O panteísmo.

O texto abaixo é uma honesta aula filosófica baseada em Algumas palavras sobre o panteísmo , escrito por Schopenhauer, com sugestões de como as ideias contidas em tal escrito podem ser usadas para desenvolver o país e ajudar as pessoas a se compreenderem.

O panteísmo.

O panteísmo já foi um tema tabu na filosofia. Isso aconteceu por várias razões, mas principalmente porque, depois que a filosofia se tornou coisa de acadêmicos universitários, se criou um consenso de que tal coisa não merecia ser ensinada. Como estamos cansados de ver, inclusive hoje em dia, um professor universitário de filosofia se vê obrigado a lecionar apenas aquilo que sua universidade permite que seja ensinado. Mas por que esse consenso? Há uma boa razão? Primeiro precisamos nos perguntar o que é o panteísmo… e sermos capazes de defini-lo de forma simples.

Então, panteísmo é a ideia de que tudo é Deus. Observe que tal tese assume, desde o começo, que Deus existe. Assim, o mundo, o universo, a natureza, essas coisas são Deus, afirma o panteísmo. É mais ou menos isso que quer dizer a expressão “o mundo é Deus e Deus é o mundo”. Agora, há um grande número de problemas aí implícitos. Não estamos falando apenas de uma perspectiva cristã, mas também de uma perspectiva lógica. Se Deus é o ser mais elevado que existe, é preciso que ele seja imune à degradação, que ele seja criador, que ele seja eterno, que ele seja perfeito e que ele seja sábio. Por essas razões, isto é, porque ele tem que ser o máximo nesses atributos, Deus também só pode ser um: se houvesse dois deuses igualmente perfetos, nenhum deles seria “o Deus”, pois nenhum deles seria “o mais perfeito.”

A dificuldade lógica.

Precisamos ser capazes de definir o que é Deus (isso já fazemos) e o que é mundo (isso é mais difícil). Se não soubermos o que são ambas as coisas, ficamos com uma definição circular. É como dizer, “alma é espírito” e depois perguntar “o que é espírito?”. Aí, o engraçadinho responde: “ora, espírito é alma!”. Filho duma égua. Então, se a expressão “Deus é mundo; mundo é Deus” tiver que ser levada a sério, precisamos de uma definição fechada dos dois. Em filosofia, Deus é mais fácil de definir que o mundo: Deus é imutável, criador de tudo, eterno, perfeito e sumamente sábio. Mas o que é o mundo? Até onde ele se extende? É a Terra? É o Sistema Solar? É a Via Láctea? É a nossa linha de tempo? Ao dizer “Deus é o mundo”, você adiciona um novo sinônimo a Deus. Mas, quando você diz “o mundo é Deus”, você tenta explicar um conhecido por um desconhecido, o que é pior. O panteísmo, portanto, precisa de uma definição fechada de mundo.

Além disso, precisamos observar que, se Deus é perfeito, igualá-lo ao mundo não tem lógica: o mundo é imperfeito. Pode Deus contrair coronavírus? Só se ele quisesse. Mas que Deus faria algo pra se prejudicar? Considerando todos os problemas enfrentados pelo mundo, só poderíamos igualar mundo e Deus se admitirmos uma divindade masoquista. Faria mais sentido igualar o mundo ao diabo. Foi o que João quase fez em 1 João 5:19, onde ele diz que o mundo jaz no poder do mal. Como pode o mundo ser Deus? Se Deus é perfeito e o mundo é imperfeito, dizer que Deus é o mundo ou vice-versa é absurdo. Se é imperfeito, não é Deus. Isso torna o panteísmo pior que o teísmo tradicional: o primeiro é absurdo e o segundo é só improvável.

Dois tipos de panteista.

Existem dois tipos de filósofos panteístas: os ateus incofessos e os panteístas de raiz. Os ateus incofessos procuram um meio seguro de seguir uma via atéia na condução de um raciocínio: não é que Deus não exista, é só que ele é o mesmo que mundo, o qual pode ser explicado cientificamente. Isso torna a revelação automaticamente desnecessária, sem perder o apreço da audiência teísta que assite o discurso. Isso é bem válido no Brasil, onde um ateísmo puro é extremamente mal-visto. Já os outros são os panteístas de verdade, que realmente acreditam no panteísmo. Na filosofia, eles provavelmente têm alguma ligação com a escola espinosista ou talvez com o otimismo metafísico, o qual é falso.

Recomendações.

Vivemos tempos de liberdade de culto então não haveria muito problema, de um ponto de vista civil, um sujeito ser panteísta. Na verdade, uma pessoa que sustenta que o mundo é vivo, mesmo que não diga que o mundo é Deus, é provavelmente uma pessoa ecologicamente mais consciente e talvez até existencialmente mais calma. Poderia uma pessoa dessas pensar: “ao morrer, estou apenas devolvendo o que a Terra me emprestou.” Se o sujeito também tiver tendências espíritas, ele provavelmente não se preocupa nada com a morte e ainda é capaz de aproveitar a vida e o que ela tem a oferecer. Então, mesmo que o panteísmo não faça muito sentido de um ponto de vista lógico, o simples fato de pensar no mundo como se este fosse um ser vivo, do qual nossa própria existência depende, já aumenta o valor da pessoa como sujeito moral.

Seria interessante que outras religiões tivessem uma abordagem melhor do mundo. Por exemplo: o papa falou, recentemente, no tal Sínodo da Amazônia, que devemos nos ver como “co-criadores” do reino. Como disse Jesus, o reino de Deus está entre nós (Lucas 17:21). O mundo é a casa de todos nós. Você iria gostar que seu convidado (pois nossa vida no mundo é concessão divina) entrasse em sua casa pra vandalizá-la? É um ponto de vista interessante, que combina o teísmo tradicional com uma atitude mais responsável em relação ao mundo, pelo menos o mundo como “planeta”. Se o reino de Deus está entre nós, não deveríamos estar trabalhando pela sua manutenção e melhoramento? Interessante ideia. Assim, uma visão panteísta não é necessária pra que alguém encare o mundo ou a sociedade como algo de que se deva cuidar.

Publicado por Yure

Quando eu me formei, minha turma teve que fazer um juramento coletivo. Como minha religião não me permite jurar nem prometer, eu só mexi os lábios, mas resolvi viver com os objetivos do juramento em mente de qualquer forma.

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