma ideia errada dela (dizem que você se apaixona por uma mulher se você exagera o quão diferente ela é das outras). Então o problema pode aparecer vindo de qualquer dos dois sentidos. Achamos que ela é perfeita, que ela nunca poderia nos decepcionar. Isso é muito grave. Quando você pensa que a pessoa é muito melhor do que ela realmente é, você ficará muito decepcionado ao descobrir os defeitos daquela pessoa. Todo ser humano tem defeitos, alguns até muito profundos, que podem tornar uma relação insuportável com a pessoa errada. Assim, é importante que a pessoa que ama não perca de vista o fato de que seu amado é humano e todo humano é imperfeito. Esteja pronto pra se deparar com os defeitos do amado ou você será surpreendido por eles. Estar preparado reduz a decepção. Se você não fizer isso, há outro problema que daí pode derivar: a exploração. Quando você ama uma pessoa e começa a vê-la como perfeita, você está disposto a se sacrificar por aquela pessoa. Se a pessoa percebe isso, ela pode, dependendo de sua índole, tirar vantagem disso. Um favor aqui, um favor ali, quanta inocência! Mesmo depois que o sujeito percebe que está sendo explorado, pode ser que ele tenha medo de confrontar o parceiro com isso, porque isso poderia ferir os sentimentos do amado. Mas pense: se você está sendo explorado, isso não quer dizer que a pessoa não te ama como pessoa, mas apenas como ferramenta? O que você ainda quer com essa pessoa? Ela escravizou você! Nessa situação, o seu amado fica no caminho entre você e seu enriquecimento ou aperfeiçoamento pessoal, a menos que você realmente acredite que está numa condição melhor amando aquela pessoa. O fato de que o amor cega o senso crítico a ponto de permitir a ilusão de que o parceiro é perfeito (ou pelo menos melhor que você), com todas as consequências que daí derivam, mostram que o enamoramento é um tipo discreto de hipnose. Felizmente, a hipnose não funciona com todo o mundo e funciona melhor em quem acredita que o hipnotista é capaz de feitos como esse e numa pessoa cuja atenção está sendo desviada. Então, a primeira coisa que você deve fazer pra evitar que o amor cegue você é se impedir de pensar que seu amado representa algum tipo de autoridade. A segunda é não deixar que a pessoa do amado o distraia das ações desse amado. Não se permita fascinar.

Há um outro problema que só existe onde há amor e tal problema é o ciúme, o qual pode chegar a proporções paranoicas. Só pode sentir ciúme quem ama (mesmo quando ama só como amigo). O ciúme normal é caracterizado pela irracionalidade (total ou parcial, já que não existe emoção ou sentimento totalmente racional), pelo sentimento de rejeição, pela sensação de inferioridade, pelo ódio ao adversário, pelo medo de perder a pessoa amada e pela autocrítica. Em tal estado de espírito, a pessoa pode continuar na esfera do normal ou descender na escala do ciúme doentio, com todos os delírios que daí derivam. Observe, porém, que ideias paranoicas podem existir numa pessoa sem que a pessoa acredite em tais ideias: “geralmente, quando um homem volta tarde pra casa, é porque ele trai… mas não o meu homem.” Então, o fato de uma pessoa ter ideias que são paranoicas não significa que a pessoa acreditará nelas. Por outro lado, uma pessoa pode acreditar em ideias paranoicas sem fundamento. A pessoa só pode ser considerada doente quando vê tais ideais como plausíveis e passa a agir de acordo com elas. Uma coisa são pensamentos, outra coisa são ações. Mais ou menos como o pedófilo, que não pode ser considerado doente enquanto mantém suas vontades pra si, sem ir atrás de crianças ou de pornô infantil.

Não há necessidade de infidelidade pra haver ciúme, basta que haja um excesso de vigilância ou de controle. Qualquer desvio do comportamento “permitido” é visto como início de traição: olhar pra uma mulher de determinada forma, sorrir pra uma comadre, ver pornô… Na verdade, um ciumento pode até tentar ler os pensamentos da pessoa, quando a pessoa está andando “na linha”. Nesse caso, ele encara até mesmo a fidelidade da pessoa com suspeita (“ele não é fiel de verdade, só está escondendo melhor sua traição ou aprendeu a ocultar os sinais que eu observava”). Não dá pra deixar uma pessoa dessas feliz. Se você tá casado com uma pessoa dessas, eu sinto muito mesmo por você. Por causa disso, ao tratar uma pessoa com ciúmes patológicos, tentar refutar as “evidências” coletadas pode não surtir efeito. Seria mais frutífero fazê-la ver essas evidências de outro jeito (“seu homem não vai trair você com toda mulher que ele vê na rua ou com todas a quem ele cumprimenta”). O ciúme é mais forte quando é sentido por uma pessoa que já trai o parceiro ou que sente vontade de traí-lo. A pessoa pensa: “se eu posso traí-lo, o que o impede de me trair?” Isso é grave… Uma pessoa dessas está ciente das tentações que acometem um relacionamento sério, mas ao mesmo tempo assume que seu parceiro tem tão pouca força de vontade como ela própria. Essa pessoa pode acabar formando um comportamento altamente hipócrita: exige uma fidelidade (aliás, uma conformação a regras irrealistas) do parceiro, mas chama a própria traição de “fugidinha”. Só é ruim quando o outro trai, não quando eu traio. Olha que sacanagem. Se o ciumento patológico espera um comportamento perfeito do parceiro, ele será frustrado várias vezes e terá a sensação de que o parceiro não o ama. É como a pessoa que quer ser amada por todos: no momento em que alguém lhe dá menos que amor, ela pensa logo que está sendo perseguida, que ela é odiada, que ela é indesejada… Não é verdade. As coisas não são como você quer, mas isso não quer dizer que você não é amado ou, pelo menos, tolerado.

A homossexualidade.

Homossexualidade é a direção preferencial do impulso sexual para membros do mesmo sexo, podendo ocorrer tanto em homens quanto em mulheres. É isso. Ela não tem nada a ver com maneirismos, tom da voz, trejeitos, tipo físico nem nada disso, embora tais características possam estar presentes. O que define o homossexual é seu desejo sexual, não suas roupas, aparência, voz, gostos ou coisas que tais. Na verdade, nem mesmo a atitude sexual da pessoa é um indicador definitivo da sexualidade dela: existem homossexuais que, por pressão social, não se relacionam com membros do mesmo sexo. Assim, se a pessoa sente desejo pelo mesmo sexo, ela ainda é homossexual mesmo que não se relacione com alguém do mesmo sexo. Novamente, é o desejo pessoal que importa. Dependendo da pessoa, você só vai saber com certeza se ela é ou não homossexual perguntando pra ela, e se ela for honesta com você. Mas, como sentimentos românticos geralmente acompanham os sexuais, talvez você possa perceber que uma pessoa é homossexual pela proximidade que ela tem com um membro do mesmo sexo.

As causas da homossexualidade não estão suficientemente claras: ela é congênita ou adquirida? Embora essa questão seja pertinente pra muitos, ela, na verdade, não tem mesmo importância. Nos preocupamos com a gênese de comportamentos doentios, mas, se a homossexualidade não é doença, por que seria importante se perguntar de onde vem a homossexualidade? Por acaso alguém, ainda hoje, quer “tratá-la”? Mas, se você quer mesmo saber, a opinião científica se inclina mais pra ideia de que ela é congênita. Você não aprende a ser homossexual, mas se descobre um. E alguns descobrem bem cedo. Sinais de homossexualidade podem ser observados ainda na infância ou adolescência. Mas não podemos nos apressar e dizer que o menino que brinca de troca-troca crescerá interessado em homens: experiências homossexuais na infância ou adolescência não necessariamente indicam que a pessoa será homossexual na idade adulta. Isso acontece porque, embora tais experiências tenham ocorrido, o menino, ao crescer, pode perceber que mulheres são mais interessantes e lhe dão um tipo mais intenso de prazer, que não foi derivado daquela brincadeirinha.

É possível converter um homossexual à heterossexualidade? Isso é tão possível quanto converter um heterossexual à homossexualidade. Imagine você, homem hétero, tentando deixar de gostar de mulher. Você acha que existe força na Terra capaz de fazer isso? Além disso, mesmo que fosse possível fazer um homossexual deixar de gostar do próprio sexo, não haveria garantia de que ele passaria a gostar do sexo oposto (é como tentar fazer um hétero virar bi). Analogamente, o homossexual é assim. Muitas vezes o homossexual não é nem sequer capaz de imaginar como as coisas poderiam ser diferentes. Aliás, a homossexualidade, a menos que entre em conflito com valores sociais, não adoece a pessoa. Pra que uma pessoa vai procurar tratamento pra uma condição que não lhe faz mal? Segue-se portanto que o homossexual que procura tratamento normalmente não está fazendo isso por si mesmo, mas porque outra pessoa está o pressionando a procurar tal tratamento. Só que isso não funciona muito bem, porque a terapia, particularmente a psicanálise, funciona melhor em pessoas que procuram o médico totalmente por conta própria. Como método, existem situações em que a psicanálise funciona melhor e situações onde ela é inútil. Por exemplo: suponhamos que os pais estejam preocupados com a homossexualidade do filho e o mandam pra terapia pra curá-lo. Numa terapia como essa, é o médico e o paciente que trabalham juntos e, preferivelmente, sozinhos. Se o filho está ali à força, não porque reconhece que tem um problema, como você vai tratá-lo, sendo que você deve zelar pelo bem-estar dele sem manipulá-lo? Como tratar alguém que não se considera doente, especialmente quando nem o médico, nem os pais, nem ninguém são capazes de apontar qualquer consequência negativa daquele comportamento e se tal comportamento não torna a pessoa “má”? Um tratamento desses fará mais mal do que bem. Por causa disso, a psicanálise não deve ser usada em tratamentos do tipo “cura gay”, porque não é lógico que exista uma doença que não faça mal. Se não faz mal, não é doença. Na verdade, pode até ser que ser homossexual seja uma vantagem. O homossexual só se interessa por membros do mesmo sexo que também sejam homossexuais ou, pelo menos, bissexuais. Isso quer dizer que eles não entram em conflito com heterossexuais (que são a maioria) por razões de ciúme ou competição por parceiros do sexo oposto. Isso torna um homossexual mais sociável que um hétero. Também nada impede também que o homossexual seja um membro ativo da sociedade e com ela contribua. Lembre da Grécia antiga, onde a homossexualidade inclusive tinha um papel pedagógico. Observe que isso não quer dizer que nenhum médico psicanalista jamais tentará esse tipo de procedimento. Existem médicos sem ética. Por isso, a psicanálise, especialmente se ela vir a se tornar popular e acessível até mesmo aos pobres, só deve ser feita por quem tem treinamento, inclusive ético, específico para o exercício psicanalítico. 

Além disso, no caso de bissexualidade latente, pode ser que a pessoa, no futuro, venha a se interessar por membros do sexo oposto, mesmo sem deixar de gostar de membros do mesmo sexo. Quem sabe? É como aquele ditado que diz “o homem hétero só o é porque nunca conheceu um homem que lhe interessasse.” Se assim for, é mais seguro assumir que todo o mundo é potencialmente bissexual e esquecer o assunto. Pense: no reino animal, nenhum espécime é totalmente homossexual ou heterossexual. Por que seria diferente com o homem? Então, mesmo que o homossexual seja preferencialmente atraído por membros do mesmo sexo, isso não signfica que ele não venha a encontrar um membro interessante do sexo oposto algum dia (o que não significa que ele ficará “curado” de sua atração homossexual, mas que ele se descobriu bissexual).

Você nunca deve tentar tratar quem não está doente. Infelizmente, muitos pais que pensam que o filho saudável é aquele que não dá trabalho mandam seus filhos perfeitamente normais pra terapia. Já pensou se o médico comete um erro e diagnostica o menino com um problema que ele na verdade não tem? Ele vai ter que tomar remédios, às vezes remédios caros, sem necessidade! Se você pensa que seu filho tem que ser perfeito pra ser normal, por favor não tenha filhos. Pai tem mesmo que sofrer a personalidade do filho e corrigi-lo com educação. A psicoterapia é pra pessoas que representam um risco a si mesmas ou aos outros, pra aqueles que se sentem doentes ou pra aqueles que têm problemas que impedem seu avanço profissional ou escolar. Então, se o homossexual procura tratamento porque outros o pressionam a isso (geralmente a pressão vem dos pais, que temem a vergonha de ter um filho homossexual), segue-se que a terapia de conversão é desnecessária em sociedades que aceitam a homossexualidade. Numa sociedade liberal, o homossexual só está doente se ele se acredita doente. Alguém pode argumentar: e quanto aos casos de conversão bem-sucedida? Boa parte desses casos envolve pessoas que se relacionavam com pessoas do mesmo sexo por falta de opção, mas que, na verdade prefeririam alguém do sexo oposto. Se você se relaciona com alguém do mesmo sexo não por um desejo preferencial, mas porque seu acesso à pessoas do sexo oposto está bloqueado, você não é homossexual. É como a pessoa que se relaciona com crianças não por preferência, mas por falta de parceiros adultos: não é pedófilo, só um criminoso comum. Isso torna maior parte desses casos de conversão (talvez até todos os casos) inválidos.

A sexualidade infantil.

Todo ser humano é capaz de sentir, desejar e procurar prazer desde que nasce. Aliás, às vezes até antes de nascer, ainda no útero. Conforme a criança cresce, ela vai percebendo que seu corpo pode causar sensações gostosas quando é tocado em certas áreas. Embora muitos pensem nas zonas erógenas clássicas (boca, ânus e genitais), é importante lembrar que a natureza plástica da sexualidade humana pode tornar virtualmente qualquer parte do corpo numa fonte de prazer (seios, pescoço, pés, nádegas, entre outros). Mas então, a criança vai crescendo e vai percebendo isso. Ela pode então se voltar ao corpo dos coleguinhas e dar uma bela dor de cabeça aos seus pais, que se perguntam se seu filho é normal ou precisa ser tratado. Bom, ele é normal. Não existem crianças incapazes de derivar prazer das próprias zonas erógenas. Isso não quer dizer que crianças fazem sexo, mas elas provavelmente terão brincadeiras superficiais entre si, como jogos de mostrar (facilitados pelo uso do telefone celular) ou jogos legalmente questionáveis de verdade ou desafio. Na verdade, como a criança tem menos pudores, tais jogos podem ser até perversos. Por causa de tais jogos e também prestando atenção na natureza, nas aulas de educação sexual e nas conversas que adultos têm com outros adultos, a criança vai adquirindo conhecimento sexual. O conhecimento sexual da criança pode impressionar os pais, que não sabem de onde o gurizinho aprendeu certas coisas.

Antigamente, tal conhecimento era realmente razão de surpresa, já que a informação não vinha facilmente até você. A criança tinha que caçá-la e aproveitar cada oportunidade de saciar sua curiosidade. Por exemplo: ouvindo as conversas dos adultos. Um erro grave de muitos pais é pensar que a criança que brinca na mesma sala em que adultos conversam nunca presta atenção no que os adultos estão falando. Outros autores apontaram isso, que a criança pode sem problemas dividir sua atenção entre a fofoca transmitida entre adultos e o carrinho com o qual está brincando. Aqueles, porém, eram outros tempos, em que a informação sexual, embora não fosse escassa, era ocultada. Já hoje, basta que o menino saiba dizer okay, Google. Se crianças inocentes já eram ocorrência anormal antes, agora não deve mais existir nenhuma. Graças a essa informação (obtida diretamente ou clandestinamente), a criança vai aprendendo os padrões morais da sociedade capitalista ocidental cristã e encontra um monte de novas distrações (estudos, esportes, novas amizades, entre outros), entrando num período de latência, que não necessariamente implica o fim do seu desejo por prazer, mas uma internalização dos valores morais vigentes: ela entende que certas coisas não devem ser feitas ou, pelo menos, não devem vir ao conhecimento de seus pais. Isso quer dizer que, ao contrário da crença popular, a vida sexual não começa na puberdade. O que acontece na puberdade é que o desejo sexual chega à sua maturidade completa: o adolescente é tão desejante quanto um adulto. Por isso que boa parte dos casos de gravidez adolescente ocorre em casais onde ambos são adolescentes. Dois adolescentes podem, enquanto têm suas primeiras experiências, cometer o maior erro de suas vidas, tendo um filho antes de concluir sequer o ensino médio. Isso torna a educação sexual necessária. Isso é também agravado pelo fato de a puberdade, hoje em dia, não esperar mais o fim da infância pra ocorrer. A puberdade vem chegando mais e mais cedo…

Outros temas: os sonhos; ansiedade, medo e susto; instinto de socialização; o chefe do grupo; a identificação; o amor como meio de mudança social.

Os sonhos podem significar várias coisas, mas geralmente representam a satisfação de um desejo ou o aviso de uma ansiedade. Os primeiros preparativos para o sonho começam ainda quando estamos acordados, quando entramos em contato com situações cotidianas que deixam sua impressão em nós. Por exemplo: lembro de quando eu sonhei que um cara bem forte e malvado jogava vendedores ambulantes pela janela do ônibus em movimento. Eu ri até acordar. Isso foi na época em que eu detestava ambulantes que vendiam em ônibus (ocorrência cotidiana que deixa impressão). Mas hoje sei que eles, assim como eu, são pessoas sem muitas opções de trabalho. Então, hoje eu tenho certa simpatia por eles. Não obstante, o sonho que eu tive foi a realização de um desejo. Outro exemplo clássico é você dormir depois de tomar um porre e sonhar que tá bebendo água, ou o menino que dorme de bexiga bem cheia e sonha que tá fazendo xixi, o que pode ter consequências catastróficas. Já os sonhos de ansiedade são aqueles que te mostram o que você teme, coisas negativas que você antecipa. Na verdade, se você dorme pensando em um problema pertinente, pode até ser que você sonhe com a solução. Existem também sonhos que mostram o sonhador sendo punido por algo de que ele sente culpa ou vergonha e também sonhos que revivem eventos traumáticos, coisas nas quais não queremos pensar quando acordados. Sonhos traumáticos, diferentemente da maioria, nada tem a ver com satisfação de desejos. Isso torna os sonhos a ferramenta mais útil na exploração da mente de uma pessoa, porque eles revelam coisas ocultas sobre nossa vida mental. Observe, porém, que nossos sonhos não usam somente coisas internas (desejos, ansiedade, entre outros) como matéria; um som percebido na rua, enquanto dormimos, também pode interferir no sonho, bem como a sensação de calor ou frio e até mesmo cheiros.

Há uma diferença entre esses três sentimentos. Na língua portuguesa, a ansiedade pode ter um significado positivo: você espera algo bom que vai acontecer. Mas em outros idiomas, como inglês, essa palavra tem sempre conotação negativa, a de uma apreensão vaga de que algo ruim, conhecido ou desconhecido, está em vias de acontecer. “Ansiedade” é expectativa. Algo vai acontecer em breve. Já o medo é a sensação de algo presente e definido é perigoso. Dizer que você tem medo de aranhas significa dizer que, se houvesse uma aranha por perto e você a percebesse, você sentiria medo, isto é, sentiria que a aranha é perigosa e que, por isso, você deve se afastar dela ou matá-la. “Susto” é o aumento súbito de tensão sentida quando algo presumivelmente perigoso pega você de surpresa.

Temos um instinto de socialização, uma pulsão que nos leva a buscar pessoas com as quais possamos nos conectar. Não precisa ser uma amante, basta ser um amigo. Esse instinto é inconsciente: você não precisa perceber que está sozinho pra se socializar, embora estar sozinho possa causar medo ao solitário. Observe que o instinto de socialização não é mais forte dependendo do número desejado de pessoas: uma pessoa pode desejar ter somente uma família, em vez de dezenas de amigos. Não é o número que é importante. Além disso, o instinto de socialização não elimina a tendência à competição e nem o ciúme. O instinto de socialização é a fonte dos sentimentos de vergonha e dever. Quando fazemos algo que prejudica nosso pertencimento ao grupo, porque outros membros do grupo não veriam nossa ação com bons olhos, sentimos vergonha. Por outro lado, como valorizamos os grupos ao qual pertencemos, queremos que eles se perpetuem, o que desenvolve o senso do dever: eu tenho que cuidar dos meus conterrâneos pra que o grupo permaneça unido. Assim, a pessoa que tem sífilis, por exemplo, e nenhum meio de evitar que sua doença contamine outros (talvez o ministério da mulher, família e direitos humanos tenha proibido a entrada de camisinhas no país), se forçará à castidade por amor de seus conterrâneos. Mas, como já foi dito, pertencer a um grupo não elimina sentimentos ruins e competitivos como a inveja. Então, pode ser que essa mesma pessoa, com inveja da saúde dos outros, esconda sua doença a fim de levar consigo pro túmulo tantos quanto ele puder. A tendência à competição é especialmente negativa, pois ela pode colocar o grupo contra si mesmo. Então, é preciso que o líder do grupo trate isonomicamente todos os outros, para que nenhum dos integrantes do grupo seja mais ou menos que os outros integrantes em nenhuma circunstância. Assim, se ninguém pode ser privilegiado, ninguém tentará procurar privilégio. Isso mantém o grupo livre de disputas internas.

Existem grupos com chefe e grupos sem chefe. Num grupo com líderes, mesmo que o líder seja invisível (como Cristo), há dois tipos de laço afetivo: o laço com o líder, que é mais importante, e o laço mútuo entre os membros. O chefe é aquele que é visto pelos membros como o chefe, isto é, aquele cujas ordens ou sugestões são acatadas, mesmo que ele não seja o chefe “no papel”, oficialmente. Quando estamos em sociedade, tal pessoa geralmente é aquela que tem prestígio. Exemplo: cientistas, por uma questão de bom senso. Você não questiona tudo o que a ciência diz, porque você sabe que a ciência é segura. Então, você só duvida dela se tiver razões pra duvidar. Isso faz com que pessoas que trabalham com a ciência tenham “prestígio”, isto é, sejam vistas como mais aptas para comandar esforços que tenham a ver com sua área. Observe que isso só vale pra quem tem menos prestígio: quem tem menos prestígio tem maior tendência a acreditar, sem reservas, em quem tem mais pretígio. Já se o meu conterrâneo tem tanto prestígio quanto eu, não tenho razões pra considerar sem reservas o que ele diz. O prestígio é mantido pelo sucesso e enfraquece a cada fracasso, se originando da tendência humana a acreditar em um líder, em vez de raciocionar, na busca por um objetivo qualquer. Veja que um grupo pode também ser liderado não por uma pessoa, mas por uma ideia, caso no qual os integrantes do grupo apenas deliberam qual é a melhor forma de colocar tal ideia em prática. Se a ideia for simples o bastante, nem precisará haver deliberação. No entanto, também ideias só podem ser seguidas se tais ideias tiverem prestígio. Se um líder perde seu prestígio ou deixa o grupo, temos um problema grave… Uma pessoa ou ideia que o grupo elege como seu centro desapareceu. Isso abala a autoconfiança do grupo. Nesse ambiente, pode ser que alguns sujeitos no grupo sintam que o grupo não é mais seguro. Seu medo contagia outros membros e a sensação de empoderamento é reduzida, porque a desconfiança que os membros põem no grupo prejudica os laços emocionais que um tem com o outro. Se o grupo não é mais seguro, eu quererei deixá-lo; se não estou me sentindo mais tão forte nesse grupo, sentirei medo de enfrentar os oponentes do grupo. Passa a ser cada um por si, terreno fértil pro florescimento do pânico. O grupo acabou. Imagine o seguinte cenário: a arqueologia um dia prova, definitivamente, que Jesus não ressuscitou no terceiro dia após sua crucificação. O que iria acontecer com os cristãos, que têm Cristo como seu líder? Nesse sentido, pessoas que se reúnem ao redor de ideais, não de pessoas específicas, são mais longevos. Alguém pode perguntar se seria então mais longevo um grupo sem líder, seja tal líder uma pessoa ou um ideal. Não seria, porque não haveria organização. Grupos sem um líder geralmente são feitos na hora e somem tão rápido quanto são feitos. É o caso da multidão enfurecida, que se forma pra linchar um cara e se dispersa quando o cara morre.

Um dos laços afetivos mais primitivos é a identificação. Observe um menininho, já que a identificação é mais comum no sexo masculino. Ele provavelmente tem modelos de comportamento, pessoas que ele admira, pessoas que ele gostaria de ser. A identificação é o processo pelo qual o menino ou o homem adulto escolhe alguém em quem se espelhar. “Poxa, eu queria ser como o Dwayne Johnson“, pensa o cara que vai pra academia. Isso não é algo ruim. O homem, quando deseja aperfeiçoamento, vê a busca por modelos como algo perfeitamente válido. A pessoa que valoriza a força, irá procurar alguém forte como ele gostaria de ser e fazer o que deu certo pra aquela pessoa. O mesmo ocorre com a pessoa que deseja destreza, inteligência, vitalidade… ela procurará quem tem esses atributos em níveis elevados e aprender com esses sujeitos. É uma forma simples e objetiva de se aperfeiçoar. Afinal, você só precisa repetir o que deu certo com outro. O seu desejo é ser como aquela pessoa. A identificação se torna mais plena quanto mais próximo você está do seu modelo. Claro que isso tem um lado negativo. Quando uma pessoa muito parecida com você adoece, pode ser que você pense “se ele adoeceu, isso não quer dizer que eu posso adoecer também, já que somos parecidos?” Isso é o primeiro passo pra acontecer histerias coletivas, que é quando, por razões psicológicas, várias pessoas que frequentam o mesmo lugar sentem as mesmas moléstias. Isso pode ser bem assustador…

Observe que formamos grupos com pessoas que têm algo a ver conosco. Por causa disso, grupos formados espontaneamente terão mais membros homens ou mulheres, em vez de representações iguais. Pode até ser que um grupo tenha somente membros de um só sexo. Como sabemos, por muito tempo, os homens dominaram as mulheres no ocidente. Por que a situação foi invertida? Pense: se todos os homens fossem homossexuais e só se relacionassem com mulheres para reprodução, por ventura um congresso, formado somente de homens, teria dado às mulheres direito de votar? Antes da revolução feminista, homens dominavam a política. Por que os homens, que estão por cima, permitiriam que mulheres ascendessem de condição? É que o homem ama a mulher. É mais fácil você ouvir aqueles que você ama, porque quem ama quer deixar o amado em condição cada vez melhor. Se o homem não amasse a mulher, a estaria mantendo subjugada até hoje. O mesmo é válido para outros grupos marginalizados. Conceder benefícios a esses grupos só foi possível porque foi possível estimular os grupos dominantes a amá-los, pelo menos o bastante para considerá-los humanos. Se você é parte de algum grupo marginalizado, aí está seu plano. Se você se faz odiado, será combatido. Segue-se, portanto, que uma sociedade isonômica requer que amemos uns aos outros tal como amamos a nós mesmos, nem mais e nem menos. Esse esforço deve ser mútuo. Se eu tenho que amar você, pelo menos me ajude a fazer isso não sendo um filho duma égua. E lembre-se que, caso você traia os dominantes, estes terão o direito de trair você de volta.

Recomendações.

A ideia freudiana do prazer como sensação que acompanha a liberação de tensão nos permite fazer uma ponte entre o epicurismo e o estoicismo. Ambas as escolas filosóficas afirmam que é possível alcançar a felicidade. No epicurismo, a felicidade pode ser obtida pelo prazer calculado: você sempre deve buscar os prazeres naturais e necessários (alimentação, sono, entre outros); só deve buscar os prazeres naturais não necessários (sexo, comer muito, praticar certos esportes, entre outros) se o prazer provido por essas atividades é maior que a dor implícita nas mesmas; nunca deve buscar prazeres artificiais (fama e fortuna), porque a dor implícita no processo de obtenção dessas coisas e em sua manutenção sempre supera o possível benefício que delas poderia advir. Por outro lado, no estoicismo, a felicidade pode ser obtida pela tranquilidade: entenda que o universo é governado por uma razão universal que sempre sabe o que é melhor, então você deve tanto aproveitar o bem que a vida te traz quanto se adaptar ao mal que possa te acometer. Não existiria, portanto, razão pra desespero em nenhuma situação. Observe que o tratamento dado pelo epicurismo ao prazer coincide com o princípio da realidade de Freud: a busca pelo prazer deve ser moderada pelos instintos de autopreservação. É o princípio da realidade que nos diz que existem prazeres que não valem a pena. Por outro lado, quando Freud diz que o aparelho mental acumula tensão e o prazer é a sensação que acompanha a liberação dessa tensão, ele se aproxima de Sêneca. O que queremos é saciedade, tranquilidade… A felicidade, no período helenístico, coincide com “não ter do que reclamar”, ausência de dor. Quando você não tem do que reclamar (sem tensão acumulada no aparelho mental), você é feliz. Como o prazer é uma sensação que sempre segue o alívio da tensão, a qual pode crescer com o desejo, procurar o prazer coincide com buscar traquilidade: o estóico busca a tranquilidade (a qual provoca prazer) e o epicureu busca o prazer (consequência da tranquilidade). Os princípios freudianos de prazer, autopreservação e realidade podem servir pra criar uma ética completa voltada para o prazer e tranquilidade do indivíduo, trazendo a felicidade de volta pro centro da reflexão ética, depois que ela foi chutada de lá com Kant e sua primazia da justiça.

Já no que diz respeito aos grupos, a reflexão de Freud nos ajuda a entender a mentalidade de rebanho que acomete pessoas nas redes sociais, que partem por aí pra “cancelar” alguém. São pessoas, como eu gosto de dizer, bestificadas. Mas é possível criar um grupo tão devastador como essa gente pra operar boas causas organizadamente, sem que seus integrantes fiquem mais idiotas. Para criar tal grupo, é preciso primeiro que o líder do grupo crie um tipo de manifesto ou conjunto de objetivos fundamentais e estratégias pra chegar a tais objetivos e que ele tenha em mente que o grupo precisa se manter bom longo tempo, o que implica também pensar em um método pra determinar o sucessor no cargo de líder. Deixe que esse manifesto atraia pessoas que com ele concordam. Pense também em como organizar reuniões e atividades. Depois que um grupo estiver reunido ao redor dos ideais fundamentais, é preciso que haja uma atmosfera de aceitação entre os participantes: desde que ninguém aja de um jeito que contradiga o manifesto ou ameace o grupo, todo comportamento deve ser tolerado. Assim, a pessoa se sente feliz, aceita e não quererá deixar o grupo. A pessoa pode agir mais como si própria. Uma vez que o grupo está formado, é preciso que cada membro tenha uma função nesse grupo, uma tarefa a desempenhar, com base em suas aptidões. Pense nas estratégias pra alcançar objetivos e deixe que cada membro tome pra si o aspecto da estratégia que ele souber executar melhor. Depois, permita o livre trânsito de ideias, o que tornará o grupo mais homogêneo, facilitando a identificação e o amor mútuo. Tal processo precisa ser guiado, pra que ideias que ameacem o grupo sejam detidas, glorificando as ideias que fazem bem ao grupo e permitindo a proliferação de ideias que sejam neutras, a fim de não criar uma atmosfera repressora. Isso pode ser feito deixando claro aos membros do grupo qual é a natureza da associação que eles fizeram: o que ela é, como ela foi feita, quem são seus membros e pra quê ela serve. Esse tipo de informação ajuda a guiar as ideias na direção construtiva, pois você saberá quais ideias são mais relevantes. As ideias menos relevantes não podem ser alvo de escárnio, nem ser friamente ignoradas, mas também discutidas, desde que tenham alguma relevância mínima. Se você não tem escrúpulos, você não quererá impedir que alguns membros do grupo se tornem fanáticos ou radicais pela causa. Afinal, algumas coisas só vão mesmo pra frente dessa forma. Em seguida, forme uma rede de contatos com grupos semelhantes ao seu pra realizar ações coordenadas. Agora, sim, vá cancelar alguém.

Freud escreveu sobre várias outras coisas, mas a libido e a sexualidade são conceitos centrais, além dos instintos de morte e de autopreservação do ego. Isso nos permite reduzir o pensamento de Freud a conceitos básicos. Todo o resto seria interação entre esses conceitos. Uma vez que cada conceito esteja compreendido, entender o pensamento de Freud não será difícil. Este é um daqueles pensadores cujo estudo pode ser beneficiado por um dicionário específico. O estudante de Freud que dispõe de um “dicionário de psicanálise” não terá muita dificuldade em compreender, avaliar, criticar e aplicar o pensamento de Freud.

Publicado por Yure

Quando eu me formei, minha turma teve que fazer um juramento coletivo. Como minha religião não me permite jurar nem prometer, eu só mexi os lábios, mas resolvi viver com os objetivos do juramento em mente de qualquer forma.

2 comentários em “O grupo organizado.

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