Autogestão para estudo no ENEM.

O ensino médio vem sendo rapidamente universalizado no Brasil. Mas isso requer dinheiro público. Se estamos investindo nisso, é preciso saber se está funcionando, a fim de modular corretamente os gastos. O Exame Nacional do Ensino Médio é uma prova nacional que tem por objetivo medir se os brasileiros sabem o mínimo dos conteúdos que deveriam aprender ou ter aprendido no ensino médio. Isso quer dizer que é pelo ENEM que sabemos se o ensino médio está ou não funcionando e alcançando sua função, que é a educação. É um desses testes padronizados. Só que ele tem uma sacada: a nota que você tira nesse exame facilitará sua entrada na universidade (por isso o ENEM é tão difícil, já que os cursos superiores são exigentes). Quanto maior sua nota, mais universidades e cursos se abrem pra você. Por essa razão, embora seja um teste padronizado, um monte de gente faz o ENEM. Isso torna o ENEM o segundo maior teste de seu tipo no mundo, perdendo apenas para seu equivalente chinês.

Originalmente, o ENEM tinha 63 questões sobre as disciplinas de ciências naturais, matemática, história, geografia e língua portuguesa. Mas hoje, ele se divide em 180 questões de linguagens, ciências naturais, ciências humanas e matemática. Houve também um tempo em que a pessoa que tirava uma nota muito boa no ENEM podia receber também seu certificado de conclusão do ensino médio, já que ela havia provado que sabia o conteúdo (esse prêmio foi removido em 2017).

O problema é que é difícil estudar pro ENEM. E é difícil porque nele cai todo o conteúdo do ensino médio. O problema começa aí. Alunos muito aplicados estariam dispostos a peitar essa tarefa enorme, pois o ENEM ocorre em novembro. Começando agora, estudar pro próximo ENEM, no próximo mês de novembro, não deve ser problema… se você souber exatamente o que significa “todo o conteúdo do ensino médio”. É aqui que está a dificuldade: os alunos, muitas vezes, não têm à disposição uma lista fechada de temas que compõem o currículo do ensino médio.

Felizmente, eu tenho! Se você procurar na Internet pela Matriz de Conhecimentos Básicos do seu estado, você terá em mãos justamente um documento contendo uma relação do que os professores de ensino médio devem, por obrigação, ensinar aos alunos. Aí está o enigmático “todo o conteúdo do ensino médio”. Na posse da lista, basta dividir o tempo que será necessário para dominar cada assunto. Caso você esteja com preguiça de baixar a matriz do seu estado, segue abaixo o resumo de todo o conteúdo do ensino médio tirado de uma dessas matrizes. Basta agora se organizar para estudar sozinho ou em grupo para o próximo ENEM.

Linguagens.

Artes: linguagens artísticas; história da arte; correntes de pensamento e estilos artísticos; interpretação, análise e adaptação de trabalhos artísticos.

Língua portuguesa: texto, gênero, discurso; crônica, depoimento; notícia, carta de reclamação; propaganda, anúncio; cordel; seminário; redes sociais e discurso digital; variação linguística; tempo verbal; concordância verbal; classicismo; arcadismo; romantismo; realismo e naturalismo; concordância nominal; coesão; formação de palavras; colocação pronominal; entrevista e resenha; resumo; manifesto; parnasianismo; simbolismo; pré-modernismo; modernismo; literatura contemporânea; literatura africana; regência; artigo de opinião, debate e argumentação; dissertação.

Inglês: gêneros textuais e cultura; leitura, compreensão e análise; grupo nominal e tempos verbais; comparação entre inglês e português; coesão e referenciação; estruturas condicionais; discurso direto e indireto.

Espanhol: língua e cultura; alfabeto e fonologia; situações comunicativas; grupos nominais; verbos regulares e irregulares; leitura, compreensão e análise; variações linguísticas; artigo neutro “lo“; graus de comparação; informações verbais e não verbais na leitura; intertextualidade, inferência e gêneros textuais; coesão e referenciação; leitura de textos.

Educação física: práticas corporais; dimensão sociocultural das práticas corporais; organização interna das práticas corporais; práticas corporais e contexto social; desenvolvimento das potencialidades do corpo; meio-ambiente; responsabilidade pessoal e social; saúde coletiva; práticas corporais por lazer, competição e educação; dimensão sociopolítica das práticas corporais; diversidade; treinamento físico; primeiros socorros.

Humanidades.

História: história como ciência e produção de conhecimento histórico; evolução humana, das sociedades primitivas às hidráulicas; África antiga; antiguidade clássica; idade média; formação dos estados nacionais; reinos africanos e povos nativos da América; ocupação americana pelos portugueses; iluminismo; revoluções burguesas; consolidação e interiorização da América portuguesa; revoltas coloniais; independência do Brasil; império brasileiro; proclamação da república e república velha; imperialismo e primeira guerra mundial; revolução russa; período entre guerras; declínio oligárquico e era Vargas; segunda guerra mundial; período liberal e democrático; mundo pós-guerra; ditadura militar; redemocratização e república nova.

Geografia: ciência geográfica e cartografia; estrutura da Terra, geomorfologia e pedologia; hidrografia; clima, atmosfera e vegetação; demografia mundial e brasileira; industrialização brasileira; urbanização; espaço agrário (Brasil e mundo); divisão regional brasileira; capitalismo, globalização e economia; comércio mundial, fluxo internacional; geopolítica, fronteira, conflitos; produção energética (Brasil e mundo); questões ambientais passadas e presentes.

Sociologia: a ciência sociológica, tipos de conhecimento e elementos de análise; cultura, etnocentrismo e relativismo cultural; indivíduo, sociedade e socialização; estado democrático, três poderes, cidadania, participação política; relação entre capital e trabalho nas sociedades capitalistas, mudanças globais, políticas emergentes; educação, gênero, sexualidade e subjetividade; ideologia e meios de comunicação de massa; desenvolvimento econômico, desenvolvimento sustentável, ecologia, ecossistema.

Filosofia: introdução à filosofia; cosmologias e filosofia da natureza; antropologia filosófica e introdução à metafísica; metafísica tradicional; estética; teoria do conhecimento; ética clássica; questões éticas contemporâneas; introdução à política; filosofia social e política; filosofia da cultura; atualidades.

Ciências naturais e matemática.

Química: substâncias e misturas; estrutura da matéria; ligações químicas; funções inorgânicas; estudo das soluções; termoquímica; cinética química; eletroquímica; compostos orgânicos; funções orgânicas; isomeria; reações orgânicas.

Física: forças; gravitação; energia, trabalho e potência; hidrostática e hidrodinâmica; calorimetria; termodinâmica; ondas; óptica; corrente elétrica; potência elétrica e resistores; circuitos elétricos; magnetismo.

Biologia: origem da vida; bases químicas da vida; estrutura celular e funções; reprodução humana; classificação dos seres vivos; vírus; noções de fisiologia humana; genética; ecologia; evolução das espécies.

Matemática: funções afins; funções quadráticas; potências, raízes, logaritmos; trigonometria; combinatória, probabilidade; geometrial espacial; estatística; matemática financeira; geometria analítica.

E como estudar isso tudo?

Estudar sozinho requer autogestão, que é a capacidade de gerenciar recursos, tempo e energia visando a realização eficiente de uma tarefa. É um misto de concentração, autocontrole e razão. Tal habilidade, como todas as virtudes, só pode ser obtida e mantida pela prática. Portanto, pratiquemos, a fim de que possamos nos dedicar aos estudos. Primeiramente, elimine da lista os tópicos que você já conhece. Em segundo lugar, elimine da lista tópicos com pouca chance de cairem na prova. Você pode saber disso lendo provas de edições anteriores ou ficando de olho nas notícias, já que o ENEM traz questões relevantes ao presente. Por exemplo: é mais provável cair filosofia social e política ou atualidades do que cosmologias e filosofia da natureza, porque as duas primeiras são mais relevantes no apreço dos problemas presentes.

Ao eliminar tópicos, você pode pensar em termos de disciplina, em vez de tópicos isolados: se a maior parte do conteúdo de história já é conhecido, pule história, por exemplo. Assim, em vez de estudar tópicos isolados, você pode estudar os tópicos das disciplinas que contém a maior quantidade de tópicos desconhecidos.

Agora, gerenciemos o tempo, esta entidade misteriosa feita de momentos. Após filtar os conteúdos, o que resta deve ser dividido ao longo de doze meses de preparação, idealmente. Diluindo tanto, a quantidade de estudo diário deve ser pequena. Se você não tiver doze meses para se preparar, você deverá diluir os tópicos ao longo do tempo disponível. O ideal, para garantir que haverá suficiente tempo de estudo, seria começar a estudar pro próximo ENEM logo após sua última tentativa.

Em adição, você pode tornar os estudos menos chatos variando os temas: linguagens no domingo, humanidades na segunda-feira, ciências naturais na terça-feira, matemática na quarta-feira, ciências naturais na quinta-feira, humanidades na sexta-feira e linguagens no sábado.

Sugestão de rotina de estudo.

A autogestão pode nos ajudar a estudar. Então, como eu estudaria se eu tivesse que prestar o ENEM? Primeiramete, eu pegaria a matriz curricular do meu estado, depois anotaria quais tópicos eu não conheço, os contaria e os dividiria pelo tempo restante que eu tenho até o dia da prova. No caso, eu dividiria um número de tópicos para cada mês restante, de forma mais igualitária possível, arredondando para cima. Depois, gerenciar os tópicos do mês segundo minha disponibilidade, fazendo anotações. Ao final do processo, basta estudar apenas as anotações até o dia da prova.

Recomendações.

O investimento em educação é importante pro nosso futuro como nação. É importante que o Brasil seja industrializado e produza tecnologia, o que é impossível sem pessoas qualificadas. É preciso que o Brasil reduza seu problema histórico de desigualdade social, o que é impossível sem cientistas humanos e filósofos. E nada disso se faz direito sem domínio da matemática e da linguagem. E tudo isso contribuiria para o desenvolvimento de nossa nação, inclusive desenvolvimento econômico. Mas seria um erro que esperássemos pelo estado como se não tivéssemos nossa parcela de responsabilidade pelo nosso futuro. O estado tem que oferecer educação, ele é obrigado a isso. Mas aceitar a educação ainda é uma escolha pessoal. Porque mesmo que você vá à força pra escola, aprender ainda requer uma postura e um caráter que só o estudante pode assumir. Se o estado quiser que somente os melhores entrem em suas fileiras, algo que a sociedade civil também quer, é preciso tanto que o estado ofereça esse caminho e que o aluno queira trilhá-lo. Sem essas duas coisas, não evoluiremos. O ENEM é apenas um dos elementos desse processo.

Existem certas coisas que não caem no ENEM, como a formação para a cidadania. É importante que a escola também nos ensine a compreender nossos semelhantes. Esse é um tipo de conteúdo que não podemos avaliar, mas que fará diferença pro aluno no presente e no futuro. A capacidade do ser humano solitário é irrelevante. Só conquistamos grandes coisas em grupo. E a compreensão entre seres humanos é um meio pra se formar grupos e mantê-los unidos. A escola entende isso, por isso disciplinas novas estão sendo incluídas. Elas não são avaliadas, mas a escola não está preocupada somente com notas. Ou, pelo menos, não deveria estar.

Publicado por Yure

Quando eu me formei, minha turma teve que fazer um juramento coletivo. Como minha religião não me permite jurar nem prometer, eu só mexi os lábios, mas resolvi viver com os objetivos do juramento em mente de qualquer forma.

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