Senso moral.

A emoção pode servir como motor da ação. A emoção nos leva a agir, não em determinada forma, mas em geral. Se a ética é o estudo das ações humanas enquanto boas, más, certas, erradas, justas ou injustas, segue-se que a reflexão ética não pode se abstrair de considerar as emoções, as quais podem ser facilmente identificadas na vida moral humana. Tome como exemplo a moral cristã: você vê na moral cristã os sentimentos de medo, amor, tolerância, sofrimento e cada uma dessas coisas tem um papel na moral cristã. Também em morais não-cristãs, como no conceito de ubuntu africano, observamos sentimentos de simpatia, gratidão, e ninguém pode dizer que tais morais devem deixar de ser objeto da ética apenas por incluírem um elemento sentimental, emocional. Podemos, portanto, encontrar traços de emoção e sentimento em muitas morais que vemos hoje. E isso porque a emoção é inerente ao homem. Uma ética que desconsidera a emoção totalmente é divina e, como tal, inaplicável a seres humanos.

No texto anterior, escrevi brevemente sobre a relação entre moral e sentimento segundo David Hume. Convém se aprofundar mais neste assunto. Mas antes de prosseguir, é importante falar que os únicos sentimentos “morais”, por assim dizer, são a simpatia e a comparação. Não é qualquer sentimento, segundo David Hume, que nos auxilia na tomada de decisões. Basta lembrar que alguns sentimentos ou emoções são patológicos, como a vontade de roubar sentida pelo cleptomaníaco.

Por exemplo: todos nós já ouvimos de nossos pais ou responsáveis legais que não deveríamos fazer certa coisa porque é “feio” fazer. Mas feio e belo são critérios estéticos. Segundo outro filósofo, Stephen Kershnar, juízos estéticos não podem ser usados para basear julgamentos morais e ele tem razão: o fato de algo ser “feio” não o qualifica como errado. Além disso, julgamentos estéticos são altamente subjetivos (não que simpatia e comparação não sejam, mas juízos estéticos são baseados no gosto individual e são voláteis demais pra serem levados em consideração em questões sérias). Essa subjetividade de tais juízos os torna impróprios pra qualquer reflexão que tenha caráter abragente, mesmo que não universal. Seu gosto estético só vale pra você. E não é com questões individuais que a ética se ocupa.

Simpatia e comparação.

Se a emoção pode operar contra a razão (e, frequentemente, o faz), é preciso ser justo ao dizer que a emoção não é totalmente ruim. Ela pode ser usada a favor da razão e da justiça, como motor de ação. Poderíamos até dizer que a ética é uma racioalização da emoção que sentimos uns para com os outros. A indignação diante da injustiça é uma emoção desse tipo e Hume provavelmente a colocaria na categoria da simpatia.

Em que circunstâncias a simpatia e a comparação servem às reflexões morais? É preciso, antes de responder, definir uma e outra. Simpatia é o sentimento que nos aproxima, que nos permite nos colocarmos no lugar do outros, enquanto que a comparação toma o outro como distinto de mim, em vez de meu semelhante, dando origem aos comportamentos de proteção de si.

A simpatia tem seus usos. Ela é sentida por pessoas próximas uma da outra e serve para aproximá-las ainda mais, pois comunica necessidades e sensações entre aqueles que se identificam um no outro. Em nível comunitário, podemos dizer que a simpatia seja um elemento que mantém nações unidas, causando a sensação de pertencimento a uma espécie de “família”. Há aqui um vínculo afetivo, que funciona até melhor que a razão na tarefa de manter os indivíduos unidos. Isso porque a simpatia nos permite sermos influenciados uns pelos outros, tornando o pensamento comunitário mais homogêneo. É mais fácil nos entendermos quando a simpatia nos leva a ouvirmos uns aos outros. Será que não é isso que leva cada povo a ter sua moral comunitária? Já a comparação é feita entre sujeitos distantes e tem como função traçar os limites da identificação promovida pela simpatia. Isso nem sempre é bom, pois pode dar ocasião a impulsos destrutivos.

Falamos anteriormente dos atenuantes de pena. Poucos discordarão da ideia de que existem circustâncias que tornam determinado crime digno de menor punição. Se você fosse delegado e recebesse em sua delegacia dois ladrões, um que roubou um pacote de biscoito recheado por estar com fome e outro que desviou dinheiro da saúde pública, você trataria ambos como iguais? A razão diz que não. Mas a emoção também diz que não: o sentimento de simpatia nos leva a nos indignarmos com o sofrimento causado às pessoas que precisavam dos serviços de saúde e também nos leva a simpatizar com a pessoa que, assim como nós, sente fome e se desespera diante da morte. Um deles merece um atenuante de pena, enquanto o outro deveria sofrer um agravante. Vemos, assim, que a razão e o sentimento (neste caso, a simpatia) podem estar de acordo.

Recomendações.

Frequentemente temos para nós que a filosofia, por ser o território da razão, odeia o corpo ou os sentimentos. Mas a reflexão de Hume mostra que não é assim. Existem filósofos que põem grande importância nos sentimentos. É importante observar, porém, que Hume não dá a todos os sentimentos o caráter de éticos, mas somente à dupla simpatia e comparação. Na ética, você deve usar sua razão e esses dois sentimetos frequentemente concordam com a razão. Mas outros sentimentos mais facilmente atrapalham do que ajudam, como é o caso do gosto estético ou do nojo. O fato de você achar algo “nojento” não indica que você está diante de algo moralmente errado. Se nossa sociedade pensasse menos com o coração, se deixando levar menos por sentimentos eticamente irrelevantes, talvez fôssemos um povo menos hipócrita e mais desenvolvido.

O exercício da simpatia nos permite uma melhor aproximação entre seres humanos e melhor compreensão da raça humana. Isso se torna mais fácil se nos focarmos no que temos de semelhante, em vez de em nossas diferenças. Se pudermos nos identificar uns com os outros, o entendimento entre os homens será mais gratificante.

Publicado por Yure

Quando eu me formei, minha turma teve que fazer um juramento coletivo. Como minha religião não me permite jurar nem prometer, eu só mexi os lábios, mas resolvi viver com os objetivos do juramento em mente de qualquer forma.

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