Essencial do Sócrates.


Antigamente, os estudiosos soiam dividir a história da filosofia em antes e depois de Sócrates. Isso deve ilustrar a importância do pensamento socrático. É que antes de Sócrates, a filosofia estava interessada principalmente em questões físicas e naturais, coisas que hoje são estudadas pelas ciências da natureza. Você tinha gente como a escola jônica, que queria descobrir qual é a essência da matéria; os eleatas, que se deburçavam sobre o problema da realidade do movimento, se ele era fato ou ilusão; os mobilistas, interessados na natureza da mudança… Coisas como ética e política eram temas, no máximo, tratados marginalmente.

É aí que entra Sócrates. Ele traz pra filosofia os problemas humanos, que hoje são estudados não apenas pela filosofia, mas também pelas ciências humanas. Foi com Sócrates que os “negócios humanos” começaram a ter tratamento central, dando à filosofia a cara que ela tem hoje. Sócrates gostava de usar seu exemplo como ferramenta pedagógica, deixando que sua vida fosse sua obra. Por essa razão, ele não escreveu livro nenhum, e a maioria dos registros que temos de sua filosofia nos vem de Platão, seu aluno, ele próprio um usuário da lógica dialética.

Em termos históricos, Sócrates foi filho de um escultor e de uma parteira e se destacou na carreira militar antes de se dedicar à filosofia. Seu método consistia no que ele chamava de maiêutica, que consistia em simplesmente fazer perguntas direcionadas, a fim de que o interlocutor pudesse, “sozinho”, chegar a uma verdade qualquer. Esse método tem duas vantagens: primeiro, ele te poupa de passar vergonha, porque é mais fácil passar vergonha expondo uma ideia do que perguntando; segundo, é mais fácil levar uma pessoa aos seus limites através de perguntas, pois elas testam o quanto a pessoa realmente sabe daquele assunto.

Esse método de argumentação atraiu a ira dos poderosos sobre Sócrates, porque ele mostrava que os políticos, poetas e artesãos de sua época não sabiam sobre seus próprios ofícios tanto quanto afirmavam saber, o que reduzia seu crédito diante da população leiga. Assim, para acabar de vez com esse incômodo, resolveram acusar Sócrates de corromper a juventude e de ser ateu. A coisa foi acabar no tribunal popular e Sócrates foi, por uma margem pequena de votos, condenado à morte.

Ignorância.

Antes de Sócrates, o foco da filosofia era a natureza, com os “negócios humanos” sendo uma preocupação secundária. Com os sofistas e com Sócrates, a filosofia passa a se preocupar com a ação humana. Podemos então dizer que a filosofia socrática é humanista (o chamado “humanismo socrático”). Ele discorreu sobre um número de problemas: a ignorância, o autoconhecimento, metodologia, a morte, entre alguns outros.

Sobre o problema da ignorância, Sócrates foi apontado pelo oráculo como o homem mais sábio da cidade. Só que Sócrates se achava ignorante. Como ele poderia ser, então, o homem mais sábio da cidade? Será que o oráculo se enganara? Ele então saiu pra falar com os políticos, com os artesãos e com os poetas.

Com os políticos, Sócrates tentou ter uma conversa. Mas, quando ele começou a fazer perguntas aos políticos, perguntas sobre suas próprias opiniões, ele percebeu que os políticos nem sempre sabem o suficiente sobre suas próprias posições e sobre aquilo que eles mesmos defendem. Ele então se voltou aos poetas. Os poetas produziam ótimos textos e peças, então eles deveriam ser sábios. Só que Sócrates rapidamente se decepcionou com eles, porque os poetas com quem ele conversou não conseguiam explicar suficientemente aquilo que eles próprios haviam escrito. Por último, conversando com os artesãos, Sócrates percebeu que muitos deles, por perceberem que eram bons no ofício que desempenhavam, também se achavam entendedores de assuntos que não haviam estudado, como a política.

Foi então que Sócrates entendeu o que o oráculo quis dizer: Sócrates era o único na cidade ciente de sua própria ignorância. Todos os outros achavam que sabiam o suficiente e que não precisavam aprender mais nada. Isso é ruim porque impede a pessoa de se corrigir. Afinal, se ela já se sente “certa”, não procurará mais aperfeiçoamento e nem se depurar de seus próprios erros. É justamente porque Sócrates tinha ciência de sua ignorância que ele estava disposto tanto a abandonar seus próprios erros quanto também estava disposto a buscar mais conhecimento. Essa possibilidade de se aperfeiçoar, que só pode vir da ciência da própria ignorância, era a única coisa que tornava Sócrates o homem mais sábio da cidade.

A moral da história é que você deve sempre admitir a própria ignorância, a fim de possibilitar o próprio aperfeiçoamento, pois quem já acha que sabe de tudo nunca vai se corrigir (e é esse o pior tipo de ignorante).

Mas aí, surge um dilema: pode um ignorante ensinar algo a alguém? É possível. Quando um ignorante pergunta algo a você, claro que a pergunta instigará você a responder. Se você não souber a resposta, você se torna ciente de que não sabe aquilo, o que te estimula a ir atrás da resposta, se é que aquilo é importante pra você. Para produzir este efeito, porém, é necessário fazer as perguntas certas, as que tenham maior probabilidade de fazer o sujeito pensar.

O autoconhecimento.

Tinha esse menino com aspirações políticas, Alcibíades. Ele amava Sócrates. A ponto de ser embaraçoso. Alcibíades queria muito ser governante algum dia. Então Sócrates perguntou a ele o que é necessário para ser governante. Após um diálogo, eles concluem que o bom governante deve manter o povo no melhor estado possível e buscar o aperfeiçoamento dos súditos. Mas só é possível fazer isso se você conhecer o que é o homem.

Se você não sabe o que é o ser humano, não saberá o que fazer nem para aperfeiçoá-lo nem para conservá-lo. Uma pessoa dessas não apenas está inapta a governar a própria vida, como também está inapta para governar outros seres tão humanos quanto ela própria. Assim, qualquer pessoa que almeje uma posição de poder precisa, impreterivelmente, conhecer a condição humana. Conhecer a si mesmo naquilo que você tem de comum com os outros (sua humanidade, que é a essência do ser humano) é o primeiro passo pra ser capaz de governar e aperfeiçoar a si próprio e também aos outros. Sem isso, você será um mau administrador da sua própria vida e também da dos outros, caso chegue a uma posição de poder.

Mas como conhecer a si próprio? Segundo o próprio Sócrates, você conhece seu corpo se olhando no espelho, mas só pode conhecer a própria alma se vendo refletido em outro. Conhecer o gênero humano requer que você se veja nos outros, usando os olhos deles como espelhos pra ver a própria alma. Observe que isso é uma analogia, não algo literal. O que ele está querendo dizer é que conhecer o gênero humano e, portanto, a nós mesmos, requer a vida comunitária. Você não vai conhecer o gênero humano se isolando ou se achando bom demais pra participar do convívio com os outros.

Sabendo o que é o homem, você saberá o que é melhor para eles e como melhorá-los. Esse seria o melhor tipo de governo: aquele que não apenas governa súditos, mas também os aprimora. A pessoa que não sabe o que é o homem também não sabe o que é melhor pro gênero humano, pra si própria e nem pros outros, sendo um péssimo adminstrador até da própria vida.

A morte.

Como aprendemos, Sócrates foi condenado à morte, mas ele não sentia medo da morte. É que Sócrates afirmava que a morte só pode ser uma de duas coisas: um longo sono sem sonhos ou a ida da alma para outro lugar.

Suponhamos que o primeiro caso esteja correto. A morte seria, então, uma cessação da sensação. Não seria diferente de dormir. Todos nós dormimos e ninguém acha isso ruim. Então, por que a morte seria tão ruim assim? Por outro lado, se o segundo caso estiver correto, então não há o que temer, já que a vida continuaria após a morte. A morte seria, então, um ato nulo. Em ambos os casos, porém, a morte é uma dor para os vivos, nunca para o que morre. Não há por que ter medo de morrer.

Com isso, Sócrates zomba da pena de morte. Se a morte não é um mal, a pena de morte só é realmente uma “pena” pra quem é ignorante e não sabe que a morte não é a pior coisa que existe.

Recomendações.

Obviamente, é preciso sempre recomendar o autoaperfeiçoamento. Fala-se muito que Sócrates dizia pra nos conhecermos a nós mesmos, mas ele não falava isso apenas para que parássemos aí. No contexto do Alcibíades I, o objetivo do autoconhecimento é o autoaperfeiçoamento, primeiro como indíviduo, mas também como espécie.

Além disso, também precisamos admitir a nossa própria ignorância diante daquilo que não sabemos, em vez de querer manter as aparências, o que poderá causa embaraços. As pessoas fazem isso porque temem a vergonha de parecerem ignorantes. Mas reconhecer a própria ignorância é o primeiro passo pra aprender. Ora, aprender não é motivo de vergonha. Além disso, ao discorrer sobre o que não se conhece a fundo, você estará prejudicando o ouvinte que lhe presta fé.

Por último, investir em meios de superar o medo da morte é útil para tempos em que seja necessário tomar decisões radicais, como a guerra, a fome ou pandemias. Não estou dizendo pra nos expormos aos riscos, pois isso seria imprudente. Mas mesmo uma pessoa que não teme a morte entende a importância, no caso da pandemia, de não contaminar os outros e que, mesmo que a morte não deva ser temida, a vida é um estado certamente superior. Não obstante, perder o medo da morte impede que soframos (de angústia ou ansiedade) mesmo sem estarmos fisicamente doentes.


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