Pedra, Papel e Tesoura.

25 de fevereiro de 2017

Eu assiti “Deus Não Está Morto.”

Filed under: Entretenimento — Tags:, , , — Yure @ 12:37

Preciso dizer, de imediato, que eu não gostei. Hoje, antes de ser atendido no oftalmologista, passaram um filminho pra que pudéssemos esperar. Eu levei papel pra desenhar, mas, depois que dilataram minha pupila, não tive outra distração fora o filme. É interessante em muitos aspectos, mas o que me faz não gostar desse filme é que algumas coisas são gravemente tendenciosas.

Primeiramente, o único filósofo do filme é antiteísta, isto é, ele não apenas não crê como quer que os outros não creiam. É o tipo de ateu que quer que os outros sejam ateus como ele. Fora ele, todos os filósofos mencionados no filme são ateus, com a exceção de Sócrates. Isso dá a impressão, pro leigo que não sabe o que é filosofia nem o quanto a religião deve a esta, de que filosofia é coisa de ateu e que a filosofia te tornará ateu se você deixar. Diga-se de passagem, se você é um cristão tradicional e que acredita na Trindade, saiba que a ideia de um Deus que é uno e trino é filosófica. A Bíblia sozinha não pode sustentá-la. Eu não ficaria admirado se usassem esse filme como argumento pra tirar filosofia das escolas completamente. Estudos e práticas já é ruim o bastante. Se bem que filme não é argumento: uma ficção produzida no exterior não deve ser usada pra explicar a realidade nacional.

Além disso, o professor é uma caricatura, mas nem todos têm a maturidade pra reconhecer um comportamento exagerado na ficção. Suponhamos que um professor como aquele exista e queira forçar seus alunos a abdicarem de sua fé. No Brasil, um aluno poderia dar queixa dele por intolerância e abuso de autoridade. Ele poderia ser preso por isso. Então, nunca um professor em sua sã consciência chegaria tão longe como aquele cara. Eu cursei filosofia, por sete penosos anos, na Universidade Estadual, pra obter licenciatura, e sei que uma situação como aquela seria insustentável, fora que muitos dos meus professores eram cristãos (havia muitos ateus também), dos quais alguns se especializavam em autores judeus, mesmo crentes em Cristo.

Outro problema é colocar o Islã sob uma ótica estranhamente negativa. A família muçulmana que aparece no filme tem uma filha infeliz que quer abandonar a fé pra se tornar cristã. No filme, inclusive, ela é vista sendo “tentada” pela Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios, capítulo 15 mais especificamente. Pro Islã, bem como para alguns cristãos mais liberais, Paulo é um corruptor da doutrina de Jesus. Então, a escolha por Paulo pra “desvirtuar” a muçulmana foi feita por alguém que sabia o que estava fazendo ou, pelo menos, fez uma escolha peculiar com base na sorte.

O último problema é que o cristão do filme, o mocinho, é filiado a uma denominação específica. Julgando pela cruz que ele carrega e pelo templo ao qual ele atende, bem como sua crença explícita na Trindade, ele é católico. Então, o filme não representa todos os cristãos, mas vê as coisas por uma ótica especificamente católica e conservadora (ou protestante disfarçada de católica). Em outras palavras, o filme, embora tenha argumentos filosóficos sólidos pra defender a fé, é, em última análise, um propagador de opinião. É propaganda.

Falo isso não como um ateu, porque eu não sou. Mas como uma pessoa preocupada com as implicações sociais desse filme num país majoritariamente católico com crescentes comunidades protestantes. Talvez ele fomente uma divisão ulterior entre os tons de cristianismo, quando existem pontos que nos unem, além de criar, mesmo que sem querer (supondo que não foi feito de propósito), preconceito contra filósofos e outras religiões abraâmicas.

Older Posts »

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: