Consciência moral.

Ao longo de nossa vida, formamos nossos conceitos de certo e errado com base no que podemos absorver de nosso meio. Tiramos tais conceitos de várias fontes: família (pais, irmãos mais velhos, responsáveis legais), amigos, religião, escola, mídia e as leis locais. O fato é que é muito difícil se manter absolutamente amoral. Na verdade, eu acho até que seja impossível a um adulto da minha idade ser amoral. A pessoa tem que ter ao menos alguns valores com os quais fazer escolhas, mesmo que sejam valores ruins.

Mas nem todos os valores nos são ensinados. Existem valores que “descobrimos”, pela nossa própria experiência. É também pela aplicação prática dos valores que nos ensinam que descobrimos quais valores nos servem ou não. Isso é especialmente verdadeiro para minorias, as quais percebem que a moral vigente no seu meio não serve a eles, o que os leva a descobrir, por sua vivência, valores novos, que talvez estejam até em desacordo com os de sua sociedade.

Graças a esses valores que recebemos, é natural que formemos nossos conceitos pessoais de certo e de errado. Podemos chamar tais conceitos de nossa “consciência”, que nos conforta quando agimos da forma “certa” e nos pune com a culpa, quando fazemos algo que nós mesmos consideramos errado. Culpa não deve ser confundida com vergonha; são coisas diferentes. Você tem vergonha do que você é, e sente culpa pelo que você faz.

Falando em termos mais propriamente filosóficos, consciência moral é a propriedade da razão de julgar como certo ou errado aquilo que fazemos. Os critérios de julgamento são nossos princípios ou valores morais. Como tais princípios são sobretudo pessoais, é normal que diferentes pessoas não estejam sempre de acordo sobre algo ser ou não “imoral”. Eu gosto muito de usar o exemplo da idade de consentimento para o sexo: há países que não veem nada de errado em uma pessoa ter sua iniciação sexual aos doze anos, mas há aqueles que não permitem legalmente tal iniciação antes dos vinte e um anos, a menos que os parceiros já tenham casado.

Elementos da consciência moral.

Podemos dizer que a consciência moral tem três elementos: princípios morais, capacidade de julgar e capacidade de autoavaliação. Lembremos que os princípios morais podem ter duas fontes: ou se formam em nós pela nossa vivência ou são absorvidos pelo meio em que estamos. Seriam nossas “máximas” de comportamento, como “matar é errado”. Nisso nós já podemos ver que muita gente obtém seus valores morais da religião (“não matar” é um dos dez mandamentos) e, no Brasil, isso é extremamente comum. Somos um povo bastante religioso, o que não quer dizer que somos uma povo muito cristão… Assim, um princípio moral é uma regra de comportamento que deve ser aplicada em um caso concreto. Se um caso concreto vai contra nossos princípios morais, temos a sensação de estarmos diante de algo imoral.

Esse processo é natural, pois a capacidade de julgar é um desdobramento natural da razão. Observe que tal julgamento não é inflexível. Pelo julgamento de um caso concreto, podemos averiguar se não podemos abrir uma exceção (desde que essas exceções não se tornem regra, o que abre caminho para a hipocrisia). Entra nesse jogo nossa emoção também. É aí que entra nossa autoavaliação. Tendo princípios morais, os usamos para julgar os outros, mas também a nós mesmos. Quando não estamos à altura dos nossos próprios princípios, sentimos culpa. É o que as pessoas chamam de “dor na consciência” ou “consciência pesada”. É preciso ter poucos princípios morais pra se ver livre da sensação de culpa. Por outro lado, pessoas que têm muitos valores morais, como os religiosos, podem se sentir culpados com muita frequência e grande intensidade. É isso que está por trás da sensação de vergonha e do desejo de melhorar a si próprio.

E é esse desejo de melhorar a si próprio que é o ponto de chegada da autoavaliação estimulada pela consciência. A vergonha e a culpa nos estimulam a rever nosso comportamento ou mesmo nossos princípios. Elas permitem que nos tornemos pessoas melhores, desde que não nos destruam. A consciência moral também nos permite aconselhar e corrigir os outros, não somente a nós. Além disso, se tivermos bons princípios, a consciência nos afastará dos maus exemplos, pois não quereremos ser como aqueles que contradizem a moral que temos. Por último, ela nos permite rever nossos valores, inclusive comunitários, nos levando a questionar se certos valores são ou não necessários. É o caso de valores conflitantes, no qual temos que avaliar qual princípio moral deve ter o primado, sempre que houver conflito, ou se precisamos mesmo de tantos valores morais. Às vezes, menos é mais. Mas só às vezes.

Recapitulação.

Nossos princípios morais vêm de várias fontes, dentre as quais podemos citar nossa experiência e nossa religião. Consciência moral é a capacidade natural de julgar as ações dos outros e também as nossas com base em tais princípios. Para que haja consciência moral, é preciso que haja princípios morais (“máximas” de comportamento ou valores gerais que nos servem como critério de “bom” e “mau”), capacidade de julgar (a aplicação desses princípios às atitudes dos outros, aprovando ou condenando) e autoavaliação (a aplicação da capacidade de julgar a nós próprios, aprovando ou condenando nossa própria conduta. A consciência moral é útil no autoaperfeiçoamento, na correção e no questionamento dos nossos próprios valores quando conflitam entre si ou com o caso concreto.

Recomendações.

Parece que algumas pessoas não têm consciência, mas eu diria que isso é apenas impressão. O que acontece é que nossos princípios morais são pessoais, então a quantidade e o tipo de nossos valores varia. Uma pessoa que não se incomoda com coisas que outros consideram imorais apenas tem valores diferentes. Alguns valores poderiam ser abandonados por estarem ultrapassados e tal atitude não é anormal: jogamos valores fora e os readotamos mais tarde, e fazemos isso desde que a sociedade existe. Quando nossos valores nos impedem de nos adaptar às circunstâncias, é hora de repensá-los. Nossos valores não deveriam atrapalhar. Valores que prejudicam a nação (como o individualismo) deveriam ser desencorajados, a fim de que o desenvolvimento do Brasil seja desinpedido. Além disso, valores que melhorariam o país devem ser encorajados (como a tolerância, a ação conjunta, a solidariedade, entre outros).

O fato de que diferentes pessoas têm valores morais diferentes é o que dá a impressão de que algumas pessoas não têm consciência. Não é que não tenham. É só que eles se incomodam com coisas diferentes. A diferença de valores é o que faz com que nossas leis sejam diferentes das leis de outros países. Considerando que valores se formam de maneira pessoal e circunstancial, deveríamos tolerar as diferenças culturais, desde que tais diferenças não afetem a nós.

Publicado por Yure

Quando eu me formei, minha turma teve que fazer um juramento coletivo. Como minha religião não me permite jurar nem prometer, eu só mexi os lábios, mas resolvi viver com os objetivos do juramento em mente de qualquer forma.

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