Alguns conselhos de Agostinho, parte 10.

Continuando minha leitura da obra de Agostinho, resolvi ler a coleção De Excidio Vrbis, e Outros Sermões Sobre a Queda de Roma. É um livro curtinho, que compila alguns textos que Agostinho escreveu e proferiu no ano seguinte ao saque de Roma pelas tropas de Alarico. Embora sejam textos de natureza cristã, como é de natureza cristã toda a obra de Agostinho, esses sermões podem ser úteis pra melhorar nossa habilidade de resistir ao sofrimento.

Há muito o que falar, em vários sentidos, sobre a queda de Roma. Nada de natureza humana dura pra sempre: nem as civilizações e nem o próprio homem. Dizer a um povo que sua nação não terá fim é adulá-lo. Não se apegue ao que pode mudar, desaparecer ou morrer.

Por que foi que Roma caiu? Uma combinação de fatores: qualidade e quantidade de soldados, fome e doenças entre a população, incompetência administrativa e declínio econômico. É possível olhar pra essa história a partir de vários ângulos. Agostinho preferiu olhar pelo ângulo religioso e materialmente fatalista: não há nenhuma construção humana que dure pra sempre. Assim, a “Roma eterna” não passa de um mito. É como Hobbes disse: assim como o corpo humano declina por razões internas (doenças e velhice) ou externas (ferimentos), também corpos políticos nascem pelo contrato social, crescem com a prosperidade e podem morrer pela guerra ou sedição. Seu Leviatã é um manual de perpetuação do tempo de vida de um governo, mas eu ainda estou pra ver esse manual funcionar. Pra Agostinho, somente coisas espirituais são eternas. Então não podemos esperar que a hegemonia de uma nação dure pra sempre. De um jeito ou de outro, por esta ou aquela razão, Roma cairia. Ponto final. É o desígnio divino pra matéria. Tudo neste mundo passa. Negar isso é mentir. Por causa disso, não é uma boa ideia se apegar ao país ou a qualquer coisa que possa mudar (amigos e amantes, os quais podem se tornar pessoas diferentes daquelas às quais você se afeiçoou) ou acabar (riqueza, fama, entre outros).

A nação não é o país (território), mas o povo. A nação não morre se os cidadãos não morrem.

Muitos cristãos da época estavam muito abatidos, julgando assistir o fim de sua nação. Mas será que não estavam a confundir as coisas? Pra Agostinho, a nação não é o país, não é o território, mas o povo. Mesmo que os brasileiros sejam dispersados pelo mundo, enquanto mantiverem contato entre si e mantiverem vivas suas tradições (tarefa dificílima pra um povo tão culturalmente colonizado), a nação brasileira continuará viva, mesmo que o país chamado Brasil afunde no Atlântico. Assim é com Roma, diz Agostinho: enquanto houver romanos, a nação romana permanece, mesmo que Roma seja saqueada, tomada, destruída, queimada, o que quer que seja. Se os cidadãos vivem, vive também a nação.

O sofrimento é oportunidade de autoaperfeiçoamento, se você tiver humildade, paciência, caridade e esperança. Pensar no sofrimento presente não é tão importante quanto pensar nas ações presentes. Há um lado bom no sofrimento.

Agostinho sugere que se veja o sofrimento como um teste. O sofrimento, quando suportado até o fim, leva o homem a um estado de maior aprendizado. Se você souber lidar com o sofrimento, sairá dele melhor do que quando entrou. Palavras bastante nietzscheanas pra um santo católico. Suportar construtivamente o sofrimento requer quatro virtudes, diz Agostinho: a humildade, a paciência, a caridade e a esperança. Pacas (pessoas atraídas por crianças e adolescentes), ou MAPs (minor-attracted people), prestem atenção.

A humildade é o oposto do orgulho. Quando o orgulhoso sofre, ele sofre duas vezes mais que o humilde. Porque o orgulhoso fica pensando coisas como “eu sou bom demais pra passar por isso, eu não mereço isso.” Quando você está sofrendo tanto quanto o outro, você precisa se identificar com ele, não pensar que você é melhor que ele. Do contrário, você sofrerá tanto as penas que te se são impostas quanto aquelas que você se impõe, ao se comparar com o outro e ver que você, que se acha tão superior, está sofrendo tanto quanto alguém considerado inferior. Todos são iguais no sofrimento. O sofrimento não é lugar pra orgulho. A paciência é a habilidade de tolerar o sofrimento. Agostinho sugere que o cristão lembre que todo sofrimento neste mundo está nos planos divinos. Deus sabe o que é melhor, não é? Então tolere. Essa provação, ele diz, é uma oportunidade de purificação. Claro que isso não faz sentido pra quem não é cristão, mas a paciência durante o sofrimento é algo universalmente aceito como positivo. Isso não quer dizer abandonar as chances de encerrar o sofrimento sentido, mas, sim, que você deve encontrar meios psicológicos de tornar o sofrimento tolerável, ou você será esmagado sob o peso da dor. Um bom jeito é não pensar tanto no quanto você sofre, mas em como você age em relação ao sofrimento. Suas ações podem aumentar ou suavizar o impacto das penas sentidas.

Já a virtude da caridade só faz sentido se o sofrimento é comunitário. Se cada pessoa que participa do sofrimento tenta tornar tal sofrimento mais ameno ao próximo, os laços de amizade entre os que sofrem serão fortalecidos e os mais fracos precisarão de menos paciência pra tolerar as penas. Faça ao outro o que você gostaria que fosse feito a você. Se ambos estão sofrendo do mesmo jeito, fica mais fácil identificar do que o próximo precisa. Por último, tenha esperança. Diz Agostinho que a natureza da matéria e de tudo aquilo que é humano é a finitude. Se assim é, ninguém sofre pra sempre, nenhum sofrimento neste mundo é eterno. Tendo essas coisas em mente (humildade, paciência, caridade e esperança), fica mais fácil encarar o sofrimento como ocasião de aprendizado e de aperfeiçoamento.

As questões dos próprios fiéis são tão importantes quanto as objeções dos infiéis.

Não apenas quando se fala de igrejas, mas também de causas sociais e outras mobilizações humanas, é preciso entender que manter os indivíduos no grupo é tão importante quanto agregar ao grupo novos integrantes. No caso dos MAPs que se organizam por mudança social, existem aqueles que não estão tão firmes na causa e têm dúvidas sobre estarem ou não fazendo a coisa certa. Se essas dúvidas não forem resolvidas, eles podem deixar o grupo e o potencial da causa será menor. Assim, resolver as dúvidas dos elos fracos é tão importante quanto bater boca com anti no Twitter. Aliás, mais importante.

Não tome um aviso como causa de preocupação, mas como causa de prevenção.

Melhor do que tolerar o sofrimento é não ter que passar por ele. Se você for avisado de que algo ruim está em vias de acontecer, você não deve entrar em pânico, mas pensar em como evitar esse evento ruim ou minimizar seus impactos. É o que o Bolsonaro deveria ter feito. Mas, no caso dele, nem em pânico ele entrou. Ele preferiu abraçar o perigo.

Quando alguém criticar sua posição sobre algo, mostre a essa pessoa exemplos de nações que adotaram sua posição e que prosperam.

Esse conselho é válido pra qualquer pessoa que defenda uma ideia impopular, como o socialismo ou reformas legais. Pegue exemplos de onde essa ideia funcionou e esfregue na cara do seu detrator. No caso de Agostinho, ao mostrar que o cristianismo não é a causa da queda do Império Romano, ele apontou pra Constantinopla, uma nação cristã que estava muito bem de vida na época.

Se você se diz cristão, deveria aprender da história do rico e do Lázaro. Não é pecado ser rico. É natural não querer fazer o que é certo, mas é errado deixar de fazer o que é certo.

Este conselho eu peguei mais porque a população evangélica no meu país está aumentando e, com isso, a popularidade da teologia da prosperidade. O cristão rico tem um compromisso com os pobres. Na Bíblia Sagrada, no evangelho de Lucas, consta a história do rico que se recusou a alimentar Lázaro e foi parar no inferno, enquanto Lázaro foi pra perto de Abraão. Aí o rico pede pra Abraão que alguém dentre os mortos vá visitar a família dele pra avisar o que acontece com os que concentram riqueza, mesmo diante de quem precisa de dinheiro mais do que eles, mas Abraão diz que não tem condições de alguém que desconsidera a Lei e os Profetas ouvir a alguém que ressuscitasse dos mortos. Isso é até profético: se Jesus voltasse pra Terra pra reafirmar o compromisso cristão com os pobres, ele não seria crido por aqueles que não leem os quatro evangelhos que carregam debaixo do braço pra toda parte. Não é que a riqueza seja pecado, mas é certamente injusto que você, sendo tão rico, não seja capaz de abrir sua mão pra quem precisa. É verdade, você não quer partilhar o que você ralou pra conseguir, mas é a coisa certa a ser feita. Ninguém disse que se salvar é fácil.

Não prometa algo que você não pode cumprir.

Agostinho comenta o mau exemplo de Pedro, o qual disse que morreria com Jesus e, em vez disso, negou que o conhecia quando Jesus foi capturado. Você não pode prometer o que você não pode cumprir. Embora Agostinho fale desse caso em sentido mais místico, Søren Kierkegaard aponta outra razão pra não fazer promessas por impulso. Em seu Diário de um Sedutor, Kierkegaard diz que você não deve impedir uma pessoa que se apaixonou por você de fazer promessas que você sabe que não serão cumpridas, porque o amante, quando quebra a promessa, fica dependente do seu perdão. Essa é uma ocasião propícia à manipulação.

Se você ama algo, não aja contra os interesses daquilo que você ama.

Agostinho fala isso ao saber que muitos católicos, a fim de defender a igreja, impediam que donatistas arrependidos se juntassem novamente ao catolicismo. Isso é agir contra os interesses da igreja, mesmo que tal atitude seja motivada por zelo à igreja. O mesmo é válido pra posições políticas ou causas sociais.

Publicado por Yure

Quando eu me formei, minha turma teve que fazer um juramento coletivo. Como minha religião não me permite jurar nem prometer, eu só mexi os lábios, mas resolvi viver com os objetivos do juramento em mente de qualquer forma.

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