Alguns conselhos de Agostinho, parte 6.

Continuando minha leitura da obra de Agostinho, trato agora de alguns conselhos que eu achei nas Confissões e no De Magistro. Eu já falei do que se trata este último num texto sobre estupro. Confissões é uma reflexão filosófica autobiográfica do Agostinho. Ele lembra sua vida e reflete filosoficamente sobre ela. Já o De Magistro é um diálogo entre Agostinho e seu filho, Adeodato, sobre a relação entre as palavras e as coisas às quais as palavras se referem.

Nenhuma criança é inocente.

Refletindo sobre sua infância e olhando pra infância de outros, Agostinho questiona a ideia de que crianças são inocentes. Crianças sentem inveja, têm ânsia de domínio, são agressivas e, eu adicionaria, até taradas. Isso acontece porque ninguém é inocente e ninguém é inocente por causa do pecado original. Ninguém é perfeito. Logo, a chamada “pureza infantil” é um mito. A criança não aprende a fazer coisas que nós, adultos, consideramos erradas porque ela já nasce predisposta a essas coisas. Ela aprende a não fazer, com a educação que recebe do seu meio. De um ponto de vista escritural, não é possível sustentar a inocência infantil com a doutrina do pecado original. Ou a criança é pecadora desde o nascimento ou ela é inocente. Não é possível dizer as duas coisas.

Como os adultos dão muito valor às inutilidades, acaba que muita coisa inútil é ensinada na escola.

A escola, a bem da verdade, é um dispositivo ideológico a serviço do estado. Isso não é anormal. Usamos a educação pública pra ensinar os valores vigentes às gerações seguintes. O problema é que isso abre a possibilidade de que a escola ensine muita besteira que não vale a pena ensinar simplesmente porque essas são besteiras que os adultos valorizam.

Quando uma pessoa inteligente se entrega ao estudo de coisas falsas, você não precisa corrigi-la.

Vamos supor que alguém que você considere muito sábio ou inteligente comece a estudar terraplanismo ou ativismo antivacina. Você começa a ficar preocupado com a possibilidade de ele se tornar um negacionista. Ora, se acalme; se ele for realmente uma pessoa de bom senso, ele próprio verá as incoerências em tal posição e se ajeitará no futuro. É como o bolsonarismo. Muitas pessoas de boa fé foram levadas a votar no Bolsonaro. A maioria já se arrependeu.

Uma teoria não aumenta seu valor se for exposta de maneira mais bonita. Quem cai nas mãos de um mau médico, passa a evitar todos os médicos, inclusive os bons, por medo de repetir o trauma.

Um truque muito utilizado por propagadores de notícias falsas é fazer uma pessoa que parece profissional dizer as besteiras com ar científico. Isso porque temos a tendência a julgar as pessoas pela sua aparência e um argumento pela pessoa que o profere. Assim, se você aparece de jaleco, falando em tom científico que “covid-19 é um sistema”, muita gente vai acreditar em você. Mas isso não torna verdade o que você está dizendo. Você continua mentindo, só que você tá mentindo de um jeito bonito. Isso também é válido pra teorias científicas fracas.

Infelizmente, quando uma pessoa é enganada de muitos jeitos por diferentes pessoas, ela cai num ceticismo profundo. Temendo ser enganada de novo, passa a não acreditar mais em nada. Como a pessoa que já passou por tratamentos com diversos médicos e continua doente logo se desespera da medicina.

A alegria do bêbado que comprou sua bebida com dinheiro limpo é melhor que a alegria do sóbrio corrupto.

O bêbado que comprou legalmente sua bebida é sobrepujado por uma lícita alegria e uma ressaca que depois passa. Mas a pessoa que adquire seu dinheiro por meios imorais ou mesmo ilegais tem muito com o que se preocupar. Essa alegria é inferior à alegria do bêbado que trabalhou honestamente pra comprar a cerveja que o embriaga.

A mulher dificulta a ida do homem a Deus.

Não é tanto a mulher que prejudica a ascenção do homem ao divino, mas o desejo por ela. O cristianismo tem regras sexuais bem rígidas. Se devotar completamente à religião requer sacrifícios de natureza sexual, os quais muitos não estão dispostos a fazer. Por isso, Agostinho, antes de se converter, ficava sempre deixando sua conversão pra depois, procrastinando-a, porque não queria parar de curtir as comadres.

Uma das forças que faz muitos se converterem à religião é a falta de sentido da vida.

Não se fala muito disso, mas acho que todo cristão e até mesmo todos os ateus deveriam se perguntar isso uma vez na vida: o que leva este ou aquele sujeito a se converter? Na época de Agostinho, e até hoje, uma dessas razões é a falta de sentido da vida. Pra quê ser saudável, sábio, rico, feliz, se a gente eventualmente vai morrer? A pessoa que pensa dessa forma terá em pouca monta a vida material. Ela procurará uma vida espiritual, uma esperança eterna, e só poderá encontrá-la de maneira mística. É uma razão legítima pra se converter. Infelizmente, não se muito disso hoje. Parece que hoje muita gente vai pra igreja esperando ficar rico. Só me pergunto como ficar rico dando dinheiro a um sacerdote, em vez de investir o dinheiro num negócio.

Em vez de alimentar contendas entre os homens, você deveria abrandá-las.

Qualquer causa comum deve ser orientada por este princípio. Deixemos nossas diferenças de lado e vamos nos focar em como alcançar nosso objetivo comum da melhor maneira possível. Se surgirem contendas, é preciso suprimi-las até que tenhamos paz novamente. Se isso não for possível, pelo menos não alimente as contendas, pra que elas não se espalhem e mantenham-se em nível pessoal.

A memória retém informação sobre coisas que nos chegam ao espírito, mesmo que não tenham chegado lá através dos sentidos.

Existem coisas armazenadas em nossa memória sem que as tenhamos visto, ouvido ou sentido. É o caso da ideia que fazemos do pensamento. Não é possível apreender sensorialmente nossos pensamentos. O mesmo pode ser dito de outros conceitos metafísicos, como a justiça. Ninguém vê a justiça. Vemos atos justos, mas não a justiça em si. E, no entanto, temos em nossa memória o conceito de justiça. Por onde entrou? É que, além das coisas materiais, existem as inteligíveis, que são captadas pela razão, em vez dos sentidos.

É mais difícil moderar a alimentação do que moderar o sexo.

Pra evitar fazer sexo demais, basta evitar gente gostosa ou outros gatilhos dessa natureza. Mas, diferente do sexo, a comida é necessária pra viver. Você não tem escolha, senão se expor à comida. E, ao se expor à comida, você é tentado a comer o que não deve ou a comer demais. Além disso, no sexo, você tem que cortejar a pessoa e fazê-la se interessar por você. No caso da comida, basta preparar ou pagar alguém pra prepará-la pra você. Assim, há menos impedimentos à alimentação do que ao sexo. Por isso, é mais difícil se livrar de maus hábitos alimentares do que de maus hábitos sexuais.

Melhor ser escarnecido por causa da verdade do que louvado por causa da mentira.

A mentira sempre acaba se voltando contra nós. O bem-estar da humanidade está muito atrelado à verdade. Quando acreditamos numa mentira ou participamos dela pra termos louvor entre os que nela acreditam, cedo ou tarde pagamos por isso. E, quando isso acontece, os que estiveram do lado da verdade esfregarão na nossa cara que estávamos errados. E ainda dirão “bem feito.”

Passado e futuro não têm existência objetiva, mas apenas subjetiva, como memória e esperança.

Esta é a reflexão mais interessante das Confissões, que fala sobre a passagem do tempo. O presente não tem duração determinada e só sabemos de sua existência por causa da percepção instantânea. O passado, se já passou, não existe mais. Já o futuro, se ainda não veio, não existe ainda. Mas podemos acessar ambos no presente: o passado como memória e o futuro como antecipação. Tendo como referência a percepção presente, a memória e a expectativa, é possível medir o tempo, calculando a “distância” entre um momento e outro. É como se a percepção do tempo fosse uma régua mental, que usamos pra medir a distância entre dois acontecimentos (pontos no tempo), tal como usamos medições espaciais pra calcular a distância entre dois pontos no espaço.

Quando houver duas interpretações distintas, mas igualmente plausíveis, da lei mosaica, deve-se dar preferência à interpretação que melhor atinge o objetivo da caridade, pois o amor a Deus e o amor ao próximo são o objetivo de toda lei.

Jesus disse que o objetivo da lei de Moisés é assegurar que cada pessoa fará aos outros aquilo que gostaria que fosse feito a si. Se assim é, então, ao interpretarmos a lei de Moisés, temos que dar preferência a interpretações que melhor se adaptam a esse princípio, na medida em que o texto abre possibilidade a interpretações diferentes.

Duas interpretações para um mesmo texto podem estar ambas corretas, sendo complementares.

Se duas pessoas concluem coisas diferentes em relação ao mesmo texto, é possível ficar com ambas as interpretações se elas não forem antagônicas. Aliás, se elas não forem antagônicas, podem ser complementares. Tratá-las dessa forma pode ajudar a esclarecer outros pontos obscuros do texto.

É mais fácil amar uma pessoa tranquila. Tal como o médico tolera os pacientes indisciplinados, também nós temos que tolerar os que ouvem a verdade e se revoltam contra ela.

Eu peguei este conselho por causa dos “pacas” (pessoas atraídas por crianças ou adolescentes) ou “MAPs” (minor-attracted people). Se os MAPs mantiverem uma postura tranquila, não combativa, mas sem abrir mão daquilo que são ou no que acreditam, será mais fácil conseguir atingir a tolerância tão sonhada. Porque é mais fácil amar uma pessoa que não sai armada atrás de você. Isso não é uma postura de submissão, mas de defesa ativa: esquive-se dos insultos, ignore os que não estão abertos ao diálogo e contra-argumente educadamente quando a oportunidade surgir. Mas não desça ao nível deles, sendo rude, atacando os antis covardemente ou fazendo ameaças.

Você não deve sentir raiva dos antis, mas pena, compaixão. Tenha isso em mente e talvez você até tenha mais paz consigo próprio, além de parecer mais civilizado que seu oponente.

É possível comunicar ideias sem o uso de palavras, usando outros sinais ou mostrando a própria coisa cuja ideia queremos comunicar.

Se palavras fossem necessárias pra comunicar ideias, como os surdos se comunicariam? Eles se comunicam por gestos. Além disso, quando perguntado sobre algo, você pode mostrar à pessoa aquilo sobre que ela pergunta. Palavras nem sempre são necessárias.

As palavras são sinais das coisas que significam, não necessariamente as próprias coisas significadas. O conhecimento das coisas é superior ao conhecimento das palavras usadas pra significá-las, entre outras coisas porque nem sempre a pessoa que usa a palavra é honesta ou sabe o que diz.

Não se deve confundir a palavra com a coisa a que a palavra se refere. Esta reflexão do De Magistro me suscitou interesse por causa do termo estupro de vulnerável. Em direito, usamos este termo pra descrever qualquer ato libidinoso envolvendo, pelo menos, um participante que não tenha ainda catorze anos, com ou sem o consentimento dele. Mas é apenas um termo. Não é porque usamos tal termo (“estupro” de vulnerável) que devemos presumir que houve violência, já que o crime pode ocorrer mesmo com consentimento entre as partes. Novamente, a palavra não é a coisa. É apenas um termo jurídico e, se você ler a definição do termo, você vê que não há necessidade nem de força, nem de dano, nem de penetração pra que algo seja juridicamente considerado estupro de vulnerável.

Por causa disso, o conhecimento do caso concreto é mais valioso do que o conhecimento do termo usado pra descrevê-lo. Quando dois adolescentes de doze anos experimentam sexualmente de mútuo acordo, sem penetração, estão cometendo ato infracional análogo ao crime de estupro de vulnerável. Se você só tivesse em mãos o termo técnico do que eles fizeram (“ato infracional análogo ao crime de estupro de vulnerável”), você pensaria que um dos dois foi violentamente forçado a participar, o que não aconteceu.

Publicado por Yure

Quando eu me formei, minha turma teve que fazer um juramento coletivo. Como minha religião não me permite jurar nem prometer, eu só mexi os lábios, mas resolvi viver com os objetivos do juramento em mente de qualquer forma.

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