Política do desentendimento.

O conceito de “política” varia muito na história da filosofia, assim como variam as concepções sobre qual seria o objetivo da mesma. O que é a política e pra quê ela serve? Hoje, nós gostamos de dizer que a política é como a ética, mas a ética lida com o comportamento individual visando a felicidade ou a justiça, enquanto a política lida com o comportamento do grupo, visando o bem de todos ou, pelo menos, da maioria. Mas nem sempre se pensou assim e não há garantia de que pensaremos assim nas próximas décadas.

Para ilustrar como nossas concepções de política mudam, lembremos de alguns filósofos clássicos. Aristóteles afirma que a política tem como objetivo a partilha harmoniosa da cidade. Para Aristóteles, o ser humano, embora seja o único animal racional, não é o único dos animais políticos (nesta categoria estão inclusas as formigas e as abelhas, pois elas também são seres “sociais”). Política seria a reflexão sobre como atingir esse objetivo, que pode ser sintetizado no termo “convivência”. Já para Hobbes, a política nada tem a ver com essa história de partilha harmoniosa. É que Hobbes pensa de forma diametralmente oposta a Aristóteles: para Hobbes, o ser humano não é social por natureza e só pode se tornar gente depois de entrar na sociedade, onde abre mão de sua liberdade e não pode fazer mal aos outros, não por dever, mas por medo do que o estado poderia lhe fazer. Pesado, não é? Bom, ele também defendia que o governo ideal seria o absoluto, onde só haveria uma autoridade (incluindo aqui a fusão entre igreja e estado) que estivesse acima da lei e à qual todos deveriam obedecer em nome da paz. Será que vale a pena viver num regime repressivo só pra se ter paz? Com certeza deve haver valores maiores que a paz por aí… eu acho.

para Foucault, podemos chamar de política todas as relações de poder. Mas coisas como a organização do estado, leis e qualquer coisa que não seja a relação concreta, em ato, é chamada “polícia” por Foucault. É com base em Foucault que Rancière propõe seu próprio conceito de política… como desentendimento.

O que Rancière chama de “política”.

O filósofo contemporâneo Rancière propõe o conceito de “política do desentendimento”. Segundo Rancière, só se deve chamar de política o diálogo feito entre sujeitos diferentes, desde que falem a mesma língua. Para que tal diálogo seja possível, é preciso que cada parte veja a outra como “igual”, ao menos em termos de humanidade. Se você não vê o outro como igual em termos de humanidade, não se faz política, mas alguma outra coisa, que pode ser manipulação, exploração ou guerra, seja explícita ou velada.

Por exemplo: eu quero demolir um conjunto de casas ali pra construir uma estrada. Eu posso resolver isso com um diálogo com os moradores daquela casa e tentar relevar suas razões ou posso simplesmente solicitar que a polícia desocupe aquelas casas à força. No primeiro caso, se faz política, porque estou entrando em diálago com pessoas humanamente iguais a mim. No segundo caso, justamente por eu tratar essas pessoas como diferentes, talvez inferiores, eu não faço política, mas opressão.

Mas então, por que se chama “política do desentendimento”, se a essência da política é o diálogo? É que, como a política só pode ser feita por pessoas em estado de igualdade e isso não é frequente entre grupos com demandas diferentes, acaba que cada segmento social se fecha em si mesmo, falando sua própria língua. Quando dois segmentos dividem o mesmo lugar, ocorre conflito. É daí que vem o desentendimento. O diálogo, quando acontece, não é pacífico, pois diferentes segmentos sociais, além de não se entenderem, têm demandas distintas. A menos que cada lado seja capaz de abrir concessões ao outro, não haverá acordo. Por essa razão, fazer política é difícil. Considerar o outro como igual não é suficiente pra que a discussão termine num acordo satisfatório a ambos. Somos diferentes, temos demandas diferentes, falamos línguas diferentes, não apenas em sentido literal, mas também metafórico. Essas diferenças não podem ser negadas pra que haja um acordo de verdade. É preciso que os diferentes, mesmo quando minoria, não se calem ou finjam que são parte do outro lado. Cada lado tem que lutar por seus interesses, o que implica afirmar a diferença, em vez de abrir concessões sem receber nada em troca. Em suma: é preciso negociar. Isso é política, segundo Rancière. Tudo o mais é estranho ao conceito de política, pertencendo ao campo da “polícia”.

Recomendações.

É de suma importância compreender que Rancière não considera a política um fenômeno negativo só porque o estado padrão da humanidade é o desentendimento. Aliás, esse “desentendimento” implica diversidade de opiniões. Logo, eliminar totalmente o desentendimento implicaria a supressão da diferença, o que é indesejável. Então, se a diversidade implica certo desentendimento, é preciso aceitar que ele acontece e mitigá-lo. Se essa mitigação ocorre através do tratamento dos outros como iguais, mesmo que apenas em nossa humanidade, seríamos uma sociedade mais desenvolvida se fôssemos capazes de nos educar para ouvir o outro, mesmo que não lhes abramos concessões quando estas se mostrariam absurdas. Isso tornaria mais fáceis e mais rápidas as negociações.

Isso também ajudaria a nos entendermos uns aos outros. Com o costume de ver o outro sobretudo como um ser humano igual a mim, o desconforto de lidar com a diferença diminui. É preciso formar esse hábito e a educação é o caminho pra isso.

Publicado por Yure

Quando eu me formei, minha turma teve que fazer um juramento coletivo. Como minha religião não me permite jurar nem prometer, eu só mexi os lábios, mas resolvi viver com os objetivos do juramento em mente de qualquer forma.

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