Leituras da semana #12.


Continuando a leitura de: Além do bem e do mal, ou prelúdio de uma filosofia do futuro (Nietzsche), Aurora (Nietzsche) e A arte de escrever (Schopenhauer).

Além do bem e do mal, ou prelúdio de uma filosofia do futuro.

Se Nietzsche identifica o bem com a força e com a potência, então virtudes só podem ser aquelas que servem aos nossos propósitos. Virtude, pra Nietzsche, é qualquer coisa que facilite minha busca por ser o melhor e mais elevado homem possível. Isso casa com a sua observação de que virtudes e vícios variam de cultura a cultura. Por exemplo, antigamente, na época trágica dos gregos, a inveja era uma virtude e a esperança era um vício. Se virtude e vício podem ser julgados culturalmente, por que não pessoalmente?

Uma dessas virtudes de época é o desinteresse. Nietzsche afirma que o desinteresse é, na verdade, prejudicial e talvez inatingível. Todos aqueles que se sacrificam o fazem por um “bem maior”. Isso é interesse e ninguém se sacrificaria se esse bem maior não compensasse o sacrifício. Se você faz algo sem interesse, o fará mediocremente. É preciso querer algo com aquilo. Até mesmo o amor é interesseiro. No entanto, o interesse não torna o amor menos nobre. Na verdade, um amor desinteressado provavelmente não é amor, mas algo que esbarra na moral enquanto deseja se tornar amor.

Meninos brincando durante o banho de Vênus: uma alegoria do amor. Autores: Jan Brueghel e Pieter van Avont. Fonte: Wikimedia Commons.

Vendo que tais ideias modernas não trazem felicidade, a maioria dos homens as abandona em seu coração, mesmo que não publicamente, e adota uma moral nova, pessoal, secreta. Com o tempo, a coisa fica pública e a moral de um povo começa a mudar pra algo mais vantajoso. É preciso saber se adaptar. E um sinal dessa adaptação é o olhar franco para o passado do próprio povo e o olhar para outros povos. Isso nos leva a ver como as coisas poderiam ser diferentes. Se nosso “bom gosto” não for o melhor, o que nos deixa mais felizes, então dane-se nosso “bom gosto”. Observe que a felicidade de Nietzsche não é a felicidade de Epicuro, porém…

Na prática, sempre foi assim. Sejamos francos: a moral de um povo representa o que tal povo acha vantajoso. A moral não é algo, tipo, acima do homem. Por causa disso, um moralista é sempre um cara como qualquer outro que quer parecer ser mais que os outros. Aliás, ele é perigoso também: já reparou como um moralista, quando comete uma falta moral, culpa todo o mundo por isso, menos ele mesmo? Coisa chata deve ser ter um amigo moralista.

Aliás, o moralista é provavelmente pior que a média humana. Condenar os outros é apenas a forma dele de descarregar a frustração que sente por se perceber inferior, seja em beleza, em inteligência, sucesso ou santidade. Ele só tem sua moral e só pode usar ela pra se sentir bem. É tipo o estereótipo brasileiro: é fanático por futebol porque tem a impressão de que não é capaz de desempenhar bem nenhuma outra tarefa (o que não é verdade e as pessoas deveriam parar de dizer que o Brasil não presta pra nada). Então, se uma pessoa é feia, burra, pobre, pecadora (mesmo que só secretamente) e tem somente sua moral como qualidade redimidora, ela será um moralista, pois se aferrará a sua moral pra compensar todas as faltas que tem e a usará pra tentar ser melhor que os outros. Uma espécie de vingança.

A arte de escrever.

Se Schopenhauer fosse vivo, ele ficaria escandalizado com a ideia de que trabalhos acadêmicos precisam de referências bibliográficas. Pra Schopenhauer, a prática de citar outros em vez de emitir seu próprio julgamento é similar a atitude de um cidadão que ouve e segue silenciosamente leis com as quais ele pessoalmente discorda. Por outro lado, o sujeito que põe os outros autores abaixo de si é como um monarca que cria suas próprias leis.

Isso não quer dizer que não se deva citar, mas que uma pessoa não deve usar o trabalho já publicado sobre determinado assunto como substituto de seu próprio pensamento. Se você não julga o que você lê, não produzirá conhecimento novo. Na verdade, talvez só consiga ficar confuso quanto a quem acreditar, porque a multidão de pensamentos conflitantes soa como ruído ao cérebro. Algumas pessoas tentam remediar isso se limitando a repetir apenas as opiniões mais recentes, mas não há garantia de que as opiniões mais recentes são necessariamente melhores.

Fonte dos Seis Meninos. Foto de Pere López. Fonte: Wikimedia Commons.

O ideal é que você seja capaz de julgar o que você lê e o que você vive, a fim de emitir o seu julgamento sobre algo. Do contrário, você usará o fato de algo ter sido publicado num livro como prova de que algo é verdade. Isso não quer dizer que Schopenhauer é inimigo da leitura, muito menos da escrita: se você tem um pensamento que você valoriza, deve escrevê-lo pra perpetuá-lo, mas tenha em mente que tanto haverá quem o tome como palavra do evangelho quanto haverá pessoas que pensarão que você não sabe do que você fala, mesmo que você saiba. Em suma: você deve julgar o que você lê, mas também deve escrever o que você pensa.

Outra razão pra escrever o que se pensa é que isso gera os melhores escritos. Quando você escreve aquilo que genuinamente interessa a você, o texto será digno de ser lido, pois contém algo que uma pessoa realmente acha importante comunicar. Por outro lado, existem os que escrevem apenas por dinheiro e pra manter suas carreiras. São os que escrevem, por exemplo, artigos noticiários sensacionalistas, livros que só servem pra concordar com quem vai comprá-los e outras literaturas de baixo nível. Se não houver escritores sinceros pra competir com esses sujeitos, a inteligência média das pessoas vai cair e a humanidade ficará mais burra.

Pra Schopenhauer, isso pode ser resolvido tornando a escrita um ofício pouco lucrativo. Se a escrita, assim como a política, for algo que possa tornar alguém milionário, um grande número de pessoas entra nesse jogo visando apenas ganhar dinheiro e não contribuir com o crescimento do homem e da sociedade. Isso ocasiona a proliferação de maus livros. Assim, os bons livros são identificados por suas prioridades: se o assunto é mais importante que o lucro, você tá escrevendo certo; se o lucro for mais importante que o assunto tratado, você tá escrevendo errado. Além disso, se você valoriza o assunto que está tratando, você pensa sobre ele. Pensar antes de escrever enriquece o estilo do livro. É melhor do que escrever sem pensar e também melhor do que pensar enquanto escreve. Pensar antes de escrever resultará em um trabalho mais claro.

Aurora.

Existe um tipo de pessoa que causa mais mal à humanidade do que todos os criminosos. São os que levam as pessoas a se desgostarem da vida, a sentirem-se cansadas do mundo, não necessariamente a se desesperar da realidade, mas a odiá-la. Essas pessoas não querem que você mude nada no mundo, porque “não vale a pena”, e prescrevem paliativos, que a pessoa toma até ficar doente e morrer, seja literalmente ou só metaforicamente. Também falam contra o autoaperfeiçoamento, pela mesma razão, porque “não vale a pena”.

O ideal pra essas pessoas é deixar o mundo o quanto antes e viver em seus mundinhos, esse atalho pra felicidade, que desvia a humanidade de seu justo caminho. Se todo o mundo faz isso, não haverá crime que seja capaz de causar mais estrago à humanidade, pois ela se deteriorá legalmente. Mas Nietzsche não valoriza a liberdade? Sim, mas a liberdade por acaso não cai bem com o domínio, com a força e com o progresso próprio? A liberdade usada em prol da mediocridade é uma declaração de fracasso.

Teoria lunar de Cláudio Ptolomeu, em cores velhas. Fonte aqui e aqui. Também no Wikimedia Commons.

Mudando de assunto, Nietzsche fala sobre como o século dezenove estava perdendo o medo do Inferno, em grande parte por causa da influência protestante e pelo avanço da ciência, mas nem por isso havia deixado de lado modos cristãos originariamente concebidos pra evitar a entrada no Inferno. Não é estranho?

Embora Nietzsche diga isso, eu tenho minhas teorias sobre por que as pessoas, mesmo deixando de temer o Inferno, continuavam adotando comportamentos cristãos: esses hábitos podem ser bons em si mesmos. Amor ao próximo, por exemplo. Com ou sem Inferno, esse não é um valor que vale a pena cultivar? Amar ao próximo como a si mesmo, certamente um preceito melhor do que amar ao próximo como ele se ama. Além disso, há quem se sente feliz com a religião, o que o próprio Nietzsche afirma ao falar dos padres que vêm de família nobre: sentem tanto o prazer da obediência quanto o prazer do domínio. Essa felicidade aristocrática é embrutecida pela reforma protestante. Não que a constatação desse fato torne Nietzsche um defensor da religião, a qual, pra ele, é a opinião pessoal elevada ao grau de revelação divina. Na idade média, todos queriam ter a habilidade de ter essas revelações, de “ver” essas coisas. Tal busca levou muitos à loucura.


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