Analecto

4 de maio de 2020

Audio “VGM” em um sistema GNU/Linux.

Filed under: Computadores e Internet, Jogos, Música, Passatempos — Tags: — Yure @ 14:52

Nesta semana, eu recebi um e-mail de um podcaster, me agradecendo pelo meu guia sobre como fazer o Audio Overload funcionar em Ubuntu. Eu respondi ao e-mail com outras instruções sobre alternativas nativas ao Audio Overload e percebi que isso daria um bom texto pra este site. Então, né? Vamos tentar. Neste texto, eu quero mostrar como fazer o Audio Overload, doravante “AO”, funcionar em MX Linux, o qual é baseado em Debian. Isso deve tornar o guia válido também pra outras plataformas baseadas em Debian, como o próprio Ubuntu e também LMDE. Também quero mostrar alternativas nativas ao AO.

AO é um programa que executa 33 tipos de áudio relacionados a jogos eletrônicos e computadores antigos. A lista vai do AHX do Commodore Amiga até o YM do Atari ST, passando pelo SPC do Super Nintendo, o VGM do Sega Megadrive, e formatos não tão obscuros, como MOD e S3M (embora não SID, XM ou IT). É a porta de entrada pra emulação de áudio dessas plataformas e foi o primeiro programa do gênero que eu usei, quando eu tinha uns dezesseis anos, ainda na época do Windows Vista.

O problema do AO é que ele foi feito compatível com o Open Sound System (OSS), que hoje é quase uma peça de museu pra usuários modernos de sistemas do tipo GNU/Linux. Sistemas baseados em Debian normalmente geram som utilisando Pulseaudio. Isso faz com que o AO, quando executa em um sistema Debian, não consiga encontrar o diretório /dev/dsp, o que resulta em mudez. O programa lança, parece normal, mas não é capaz de produzir nenhum som. Felizmente, o Pulseaudio tem uma ferramenta chamada padsp, que permite a execução de programas compatíveis com OSS sem a necessidade do OSS.

Então, você baixa o AO primeiro e extrai o conteúdo do ficheiro. Supondo que você tenha baixado a versão de 64 bits, a extração resultará numa pasta chamada “AudioOverloadLinux64”. Pegue essa pasta e coloque-a no seu diretório Downloads (é uma pasta que fica junto de Documentos, Música, entre outros). Abra, em seguida, um Terminal novo. Digite no terminal “padsp Downloads/AudioOverloadLinux64/ao”, sem aspas, e aperte enter. Entenda que comandos em sistemas do tipo Unix são sensíveis à caixa, então letras maiúsculas no comando devem ser mantidas. Não adianta digitar tudo em minúsculas ou maiúsculas; é preciso que cada letra no comando seja mantida na caixa em que está (com o D de “Downloads” maiúsculo, bem como o A, o O e o L). O programa deve executar, então, e deve haver som. O comando deve ser repetido em um Terminal novo sempre, mas o processo pode ser facilitado com um script se você for forte e hábil.

Caso você (1) não tenha conseguido com o método acima, (2) precise executar um formato não suportado pelo AO ou (3) não tem saco pra baixar um programa novo, há alternativas nativas. Se você está com um sistema baseado em Debian, você provavelmente tem o Gstreamer instalado. No MX Linux, você tem o VLC instalado também e o Clementine. Vai lá, experimenta. Simplesmente pegue uma música de jogo qualquer em um formato e tente executá-la no VLC ou no Clementine. É tentativa e erro, já que não há uma lista completa de mídias suportadas pelos plugins do Gstreamer. O que eu sei é que, por padrão, o VLC executa AY, GBS, GYM, HES, KSS, NSF, NSFE, SAP, SPC, VGM, VGZ, MOD, XM, S3M, IT, DBM, MED, MID e, com a instalação de sidplay, sidplay-base e sidplayfp, também executa SID. Além disso, outros formatos comuns, como MP3, OGG, WAV e FLAC também executam.

O suporte a todos esses formatos vêm dos plugins do Gstreamer, que são utilizados por outros programas também, com Rhythmbox, Banshee e o Soundconverter (de forma que seria possível converter SID ou SPC pra MP3 ou OGG, por exemplo, mas muito cuidado com isso, já que as músicas dão voltas por padrão e a conversão pode nunca terminar, tendo que ser abortada manualmente quando “já tá bom”). Então, certifique-se de que os seus plugins do Gstreamer estão instalados. Você pode instalá-los, caso já não estejam, pelo MX Gestor de Software, na aba do repositório “stable”, ou no seu gestor de programas padrão. Os pacotes que você procura são gstreamer1.0-plugins-base, gstreamer1.0-plugins-bad, gstreamer1.0-plugins-good e gstreamer1.0-plugins-ugly.

Captura de tela do Protracker. Foto de Gürkan Myczko. Fonte: Wikimedia Commons.

Uma última palavra em relação ao formato SPC é que o Gstreamer não é capaz de fazer descompressão transparente de RSN. Então, se as músicas que você tem foram baixadas do Snesmusic.org, você terá que extraí-las de dentro do RSN baixado, o que pode ser feito com o descompressor que você tem por padrão. Caso não dê certo, vá ao seu gestor de software e baixe o unrar, aí tente de novo (RSN é apenas RAR com nome chique).

Um outro método é através do Kodi. Instale o Kodi pelo seu gestor de software e abra-o. Através dele, da própria interface, procure dentre os plugins disponíveis um que se chama Modland. Instale-o e execute-o no Kodi através de sua interace e você verá uma barra de pesquisa. Digite o jogo, sistema, autor ou música que você quer e toque-a, não precisa guardá-la no HD. Esse método permite transmitir a partir do servidor Modland qualquer música nele hospedada desde que tal música possa ser convertida em OGG ou MP3 pela Modland Web Interface, hospedada no site Exotica.

O bom deste método é que ele (1) permite que você ouça música sem ter que guardá-la no HD e (2) ele é o único meio que eu conheço que te dá acesso a todos os formatos exóticos do Commodore Amiga, incluindo o fabuloso TFMX, usado em Turrican 2. O problema é que ele depende da atividade tanto do Modland quanto do Exotica. Se houver um problema em qualquer dos servidores, também o método torna-se inútil. Fora isso, ele também não lê subsongs em SID. Além disso, subsongs em formatos como SNDH e AY são tocadas no mesmo arquivo convertido. Então, você não pode avançar a música. Você é obrigado a esperar a primeira acabar pra ouvir a seguinte.

Se você estiver tentando executar um áudio com subsongs, programas que usam Gstreamer podem te deixar na mão, porque o Gstreamer é geralmente compilado sem suporte a subsongs (é quando o arquivo abre e você vê que tem várias músicas em um arquivo só). Se isso é um problema pra você, instale o Audacious, que é um reprodutor de mídia que usa seus próprios plugins, em vez do Gstreamer. Ele tem suporte a subsongs, mas lembre de instalar os pacotes do tipo sidplay discutidos anteriormente, se a emulação de SID for imprescindível. Audacious também não é capaz de descompressão transparente de RSN, então leia os parágrafos sobre o Gstreamer pra saber o que fazer. Outros programas de Linux que podem quebrar um galho são o XMP e o Deadbeef (especialmente bom pra SID).

Uma coisa interessante de mencionar é que você não precisa de um computador de mesa ou de colo pra ouvir esse tipo de música. Se você dispor de um celular com sistema Android, você pode usar o ZX Tune para o mesmo propósito. O ZX Tune também tem a vantagem do Kodi + Modland de que você tem acesso a repositórios de música e uma barra de pesquisa (a qual, a bem da verdade, não funciona muito bem). Então, as músicas não precisam estar em seu cartão de memória ou telefone, se estiverem em um dos múltiplos servidores habilitados por padrão.

Por último, é possível executar programas desenvolvidos em Windows pra esse fim, como o Foobar 2000, o XMP e a combinação Winamp + Chipamp. Pra isso, você precisa antes instalar o Wine, que é o programa que torna possível a execução de programas simples de Windows em um sistema Unix. Baixe o Wine e esqueça-o. Em seguida, baixe o instalador do programa que você quer usar e dê um duplo clique no instalador do programa que você baixou, como faria no Windows, e siga as instruções do instalador. E isso é tudo. Se o que você queria era só mesmo ouvir música de jogo no seu Linux, pode parar de ler agora, porque vou começar a falar dos livros que eu li nesta semana.

Arte poética.

Neste livro, Aristóteles trata da poesia de seu tempo, de suas característicos, objetivos e métodos. Ele cita a epopeia, a poesia trágica, a comédia, a poesia ditirâmbica, a aulética e a citarística, as quais se diferenciam no uso (ou desuso) do ritmo, da linguagem e da harmonia, bem como dos objetos nelas retratados e o modo de os retratar. Assim, diferentes tipos de poeta podem ser identificados. Mas o que diferencia um poeta (de qualquer tipo) de um sujeito comum não é a apresentação de uma ideia em versos, mas o objetivo que se quer atingir. A poesia “de verdade” não é informativa ou científica, mas artística.

Aristóteles segue então falando dos tipos de personagem encontrados nesses trabalhos. Alguns poetas mostram o homem como sendo igual a todos nós, um cara normal. Outros, particularmente os que escrevem comédia, mostram o personagem como alguém vicioso, idiota ou, de alguma forma, abaixo da média. Já outros, como os que escrevem poesia épica, falam de um homem melhor que a média. Isso também é verdade na prosa, não somente na poesia.

Mas qual é a origem da poesia? Aristóteles põe a poesia na classe das artes imitativas. A poesia de seu tempo contava histórias (como os cordéis nordestinos o fazem), ou seja, simulavam um relato real. Ele diz que a tendência humana à imitação, a qual experimentamos desde criança e que possibilita os primeiros conhecimentos, é um aspecto da nossa natureza que proporcionou a invenção da poesia. Assim, gostamos da imitação, tanto que a apreciamos quando nos falta o original ou quando o original é insuportável. Por exemplo: por que nós assistimos filmes de horror? Porque passar por aquela experiência ou assisti-la ao vivo seria intolerável, doloroso, mas temos curiosidade em saber como deve ser. Por isso ficamos com a imitação, com o “horror controlado”. E há quem goste e ativamente persiga oportunidades de interpretar tais papeis. Mas, embora hoje tal gênero de representação seja popular, os mais populares na época do Aristóteles eram a tragédia e a comédia.

Meninos, como alegoria da música. Autor: Giovanni Andrea Podestà. Fonte: Wikimedia Commons.

No caso da comédia, ela mostra o ser humano em seu mais ridículo estado. Ela não mostra as falhas graves de caráter, que tornam a pessoa ruim ou “má”, caso no qual tais falhas (como a sanguinolência ou o sadismo) seriam trágicas. A comédia lida com as falhas ridículas (luxúria, de certa forma, e a cobiça seriam exemplos) e peculiaridades, que põem o sujeito em situações engraçadas.

Já a tragédia, tem por efeito causar emoções negativas, de maneira controlada, em que assiste ao espetáculo. Para Aristóteles, o objetivo da tragédia é causar uma catarse. Você assiste outro passar por aquilo que você teme passar, o que lhe permite uma naturalização e subsequente perda do medo. Ironicamente, assistir filmes sobre algo que você teme pode te ajudar a vencer o medo, portanto. Assim, a tragédia, ao representar a tristeza e a dor, livra a plateia de sua própria tristeza, de sua própria dor. Olha, pela minha experiência, tal espetáculo piora as coisas. Talvez Aristóteles pensasse diferente se ele tivesse visto Whiplash. Como eu odeio esse maravilhoso filme! Se a intenção é deixar o sujeito desconfortável, muito bem, ele conseguiu.

Deve ser estranho eu estar falando de coisas como filmes em uma discussão sobre poesia. Bom, é que, na época de Aristóteles, a poesia era feita pra ser encenada. Não era diferente de uma peça teatral cantada em versos. A coisa mais próxima disso seria um musical, no qual as ações do personagem determinam seu sucesso ou seu fracasso (ao menos no caso da tragédia). Filmes são próximos o bastante pra que eu possa entregar os pontos do texto de maneira que o leigo possa entender.

Análise da proficiência em matemática dos professores das séries iniciais por meio da teoria da resposta ao item: um estudo de caso.

Eu também gosto de estudar essas coisas de pedagogia, não só de filosofia. Neste texto, o autor, Roberto Machado, tenta avaliar como professores se saem em seu ofício e descobriu que existem “fragilidades” na matemática ministrada por professores formados apenas em pedagogia. Mas é claro. Eu lembro, quando eu era adolescente, que minha professora de filosofia era formada em história. Realmente, as aulas, vejo hoje, eram bem “frágeis”. É que, no Brasil, os primeiros anos do ensino básico têm professores formados em pedagogia, não necessariamente em nenhuma disciplina específica, o que faz sentido, já que ensinar matemática a crianças de primeiro a quinto ano não requer um conhecimento profundo de matemática.

A noite, acompanhada dos gênios do estudo e do amor. Autor: Pedro Américo. Fonte: Wikimedia Commons.

Inobstante, o autor aponta que esses professores polivalentes (habilitados a ensinar “qualquer coisa”, desde que seja pra uma criança) poderiam se beneficiar de um tempo maior dedicado à matemática em sua formação. Ele descobriu isso dando aos professores participantes do estudo um questionário com vinte questões “fáceis” tiradas do sistema de avaliação da educação básica (o chamado SAEB), usando questões do quinto ano do fundamental, oitavo ano do fundamental e terceiro ano do ensino médio. Isso me deixa curioso: que nota certos professores tirariam no SAEB? Será que se eu pegasse uma prova do SAEB hoje eu tiraria, pelo menos, um sete?

A arte de escrever.

Schopenhauer escreve que o problema dos escritores de sua época eram de estilo. Ou eles usavam frases curtas e paradoxais, um monte de palavras difíceis ou frases longas e de ar científico. Pra Schopenhauer, os três problemas são, na verdade, métodos e têm uma finalidade comum: dar a impressão de que o cara que tá escrevendo é um sábio. Escrever de jeito difícil é uma tentativa de mascarar a própria estupidez, tentando fazer parecer que você é inteligente, quando, na verdade, você é sem conteúdo. A pessoa que escreve difícil de propósito é, portanto, facilmente confundível com um charlatão.

O pior é que isso pega muito na classe acadêmica, a ponto de certos textos, feitos pra serem incompreensíveis, serem publicados e aplaudidos. É o caso dos alunos que, pra pregarem uma peça nos professores, lhes mostram textos que parecem difíceis, mas foram escritos por um programa autônomo. Tem gente que jura que aquele texto quer dizer alguma coisa, a ponto de dizer que entendeu o que tá escrito, quando o autor sabe que o texto não quer dizer nada, que é só uma brincadeira. Por isso, desconfie de textos que se esforçam em ser difíceis de entender. Pode ser golpe. Mas por que, logo na universidade, tal peça é tão facilmente pregada? Simples: pouca gente na universidade tá interessada na verdade. Um bom número de pessoas vai pra universidade pra ter fama ou riqueza, seja como professor ou aluno. Então, um texto que é difícil aumenta o prestígio do escritor e também dos leitores que o “compreendem”, mesmo que o autor do texto esteja errado!

Château de Maisons-Laffitte, décor sous le plafond de l’escalier. Foto de
O.Taris. Fonte: Wikimedia Commons.

Pra Schopenhauer, foi escrevendo coisas sem sentido, mas que parecem profundas, que Hegel chegou onde chegou. Estudantes universitários gostam de coisas difíceis porque dá a eles a impressão de que eles sabem mais que os que não estão no curso superior. Então esses textos “cabeça”, mesmo quando não tem nenhum sentido, são populares na academia. Por mais que eu veja nisso uma certa inveja de Hegel, eu não duvido que Schopenhauer possa estar certo. Já leu a Fenomenologia do Espírito? Pois é, não leia. Se for escrever um livro, escreva de forma que requeira o mínimo possível de esforço por parte do leitor, de forma a não abusar da paciência e nem do tempo dele. O bom texto é, portanto, o mais curto e o mais simples possível, inclusive usando exemplos, sem degradar a ideia que você quer passar. Esse seria um novo jeito de fazer filosofia e literatura, jeito que foi adotado por filósofos que sucederam Schopenhauer (Nietzsche, por exemplo).

De acordo com o prefácio dos tradutores desta edição, Schopenhauer decolou quando publicou Parerga e Paralipomena, que proporcionou uma influência sobre a geração seguinte de filósofos. Hegel pode ter influenciado Marx e Feuerbach, mas Schopenhauer influenciou Nietzsche e Freud. Isso é emblemático: Marx é mais coisa de economista, Feuerbach é coisa de acadêmico. Mas tanto o pensamento de Nietzsche quanto o de Freud (em menor extensão) se infiltraram no inconsciente do povão. Isso consolida a ideia de que Schopenhauer escrevia de forma simples, tornando-o compreesível e estimulando seus sucessores a se deixarem compreender, o que torna sua filosofia acessível a quem souber ler, enquanto que Hegel e seus seguidores são “coisa de acadêmico”. Eu acho isso ótimo. Se a filosofia quiser ter um impacto no mundo, ela não pode ser “coisa de acadêmico”. Todo filósofo deveria escrever de maneira simples. Do contrário, as pessoas vão continuar pensando que filosofia não serve pra nada. Claro! Você não pode usar o que não entende! Até Marx compreendeu isso e se esforçou pra escrever de maneira suave, já que seu público eram os trabalhadores. Mesmo assim, Marx ainda não é suficientemente popular.

A arte de lidar com as mulheres.

Voltando ao livro politicamente incorreto de Schopenhauer, o autor diz que, por uma disposição natural, o homem sai ganhando no sexo. É que o homem tem uma conexão menor com os filhos e a mãe tem uma conexão maior. Ela cuida dos filhos, com sua força humanamente limitada. Então o homem, se quisesse trazer a infelicidade sobre uma mulher, bastaria engravidá-la e depois abandoná-la. Aliás, ele chega a dizer que o coito é coisa de homem e a gravidez é coisa de mulher, como se o homem devesse se eximir de auxiliar a mulher na gravidez e seu trabalho estivesse concluído após o orgasmo. Mas por que um homem abandonaria uma mulher? Bom, Schopenhauer dá uma pista, ao dizer que a mulher deveria se submeter ao homem no casamento. Uma mulher insubordinada, ou mesmo simplesmente mandona, não seria bem quista por um homem que tem a mente feita e sabe o que quer, isto é, os homens de sucesso. Ela teria que baixar seus padrões e se arranjar com homens da pior espécie por falta de opção. Esse risco seria minimizado se a mulher ficasse com um homem mais velho, supostamente mais responsável, que já tivesse internalizado uma moral e que soubesse como a vida funciona, mas um homem desses não iria querer uma mulher que lhe cause problemas.

No caso da gravidez, não é possível (além de que sempre foi desumano) abandonar a mulher com os filhos que você fez: se você abandona uma mulher com o filho que é biologicamente seu, você terá que pagar uma pensão a ela pra não se tornar criminoso. Além disso, Schopenhauer parece que faz vista grossa pra sua própria história. No caso dele próprio, foi a mãe quem abandonou a família, deixando o marido doente pra morrer junto com os filhos. Já no caso do amor devido aos filhos, Schopenhauer não quer dizer que o homem não ama seus filhos. De acordo com Schopenhauer, a mulher ama os filhos por instinto e o pai os ama ao se reconhecer neles. Por isso, quando o pai ama o filho, tal amor é mais sólido. Mas ele também depende da convivência com o filho. É como se a mãe amasse o filho “por padrão”, e o pai tivesse que ter esse amor ligado.

Venus dormindo, com meninos. Autor: Alessandro Varotari. Fonte: Wikimedia Commons.

Schopenhauer segue falando das diferenças entre a vaidade feminina e a masculina. Pra Schopenhauer, a vaidade masculina é interior: o homem se gaba de seu conhecimento, de sua força, de seu sucesso, de sua espiritualidade, mas a mulher se gaba de sua aparência e de outras coisas superficiais. Ao menos é o que ele diz. Novamente, isso não é universal. Meu irmão, por exemplo, não é nada parecido com um sábio e ele é obsecado em ser igual ao Dwayne Johnson. Isso também é uma frivolidade… Mas voltando ao misógino da vez, Schopenhauer diz que isso se deve, em parte, ao fato de que a mulher se preocupa quase que exclusivamente do presente, do agora. Se pensasse no futuro, se importaria com bens duráveis, particularmente os de ordem mais espiritual, e não com coisas que depois saem de moda. Não que não haja homens que se comportam assim.

Mas será que Schopenhauer realmente dedicou tantas páginas só pra falar mal das mulheres? Bom, não! Há um capítulo desta compilação dedicado às vantagens do sexo feminino. Não são vantagens irônicas, mas vantagens de fato. A primeira delas reside no fato de que a mulher, por pensar de um jeito completamente diferente do homem, deveria ser consultado e ter sua opinião levada em consideração na apreciação de problemas complexos, porque a opinião feminina enriquece a discussão. Isso é interessante, porque mostra que Schopenhauer não vê as diferenças entre homens e mulheres como algo sempre negativo. As diferenças entre os sexos os tornam complementares e a sociedade como um todo precisa que homens e mulheres sejam diferentes (mesmo que sejam governados pelas mesmas leis). Se homem e mulher tivessem que ser iguais, a natureza teria feito o homem assexuado. Observe que estamos falando de diferenças biológicas (com desdobramentos psicológicos), e não de diferenças sociais. Eu acredito (embora Schopenhauer fosse contra) que as leis deveriam ser iguais pros dois sexos. Infelizmente, o capítulo dedicado às vantagens femininas tem só… uma página.

Preocupado com os evangélicos.

Bolsonaro, esses dias, vem pressionando a receita federal a perdoar as dividas dos pastores evangélicos, dividas que deveriam ser pagas pra gerar a receita necessária pra reduzir o impacto da pandemia. Desde que Bolsonaro subiu ao poder, a imagem dos evangélicos vem se deteriorando. Alguns pastores afirmaram, inclusive, que o governo como está poderá criar ainda mais preconceito contra evangélicos.

Igreja Universal do Reino de Deus (Goiânia, Brasil). Foto de Eugenio Hansen, OFS. Fonte: Wikimedia Commons.

Eu não sou evangélico, mas fico preocupado. O fato de uma pessoa ser evangélica não a torna automaticamente má. Mas este governo colocou os piores evangélicos em evidência, gente que afirma falar por toda a fé. Isso cria uma um ódio contra os evangélicos, que são vistos como traidores da nação ou pessoas coniventes com as mortes por covid-19, não apenas por causa do presidente, mas também por causa da tal bancada evangélica. O combate à pandemia seria um pouco mais fácil se essas igrejas pagassem suas dívidas com o estado. Mas, com uma falcatrua dessas, de “perdoar” impostos, como não ver essas igrejas como corruptas? E quanto às tentativas de interferência de Bolsonaro na polícia federal? Se ficar provado que Bolsonaro é um criminoso, por acaso os evangélicos continuarão do lado dele? Lula, quando foi condenado, foi pra cadeia. E se Bolsonaro, caso seja condenado, fugir ou não aceitar a decisão? Será que alguém que interfere na polícia (coisa que Lula e Dilma não fizeram) e depois se torna foragido (novamente, o que Lula não fez) será apoiado pelas igrejas? Se Bolsonaro for condenado e depois tentar fugir, piorará as coisas.

O governo apoiado pelos evangélicos está se tornando odiável. Isso leva as pessoas a transferir sua raiva àqueles que permitiram a ascensão de Bolsonaro: os que votaram nele e os que votaram nulo ou em branco, duas minorias que, juntas, permitiram a subida de Bolsonaro ao poder. Dentre os que votaram nele, muitos evangélicos, mas também imprensa, mercado financeiro, classe média, entre outros. A parte da imprensa é especialmente irônica. Essa raiva, passiva ou ativa, vem acabando com a união entre amigos e famílias. E ela não vai desaparecer, porque a tendência de crescimento do número de mortes por covid-19, a doença que Bolsonaro minimiza, é exponencial. Haverá, portanto, combate e colapso. A sociedade escolhe seus inimigos, nos dois lados. É importante que os evangélicos abandonem o governo. As coisas como estão poderão degenerar em guerra civil.

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