Analecto

25 de novembro de 2020

Alguns conselhos de Agostinho, parte 7.

Filed under: Livros, Notícias e política, Saúde e bem-estar — Tags:, — Yure @ 09:13

Ainda no assunto das Confissões e do De Magistro, escolhi alguns conselhos que Agostinho dá nesses livros. Observe que estes conselhos não são citações, mas apenas ideias que aparecem nesses textos e sobre as quais eu faço um comentário. Elas servem mais de gancho pra que o leitor vá atrás do texto original, se possível.

O desejo de domínio que a criança tem deve ser reprimido, mas jamais se deve rir do castigo imposto ao filho. É preciso educar as crianças pensando em sua vida adulta.

Rousseau, se não me engano, escreveu que a criança só obedece os pais e só é passível de ser educada porque é mais fraca. Enquanto ela é dependente dos pais, é preciso ensiná-la a se colocar no seu devido lugar. É preciso que a criança seja humilde, porque ela depende do auxílio de todos pra quase tudo o que ela for fazer. Não é justo que você faça tudo por seu filho e ele seja incapaz de retribuir ao menos com sua obediência, dentro de suas forças. Por outro lado, ao castigar o filho, jamais se deve rir do castigo ministrado. Porque também isso é injusto. Você faz seu filho sofrer além da medida certa. E ele, entendendo que isso é injusto, se sentirá justificado ao buscar vingança. Aí o ambiente familiar se deteriora.

Embora a criança nos deva obediência por ser dependente, isso não quer dizer que a criança boa é a criança dependente e acomodada com tal dependência. O problema do nosso mundo moderno é querer manter as crianças como crianças, esquecendo que elas serão adultas um dia, através da política do “apropriado à idade”. Se a criança tiver desejo de aprender algo adulto, tiver capacidade de aprender tal coisa e tiver um adulto que a guie em tal aprendizado, ela deve aprender. Se a criança só puder aprender “coisas de criança”, seu potencial será estragado. Além disso, tal política do “apropriado à idade”, quando aplicada também aos adolescentes, retarda a aquirição de habilidades que adultos deveriam ter. Aos dezoito anos, o adolescente não terá condições de se comportar como adulto, porque nunca aprendeu e teve suas chances de aprender removidas. Como que a pessoa vai se comportar como adulto se nunca aprendeu a fazer isso? Isso gera adultos dependentes dos pais.

A condição humana é tal que sentimos vontade de fazer o mal sem razão suficiente.

Não há nenhuma necessidade de ganho financeiro ou de qualquer natureza pra que façamos o mal. Eu lembro, quando eu tinha cinco anos, de minha namorada de infância. Beijávamos um ao outro no rosto, vivíamos de mãos dadas e passávamos o recreio juntos. Um dia, enquanto esperávamos nossos pais nos levarem pra casa, eu senti uma vontade mórbida… de bater nela. Eu não sabia a razão daquilo. Ninguém havia me ensinado que se deve bater nas pessoas que ama por qualquer razão. Eu mesmo reprovava esse impulso, já que eu a amava. Apesar disso, eu lha dei um murro, fraco, no braço quando ela não estava olhando. Ela disse “ai” e massageou o local onde bati. Eu fiquei tão envergonhado que resolvi parar de vê-la. O que aconteceu? Não sei o que e deu. Eu estava curioso pra ver o que iria acontecer, e sentia como se minha curiosidade fosse proporcional ao meu amor por ela. Eu queria saber que consequências iriam me ocorrer por fazer algo que eu sabia ser gravemente errado. Isso não é razão suficiente. Foi um soco gratuito, como o roubo das pêras, relatado por Agostinho.

A mentira mata.

Embora Agostinho, ao dizer que a mentira mata, se refira ao maniqueismo, eu escolhi este conselho porque não são somente heresias violentas que matam. Zöe Quinn, ao fazer uma acusação falsa de estupro contra o autor de Night in the Woods, levou o sujeito ao suicídio. Ela, depois, fugiu. Dizer que máscaras não retardam o avanço da covid-19 também é uma mentira que custa vidas. Várias mentiras podem matar. Por isso a mentira deve ser combatida.

Não ame a um homem como se ele fosse imortal.

Um erro dos amantes é não se preparar pra morte do amado. Essa pode ser uma morte literal ou simbólica, quando o amado perde suas características atraentes, quando o amado muda de comportamento ou quando o amado decide abandonar você em troca de outro. É preciso estar pronto pra tudo isso, pra que se possa amar sem ser surpreendido pelas consequências negativas do rompimento. E isso é simplesmente racional.

Ao debater, não defenda algo sobre o que você tem dúvidas, nem ataque algo que você não entende. Você não pode dizer que algo está errado só porque não entende.

Você só deve defender ideias com as quais você concorda e entende plenamente. Você não deve concordar com aquilo que você não entende totalmente e nem defender algo com que você não está 100% de acordo. Além disso, você deve se abster de atacar posições que você não conhece bem, primeiramente porque um ataque feito sem subsídios reais é fraco e, em segundo lugar, porque pode ser que você esteja atacando algo com que você poderia concordar, mesmo que só parcialmente.

Ao não compreender determinada posição, você precisa ser honesto e admitir que precisa se abster. Se você disser que algo está errado sem compreender o que está sendo dito, você se faz de palhaço. É como o pessoal do Twitter, que muda seus termos de serviço sem considerar isto antes.

Não acuse ninguém levianamente e nunca acredite na acusação feita sem provas.

Quando você ver nas notícias uma denúncia do que quer que seja, uma acusação, lembre que acusações não são condenações e denúncias não são sentenças. Enquanto não houver provas (documentos, fotos, áudio, vídeo), a pessoa acusada deve continuar sendo tratada como ser humano digno de respeito. Devemos suspeitar é de quem faz a acusação sem mostrar as provas antes.

O mal não é uma substância, mas a falta dela.

Se Deus fez o mundo e Deus é bom, qual é a origem do mal? Tal como a escuridão é ausência de luz e o silêncio é ausência de som, o mal é a ausência de bem. Afastamos o bem de nós mesmos ou dos nossos arredores com nossas ações. Assim, praticar o mal é o mesmo que depredar o que já era bom, enquanto que praticar o bem é restituir o bem a seu devido lugar.

Grandes alegrias sucedem grandes dores.

Quando você passa por momentos muito difíceis pela falta de algo, você se sente muito bem quando obtém aquilo que você gostaria de ter. Mas, ao obter tal coisa, o prazer de obtê-la é potencializado porque você também se livra da dor que sentia antes. Já ouviu falar que o melhor tempero é a fome? É porque a comida é sempre mais prazerosa pra quem está com fome, do que pra quem come sem necessidade. É que parte do prazer vem do fim do desconforto causado pela dor. Assim, se você tá em situação de probreza extrema e ganha na loteria, o prazer sentido é maior do que se você tivesse ganho na loteria sendo já rico. Porque, além do prazer de obter o dinheiro, você deriva prazer de não ser mais pobre.

É possível amar uma pessoa que fez o que você reprova.

Agostinho afirma que cristãos são tolerantes com os pecados uns dos outros porque focam naquilo que os une, que é o amor a Deus. Isso me lembrou de um texto que eu li semana passada, no Heretic TOC. Trata-se de uma resenha do livro The Feminist and The Sex Offender. Se aplicarmos o preceito de que devemos focar naquilo que nos une, amando nossos semelhantes apesar de suas falhas, aos “pacas” (pessoas atraídas por crianças ou adolescentes) ou “MAPs” (minor-attracted people), teremos um movimento interessante. MAPs são divididos em quatro grupos relativos à lei: ofensivo/pró-consentimento, ofensivo/anti-contato, inofensivo/pró-consentimento, inofensivo/anti-contato. O primeiro grupo é o mais odiado mesmo entre os próprios MAPs, pois é o grupo dos que já cometeram algum crime relacionado à sua atração e provavelmente não se arrependem. Mas é justo odiá-los, mesmo quando a ofensa é leve?

Um dos fundadores da B4U-ACT quebrou a lei. E um de seus contribuidores históricos, Paul Christiano, era registrado. Qual é o anti-contato que não está grato pela existência da B4U-ACT? E, no entanto, eles pregam um ódio sem exceções aos que quebraram a lei em algum momento. Não, amigos. Quando um MAP sangra, ele sangra igualzinho ao MAP ao lado. O fato de ter quebrado a lei não indica que a pessoa deve ser desumanizada. Se você é MAP e conhece um MAP que vai ser processado, mostra isto pro advogado dele. Se ele for condenado, ajude-o a apelar pras instâncias superiories. Se os recursos forem esgotados, visite-o na cadeia. Quando ele sair, ajude-o a achar um lugar onde viver e onde trabalhar. E a vida segue. Todo esse apoio é legal. Você não precisa quebrar a lei como ele quebrou, mas isso não te permite se colocar num pedestal como alguém superior, incólume, sem contaminação. O MAP que fracassa em se manter dentro da lei ainda é humano. Mesmo que MAPs tenham que enfrentar a lei, não precisam sofrer além da justa medida. MAPs precisam se focar naquilo que os une, se reconhecerem um no outro e terem amor um pelo outro. Do contrário, a fragmentação entre eles retardará o movimento por aceitação que já caminha muito devagar. Observe que estou falando aqui de ofensas leves, isto é, crimes nos quais ninguém foi prejudicado. Se alguém foi prejudicado, é provável que o criminoso não seja um MAP.

O alimento deve ser usado como remédio contra a fome e não como fonte de prazer gratuito.

Comer demais provoca problemas de saúde, mas também comer de menos causa problemas de saúde. Comer na medida certa é comer na medida da fome. Coma quando sentir fome e somente o necessário pra que a fome passe.

Se gabar da própria humildade já é orgulho, logo falta de humildade.

Se você odeia orgulho, você não deve dizer isso a menos que te perguntem. Isso porque, quando você diz aos quatro ventos que você não é orgulhoso, isso já é orgulho. Você não pode ser orgulhar da própria humildade, ou ela deixa de ser humildade.

Tudo bem usar palavras inexatas, desde que elas passem corretamente a ideia que se quer passar. Quando ouvimos uma palavra, nossa atenção se volta ao significado que temos dela… o que pode causar um mal entendido.

Diferente da língua escrita, a língua falada só tem uma regra: se eu falar e você entender, tá tudo certo. Quando uma pessoa usa uma linguagem “errada” ou imprecisa, mas você entende o que está sendo dito e sua compreensão espelha o que o sujeito está tentando dizer, então tal linguagem é adequada. Ela não precisa ser formalmente correta. Ninguém precisa falar como se estivesse lendo um texto.

O problema dessa abordagem, claro, é que o significado que a pessoa tem de determinada palavra pode não ser o significado que eu tenho. Assim, quando usamos uma palavra com a qual ambos nos julgamos familiares, mas que definimos de forma diferente, apenas pensamos que estamos falando da mesma coisa. Por exemplo: a definição comum de estupro é sexo forçado, mas, legalmente, um contato sexual não penetrativo e também consensual pode ser chamado de estupro, se um dos participantes não tiver ainda catorze anos, mesmo que o ato seja considerado positivo pela “vítima”. Assim, ao ouvir a palavra “estupro” nas notícias, é preciso verificar o que se está chamando de estupro, pra que não presumamos o pior.

É preciso ter tolerância com interpretações diferentes de determinado texto, se não é possível perguntar diretamente ao autor do texto o que ele quis dizer.

Se duas pessoas têm interpretações diferentes de um mesmo texto, como a Bíblia Sagrada, cujos escritores já deixaram este mundo, é preciso tolerar. Ninguém pode pedir diretamente a Moisés uma interpretação moderna do Gênesis.

O homem imita a quem ama.

Em seu Dicionário Filosófico, Voltaire afirma que os poucos cristãos que conseguiram criar ministérios na China só o puderam por terem se mostrado úteis aos chineses. Isso possibilitou uma modesta conversão de pequenos grupos chineses ao cristianismo. Quando você é útil, você se torna amado. Quando você é amado, você é ouvido. Quando ouvem você, talvez queiram ser como você. Portanto, MAPs, sejam úteis pra que sejam amados e ouvidos. Deu certo com as mulheres…

Fazer perguntas também serve pra ensinar.

Quando você quer fazer uma pessoa ver que a opinião dela está errada, pergunte sobre os pontos frágeis de sua crença. Perguntas também são uma boa forma de ensinar uma pessoa que não tem opinião formada.

Existem pessoas que só acreditam no que você diz se tal coisa também for dita por uma autoridade.

No De Magistro, Agostinho afirma que o pensamento correto não precisa ser apoiado por autoridades, mas que alguns ouvintes exigem que você mostre que seu pensamento é também o pensamento de alguma autoridade. Do contrário, ele “não vale”. Essa autoridade pode ser um filósofo, cientista ou mesmo a Bíblia Sagrada. Se o que você diz não é apoiado por um intelectual ou por Deus, não é um pensamento de valor. Felizmente, quando se fala de críticas à presunção absoluta de violência em violações do 217-A, autoridade é algo que não falta (Tindall, 1978; Sandfort, 1984; Sandfort, 1987; Condy et al, 1987; Kilpatrick, 1987; Leahy, 1996; Bauserman & Rind, 1997; Rind & Tromovitch, 1997; Rind et al, 1998; Rind, 2001; Ulrich et al, 2005-2006; Arreola et al, 2008; Arreola et al, 2009; Carballo-Diéguez et al, 2011; Rind & Welter, 2013; Dolezal et al, 2014; Rind, 2016; Rind & Welter, 2016; Lahtinen et al, 2018; Mulya, 2018; Wet et al, 2018; Rind, 2020; Vasilenko et al, 2020; Daly, 2021).

Nenhum governo humano dura pra sempre.

Por último, um conselho que eu achei interessante porque reflete o que está acontecendo nos Estados Unidos. Sou da opinião que o império americano está com seus dias contados e que os Estados Unidos cederão lugar à China, mesmo que não queiram. O “governo mundial” dos Estados Unidos pode até acabar sem uma guerra externa. Afinal, com a escalada das tensões em torno dos resultados eleitorais, Trump tem até vinte de janeiro pra causar uma guerra civil. Numa guerra civil, recursos são desperdiçados em conflitos internos, criando uma situação propícia ao sucesso de ameaças externas.

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