Ética empresarial.

Pois é, eu dei uma aula sobre isso. É um erro pensar que nós, professores, só damos aulas do que escolhemos. Mas, quando eu cheguei pra substituir um professor em uma escola, eu tive que trabalhar com o plano anual dele. Por esta razão, acabei dando aulas sobre coisas que eu… não gosto muito de ensinar. E tem a Matriz de Conhecimentos Básicos e coisa e tal. Enfim.

Fonte: https://br.blastingnews.com/economia/2016/12/por-que-o-governo-nao-fabrica-mais-dinheiro-para-tirar-o-brasil-da-crise-001312427.html .

A primeira coisa a entender quando se discute ética empresarial é que empresas estão atrás do dinheiro, por mais éticas e boazinhas que possam parecer. Então, quando uma empresa muda suas atitudes pra ser mais “verde” ou “inclusiva”, não se engane: é uma tática pra aumentar seus lucros. É que nossa sociedade está mais e mais preocupada com a ética em todos os lugares em que ela poderia se encontrar. Então, a empresa que agride o meio-ambiente desnecessariamente ou que não está engajada em projetos sociais sofre boicote ou coisa pior. Não é que a empresa é “do bem”, mas só que esta é a forma encontrada de maximizar lucro. Ninguém pode culpar o empresário por isso, óbvio: qual o sentido de ter uma empresa, qualquer que ela seja, se não for pra ter lucro? Se não der lucro, você abre falência e fecha a empresa, causando desemprego e desequilíbrio na cadeia produtiva, dependendo de que tipo de empresa você tem e do tamanho dela. Isso explica por que é comum empresas agirem antieticamente também: uma falência pode afetar bem mais que somente o pessoal da empresa que faliu. Assim, a empresa que quer evitar algo assim pode se ver forçada a agir até mesmo contra a ética. Tendo isto em mente, comecemos…

Obviamente, eu não pretendo tratar da ética empresarial por completo aqui, mas apenas dois pontos cruciais: propaganda e monopólio. Isso porque esta aula foi originalmente dada pra adolescentes e tinha que caber em cinquenta minutos. Não valia a pena dar muita teoria (bem-vindo ao novo ensino médio) e a aula não poderia mesmo ser de altos padrões.

Propaganda versus ação concreta.

Aristóteles inventou um negócio chamado ética das virtudes, segundo o qual existem dois tipos de virtudes: intelectuais e morais. Foquemos nas morais. As virtudes morais são obtidas pela moderação de nossas disposições naturais. Assim, a disposição para enfrentar o perigo, quando moderada pela razão, produz a virtude da coragem, ao passo que a falta dessa disposição produz a covardia e seu excesso produz a temeridade. Nada em excesso, mas também nada em falta, no que diz respeito às virtudes morais.

Sabemos que o feminismo é uma das mais efetivas peças de propaganda no arcabouço midiático. Então, a Gilette, pra melhorar suas vendas de barbeador, resolveu criar um anúncio contra a masculinidade tóxica. Primeiramente: o homem precisa saber que ele, assim como a mulher, pode ser o que ele quiser, não precisando ficar preso ao modelo de masculinidade hegemônica, que vem sendo qualificada como tóxica, na medida em que prejudica o convívio social ao redor dele. Mas, em segundo lugar, você não deveria exagerar nessa mensagem. O anúncio mostrava a maioria dos homens como sendo coniventes com a violência ou propensos ao assédio sexual, com apenas as exceções lutando contra esses comportamentos.

A marca sofreu um boicote por parte de seus principais clientes: homens. Você não faz um anúncio de um produto usado predominantemente por homens mostrando a maioria dos homens como “tóxicos” e o comportamento educado como algo encontrado em “exceções”. A Gilette exagerou.

Com um pouco só de adaptação, a ideia aristotélica da moderação pode ser adaptada ao ramo da propaganda. Você não pode exagerar, mesmo quando tenta promover sua marca com “boas” mensagens de “justiça social”. Isso não apenas é forçado, como muito perigoso para as suas vendas.

Qualquer pessoa que vê o comercial sabe que aquilo é uma tática de marketing. Então, por que não usar ações concretas para mostrar que sua empresa está interessada no bem-estar das pessoas? A ética do dever, aquela do imperativo categórico, também pode ser abordada nesta discussão. O imperativo categórico é uma ideia kantiana, segundo a qual você deve assumir comportamentos que todos poderiam imitar sem que tal imitação tornasse o mundo mais injusto. Seja a empresa que você gostaria que todas fossem. Embora isso seja bonito no papel, na prática pode ser difícil de seguir… Não obstante, as pessoas gostam desse tipo de atitude. Seria interessante, então, a empresa adotar uma postura mais kantiana que maquiavélica, posto que isto está em alta (observe aqui que a bondade da empresa está sempre subordinada às perspectivas de lucro, como vai sempre ser). Até porque, usando padrões éticos altos, você se torna competitivo, pois as pessoas poderão comprar os produtos da empresa por seu compromisso com a ética, tornando outras marcas preteridas. Várias empresas estão verdadeiramente engajadas em causas sociais. Vimos isso na pandemia, com o setor privado oferencendo víveres aos mais necessitados no auge do colapso econômico. As pessoas gostam disso e isso valoriza sua marca mais que palavras vãs. Outro exemplo é o cuidado que a empresa tem com seus funcionários, que pode ser manifestado pela redução da jornada de trabalho. Eu já citei aqui o exemplo da Islândia, que reduziu o número de dias úteis pra quatro e não houve queda sensível na produção de bens e riqueza.

Importância da competição.

Hegel era um cara estranho e até escandaloso. Para ele, a guerra é uma coisa positiva. A guerra é uma possibilidade de afirmar sua personalidade frente à de outra nação, unindo os seus em direção a um objetivo comum. Assim, Hegel considera a guerra uma coisa boa. Até porque a guerra é uma dialética e, por isso, uma oportunidade de mudança e progresso (Marx vai dizer que o motor da história é, realmente, o conflito, mas o conflito específico entre opressores e oprimidos). Embora ninguém hoje concorde com Hegel ao dizer que a guerra é um negócio que jamais deveria ser erradicado em um mundo saudável, a “guerra” pode ser necessária no ramo empresarial.

Pense na seguinte possibilidade: uma empresa se torna a única em seu ramo, após conseguir levar todas as outras à falência. O que vai acontecer é que os consumidores não terão pra onde ir pra conseguir os produtos daquele ramo. Justamente por causa da falta de escolha, a empresa pode oferecer o produtor pelo preço que ela quiser. Ademais, justamente porque os consumidores são obrigados a comprar de tal empresa, ela não tem incentivo pra melhorar seu produto. Isso se chama monopólio: quando uma empresa tem uma presença demasiado grande em determinado ramo, o consumidor é quem fica prejudicado.

A competição entre empresas, então, é necessária, tanto para manter o equilíbrio dos preços como para incentivar o aumento da qualidade do produto ou serviço prestado pelas empresas em competição. Quem ganha com isso somos nós, os consumidores.

Especificamente em relação à melhora da qualidade do produto, podemos dizer que Hegel tinha alguma razão ao afirmar que o conflito pode produzir algo bom. A competição nos incentiva à mudança. Por isso também Marx afirma que o fim da história (o fim das revoluções sociais) coincide com o fim das classes sociais, pois tal coisa colocaria um fim às tensões entre opressor e oprimido. Hegel repudiaria uma ideia dessas, mas Marx considera a superação das classes e dos conflitos um estado melhor de vida.

Recomendações.

O dinheiro faz nosso mundo girar, basicamente. Quem movimenta dinheiro tem o poder. Assim, é preciso que entendamos que privar empresas de nosso dinheiro nos dá uma certa capacidade de mudar alguma coisa. Existe um modo de reação à injustiça chamado “greve de consumidores” ou “consumo zero”. Quando você consome pouco, você prejudica a economia, o que pesa não somente no bolso dos empresários, mas até do estado. Comprar ou deixar de comprar também são formas de ativismo, formas de apoiar ou retirar apoio a uma causa qualquer. A empresa em questão está fazendo algo com que você não concorda? Pra que, então, comprar dela? Afinal, fazendo isso, você fortalece uma empresa que faz o que você não gosta.

Não devemos achar escandaloso que as empresas mudem de comportamento pra algo melhor motivadas pelo lucro, não por razões “reais” ou “do coração”, sei lá. Isso é normal. Claro que as empresas vão atrás do lucro. Se agir de forma a prejudicar o meio-ambiente está se tornando impopular, óbvio que as empresas investirão em modos verdes de produção, se quiserem manter o lucro delas. Isso não é nada desesperador. Temos que nos focar nos efeitos, não nas motivações. O que importa é tornar o capitalismo mais tolerável, não exigir que as empresas mudem “pelas razões certas”. A ética não precisa ser um moralismo.

Publicado por Yure

Quando eu me formei, minha turma teve que fazer um juramento coletivo. Como minha religião não me permite jurar nem prometer, eu só mexi os lábios, mas resolvi viver com os objetivos do juramento em mente de qualquer forma.

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