Atos e hábitos.

Como seres humanos, estamos voltados para a ação. Nossas ações se originam de escolhas e originam consequências, por sua vez. Há uma certa demanda humana para uma moral que minimize as consequências negativas de nossas ações, uma vez que ninguém gosta de sofrer, enquanto também maximize os benefícios. Isso geralmente significa que nós, seres humanos, precisamos aprender a escolher bem. Ora, toda escolha implica critérios. Podemos dizer que as primeiras filosofias morais eram reflexões sobre critérios que poderiam embasar boas escolhas e, consequentemente, boas atitudes, as quais levariam a boas consequências. No fundo queremos viver bem, queremos a felicidade. Este é o nosso objetivo enquanto estamos vivos.

Já há um monte de “receitas” pra ser feliz circulando por aí, particularmente na seção de autoajuda. Mas o que a filosofia tem a dizer sobre isso? A busca pela felicidade é um problema filosófico? Sim, é! E há filósofos que tentaram encontrar um método garantido pra ser feliz. Observe que a filosofia não pode, se quer ser séria, recomendar sem ironia uma moral que não é possível de ser seguida. Somos gente, não divindades. Vejamos se a filosofia faz um trabalho melhor que os autores de autoajuda por aí.

Virtude se ensina?

Uma coisa que meu pai e meu sobrinho costumam dizer é que algumas pessoas sempre serão más, não importando o que você faça. Platão talvez pensasse parecido. Para Platão, todo o conhecimento que pensamos que adquirimos é, na verdade, uma recordação de algo que nossa alma viu em algum lugar antes de encarnar. É assim que Sócrates sai do dilema proposto no Mênon. Se assim é, não é possível aprender nada neste mundo, apenas lembrar, através de certos gatilhos, o que havíamos visto antes de encarnar, mas esquecido por causa do acontecimento dramático que é o nascimento. No que diz respeito à virtude, isso quer dizer que ela não pode ser ensinada e depende do ambiente lembrar a pessoa de conceitos como coragem, moderação e liberalidade.

Aristóteles desce o cacete nisso. Para Aristóteles, a virtude é, sim, ensinável. É que Aristóteles vê tanto a virtude quanto o vício como hábitos. Um hábito pode tanto ser contraído como deixado, através da prática. Basta praticar e você obterá a virtude. Mas é preciso entrar em alguns detalhes: os tipos de virtude. Há dois tipos de virtude em Aristóteles: intelectuais (as quais devem ser buscadas em mais alto grau) e morais (as quais devem ser buscadas pelo justo meio). As intelectuais são coisas como inteligência, sabedoria, conhecimento prático, coisas em que não dá pra se exceder. Ninguém fala em “excesso de sabedoria”, segundo Aristóteles (que não conhecia Salomão), então as virtudes intelectuais devem ser buscadas se afastando do grau mínimo em todas as circunstâncias.

Já as virtudes morais, estas devem ser buscadas pelo justo meio. Por “justo meio”, entendemos o afastamento tanto da carência quanto do excesso em relação às nossas disposições de comportamento. Exemplo: o desejo de enfrentar o perigo. Se você tem carência do desejo de enfrentar o perigo, você é covarde. A carência aqui é identificada pela fuga dos riscos que você precisa correr. Se você foge de riscos necessários, você sofre do vício da covardia. Por outro lado, procurar riscos desnecessários revela um excesso de disposição para enfrentar o perigo. É o vício oposto à covardia: a temeridade. Tanto a covardia quanto a temeridade são prejudiciais e, por isso, são vícios. O meio-termo é a coragem, a disposição pra enfrentar o perigo em medida certa, caracterizada por enfrentar os riscos que você precisa correr, sem fugir deles, mas sem buscar perigos só pra se mostrar.

Outro exemplo é a liberalidade, que fica entre a avareza e a prodigalidade, e diz respeito à disposição para gastar dinheiro. Se você gasta sem se endividar e sem faltar dinheiro para o necessário, sua disposição ao gasto está perfeita. Se você tem falta de disposição para gastar, você não gasta nem mesmo com o necessário. Já se você gasta até contrair dívida ou até faltar dinheiro para as coisas que você precisa comprar, você está sendo pródigo.

Assim, todas as virtudes morais vêm da moderação de nossas disposições naturais, de forma que nem a falta de tais disposições ou o excesso delas nos prejudique. Tanto as virtudes morais quanto as intelectuais são hábitos, assim como todos os vícios são hábitos. Por esta razão, diz Aristóteles, é possível adquirir qualquer virtude pela prática. Por outro lado, também os vícios são contraídos pela prática: é por se acostumar a fugir que a pessoa se torna covarde, por exemplo.

O “cálculo do prazer”.

Já que demos a receita aristotélica pra agir da forma correta, falemos agora de outro cara: Epicuro de Samos. Ele é o fundador da escola filosófica que leva o nome dele, o epicurismo, também conhecido como hedonismo. É conhecido assim, porque sua filosofia é focada no prazer. O prazer é entendido por Epicuro como um remédio para a dor. A ausência de dor é o que Epicuro conceitualiza como felicidade. Assim, ser feliz é não ter do que reclamar no momento. Este conceito de felicidade é encontrado em outras escolas filosóficas desse período.

Mas não é qualquer prazer que deveríamos procurar. Epicuro propõe um cálculo do prazer. Funciona assim: devemos procurar quaisquer prazeres que não venham acompanhados de uma quantidade de dor tamanha que faça o prazer não valer a pena. Se você fala C, estou dizendo que “(P > D) ? return true : return false”, onde P é prazer e D é dor. Assim, desde que o prazer seja superior à dor implícita em um ato, ele é válido. Com isso, Epicuro classifica os prazeres em três tipos: naturais necessários, naturais desnecessários e artificiais.

Prazeres naturais necessários sempre passam no cálculo do prazer: tomar água, comer, dormir, ir ao banheiro… Afinal, se você se abtém desses prazeres, você morre. Já os prazeres artificiais, como a fama e a fortuna, nunca compensam, porque a quantidade de dor que vem acompanhado dessas coisas é sempre maior que o prazer que delas poderia advir (basta pensar nas pessoas que enlouqueceram por causa da fama).

Já no caso dos prazeres naturais, mas desnecessários, você deve avaliar em cada caso se vale ou não a pena buscá-los. O exemplo mais óbvio disso é o sexo. Suponhamos que você seja uma dessas raras pessoas que sentem atração sexual por crianças. Não estou julgando você, mas pense comigo: vale a pena, por uma tarde de prazer, se expor ao risco de pegar até quinze anos de cadeia? Logo, este prazer é daqueles que você deveria se abster. Afinal, sexo não é como comida e você não vai morrer de celibato. Outro exemplo: você ama comida doce. Comer, em geral, é algo que você sempre deveria buscar quando sente fome, mas existem certas comidas que certas pessoas deveriam evitar: não vale a pena pro diabético o consumo de açúcar. A longo prazo, consumo repetido de açúcar deixará o diabético cego ou pior.

Assim, viver sabiamente seria se entregar apenas aos prazeres que nos permitem viver melhor. Se determinado prazer te causa mais problemas do que benefício, é um hábito digno de ser eliminado.

Ataraxia.

Um outro grupo de filósofos, os estoicos, julgavam que o caminho para a felicidade é a tranquilidade, imperturbabilidade, ou ataraxia. Seu objetivo é buscar um estado de espírito tranquilo. Você não precisa estar alegre pra ser feliz, só despreocupado. Mas o caminho através do qual os estoicos chegaram a essa conclusão é um pouco menos evidente do que a própria conclusão…

Para os estoicos, cada ser deve agir segundo sua natureza. A natureza humana é a razão, então temos que viver segundo ela por uma questão de compromisso com nossa humanidade. Nossos sentidos nos mostram que o universo está em ordem, ao passo que nossa razão diz que a ordem só pode vir de um projeto, de um ser inteligente, ou não haveria ordem, mas caos. Então, das duas uma: ou o universo é ordenado por um ser inteligente (como querem os cristãos, por exemplo) ou o próprio universo é racional. Assim, se o universo inteiro é ordenado, há uma inteligência maior que nós no comando de tudo. Se é assim, tudo aquilo que escapa ao meu controle deve ser aceito, como obra de um universo muito mais sábio que eu.

As coisas que estiverem sob meu controle requerem minhas ações, mas aquelas que não estão requerem minha aceitação e adaptação. Acreditar que as coisas que me fogem ao controle estão nos planos de um universo racional ajuda nesta tarefa. Assim, é possível chegar a um estado de espírito tranquilo simplesmente “deixando de lado” as coisas sobre as quais eu não posso agir. É o que fazem muitos cristãos hoje em dia: deixar nas mãos de Deus. Isso os permite levar uma vida mais sossegada e com menos preocupações, embora pessoas de menos fé pensem que há razões de sobra pra sentir raiva ou tristeza. Em última análise, o estoicismo é uma filosofia de resignação com vistas à despreocupação.

Ética e política.

Eu gosto de dizer que a ética é a reflexão sobre o agir correto individual e a política é a reflexão sobre o agir correto em grupo. Será que não poderíamos encontrar a felicidade mais facilmente usando uma ação coletiva, em vez de tentar apenas ações individuais? Já pensou nisso? Maioria das “receitas pra felicidade” envolve um esforço individual, mas nenhuma dessas receitas populares envolve esforço grupal. Será que um sistema político, de organização social, não poderia nos levar à felicidade um pouco mais rapidamente?

Thomas Morus talvez estivesse pensando nisso quando escreveu a Utopia. Trata-se da descrição de uma ilha com um sistema de organização perfeito, pros padrões de Morus. A ideia de Morus era criar um sistema que pudesse conduzir uma sociedade fictícia à felicidade (Morus sabia que seu sistema seria impossível na prática). Assim, ele pensou em um número de regulações à sexualidade (o menino pode se casar já aos quatro anos, mas a mulher só pode se casar a partir dos dezoito), à guerra (tanto o homem como a mulher devem participar do esforço bélico), à morte (Morus considera aceitável que uma pessoa cometa eutanásia se o que recebe o ato estiver de acordo e estiver em grande dor ou com doença terminal), entre outros.

Mas a regulação mais interessante que Morus imagina é a regulação do trabalho. Para ele, a sociedade tem um grande número de desocupados ou subocupados, de forma que a maior parte da riqueza da sociedade é produzida por um número de gente menor do que poderia ser. Se você der um emprego, idealmente, a todos, ninguém precisará ter uma jornada de trabalho longa para manter o nível de conforto que temos hoje. A Islândia fez esse experimento e instaurou uma “semana de quatro dias”: você só trabalha de segunda à quinta. Assim, tirou-se da população um dia inteiro de trabalho. E… não houve queda sensível na produção de bens e riqueza. Assim, em locais onde o desemprego é menor, cada trabalhador pode se dar ao luxo de trabalhar menos.

Então, talvez a busca pela felicidade pudesse ser feita mais conscientemente além do nível meramente individual. Talvez por isso as “receitas” pra ser feliz fracassem: elas põem toda a responsabilidade em você, como se você vivesse sozinho no mundo. Infelizmente, pensar dessa forma também implicaria dizer que a felicidade não é um objetivo fácil de ser obtido… Afinal, não temos controle sobre a forma como os outros agem. Que dilema…

Por que tanta discórdia?

Por que os métodos pra se chegar à felicidade variam tanto de pessoa pra pessoa, povo pra povo, escola pra escola? É que “felicidade” é um negócio relativo: diferentes pessoas põem sua felicidade em coisas diferentes e isso faz com que não haja acordo entre filósofos, povos e éticas acerca de como agir. Isso levou gente, como Kant, a pensar se não haveria, pelo menos, um princípio moral com o qual todos possamos concordar. Pra isso, primeiramente, precisamos deixar a felicidade de lado e buscar um objetivo mais fácil de gerar concórdia: justiça. Com Kant, a ética passa a se preocupar com a justiça mais que com a felicidade, dando à ética a cara que ela tem hoje.

Kant afirma que um princípio com o qual todos podemos concordar é o tal do imperativo categórico. É imperativo porque é uma ordem e categórico por não permitir exceções. Tal imperativo pode ser descrito na fórmula “aja como se sua ação fosse se tornar lei da natureza”. Em outras palavras, você deve agir como se todo o mundo fosse te imitar. Assim, sempre que você estiver em um dilema moral, você deve pensar: “e se todo o mundo agisse como eu vou agir agora?” Se o mundo se tornasse mais justo se todos adotassem a mesma atitude que você, então você não apenas pode agir dessa forma, você deve. Você, como sujeito ético, tem um compromisso (dever) com a justiça. Então, se o mundo fosse se tornar mais justo se todos agissem como você age, então você é obrigado a agir dessa forma. Se o mundo fosse mais injusto se todos agissem como você age, então, por uma questão de dever, você é obriado a mudar sua atitude.

Eu já falei sobre isto antes, então não há necessidade de repetir o exemplo do suicídio. Mas há outros exemplos: o mundo seria mais injusto se todo o mundo desse calote, então ninguém deveria dar calote ou contrair débito sem ter intenção de pagar, entre outros.

Esqueça felicidade e justiça, foque-se no poder.

Friedrich Nietzsche pensa de uma forma distinta. Para ele, felicidade é a sensação que se tem quando um obstáculo é superado. Então, se você buscar o poder, em primeiro lugar, a felicidade virá por consequência. Pensar somente na felicidade, como fizeram os antigos, é algo fraco e que deve ser evitado. E quanto à justiça? Bom, na genealogia da moral nietzscheana, existem dois tipos de moral, com seus próprios caracteres de justiça: a moral dos perdedores e a dos vencedores. Na moral dos vencedores, o bom é aquilo que te torna mais forte e mais capaz, enquanto que a moral dos perdedores, justamente por se sentir oprimida, demoniza aquelas coisas que o forte tem (riqueza, beleza, inteligência, entre outros), considerando justo aquilo que está em oposição ao seu opressor.

Vamos lá, pense comigo… seja sincero… Se você estivesse por cima, rico, com saúde, com doutorado… você pensaria em coisas como “igualdade”? Pra Nietzsche, só pensa em igualdade quem já se reconhece fraco. Em vez de querer ascender, ele quer que o rico caia. Esse é o raciocínio subjacente à genealogia da moral: bom é aquilo que o forte faz e que contribui com sua força; tudo aquilo que se opõe a isso é fraco e mau, em sentido próprio. Somente os fracos invertem este racioncínio e o fazem pra ferrar o forte.

Outra característica das morais do vencedor e do perdedor é a fonte dos valores. Na moral dos vencedores, o forte dita os valores, de forma que há pessoas boas e pessoas ruins, ao passo que, na moral dos perdedores, há ações boas e ações ruins. Assim, na moral dos perdedores, há coisas que sempre serão ruins (ou, pelo menos, deveria haver).

Você já deve ter percebido como isto fica em forte contraste com o imperativo categórico kantiano. Nietzsche não está muito aí pra justiça ou pra felicidade. A felicidade será um biproduto da sua força, da sua ascenção, do seu aperfeiçoamento. E a justiça será aquilo que o forte ditar. Por isso, seja forte.

O pragmatismo.

Existe uma escola filosófica norte-americana chamada pragmatismo filosófico. Para os pragmáticos, o valor de algo deve ser julgado por suas consequências. Então, como agir? Você deve pensar nas consequências das suas ações pra responder a isso. Diante de várias opções, pense: que diferença faz? Aquela opção que te trouxer mais felicidade, com o mínimo de dor, será a mais correta a seguir. Se formos fazer como fazem os utilitaristas, tal cálculo não pode ser feito pensando somente em nós: é preciso levar em consideração a dor e o prazer causados também a outros. Então, aquilo que acarreta as melhores consequências é o que deveríamos fazer.

Você quer felicidade? Pense em quais escolhas te trariam mais felicidade e as tome. Justiça? Mesma coisa. Poder? Também. No pragmatismo, a escolha correta é a que traz os melhores resultados.

Recomendações.

Assim, vemos que também a filosofia tentou dizer a nós como deveríamos agir. A princípio, a filosofia queria que fôssemos felizes, mas como diferentes coisas tornam diferentes pessoas mais ou menos felizes, é claro que uma ética voltada para a felicidade não entraria em acordo consigo própria. Kant tentou resolver isso criando uma ética do dever, mas poucas pessoas optariam por ser justas se tivessem que escolher entre justiça e felicidade. Será que não haveria um equilíbrio entre os dois?

Talvez haja: nos pautar pela busca pela felicidade em ações que afetam somente a nós, mas pela justiça em ações que afetem outros. Não há nada de errado em buscar a felicidade individual na medida em que isso não atrapalhe os outros. Por esta razão sou bastante atraído por ideias como o minimalismo ou o utilitarismo. No entanto, em nosso trato com os outros, deveríamos nos pautar mesmo pela justiça, tanto por causa de nós como por causa deles.

Como a busca pela felicidade é algo extremamente pessoal, é natural que diferentes pessoas tenham morais diferentes, o que pode mesmo se refletir em nível comunitário, em locais onde as necessidades são outras. Felicidade é o que todos queremos, mas as diferentes tanto no conceito de felicidade quanto nos meios para lá chegar é uma das coisas que tornam as pessoas e também os povos diferentes.

Publicado por Yure

Quando eu me formei, minha turma teve que fazer um juramento coletivo. Como minha religião não me permite jurar nem prometer, eu só mexi os lábios, mas resolvi viver com os objetivos do juramento em mente de qualquer forma.

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