Analecto

20 de março de 2020

Alma, espírito, consciência, inteligência…

Filed under: Livros, Passatempos — Tags: — Yurinho @ 14:10

O texto abaixo é uma honesta aula filosófica baseada em Alma, escrito por Voltaire, com sugestões de como as ideias contidas em tal escrito podem ser usadas para desenvolver o país e ajudar as pessoas a se compreenderem.

Definição de alma.

Na religião, alma é vida e a vida está no sangue. Como a filosofia tenta explicar as coisas sem recorrer à religião, essa ideia pode não satisfazer. O problema é que a filosofia é incapaz de dizer o que é alma e quais são suas propriedades. Naturalmente, como acontece com um bom número de entidades metafísicas. Diz o bom senso que a filosofia e a ciência não devem se pronunciar publicamente sobre o que não podem compreender ainda. Quando algo ainda não é compreendido, deve-se refletir sobre ele até que seja compreendido, não dar aula sobre isso. Então, tentemos refletir sobre o que é a alma, pra que a compreendamos racionalmente. Vamos lá: o que é a alma? Se tivermos que julgar pelo vocábulo, “alma” significa “aquilo que anima”, ou seja, vida. Muito bem, estamos chegando a algum lugar. Agora: ela é corpórea ou não? Agora, a coisa começa a complicar…

De um lado, existem matérias vivas e matérias mortas. Então, podemos argumentar que a vida é uma propriedade material, como a solidez ou a liquidez, presente em alguns, mas não todos os corpos. Mesmo na religião, isso pode encontrar amparo: Deus pode vivificar qualquer matéria e até fazê-la pensar e os pais da igreja sustentavam, com os judeus, que a alma é parte do corpo, de forma que a matéria poderia pensar. Uma alma material pode também ser imortal, já que é improvável que haja um dia em que a matéria venha a deixar de existir no universo (eu acho). Por outro lado, muitas pessoas afirmam ter visto e até conversado com entes queridos que morreram. Se essas pessoas estão vivas, mas seus corpos se decomporam, como pode a alma ser corpórea? Isso é um fenômeno tão comum, que a maioria das culturas primitivas acreditava na imortalidade da alma, inclusive os egípcios, chineses e caldeus.

Mas isso não era uma unanimidade: os primeiros judeus, que receberam a Lei de Moisés, não receberam nenhum ensinamento sobre vida eterna, porque Moisés nunca ensinou que a alma é imortal, tanto que todas as recompensas e punições, de Gênesis a Deuteronômio, pra observação dos mandamentos divinos eram materiais, com efeito imediato (fartura, saúde, vida longa, paz, entre outros). A questão não está fechada. Mas isso é o menor problema. O maior problema é que, tal como muitos outros problemas metafísicos, essa questão nunca fechará.

A alma é incognoscível pela razão. O único jeito de responder definitivamente questões anímicas é pela fé, não pela razão. Geralmente, apelamos pro sobrenatural quando não compreendemos o material. Isso acontece porque a razão precisa de informação sensorial pra trabalhar. Assim, se algo não passa pelos sentidos, não é possível raciocinar sobre aquilo (isso não quer dizer que a realidade é como parece ser, mas que os dados sensoriais são o ponto de partida). Isso torna absurdo atribuir a uma causa imaterial algo cuja causa já foi apontada na matéria, a menos que estejamos trabalhando com a fé.

Observe que isso não quer dizer que só existe aquilo que podemos ver, ouvir ou sentir, mas que, se a razão precisa de informação sensorial como ponto de partida pra suas reflexões, sendo que o ser humano só tem cinco sentidos limitados em alcance, segue-se que podem existir coisas imperceptíveis aos nossos sentidos e sobre as quais não é possível raciocinar. Se a alma não é perceptível pelos sentidos, isso não quer dizer que ela não exista, mas que ela precisaria, se existir, ser revelada. A partir do momento em que algo precisa ser revelado, saímos da razão e entramos na fé. Se Deus criou a alma e a alma é incognoscível ao homem, cabe a Deus revelá-la, se ele quiser. A razão é melhor empregada na filosofia (desde que lide com coisas que a razão pode alcançar) e na ciência.

Pra muitas coisas, a religião ainda é a melhor resposta. Como a religião se funda na fé e a ciência se funda na razão, sendo que fé e razão são de natureza diferente, segue-se que a ciência nunca será capaz de acabar com a religião. A filosofia ou a ciência nunca serão incômodos à religião. Isso é tão verdade que existem filósofos e cientistas que também são religiosos.

Se alma é vida, então constantemente vemos que a alma existe, já que a vida existe. Mas como se define isso? Como colocar “alma” ou “vida” em palavras? Esse tipo de problema é tão estressante quanto desnecessário. Muitas vezes, usamos palavras sem saber seu significado exato, por amor à praticidade. Mas, na filosofia, você só deve falar do que você conhece. Enquanto não houver uma definição fechada do que é a alma, a filosofia não pode trabalhar com esse conceito. Quando um problema metafísico chega a esse grau de selvageria, a ponto de ser uma discussão tão irritante quanto infrutífera, é melhor mesmo ficar com a religião. Afinal, de que serve essa discussão? Saber exatamente o que é a alma e quais suas propriedades não vai resolver o problema da fome no Nordeste. Por causa disso, a maioria da população mundial não acha a discussão sobre a alma relevante. Saber o que é a alma provavelmente não resolverá nenhum problema.e um quarto, mesmo se engajando em tal discussão, é incapaz de concluí-la.

Parece que nenhum povo é capaz de compreender a alma. Como o nosso povo estaria melhor equipado pra isso? Alguém pode dizer: “temos ciência, que torna acessível até às crianças o que antes era segredo dos sábios, e isso é uma vantagem.” Neste caso, não é, porque a ciência só pode ser feita onde há espaço pra experiência e pra matematização. Não se pode colocar a alma em laboratório e nem formular regras gerais de regularidade sobre ela. É preciso ter a modéstia de dizer quando uma questão supera suas forças de resposta. Algo precisa ser material ou, pelo menos, afetar a matéria pra que seja congnoscível. Logo, não é possível se pronunciar com segurança sobre a alma.

Alma, espírito, consciência, inteligência…

A situação fica ainda mais estranha quando se considera o “espírito”, a soma das faculdades mentais da pessoa, nosso “eu”, que comanda o corpo. A ideia de espírito vem do fato de que o pensamento é imaterial, mas se origina em nós, dando a entender que temos uma parte que é imaterial. Dizem que tal espírito, particularmente o pensamento, é a essência do homem. Isso é estranho: quer dizer que o homem deixa de ser homem quando para de pensar? Se assim é, deixamos de ser homens ao dormir e voltamos a sê-lo ao acordar. Some-se a isso o fato de que não sabemos exatamente o que é o pensamento e teremos ainda mais dificuldades. Além disso, se o espírito comanda o corpo e o espírito é o “eu”, como se explica que existem órgãos que funcionam sem meu controle?

Os animais pensam? Certamente são capazes de aprender, se aperfeiçoar e se adaptar ao ambiente em que estão. Pra isso, é preciso pensar. Eles também são capazes de sentimentos e emoções, às quais reagem. Inclusive, muitas emoções humanas também são sentidas pelos animais. Além disso, estão vivos. Então, eles têm alma e espírito? Se pensa, tem espírito. E o mesmo conjunto de questões que se referem aos homens se referem aos outros animais: a alma (ou espírito) é material, imaterial, mortal, imortal? Por que pensamos que o animal, coitado, não tem alma? Só pode ser por orgulho. Além disso, se só tem alma aquilo que “raciocina”, a criança pequena não teria alma também!

Além disso, qual é a relação entre espírito e alma? Se originam do mesmo princípio? Vêm do mesmo lugar? Somos uma substância pensante que habita a matéria, da qual nos servimos, ou somos uma matéria que pensa? Tentando resolver um problema desses, Platão chegou a afirmar que o homem tem três almas: vegetativa (vida), irascível (emoções) e intelectual (pensamento). Assim, há uma alma que mantém a vida, uma que provoca emoções e outra que pensa, todas imortais e imateriais. Olha como ele complica as coisas. Será que faz sentido dizer que cada homem tem três almas? Ele pode provar a imaterialidade, principalmente da alma vegetativa? Não obstante, se alma é vida, a inteligência ou consciência deve ser um princípio separado, talvez dependente da alma (“talvez” porque alguns admitem que o espírito, a consciência, a personalidade sobrevivem à morte, não dependendo, portanto, da vida pra existir). Alguém pode dizer: “ah, alma e espírito são a mesma coisa!”. Muito bem, mas você tem uma definição fechada de espírito? Definições circulares não valem. Ninguém realmente sabe.

Requisitos de sistema.

Suponhamos que a alma dependa de um cérebro, uma criança sem cérebro venha ao mundo. Se admitirmos que espírito acompanha a alma (ou com ela se identifica), a criança tem alma, ou espírito, tendo nascido sem cérebro? Quais os requisitos pra que se tenha alma? A alma é comum a todos os seres humanos, inclusive aos que não pensam? Se for, basta estar vivo pra ter alma e, com isso, alma nada tem a ver com espírito (consciência, personalidade).

Mas surge outro problema: se a alma, ou o espírito, é imortal, a criança sem cérebro estará no paraíso depois da morte? Alguém pode argumentar que uma pessoa sem cérebro não pode estar viva. Muito bem, mas seus órgãos vitais funcionam: o coração bate, há movimento peristáltico e a pessoa pode absorver nutrientes se lhes forem injetados. Se alma é o mesmo que vida, a criança está viva e tem alma. Além disso, ainda supondo que a alma dependa de um cérebro, o que provavelmente implica uma identificação de alma e espírito, como podem pessoas de cérebro igual terem capacidades mentais tão diversas? Será que almas diferem entre si, por isso pessoas de cérebro igual têm níveis diferentes de inteligência (a ponto de a distância entre elas ser maior que a distância entre homem e animal)? Em todo caso, morreremos antes de ter essas respostas, provavelmente.

Não há nenhuma diferença entre o cérebro do Einstein e o seu. No entanto, o Einstein revolucionou a física e você tá sentado aí, lendo esta papagaiada. Podia ser pior: pelo menos você não tá lá, no Corona Fest, onde várias pessoas com o cérebro tão bom quanto o do Einstein se reúnem pra desperdiçar tamanha concessão divina. Se Deus nada faz sem propósito, então qualquer animal que tenha um cérebro o recebeu pra usá-lo, não pra repetir que o coronavírus nunca matou e nem matará ninguém.

A religião, o estado e a imortalidade da alma.

Se você é fiel a Deus, não precisa temer a morte, porque, se a religião afirma que a alma é imortal (ou que haverá uma ressurreição dos mortos) e que a sua pós-vida é condicionada pelas boas ações coletadas em vida, tudo vai bem. Você será recompensado depois da morte, então fique tranquilo. Porém, se você acredita que a vida acaba na morte, porque a imortalidade da alma é questionável, e não há nada depois dela, não há nenhuma forcinha pra você andar dentro da lei, inclusive das leis do estado democrático de direito.

Do ponto de vista da pessoa que morre, a experiência é igual a de pegar no sono ou desmaiar. É, pelo menos, o fim do sofrimento. Num país que aplica a pena de morte, matar um sujeito que vê a morte apenas como o fim da sensação não é realmente uma “pena“, porque a morte seria algo positivo pra essa pessoa. Grande coisa morrer! Dessa forma, cometer suicídio é a fuga perfeita após cometer um crime grave. Observe que o mesmo é válido pra denominações cristãs que afirmam que a fé basta pra salvar, como é o caso do protestantismo tradicional (sola fide). Pra essas pessoas, a fé, sem as obras, basta pra salvar. Se assim é, morrer marca a ida da pessoa pro paraíso, onde será recompensada por sua fé, mesmo que tenha cometido os piores crimes em vida. Assim, enquanto que a morte é o fim do ateu, ela é só o começo da festa do evangélico e do terrorista fanático.

Isso mostra como as crenças que temos em relação à morte podem ajudar a pessoa a se manter obediente à lei (parece que todo crime é pecado, embora nem todos os pecados sejam crimes) ou mesmo encorajá-la a quebrá-la. Se você se perguntava como os Estados Unidos podem ser uma nação tão perversa, aí está sua resposta: é um país de maioria protestante. Isso é especialmente verdade quando se fala de neopentecostais, os quais cultivam a ignorância dos fiéis. Você não pode questionar a igreja deles. Impedir a liberdade de pensamento engendra ignorância e o movimento neopentecostal parece que é uma escola que te ensina a não pensar e que só estimula sua imaginação pra te tornar mais receptivo às mais absurdas mentiras. Observe que muitos protestantes são boas pessoas com ideias de valor, então não pense que todos os evangélicos estão errados em tudo só porque existem pastores explorando a ignorância dos fiéis. Seria um salto enorme e provavelmente intolerância religiosa.

A liberdade de pensamento.

Voltando ao assunto, nações onde há mais liberdade de pensamento são mais cultas. O que suscita uma discussão culta em uma nação pode suscitar a violência em outra. Mesmo entre pessoas que se ajudaram ainda ontem. Isso só é possível porque alguém em posição de poder crê estar sempre certo e não admite provas do contrário. Esse é um sinal de falta de tolerância, algo que afasta os homens uns dos outros, mas não é o único sinal: em tempos onde ninguém admite o outro que pensa diferente, uma pessoa pode perder o emprego por ter ofendido outra, mesmo que tenha falado a verdade. É também o tempo em que não se combate uma ideia com argumentos, mas com risos, violência e táticas de envergonhamento. É que a pessoa não tem como defender suas ideias, então tenta fazer você deixar de professar as suas próprias estimulando o medo ou a vergonha de dizer o que você pensa.

Isso é péssimo pra sociedade, porque silencia também boas ideias no processo de censurar ideias “más” (isto é, ideias que discordem das ideias dominantes). Se a sociedade for tolerante às opiniões divergentes, contudo, teremos avanços na filosofia, na ciência, no comportamento humano e na política, porque haverá plataforma pras ideias boas, mas também impopulares. Isso permite a mudança pra melhor. Se a tolerância permite a mudança e a intolerância permite a manutenção do estado presente, segue-se que qualquer intolerância, mesmo quando vem da esquerda, é conservadora por natureza.

Se é a ignorância que prejudica a república, ao passo que a liberdade de pensamento e expressão a aprimora (porque tais liberdades estimulam a tolerância, a cooperação e a saudável competição entre ideias), segue-se que o religioso fanático e o político cego por sua ideologia são os verdadeiros venenos que ameaçam a república, enquanto que a filosofia e a ciência são o antídoto. Especialmente venenoso é o sujeito que combina as duas coisas, misturando religião e política, tentando transformar em política pública suas convicções pessoais. Isso não deveria acontecer, por exemplo, entre pessoas de diferentes religiões abraâmicas: se o Deus é o mesmo, por que não tratamos uns aos outros como irmãos, filhos do mesmo pai celestial? O ideal é que cada um pense como quiser. Isso não quer dizer que a pessoa tenha que ser eximida de responder por seus atos e pelas consequências desses atos.

Recomendações.

Como todo ente metafísico, a alma é uma coisa que não podemos experimentar sensorialmente e da qual não se extraem leis absolutas. A alma não pode, também, ser expressa matematicamente. Então, discutir sobre a alma implica especulação, se a discutirmos pela metafísica. No entanto, a religião tem suas verdades sobre a alma. Se a metafísica e a religião debatem o mesmo tópico, a religião, ao menos, já tem uma resposta.

Pela razão, não é possível saber ao certo as propriedades da alma, de onde ela vem, de que é feita nem pra onde ela vai depois que o corpo perece. Por causa disso, a discussão racional sobre é alma nunca será fechada. Além do mais, precisamos reconhecer que discussões como essas não resolvem nenhum problema do homem. Saber o que é a alma e quais são suas propriedades não curará nenhuma doença, não erradicará a fome, não proporcionará a paz mundial e nem irá gerar empregos. Se este é um problema metafísico e, portanto, especulativo, mas também provavelmente inútil, é melhor ficar com o que a religião diz e empregar a razão em outras coisas.

8 de março de 2020

O grupo organizado.

Filed under: Livros, Saúde e bem-estar — Tags:, , — Yurinho @ 16:07

O texto abaixo é uma honesta aula filosófica baseada em Além do princípio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos, escrito por Freud, com sugestões de como as ideias contidas em tal escrito podem ser usadas para desenvolver o país e ajudar as pessoas a se compreenderem.

O princípio do prazer.

Nosso “aparelho mental” detecta e estoca uma quantidade de tensão. Ora, tal aparelho tende a manter sua tensão no nível mais baixo possível. Isso quer dizer que toda tensão detectada e estocada provoca desconforto. Prazer é a sensação gostosa que temos quando essa tensão é aliviada. Apesar dessa definição geral, o estudo do prazer é uma das coisas mais difíceis na psicanálise, então tome cuidado ao usar essa definição. O ideal seria que o aparelho psíquico estivesse sem tensão a todo momento. Se reduzir a tensão mental causa prazer, segue-se, portanto, que tudo o que fazemos tem em vista reduzir essa tensão, esse desprazer, e evitar que ele chegue a níveis elevados. A tensão aumenta com as preocupações e desejos cotidianos: raiva, tristeza, sede, fome, sono, vontade de ir ao banheiro, tédio… Ela também aumenta ou diminui com informações sensoriais, amostradas pelos nosso corpo (cores, sons, toques, entre outros). Nos orientamos à eliminação dessa tensão pra viver em tranquilidade. Queremos ser felizes e o ser humano atinge esse estado quando não tem nada do que reclamar.

Observe o caso das crianças. Deixe-as sem nada pra fazer e olhe o que acontece. Começarão a reclamar que “tá chato”. É tédio. Crianças brincam pra reduzir a tensão mental provocada pelo tédio. Quanto mais jovem a criança for, menor é a complexidade de seus jogos. Se contentam com pouco. O que importa é fazer alguma coisa, porque o tédio provoca tensão. Se a redução da tensão provoca prazer, combater o tédio com alguma atividade é prazeroso. Claro que, se a criança dispor de duas atividades e reconhece uma delas como mais prazerosa, ela preferirá a mais prazerosa. Se for forçada a ficar com a menos prazerosa, ela sentirá tensão oriunda da frustração de não estar fazendo o que preferiria fazer, o que pode arruinar o potencial prazeroso da atividade à qual ela se dedica. É a criança que reclama de tédio com os pais e os pais dizem: “pois vá lavar os pratos ou fazer o dever, então!” Era melhor ter ficado calado.

O jogo infantil também tem outra função, principalmente o faz-de-conta. Através dele, a criança vive uma experiência que lhe foi traumática ou a qual ela teme, mas põe a experiência sob outro ponto de vista, reduzindo o desconforto de lembrar daquela experiência ou medo de passar por ela. Por isso crianças brincam de coisas que adultos consideram perturbadoras, tipo “polícia e ladrão” ou “médico”. Brincar dessas coisas põe sob controle da criança, através da fantasia, forças que lhe fizeram mal ou poderiam lhe fazer mal, reduzindo assim o desconforto de lidar com tais temas. Isso não é algo ruim, já que a violência, a doença e a morte são coisas reais. Brincar de “faz-de-conta” com essas coisas reduz o medo, portanto, da realidade, com a qual a criança se chocará no futuro. Entende por que GTA é tão popular entre os gurizinhos? Ter essas forças sob seu controle dá uma sensação de poder. A criança quererá repetir essa brincadeira. Essas brincadeiras são interessantes não apenas porque reduzem a tensão mental, mas também por serem formativas e maduras: crianças desejam ser como os adultos que admiram. Isso também é válido pra contação de histórias. Pela repetição da história, a criança também normaliza forças que seriam, se outra forma, ameaçadoras.

Eliminar completamente a tensão mental, o desprazer, não é algo que se possa fazer simplesmente no mundo moderno. Tome o caso da sexualidade infantil. Lembre que a sexualidade transcende a reprodução, englobando também sentimentos de amor, o que significa que até crianças pequenas, as quais são inférteis (a fertilidade chega no ciclo puberal), têm sexualidade, mesmo que ninguém saiba de onde a sexualidade vem. Aliás, aos cinco anos, já é possível se apaixonar e uma pessoa nem sempre se apaixona por gente da mesma idade. No mundo moderno, há poucas oportunidades de satisfação pra libido infantil, porque a sexualidade infantil é tabu. Qualquer um se sente desconfortável quando o amigo do seu filho parece que se insinua pra você, ou quando seu filho diz que quer se casar com a mãe e ter filhos com ela, ou quando você percebe que tem um gurizinho tentando te pegar trocando de roupa olhando pela fechadura (acho que é por isso que pararam de fazer portas à moda antiga). A criança, quando vai crescendo, entende que tem coisas que ela não pode fazer com seu corpo ou com o dos amiguinhos (ou amigões), porque, se ela insistir, ela apanha. Imagine seu filho se insinuando pra você, como você reage? Talvez você tenha que afastá-lo. Pra evitar situações assim, pais usam diferentes graus de rigidez, mas isso precisa ser bem dosado: um pai rígido demais afasta os próprios filhos. Quando a criança internaliza essas proibições, ela entra naquilo que chamamos de “período de latência”, no qual sua sexualidade perde o aspecto público. Isso não quer dizer que a criança perdeu a sexualidade, mas que ela tornou-se uma pessoa um pouco mais moral… ou, pelo menos, aprendeu a esconder sua sexualidade dos pais. Isso implica dizer que, se o período de latência vem de fora e é internalizado, crianças e adolescentes vivendo em sociedades mais liberais não passarão por essa fase.

A sexualidade é frustrada de outras formas também: pela decepção amorosa, pela rejeição. Até o afeto “puro” pode ser frustrado quando a pessoa deseja atenção e não consegue. É o caso da criança que, carente de atenção, passa a odiar seus irmãos, com quem divide a atenção dos pais. Tal afeto reprimido pode até ter consequências físicas na criança, porque muitas doenças físicas começam como desconfortos mentais e só podem ser curadas depois que o problema afetivo é curado. Por exemplo: quando você está com muita raiva de alguém, tenta esquecer e conversa com outra pessoa, você acidentalmente deixa transparecer (por um ato falho, por exemplo) a raiva que você tenta reprimir. Esse é um exemplo simples de como uma emoção reprimida pode se manifestar de outras formas. A criança negligenciada pelos pais pode acabar desenvolvendo problemas físicos por falta de afeto. Como o deprimido (que dorme demais ou dorme de menos) e o estressado (que desenvolve úlcera no estômago), também a criança com problemas emocionais pode ter problemas de ordem física que não pode controlar (vontades misteriosas de chorar ou xixi na cama). A criança, então, inicialmente amorosa, vai aprendendo que crescer é comportar uma parcela de cinismo em relação à vida: um monte de coisa simplesmente não vai dar certo, eu não posso ter tudo, fazer o quê? Então, o melhor que podemos fazer é reduzir o desconforto aos menores níveis possíveis. Há coisas dolorosas demais no mundo pra que se possa viver totalmente tranquilo. Infelizmente, a virtude nem sempre nos compensa e a criança logo entende que permanecer “inocente” em relação ao mundo é algo que a colocará em perigo. Por mais que os adultos tentem doutriná-la, ela aprende sozinha, crescendo, que o mundo pode ser um lugar cruel.

Uma das coisas que trabalha contra a eliminação total da tensão mental é o instinto de autopreservação. O princípio do prazer diz: “uau, aquele cara é lindo, eu vou lá transar com ele”. O princípio de autopreservação diz: “se você simplesmente for lá e começar a tirar a roupa dele, você vai ser presa…”. Esse é um claro caso de oposição entre o instinto de autoconservação e o de reprodução, ambos operando pra conservação da vida (um para a conservação do sujeito e outro pra conservação da espécie)… O desejo por prazer conflita com o desejo de se preservar. É preciso moderar as coisas.

Quando a busca pelo prazer é moderada pelas exigências da autopreservação, origina-se o “princípio da realidade”: precisamos calcular quais prazeres valem a pena buscar, de quem buscá-los, em quais condições, em qual lugar, em qual tempo e por quais razões. Só então a busca pelo prazer toma uma faceta responsável. Recorrer ao princípio da realidade torna menos penoso frustrar um desejo. Não que o princípio da realidade seja infalível: ainda haverá muitas tentações, particularmente oferecidas pelos instintos, que são uma pulsão biológica que tenta nos puxar de volta ao nosso curso “natural” quando nos afastamos muito dele. O instinto sexual em particular e os “instintos de vida” em geral aumentam a tensão mental, gerando desprazer, mas também um prazer enorme quando tais instintos são satisfeitos. Já outros tipos de instinto agem mais nos bastidores, menos intensamente, mas ainda assim provendo tentações. Donde decorre que o princípio do prazer não é absoluto. Podemos, dada a ocasião, agir contra ele na busca pela estabilidade do aparelho mental. Mas nem tampouco o princípio da realidade é absoluto: quotidianamente cedemos às tentações de fazermos coisas que sabemos que não deveríamos fazer. Isso não quer dizer que não devamos nos esforçar a nos conformar ao princípio da realidade. Tal como o estrabismo pode ser mitigado pela prática (olhando fixamente pro espelho), também a prática nos torna melhores na tarefa de resistir às tentações de fazer besteira.

Além disso, especialmente no caso de desejos sexuais, é possível controlar a tentação de fazer o que é errado procurando satisfações substitutas. Se o impulso sexual reprimido encontrará expressão de outra forma, que tal ver que formas estão disponíveis? Pense no caso de um pedófilo que quer se manter dentro da lei. O que ele vai fazer se sentir tesão? Ele vai ter que procurar meios legais de se aliviar. Se ele estiver no Japão, ele pode, legalmente, ir à banca mais próxima e comprar um volume de shotacon. Afinal, melhor se satisfazer com desenhos de crianças que nunca existiram do que procurar por fotos de crianças reais ou fazer com um parceiro infantil coisas de que ele irá depois se arrepender. É como um diabético que usa adoçante pra não usar açúcar. Então, resistir à tentação de fazer algo errado pode requerer o uso de satisfações substitutas, que não lhe ponham em risco. Afinal, todo instinto tem um objetivo (satisfação) e um objeto: o objetivo não muda, mas o objeto varia. Isso torna mais fácil a conformação ao princípio da realidade. Outra foma de lidar com os instintos é sublimando-os, isto é, tentando dar aos instintos um caminho mais elevado e útil à sociedade. Pegando de novo o exemplo do coitado do pedófilo frustrado, ele pode tentar dessexualizar sua atração buscando converter sua energia sexual em um tipo de amor mais platônico. Ele vira mentor, professor, advogado de causas da infância e juventude, ativista dos direitos da criança, líder de escoteiros, pediatra, chefe de grupo de jovens numa igreja… Quanto mais de sua energia sexual puder ser sublimada, melhor ele será nesses ofícios que o permitem amar os gurizinhos de forma inofensiva. Infelizmente, nem toda energia sexual pode ser sublimada só com a vontade da pessoa, o que explica por que escândalos de sexo com menor geralmente envolvem pessoas que fizeram bem aos menores sob sua tutela, até mesmo ganhando noteriedade por suas boas ações. Triste, não é? Isso implica dizer que muitas pessoas que fizeram coisas grandes pra humanidade provavelmente foram motivadas por instintos “baixos”. Não obstante, a motivação não muda o fato de que sua contribuição foi apreciada.

Como dissemos, isso implica dizer que nem todos os prazeres devem ser buscados e alguns prazeres não podem ser buscados em todo seu potencial. Ou seja, alguns instintos são reprimidos total ou parcialmente. O instinto busca expressão, mas, inclusive por uma questão de sobrevivência, temos que ativiamente reprimi-lo. Isso é desagradável, mas temos que concordar que agir dessa forma é menos desagradável do que fazer tudo o que temos vontade e depois sentir as consequências.

Mas surge uma dúvida: se o prazer é tão importante a ponto de dirigir nossas ações, por que existem pessoas que repetem seus erros, repetem seus fracassos? Por que existem pessoas que fazem coisas que nós vemos como sendo inúteis, desprazerosas, a curto e longo prazo? No trabalho, no amor, na família, sempre haverá quem repita seus erros. Isso acontece porque a pessoa ainda não aprendeu que a atividade à qual ela se dedica não lhe derá retorno por seu esforço. É o caso da pessoa cujos relacionamentos sempre terminam da mesma forma. A pessoa ainda não aprendeu que a forma como ela lida com relacionamentos está errada e que ela nunca derivará prazer de um relacionamento se não mudar suas maneiras. Agindo dessa forma, seria melhor desistir. Então, uma pessoa pode repetir atitudes que sempre terminam em desprazer porque ainda não sabe ou não quer admitir que nunca ela terá retorno pelo que ela está fazendo, da forma como ela está fazendo.

Os traumas.

O trauma é caracterizado por um estímulo negativo tão forte e súbito que quebra nossa defesa mental, causando um grande desprazer. A pessoa precisa, então, se livrar do desprazer ao mesmo tempo que repara suas defesas pra que possa funcionar normalmente. Mesmo após o reparo, a pessoa ainda precisa aumentar suas defesas pra evitar traumas futuros. Tal processo pode prejudicar o sujeito em outras áreas. Em outras palavras, o trauma é uma experiência negativa por causar desprazer, por causar um sentimento de impotência, por exigir que a pessoa lide com ele e por deixar sequelas. Observe que isso implica que uma pessoa preparada pra lidar com uma experiência ruim a qual antecipa terá menos chances de desenvolver um trauma por causa dessa experiência. É preciso que a pessoa esteja despreparada pro que vai acontecer, de forma que suas defesas estejam mal-equipadas pra aquela situação.

Um exemplo de sequela de comportamento é o aumento exagerado da defesa contra repetição do trauma: após sucessivas experiências negativas com relacionamentos, o homem resolve que precisa excluir mulheres da sua vida pra evitar sentimentos negativos, como sensação de inferioridade, o medo de perder seu patrimônio, o medo de perder os filhos ou a dor por ter sido traído. Ninguém pode culpá-lo por querer se preservar: se proteger de estímulos é tão importante quanto estar aberto a estímulos, além que existem mesmo mulheres que se esforçam em causar sofrimento aos homens. E entendo você, amigo. Mas precisamos convir que isso pode lhe causar problemas de outra ordem. Por exemplo: ele pode ficar desconfortável com o afeto feminino e desejar que mulheres o tratem friamente. Observe que este exemplo é um “trauma” em sentido mais geral, não em sentido clínico. Um trauma doentio, daqueles pros quais se busca um tratamento médico, requer que a experiência negativa tenha também comportado risco de morte, real ou imaginário, ou de dano permanente. Traumas tão poderosos terão manifestações físicas e pode mesmo haver sequelas após o tratamento ter termidado. Suponhamos, por exemplo, que o cara realmente tenha desenvolvido medo de mulheres (ginecofobia) após ter sido, sei lá, mutilado por um culto feminista, o trauma pode ser tão grave que, além dos sintomas típicos de um estresse pós-traumático, ele não poderá ser efetivamente tratado por uma mulher. O médico terá que ser homem.

Evolução e instintos.

A vida na Terra é perene. Desde que ela começou, ela não cessou. Nunca houve, depois que a vida na Terra se estabeleceu, um retorno ao período morto. Não houve “pausa” no período vivo da Terra. No entanto, graças a reprodução, a vida pode se perpetuar mesmo que os indivíduos que dela participem não se perpetuem. Homens morrem, mas a vida segue. Esse é um fato biológico que todos podem constatar. Talvez outras formas de conhecimento, como a filosofia, fossem enriquecidas se adotassem outras coisas ditas pela biologia.

O fato de a vida continuar, porém, não indica que ela se torne melhor ou mais apta com o tempo. É verdade, foram surgindo formas de vida mais complexas e mais aptas à sobrevivência, mas isso não quer que exista um “impulso” ou “insinto” para a perfeição. Tome o exemplo dos seres humanos. Podemos dizer que existe um instinto para a perfeição entre os humanos? Não, por duas razões: nem todos os homens procuram se aperfeiçoar e, quando procuramos aperfeiçoamento, geralmente buscamos um aperfeiçoamento porque meios anteriores de satisfação não estão mais disponíveis. A energia psíquica frustrada precisa ser descarregada. O mundo moderno não admitirá sua descarga irresponsável. Então procuramos meios de satisfação mais sofisticados ou a sublimação.

Além disso, não apenas em relação ao homem, mas em relação a toda a vida, “evolução” é um termo relativo. Uma espécie “evoluída” é apenas uma espécie de sujeitos mais aptos a sobreviver em um determinado contexto ambiental. Isso não quer dizer que a espécie é melhor em tudo, comparada à sua forma anterior. Por exemplo: o neandertal tinha um cérebro maior que o do homem moderno e tinha maior massa muscular. Como ele não sobreviveu? Porque, em tempos de fome, ele precisava de mais comida pra sustentar um corpo tão exigente. O homo sapiens sapiens, por ter um corpo mais débil, necessitava de menos comida. Assim, em invernos rigorosos e períodos de fome, o homem de modelo fisicamente medíocre sobrevivia, por ter menos demanda por comida. Não é que somos melhores, só comíamos menos. Por outro lado, uma espécie que se adapta melhor a um ambiente muitas vezes adquire problemas de outra ordem.

Assim, o que chamamos “evolução” não é algo absoluto. O fato de a vida existir há muito tempo e provavelmente continuar existindo caso nós saiamos dela não implica que a vida esteja sempre rumando ao progresso. A vida nem sequer ruma em zigue-zague. A vida segue um rumo praticamente aleatório, ora progredindo, ora regredindo, segundo a necessidade de se preservar (não de se aperfeiçoar).

Ciência e filosofia.

Embora existam objetos próprios à filosofia, que originam sua divisão clássica (metafísica, lógica, epistemologia, teoria do conhecimento, ética, estética, arte, política e metafilosofia), a filosofia muitas vezes se debruça sobre objetos que já são tratados pela ciência (por isso temos tanto filosofia da mente quanto psicologia). No entanto, como o método científico é mais profundo que a filosofia, é preciso que a filosofia tenha a humildade de abandonar suas conclusões quando a ciência as contradiz. Por exemplo: a igualdade entre os sexos e todas as teorias que dependem ou sustentam esse princípio estão em embate com a biologia. Por causa disso, sempre que a filosofia for estudar qualquer objeto que já está em estudo pela ciência, ela deve primeiro capitular a produção científica já feita sobre aquele objeto. Por outro lado, como existem coisas que não são cobertas pelo método científico, é preciso que a ciência não se meta no estudo de objetos que simplesmente não são matematizáveis e experimentais. Pra essas coisas ainda se faz filosofia.

O fato de a ciência (ou a filosofia) ser um estudo racional do mundo não indica que cientistas (ou filósofos) são algo diferente de ser humanos normais e falhos. Quanto mais importante, quanto mais pertinente for a questão em tratamento, maior é a chance de que alguém se manifeste sem a imparcialidade requerida pela busca da verdade. Ninguém está a salvo do preconceito. Por isso a ciência, em matérias mais elevadas, demora tanto pra chegar a algum lugar. Mas, quando chega, pensamos por que não chegamos lá antes. Esse é um problema real, embora cada vez menos frequente, já que as exigências da comunidade científica vêm barrando muita gente que quer usar a ciência só pra justificar as próprias crenças ou pra posar de guru. Muita gente, mas não todos. Assim, a ciência progride. Todas as conclusões científicas são de caráter provisório, porém: é verdade até ser provado errado. Se algo é provado errado, deve ser abandonado sem remorsos. Isso permite que a ciência avance se depurando dos erros. Querer que a ciência não mude é querer fazer dela um catecismo e objeto de crença.

Isso serve de aviso à filosofia que deseja complementar suas reflexões usando a ciência. Lembre que nem todos os cientistas são confiáveis. O cientista preconceituoso ou dogmático é um obscurantista infiltrado. Tal como um ocultista, ele não busca a verdade, mas a validação de suas crenças usando a ciência como uma aparência, o que o leva a escolher a dedo quais conclusões e quais processos ele usará em sua busca pela “verdade”. Uma ciência como essa é inútil no combate ao obscurantismo que está fora da ciência e da filosofia, que são as crenças erradas, mas populares. Tais crenças existem ainda hoje (um exemplo clássico é o terraplanismo), porque a ciência e também a filosofia, embora sejam conhecimentos racionais, são difíceis de compreender. O leigo, que muitas vezes não dispõe da acuidade filosófica e dos aparatos científicos, preferirá acreditar naquilo que ele pode ver, mesmo que esteja errado (no caso do terraplanismo, ele permanecerá cético enquanto não ver a curvatura da Terra). Por causa disso, mentiras simples são mais atraentes às massas do que verdades complexas. Uma ciência de verdade, uma filosofia de verdade, precisa se comprometer com a verdade e combater o obscurantismo, mas ela só conseguirá sucesso na sua tarefa de combate ao obscurantismo descendo ao nível dos leigos. Enquanto a razão se mostrar complexa, as pessoas preferirão crenças que exijam menos esforço pra serem absorvidas.

Amor, ódio, sexualidade e sua relação.

A psicanálise pode ser entendida como a ciência do inconsciente. Como tal, a psicanálise é de grande ajuda na complementação das ciências humanas (história, filosofia da religião, antropologia, entre outras). Na verdade, métodos típicos da psicanálise, como a associação livre, podem até ser usados com finalidade artítstica. Isso mostra que a psicanálise não é só sobre sexo. Ao contrário da crença popular, a psicanálise não usa a sexualidade pra explicar tudo. Nem tudo é culpa de repressão sexual. E, mesmo que fosse, a psicanálise não sustenta que o melhor a fazer é transar com todo o mundo vinte e quatro horas por dia. Isso não seria cura pra nada. Ela usa a libido pra explicar um monte de coisas (embora não tudo), mas a libido deve ser entendida como Albert Moll a define: a energia dinâmica que alimenta os atos ou desejos motivados por sexualidade ou amor. Qualquer tipo de amor. Não precisa ser o amor sexual, embora o amor sexual seja alimentado pela libido.

Então, quando se fala de libido, se está deixando implícito amor, não necessariamente tesão. Pode ser amor pelos pais, pelos filhos, pode ser a amizade, a devoção (a Deus ou a uma ideia)… porque existem vários tipos de amor, alguns simples e outros compostos. Por exemplo: o amor romântico pode ser ulteriormente dividido em amor espiritual e amor carnal. Você não necessariamente transa com quem ama, e pode transar com gente que você não ama “de verdade” (isto é, pessoas cujo o corpo é atraente, mas nada mais é), mas geralmente os dois estão presentes no romance, já que quem ama geralmente ama a pessoa como um todo, não somente seu corpo ou sua personalidade. Um tipo de amor pode se transformar em outro, como sabemos: a amizade pode virar paixão e a paixão pode virar amizade No entanto, quanto mais tempo você passa amando uma pessoa sem fazer sexo com ela, menor é a chance de uma relação dessas acontecer, então uma amizade de longa data que vira paixão pode ser bem difícil de lidar… Na verdade, existem tantas formas de amor e, consequentemente, tantas direções pra onde a libido possa ir, que frequentemente nos perguntamos se o que sentimos é ou não amor. É que amor é um termo tão abrangente quanto é o campo de ação da libido, ao ponto de nem sempre sabermos quando estamos realmente amando. Por isso que, muitas vezes, só percebemos o quanto amamos uma pessoa depois que ela desaparece e começamos a sofrer as consequências da falta que aquela pessoa faz. Uma pessoa pode até fazer falta sem que você a tenha conhecido. É o caso da mulher que aborta e depois se arrepende. Você não amava esse filho, mas poderia tê-lo amado se o tivesse conhecido… Se você ama os filhos, a vontade de abraçá-los e beijá-los é uma forma de libido. Infelizmente, o artigo 217-A do Código Penal diz que qualquer ato libidinoso feito a uma criança ou adolescente que não tenha ainda catorze anos é estupro. Entende por que pais são colocados na cadeia por beijar seus filhos?

Toda libido pressupõe amor, mesmo que não seja amor sexual. Então, o fato de a psicanálise se reportar com frequência à libido não quer dizer que a psicanálise se reporta ao sexo o tempo todo. E mesmo que se reportasse, e daí? Sexo não é mortificante, não é humilhante, não é algo de que se deva ter vergonha. Aliás, se você sente vergonha de falar sobre sexo ou alguma de suas manifestações específicas, você trabalha pra criação de um tabu, isto é, de um tema que não se pode discutir. Isso é o primeiro passo pra transformar o puritanismo numa política pública. Não precisamos de mais tabus. Pelo contrário: precisamos eliminar os tabus que já existem. E o melhor meio de se eliminar um tabu é pela sua franca discussão. Por isso, não se deve censurar qualquer discussão sobre sexo. É isso que querem os puritanos, mais presentes no povo do que no governo: envergonhar você, pra que você cale a boca e eles sigam sua agenda. Por isso pessoas geniais acabam praticando autocensura, escrevendo o que agrada, não o que pensam. Mas, como qualquer outra ciência, a psicologia não pode se dar ao luxo de negligenciar o sexo se isso for relevante. A ciência é amoral e deve continuar amoral, mesmo quando conclui, com acerto, algo que ameace a moral. A psicanálise lida com instintos e os instintos libidinais são os mais facilmente detectáveis, dentre os instintos relevantes. Existem as pulsões de amor, mas existem também as de ódio, de agressividade. Observe, porém, que um mesmo objeto pode ser visado por ambos os intintos. Veja o caso do sadismo: você ama causar dor. Você só pode causar dor e sofrimento a quem você odeia, mas o sádico geralmente sente atração por aquele a quem faz sofrer, mesmo que só ao seu corpo. Você deriva prazer ao causar dor ao sujeito (manifestação de ódio), mas ao sujeito por quem você já sente alguma atração (manifestação de amor). Se você, leitor, passa por isso e precisa conversar com alguém, eu sou todo ouvidos, embora não seja médico. Tem um formulário de contato no canto superior direito da página.

Voltando ao assunto, o sadismo internalizado, o masoquismo, também opera de forma similar: você ama se causar dor. Donde decorre que amor (atração) e ódio (agressão) são sentimentos opostos, mas de forma alguma mutuamente excludentes. É possível amar e odiar a mesma coisa, ao mesmo tempo. Por que isso acontece? Não sabemos. Existem muitas coisas sobre nossas motivações que não podemos explicar, seja porque escondemos tais motivações, seja porque realmente não sabemos as motivações. Nem sempre podemos explicar por que fazemos o que fazermos, por que sentimos o que sentimos.

O efeito do grupo sobre o indivíduo.

A psicologia social e a psicologia individual raramente estão separadas. Isso acontece porque muitos de nossos processos mentais são estimulados por pessoas próximas ou dirigidos a elas. Isso é verdade para vários instintos, como o instinto agressivo e o instinto sexual, que geralmente visam pessoas com as quais lidamos diariamente. Assim, abordar a psique de uma pessoa implica examinar também seu ambiente, inclusive seu ambiente social. Um indivíduo pode alterar seu grupo e um grupo pode alterar um indivíduo. Assim, a psicologia tem um aspecto individual (você estuda a mente de um indivíduo particular, como Antônio, Cícero ou Guilherme) e um aspecto coletivo (você estuda a mente de um indivíduo como parte de um grupo, como trabalhador, brasileiro ou homem). Faz parte do estudo da mente social o efeito que um grupo tem sobre um indivíduo. Entenda: temos um instinto para a socialização, que nos leva a procurar pessoas com quem temos algo em comum (como instintos em comum), a fim de nos conectarmos a essas pessoas.

Um grupo é formado quando pessoas, por mais diferentes que sejam, têm certas coisas cruciais em comum, como objetivos e comportamentos, e tais pessoas influenciam uma a outra a ponto de estimular comportamentos comuns a todos e peculiares ao grupo. Tanto participamos de grupos com os quais temos afinidade quanto de grupos dos quais não gostamos realmente de participar. Estar em um grupo com o qual você não se identifica (grupos artificiais, dos quais você é forçado a participar) requererá que você dissimule, o que pode causar timidez ou ansiedade. Tais grupos precisam de uma força externo pra mantê-los existindo, já que seus participantes provavelmente prefeririam deixá-lo, se pudessem. Já quando você está em um grupo com o qual você realmente se identifica, três coisas podem acontecer. Essas três coisas são um objeto de estudo recorrente da psicologia social. Essas coisas não são inerentemente ruins, mas podem se tornar ruins dependendo da índole do grupo ao qual se pertence.

A primeira coisa é o empoderamento. Quanto maior o grupo, menor é a chance de um de seus membros em particular ser punido pelos atos do grupo. Tome, por exemplo, o arrastão na praia. Quanto maior o grupo de ladrões que participa do arrastão, menor é a chance de um participante específico ser preso. Quando você está em menor número ou sozinho e lida com a sociedade, você tem que se controlar pra evitar que seus impulsos lhe causem problemas. Mas, quando você está num grupo em que todos partilham dos mesmos instintos reprimidos que você, acontecerá que você perderá a vergonha que cerca tais instintos. Você se sentirá seguro, aceito. Se o grupo for mais intelectual, temas considerados “tabus” deixam de ser e ideias explosivas são livremente discutidas. Se o grupo for criminoso, o medo da lei é reduzido. Assim, participar de um grupo de pessoas que pensam igual a você reduz a repressão que você faz sobre si mesmo, sobre o que você pensa, sobre suas ações e suas palavras. Você se mostra como realmente é. Na verdade, como muitas neuroses têm origem em algum tipo de repressão, pode até ser que certas neuroses se amenizem quando o sujeito está num grupo que o aceita. Como algumas pessoas com problemas mentais parecem agir como primitivos, o alívio proporcionado pela participação em um grupo pode até ajudar a pessoa a se “civilizar”. Isso pode surpreender o próprio sujeito, o qual, ao deixar a reunião e ir pra casa, pensa coisas como “nem pareceia eu”. Mas era você. É que, longe do grupo, frágil, em menor número, você aprende a fingir ser outra coisa pra não apanhar por suas convicções. Num grupo de pessoas como você, porém, a história é outra: pela aceitação, você deixa de ouvir as críticas que você mesmo se faz, o que te deixa muito mais feliz. Em um lugar onde você tem que policiar seu comportamento com mais intensidade, você acaba ficando triste. Isso porque você tem que se reprimir muito. Se essa crítica é feita por você mesmo, não pela sociedade, isto é, se você tem padrões elevados de comportamento que você impôs a si mesmo, você ficará triste toda vez que você falhar em se adequar a tais padrões. Num grupo ou sociedade que não prioriza esse tipo de continência, você não precisa de nada disso. E estar livre de tais coibições dá prazer. O problema é que, quando você deixa o grupo, pode ser que você sinta vergonha do seu comportamento no grupo. É como o álcool: você se sente bem quando está bêbado, mas sente vergonha do seu comportamento depois que você volta à sobriedade… apenas pra encher a cara de novo na noite seguinte.

A segunda coisa é o contágio. Quando nos conectamos com pessoas que têm coisas em comum conosco, o nosso comportamento influencia o comportamento do outro e vice-versa, porque o instinto de socialização é o que permite a sugestão. Se você ouvisse uma ideia explosiva de um estranho, você teria maior resistência a essa ideia do que se você a ouvisse de um amigo. Num grupo em que todos têm coisas em comum, é mais fácil que as ideias menos populares que cada membro tem sejam discutidas francamente, aumentando o potencial influenciador de uma ideia. Com cada membro influenciando o outro, o grupo vai formando um sistema mais ou menos coerente de crenças e comportamentos. Além disso, quando você leva outro a pensar ou agir como você, sua própria atitude é reforçada. Isso não quer dizer que todas as crenças serão aceitas por todos, mas, em tal ambiente, a chance disso acontecer é real. Quem tem ideias dissidentes não necessariamente é excluído, já que, visando fins em comum, é preciso tolerar as diferenças, o que é uma manifestação de amor ao próximo, típica dos grupos com laços afetivos mais fortes entre os membros. Afinal, se fôssemos excluir uma pessoa da nossa vida sempre que entrássemos em conflito com ela, nenhum casamento, nenhuma amizade, nenhuma família subsistiria. A menos que estejamos lidando com narcisistas, que pensam que agir ou pensar de forma diferente é uma crítica pessoal ao seu próprio estilo de vida, cada membro do grupo terá que tolerar as diferenças do outro pelo bem do objetivo que eles têm em comum. Pode ser apenas que ele entenda que aquele grupo não é lugar pra debater certas coisas. Isso é normal: pertencer a um grupo sempre implica a perde de alguma liberdade, mesmo que você ganhe outras liberdades. Ele pode até arranjar um outro grupo pra discutir isso. Afinal, cada pessoa pertence a vários grupos: nação, sexo, sindicato, religião… Se ele não fizer isso, se ele tentar impor seu modo de ser aos outros membros do grupo, ele será expelido do grupo ou o grupo deixará de existir. Isso é uma manifestação de amor próprio em excesso (você ama tanto a si mesmo que quer que todos sejam como você). Esse tipo de mentalidade está na raíz dos preconceitos nacionais. Como o amor próprio só pode ser limitado pelo amor a outros, pode muito bem ser que um sujeito desses seja incapaz de amar os outros membros do grupo e só veja o grupo como um recurso a ser explorado. Uma pessoa dessas merece o rótulo de “antissocial” ou até “neurótica” deve ser expulsa do grupo pra que o grupo subsista. Assim, graças ao contágio de ideias, os membros de um grupo têm seu comportamento cada vez mais homogeneizado.

A terceira coisa acontece com aqueles que se sentem realmente e completamente aceitos por aquele grupo. Eles correm risco de ser tão absorvidos pelo grupo que nele se dissolvem. Você perdeu sua personalidade. Você passa a viver pelo grupo e em função dele. A causa do grupo é a sua causa, e as ideias do grupo são ideias às quais você se dedica incondicionalmente. Você se tornou o grupo. Outras pessoas podem até nem te reconhecer mais. É como se você se tornasse outra pessoa. Em casos como esse, outras pessoas que também se dissolveram nesse grupo alimentam o comportamento de assimilação. Em tal condição, certezas nascem às pressas e os sentimentos são exagerados: você passa a odiar quem discorda de seu grupo e o diálogo civil torna-se impossível com quem está fora. É o cenário perfeito pra criar fanáticos, pra bem ou pra mal. Daí pra glorificação da violência é um pulo, porque, justamente por consequência do empoderamento, a pessoa toma atitudes que seriam proibidas pelo instinto de autopreservação se ela estivesse sozinha. Ela está no limite e a sensação de invencibilidade a leva a fazer coisas irresponsáveis. De um grupo desses você pode esperar palavras de ordem extremas, tipo “temos que acabar com a paternidade, pra que só mães existam”, embora não com essas palavras. Observe que, se for por uma boa causa, tal dissolução será benéfica, porque a pessoa estará na posse de todo seu potencial.

Eu gosto de chamar essa dissolução de “bestificação”, porque o sujeito acaba perdendo também seu senso crítico e a inteligência nessa sopa ideológica. Pode ser que uma pessoa que, sozinha, é culta, se torne um animal quando junto das outras pessoas que compõem seu círculo.

A bestificação torna o falso tão plausível quanto o verdadeiro. Por quê? Porque o grupo tem crenças, instintos a ser satisfeitos e a sensação de invencibilidade (quanto maior ele for). Essas pessoas não estão interessadas na verdade. Os bestificados estão interessados em satisfação, não em evidência. Pelo menos, não na evidência que discorde deles. Por causa disso, um grupo é influenciado não pela razão, mas pelo discurso dirigido aos instintos e anseios (que pode ser também dirigente desses instintos e anseios). Isso favorece o aparecimento de chefes ex officio, gente que instrumentaliza o grupo por fora. Um grupo organizado munido de engenharia social e uma fala bonita pode, lentamente, dirigir as ações de um grupo bestificado, seja provocando-o (por vezes com consequências catastróficas, uma vez que o grupo bestificado não conhece limites) ou acalmando-o e reduzindo-o à apatia, para bem ou para mal. A verdade não será usada nesse processo, mas, sim, os instintos do grupo, que são explorados pelo discurso.

Essas três coisas mostram como uma pessoa pode agir de dois jeitos diferentes, dependendo de ela estar ou não entre seus companheiros. Não é interessante como uma coisa tão provisória como um grupo, que só existe enquanto seus membros estão reunidos, pode ter um impacto tão forte sobre a psique humana a longo prazo?

O grupo organizado.

Os três efeitos do pertencimento ao grupo não são novidade e já foram delineados antes por filósofos, cientistas, políticos e basicamente qualquer pessoa com bom senso e experiência de vida. Mas como mitigar os danos que o grupo pode causar a um indivíduo? Como evitar o fanatismo, a irresponsabilidade e a perda de personalidade? Com organização. Esses efeitos, que eu chamo coletivamente de “bestificação”, são mais típicos de grupos desorganizados, do tipo “multidão enfurecida“. Organizar um grupo é algo feito em cinco passos.

Primeiro, é preciso que o grupo não seja efêmero. Grupos que só são feitos para alcançar objetivos de curto prazo e que se dissolvem quando o objetivo é atingido ou até antes disso, quando todo o mundo perde o gás, são mais facilmente bestificáveis. É preciso então que o grupo tenha meios de se perpetuar, se reunindo com frequência para deliberações, talvez com eleição de novos chefes, seja de maneira democrática ou pela indicação dos chefes anteriores. O segundo passo é a autoconsciência: cada membro do grupo precisa saber qual é a natureza do grupo, como ele é composto, quais suas capacidades e quais seus objetivos. Isso evitará que o grupo saia fazendo coisas irresponsáveis. Afinal, haverá tanto um objetivo claro em mente quanto um plano pra se chegar lá.

O terceiro passo é a associação com outros grupos semelhantes. Ênfase em “semelhantes”, não iguais. Se os grupos forem iguais, podem muito bem se fundir, o que não é uma coisa ruim. Mas, se forem semelhantes, isto é, procurarem o mesmo objetivo, mas por meios diferentes, cada grupo poderá olhar criticamente para si próprio, a fim de se depurar de suas próprias más condutas ou avaliar se alguma de suas estratégias pode ser seguida mais rapidamente ou com menos custos. O quarto passo é a formação de tradições no grupo, lemas, reuniões periódicas, coisas que façam os sujeitos sentir que pertencem. Por último, deve haver atribuição de funções a cada membro segundo suas aptidões, dispondo-os numa estrutura. A menos que o grupo tenha uma estrutura como essa, seja organizado, o que há de pior em cada membro irá aflorar. É preciso que o grupo mantenha seus benefícios e mitigue seus malefícios. Organizando o grupo, ele se torna uma potente arma de ação social, política, intelectual e até violenta, se o grupo tem objetivos malignos. Observe que isso não quer dizer que você só pode operar grandes feitos em grupo: muitos solitários também conseguiram grandes feitos.

Os problemas do amor.

Pode existir algum problema no melhor sentimento que existe? Sim, pode. O pior deles vem do prejuízo ao senso crítico proporcionado por qualquer emoção. Quando amamos demais, fazemos uma ideia errada da pessoa que amamos. Por outro lado, também é possível amar demais uma pessoa quando fazemos uma ideia errada dela (dizem que você se apaixona por uma mulher se você exagera o quão diferente ela é das outras). Então o problema pode aparecer vindo de qualquer dos dois sentidos. Achamos que ela é perfeita, que ela nunca poderia nos decepcionar. Isso é muito grave. Quando você pensa que a pessoa é muito melhor do que ela realmente é, você ficará muito decepcionado ao descobrir os defeitos daquela pessoa. Todo ser humano tem defeitos, alguns até muito profundos, que podem tornar uma relação insuportável com a pessoa errada. Assim, é importante que a pessoa que ama não perca de vista o fato de que seu amado é humano e todo humano é imperfeito. Esteja pronto pra se deparar com os defeitos do amado ou você será surpreendido por eles. Estar preparado reduz a decepção. Se você não fizer isso, há outro problema que daí pode derivar: a exploração. Quando você ama uma pessoa e começa a vê-la como perfeita, você está disposto a se sacrificar por aquela pessoa. Se a pessoa percebe isso, ela pode, dependendo de sua índole, tirar vantagem disso. Um favor aqui, um favor ali, quanta inocência! Mesmo depois que o sujeito percebe que está sendo explorado, pode ser que ele tenha medo de confrontar o parceiro com isso, porque isso poderia ferir os sentimentos do amado. Mas pense: se você está sendo explorado, isso não quer dizer que a pessoa não te ama como pessoa, mas apenas como ferramenta? O que você ainda quer com essa pessoa? Ela escravizou você! Nessa situação, o seu amado fica no caminho entre você e seu enriquecimento ou aperfeiçoamento pessoal, a menos que você realmente acredite que está numa condição melhor amando aquela pessoa. O fato de que o amor cega o senso crítico a ponto de permitir a ilusão de que o parceiro é perfeito (ou pelo menos melhor que você), com todas as consequências que daí derivam, mostram que o enamoramento é um tipo discreto de hipnose. Felizmente, a hipnose não funciona com todo o mundo e funciona melhor em quem acredita que o hipnotista é capaz de feitos como esse e numa pessoa cuja atenção está sendo desviada. Então, a primeira coisa que você deve fazer pra evitar que o amor cegue você é se impedir de pensar que seu amado representa algum tipo de autoridade. A segunda é não deixar que a pessoa do amado o distraia das ações desse amado. Não se permita fascinar.

Há um outro problema que só existe onde há amor e tal problema é o ciúme, o qual pode chegar a proporções paranoicas. Só pode sentir ciúme quem ama (mesmo quando ama só como amigo). O ciúme normal é caracterizado pela irracionalidade (total ou parcial, já que não existe emoção ou sentimento totalmente racional), pelo sentimento de rejeição, pela sensação de inferioridade, pelo ódio ao adversário, pelo medo de perder a pessoa amada e pela autocrítica. Em tal estado de espírito, a pessoa pode continuar na esfera do normal ou descender na escala do ciúme doentio, com todos os delírios que daí derivam. Observe, porém, que ideias paranoicas podem existir numa pessoa sem que a pessoa acredite em tais ideias: “geralmente, quando um homem volta tarde pra casa, é porque ele trai… mas não o meu homem.” Então, o fato de uma pessoa ter ideias que são paranoicas não significa que a pessoa acreditará nelas. Por outro lado, uma pessoa pode acreditar em ideias paranoicas sem fundamento. A pessoa só pode ser considerada doente quando vê tais ideais como plausíveis e passa a agir de acordo com elas. Uma coisa são pensamentos, outra coisa são ações. Mais ou menos como o pedófilo, que não pode ser considerado doente enquanto mantém suas vontades pra si, sem ir atrás de crianças ou de pornô infantil.

Não há necessidade de infidelidade pra haver ciúme, basta que haja um excesso de vigilância ou de controle. Qualquer desvio do comportamento “permitido” é visto como início de traição: olhar pra uma mulher de determinada forma, sorrir pra uma comadre, ver pornô… Na verdade, um ciumento pode até tentar ler os pensamentos da pessoa, quando a pessoa está andando “na linha”. Nesse caso, ele encara até mesmo a fidelidade da pessoa com suspeita (“ele não é fiel de verdade, só está escondendo melhor sua traição ou aprendeu a ocultar os sinais que eu observava”). Não dá pra deixar uma pessoa dessas feliz. Se você tá casado com uma pessoa dessas, eu sinto muito mesmo por você. Por causa disso, ao tratar uma pessoa com ciúmes patológicos, tentar refutar as “evidências” coletadas pode não surtir efeito. Seria mais frutífero fazê-la ver essas evidências de outro jeito (“seu homem não vai trair você com toda mulher que ele vê na rua ou com todas a quem ele cumprimenta”). O ciúme é mais forte quando é sentido por uma pessoa que já trai o parceiro ou que sente vontade de traí-lo. A pessoa pensa: “se eu posso traí-lo, o que o impede de me trair?” Isso é grave… Uma pessoa dessas está ciente das tentações que acometem um relacionamento sério, mas ao mesmo tempo assume que seu parceiro tem tão pouca força de vontade como ela própria. Essa pessoa pode acabar formando um comportamento altamente hipócrita: exige uma fidelidade (aliás, uma conformação a regras irrealistas) do parceiro, mas chama a própria traição de “fugidinha”. Só é ruim quando o outro trai, não quando eu traio. Olha que sacanagem. Se o ciumento patológico espera um comportamento perfeito do parceiro, ele será frustrado várias vezes e terá a sensação de que o parceiro não o ama. É como a pessoa que quer ser amada por todos: no momento em que alguém lhe dá menos que amor, ela pensa logo que está sendo perseguida, que ela é odiada, que ela é indesejada… Não é verdade. As coisas não são como você quer, mas isso não quer dizer que você não é amado ou, pelo menos, tolerado.

A homossexualidade.

Homossexualidade é a direção preferencial do impulso sexual para membros do mesmo sexo, podendo ocorrer tanto em homens quanto em mulheres. É isso. Ela não tem nada a ver com maneirismos, tom da voz, trejeitos, tipo físico nem nada disso, embora tais características possam estar presentes. O que define o homossexual é seu desejo sexual, não suas roupas, aparência, voz, gostos ou coisas que tais. Na verdade, nem mesmo a atitude sexual da pessoa é um indicador definitivo da sexualidade dela: existem homossexuais que, por pressão social, não se relacionam com membros do mesmo sexo. Assim, se a pessoa sente desejo pelo mesmo sexo, ela ainda é homossexual mesmo que não se relacione com alguém do mesmo sexo. Novamente, é o desejo pessoal que importa. Dependendo da pessoa, você só vai saber com certeza se ela é ou não homossexual perguntando pra ela, e se ela for honesta com você. Mas, como sentimentos românticos geralmente acompanham os sexuais, talvez você possa perceber que uma pessoa é homossexual pela proximidade que ela tem com um membro do mesmo sexo.

As causas da homossexualidade não estão suficientemente claras: ela é congênita ou adquirida? Embora essa questão seja pertinente pra muitos, ela, na verdade, não tem mesmo importância. Nos preocupamos com a gênese de comportamentos doentios, mas, se a homossexualidade não é doença, por que seria importante se perguntar de onde vem a homossexualidade? Por acaso alguém, ainda hoje, quer “tratá-la”? Mas, se você quer mesmo saber, a opinião científica se inclina mais pra ideia de que ela é congênita. Você não aprende a ser homossexual, mas se descobre um. E alguns descobrem bem cedo. Sinais de homossexualidade podem ser observados ainda na infância ou adolescência. Mas não podemos nos apressar e dizer que o menino que brinca de troca-troca crescerá interessado em homens: experiências homossexuais na infância ou adolescência não necessariamente indicam que a pessoa será homossexual na idade adulta. Isso acontece porque, embora tais experiências tenham ocorrido, o menino, ao crescer, pode perceber que mulheres são mais interessantes e lhe dão um tipo mais intenso de prazer, que não foi derivado daquela brincadeirinha.

É possível converter um homossexual à heterossexualidade? Isso é tão possível quanto converter um heterossexual à homossexualidade. Imagine você, homem hétero, tentando deixar de gostar de mulher. Você acha que existe força na Terra capaz de fazer isso? Além disso, mesmo que fosse possível fazer um homossexual deixar de gostar do próprio sexo, não haveria garantia de que ele passaria a gostar do sexo oposto (é como tentar fazer um hétero virar bi). Analogamente, o homossexual é assim. Muitas vezes o homossexual não é nem sequer capaz de imaginar como as coisas poderiam ser diferentes. Aliás, a homossexualidade, a menos que entre em conflito com valores sociais, não adoece a pessoa. Pra que uma pessoa vai procurar tratamento pra uma condição que não lhe faz mal? Segue-se portanto que o homossexual que procura tratamento normalmente não está fazendo isso por si mesmo, mas porque outra pessoa está o pressionando a procurar tal tratamento. Só que isso não funciona muito bem, porque a terapia, particularmente a psicanálise, funciona melhor em pessoas que procuram o médico totalmente por conta própria. Como método, existem situações em que a psicanálise funciona melhor e situações onde ela é inútil. Por exemplo: suponhamos que os pais estejam preocupados com a homossexualidade do filho e o mandam pra terapia pra curá-lo. Numa terapia como essa, é o médico e o paciente que trabalham juntos e, preferivelmente, sozinhos. Se o filho está ali à força, não porque reconhece que tem um problema, como você vai tratá-lo, sendo que você deve zelar pelo bem-estar dele sem manipulá-lo? Como tratar alguém que não se considera doente, especialmente quando nem o médico, nem os pais, nem ninguém são capazes de apontar qualquer consequência negativa daquele comportamento e se tal comportamento não torna a pessoa “má”? Um tratamento desses fará mais mal do que bem. Por causa disso, a psicanálise não deve ser usada em tratamentos do tipo “cura gay”, porque não é lógico que exista uma doença que não faça mal. Se não faz mal, não é doença. Na verdade, pode até ser que ser homossexual seja uma vantagem. O homossexual só se interessa por membros do mesmo sexo que também sejam homossexuais ou, pelo menos, bissexuais. Isso quer dizer que eles não entram em conflito com heterossexuais (que são a maioria) por razões de ciúme ou competição por parceiros do sexo oposto. Isso torna um homossexual mais sociável que um hétero. Também nada impede também que o homossexual seja um membro ativo da sociedade e com ela contribua. Lembre da Grécia antiga, onde a homossexualidade inclusive tinha um papel pedagógico. Observe que isso não quer dizer que nenhum médico psicanalista jamais tentará esse tipo de procedimento. Existem médicos sem ética. Por isso, a psicanálise, especialmente se ela vir a se tornar popular e acessível até mesmo aos pobres, só deve ser feita por quem tem treinamento, inclusive ético, específico para o exercício psicanalítico. 

Além disso, no caso de bissexualidade latente, pode ser que a pessoa, no futuro, venha a se interessar por membros do sexo oposto, mesmo sem deixar de gostar de membros do mesmo sexo. Quem sabe? É como aquele ditado que diz “o homem hétero só o é porque nunca conheceu um homem que lhe interessasse.” Se assim for, é mais seguro assumir que todo o mundo é potencialmente bissexual e esquecer o assunto. Pense: no reino animal, nenhum espécime é totalmente homossexual ou heterossexual. Por que seria diferente com o homem? Então, mesmo que o homossexual seja preferencialmente atraído por membros do mesmo sexo, isso não signfica que ele não venha a encontrar um membro interessante do sexo oposto algum dia (o que não significa que ele ficará “curado” de sua atração homossexual, mas que ele se descobriu bissexual).

Você nunca deve tentar tratar quem não está doente. Infelizmente, muitos pais que pensam que o filho saudável é aquele que não dá trabalho mandam seus filhos perfeitamente normais pra terapia. Já pensou se o médico comete um erro e diagnostica o menino com um problema que ele na verdade não tem? Ele vai ter que tomar remédios, às vezes remédios caros, sem necessidade! Se você pensa que seu filho tem que ser perfeito pra ser normal, por favor não tenha filhos. Pai tem mesmo que sofrer a personalidade do filho e corrigi-lo com educação. A psicoterapia é pra pessoas que representam um risco a si mesmas ou aos outros, pra aqueles que se sentem doentes ou pra aqueles que têm problemas que impedem seu avanço profissional ou escolar. Então, se o homossexual procura tratamento porque outros o pressionam a isso (geralmente a pressão vem dos pais, que temem a vergonha de ter um filho homossexual), segue-se que a terapia de conversão é desnecessária em sociedades que aceitam a homossexualidade. Numa sociedade liberal, o homossexual só está doente se ele se acredita doente. Alguém pode argumentar: e quanto aos casos de conversão bem-sucedida? Boa parte desses casos envolve pessoas que se relacionavam com pessoas do mesmo sexo por falta de opção, mas que, na verdade prefeririam alguém do sexo oposto. Se você se relaciona com alguém do mesmo sexo não por um desejo preferencial, mas porque seu acesso à pessoas do sexo oposto está bloqueado, você não é homossexual. É como a pessoa que se relaciona com crianças não por preferência, mas por falta de parceiros adultos: não é pedófilo, só um criminoso comum. Isso torna maior parte desses casos de conversão (talvez até todos os casos) inválidos.

A sexualidade infantil.

Todo ser humano é capaz de sentir, desejar e procurar prazer desde que nasce. Aliás, às vezes até antes de nascer, ainda no útero. Conforme a criança cresce, ela vai percebendo que seu corpo pode causar sensações gostosas quando é tocado em certas áreas. Embora muitos pensem nas zonas erógenas clássicas (boca, ânus e genitais), é importante lembrar que a natureza plástica da sexualidade humana pode tornar virtualmente qualquer parte do corpo numa fonte de prazer (seios, pescoço, pés, nádegas, entre outros). Mas então, a criança vai crescendo e vai percebendo isso. Ela pode então se voltar ao corpo dos coleguinhas e dar uma bela dor de cabeça aos seus pais, que se perguntam se seu filho é normal ou precisa ser tratado. Bom, ele é normal. Não existem crianças incapazes de derivar prazer das próprias zonas erógenas. Isso não quer dizer que crianças fazem sexo, mas elas provavelmente terão brincadeiras superficiais entre si, como jogos de mostrar (facilitados pelo uso do telefone celular) ou jogos legalmente questionáveis de verdade ou desafio. Na verdade, como a criança tem menos pudores, tais jogos podem ser até perversos. Por causa de tais jogos e também prestando atenção na natureza, nas aulas de educação sexual e nas conversas que adultos têm com outros adultos, a criança vai adquirindo conhecimento sexual. O conhecimento sexual da criança pode impressionar os pais, que não sabem de onde o gurizinho aprendeu certas coisas.

Antigamente, tal conhecimento era realmente razão de surpresa, já que a informação não vinha facilmente até você. A criança tinha que caçá-la e aproveitar cada oportunidade de saciar sua curiosidade. Por exemplo: ouvindo as conversas dos adultos. Um erro grave de muitos pais é pensar que a criança que brinca na mesma sala em que adultos conversam nunca presta atenção no que os adultos estão falando. Outros autores apontaram isso, que a criança pode sem problemas dividir sua atenção entre a fofoca transmitida entre adultos e o carrinho com o qual está brincando. Aqueles, porém, eram outros tempos, em que a informação sexual, embora não fosse escassa, era ocultada. Já hoje, basta que o menino saiba dizer okay, Google. Se crianças inocentes já eram ocorrência anormal antes, agora não deve mais existir nenhuma. Graças a essa informação (obtida diretamente ou clandestinamente), a criança vai aprendendo os padrões morais da sociedade capitalista ocidental cristã e encontra um monte de novas distrações (estudos, esportes, novas amizades, entre outros), entrando num período de latência, que não necessariamente implica o fim do seu desejo por prazer, mas uma internalização dos valores morais vigentes: ela entende que certas coisas não devem ser feitas ou, pelo menos, não devem vir ao conhecimento de seus pais. Isso quer dizer que, ao contrário da crença popular, a vida sexual não começa na puberdade. O que acontece na puberdade é que o desejo sexual chega à sua maturidade completa: o adolescente é tão desejante quanto um adulto. Por isso que boa parte dos casos de gravidez adolescente ocorre em casais onde ambos são adolescentes. Dois adolescentes podem, enquanto têm suas primeiras experiências, cometer o maior erro de suas vidas, tendo um filho antes de concluir sequer o ensino médio. Isso torna a educação sexual necessária. Isso é também agravado pelo fato de a puberdade, hoje em dia, não esperar mais o fim da infância pra ocorrer. A puberdade vem chegando mais e mais cedo…

Outros temas: os sonhos; ansiedade, medo e susto; instinto de socialização; o chefe do grupo; a identificação; o amor como meio de mudança social.

Os sonhos podem significar várias coisas, mas geralmente representam a satisfação de um desejo ou o aviso de uma ansiedade. Os primeiros preparativos para o sonho começam ainda quando estamos acordados, quando entramos em contato com situações cotidianas que deixam sua impressão em nós. Por exemplo: lembro de quando eu sonhei que um cara bem forte e malvado jogava vendedores ambulantes pela janela do ônibus em movimento. Eu ri até acordar. Isso foi na época em que eu detestava ambulantes que vendiam em ônibus (ocorrência cotidiana que deixa impressão). Mas hoje sei que eles, assim como eu, são pessoas sem muitas opções de trabalho. Então, hoje eu tenho certa simpatia por eles. Não obstante, o sonho que eu tive foi a realização de um desejo. Outro exemplo clássico é você dormir depois de tomar um porre e sonhar que tá bebendo água, ou o menino que dorme de bexiga bem cheia e sonha que tá fazendo xixi, o que pode ter consequências catastróficas. Já os sonhos de ansiedade são aqueles que te mostram o que você teme, coisas negativas que você antecipa. Na verdade, se você dorme pensando em um problema pertinente, pode até ser que você sonhe com a solução. Existem também sonhos que mostram o sonhador sendo punido por algo de que ele sente culpa ou vergonha e também sonhos que revivem eventos traumáticos, coisas nas quais não queremos pensar quando acordados. Sonhos traumáticos, diferentemente da maioria, nada tem a ver com satisfação de desejos. Isso torna os sonhos a ferramenta mais útil na exploração da mente de uma pessoa, porque eles revelam coisas ocultas sobre nossa vida mental. Observe, porém, que nossos sonhos não usam somente coisas internas (desejos, ansiedade, entre outros) como matéria; um som percebido na rua, enquanto dormimos, também pode interferir no sonho, bem como a sensação de calor ou frio e até mesmo cheiros.

Há uma diferença entre esses três sentimentos. Na língua portuguesa, a ansiedade pode ter um significado positivo: você espera algo bom que vai acontecer. Mas em outros idiomas, como inglês, essa palavra tem sempre conotação negativa, a de uma apreensão vaga de que algo ruim, conhecido ou desconhecido, está em vias de acontecer. “Ansiedade” é expectativa. Algo vai acontecer em breve. Já o medo é a sensação de algo presente e definido é perigoso. Dizer que você tem medo de aranhas significa dizer que, se houvesse uma aranha por perto e você a percebesse, você sentiria medo, isto é, sentiria que a aranha é perigosa e que, por isso, você deve se afastar dela ou matá-la. “Susto” é o aumento súbito de tensão sentida quando algo presumivelmente perigoso pega você de surpresa.

Temos um instinto de socialização, uma pulsão que nos leva a buscar pessoas com as quais possamos nos conectar. Não precisa ser uma amante, basta ser um amigo. Esse instinto é inconsciente: você não precisa perceber que está sozinho pra se socializar, embora estar sozinho possa causar medo ao solitário. Observe que o instinto de socialização não é mais forte dependendo do número desejado de pessoas: uma pessoa pode desejar ter somente uma família, em vez de dezenas de amigos. Não é o número que é importante. Além disso, o instinto de socialização não elimina a tendência à competição e nem o ciúme. O instinto de socialização é a fonte dos sentimentos de vergonha e dever. Quando fazemos algo que prejudica nosso pertencimento ao grupo, porque outros membros do grupo não veriam nossa ação com bons olhos, sentimos vergonha. Por outro lado, como valorizamos os grupos ao qual pertencemos, queremos que eles se perpetuem, o que desenvolve o senso do dever: eu tenho que cuidar dos meus conterrâneos pra que o grupo permaneça unido. Assim, a pessoa que tem sífilis, por exemplo, e nenhum meio de evitar que sua doença contamine outros (talvez o ministério da mulher, família e direitos humanos tenha proibido a entrada de camisinhas no país), se forçará à castidade por amor de seus conterrâneos. Mas, como já foi dito, pertencer a um grupo não elimina sentimentos ruins e competitivos como a inveja. Então, pode ser que essa mesma pessoa, com inveja da saúde dos outros, esconda sua doença a fim de levar consigo pro túmulo tantos quanto ele puder. A tendência à competição é especialmente negativa, pois ela pode colocar o grupo contra si mesmo. Então, é preciso que o líder do grupo trate isonomicamente todos os outros, para que nenhum dos integrantes do grupo seja mais ou menos que os outros integrantes em nenhuma circunstância. Assim, se ninguém pode ser privilegiado, ninguém tentará procurar privilégio. Isso mantém o grupo livre de disputas internas.

Existem grupos com chefe e grupos sem chefe. Num grupo com líderes, mesmo que o líder seja invisível (como Cristo), há dois tipos de laço afetivo: o laço com o líder, que é mais importante, e o laço mútuo entre os membros. O chefe é aquele que é visto pelos membros como o chefe, isto é, aquele cujas ordens ou sugestões são acatadas, mesmo que ele não seja o chefe “no papel”, oficialmente. Quando estamos em sociedade, tal pessoa geralmente é aquela que tem prestígio. Exemplo: cientistas, por uma questão de bom senso. Você não questiona tudo o que a ciência diz, porque você sabe que a ciência é segura. Então, você só duvida dela se tiver razões pra duvidar. Isso faz com que pessoas que trabalham com a ciência tenham “prestígio”, isto é, sejam vistas como mais aptas para comandar esforços que tenham a ver com sua área. Observe que isso só vale pra quem tem menos prestígio: quem tem menos prestígio tem maior tendência a acreditar, sem reservas, em quem tem mais pretígio. Já se o meu conterrâneo tem tanto prestígio quanto eu, não tenho razões pra considerar sem reservas o que ele diz. O prestígio é mantido pelo sucesso e enfraquece a cada fracasso, se originando da tendência humana a acreditar em um líder, em vez de raciocionar, na busca por um objetivo qualquer. Veja que um grupo pode também ser liderado não por uma pessoa, mas por uma ideia, caso no qual os integrantes do grupo apenas deliberam qual é a melhor forma de colocar tal ideia em prática. Se a ideia for simples o bastante, nem precisará haver deliberação. No entanto, também ideias só podem ser seguidas se tais ideias tiverem prestígio. Se um líder perde seu prestígio ou deixa o grupo, temos um problema grave… Uma pessoa ou ideia que o grupo elege como seu centro desapareceu. Isso abala a autoconfiança do grupo. Nesse ambiente, pode ser que alguns sujeitos no grupo sintam que o grupo não é mais seguro. Seu medo contagia outros membros e a sensação de empoderamento é reduzida, porque a desconfiança que os membros põem no grupo prejudica os laços emocionais que um tem com o outro. Se o grupo não é mais seguro, eu quererei deixá-lo; se não estou me sentindo mais tão forte nesse grupo, sentirei medo de enfrentar os oponentes do grupo. Passa a ser cada um por si, terreno fértil pro florescimento do pânico. O grupo acabou. Imagine o seguinte cenário: a arqueologia um dia prova, definitivamente, que Jesus não ressuscitou no terceiro dia após sua crucificação. O que iria acontecer com os cristãos, que têm Cristo como seu líder? Nesse sentido, pessoas que se reúnem ao redor de ideais, não de pessoas específicas, são mais longevos. Alguém pode perguntar se seria então mais longevo um grupo sem líder, seja tal líder uma pessoa ou um ideal. Não seria, porque não haveria organização. Grupos sem um líder geralmente são feitos na hora e somem tão rápido quanto são feitos. É o caso da multidão enfurecida, que se forma pra linchar um cara e se dispersa quando o cara morre.

Um dos laços afetivos mais primitivos é a identificação. Observe um menininho, já que a identificação é mais comum no sexo masculino. Ele provavelmente tem modelos de comportamento, pessoas que ele admira, pessoas que ele gostaria de ser. A identificação é o processo pelo qual o menino ou o homem adulto escolhe alguém em quem se espelhar. “Poxa, eu queria ser como o Dwayne Johnson“, pensa o cara que vai pra academia. Isso não é algo ruim. O homem, quando deseja aperfeiçoamento, vê a busca por modelos como algo perfeitamente válido. A pessoa que valoriza a força, irá procurar alguém forte como ele gostaria de ser e fazer o que deu certo pra aquela pessoa. O mesmo ocorre com a pessoa que deseja destreza, inteligência, vitalidade… ela procurará quem tem esses atributos em níveis elevados e aprender com esses sujeitos. É uma forma simples e objetiva de se aperfeiçoar. Afinal, você só precisa repetir o que deu certo com outro. O seu desejo é ser como aquela pessoa. A identificação se torna mais plena quanto mais próximo você está do seu modelo. Claro que isso tem um lado negativo. Quando uma pessoa muito parecida com você adoece, pode ser que você pense “se ele adoeceu, isso não quer dizer que eu posso adoecer também, já que somos parecidos?” Isso é o primeiro passo pra acontecer histerias coletivas, que é quando, por razões psicológicas, várias pessoas que frequentam o mesmo lugar sentem as mesmas moléstias. Isso pode ser bem assustador…

Observe que formamos grupos com pessoas que têm algo a ver conosco. Por causa disso, grupos formados espontaneamente terão mais membros homens ou mulheres, em vez de representações iguais. Pode até ser que um grupo tenha somente membros de um só sexo. Como sabemos, por muito tempo, os homens dominaram as mulheres no ocidente. Por que a situação foi invertida? Pense: se todos os homens fossem homossexuais e só se relacionassem com mulheres para reprodução, por ventura um congresso, formado somente de homens, teria dado às mulheres direito de votar? Antes da revolução feminista, homens dominavam a política. Por que os homens, que estão por cima, permitiriam que mulheres ascendessem de condição? É que o homem ama a mulher. É mais fácil você ouvir aqueles que você ama, porque quem ama quer deixar o amado em condição cada vez melhor. Se o homem não amasse a mulher, a estaria mantendo subjugada até hoje. O mesmo é válido para outros grupos marginalizados. Conceder benefícios a esses grupos só foi possível porque foi possível estimular os grupos dominantes a amá-los, pelo menos o bastante para considerá-los humanos. Se você é parte de algum grupo marginalizado, aí está seu plano. Se você se faz odiado, será combatido. Segue-se, portanto, que uma sociedade isonômica requer que amemos uns aos outros tal como amamos a nós mesmos, nem mais e nem menos. Esse esforço deve ser mútuo. Se eu tenho que amar você, pelo menos me ajude a fazer isso não sendo um filho duma égua. E lembre-se que, caso você traia os dominantes, estes terão o direito de trair você de volta.

Recomendações.

A ideia freudiana do prazer como sensação que acompanha a liberação de tensão nos permite fazer uma ponte entre o epicurismo e o estoicismo. Ambas as escolas filosóficas afirmam que é possível alcançar a felicidade. No epicurismo, a felicidade pode ser obtida pelo prazer calculado: você sempre deve buscar os prazeres naturais e necessários (alimentação, sono, entre outros); só deve buscar os prazeres naturais não necessários (sexo, comer muito, praticar certos esportes, entre outros) se o prazer provido por essas atividades é maior que a dor implícita nas mesmas; nunca deve buscar prazeres artificiais (fama e fortuna), porque a dor implícita no processo de obtenção dessas coisas e em sua manutenção sempre supera o possível benefício que delas poderia advir. Por outro lado, no estoicismo, a felicidade pode ser obtida pela tranquilidade: entenda que o universo é governado por uma razão universal que sempre sabe o que é melhor, então você deve tanto aproveitar o bem que a vida te traz quanto se adaptar ao mal que possa te acometer. Não existiria, portanto, razão pra desespero em nenhuma situação. Observe que o tratamento dado pelo epicurismo ao prazer coincide com o princípio da realidade de Freud: a busca pelo prazer deve ser moderada pelos instintos de autopreservação. É o princípio da realidade que nos diz que existem prazeres que não valem a pena. Por outro lado, quando Freud diz que o aparelho mental acumula tensão e o prazer é a sensação que acompanha a liberação dessa tensão, ele se aproxima de Sêneca. O que queremos é saciedade, tranquilidade… A felicidade, no período helenístico, coincide com “não ter do que reclamar”, ausência de dor. Quando você não tem do que reclamar (sem tensão acumulada no aparelho mental), você é feliz. Como o prazer é uma sensação que sempre segue o alívio da tensão, a qual pode crescer com o desejo, procurar o prazer coincide com buscar traquilidade: o estóico busca a tranquilidade (a qual provoca prazer) e o epicureu busca o prazer (consequência da tranquilidade). Os princípios freudianos de prazer, autopreservação e realidade podem servir pra criar uma ética completa voltada para o prazer e tranquilidade do indivíduo, trazendo a felicidade de volta pro centro da reflexão ética, depois que ela foi chutada de lá com Kant e sua primazia da justiça.

Já no que diz respeito aos grupos, a reflexão de Freud nos ajuda a entender a mentalidade de rebanho que acomete pessoas nas redes sociais, que partem por aí pra “cancelar” alguém. São pessoas, como eu gosto de dizer, bestificadas. Mas é possível criar um grupo tão devastador como essa gente pra operar boas causas organizadamente, sem que seus integrantes fiquem mais idiotas. Para criar tal grupo, é preciso primeiro que o líder do grupo crie um tipo de manifesto ou conjunto de objetivos fundamentais e estratégias pra chegar a tais objetivos e que ele tenha em mente que o grupo precisa se manter bom longo tempo, o que implica também pensar em um método pra determinar o sucessor no cargo de líder. Deixe que esse manifesto atraia pessoas que com ele concordam. Pense também em como organizar reuniões e atividades. Depois que um grupo estiver reunido ao redor dos ideais fundamentais, é preciso que haja uma atmosfera de aceitação entre os participantes: desde que ninguém aja de um jeito que contradiga o manifesto ou ameace o grupo, todo comportamento deve ser tolerado. Assim, a pessoa se sente feliz, aceita e não quererá deixar o grupo. A pessoa pode agir mais como si própria. Uma vez que o grupo está formado, é preciso que cada membro tenha uma função nesse grupo, uma tarefa a desempenhar, com base em suas aptidões. Pense nas estratégias pra alcançar objetivos e deixe que cada membro tome pra si o aspecto da estratégia que ele souber executar melhor. Depois, permita o livre trânsito de ideias, o que tornará o grupo mais homogêneo, facilitando a identificação e o amor mútuo. Tal processo precisa ser guiado, pra que ideias que ameacem o grupo sejam detidas, glorificando as ideias que fazem bem ao grupo e permitindo a proliferação de ideias que sejam neutras, a fim de não criar uma atmosfera repressora. Isso pode ser feito deixando claro aos membros do grupo qual é a natureza da associação que eles fizeram: o que ela é, como ela foi feita, quem são seus membros e pra quê ela serve. Esse tipo de informação ajuda a guiar as ideias na direção construtiva, pois você saberá quais ideias são mais relevantes. As ideias menos relevantes não podem ser alvo de escárnio, nem ser friamente ignoradas, mas também discutidas, desde que tenham alguma relevância mínima. Se você não tem escrúpulos, você não quererá impedir que alguns membros do grupo se tornem fanáticos ou radicais pela causa. Afinal, algumas coisas só vão mesmo pra frente dessa forma. Em seguida, forme uma rede de contatos com grupos semelhantes ao seu pra realizar ações coordenadas. Agora, sim, vá cancelar alguém.

Freud escreveu sobre várias outras coisas, mas a libido e a sexualidade são conceitos centrais, além dos instintos de morte e de autopreservação do ego. Isso nos permite reduzir o pensamento de Freud a conceitos básicos. Todo o resto seria interação entre esses conceitos. Uma vez que cada conceito esteja compreendido, entender o pensamento de Freud não será difícil. Este é um daqueles pensadores cujo estudo pode ser beneficiado por um dicionário específico. O estudante de Freud que dispõe de um “dicionário de psicanálise” não terá muita dificuldade em compreender, avaliar, criticar e aplicar o pensamento de Freud.

10 de fevereiro de 2020

A moral e a natureza humana.

Filed under: Livros, Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yurinho @ 21:58

O texto abaixo é uma honesta aula filosófica baseada em Além do bem e do mal, ou prelúdio de uma filosofia do futuro, escrito por Nietzsche, com sugestões de como as ideias contidas em tal escrito podem ser usadas para desenvolver o país e ajudar as pessoas a se compreenderem.

Coisas que a filosofia não é.

Para pessoas que nunca tiveram contato com a filosofia ou que se formaram em alguma outra coisa ou que, de uma forma ou de outra, não são “entusiastas” por ela, filosofia é história da filosofia. Isso não é verdade. Uma coisa é a filosofia, outra coisa é sua história. A filosofia, pelo menos antes da distinção entre ciência e filosofia, é o estudo racional do homem e da natureza, da qual o homem faz parte. A história da filosofia se ocupa apenas da documentação da evolução desse processo.

Por causa do gênio de alguns filósofos, a filosofia também não é fácil. Todo escritor tem um público-alvo. Se você quer fazer filosofia para leigos, você escreverá de maneira simples. O problema é que, historicamente, os filósofos mais influentes não escreveram pra leigos, mas para outros filósofos, para políticos, para cientistas, e isso torna as obras capitais da filosofia inacessíveis ao coitado do cidadão comum. Há aqueles inclusive que escrevem para pessoas como eles próprios. Esses são os mais difíceis de compreender. Um filósofo que chega ao ponto de escrever dessa forma, pra gente igual a ele mesmo, provavelmente tem algum objetivo implícito que vai além da mera divulgação do pensamento. Pode ser, por exemplo, que ele queira que suas ideias sirvam de instrução pra os que consomem sua obra, de forma que haja uma ação coordenada de certos segmentos da sociedade, ou talvez ele espere que esses leitores que o compreendam entrem em contato com ele. Isso, ou ele apenas quer evitar que suas ideias sejam usadas por “pobres de espírito” e use uma linguagem difícil ou enigmática pra garantir que só os “iluminados” entendam ele. Elitista, não?

Os erros dos filósofos.

Para este texto, estou igualando filosofia e ciência como formas racionais de conceber o mundo. Tanto o filósofo quanto o cientista buscam a verdade. Mas já pensou se a verdade for uma mulher? Estereotipicamente, intelectuais são péssimos com as mulheres… Isso talvez explique porque a filosofia já deu tanta mancada no cortejo de sua amada. Tal como o tímido usa os meios errados pra queixar a comadre dos seus sonhos, a filosofia muitas vezes usa os meios errados pra se aproximar da verdade. Por exemplo: generalização com poucos casos. É o caso da mulher que é traída por três caras e conclui que todo homem trai. Isso é uma generalização com amostra limitadas: por causa de três caras, ela diz que todos traem. Tá errado, certo? Bom, a filosofia e também a ciência já fizeram muito isso.

Há que se lembrar que a busca pela verdade já causou vários estragos à humanidade. O exemplo mais memorável é a bomba atômica. Aliás, a energia atômica em geral. A busca pela verdade leva nós, homens, aos mais brilhantes louros de glória, mas também aos mais desesperados fracassos. Talvez porque a buscamos a verdade de forma errada… ou talvez porque a buscamos em primeiro lugar. Afinal, a busca pela verdade é arriscada. Ser filósofo ou cientista é se expor ao risco. Aliás, é expor a humanidade ao risco. Correr risco pode recompensar, inclusive com a felicidade, então… quem sabe? Talvez valha a pena!

Outro erro dos filósofos é achar que uma mentira é automaticamente ruim. Quando o ser humano é frágil, talvez não valha a pena abandonar a ignorância. Mas não só isso: às vezes, uma verdade pode levar o ser humano à indolência. Uma “verdade” que faça o ser humano deixar de se aperfeiçoar vale a pena?

Por exemplo: a paz é possível? Se pararmos pra pensar se ela é possível, pode ser que estoure outra guerra mundial enquanto estamos pensando. E se concluirmos que ela é impossível? Valeu a pena concluir isso? Se a paz for mesmo impossível, isso significa que devemos parar de estimular a paz? Donde decorre que uma verdade nem sempre é útil ou desejável. Isso significa que uma mentira pode ter valor, se ela impele o ser humano a se aperfeiçoar. E daí que a paz é impossível? Ainda a queremos. Então vamos buscá-la, mesmo que ela não exista. E isso é bom, especialmente porque é útil a todos os humanos. A utilidade pública é uma manifestação de amor a todos. Procurando a paz, esse ideal impossível, ao menos reduzimos a violência no globo.

Disso se segue que uma verdade, pra poder pegar, precisa ser também útil. Dispor de uma verdade que não serve é como morrer de sede no meio do mar, água que não se pode usar pra matar a sede. Se você fala uma verdade inútil, seu valor não será percebido pelos leigos, pela política, por aqueles que não são filósofos ou cientistas. Ser percebido pela política é especialmente difícil, porque, na política, somente se considera aquilo que é visto como um problema pra uma determinada classe. Se uma classe política vê que a verdade encontrada por você diz respeito a ela, a verdade terá impacto político. Mas, na política, a menos que a pessoa esteja doente, ninguém se preocupa com problemas que não dizem respeito à sua classe. É preciso que a verdade seja útil a alguém ou resolva algum problema de algum segmento da sociedade, ou a verdade será esquecida (ou tida como mera “curiosidade”) e o mundo continuará do mesmo jeito. Na verdade, se a mentira for útil, as pessoas preferirão acreditar nela. A aparência pode ser mais atraente que a verdade. Muitas vezes, a verdade dói. Uma pessoa pode até esconder a verdade por saber que ela é cruel demais pra ser divulgada. Ela pode se mostrar como uma besta que se quer amansar ou ainda da qual se quer fugir.

Alguém pode argumentar que isso é um absurdo, porque todo o mundo quer educação, sabedoria e, portanto, a verdade. Não, cara, nem todo o mundo quer educação e sabedoria, nem todo o mundo quer a verdade. As pessoas querem viver bem, querem fruição da vida, gostoso conforto (o qual, a bem da verdade, convida o conformismo), mas os problemas da humanidade ficam no caminho.

Cada problema é, portanto, uma possibilidade de aperfeiçoamento e a ciência deveria fazer da verdade uma arma contra esses problemas, contra o sofrimento, tomando a oportunidade e sendo útil aos que enfrentam tal problema. O sofrimento nos move ao saber e cada sofrimento superado deixa a humanidade em um estado melhor que o anterior. Claro que pessoas acostumadas ao sofrimento veem a felicidade como algo efêmero, mas não seria isto também uma oportunidade? E se a filosofia e a ciência não apenas proporcionassem simples felicidade, mas também felicidade duradoura? Se a verdade for difícil de obter, for difícil de compreender, não resolver nenhum problema e não trouxer a felicidade, as pessoas procurarão a felicidade por outros meios.

Por isso tantos acreditam em belas mentiras. A ignorância proporciona a despreocupação! Se não valer a pena deixar a ignorância, ninguém a deixará. Isso é grave, porque felicidade e infelicidade não são argumentos. Não há lógica no mundo que faça uma pessoa agir de uma forma que ela reconhece como danosa à sua pessoa, inclusive ao seu estado de espírito, a menos que ela veja como ela pode derivar disso um benefício que compense a dor sentida.

A menos que a verdade seja também útil, ela não será aceita. Por isso o reacionarismo intelectual é tão forte hoje. Porque as verdades produzidas em nosso tempo não agradam. A verdade pode não ser tão prazerosa. Exemplo: o estado deve ser laico, moral é relativa, a liberdade de expressão deve ser total, o critério de avaliação de uma relação sexual é sua qualidade, entre outras coisas que deixam muita gente desconfortável, tanto na esquerda quanto na direita. Na verdade, pra alguns, elas soam até criminosas. Isso é agravado pelo fato de que mudanças estimulam hostilidade. Por isso se censuram livros feitos por gente da melhor espécie. É preciso que as pessoas vejam como tais ideias podem melhorar a vida delas, ou elas não aceitarão e se voltarão aos astrólogos.

É preciso fazer o bem, mas não somente à humanidade. É preciso fazer o bem também aos seres individuais: amigos, família, a si mesmo. Por mais que nossas ideias sejam verdade, se não forem úteis, não apenas à república, mas também aos indivíduos que dela participam, voltar à mentira é mais confortável, fácil e desejável. Todos querem a felicidade, mas a verdade não é prioridade de muita gente. Se a verdade, além de inútil, parecer também danosa, você diminui ainda mais as chances de aceitação, porque ninguém aceita algo que vê como prejudicial a si mesmo, não importando se é bom pra república. Isso é algo que se deve considerar na busca pela verdade.

Se a verdade tem também que ser útil, não podemos fazer filosofia ou ciência “desinteressamente”, como se agir de outra forma fosse imoral. Aliás, nada é feito sem interesse. Nem amor é feito desinteressadamente. Então essa ideia de que se deve procurar conhecimento “desinteressadamente” não apenas é um ideal pernicioso, mas também impossível de alcançar plenamente. Quem faz pesquisa sem, pelo menos, sentir prazer ao fazê-la? Esse prazer não é um interesse que te motiva a pesquisar? Pois então! Se não é possível agir sem interesse (toda ação voluntária pressupõe um objetivo), por que não permitir agir com interesses mais abrangentes, como o bem-estar coletivo?

É preciso fazer com interesse e o interesse é descobrir meios de melhorar nossa vida. É o interesse que nos diz em qual direção ir. Se você não sabe pra onde ir, você fica no mesmo lugar. É verdade, algo não é verdade porque me deixa feliz, algo não é belo porque me agrada, eu não sou grande porque me elogiam. Mas o ideal é que a filosofia e a ciência produzam conhecimento que seja verdadeiro e também útil. Observe que isso não é o mesmo que maquiavelismo: quando falo de utilidade, falo não somente dos resultados, mas também dos melhores meios de atingi-los, ou as consequências dos nossos meios voltarão pra ferrar a gente.

É pra isso que a filosofia e a ciência deveriam servir. Para isso, a filosofia deve se orientar por problemas. Em vez de simplesmente procurar conhecimento “desinteressadamente”, devemos pensar nas coisas que nos incomodam e procurar uma solução pra elas. É por isso que o ser humano mostra seu verdadeiro potencial na adversidade: se não houvesse problemas que nos incomodassem, ninguém procuraria mudar de condição, ninguém procuraria melhorar de vida. A existência de problemas e a busca por soluções pra eles é o que mantém o ser humano em movimento ascendente. Devemos usar nosso conhecimento pra fazer o bem, particularmente aos nossos próximos imediatos. É esse tipo de pensamento que faz o ser humano progredir, porque ele nos motiva a eliminar problemas que identificamos, o que torna a nossa vida melhor. Aí, sim, a verdade passará a recompensar no céu e na terra! Aliás, se a ciência e a filosofia forem usadas pra sistematicamente resolver nossos problemas, a terra gradualmente será um paraíso.

Há que se lembrar que as mentiras são facilmente aceitas por também serem, ao menos em sua superfície, simples. Amamos a simplicidade e isso nos deixa abertos ao consumo de conhecimento falsificado, o qual transforamará a mente como o alimento estragado transforma o corpo: estragando. Uma informação, verdadeira ou falsa, que seja também útil e simples será aceita por um maior número de pessoas do que se ela fosse apenas útil ou apenas simples. É preciso que a verdade se adeque a esses dois critérios, porque a mentira já se adequa. Alternativamente, você pode fazer a mentira soar complicada, reduzindo a adesão a ela. Se algo é simples, complicar aquilo reduzirá sua adesão. Isso também contribui pra que pouca gente se dedique à filosofia ou à ciência, porque temos o preconceito de que o conhecimento é difícil de conseguir, algo para velhos que já fazem isso a vida inteira, não algo que os jovens possam fazer. É verdade, existem problemas dignos dos mais sábios, mas nem todos são assim.

Você também pode mostrar a mentira prejudica o bem-estar da pessoa e como seu bem-estar poderia ser mais estável mudando pro lado certo. Essa tática é empregada por mentirosos. Mas os filósofos e cientistas acham que, só porque falam algo real, serão aceitos sem esses esforços. Pelo contrário: todo intelectual deve se esforçar pra ser compreendido e validado pelo maior número possível de pessoas.

Se o leigo não tem saco pra um artigo científico, desenhe uma história em quadrinhos, escreva um romance, componha uma música, qualquer coisa. O que importa é que sua ideia chegue a seu destinatário e seja compreendida. A maior dificuldade pra alcançar esse objetivo é que os sábios, de tão especialistas no que são, se distanciam da realidade do leigo e perdem de vista aquilo que interessa a eles, como eles pensam, do que eles falam. Isso afeta até mesmo sua pesquisa: um intelectual pode ter dificuldade em perceber algo que o leigo percebe, não porque o intelectual é idiota (porque ele não é), mas porque seu objeto de estudo lhe toma tanta atenção que ele esquece da vida. Na verdade, um sábio altamente especialista em seu campo pode até mesmo ser incapaz de compreender a si mesmo, embora conheça bem seu objeto de estudo. Isso dificulta a compreensão do sábio pelo leigo.

Sabe o que seria interessante? Se intelectuais escrevessem como comediantes ou, pelo menos, empregassem comediantes como editores. Porque comediantes, mesmo com o ocasional erro de português, escrevem melhor e mais desinibidamente que intelectuais puros. Os livros mais lembrados e mais influentes não necessariamente são os mais verdadeiros, mas os mais tocantes, mais belos, os que dão vontade de ler em voz alta. Nisso, a literatura de ficção ganha da literatura científica. É preciso que os filósofos e cientistas aprendam a escrever com um estilo mais interessante.

Mas tem algo mais… a busca da verdade não é somente uma questão de método, mas também de índole. Uma pessoa, ao falar da verdade, pode não ser suficientemente verdadeira. Existem filósofos que não são realmente amigos da “verdade”, mas amigos da “sua verdade”. Esse é um problema comum entre os filósofos que são, na verdade, moralistas disfarçados, que querem que seu modo de vida se torne (ou permaneça) o modo de vida dominante. Ora, a moral é uma interpretação particular do mundo, um modo de vida que escolhemos, por isso ela muda com o tempo, porque nossas necessidades mudam com o tempo. Um filósofo (ou melhor, ideólogo) que seja também moralista provavelmente está interessado em fazer com que todos adotem o comportamento pregado por ele, o que revela muito sobre quem ele é. Eles passam a usar sua lógica, sua dialética, pra disseminar o ódio a qualquer pessoa que possa posar uma ameaça ao que eles acreditam, chegando à estupidez de fechar os ouvidos aos argumentos contrários, postura parcial, oposta ao ceticismo e, por isso, suspeita.

Ora, o ódio nos predispõe a atitudes inconsequentes, como a mentira, por mais que a mentira seja bem-intencionada. Isso não é filosofia (a qual deveria se comprometer com a verdade), mas doutrinação. Lembre que uma conclusão plausível, convincente, nem sempre está certa. É por isso que até mesmo pessoas que acreditam na moral devem manter seu senso crítico alerta, para distinguir aqueles que raciocinam bem daqueles que falam bem. Preste mais atenção no que a pessoa faz, não tanto no que ela fala, quando o assunto é moral. Além disso, é preciso que aqueles que combatem tais ideólogos não se tornem também ideólogos.

Um moralista pode se apropriar da lógica, da dialética ou do método científico com o único intuito de justificar seus desejos reprováveis e fazê-los parecer aceitáveis ao mundo inteiro, pra se sentirem superiores, pra humilhar os outros, pra mentir pra si mesmo, pra subjugar ou até pra se humilhar (talvez pra gozar da aparência de modéstia). “Descobrem” coisas e dizem que elas são propriedades da natureza, querendo submeter a natureza, que é amoral, à tirania da sua moral, mas uma coisa é inventar e outra é descobrir. Há uma diferença entre o ser e o dever-ser, a natureza não é do jeito que gostaríamos que ela fosse. O problema dessas pessoas é que elas tentam resolver esse problema mentindo, dizendo que a natureza, o mundo, as pessoas são como ela diz serem, o que não muda nem a natureza, nem o mundo e nem as pessoas.

Falsificar a realidade é uma tentativa de vingança, perpetrada por pessoas que não aceitam o mundo como ele é e nem têm forças pra mudá-lo. De tanto se esforçar em ver a natureza como ela não é, a pessoa perde a capacidade de olhá-la de outro modo. A parte chata é que, quando um desses filósofos, que são, na verdade, ideólogos, obtém reconhecimento, outros como ele surgem, surfando a onda iniciada. Mas por que tais filósofos existem? O que leva um filósofo a agir de forma tão egoísta? Afinal, cada ação voluntária pressupõe objetivo.

É que o pensamento é um instinto. Se a filosofia tem como seu princípio o pensamento, ela se origina, em última instância do instinto. Pode ser o de autopreservação, reprodução, aperfeiçoamento próprio ou aperfeiçoamento da espécie. As pessoas filosofam porque percebem problemas e temos um instinto que nos leva a tentar solucioná-los (porque não queremos apenas viver, mas viver bem), mas a percepção do problema é algo bem pessoal. No final, nós somos parte da natureza… E tudo o que é parte da natureza comporta uma porcentagem de instinto. Isso é grave, porque deixa implícito que não existe filosofia imparcial. Qualquer adepto de uma escola filosófica, de um mestre, está sendo doutrinado. Um uso imparcial da filosofia iria requerer o estudo, ironicamente, de sua história, passando em revista o pensamentos de tantos filósofos quanto possível, a fim de permitir que o próprio leitor julgue quem tem razão e quem está só contando uma mentira plausível, tanto na filosofia quanto fora dela. A filosofia só tem valor se ensina também senso crítico, inclusive quando aplicado ao pensamento que está sendo aprendido.

O nosso raciocínio diz muito sobre nós. Por exemplo, uma pessoa que valoriza a liberdade colocará esse conceito como central em sua filosofia e isso diz algo sobre sua personalidade. Se essa pessoa, além de valorizar a liberdade, sistematicamente ignora qualquer argumento favorável ao determinismo, pode ser que ela esteja apenas tentando proteger o que ela considera importante, em vez de verificar se o outro lado tem ou não razão. Esse tipo coisa pode nos dizer quando uma pessoa é uma filósofa e quando se trata de charlatanismo. Como regra geral, o estudo da filosofia que não estimula o senso crítico, inclusive das doutrinas que são consumidas, é doutrinação. Por causa disso, sempre que um filósofo ou cientista disser algo como “é assim, e pronto”, isso é digno de suspeita.

E isso nos leva ao próximo erro filosófico: a adoção e o exagero de preconceitos populares em um raciocínio. De fato, se nós tivermos que provar tudo o que estamos dizendo, a conversa de verdade nunca vai começar. Então, todos os debates, filosóficos ou não, precisam começar por algo que ambos os lados considerem como certo. O problema é que um filósofo pode acabar adotando como ponto de partida um preconceito popular. Até aí, tudo bem. O verdadeiro problema é quando ele eleva esse preconceito, a afirmação inicial, ao posto de elemento mais elevado do raciocínio dele.

A afirmação inicial, o ponto com o qual ambos os lados de um debate concordam, é uma afirmação gratuita por definição, porque ela não é provada, só assumida. Ela não pode ter importância central. Se esse ponto de partida mútuo é depois tornado elemento central, alguém pode virar pra você e pedir que você o demonstre. Aí você vai ter que provar o ponto de partida. Isso pode ser bem embaraçoso. Outra variação desse problema é usar preconceitos populares não como ponto de partida, mas o longo do raciocínio. Um preconceito é uma afirmação que não é provada. Ora, mas depois que o raciocínio começa, você precisa provar tudo o que você diz.

Outro erro filosófico é a tendência humana a conceber o mundo em antinomias. É bom ou mal, sem meio-termo. É certo ou errado, é justo ou injusto, sem meio-termo. Fazemos isso porque valorizamos mais uma certeza (mesmo que seja uma certeza falsa) do que várias possibilidades. Aceitar a existência de um meio-termo abre caminho pra entrada de outras possibilidades entre dois extremos. A maioria das pessoas não gosta de raciocinar dessa forma, porque é difícil e desconfortável. Por exemplo: a separação entre verdade e aparência é uma escada, não um muro. Mas é desconfortável admitir que existem “meias-verdades”, mesmo de coisas são 80% verdade e 20% mentira.

O problema é que o meio-termo existe tanto na ação humana realista quanto na natureza. Por exemplo: uma boa ação, pra ser boa, precisa ter motivos honestos? Porque existem boas ações motivadas por sentimentos “feios”, como a luxúria ou a ganância. Se uma pessoa faz o bem porque isso dá dinheiro, podemos dizer que ela está agindo mal, só porque sua boa ação é motivada por interesse? Se algo bom é feito por interesse, ainda é bom.

Além disso, é preciso lembrar que diferentes pessoas têm diferentes conceitos de vício e virtude (porque moral não é absoluta). Por exemplo: uma pessoa que valoriza a ignorância ensinará que a curiosidade é um vício. Se é vício, a curiosidade é o mais útil deles. A curiosidade move a ciência, move a filosofia, move o intelecto. Se a curiosidade é um defeito, nem por isso seus resultados são ruins. Outro exemplo: a agressividade é ruim, mas, por causa disso, você vai apanhar de graça quando uma pessoa atenta contra sua vida? A agressividade (um impulso ruim) pode levar à sobrevivência (um resultado bom).

Ainda outro exemplo: existem crimes que são belos e esses são mais defensáveis, como aqueles cometidos por amor, um instinto que frequentemente cega a razão e que temos como um “vício louvável”. Ora, mas todo crime não deveria ser feio? Por que, então, até o assassinato de alguém pode ser celebrado? Donde decorre que existe um meio-termo entre a ação totalmente pura e a ação totalmente má. Se uma boa ação é motivada por um impulso “sujo”, ela não é uma ação pura, mas não podemos dizer que é uma má ação. É assim com quase tudo, não só a moral, mas também na saúde (a loucura é rara, mas até na loucura ninguém é completamente louco), na política, na natureza, educação, nas relações humanas.

Se você conceber as coisas de forma antinômica, é isto ou aquilo, sem verificiar se existe um meio-termo, você está afastando do seu raciocínio um monte de coisas que poderiam enriquecê-lo e levá-lo a uma conclusão mais realista. É como errar de propósito. Lembre-se: alguns filósofos estão mais interessados em se justificarem do que realmente alcançar a verdade objetiva sobre algo, então “errar de propósito” é um truque comum. Desonestidade total, e mau caratismo.

Isso fica mais grave porque algumas coisas que percebemos como antinômicas podem muito bem ser duas manifestações da mesma coisa. Por exemplo, pense na teoria da ferradura: na política, a extrema esquerda e a extrema direita apontam na mesma direção, de forma que a verdadeira polarização não é entre esquerda e direita, mas entre extremos e centro. A extrema esquerda e a extrema direita, sendo opostas, são muito parecidas em seus planos de governo. Por quê? Porque são duas manifestações do autoritarismo.

Infelizmente, não apenas filósofos, mas também pessoas comuns caem no erro de ver o mundo de maneira antinômica. É preciso uma pessoa especial pra ser capaz de perceber e estudar o meio-termo entre dois opostos. Uma pessoa que não é capaz disso é facilmente manipulada por qualquer um que a convença de que certa posição é “má”. É preciso ver o meio-termo antes de fazer uma escolha, mesmo que, no final, você escolha a polarização.

Outro erro filosófico é chegar à conclusões que são bonitas na teoria, mas impraticáveis. Por exemplo: estoicismo. Alguns filósofos afirmaram que se deve viver como a natureza quer que nós vivamos. Na filosofia estóica, viver segundo a natureza é agir segundo sua espécie. Ora, o ser humano é um ser racional, é de sua natureza. Logo, não agir de maneira racional é agir como outra espécie, é agir como bicho. Muito bem. Mas quem quer agir como a natureza quer que ajamos? É que valorizamos nossa individualidade. Se todos agissem racionalmente, o tempo todo, seríamos todos iguais e pouca gente iria querer isso. Os homens valorizam demais as diferenças pra querer agir tal como o outro age. Ora, o que torna os homens diferentes entre si não é a razão, porque a razão homogeiniza. Por isso valorizamos as outras dimensões do homem, como a emoção… o que não é sempre algo bom.

Outro erro filosófico é dar respostas que não significam nada e, basicamente, repetem a pergunta. Tipo: responder “porque ele tem esse poder” quando você pergunta “por que o fogo queima?”. Em muitos raciocínios ao longo da história da filosofia, esse truque é utilizado. Pode até ser que o filósofo genuinamente acredite no que está dizendo e sua teoria faça sentido pra ele próprio e seus adeptos, mas o fato é que ele não consegue explicá-la satisfatoriamente. Contra esse erro, a única coisa que você pode fazer é admitir que existem aspectos de seu raciocínio que ainda são obscuros, coisas pras quais você ainda não tem resposta. Sabe? Ser humilde, em vez de dizer uma coisa enigmática que não tem sentido e não subsiste à crítica.

Por último, outro erro, particularmente da filosofia ocidental, é não olhar pra filosofia oriental. O pensamento é organizado gramaticalmente e numericamente, o que significa que nações com gramáticas parecidas terão filosofias parecidas. O chinês em nada lembra o latim, por isso a filosofia chinesa em nada lembra a europeia. Isso é tão real que uma tradução literal de um texto filosófico chinês perde muito significado. Dar uma chance ao pensamento produzido em outras nações nos permite ver as coisas de um ponto de vista diferente, o que nos enriquece. Mesmo que os orientais discordem dos ocidentais em muitas coisas, existem pontos em comum com os quais ambos podem concordar. Essa aproximação é muito interessante. O oriente é melhor em muitos aspectos, em relação ao ocidente. Quem sabe? Pode ser que nós, ocidentais, estejamos errados em muita coisa que os orientais já resolveram. Se esse é o caso, nós devemos aprender com os orientais e não tentar torná-los ocidentais. “Ocidentalizar” o oriente seria manifestação de mentalidade de caranguejo: como o oriente resolve problemas que não conseguimos resolver com nossas “ideias modernas”, queremos que o oriente fracasse também. Sabe quem faz isso? Os antissemitas: vendo o sucesso dos judeus em quase todas as áreas da vida, os antissemitas querem urgentemente que os judeus fracassem, só pra se sentirem melhor. Pode prestar atenção: maioria dos antissemitas é feia, burra e pobre.

O filósofo que evita esses erros é verdadeiramente útil à sociedade. É o tipo de cara que faz falta. Só dele calar a boca a sociedade já começa a piorar de condição. Esse é o cara que devia estar legislando. Já os filósofos, ou ideólogos, que caem nas armadilhas acima trazem má fama à toda a filosofia, justificando os preconceitos que os leigos têm. Se filosofia se mostra inútil ou prejudicial, os jovens promissores não quererão participar dela e passarão a pensar que filósofo bom é aquele que vive num retiro bem longe da sociedade, meditando até a morte.

Percebendo e reparando erros.

Felizmente, enquanto que o jogo do amor tem bons e maus jogadores, o jogo da busca pela verdade também tem seus bons jogadores. Os grandes homens da ciência que a fazem avançar e depuram a ciência de seus erros, desmascarando os métodos fracassados usados por seus antecessores. Foi assim que a astrologia caiu em descrédito. Mas não basta apontar o erro, é preciso também estudá-lo pra não cometê-lo novamente. E, no estudo dos erros, uma coisa se deixa transparecer…

É que todas as conclusões tiradas de métodos falidos são “dogmáticas”, isto é, tentam se passar por incontestáveis. Por causa disso, sempre que alguém te disser algo como “é assim e pronto, acabou”, não baixe sua guarda. Claro que existem verdades que são incontestáveis: dois mais dois é quatro, todo solteiro é um não casado, entre outros. Mas mentiras são as que mais tentam te convencer de que são reais, enquanto que a verdade de fato não tenta fazer isso. Afinal, se ela é verdade mesmo, ela não precisa ser dita a você: um dia, você vai se tocar que é assim. A verdade não precisa de defensores: ela se impõe. Isso não quer dizer que não devemos falar a verdade, mencioná-la ou buscá-la, mas que, quando você fala a verdade pra alguém e a pessoa não acredita, não tente convencê-la. Deixe que ela sinta as consequências de seus atos e ela vai perceber que você tinha razão.

A ciência e sua validade.

O mundo objetivo não é obra dos nossos sentidos. Os nossos sentidos nos mostram imagens, sons e sensações que o mundo provê, dentro de suas limitações. Conhecemos o mundo primeiro por suas aparências. Nossos sentidos são em número limitado e em qualidade limitada. Então, a ciência que se apoia nos sentidos produz uma interpretação inteligível do mundo que é segura, mas não absoluta. Ela é uma interpretação entre outras (filosofia, ciência são apenas dois tipos de interpretação do mundo). Embora existam interpretações racionais que possam ser melhores ou piores em um caso concreto, nenhuma pode se afirmar absoluta: um ser humano imperfeito não pode criar uma interpretação perfeita do mundo. O mundo é como um texto: pode ser lido por todos e interpretado de diferentes formas.

Isso quer dizer que, embora você possa, aliás, deva acreditar na ciência pra que você possa viver bem, entenda que a ciência, por se apoiar nos sentidos, que são limitados, não é uma verdade absoluta. Tanto que ela se atualiza. Pense na ciência como o uso da razão na derivação de sentido dos dados sensoriais, que são limitados, a fim de superar, pela razão, as limitações desses sentidos. Se os sentidos fossem perfeitos e infinitos, não precisaríamos fazer ciência, bastaria só olhar, ouvir, sentir o mundo pra dele derivar a verdade.

Isso não quer dizer, de forma alguma, que você deva desacreditar da ciência porque ela se baseia em sentidos falhos. Esse é outro meio-termo que somos treinados a não ver: a ciência produz conhecimento provável e o provável é seguro. Ela não precisa produzir verdades absolutas pra ser uma forma de conhecimento válida. O fato de ela ser provável, em vez de absoluta, não indica que devamos jogá-la fora. Pelo contrário: a ciência pode não ser perfeita, mas ela é o melhor que temos. Num local onde nossos sentidos não funcionam, a mente não tem nada pra fazer. Se não pudermos usar nossos sentidos, o que usaremos? A especulação. E a especulação é uma forma de conhecimento menos útil que o conhecimento sensorialmente verificável e logicamente plausível. Um conhecimento que não se pode provar pelos sentidos é, na verdade, menos seguro.

Por causa disso, todo o conhecimento produzido pelo ser humano deve ser, idealmente, tanto logicamente plausível quanto sensorialmente verificável (mesmo que através de um instrumento). Mais que isso: o conhecimento deve, pra cativar também o leigo, ser apresentado de forma que os sentidos dele possam constatar a validade do que está sendo dito. Nossa posse mais íntima é o corpo, ninguém tira nosso corpo de nós, mas nem todo o mundo tem telescópio. Uma verdade abstrata não desperta interesse se os sentidos do aluno não são seduzidos por ela primeiro. Os sentidos são seguros e o que não passa por seus critérios é suspeito. Então, quando quiser convencer um leigo, pense nos meios que ele tem à disposição. E ele geralmente só tem à disposição a razão e seus cinco sentidos.

Se a ciência é sensorial, segue-se que ela só deve se ocupar de coisas sensorialmente verificáveis. Temas como a alma ou Deus não devem ser estudados pela ciência. Esses são temas especulativos e, como tais, só podem ser estudados especulativamente, de outra forma.

Desejo e ação.

Lembra que temos a péssima tendência de ver o mundo como uma série de antinomias? Uma delas é a clássica: “o ser humano é livre ou determinado”. Mas não é assim. O ser humano não é totalmente livre pra fazer o que quiser, mas nem por isso ele não tem nenhuma liberdade. A liberdade humana consiste em escolher dentre as opções disponíveis de ação. Isso acontece porque nosso poder é limitado: não temos asas, então só podemos escolher dentre as várias formas de locomoção terrena (ou aquática, se tiver um rio por perto, por exemplo). Isso é uma quantidade digna de liberdade pra seres limitados como nós. Mas dizer que, porque não podemos fazer qualquer coisa que queremos, não temos liberdade nenhuma… É um exagero, não acha?

A liberdade humana, então, se manifesta por ações. Se você pensa que querer é o mesmo que agir, vai ficar só na vontade. Nunca a mera vontade triunfa sobre nada. Se você manda alguém fazer algo e essa pessoa faz, o que realizou a ação foi o subordinado, não você, não sua “vontade”. Então o subordinado é mais digno de crédito, porque ele é quem possibilita que sua vontade seja efetivada. Quando alguém com vários subordinados consegue algo grande, arroga pra si todo o crédito pelas ações desses subordinados. Esse tipo de sentimento faz com que a classe dirigente da sociedade obtenha pra si o produto das classes subalternas, porque o chefe, só porque é chefe, pensa que tem o direito a tudo o que seu “subordinado” produz. Depois ele diz que não se mistura com pessoas vulgares ou pobres, sendo que essas pessoas é quem são responsáveis pelo sucesso dele. E isso é muito injusto. Por exemplo, numa empresa, o chefe manda e os empregados obedecem. Mas, se não fosse pelo empregado, o empresário não seria nada. Por isso tanto mais digno de crédito é quem faz do que quem manda.

Dominantes e dominados: chefes, pastores e o governo.

Isso abre uma possibilidade interessante: de que os trabalhadores passem a trabalhar somente pra si mesmos, conquistando a independência de seus patrões, tomando pra si a responsabilidade por suas vidas, sem partilhá-la com outros. Imagine só! “Trabalhadores seguindo seu próprio caminho!” Muitas pessoas fazem isso porque precisam. É o caso dos desempregados que a mídia de massa oportunamente chama de “empreendedores“. Mas existem outros que fazem isso sem necessidade, porque assim desejam: um homem forte, inteligente e útil à sociedade só se submeteria a um chefe se fosse necessário à sua sobrevivência. Um cara desses que se submete a um chefe que é pior que ele como pessoa, sem necessidade, está se prejudicando.

Se todo o mundo trabalhasse apenas pra si, se todo o mundo conseguisse tal audácia, os chefes veriam o quanto precisam dos trabalhadores. Um movimento desses seria rapidamente alvo de todo o ódio do sistema capitalista. Afinal, “de cada um segundo sua capacidade” é a primeira partícula do lema comunista. Isso não quer dizer que todo o mundo deveria deixar seus empregos, já que alguns morreriam se o fizessem, enquanto outros simplesmente preferem trabalhar pra alguém por temperamento ou comodidade. A dependência atrai, porque traz benefícios também. Eu mesmo não quero ser um empreendedor independente, porque realmente prefiro trabalhar pro estado. Cada pessoa decide se sua vida será melhor com ou sem um chefe. Quem tem meios de viver sem chefe deveria considerar isso.

Mas isso não quer dizer que o trabalhador que vive pra si está livre de qualquer tipo de servidão. Ainda haverá outros, que não precisam ser chefes pra dominar uma pessoa: os pastores corruptos. A religião tem valor formativo, mas também potencial destrutivo. Se o trabalhador, em seu tempo livre, vai à igreja, ele precisa estar atento… Porque existem líderes religiosos que usam a religião da mesma forma que o trabalhador usa sua força: como meio de enriquecimento pessoal. Tem gente que acredita em Deus de má vontade. A diferença é que o trabalhador não precisa explorar ninguém pra conseguir melhorar sua vida.

O líder religioso, que descobre na religião uma forma de exercer dominação, usará a fé das pessoas pra obter influência, dinheiro e um curral eleitoral, ao mesmo tempo que usa seletivamente a doutrina do amor e da tolerância ao sofrimento pra manter as ovelhas mansas. A doutrina da tolerância ao sofrimento não é inerentemente ruim: o cristão que sabe sofrer tolera melhor as dificuldades da vida. Não é de todo mal que o sofrimento tenha seu lugar na religião: é preciso ser capaz de rir até em situações sérias, pra que não se caia no desespero. O problema é dizer que o sofrimento e a miséria são razão de orgulho, desestimulando o crescimento pessoal dos fiéis, levando-os a se desesperar de seu próprio potencial, a não cultivá-lo, a se verem como seres sem qualidades que, por fim, passam a odiar a vida. Ensina-se a pessoa a sentir orgulho de seu próprio desprezo por si mesmo. Não querer evoluir por sentir prazer na sua infelicidade é algo de muito mal gosto.

Isso arruína a pessoa, que passa a ser dependente da igreja. E isso é ótimo pra igreja, porque sustenta a ideia que eles querem passar, a saber, de que você precisa da igreja pra viver bem. É assim que as pessoas manipulam os necessitados. O fiel que sente que a igreja está ajudando ele, se sentirá também em dívida. De dependente, passa a escravo. Por acaso isso glorifica a divindade? Não será melhor se o piedoso for também um homem da melhor espécie? Como uma religião que mantém seus fiéis miseráveis pode ser reconhecida como “boa”? Geralmente, as pessoas evitam grupos assim! De que serve o culto ao sofrimento? Segue-se, portanto que uma religião que mantém seus fiéis em más condições descredita a fé.

Não é assim que funciona. Se o homem não tivesse qualidades, se ele fosse tão ruim como o pastor corrupto diz que ele é, a escritura não diria que é possível a um jovem vencer o mal. A boa religião é aquela que fortalece o fiel e o estimula a fortalecer outros que sejam fracos ou oprimidos. Qualquer um vê as qualidades que os homens têm, mas parece que a religião porca treina as pessoas a olharem só pros defeitos, ignorando até mesmo as próprias qualidades. Isso estanca o aprimoramento. Ora, se a religião não está servindo para o aprimoramento do ser humano, tem algo errado com ela…

É preciso tomar cuidado com esses sujeitos, com esses pastores corruptos. Se um crente parece escandaloso ou indiscreto, evite-o. Deus não precisa nem de dinheiro nem de votos dados a um certo político. Por causa disso, um intelectual que tem fé provavelmente não vai à igreja; leu nos livros tudo o que as igrejas fizeram e ainda fazem de ruim. Ele vê que tem gente que mata inocentes por sua fé. Isso não quer dizer que ele odeie a religião, só quer dizer que ele sabe como uma igreja pode ser cruel e, por isso, não participa de nenhuma. Mesmo aqueles que são realmente anticristãos podem reconhecer o valor da religiosidade em geral e concluir que existem algumas religiões melhores que outras.

Por último, se você é cristão, você sabe que o cristianismo é uma religião de igualdade, uma religião que não deveria admitir gradações entre os fiéis. Se o único mestre é Jesus e o ensino dele está nos quatro evangelhos, pra quê ir pra igreja? Se submeta a Deus, não à igreja. Na verdade, é porque as igrejas são o que são que existem cristãos que têm vergonha da moral cristã. São cristãos, mas não dizem isso abertamente, porque sentem que podem ser julgados, não por seus defeitos, mas pelos defeitos da igreja e pelos defeitos dos que se dizem cristãos pelos motivos errados.

No entanto, não é só com o pastor corrupto que você deve se preocupar, se o que você quer é manter sua autonomia. Existe mais gente disposta a dominar você. A igreja ficará com ciúme se não for ela, mas isso não quer dizer muita coisa se outro dominador se sentir satisfeito em ter você como servo. Os outros dominadores são o governo, seus pais, seu cônjuge e qualquer pessoa que ache que você está em dívida com ela.

Vamos focar no governo. Para manter a aparência de legitimidade, um governo corrupto precisa ter a aura de virtude e passar a ideia de que ele não pode tudo. A melhor forma de fazer isso é usando a virtude da obediência. Como a obediência é um valor, mesmo que não reconheçamos, dominadores fingem se submeter a alguém ou outra coisa, como ao “povo” ou à constituição. Gregário, o povo se sente bem ao ver que seu governo também se submete mutuamente a ele, criando aquilo que chamamos de “estado” (associação entre governo e povo).

Como essa obediência é, supostamente, mútua, o governo, que, na verdade, pode mais que o povo, estimula mais obediência de seus súditos, enquanto secretemente se exime de obedecer ao povo de volta, como deveria ser. Tornam-se valores, estimulados pela máquina da propaganda, qualquer coisa que estimule a obediência ou torne o ser humano mais dócil, como a sociabilidade e a indulgência. Não precisar da república torna-se “mau”, precisar dela torna-se “bom”. Ironicamente, consideramos pessoas com essas qualidades como possíveis líderes aos quais nos submeteremos no futuro. É importante, então, que o governante tenha a aparência desses valores também.

O governo também estimula o patriotismo, que é uma espécie de adulação e coisa péssima pra quem é cristão, porque o patriotismo conflita com o amor ao próximo. O patriotismo é uma forma de manter a república como está, manter o estado de coisas, estimulando o amor pelo país. Mas esse amor é de um tipo específico: é o amor pelo que o país é, não por aquilo que poderia ser. Então, um sujeito subversivo, mas genial (porque muitos gênios também odeiam seu país), será odiado pelo patriota. Se o patriota for também cristão, ele estará em conflito consigo próprio: se ele ama a república, deve odiar o subversivo, que é inimigo público; se ele ama a Cristo, deve amar o subversivo, que é seu próximo. Entende porque o cristianismo é ilegal na Coréia do Norte?

Felizmente, o patriotismo é muito facilmente destruído pelos deslizes feitos pelos líderes da nação. Os nossos dirigentes podem agir tão mal, nos representar tão escandalosamente, que qualquer patriotismo se torna inviável. Quem representa nossa nação diante das outras é nosso governo. Um governo que nos inspira vergonha torna impossível qualquer patriotismo. Não tem como sentir orgulho da nação quando todo o mundo ri dela, ou a odeia.

O patriotismo é um estado de espírito e, como tal, irracional e embaraçoso pra quem dele se recupera. É também um ótimo meio de ferrar sua capacidade de adaptação a outros ambientes, porque o patriota sempre julga seu país como melhor que os outros. Ele também prejudica a relação com seus compatriotas, como vimos no parágrafos anterior. Odiar os “subversivos” é uma postura altamente conservadora, porque abandona ideias novas, que poderiam até enriquecer a república, à calúnia. É preciso que todo o mundo odeie essas ideias. O governo, usando a mesma máquina de propaganda que estimula a obediência, poderá promover censura e manipulação da opinião pública, quando essas ideias o ameçam. O governo que age dessa forma não está interessado em servir ao povo, mas garantir que o povo continue o servindo. Qualquer governo que empregue censura ou manipulação é suspeito.

Mas essa postura tem um grave problema: marginalizados, os subversivos podem chegar a um ponto em que não têm nada mais a perder. Abandonados pelos antigos amigos, pela sua “pátria mãe”, encontram novos amigos uns nos outros. É quando eles estão mais propensos a apoiarem uns aos outros, se organizarem e fazer seu ativismo. Quem tira tudo de uma pessoa, tira dela também o medo de lutar.

Mas como se emancipar? O primeiro passo é moderar sua gratidão. Ao retribuir um favor, a retribuição não pode te deixar numa situação pior do que aquela em que você estava antes de o favor ser prestado. Se assim é, você foi vítima de um golpe; trocou um mal por um mal maior. Portanto, se você tem que retribuir à igreja, aos pais, ao governo, a qualquer um que tenha te feito um favor, não permita que sua retribuição ferre você. Recuse o favor, por exemplo, se isso custar sua liberdade, seja artística, de pesquisa, de expressão ou de pensamento. Depois disso, evite pensar nos seus antigos dominadores. Se, após se emancipar, eles ainda habitam sua mente, sua emancipação não está completa. Não imortalize, mesmo que em sua memória, aquilo que é podre. Esqueça-os, viva sem rancor.

A pobreza intelectual da elite.

Há outro risco nessa divisão entre dominantes e dominados. Os dominantes aspiram o conhecimento do mundo, mas sem se misturar ao povão, que representa a maioria. Para conhecer o mundo, é preciso experimentá-lo. Então, se você só olha pra pessoas “iluminadas” como você, só com elas conversa, em vez de participar da miséria humana que aflige a maioria da população, você está experimentando o mundo em sua exceção, não em sua regra, porque o comportamento majoritário é a regra. Ora, o conhecimento da exceção é inferior ao conhecimento da regra, porque abrange menos casos. Esse conhecimento “elitista” é imprestável. Se devemos nos ocupar primeiramente da regra, é preciso se ocupar dos fracos, dos iletrados, dos pobres, que são a maioria, portanto a regra. Se fechar à regra é atitude de quem não tem vocação pro conhecimento. Logo, um cientista que não participa da sociedade, do povão, é menos produtivo, menos nobre e menos relevante. Quem se abstrai da miséria humana pra viver numa torre de marfim acaba tendo menos experiências de vida e seu conhecimento, até mesmo seu gosto, se torna muito restrito: a classe média tem medo de aparentar ter mau gosto, mesmo quando tem mau gosto e vontade de fazer coisas que seus pares considerem “brega”, “escandaloso” ou “de pobre”, o que fecha esses certinhos a um monte de coisas que o mundo tem de bom.

Aliás, pra quê fazer isso? O fato de uma pessoa ter “bom gosto” (uma característica que uma pessoa pode falsificar ou se forçar a ter) não garante que a pessoa é moral ou boa. São coisas diferentes. Na verdade, tem muita gente de bom gosto que é altamente arrogante e cheia de imundície. Muito da arte moderna, essa chamada “alta cultura”, é sublimação da crueldade: gostamos de ver os personagens se dando mal.

Essas novelinhas apreciadas pela classe média por exemplo. Mas já viu o tipo de música que os pobres ouvem? Não fazem referência constante ao sexo? Ora, o sexo é uma expressão do amor. Além disso, os incultos têm belíssimos rituais, particularmente os religiosos, e tradições lindas. A alta sociedade não tem nada disso, porque nada é sagrado pra alta sociedade. Uma pessoa de mau gosto pode ser boa e o bom gosto não é exclusividade da classe média. Donde decorre que gosto não quer dizer nada.

Outro problema dos intelectuais de elite é que eles são os mais interessados em fazer filosofia “desinteressadamente”. Se você só busca conhecimento “desinteressadamente”, você só encontrará uma direção real e produtiva quando alguém disser pra você o que você deve pesquisar. Pesquisadores “desinteressados” são, portanto, mais semelhantes a ferramentas que a seres humanos. Aliada à objetividade, a busca desinteressada pelo saber propociona uma imparcialidade tão grande que o sujeito parece deixar de ser humano: não toma partido de nada (vira um “isentão”), não afirma e nem nega para além dos dados que tem (incapaz de discurso diretivo), não emite juízos de valor, nem mesmo é capaz de sentir raiva, tristeza ou alegria (pela insistência em só observar a realidade de longe). Por causa disso, uma pessoa imparcial, objetiva e desinteressada não tem iniciativa; precisa ser provocado à ação por uma fonte externa. Não estou dizendo que a objetividade ou a imparcialidade são prejudiciais, mas que se tornam prejuciais quando a pessoa tem essa ideia de que o conhecimento deve ser buscado “desinteressadamente”, essa ideia de saber só pra saber, ou “saber pelo saber”.

Da justa valoração.

Como já foi dito, Nós temos a péssima tendência de ver o mundo como uma série de dicotomias. Uma outra dicotomia, esta bastante juvenil, é a de que tudo o que achamos que é “bom” tem que ser venerado, enquanto tudo o que achamos “ruim” tem que ser odiado. Lembre que há um meio-termo, talvez mais de um. Cada coisa merece um grau justo de admiração ou de reprovação. Se não fosse assim, todos os crimes teriam penas iguais. Mas como definir o valor que eu devo atribuir a alguma coisa ou ação? Quando se fala de ações, certamente não é pela intenção. Por exemplo: o direito muito raramente leva em conta a intenção de um crime ao julgar, porque nem sempre o mero homem é capaz de dizer o que se passa no coração do outro. Olhar pra intenção de um ato é julgar o ato sem conhecê-lo, sendo, portanto, uma forma de preconceito. Então, como valorar algo? Pelas suas consequências, que são inerentes ao ato, enquanto que a intenção lhe é externa.

Lembre que muitos ditadores começaram suas ditaduras com boas intenções. Por exemplo: a nossa ditadura militar começou como combate à ameaça de um regime impopular, que era o comunismo. Acabou que não havia essa ameaça. O “movimento democrático” então degenerou nos anos de chumbo. Outro exemplo: vender uma estatal importante, estratégica, pra acabar com a corrupção que nela ocorre, enfraquecendo, por seu turno, a independência nacional, porque o país terá que comprar aquilo que poderia estar produzindo (o que, por seu turno, aumenta o preço dos bens consumidos). Ao fazer uma privatização dessas, aquilo de que mais nos orgulhamos, nosso patrimônio, se torna concessão, dada a nós por outros. Por acaso uma empresa estrangeira em solo nacional é motivo de “orgulho patriótico”?

Por outro lado, esse mesmo pensamento pode levar uma pessoa a se recusar a fazer o bem, a ser um medíocre, por vergonha de suas motivações. É o caso da autocensura: ao perceber que algumas de suas ideias não podem ser discutidas em qualquer lugar, a qualquer hora, com qualquer pessoa, um filósofo ou cientista pode esconder o que pensa, se conformar e abrir mão de seu potencial. E por que ele pensaria que não pode falar o que pensa com qualquer um? Porque seu interesse transparece por toda sua pesquisa, mesmo quando ela conclui algo correto. Talvez o pesquisador até prefira não ter o conhecimento que tem. Infelizmente, isso não é coisa que se esconde por muito tempo. Isso é verdade não apenas na filosofia e na ciência, mas também na arte, porque o artista também tem motivações que ele não pode admitir. Talvez ele use sua arte pra se vingar de algo ou alguém, por exemplo, ou da sociedade que lhe proibiu a felicidade.

Como as pessoas julgam mal quem age, ou apenas parece agir, com interesses “errados”, ele prefere se colocar como obediente à opinião pública, por medo de ser considerado imoral. Condenar moralmente uma pessoa, porém, não é argumento. Só quem faz isso são almas pequenas que não podem te acusar de mais nada e nem podem refutar seu raciocínio. Mas e daí? Se você é imoral, mas bonito, inteligente, obediente à lei e rico, de que importa a reprovação de uma pessoa de moral, de um “homem de bem”, que provavelmente, no todo, não é nem metade do que você é? O lado bom disso é que esses pregadores da virtude eventualmente se tornam altamente irritantes e logo ninguém terá mais saco pra eles. É esse tipo de pessoa que transforma a moral num assunto nojento.

Lembre que houve uma época em que a homossexualidade era razão de vergonha. Os primeiros pensadores a defender a homossexualidade num mundo que odiava a homossexualidade provavelmente tinham medo de (por vezes com razão) serem acusados de serem, eles próprios, homossexuais. “Se você defende gay, você deve ser um; se você é um, você não quer o bem de todos, só o seu próprio!” Esse suposto egoísmo é uma intenção errada. Isso causa vergonha e um sábio envergonhado inspira suspeita. Mas isso também é injusto. Afinal, agindo com a mesma motivação, duas pessoas podem buscar objetivos diferentes. Então o que impede que pessoas com motivações diferentes busquem o mesmo objetivo? Uma pessoa que defende gays não necessariamente é gay. Mas e se ela for? E daí?

Não deixe que suas virtudes sejam transformadas em vícios. É isso que uma pessoa tenta fazer quando não aceita uma virtude que você tem. Ela tenta te fazer pensar que suas qualidades são, “na verdade”, defeitos. É preciso ter a coragem de olhar sinceramente pros seus “defeitos” e ver se são realmente defeitos como todo o mundo diz. Quem sabe? Talvez o que os outros apontem como um defeito seu seja, na verdade, sua melhor qualidade. Nossas vontades, necessidades, desejos mais secretos podem ser uma fonte da qual derivar uma nova virtude. Qualquer pessoa pode ser admirada, até aqueles que pensam que nunca seriam admirados. Portanto, não se deixe coibir pela vergonha. Isso, sim, é um defeito e defeitos não são úteis a ninguém, exceto àqueles que os exploram. Defeitos precisam ser eliminados.

Um filósofo não deve se entregar ao medo da reprovação. Siga sua pesquisa se você acha ela útil ao mundo, não importa qual é a motivação inicial. E, se seu raciocínio estiver correto, não desconfie dele. Toda nação produz uns poucos homens de respeito, os quais são evitados num primeiro momento até terem seu potencial reconhecido. Na verdade, uma ideia pode só ser entendida depois que você morrer… Então tente não se sentir muito mal se parece que todo o mundo odiaria você, sua pesquisa ou suas motivações. Se oriente pelos resultados. Se tiver medo, encontre alguém que partilhe de suas ideias, pra que vocês as desenvolvam juntos. Afinal, quem tem boas ideias procura alguém que as desenvolva e quem entra em contato com boas ideias tidas por outros acaba querendo desenvolvê-las. É bom que hajam esses dois tipos de intelectual: o que produz e o que desenvolve. Isso é bem produtivo. Mas, se você não encontrar, tudo bem. A solidão também é virtude, afinal de contas, já que nos purifica da sujeira que contraímos no convívio com outros.

Mesmo assim, só o medo de uma motivação “errada” ser atribuída ao seu trabalho pode causar desconforto em defender certa causa. Isso mostra tanto como uma intenção percebida pode ser fatal pra credibilidade de alguém quanto mostra como a intenção na verdade não importa pros resultados. Invocar a intenção, hoje, é visto como falácia (argumento inválido), geralmente feito por gente que quer deixar o outro com vergonha de sua posição. Ignore essa gente. Deixe que briguem entre si. Infelizmente, nem todos conseguem ignorar e se deixam consumir. Esses abandonam seu modo de pensar anterior e pedem desculpas por terem pensado com a própria cabeça.

Isso é ainda mais grave quando a pessoa tem a sensação de ser a única que pensa daquele jeito, que nenhum outro bom cientista apoiaria sua causa. Se você fosse o único a apresentar certos resultados, seria mais fácil que alguém dissesse que você defende certas coisas motivado por um interesse particular que não condiz com o interesse público, mesmo que, no fundo, condiga.

A vergonha nos leva a vandalizar nossas próprias crenças, quando são, ao mesmo tempo, corretas por consequência e dignas de vergonha por suas motivações “sujas”. Deturpamos elas pra que as odiemos como todo o mundo também odeia. O lado da maioria nem sempre é o certo, mas sempre é o mais seguro. Mesmo que o mundo precise saber de algo que lhe é pertinente, se a intenção for posta em questão, o pensador será convertido em pária. Se essa reprovação atingir também sua família, amigos ou outros entes queridos, ele pode até preferir nunca ter pensado certas coisas.

A tirania da inteção também leva pessoas a esconderem o próprio sucesso, não porque conseguiram o sucesso ilicitamente, mas porque suas motivações foram baixas (conquistar a atenção das mulheres, por exemplo). Numa situação dessas, as pessoas sagazes, que sabem como se dar bem na vida, adotam uma vida dupla quando se dão bem por razões reprováveis. Ele não pode permitir que suas virtudes o ferrem. Então, ele aprende a ser hipócrita.

É o caso do filósofo ou do cientista que, só pra ficar rico, estuda pra descobrir algo que revolucione o mundo. Quando ele descobre, ele diz que seu esforço é motivado só por “apreço à comunidade” ou pela “busca desinteressada da verdade”. O que ele está fazendo aqui é ganhando o dobro de admiração fingindo modéstia, fingindo que ele mesmo não é lá essas coisas, só um pesquisador que, como que por acaso, fez uma descoberta. Pra trazer uma pessoa pro seu lado, comece fingindo que você não é superior a ela, mesmo que seja. Não é uma falsidade? Sim, é. Mas ele precisa manter uma imagem boa.

As pessoas se sacrificam pela própria reputação, como se a reputação fosse mais importante que sua própria integridade. A imagem é até mais importante do que aquilo que a pessoa tem a dizer. Temos o instinto de autopreservação que preconiza que sobrevivamos, mas também que nos mantenhamos na melhor condição possível. A falsidade, quando gerada naturalmente, é uma manifestação do instinto de sobrevivência, portanto. Por isso a falsidade e a hipocrisia são tão comuns: porque são úteis ao bem-estar de quem as emprega.

Mas nada disso aconteceria se a intenção não importasse, e sim o resultado. Algo não pode ser julgado por suas intenções, por suas motivações. A vergonha das nossas intenções, dos nossos impulsos, dos nossos desejos, erra vergonha precisa ser desaprendida. Foque nos resultados, sempre. A intenção oculta, a consequência revela. Falar da intenção de um ato pode ser uma tentativa de distrair o ouvinte das consequências.

Algo só pode ser julgado bom, ruim, melhor ou pior segundo suas consequências. É por isso que diferentes crimes têm penas diferentes: quanto pior as consequências, maior deve ser a pena. É isso que todos deveríamos fazer. Algo é mau quando faz mal e algo é pior quando faz mais mal. Por outro lado, algo é bom quando faz bem.

A religião e o comportamento humano.

É normal ser religioso. Não houve, que eu saiba, uma nação composta totalmente de ateus. É verdade, ninguém nasce tendo fé. A criança aprende a ter fé. Mas, mesmo quando a criança não tem fé, conforme ela cresce e se faz as grandes perguntas sobre a origem do universo, ela começa a se perguntar se não haveria algo de eterno que ocasionou a vinda do universo ao ser. É, na verdade, anormal não passar por isso em nenhum momento da vida, mesmo que depois tal estado seja abandonado. No ocidente, a religião hegemônica é o cristianismo. Mas o cristianismo vem em três sabores: católico romano, católico ortodoxo e protestante. Vamos considerar os dois primeiros como um só.

Vocês já perceberam como o protestantismo parece pegar mais nas nações do norte e o catolicismo parece pegar mais nas nações do sul? Talvez isso tenha a ver com nossa herança cultural… As religiões primitivas do sul eram religiões de obras. Você tinha que fazer algo pra ser salvo. As religiões primitivas do norte tinham deuses menos exigentes. O catolicismo então seria mais apreciado por povos que já tinham religiões baseadas nas obras, em rituais, como as religiões nativas da América do Sul e as religiões de matriz africana. Esses povos já imaginavam que Deus não exigiria deles somente a . Se ele diz, “ame seus inimigos“, ele quer que tenhamos uma atitude eminentemente prática de amor aos nossos inimigos; não simplemente um amor professado, mas um amor que se reflete em obras.

Entre os povos do norte, os celtas também eram assim. Mas os outros povos não tinham regras muito rígidas em sua relação com a divindade. Com o advento da reforma protestante, as nações do norte voltaram a entrar em contato com essa tendência original. Mas porque a aceitaram tão prontamente?

É que as nações do norte estavam também passando por um período de ascenção burguesa, no qual o trabalho duro tinha muita importância. Só se dedica à religião quem tem tempo livre e ninguém tinha tempo pra Deus, nem trabalhadores e nem chefes. Como ainda eram sujeitos de fé, mas que não tinham saco pros rituais católicos, resolveram abandonar o ensino religioso tradicional e cultivar a fé. Hoje em dia, quando o trabalhador tem uma jornada de oito horas de trabalho e tem dois terços do dia livre, ele pode ser mais religioso que o chefe, que pensa em seu negócio diuturnamente. A ligação entre Deus e a ocupada classe média está prejudicada por causa disso. Isso também implica dizer que os desempregados se apegarão mais fortemente à religião, tornando-se presas fáceis dos pastores corruptos dispostos a tirar deles o pouco que têm.

A admiração pelos santos.

Em um mundo como esse, uma pessoa casta, pobre e que se entrega à igreja de todo coração é algo raro e, por isso, interessante. Por que alguém iria fazer isso? Por que alguém iria querer viver longe dos prazeres da vida? Ele deve ter um bom motivo. O santo desperta curiosidade nas pessoas comuns. Elas querem saber suas razões. Mas não só curiosidade; o santo também desperta admiração. Afinal, sua existência nos mostra que a força de vontade pode vencer a tentação de se entregar ao prazer, à corrida do ouro e à libertinagem. Isso é singular. Mas será que não há um prazer escondido nessas práticas?

A crueldade pode ser desferida contra si próprio, particularmente na religião, na forma de penitência, jejum e autoflagelação, que são pra alguns um prazer e não um desconforto. Então, o comportamento santo pode ser uma canalização construtiva do impulso agressivo para si próprio. Isso não é sacrifício. É só a forma que a pessoa tem de sentir um prazer que lhe é peculiar. Em todo caso, pode ser que ser santo cause mais suspeita que propriamente admiração. Isso ocorre mais quando o santo se destaca pela virtude do amor. O amor ao próximo, quando exercitado perfeitamente, causa suspeita porque ninguém quer perturbar um santo e nem ser vítima de um amigo falso. Quando uma pessoa muito amorosa se aproxima de você e te faz muito bem, talvez mais do que você pagar, você não acharia que tem alguma coisa errada, que a pessoa está armando contra você?

As relações entre os sexos.

Homens e mulheres são diferentes e ninguém poderá negar isso. Por causa disso, o contato entre os sexos enriquece. Até aí, tudo bem. Talvez a crença de que homens e mulheres não são profundamente diferentes esteja por trás da insatisfação conjugal. Tanto homens quanto mulheres nutrem expectativas altas demais um do outro. O amor não pode tudo. Pelo contrário: o amor é fragilíssimo. É muito fácil se decepcionar com o amor.

Passar a vida inteira com a mesma pessoa revela quem ela é. Você se apaixona mais pela ideia que você faz do seu parceiro do que pelo seu parceiro em si. Na verdade, uma pessoa que ama outra se esforça em construir uma imagem amável, que não condiz com o que ela é, por exemplo, falando muito de si mesmo, pra que o amado não preste atenção nos defeitos do amante. Outras vezes, o amante nem se esforça em fazer isso: é porque ele está amando que tudo aquilo que há de excepcional nele vem à tona. Aí, quando o amor começa a esfriar, ele vai voltando ao normal e a pessoa por quem você se apaixonou começa a desaparecer. Quer dizer: você se apaixonou pela pessoa quando esta não estava em seu normal. Isso é um campo fértil pra decepções de todo tipo, quando vemos que o outro não é como pensávamos.

Resolver esse problema não é fácil, porque requer honestidade absoluta. Uma pessoa só pode realmente outra quando a conhece completamente. Se a pessoa ama até seus defeitos, ela realmente ama você. Mas, para isso, é preciso que ambas as partes se mostrem como realmente são, suas qualidades e também defeitos. Por causa disso, se uma pessoa exige que você mude por amor, essa pessoa não ama você do jeito que você é. Pelo contrário: ela quer te transformar em outra coisa. Dessas pessoas você se afasta.

Outra fonte de desentendimento são como os sexos lidam com emoções e desejos. As emoções no homem e na mulher progridem em ritmos diferentes. Deve haver uma explicação pra isso, talvez hormonal. Por exemplo: a raiva do homem é intensa e de curta duração. Na mulher, a raiva pode ser intensa e de longa duração. Os homens também têm, por razões culturais, dificuldade em demonstrar ternura de um jeito aceitável. Dá vergonha, sabe? Mas isso não quer dizer que o homem não gosta da ternura, do abraço (gesto de amor à humanidade inteira), do calor humano. Você não pode, portanto, ao entrar em um relacionamento, esperar que seu parceiro do sexo oposto lide com as próprias emoções do jeito que você lida.

Veja o exemplo dos incels, isto é, celibatários involuntários (pessoas que desejam se relacionar, mas, por qualquer razão, não conseguem). O homem incel pode, dado estímulo certo, rapidamente se tornar misógino, porque é mais difícil ao homem odiar a si mesmo devido a testosterona (que proporciona autoconfiança e, a bem da verdade, uma menor capacidade de ver as próprias falhas). Ele pode culpar as mulheres por seu fracasso. Já a mulher, quando incel, odeia primeiro a si mesma (particularmente seu corpo), só depois pode vir a odiar os homens.

Observe também o que ocorre quando a relação torna-se sexual. Sexo é algo muito antecipado, mas também muito problemático, particularmente em relações monogâmicas. Se um dos dois lados começa a sentir ciúme, a coisa fica grave. O homem cego de ciúme pode pegar uma arma e tentar matar a mulher, mas a mulher cega de ciúmes, quando quer vingança, será mais elaborada e cruel, mesmo que não mate seu alvo. Ela pode, por exemplo, retribuir o mal que lhe foi feito não diretamente ao homem, mas outra coisa próxima dele. Sendo mais sensíveis à emoção, o potencial feminino se mostra verdadeiramente quando motivado por emoção, especialmente amor e ódio. Mas uma pessoa que realmente ama o outro chegaria a esses extremos quado sente ciúme? Não, mas o problema é que a sensualidade (a qual estimula o sentimento de posse) cresce mais rápido que o amor.

Por último, temos as aspirações. A mulher tem um desejo de independência e é estimulada a isso, o que é normal, já que ela passou maior parte da história sob o domínio do homem. O problema é que… isso não é atraente pro homem. Porque o processo de emancipação é feito por meio de exigências. Às vezes, as exigências são feitas de tal forma, que temos a sensação de que o feminismo não é sobre igualdade, mas sobre supremacia. Ninguém quer ficar com uma pessoa exigente, isso inclui o homem. Talvez isso explique porque se diz que “homens não gostam de mulheres independentes”: associam a mulher independente com a mulher mandona, a mulher facilmente ofendível, que desconfia de elogios e gestos de amizade ou ternura.

Entre as objeções postas ao feminismo estão a de que o homem, historicamente, se sensibilizou com as necessidades femininas, mas o feminismo não se sensibiliza com as necessidades dos homens (e não estou falando da “necesidade de domínio”). Outra objeção é a de que as mulheres e o feminismo frequentemente se desentendem. Ainda outra é a de que o feminismo parece que deixa as mulheres mais sensíveis, de forma que nunca foi tão fácil ofender ou machucar uma mulher como é hoje. Por outro lado, um homem sensível, seja por educação ou por medo de machucar a mulher, é indesejável como parceiro romântico. Será que a emancipação não traz também consequências negativas para a mulher (ou para a sociedade), além das positivas, como direito de votar e de trabalhar? Por que os homens que supostamente amam as mulheres não as alertaram também dos riscos implícitos na emancipação? Será que foi a coisa correta a ser feita? E se foi, poderia ter sido feita de uma forma melhor?

Essas coisas podem tornar o convívio entre os sexos bastante desconfortável e improdutivo, especialmente para intelectuais, que terão que dividir o tempo entre sua pesquisa e seu parceiro. Se você considera sua pesquisa muito importante, é melhor deixar o amor de lado. Você deve prestar atenção à sua pesquisa como a criança presta atenção ao seu jogo.

O ódio.

Não é possível sentir ódio de qualquer um. Para sentir ódio de alguém, é preciso reconhecê-lo como igual ou superior a nós. Quando alguém inferior faz algo desagradável, você não fica com raiva, mas ri dele. Então, sempre que você sentir ódio, saiba de que este um sinal de que a pessoa que você odeia tem também uma boa chance de revidar e arruinar você. Se você não tivesse essa sensação, você nem se importaria.

Sentir ódio é uma coisa humana. Mas uma habilidade sobre-humana é ser capaz de manter o bom humor sendo odiado por todo o mundo. Uma pessoa dessas, quando nos faz bem, sempre nos põe numa saia justa, porque não temos ideia de como retribuir a boa ação que nos foi feito por um pária. Pensamos logo se não há malícia na bondade que nos foi feita. Isso quebra a nossa capacidade de gostar da pessoa.

Ciência da moral?

Uma ciência da moral é uma grande presunção. A moral é mutável, segundo tempo e lugar. Existem morais locais, morais de tempo, morais políticas, morais religiosas… mas, para a pessoa que acredita em sua própria moral, tudo que contradiz essa moral é imoral e “degenerado”. É por isso que moralistas, gente com a qual se deve tomar cuidado, são etnocêntricos e odeiam povos que eles considerem “primitivos”, como índios e sociedades pré-industriais: sentem que sua moral é a única que pode trazer “verdadeira” felicidade. É como se quem não seguisse aquela moral tivesse que ser infeliz.

Confrontar outras culturas, pro moralista, pode ser altamente desconfortável, porque mostra que aquilo que ele considera correto é apenas uma das formas de se obter felicidade. Talvez até outras morais façam melhor esse trabalho, mesmo sendo escandalosas… o que desqualifica a moral do sujeito como sendo “a melhor” (portanto, “a correta”). Se formos olhar assim, a melhor moral é aquela que faz bem a todo o mundo, não só a um grupo. Tal moral será estimulada por muita gente. Por exemplo: todo o mundo quer viver bem. Então por que não adotamos os costumes das nações mais longevas e saudáveis, em vez de simplesmente assumir os costumes do norte?

Para contornar o problema da moral mutável, a ciência da moral tenta procurar os fundamentos inerentes a toda a moral. Isso cria outro problema: ninguém está de acordo quando a esses fundamentos e todo o mundo parece ter encontrado fundamentos diferentes em diferentes números, o que nos leva a pensar quanto dessa ciência é arbítrio. Formular leis absolutas da moral, como se faz com a física, é algo muito perigoso, porque você não pode facilmente provar que algo é realmente um “fundamento moral”. Ora, na ciência, tudo deve ser provado. Se uma ciência dessas quiser existir, precisa ter a modéstia de, como fazem as outras ciências, não se pronunciar definitivamente sobre aquilo que não se pode provar.

Além disso, se a ciência deve se orientar por problemas, uma ciência da moral precisa identificar quais são os “problemas morais” que se quer resolver. Mas não é isso que se observa. As tentativas de estudo da moral, quando feitas por moralistas, rapidamente degeneram em meios de justificar e aplicar a moral na qual eles depositam fé. Não há problema na moral, nem problema da moral. O problema é externo: como aplicá-la. Isso não é ciência da moral, mas propaganda.

A moral e a natureza humana.

Para ser justo, a moral tem uma utilidade. Primeiramente, porque o ser humano fica paralisado quando está numa situação de liberdade total. Não ter obrigações, não ter objetivos, não ter métodos, não ter horizontes, isso não é tédio? Uma pessoa nessas condições começa a desejar ter algo pra fazer, ou vai enlouquecer. Assim, uma liberdade total predispõe o ser humano à incapacidade de escolha e, consequentemente, à inação. Por outro lado, colocando regras ao seu próprio comportamento e dirigindo-os a um fim fixo, o ser humano se organiza e se otimiza pra aquele fim, aumentando suas capacidades e se tornando uma pessoa melhor. Por causa disso, formular e se submeter a um conjunto de regras não necessariamente é uma violação à natureza, mas pode muito bem ser uma manifestação dela.

Uma sociedade próspera e que permite o desenvolvimento humano é uma sociedade que emprega uma moral que favorece o desenvolvimento humano, reduzindo suas paixões a um nível em que possam ser satisfeitas. Não é qualquer moral que faz isso, contudo. Existem morais que proporcionam exatamente o contrário: a redução do ser humano à miséria, fenômeno também chamado “decadência”. Então, é preciso escolher qual moral melhor proporciona seu desenvolvimento. Se não existir, ainda há a possibilidade de inventar uma. Depois, você deve se submeter a essa moral, o que requer disciplina.

Mas não acaba aí. Muitas morais pessoais são elevadas ao grau de morais comunitárias. Como o ser humano é um bicho gregário, ele tem um instinto de obediência. Ao reconhecer um líder, o ser humano se submete à moral do líder, mesmo que discorde em certos pontos, porque, ao menos me tese, só os mais aptos devem governar. Até aí, tudo bem. É quando a moral vai mudando e se tornando mais sufocante, colocando a pessoa em conflito com seus outros instintos, exaurindo o homem na luta contra si próprio, que a coisa fica feia. Isso gera infelicidade, insatisfação e, em homens singulares, o desejo de atacar a moral, por reconhecer nela um obstáculo ao seu desenvolvimento! A moral deve resultar no aperfeiçoamento da humanidade, particularmente intelectual. De que me serve uma moral que me mantém medíocre ou que me deixa ainda mais miserável?

Um exemplo de moral que prejudica o desenvolvimento é a obsessão moderna pela igualdade. Tornar todo o mundo o mais igual possível implica reduzir o potencial de pessoas promissoras. É como manter o superdotado na terceira série, só porque é adequado à sua idade. Além disso, a obsessão pela igualdade nos leva a nutrir preconceitos pelos diferentes, porque a diferença convida o tratamento desigual. Fora que a igualdade absoluta é uma desvantagem em termos de sobrevivência: se todos fossem iguais, o primeiro período de fome, o primeiro inverno rigoroso, que matasse um homem teria potencial pra matar todos. Isso não quer dizer que as leis devam ser diferentes entre as pessoas, isso não quer dizer que um grupo é melhor que o outro. Mas, sim, que fora do âmbito das leis (da isonomia), a diferença é algo a ser celebrado. Por isso, é preciso que a raça humana seja a mais plural possível, é preciso que hava variedade entre os humanos, diversidade.

Então, por que nos submetemos a líderes, se isso depois pode se voltar contra nós? Ser liderado exime a pessoa do peso de se responsabilizar por suas ações, o que torna a democracia representativa, por exemplo, muito atraente. Eis a razão. É ótimo culpar os políticos e não a nós mesmos por tudo de ruim que ocorre em nossa vida. A gente se sente menos fracassado. Isso também nos poupa de planejar nosso futuro, porque elegemos quem o planeje pra nós. Então, adotar um líder (e suas leis, sua moral, que se torna a moral dominante) não é algo feito de graça. Ninguém obedece, ninguém se sacrifica, se não houver benefício. A democracia é o sistema que permite mais benefício em troca do mínimo de dor, mesmo que produza um tirano de vez em quando, o que torna muito popular.

Relação entre filosofia e ciência.

A filosofia e a ciência são duas formas racionais de compreender o mundo, que se diferenciam por seus métodos. A ciência usa o método científico, baseado na quantificação e experimentação. É preciso que algo seja demonstrável pra ser crido e que seja repetido um número suficiente de vezes pra que se possa extrair uma regra geral que represente a regularidade de um fenômeno. Se algo não pode ser experimentado sensorialmente (metafísica, lógica, epistemologia, teoria do conhecimento) ou resiste à quantificação (ética, estética, arte, política), esse algo deve ser estudado pela filosofia.

Como a filosofia tem vários métodos, ela pode transitar no terreno da ciência e em terrenos onde a ciência não transita. Se ela é tão abrangente, seria um desperdício que a filosofia se submetesse à ciência, pela mesma razão que é um desperdício que um filósofo passe a vida toda estudando uma coisa só: ambas as atitudes causariam reduções desnecessárias no seu campo de estudo. O filósofo deve criar valores, mas, para fazer isso, ele deve lançar do máximo possível de conhecimento disponível. Logo, o campo de estudo da filosofia (virtualmente qualquer coisa) não deve ser reduzido. Além disso, a filosofia deve se apropriar também daquilo que é produzido pela ciência como elementos de sua reflexão.

Isso não quer dizer que a ciência é inferior: seu método enxuto permite ir mais fundo em um objeto de estudo, o que tem produzido resultados inegáveis. Só quer dizer que é ridículo tentar posicionar uma como superior à outra. Elas são complementares. Se a filosofia desaparece, apenas a ciência resta, mas a ciência não tem nem pode buscar respostas pra tudo. Numa situação dessas, se a ciência não tiver resposta, um problema é dado como insolúvel! E agora? Disso decorre que a filosofia não deve almejar ser uma ciência, nem a ciência deve almejar ser filosofia.

O ceticismo.

O ceticismo é a ideia de que as certezas disponíveis no nosso tempo (ou até em qualquer tempo) não são seguras e que devemos duvidar delas. Isso não é uma atitude sempre ruim. Há diferença entre o ceticismo e o criticismo: o cético duvida, o crítico julga, apontando os erros pra que estes sejam depurados. O ceticismo é bom quando não mata a vontade da pessoa, quando não coíbe seu potencial: duvidar das certezas disponíveis não quer dizer que nada exista de seguro em algum lugar.

Já o ceticismo levado ao extremo de duvidar de tudo é uma tentativa de acalmar o espírito, porque permite duvidar também das coisas ruins e inquietantes. “Ah, a chance de um colapso climático não é tão grande”, “não faz muita diferença se a Terra é redonda, plana ou em forma de cuia de beyblade“, entre outras formas de se tornar acomodado pra não enfrentar um debate. Além disso, o cético, quando conformista, usa seu ceticismo oportunamente pra extender um debate a fim de que ele não conclua. Afinal, se concluir, haverá um curso de ação e direção de mudança. Se você quer permanecer na mesma condição, questionará ambos os lados de um debate, se ambos os lados desejam proporcionar mudança nas condições de vida. Está no interesse de um cético conservador que esse debate não conclua. Por isso, parece às vezes que os céticos não querem a conclusão de nenhuma discussão.

Observe, no entanto, que somos mais inclinados à certezas. Então o cético não é cético porque quis se tornar cético, mas porque precisou se tornar um. Isso ocorre, por exemplo, quando duas gerações ou dois povos se encontram de maneira tal que as certezas de um de outro são abaladas. Pra evitar o conflito, a pessoa começa a se comportar ambiguamente, “você não é melhor que eu e nem vice-versa”, o que permite que a pessoa mantenha seu modo viver sem interferir no modo de vida do outro. Isso implica dizer que uma pessoa que se torna cética, que duvida de tudo, pode estar se comportando assim porque sente que aquilo que ela tem por precioso está sendo questionado. Então, se tudo for questionável, aquilo que ela acredita, não como correto, mas como aceitável, passa a ter tanto valor quanto a posição do outro. Seu estilo de vida é, então, mantido. Se você não pode ganhar, você empata.

Insurreição dos ressentidos.

A vida é violenta. As primeiras sociedades foram construídas à base da violência. Isso imediatamente cria dois grupos: os dominados e os dominadores. Essa cisão entre grupos naturalmente convida a criação de tipos diferentes de moral: a moral dos dominadores e a moral dos dominados. Antes de entrar em detalhes, é preciso dizer que tais morais não são mutuamente exclusivas e que uma mesma pessoa pode, em sua moral pessoal, carregar elementos dos dois tipos de moral (dominadores e dominados).

Na moral dos dominadores, é a pessoa quem justifica o ato. Quem domina não se importa muito com o que é certo ou o que é errado, mas sim com o que é forte e o que é fraco. Nessa moral, não existem os conceitos de “bom” ou “mal”: é moral aquilo que agrada ao forte, não aquilo que é “bom”. Assim, o nobre atribuía valor às coisas, não as coisas que tinham valor em si mesmas. Claro que pessoas assim quererão levar aqueles sob seus cuidados a uma condição de força e de avanço. Só que o desenvolvimento, não apenas da nação, mas do próprio homem requer uma sociedade hierárquica. Como esses dominadores identificam moral com agradável (e, no caso, agradável a eles), é claro que uma hierarquia na qual eles estão no topo será uma hierarquia opressiva. Isso cria uma massa de excluídos e explorados, extremamente insatisfeitos com sua condição.

Se os fracos passam a criar sua moral, a criarão em oposição à moral dos fortes, considerando coisas como a violência, a astúcia e a riqueza como “más”. Não é mais a pessoa quem justifica o ato, mas o ato que justifica a pessoa. Existem, então, boas e más ações. Para os oprimidos, “bom” é aquilo que permite a sobrevivência do grupo e permite a mútua compreensão de seus integrantes (sociabilidade, compaixão, amor ao próximo, cultura, língua, solo, pátria) e “mau” é aquilo que ameaça sua sobrevivência (violência, intolerância, arrogância). Tal moral permite que o grupo sobreviva ao perigo, porque um grupo é mais forte quanto menos se desentende. Até aí, tudo bem.

O problema é que, numa moral em que você é justificado por suas virtudes e boas ações, você precisará fingir ser virtuoso caso você não seja. Assim, pra aumentar o próprio valor numa sociedade dessas, muitos indivíduos aprendem a ser hipócritas, falsos. Além disso, a virtude, por trazer valor à pessoa, ironicamente passa a fomentar a vaidade. Você sente orgulho (que é um vício, segundo tal moral) de ser humilde, pobre, modesto, manso (todas coisas que são virtudes). Também porque seu valor é atribuído por virtudes, sobretudo virtudes percebidas, essa moral também escraviza todos os que a adotam à opinião pública.

Uma pessoa dominada e ressentida quererá dominar, quererá fazer a sua moral. Mas ela não pode dizer que quer domínio, porque isso a tornaria tão ruim quanto seus dominadores. Então ela racionaliza seu desejo por vingança ou domínio como desejo por liberdade. Agora o caminho está aberto pra guerra começar. E, quando ela termina, quando os dominados estão no poder, sua moral, a moral para a qual há coisas boas em si e más em si, se torna a moral dominante. Esses valores são passados às gerações seguintes através tanto da educação pública como da educação familiar, pois o objetivo de ambas as formas de educação é fazer a geração seguinte adotar os valores morais da geração passada. As grandes revoluções morais foram tidas como subversivas, foram coisas contra as quais os jovens foram alertados, mas os jovens daquela geração agora são adultos e passam seus valores às gerações seguintes, as quais podem ou não tornar-se “subversivas” também, aceitando ou rejeitando os valores que os mais velhos gostariam que os mais novos adotassem. O filho não é o pai. Não há garantia de que o filho será como o pai.

Recomendações.

O grande problema do pensamento leigo é ver as coisas dicotomicamente: algo sempre é “bom” ou “mau”, sem nada entre os dois. Existem outras dicotomias, como “belo” e “feio”, “justo” e “injusto”, “útil” e “inútil”. Esse modo de ver as coisas é simplista e não reflete a natureza nem física e nem espiritual dos seres humanos. É preciso admitir que existem coisas entre os dois extremos. É inaceitável, hoje, uma filosofia que veja as coisas dessa forma no âmbito moral. Claro que isso não quer dizer que extremos não existem, mas quer dizer que a existência de extremos não invalida a existência do meio-termo. Além do mais, a existência de um meio-termo é fatual em situações naturais e na atividade humana, mas ela não é fatual em algumas outras áreas do conhecimento, como a lógica e a matemática, que lidam com o real em sua forma mais simples. Não existe meio-termo nessas áreas. Na lógica e na matemática, não existe algo como “meia-verdade”. Já em coisas como moral e cultura, tal conceito pode existir, uma verdade que não foi contada por completo ou um discurso que comporte uma mescla de falsidade, o que torna a visão dicotômica prejudicial na avaliação de doutrinas morais e culturas humanas.

E de onde vêm nossos conceitos de “bem” e “mal”? Se a análise de Nietzsche estiver correta, esses conceitos nem sempre existiram e foram criados quando o ser humano passou a ver as ações como dignas de valor, não as pessoas. As ações, portanto, dignificam a pessoa (a chamada “moral dos escravos”), não o contrário. O fato de uma pessoa ser forte, inteligente ou bonita não torna tudo o que lhe agrada “moral”, pensam os oprimidos, que sofrem nas mãos dessa pessoa. Como oprimidos só podem sobreviver em grupo, “boas” são as ações que propociam a conciliação e, portanto, a sobrevivência do grupo. É “mau” aquilo que me aliena desse grupo ou que trabalha pra sua dispersão. Em outras palavras, “bom” é o que é útil ao grupo, à sua coesão e à sua sobrevivência. Esses conceitos de bem e mal, embora sejam bons pra manutenção do grupo, podem encher o saco dos sujeitos excepcionais que nascem nesse grupo e veem nessas regras um obstáculo ao seu crescimento. Esse é um caso clássico em que o interesse coletivo conflita com meu interesse particular. Mas é bom que casos assim ocorram, porque põe a moral dominante sob escrutínio, o que pode levar ao abandono de conceitos ultrapassados. Se isso não resultar num mundo com sujeitos mais livres, pelo menos resultará num mundo com sociedades mais justas.

Tais sujeitos aparecem de vez em quando, inclusive hoje. Se eles forem também intelectuais, eles têm potencial pra depurar a filosofia de seus preconceitos, criando uma filosofia nova, que proporcione o desenvolvimento humano, que deveria ser seu único objetivo. A filosofia, pra se justificar, precisa tornar o seu adepto uma pessoa melhor. É preciso que todos os filósofos tenham esse objetivo em mente, em vez de praticar filosofia “desinteressadamente”. Se bem que, a bem da verdade, eu não acho que ainda existam filósofos fazendo isso hoje. Acho que a maioria percebeu que o melhor uso da razão é o aperfeiçoamento humano.

1 de janeiro de 2020

Quem manda na democracia?

Filed under: Livros, Notícias e política, Organizações — Tags:, , , — Yurinho @ 18:04

O texto abaixo é uma honesta aula filosófica baseada em O 18 brumário de Luís Bonaparte, escrito por Karl Marx, com sugestões de como as ideias contidas em tal escrito podem ser usadas para desenvolver o país e ajudar as pessoas a se compreenderem.

Tema do livro.

O 18 brumário de Luís Bonaparte é sobre a interpretação marxista de um determinado período histórico (a pista está no nome do livro). Trata-se, portanto, de um tipo de filosofia da história, uma interpretação particular de um contexto histórico. Naturalmente, como ocorre em todas as obras marxistas, o momento histórico não pode ser interpretado imediatamente, antes de se estar ciente das causas materiais ou sociais que o motivaram. No marxismo, ideias e filosofias são motivadoras secundárias da história. A verdadeiro motor da história é sempre de origem material: a insatisfação causada pela opressão de um grupo por outro, mas nunca o simples pensamento ou atitude intelectual desinteressada. Em outras palavras, no marxismo, a história é luta de classes.

O uso do passado pra legitimar “o futuro”.

Hegel afirma que todos os eventos históricos ocorrem duas vezes. Se assim é, a segunda vez geralmente é pior que a primeira. A segunda vez é caracterizada pela apropriação de elementos da primeira vez em um contexto diferente. Por exemplo: apropriação de Paulo por Lutero, apropriação do velho testamento pela revolução burguesa na Inglaterra. Para citar um exemplo do momento: a apropriação do discurso da ditadura militar pelo clã Bolsonaro. Recorrer ao passado pra operar uma mudança social não é incomum. Essa tática tem como objetivo romantizar as lutas futuras usando a memória de lutas passadas, tornando o esforço mais atraente. É uma técnica estética, mas que geralmente degenera em paródia. É muito fácil essa técnica fracassar. E, quando fracassa, as pessoas veem que era somente uma farsa pra movimentar a massa de manobra em uma dada direção. Tal direção é a reacionária. Usando os conservadores nostálgicos como base segura, tenta-se fazer o passado parecer atraente também aos mais jovens.

Uma pessoa que recorre às revoluções ou golpes passados pra justificar o que está tentando fazer está também tentando distrair as pessoas da falta de conteúdo do movimento que se quer fazer. É provável que tal movimento seja inclusive prejudicial ao povo do qual se deseja obter apoio, uma tentativa de trazer de volta as coisas como eram, particularmente os elementos que poderiam favorecer quem quer dar o golpe. Uma revolução autêntica deveria buscar sua justificação e combustível emocional no presente, sem recorrer a uma romantização do passado, e ferrar seu inimigo até que ele não possa mais se levantar.

Caos posterior.

Outra tática pra movimentar revoluções oportunistas, além de romantizar o passado, é fazer promessas de melhoras futuras, pra que todos anseiem um alvo claro. Há expectativa, esperança e sede por tal objetivo, como se tudo fosse se resolver ao alcançá-lo, um sentimento que pode contaminar até mesmo as forças armadas, que passam a deixar seu papel de manter a ordem, a fim de dar livre curso às revoltas populares, inclusive revoltas contra o congresso (o qual as forças armadas deveriam proteger). E, ao alcançar o objetivo, todos se congratulam mutuamente, como se tudo estivesse bem e o país não tivesse que ser reconstruído, enquanto repartem os despojos entre si (excluindo o povo, porém), particularmente os industriais.

O problema é que, depois de uma revolução, séria ou farsante, as partes que ajudaram na derrubada do regime anterior querem sua fatia do bolo ao definir os rumos do novo regime. Aí, ninguém mais se entende. Essa é uma configuração propícia para o caos: cada grupo tenta trazer gente pra si a fim de levar o regime numa direção que lhe é favorável. Nesse clima de incerteza, os aventureiros que derrubaram o antigo regime se mostram sem perícia pra conduzir o novo ou mesmo lhe propor alguma coisa (isso quando não são insubordinados), os partidos sem ideologia se fragmentam e o próprio novo governante se revela um comediante excêntrico, cuja troça dirigida aos seus adversários “certinhos” é a única coisa efetiva no mandato, especialmente quando pessoas que têm habilidade de auxiliar no governo e que realmente são úteis recebem exoneração como recompensa. Aí, sim, o governo se priva do sucesso. E, quando o governo se priva do sucesso, os ricos passam a privar o governo de investimento

Isso gera, além do caos, a insatisfação. Ótimo ambiente pra que as forças do antigo regime se reorganizem, especialmente se puderem integrar o congresso e criar uma coligação majoritária! Se bem que isso iria requerer que a coligação fosse feita com projetos de poder mais ou menos compatíveis… Tipo, não dá pra misturar republicanos e monarquistas. Apesar de que é difícil um monarquista hoje fazer alianças com quem quer que seja, exceto com outro monarquista. Isso porque uma monarquia beneficiaria poucos. Talvez até monarquistas que se candidataram e obtiveram cargos políticos não queiram realmente um regime em que eles sejam jogados na irrelevância. É melhor um monarquista desistir da volta do império e se candidatar. Isso, ou defender um híbrido entre os dois regimes, como uma monarquia constitucional, mas aí o monarca vira um zero absoluto.

Observe, porém, que as forças que apoiam o novo regime podem tentar direcionar essa insatisfação aos ministros de estado, o que pode levar o povo a se esquecer de que é o chefe do executivo quem nomeia ministros em primeiro lugar. Essas forças fazem isso quando querem manter o governante de escolha delas. Então, mais odioso que o Salles, o Weintraub ou o Guedes é quem colocou eles pra exercer cargos de importância. Além disso, são ministros fracos em ministérios fracos, os quais, sozinhos, não operam nada. Se um ministro fraco faz algo grande, só pode ser graças ao chefe, que o usa. Essa pessoa, o presidente, não pode ser blindada.

Além do mais, ministros ruins podem ser empossados com o fim de concentrar o poder executivo na pessoa do presidente. Tome Vélez e Weintraub, por exemplo. O ministério da educação está paralizado por causa deles. Mas isso porque esses ministros não fizeram nada sem que Bolsonaro mandasse. Talvez o mesmo possa ser dito de Salles. Eles são vazios de qualquer autonomia. Nesse caso, o verdadeiro ministro da educação (e talvez do meio ambiente) é o Bolsonaro, porque seus ministros só agem se houver ordem dele, com a única exceção do Guedes e, de vez em quando, da Damares. Um ministro ruim é um ministro sem autonomia, que age a mando do presidente enquanto leva a culpa no lugar dele. Aliás, eles têm autonomia, sim: espontaneamente dizem asneiras pra manter a oposição ocupada com filigranas verbais enquanto algo maior é preparado por baixo dos panos.

Só que esse também é um período de mata-mata entre as forças políticas revolucionárias, que passam a se desentender entre si, e as reacionárias. É um período de surpresas, uma atrás da outra, e de perseguições políticas, caracterizadas pela tensão entre grupos sociais, bem como do aparelhamento do sistema jurídico e condenações apressadas. Exemplo de tensão social: a tensão entre trabalhadores e… todo o resto da sociedade. Como?

Veja, tanto no contexto histórico ao qual O 18 brumário de Luís Bonaparte se refere quanto no contexto histórico do Brasil de hoje, a luta contra o “comunismo” ou “socialismo” foi a bandeira catalisadora da remoção de direitos dos trabalhadores. Criminalizou-se ou difamou-se os representantes dos trabalhadores, como os partidos de esquerda, sob a desculpa de que aquela era uma luta contra as forças que perpetuavam o caos.

Mas tudo isso, essa luta pelos valores tradicionais como meio de restaurar a ordem, a luta contra o vermelho que poderia manchar a bandeira, era uma distração, um dispositivo para causar medo. O verdadeiro inimigo era o direito trabalhista, não o “comunismo”; os verdadeiros combatentes eram os chefes, não o povo. Desvia-se a atenção dos problemas reais pra fazer o povo lutar contra inimigos imaginários, em detrimento da satisfação de suas próprias necessidades. Daí a sensação de que os “salvadores da pátria” traem a pátria tempos depois.

Entenda: uma coisa é o que a pessoa diz e outra coisa é o que ela faz. As outras classes sociais podem dizer que estão do lado do povo, mas são sempre hostis à classe trabalhadora. Afirmando representar o povo, agem abertamente contra ele. Uma aliança entre os trabalhadores e outras classes quase sempre termina com o trabalhador traído ou explorado.

Esse caos é também o tempo em que uma parte das forças derrotadas se junta ao lado vencedor pra permanecer relevante e manter seu poder apesar da mudança de regime. Por exemplo, com a queda da dinastia francesa e a ascenção da república, a burguesia, que governava em nome do rei, tenta se “atualizar” pra governar em nome do povo. Mais ou menos como aconteceu entre Bolsonaro e os ricos do país (grupos de mídia, empresariado, agronegócio e igrejas neopentecostais) em um governo que deveria representar o povo. Esses grupos usam aquele que deveria representar o povo pra representar seus próprios interesses. Parece que, no final das contas, o lado vencedor quase sempre tem a vantagem de ser favorecido pelo dinheiro.

Trabalhadores traídos… e ricos também.

Os trabalhadores têm forças pra colocar ordem no caos interno, pela mobilização popular nas ruas, mas as consequências da revolução e da substituição de regime causam medo. O que poderia vir depois? Mais caos? O potencial revolucionário é também prejudicado pela ideia de que a insatisfação passará com as próximas eleições (as quais, a bem da verdade, servem ao menos pra frear o avanço de um plano de governo opressivo). Então, se o sistema permite isso, pra que revolucioná-lo? Sem interesse em acabar com o sistema que permite que sejam explorados, os trabalhadores acabam conquistando apenas vitórias superficiais e um bem-estar passageiro (um aumento de salário, uma melhora nas condições de trabalho, entre outros).

Uma vitória definitiva dos trabalhadores só pode ocorrer pela tomada do poder, pelo povo em marcha, algo que poderia até ser puxado pelo congresso, se este também não fosse tão avesso à mudança e se este também conseguisse o apoio das forças armadas (e se a população não visse a ação do congresso como uma tentativa de usá-la pra depois descartá-la). Vitórias superficiais ou que afetam apenas os trabalhadores, em vez de toda a sociedade, não impedem que os trabalhadores sejam massacrados depois e tenham suas vitórias anuladas, pela retirada de direitos conquistados com vitórias passadas. E olhe lá se não mexerem no sistema eleitoral pra limitar até seu direito de eleger alguém, falando em coisas como “eleições indiretas”… Estranho que ferrar a população seja visto como “nacionalismo” hoje.

Os grupos que ajudaram na mudança de regime não estão totalmente salvos. À medida em que um grupo começa a ganhar mais força (por exemplo, o capital mais forte que o latifúndio) e se eleva acima dos demais, o círculo de interesses vai ficando menor. E agora, quem fica com o estado? Os trabalhadores são excluídos das deliberações do governo e, aos poucos, os ricos também, começando dos menos ricos e indo aos mais ricos. Quem antes ajudou, passa a ser inimigo e cada inimigo vencido é mostrado como troféu, uma vitória da ordem contra o caos que se instala em qualquer mudança de regime político. No caso da história francesa, esses inimigos eram primeiro rotulados de “socialistas”, depois massacrados. Se algo tinha que ser destruído, tinha que ser antes declarado “socialista”. No caso do Brasil de agora, o rótulo é “comunista”. É a palavra de ordem: “tem que acabar com os comunistas pra que a democracia prevaleça!” Opera-se depois o oposto da democracia, sob a aparência de democracia.

Um desses grupos desfavorecidos é a imprensa livre: órgãos de mídia que apoiaram a ascenção do novo regime e são depois marginalizados culpam depois o povo por permitir tal ascenção e ser “conivente” com a manutenção do regime. Imagine só: a imprensa antipopular pedindo um levante popular contra o regime que ela ajudou a instaurar. Bem feito. Morra de vez. O problema é que isso acontece não somente à imprensa inimiga do povo, mas também à imprensa que estava ao lado dos trabalhadores desde o começo.

Outro grupo marginalizado em pouco tempo são os produtores de bens, os endividados e pequenos empresários. Às vezes até os grandes empresários. Se espera que a ascenção de um governo mais alinhado aos interesses do capital possa fazer o país ficar rico. Reclamam das crises do regime anterior e do período caótico. Mas o que acontece quando o novo regime traz crises econômicas ainda mais fortes? Quando a economia voltará ao passo ordenado, se é que já andou ordenadamente? E quando o país voltará a crescer? Enquanto essas respostas não saem, eu vou curtindo o dólar acima de quatro, já que eu exporto pros gringos.

Não tem coisa mais amiga da onça do que projeção econômica. Quando há restrições demais, a economia adoece. Quando há liberdades demais, também. Quem se confia somente em projeção econômica se desespera quando ela é desmentida. Mas o pior golpe contra os ricos ocorre quando os ricos do congresso não mais representam os ricos fora do congresso. Isso pode acontecer por medo de represália vindo de poderes maiores se os deputados e senadores não se alinharem com o executivo.

“Democracia” ou “república” são apenas palavras belas atrás das quais alguém pode se esconder da fúria dos trabalhadores, quando pronunciadas por gente como essa. O perigo vermelho é apenas um artifício pra que a população, pelo medo, sinta que precisa de líderes e tenha oponentes bem claros contra os quais direcionar seus ataques. Quem são os oponentes? Os opositores do governo. Quem discorda do presidente só pode ser comunista, mesmo que seja também um neoliberal. No período a que se refere O 18 brumário de Luís Bonaparte, até a burguesia se viu em apuros quando viu pairar sobre si o rótulo de socialista. Fascinante, né?

O lado bom disso é que setores poderosos da sociedade são marginalizados (ou até extintos), ministros de partidos antes aliados são destituídos, presidente e ministros contradizem e desautorizam uns aos outros, e por aí vai. Algumas dessas forças são até mesmo levadas a agir contra seus próprios interesses, vendo no mal o caminho para o bem, ou escravizadas. Isso não supera o caos, mas o põe numa panela de pressão: agora ricos se sentem tentados a andar de mãos dadas com pobres que já estão desapontados com o poder, porque o poder passou a representar só a si mesmo e quem é próximo dele. Algumas dessas forças, as mais honestas, até mesmo se aliam definitivamente aos trabalhadores e viram a casaca. A trama da queda do governo é posta em movimento. Isso é facilitado se o congresso, ou outro órgão do governo, tiver contatos com outras nações, mais fortes ou mais influentes, pra avançar seus desígnios.

Veja o que está acontecendo: prejudicando ora uma classe social, ora outra classe social, o governo acaba se tornando inimigo de todos. Isso é típico de governos que tentam agradar a todos inclusive quando dois grupos (como a bancada evangélica e o agronegócio) têm interesses distintos. Muitas vezes, não é possível beneficiar alguém sem tirar de outro. O governante passa a ficar pressionado entre exigências contraditórias. Por causa disso, não é possível um governo que agrade a todos. Um governo que promete agradar a todos, decepciona a todos.

Isso não quer dizer que os ricos menos honestos e os pobres ficaram amiguinhos. Se um rico se alia a um pobre, é geralmente por interesse próprio ou porque percebe que a democracia está em apuros (o que poderia ser ruim pros dois, especialmente pra quem tem algo a perder). Eles estão unidos na luta contra um inimigo comum, mas eles não têm outros interesses em comum além desse. Elege-se uma pessoa que denuncia o “socialismo” ou o “comunismo” como inimigos, mas também é inimiga do grupo dominante que passou a arrogar pra si todo o poder, como o novo salvador da pátria.

Esse sujeito é um “moderado”, que denuncia o poder vigente e a classe trabalhadora como extremos opostos, mas que joga segundo interesses das forças que o sustentam (os outros grupos poderosos que se viram marginalizados). É tipo um Guaidó. A parte interessante disso é que, se esse democrata moderado falha em seus desígnios, ele pode culpar o povo por isso, já que ele se diz democrata e diz agir no interesse do povo. Se ele falhou é porque o povo falhou. Não é fascinante um bicho desses?

Observe, porém, que a força dos trabalhadores reside na mobilização popular, enquanto que a força dos ricos reside na política. Essa diferença ocorre por causa dos números: há mais trabalhadores no mundo do que ricos. Então, o rico que queira fazer seus interesses valerem precisa ser eleito ou comprar um ou mais políticos, pra que ele tenha muito poder mesmo estando em menor número. Se os trabalhadores quiserem fazer valer seus interesses, terão que ir às ruas pressionar o governo… Mas, assim, se você for às ruas, não espere que o governo te receba dando bolo com suco. Quando o governo se sente ameaçado, especialmente pelo povo desarmado, ele reage com seu monopólio do uso da violência. É por isso que os trabalhadores deveriam ter suas próprias armas. Quanto mais poderosa for a classe trabalhadora, menor será a influência da classe dominante sobre os trabalhadores. E isso é ótimo: tem muito trabalhador inteligente e muito chefe idiota. Então, que os trabalhadores resistam à influência cultural da elite. Se os tralhadores tomarem coragem, tomarão também o poder.

Uma pergunta que deve ter surgido é: com todos esses problemas, por que ainda insistimos que precisamos de líderes políticos? É que não somos hoje como os camponeses franceses do século dezenove: autossuficientes. Se cada um tivesse um pedaço de terra fértil pra chamar de seu e produzisse aquilo que lhe basta, não haveria necessidade de governo… Cada família seria um estado. Se bem que, mesmo nessa época, o governo ainda era necessário pra administrar a quanta terra cada camponês tinha direito… Mas, em suma, quanto mais autossuficiente é cada cidadão, menor será sua necessidade de um governo.

Quem manda na democracia?

Aproveitando um levante popular, a burguesia francesa, mostrando-se como representante dos interesses republicanos, conquistou lugares importantes nas comissões, particularmente na assembleia constituinte, que estabeleceriam os termos do novo regime. Tiraram da constituição qualquer elemento socialista e, basicante, trouxeram de volta, com forma republicana, elementos de um regime já superado. Isso manteve seu poder. Ao menos nesse caso, quem passou a mandar foram os ricos, utilizando o poder bruto dos trabalhadores revoltados pra chegar onde chegaram, conduzindo-os e sendo seus “representantes”.

A cada vitória, como o direito de votar e as liberdades individuais (como são os direitos humanos), vem também uma limitação que torna inócua a vitória alcançada. Por exemplo: nem todos podem votar ou os direitos de liberdade de expressão e associação são limitados por coisas vagas, como a “segurança nacional” (uma tática reacionária que pode ser empregada inclusive contra a imprensa). Assim, embora os trabalhadores tenham conseguido novos direitos e novas liberdades, tais direitos e liberdades são rapidamente tornados inúteis contra a nova classe dominante. No mais, as coisas… continuam do mesmo jeito que eram antes da mudança de regime. Foi assim naquele período. Não é exatamente assim hoje, mas é quase isso. A constituição, inclusive a nossa constituição, é um documento lindo, mas as limitações aos direitos por ela garantidos fazem com que a constituição valha preferencialmente pros amigos do governo. Isso não impede que os trabalhadores invoquem, com toda a justiça, a mesma constituição pra reinvidicar seus direitos já garantidos. Mas isso também mostra que a democracia não é imune às diferenças entre classes e tal democracia pode ser aparelhada por uma classe social em detrimento das outras, particularmente dos trabalhadores.

Essa infestação de gente antidemocrática em ambientes que deveriam ser democráticos também ocorre entre poderes. O poder legislativo tem mais gente, então tem mais representantes das classes dominantes, mais gente que pretende usar a política pra se dar bem e amansar o povo. É natural que ele seja o verdadeiro chefe de estado. Isso porque o poder legislativo, na pessoa do congresso, pode afastar o presidente. Mas o presidente não pode fechar o congresso, a menos que se tenha instaurado uma ditadura. Seria inconstitucional (não que o congresso não tome uma decisão inconstitucional de vez em quando). É uma ilusão pensar que o presidente manda numa democracia. Quem manda é o congresso. E o congresso está cheio de gente representando pessoas que são contra os interesses dos trabalhadores.

Esse congresso pode, embora dificilmente, alterar a constituição, se bem que somente seus aspectos passíveis de mudança, o que pode ter efeito cascata sobre várias outras leis, inclusive trabalhistas. Mas o congresso não tem todos os poderes. Ele não pode, por exemplo, decretar o fim da república. Só uma nova constituição pode mudar o regime de governo e fazer uma constituição novinha, do zero, requer uma assembleia constituinte, de caráter temporário. Isso é importante, porque quer dizer que o presidente pode jogar a constituição contra o congresso se houver oportunidade pra isso, já que ninguém pode mexer nas chamadas “cláusulas pétreas“.

Isso não quer dizer que o poder executivo é impotente, primeiramente porque o presidente é eleito pela maioria dos votos da população inteira. O congresso representa diferentes setores da sociedade, mas o presidente representa a maioria da sociedade e isso já lhe dá um respaldo enorme em suas ações se ele também for bem avaliado. O pessoal vai pra rua pelo presidente que ama e abandona o presidente que odeia. Se houvesse um atentado presidencial, com apoio popular, contra o congresso, a guerra entre poderes ia ser muito feia e talvez muito curta. Isso pode ser agravado pela ciência do chefe do executivo de que ele tem apenas quatro anos pra conseguir vencer essa guerra. Ou ele pode usar esses quatro anos pra curtir, com o gordo salário que ganha, e deixar esses conflitos de lado. Outra coisa que pode resolver tensões entre executivo e legislativo é a corrupção: sabendo os podres um do outro, políticos compram silêncio mútuo.

Quando um conflito entre os dois poderes parece inevitável, pode ser que o presidente resolva começá-lo. Caso o presidente resolva peitar o congresso, preferencialmente se estiver com apoio popular, ele pode fazer isso com as forças armadas, as quais devem antes ser alienadas da realidade popular a ponto de pensarem estar agindo para o bem de todos. Nenhum poder legítimo, nenhum golpe, nada se sustenta sem apoio militar e popular. Lembre que o golpe militar de 1964 teve apoio crucial da população brasileira e a ditadura começou a desmoronar com a queda de sua popularidade. Um governo só subsiste se a maioria da população se reconhece nele.

Esse apoio popular pode ser obtido voltando as pessoas contra o congresso, ou seja, contra a democracia (o que equivale a fazer o povo agir contra seus interesses). Para fazer isso, é preciso esperar um momento em que o congresso tome uma decisão impopular. Daí, a força que pretende dar o golpe, seja ela o exército ou qualquer outra força, se põe ao lado do povo ou ao lado de alguém poderoso que não tenha gostado do movimento feito pelo congresso. Faça isso sempre que o congresso decepcionar um aliado potencial e logo você terá aliados efetivos.

Esse processo é facilitado caso a força que tenta dar o golpe seja também demagógica e caso sua audiência seja composta de pessoas da pior estirpe (criminosos, por exemplo, e outros vagabundos), que se sentem “dignos” sob a sombra do golpista e podem até virar gente importante no governo vindouro. Esse é o pessoal que, sob a proteção do olho cego da polícia, xinga e até agride opositores na rua. Por isso que é uma boa ideia que exista mais de uma polícia em um território (federal, civil, militar, entre outras), pra que uma polícia legítima mitigue uma polícia aparelhada. O golpista pode até dizer pra seus seguidores pararem, mas, pela omissão da polícia, eles entendem que a verdadeira mensagem é continuar.

Com o crescente furor social proporcionado pela omissão da polícia e pela corja vagabunda, um golpe pode ser dado pra “pacificar o país”. Se os trabalhadores fizerem insurreições em tal momento, será fácil colocar os militares contra o povo. Isso é outra forma de dizer “me deixem governar como eu quero, em silêncio, ou a convulsão social me levará a medidas drásticas.” O golpista bem que gostaria que seus subordinados imediatos fossem tão eficientes quanto seus seguidores populares. Quando a tensão social chega a níveis extremos, até cidadãos que não apoiam o presidente pedirão a vinda de um “governo forte”. Esqueceram de mencionar que há meios constitucionais de obter tranquilidade. Qual é o cara que propõe golpe militar em nome da paz? Esse tipo de situação não traz paz.

Mas a perspectiva de golpe pode, além de prejudicar a paz, causar instabilidade econômica: o capital financeiro precisa de estabilidade local pra investir em um país. Então, um país onde o governante provoca o povo à revolta é um país onde se investe menos. Aí, o governante pode fazer parecer, com apoio da mídia vigarista (em oposição à mídia intelectual, que pode até apoiar setores do governo), que o baixo investimento é culpa do povo, que não o deixa governar. Tal afirmação pode ser também uma tática de distração, fazendo com que o problema econômico pareça ser de raiz exclusivamente política, facilitando que o governo culpe adversários, mas problemas econômicos raremente têm só uma causa. Aliás, no capitalismo, a causa de uma crise em um país pode estar até em outro país, o qual, por qualquer razão, deixou de importar da gente, por exemplo. Isso faz qualquer opositor do presidente parecer um traidor da pátria.

Se o povo for idiota o bastante pra acreditar que a própria pobreza é culpa dele somente, tal povo também estará aberto a sugestões do que fazer pra mudar isso. Coisa simples é manobrar uma população ignorante. Por causa disso, o congresso nunca deve subestimar um presidente, mesmo que seja um presidente horrível, se ele for também capaz de fazer o povo de títere.

Se acontece um golpe, o congresso se dá mal, porque o aparelhamento do congresso, seguido de seu fechamento, é uma das primeiras coisas que acontecem. Terá que escolher entre ser fechado ou existir apenas pra dizer “amém” ao presidente. Se fechado, seus integrantes terão que sair por onde entraram, de cabeça baixa. O congresso pode ser fechado imediatamente após o golpe, por violência, ou aos poucos, por asfixia econômica ou desvio de função (quando o executivo, pouco a pouco, assume as funções do legislativo). Talvez os deputados e senadores mais incisivos sejam até presos. Nada de diálogo com essa gente que fala com as armas. Mesmo a mera ameaça de um golpe de estado pode calar a prepotência do congresso, se o poder executivo e as forças armadas forem suficientemente próximas.

Então, é preciso que o congresso sempre se ponha ao lado do povo, isolando o presidente, tirando dele tanto poder quanto for possível. Um congresso impopular, com imagem arruinada, se coloca em risco. Uma vez que o risco está estabelecido, tudo o que executivo precisa fazer é negar apoio policial (e militar) ao congresso caso uma população insatisfeita resolva invadir o local e matar seus integrantes. Portanto, que o congresso seja amigo do povo e o represente de verdade. Isso, ou o presidente construirá sua popularidade encima da impopularidade do congresso, ou seja, às suas custas, o que poderá ser letal pra democracia. Se congresso ficar ao lado do povo, o presidente recuará. Mas o congresso que rompe com o povo, não pode depois romper também com o executivo sem ameaçar sua própria existência. Fica-lhe, portanto, de escravo.

Mas tem uma coisa mais eficaz que um golpe e ainda mais segura: a ocupação do executivo, do legislativo e das forças armadas por um só partido. Claro que, no Brasil, as forças armadas não podem legalmente ser partidarizadas, mas isso tem mais efeito no papel do que na vida real: uma pessoa que concorda com os ideais de um partido não precisa formalizar sua filiação (observe que isso também deixa aberta a possibilidade de diferentes setores das forças armadas serem a favor ou contra o regime dominante, o que dividiria o exército em facções). Então, um bom jeito de alinhar as forças armadas a um partido é colocando as forças armadas sob um ministro indicado pelo executivo, por exemplo.

Se o legislativo e o executivo estão sob controle massivo de um só partido, ninguém pode dizer que eles estão lá por terem dado um golpe (foram eleitos democraticamente) e o país estará totalmente aberto ao plano de governo do partido eleito. Seria bom, porém, que, em uma situação ótima como essa, as forças no poder tornassem o estado autônomo o bastante pra resistir ao desmonte por um ou mais eventuais patifes que venham a ser eleitos.

Golpes militares, as constituições e as leis.

No caso da constituição francesa, foi a violência que permitiu que a constituição fosse gestada sem interferência popular durante o caos ocorrido no fim da monarquia. Também foi pela violência que a constituição veio abaixo. Um exemplo dessa violência, discutido em O 18 brumário de Luís Bonaparte, é a militar. Durante a nossa ditadura, os militares também fizeram uma constituição. Ou melhor, a assembleia constituinte fez uma constituição com os militares pressionando seus integrantes (dentre os quais, ninguém de oposição). Trata-se da Constituição do Brasil, de 1967.

A declaração de estado de sítio foi um artifício periódico usado pelas autoridades francesas quando elas queriam usar a violência estatal pra reprimir algum inimigo interno. Agora, pense: se o exército é usado dessa forma, a toda hora, ele não terá, algum dia, a ideia de que pode agir em interesse próprio pra reprimir seus próprios inimigos e, de quebra, controlar a economia? Esse “movimento” é facilitado num regime em que um militar ocupa também um cargo político de importância (o que é crime, já que um militar da ativa não pode ocupar cargo político).

O exército, se quiser tomar o poder, precisa fazer alianças. É preciso que haja apoio popular, então é preciso que haja dinheiro, propaganda, entre outras coisas. Depois que o golpe ocorre, esses sujeitos passam a elaborar as leis, inclusive a constituição. Como um golpe, por sua natureza antidemocrática, nunca está realmente comprometido com o povo, tal povo é posto em segundo plano. Entenda: depois que o golpe é dado, a ditadura que se segue não precisa apoiar quem apoiou o golpe. Pelo contrário: todos estão sob risco de ataque, inclusive os apoiadores da ditadura, por qualquer razão, mesmo a mínima dissidência. Essa é a restauração que o reacionário quer.

Claro que o povo, por mais tolo que seja, perceberá que fez besteira quando ver que o governo estava somente o usando. No entanto, se o povo só perceber que agiu contra seu melhor interesse depois que começa a sentir as graves consequências, a quem ele vai recorrer pra se recuperar, se não ao próprio governo que já o traiu antes? De ajudante do governo na guerra contra “o comunismo”, o povo se torna escravo do neoliberalismo.

Um golpista legisla e governa primeiramente pra si mesmo, momento no qual ele mostra quem realmente é. A constituição, portanto, que deveria ser feita por representantes do povo, é feita por gente que nada tem mais a ver com o povo depois que o golpe é dado.

É por isso que tem presidente que fala sério quando diz que quer fechar o congresso, já que o congresso representa o povo. O congresso é o reino do debate, onde as leis são debatidas e os rumos do país são definidos pelos representantes do povo. A existência de um congresso nacional assegura a existência de debate no país inteiro. Sem o congresso, o presidente está livre pra fazer o que deseja sem ter que prestar contas a qualquer pessoa. Possivelmente nem ao judiciário. Afinal, a força que poderia tirar o presidente de lá, o congresso, não existiria, e, sem ele, some também o debate sobre as decisões presidenciais e o poder de anulá-las.

Para terminar, o caráter de ilegalidade é atribuído aos opositores do regime tirando da população o direito de revolta. Assim, se rebelar contra um governo injusto passa a ser ilegal. Isso equivale a tornar legal a injustiça.

Assim, enquanto as forças do poder usam o povo apenas como fonte de recursos humanos, colocando agiotas no ministério da fazenda entre outras coisas, o potencial dos movimentos sociais é reduzido ou neutralizado, perpetuando o uso do povo apenas como meio de sustentar a máquina estatal opressora, embotando seu potencial revolucionário com a religião sancionada pelo governo. E esse é o golpe final: submeter a educação pública à religião. Qual religião? Aquela que o presidente apoia. Isso quase transforma os pastores em funcionários públicos, encarregados da manutenção do sistema. Deus é posto no bolso, porque o deus desses pastores é o dinheiro. Está no interesse deles vender terreno no céu pros fiéis que aprenderam bem a menosprezar as riquezas terrenas, ao contrário de seus líderes, servidores de Mamon.

Como os poderosos caem.

Um poder pode ser levado abaixo pelo levante popular, mas, pra isso, é preciso que a população esteja suficientemente louca. Um bom jeito de conseguir fazer isso é pela via econômica. Um projeto de poder que quebre o país e quebre também um indivíduo é um projeto de poder que ameaça a vida dos cidadãos, pois tanto os serviços públicos serão prejudicados quanto a capacidade de obter serviço pela via privada será também reduzida. Uma pessoa que não tem nada a perder perde também o medo de lutar.

Quando essa situação acontece, os cofres públicos precisam ser reabastecidos, custe o que custar, até porque são os cofres públicos que alimentam os militares. Entenda: um estado é forte na medida em que é alimentado com o dinheiro público, porque é com dinheiro público que tanto sua capacidade de legislar quanto de punir é mantida. O governo então precisa aumentar impostos ou achar jeitos de tirar o pouco que a população ainda tem, pra poder reabastecer as reservas estatais. Isso não servirá pra melhorar a situação do país, mas apenas pra evitar que ela piore.

No entanto, isso também faz com que a pessoa, o indivíduo, o cidadão desse país piore de condição. Isso cria uma situação em que o governo e o povo se tornam inimigos: o governo precisa tirar do povo pra manter a máquina estatal em funcionamento, sem retribuir esse povo satisfatoriamente. Que é isso, se não roubo? Tais ações privam o governo da autoridade. Se o poder legislativo e o executivo estão ambos sem autoridade, quer estejam ou não separados, o relógio da revolta é posto em movimento. Quem sabe? Talvez os “comunistas” tivessem razão afinal… Que tal lhes dar uma chance?

Observe que isso também quer dizer que o levante popular contra o sistema estabelecido é menos provável se os serviços públicos estão funcionando e se as pessoas mantém seus fundos pessoais, podem comprar mantimento, têm lazer, enfim, têm dinheiro. Se as pessoas estão felizes, elas não quererão arremeter contra o governo, seja ele uma democracia, ditadura, monarquia ou o que quer que seja. Porque, no final das contas, a função do governo é zelar pelo bem-estar da população. Se ele consegue fazer isso, quem irá reclamar dele? Por isso, revoluções ocorrem mais frequentemente em tempos de crise econômica. Quando a economia vai bem, todo o mundo se segura, pra evitar que movimentos sociais prejudiquem a economia. Quando a economia vai mal, a situação é invertida.

Recomendações.

Embora O 18 brumário de Luís Bonaparte seja um livro de séculos atrás, ele acaba sendo supreendentemente atual. Parece que a estratégia usada por Bonaparte (caso você não tenha ainda notado, o Bonaparte do livro não é o Napoleão) é similar a usada por Bolsonaro, ao fazer acordos com grandes nomes pra depois se ver “forçado” a governar para poucos. Esses poucos pra quem ele governa são seus seguidores no Twitter, que é o 4Chan da nova década, enquanto que Bonaparte governava pra Sociedade de 10 de Dezembro: um amálgama de vagabundos que representava o campesinato retrógrado.

Mas, para chegar ao poder com ideias foscas, você precisa apelar pra saudade que as pessoas sentem de como as coisas eram. Em vez de propor coisas novas, um candidato sem conteúdo fica fazendo referência ao passado. É o truque pra trazer os reacionários adormecidos à superfície. Ao trazer de volta o passado, se traz com ele problemas até já superados. Mas as pessoas ficam distraídas, querendo voltar, sem perceber como as coisas poderiam ser diferentes. Por que isso dá certo? Porque o passado histórico é verificável. Já uma nova ideia, não sabemos seu conteúdo real antes de testá-la.

A saudade do passado também desperta quando vivemos tempos caóticos. O caos que se formou no segundo mandato da Dilma chegou até a dar um fôlego ao Partido da Social-Democracia Brasileira, que acabou sendo pulverizado depois. O antipetismo fez muitos se perguntarem se o Brasil antes do Partido dos Trabalhadores poderia ter dado certo. E se a direita tivesse obtido mais um mandato, em vez do Lula? As coisas teriam sido melhores? Claro que esse sentimento foi amplificado pela mídia oportunista, que o canalizou na forma de um anseio pela volta, não do PSDB em particular, mas da direita neoliberal em geral. Uma solução para o caos?

É muito estranho que todos olhem os presidentes como líderes da nação. Eles são meros representantes de um projeto de poder sancionado pela maioria. Mas isso não quer dizer que é a maioria que manda na democracia. Os jornais da época a que o livro se refere apoiaram a briga contra o proletário e seu direito, certo? Também não nos esqueçamos que jornais brasileiros apoiaram o golpe militar de 1964 e, incentivando a criminalização da esquerda, pavimentaram o caminho pra ascenção do Jair, o qual, em seu primeiro ano de governo, perdeu uns vinte pontos percentuais de apoio. Uma boa fatia da mídia se arrepende do que fez. Mas uma mídia dessas, controlada por uma minoria, pode manipular o pensamento da maioria ingênua. Isso não é governo da maioria, mas o governo eleito por uma minoria que manipula a maoria a votar contra seus próprios interesses.

Rousseau diz que a democracia de fato só pode ocorrer se cada um vota naquele que melhorará sua vida em particular. Porque assim, quem será eleito será aquele que beneficiará a maior quantidade de indivíduos. Se você tenta “votar pelo Brasil”, em vez de por si mesmo, você tem que saber como anda o resto do Brasil. Aí que mora o perigo. Ao votar no que você acredita ser bom pra maioria, em vez de apenas bom pra você mesmo, você terá que recorrer a meios de comunicação de massa pra saber como está o resto da nação. Ora, mas a mídia é manipuladora, todo o mundo sabe, embora nem por isso olhemos pra ela com a devida criticidade. Então, se você tenta “votar pelo Brasil”, em vez de votar pra si mesmo, você terá que recorrer às notícias. Ora, se sua visão do Brasil corresponde à visão do noticiário, você não elegerá a pessoa de quem o Brasil precisa. Você acabará elegendo o candidato que representa o interesse das pessoas que fazem o noticiário.

Se uma minoria, seja a mídia corporativa ou qualquer outra minoria, leva a maioria a pensar como ela, o representante eleito representará a minoria, não a maioria. Por causa disso, não tem nada mais perigoso do que “votar pelo Brasil”. Sempre vote apenas por si mesmo. Vote apenas naquele que pode beneficiar você. Se todos fizerem isso, o representante eleito realmente será da maioria.

Fala-se muito que pode haver um golpe militar amanhã. Mas O 18 brumário de Luís Bonaparte e também a própria história tradicinal nos mostram que nenhum golpe é feito sem apoio do povo. É preciso tanto que as forças armadas estejam interessadas quanto também uma parcela significativa do povo. Na atual configuração geopolítica, um golpe militar só causaria problemas ao Brasil. A ONU não ia deixar passar barato, nações democráticas ficariam com ainda mais receio de investir aqui ou de fazer negócios com a gente. Nessas condições, creio que um golpe militar, se fosse irresponsavelmente lançado, ocasionaria uma ditadura mais curta que a última. Além do mais, se a maioria da população for contra o regime militar, a sua capacidade de organização e protesto é facilitada pela Internet, algo que não estava disponível ao povo durante os anos de chumbo. O ditador teria que censurar a Internet. Mas ele teria coragem?

O que faz o povo juntar forças pra derrocar um governo é a condição econômica. Se o estado prospera é porque a economia vai bem tanto pro governo quanto pro povo. Se a economia vai mal, um terá que tirar do outro. E, claro, será o governo a tirar do povo. Nessas condições, o governo e o povo tornam-se inimigos. Se o governo não honra seus compromissos com o povo (e a função do governo é, sobretudo, assegurar o bem-estar do povo), tampouco o povo precisa honrar seus compromissos com um governo que só tem munição pra uma hora de guerra. Se tivéssemos meios legais de ter e portar armas, a revolta seria a melhor forma de o povo derrubar o governo. Sem armas, a melhor forma que eu vejo é se recusar a sustentar o governo. Isso é feito através da greve geral. O ideal seria fazer as duas coisas, mas é difícil levar a sério uma “revolta pacífica”. Então, se quiser pressionar o governo, pare de trabalhar. Fique em casa e convença outros a fazer o mesmo. De quebra, pare também de comprar. A perda pra eles é maior.

6 de dezembro de 2019

Amor, medo e respeito.

Filed under: Livros, Notícias e política, Passatempos, Saúde e bem-estar — Tags:, , — Yurinho @ 15:13

O texto abaixo é uma honesta aula filosófica baseada nos 100 aforismos sobre o amor e a morte, escrito por Friedrich Nietzsche, com sugestões de como as ideias contidas em tal escrito podem ser usadas para desenvolver o país e ajudar as pessoas a se compreenderem.

Amor, cobiça e ciúme.

A bem da verdade, o amor pode ocasionar sofrimento. Os espíritos mais orgulhosos não admitem que o amor lhes faz sofrer. Por orgulho, então, uma pessoa que sofre por amor não revela esse sofrimento. É vergonhoso admitir que se sofre por amor. Tome por exemplo o amor não correspondido e a inveja por outra pessoa estar com aquele que você deseja pra si próprio. Algumas pessoas lidam com esse sofrimento desqualificando o amor entre aquelas pessoas: “ah, não é amor, é só cobiça, desejo carnal, eles não se amam de verdade.” Isso torna o sofrimento mais tolerável e talvez até te dê a sensação de que o relacionamento entre os dois terminará em breve. É só chamar aquele amor de “cobiça”.

Amor e cobiça são sentimentos muito próximos. Parece que a grande diferença entre um e outro é que um é “bom” e o outro é “mau”. O problema é que muitos podem julgar “bom” e “mau” com base nas suas próprias ambições: é amor quando eu tenho a pessoa que eu quero, mas cobiça quando outro tem a pessoa que eu queria ter. Assim, quando você quer se relacionar, vê todo o mundo se relacionando por aí, exceto você, você diz que ninguém ama de verdade, que tudo é cobiça. Mas você nem se importaria com essa “proliferação de cobiça” se você tivesse um parceiro. Aí, quando você tem, é amor e tudo tá perfeito.

Diferentes pessoas lidam com tal frustração amorosa de diferentes jeitos, porém. Tome o exemplo da mulher que não consegue se relacionar: para lidar com o sofrimento causado pela inveja, ela pode inventar pra si a ilusão de que é melhor que aquelas que têm um homem pra si. É uma recalcada. Essa palavra, “ter”, é adequada, porque muitas pessoas, na medida em que seu amor comporta também ciúme, querem o amado só pra si mesmas. Não querem partilhá-lo com mais ninguém. É como se o amado fosse sua posse mais valiosa. Isso mostra que, embora queiramos que o amor, em seu estado mais puro, seja altruísta, um monte de sentimentos que nós chamamos apressadamente de “amor” são manifestações de egoísmo: você quer o outro, às vezes até sem se importar com o que o outro pensa disso. Isso não é amor.

O ciúme leva uma pessoa a querer toda a atenção do amado pra si. Se o amado divide sua atenção entre o amante e outra atividade, o amante ciumento odiará essa atividade, a menos que tal atividade seja sua profissão, caso no qual o conforto do casal depende da atividade. Por exemplo: suponhamos que o amado gosta de jogar futebol. Se for um joguinho de futebol no final de semana com os amigos, a mulher ciumenta odiará que ele jogue futebol (e poucas coisas são mais tormentosas que o ódio feminino). Já se ele fosse um jogador profissional, ela não reclamaria.

Ao amar, é importante que a pessoa não se dê a outra, como uma posse. Você, ao amar uma pessoa incondicionalmente, isto é, sem estabelecer os termos da relação, o que pode e o que não pode, você se torna um escravo do outro. É preciso estabelecer limites com os quais você possa concordar. Se sua mulher, por exemplo, não discute esses termos com você ou te propõe termos que você vê que são injustos, não aceite (apesar de que a mulher é geralmente enérgica em sua vingança). Tem outras mulheres por aí. Uma coisa é amor, outra é exploração. Não permita que seu amor por alguém seja usado como coleira pela pessoa que você ama. Isso é especialmente grave numa situação em que a pessoa sabe que você a ama, mas não te ama de volta. É esse tipo de pessoa que explora você.

Mas existe um amor sem mescla de ciúme? Um amor “de verdade”? Sim, mas, infelizmente, raramente reconhecemos esse sentimento como amor. É a amizade. A amizade não comporta ciúme. Por causa disso, é o único amor verdadeiro entre os homens.

O casamento, sua durabilidade e seus problemas.

Amor eterno é sobrehumano, porque toda paixão acaba. Isso não quer dizer que você não possa voltar a amar alguém que deixou de amar e apenas se aplica ao amor por uma pessoa específica (pois é possível um amor duradouro pela humanidade inteira). Então, um casamento pautado somente na paixão rui quando a paixão esfria. O casamento que almeja a instituição de um amor eterno entre as partes pode degenerar em hipocrisia. Logo, não tenha em mente que o amor durará pra sempre e que o casamento, por causa disso, também durará pra sempre. Ele pode se extendido, porém.

Os casamentos que duram mais tempo são aqueles nos quais uma pessoa tira proveito próprio da outra. Se um for útil ao outro, o casamento se conserva. Mas se só um precisa do outro, o casamento rui. Os maiores amores não nascem apenas do desejo sexual, mas do reconhecimento de que você não pode ser feliz sozinho. Tem algo faltando na sua vida e você precisa dessa coisa pra se completar. Se você sente que uma pessoa que você ama pode te prover algo que te falta, você a amará mais do que se você não visse nela também um meio de completar o que te falta.

O casamento geralmente é feito entre pessoas que gostam ou afirmam gostar uma da outra. Ora, quando você passa a dividir sua casa com alguém de quem você gosta, você acaba gostando menos dessa pessoa. O casamento tem o grave problema de trazer pra mesma casa duas pessoas. E depois talvez uma terceira, o filho. Se manter muito próximo de uma pessoa desgasta a relação. Não apenas a pessoa se sente sufocada, como também você enjoa dela. O casamento, então, torna-se mais difícil de manter com o passar do tempo. Já se o casamento for pautado na utilidade mútua, ele sobrevive ao fim da paixão, porque as duas partes precisam um do outro pra outras coisas além do amor.

Decepção amorosa.

Quando amamos, é mais difícil ver as coisas como elas são. A ideia romantizada que fazemos dos relacionamentos é uma grande fonte de decepção. Nunca se deve entrar num relacionamento pensando que basta você pra fazer o outro feliz. A felicidade é um estado muito pessoal e assumir que você pode tornar alguém feliz é presunção. Você pode ajudá-lo a ser feliz, mas não pode torná-lo feliz. Se você entra num relacionamento achando que bastará sua companhia pra que o outro seja uma pessoa radiantemente alegre, você se decepcionará. “O amor tudo pode!” Eis uma frase problemática…

Outra fonte de decepção amorosa é a imagem que um dos lados deseja manter. Pra poupar o parceiro da dor de encarar aquilo que a pessoa tem de ruim, o amante esconde, ou tenta esconder, todas as suas falhas. Por exemplo: suponhamos que você esteja namorando alguém bem-sucedido, tanto quanto você, ambos têm um negócio e um quer ver o outro feliz, mas você também tem um desejo sexual muito intenso. Você quer ser o melhor pra pessoa que você ama, então você tenta se reprimir quando vocês não têm tempo pra se relacionar. Quando o homem ou a mulher se dedicam a outras atividades, especialmente construtivas, às vezes até pelo bem dos próprios filhos (é o caso do casal em que ambos os sujeitos trabalham pro sustento da família), há menos tempo pro sexo. O desejo insatisfeito pode levar qualquer das partes a adulterar. Então, se uma das partes de um casal, ou as duas partes do casal, se dedicam a coisas construtivas, uma parte deve entender se a outra adultera ou, sei lá, vê pornografia às escondidas.

Mas o fato é que você montou uma imagem de parceiro perfeito. Quando sua falha é descoberta em um momento de fraqueza, é muito provável que a pessoa fique decepcionada com você. Tristemente, muitas pessoas tentam se transformar na ideia que o amado faz delas. Mas se você tem que mudar por amor, você já não está dizendo que a pessoa não te amaria do jeito que você é, ou que você não acredita quando seu amado diz que não quer que você mude por ele?

Muitas vezes, porém, tal criação de expectativa no parceiro é involuntária. O amor verdadeiro traz pra fora comportamentos que nos são excepcionais e não normais. Então, quando o amor começa a esfriar, também essas caracaterísticas começam a desaparecer. Você está menos disposto a ajudar e a se sacrificar, por exemplo, a passar tempo com aquela pessoa. De repente, seu amado passa a se perguntar o que te fez mudar. O amor te fez mudar. É porque o amor desapareceu que você voltou ao seu normal, como era antes de amar.

Amor, medo e respeito.

Existe uma diferença ligeira entre ser amado e ser respeitado. Quando você quer ser respeitado, é importante que o outro não te destrate. A forma mais fácil de fazer isso é causando medo. Ora, onde há amor não há temor. Se esse é o caso, uma pessoa que quer ser respeitada a todo custo precisa se tornar intratável, pra não ser amado. Porque, se ele não for amado, poderá ser temido, o que aumenta o respeito que outros têm por ele. Isso não quer dizer que os amantes não se respeitam, mas que geralmente se respeitam menos do que o empregado respeita seu chefe.

Em adição, o temor nos explica mais sobre o gênero humano do que o amor. Isso porque o amor nos distrai daquilo que o gênero humano (e também a natureza) tem de ruim, enquanto que o temor reconhece o que há de bom e de ruim no outro. Afinal, é importante conhecer aqueles que podem nos fazer mal, tanto pra nos defendermos deles quanto para tirar vantagem deles. O amor, nas humanidades, produz a arte, mas é o medo que produz a ciência.

Amor e a religião cristã.

A religião cristã tem uma relação interessante com o amor. O judaísmo nos deu uma religião pautada na força, na conquista. Mas a religião cristã, ao enfatizar o amor, se torna esteticamente atraente. Quem sente falta de amor ou quem considera o amor algo importante sempre acaba vendo valor nos evangelhos. Se Deus é amor e eu me sinto feliz na prática do amor, eu quererei amar até mesmo meus inimigos. Ou, pelo menos, tentar… Se todos amassem uns aos outros indiscriminadamente, a vida na Terra já não seria um paraíso?

No entanto, é interessante que a religião também diga que somos dignos de ódio, nós, humanos. Se assim é, se não merecemos ser amados, como é que eu vou amar o próximo como a mim mesmo? Porque eu me odeio na medida em que eu digo que sou digno de ódio. Quem diz isso com convicção, já se odeia. Como então? Se o amor ao próximo é limitado pelo amor próprio (eu tenho que amar o outro como a mim mesmo, nem mais, nem menos) e eu me considero uma criatura odiável, eu vou acabar me sentindo justificado por odiar todo o mundo.

Assim, quem odeia a si mesmo acaba se tornando perigoso. Convencer a pessoa a se amar é, portanto, uma responsabilidade humanitária. Ninguém pode amar outra pessoa se estiver ocupado sentindo ódio constante de si. É pelo amor de si que a pessoa descobre quem ela realmente é (o famoso “torna-te quem tu és”) e pelo amor ao próximo que ela se aperfeiçoa.

A hora da morte.

A morte é igual pra todos. Se assim é, não faz sentido que agreguemos ao valor de uma pessoa o julgamento de suas ações logo antes de morrer. Não tem importância se a pessoa aceita sorridente a morte ou se chora ao saber que sua vida está chegando ao fim. O que importa são suas ações em vida, particularmente aquelas que foram feitas quando seu corpo estava em melhor estado. Afinal, a pessoa poucas vezes se esforça em recordar como um ente querido morreu, mas lembra até sem querer das coisas que ele fez e ensinou. São suas ações em vida que farão as pessoas sentirem saudade de você… ou alívio por você ter morrido. A verdadeira diferença que faz uma pessoa só é sentida quando a pessoa não está mais por perto. Isso só acontece por causa das ações da pessoa e do impacto delas. Ora, as ações de um moribundo têm menos impacto. Os chamados “últimos momentos” são geralmente os que menos importam. Especialmente se a pessoa tiver deixado pra trás uma produção intelectual que será imortalizada.

Apesar disso, o momento da morte é um momento de muita comoção. Todo o mundo quer dizer algo ao moribundo, quando teve a vida inteira dele pra dizer essas coisas. Todo o mundo pensa que o cara que se vai aos oitenta anos viveu pouco. Você precisa aproveitar a companhia das pessoas que estão vivas enquanto você pode. Se você fica procrastinando, pode ser que depois seja tarde demais. A morte (ou o desaparecimento, a viagem sem volta ou qualquer coisa que signifique que você não verá mais aquela pessoa) é um fato. Se você tenta esquecer a morte a todo custo, se distrair dela, você esquece que as pessoas chegam ao fim. Se você esquece isso, você passa a pensar que sempre há tempo pra conversar, sair, jogar com aquela pessoa. Pensando assim, é mais fácil procrastinar. Aí, quando seu amigo morre, você pensa: “não fizemos metade das coisas que queríamos fazer.”

Eutanásia.

O suicida quase sempre age racionalmente. Ele avalia se morrer vale a pena, e só valeria a pena se a vida lhe trouxesse mais sofrimento do que prazer. O suicida racional acredita que morrer lhe deixará no lucro, se a vida não lhe dá mais-valia. Se você deriva da vida muito mais sofrimento do que prazer, a vida vale a pena? Se esse sofrimento estiver lhe matando lentamente, você morrerá de qualquer jeito. Então, se a pessoa dispor de meios de morrer sem dor pra evitar o prolongamento do sofrimento, será que ele não tem direito a isso? Tal raciocínio levou países estrangeiros a sancionar leis que permitem a eutanásia, que é um suicídio assistido. Um médico ou equipe de médicos mata o paciente que escolhe morrer, utilizando sempre meios indolores e suaves. Isso não acontece no Brasil, porém. Aqui, isso é ilegal.

Numa situação em que você sabe que a morte é inevitável, como o caso de uma doença mortal e incurável, não seria interessante agendar a hora e o dia em que você vai morrer e, antes da ocasião, se preparar adequadamente, chamando seus familiares, dando instruções, se despedindo, jogando uma última partida de RPG de mesa só pra terminar a campanha, escrevendo mensagens em um blog ou enviando mensagens aos amigos que você só conhece online? Porque, atualmente, uma pessoa que sabe que vai morrer é mantida viva a todo custo e não tem controle sobre quando morrerá. Aí toda a família é surpreendida e os amigos, especialmente os mais distantes, só sabem que você desapareceu. Se tem uma coisa pior que saber que um ente querido morreu é não saber o que aconteceu. Então tal planejamento não pode ser uma coisa ruim.

A razão da interdição à eutanásia é moral. Nossa moral tem muito de religião também. Na verdade, a moral ocidental é uma tentativa de forçar todos a agirem de forma mais ou menos cristã. Parece injusto com o ateu que deseja se suicidar. Se bem que o ateísmo é incompreensível pra muitos em primeiro lugar.

Recomendações.

O ciúme é um dos sentimentos mais baixos que o ser humano pode sentir. Parece até que nós não fomos feitos pra tolerá-lo. O ciúme arruína qualquer relação. Uma relação humana que estimula o ciúme, portanto, deveria ser evitada. Há várias pessoas no mundo, há muitas pessoas que você poderia amar. Por questões sanitárias (ou religiosas, caso você seja adepto de uma religião que não permite ter vários parceiros sexuais), porém, é melhor se relacionar sexualmente com apenas uma pessoa. Mas isso é diferente de amor. Há uma diferença entre amor e sexualidade, seja esse sexo por prazer ou por reprodução. Se o que você quer é amor, derive esse amor de todas as pessoas que estejam dispostas a dá-lo, especialmente na forma de amizade. Somente o sexo deve ser feito responsavelmente. Pondo as coisas dessa forma, uma relação sexual monogâmica deve ser sexual e nada mais. Sua violação não deveria ser vista como uma violação moral ou um ultraje, mas apenas como uma violação, no máximo, higiênica e sinal de que o parceiro é inseguro. Nesse caso, procure outro. Se tal relação tiver uma carga moral ou sentimental acima do que é merecido, haverá ciúme, medo e outros sentimentos que tornarão o relacionamento insuportável. Separar amor e sexo, o expurgo da sensação de posse do corpo do outro, a aceitação da procura e cessão de amor de todos e para todos, o aperfeiçoamento mútuo como objetivo comum entre os amantes, esses são os primeiros passos pra erradicação completa do ciúme na raça humana. A monogamia sexual deve ser vista exclusivamente como uma questão de saúde (uma preocupação reduzida pelos métodos preventidos já disponíveis) e nada mais, enquanto que a pluraridade afetiva, o amor de todos para todos, deveria ser encorajada.

Segue-se portanto que o casamento não tem razão de existir hoje. Em tempos de liberdade sexual, o casamento como compromisso eterno perde sua relevância. Tal relevância é ferida de morte com a facilidade com que divórcios são feitos. Pra que se casar? Ninguém pode te obrigar a se casar. Alguém pode se perguntar se uma monogamia exclusivamente sexual, como questão sanitária ou religiosa, justificaria a existência do casamento. Não justifica. O casamento tem várias cláusulas legais que não são necessárias a esse tipo de relação, cláusulas que não seriam cabíveis nem mesmo pra sexo casual com múltiplos parceiros, a menos que se esteja tentando decidir questões de custódia do filho. A certidão de casamento não tem razão de existir, mas a certidão de nascimento nunca perderá sua relevância. Alguém tem que cuidar do filho. E isso não justifica a existência do casamento mesmo como entidade legal? Também não, tanto porque o mundo é cheio de métodos contraceptivos como porque é possível ser pai sem estar casado com alguém. Não há necessidade de oficializar as coisas perante a corte, exceto naquilo que for necessário à regulação da custódia.

O problema da decepção amorosa pode ser facilmente resolvido adotando a visão de que podemos amar qualquer um e receber amor de qualquer um quanto também reduzindo nossas expectativas em relação à pessoa amada. É preciso parar de pensar que um casamento, ou mesmo um namoro, é uma experiência linda, maravilhosa, romântica, porque muitas vezes não é. É preciso olhar as coisas pragmaticamente. Se você entra em um relacionamento com grandes expectativas, você tem mais chances de ser frustrado. Se você entra com baixas expectativas, você tem mais chances de ter uma boa surpresa. Se seu parceiro te decepciona, procure outro. Há várias pessoas no mundo pra você amar.

Por último, aproveite ao máximo sua vida sem se preocupar tanto com a hora da morte. Se preocupar em excesso com isso te impedirá de aproveitar a vida e fazer algo construtivo com ela. Certifique-se de viver de um jeito que sua marca fique nas pessoas que você conheceu e que seu legado fique, porque as pessoas lembrarão de você por suas ações em vida.

3 de novembro de 2019

A Bíblia Sagrada e o neoliberalismo.

A Bíblia Sagrada dá vários exemplos de como cristãos deveriam ser caridosos com o próximo, de como a riqueza é algo se deve desprezar como secundário e de como a conduta correta é a repartição, preferencialmente igualitária, da riqueza e dos bens. Apesar disso, os evangélicos elegeram Jair Bolsonaro como presidente da república. Ora, Jair tem um programa de governo neoliberal. Isso só pode ter acontecido porque os evangélicos mantém noções erradas da palavra de Deus e também porque aqueles que querem um sistema justo de distribuição de riqueza ignoram o valor da Bíblia Sagrada e da religião em geral como dispositivos para o avanço dessas pautas.

O voto cristão e Bolsonaro.

Bolsonaro foi eleito com apoio dos evangélicos. Isso não é surpreendente? Como podem pessoas que afirmam se guiar pela escritura sagrada votar em tal sujeito? Que foi feito da ideia de que temos que ler e interpretar a Bíblia Sagrada nós mesmos? Quem são esses fiéis? Não parece haver resposta certa para estas perguntas. Mas teorias existem. E a minha é de que as forças do progresso e da ordem desprezam o potencial da Bíblia Sagrada. É pela torção das sagradas letras que pastores ficam milionários. Por que não usar seu texto em sentido claro para tornar mais fácil a vida dos pobres?

Bolsonaro tem um projeto de poder neoliberal, alavancado pelo seu ministro da economia, Paulo Guedes. Nada é mais anticristão do que o neoliberalismo econômico. Se a oposição tivesse insistido neste ponto, talvez o resultado eleitoral fosse diferente. E quanto à legalização da posse e do porte de armas? Jesus aprovaria isso? Alguém pode argumentar que Bolsonaro é conservador nos costumes, como a Bíblia Sagrada também é. Mas as traduções mais tradicionais da Bíblia Sagrada trazem os onze primeiros versos do capítulo oito do Santo Evangelho Segundo São João, onde é dito que não cabe a um pecador julgar outro pecador. Só pode atirar a pedra quem está sem pecado. Então, não cabe a mim julgar o comportamento do outro, porque também eu cometo erros. Logo, eu não posso condenar um homossexual, por exemplo, tanto quanto não posso condenar um adúltero ou mentiroso. Não cabe a mim condenar. O Novo Testamento não sanciona isso. Então não se deveria votar em alguém que diz que bateria em dois homens vistos se beijando na rua.

Não estou dizendo que deve haver uma fusão entre igreja e governo, porque acredito que o governo só deve proibir aquilo que faz mal ao povo e que a república democrática é o melhor modelo político disponível no momento. Não cabe ao governo cuidar da alma do povo. O que estou dizendo é que a Bíblia Sagrada pode e deve ser usada como dispositivo para justificar a justa repartição de riqueza. E este é o objetivo deste texto, a saber, mostrar como fazer isso. No entanto, para evitar produzir um texto muito longo, me focarei unicamente na pauta econômica, mais especificamente na defesa de um sistema de distribuição de riqueza, no qual a coleta de impostos é convertida em serviços públicos de interesse geral, como educação, saúde, segurança, moradia, sustento, entre outros, de forma que a pobreza não seja impedimento à vida ou à aquirição de emprego. Para garantir isso, deve haver interferência estatal na economia e uma gorda receita tributária (preferencialmente escalonada para que os ricos paguem mais que os pobres).

Só a fé salva?

Em se tratando de evangélicos, temos que lembrar que eles, como protestantes, têm suas doutrinas fundamentais ancoradas ou baseadas no trabalho da juventude de Lutero. Nesse trabalho, podemos destacar duas doutrinas frequentes. A primeira diz que a fé, sem as obras, basta para salvar, e que a prescrição de mandamentos pela sagrada escritura tem como única finalidade nos mostrar que nossas próprias forças não bastam para nos salvar. A fé seria então a única virtude verdadeiramente cristã e o cristão deveria se ocupar somente dela, sem se importar com nada mais (seja porque ele não tem, como ser humano, forças para fazer o que Deus manda, seja porque nenhuma boa obra pode conduzir à salvação do crente). Isso se liga à segunda doutrina, segundo a qual estamos salvos “de graça”. Como pode? Porque o ser humano, incapaz de fazer o bem por conta própria, só pode fazer o bem pela ação divina em sua pessoa. Logo, nenhuma boa ação que ele venha a fazer é mérito dele, mas de Deus, que age nele. Se é assim, não merecemos a salvação e nada do que façamos nos fará merecê-la. Só podemos ser salvos pela graça divina, a qual, como veremos no parágrafo seguinte, parece excluir as obras. Vemos então que a doutrina segundo a qual somente a fé é a virtude própria do cristão (a única) e a doutrina segundo a qual a graça de Deus nos salva (porquanto nenhuma boa ação é mérito nosso) se complementam.

Alguém pode se perguntar se tais doutrinas encontram amparo bíblico. Aparentemente, todo o amparo bíblico para essas doutrinas vêm das epístolas paulinas, particularmente a Epístola de São Paulo aos Romanos. No primeiro capítulo, Paulo diz que todos os males morais que acometem os destinatários da carta vêm da idolatria. Por exemplo: a carta diz, categoricamente, que a imundície é consequência da idolatria. Isso implica dizer que acreditar (veja aqui o papel que tem a fé) em coisas erradas leva a uma degeneração comportamental, porque Deus abandona o idólatra à concupiscência. Por outro lado, a mesma carta também diz que acreditar em Cristo como o único salvador e acreditar que ele ressuscitou dos mortos proporciona a salvação. Em vários pontos da carta aos romanos, a capacidade de justificação pelas obras, particularmente as obras da lei de Moisés, é esvaziada, porque Paulo apresenta a graça e as obras como tendo valor soteriológico mutualmente excludente. Isso apesar de Jesus condicionar a salvação à observância dos dez mandamentos, que fazem parte da lei de Moisés. Na Epístola de São Paulo aos Efésios, é dito que, por causa da fé, a graça de Deus nos salva.

Se você também se pergunta como podem cristãos modernos cometer grandes atrocidades, aí está sua resposta. Se espera que pelo cultivo da fé, Deus aja na pessoa do crente e mude seu comportamento. Enquanto isso não acontece, a única coisa com que devo me preocupar é minha fé. É preciso ser crente, não necessariamente bom, porque, se eu for crente, se espera que serei bom por consequência, já que a divindade agirá em mim e me impulsionará a ser bom. Este é o raciocínio implícito.

Surge uma dúvida: como é possível tal interpretação em face das palavras de Tiago, para quem “a fé sem as obras está morta”? A história responde: Lutero não considerava a Epístola Católica de São Tiago como canônica. Assim, a carta de Tiago, que põe pesada ênfase nas obras, na prática do bem, no trato igual entre os homens e na repartição de bens com os necessitados (como viúvas e órfãos), não foi considerada por Lutero como sendo inspirada por Deus. Isso acontece porque Lutero não queria incluir na sua versão da Bíblia Sagrada nenhum texto deuterocanônico. Saem, portanto, a Epístola de São Paulo aos Hebreus, a Segunda Epístola Católica do Apóstolo São Pedro, a Segunda Epístola Católica do Apóstolo São João, a Terceira Epístola Católica do Apóstolo São João, a Epístola Católica de São Judas, e o Apocalipse de São João, além da já mencionada carta de Tiago.

Se a fé basta para salvar, como podemos convencer tais pessoas de que seu proceder é errado? Se o ser humano é incapaz de praticar o bem com suas próprias forças, de que adianta dizer para alguém mudar de comportamento? E a dúvida que deve ter surgido na mente do leitor cristão: como harmonizar a exortação de Tiago e as palavras de Paulo? Chegaremos em breve a esse ponto.

Para quê ir à igreja?

Mas se a fé basta para salvar, qual é o sentido de ir à igreja? Bastaria crer para ser salvo. O Santo Evangelho Segundo São João, tão citado pela direita (o famoso “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, mas observe o contexto deste verso), também diz que haverá tempos em que templos se tornarão obsoletos. Deus é espírito, e convém que ele seja adorado em espírito e em verdade. Qual, portanto, é o sentido de ir à igreja? Não há necessidade de ir à igreja. Ir à igreja faz sentido para um católico, o qual sente que precisa dos rituais, dos sermões, das vigílias, dos jejuns. Mas o protestante e, consequentemente, o evangélico tem como sua única virtude redimidora a fé.

Suponhamos que Lutero esteja correto e suponhamos que a fé habilita o intuito divino a se manifestar em você, melhorando seu comportamento ou, talvez, sua vida em geral. Lembre que no primeiro capítulo da carta aos romanos, Paulo atribui todos os males da população romana à idolatria. Ora, idolatria é adorar algo que não é Deus. Nutrir uma crença falsa. Pense: sua vida melhorou por você ir à igreja? Se sua vida continua a mesma coisa ou piorou, então, segundo essa interpretação da carta aos romanos, você está acreditando em algo errado. Se você nutre crenças erradas, nenhuma quantidade de fé mudará sua vida. Mas como determinar se eu nutro crenças erradas?

Jesus diz que pelos frutos se conhece a árvore e que não pode uma árvore boa dar maus frutos. Veja a atitude dos seus líderes religiosos ou da organização religiosa com que você está envolvido. Por acaso é uma instituição que só se preocupa com dinheiro, que exige dízimo de certa quantia? Ninguém deveria ser forçado a dar o dízimo, muito menos em certa quantidade. Uma igreja que faz do dízimo seu evento central, que vende bens em seus cultos, tem, logo, o lucro como objetivo. Ora, o amor pelo dinheiro é a raiz de todo o mal. Um pastor que só se importa com o dinheiro tem em si a raiz do mal. Uma árvore com tal raiz só pode ser má e uma árvore má só pode dar maus frutos. Saia dessa igreja. Sua vida nunca melhorará por causa de sua permanência nela.

O compromisso cristão com os pobres.

Felizmente, vários evangélicos não agem de acordo com a doutrina protestante tradicional e acreditam que as obras têm seu valor, tanto quanto a fé. Isso é ótimo. Porém, os evangélicos, ao menos em sua maioria, estão preocupados com condutas meramente pessoais em seu caminho para a salvação. Não estão interessados em condutas que afetam positivamente o próximo. Por exemplo: o evangélico pode não ter dificuldade em guardar a pureza sexual, mas ter muita dificuldade em dar uma esmola. No entanto, como vemos na carta de Tiago, a fé sem as obras está morta. As obras que Tiago menciona são, por exemplo, visitar os órfãos e as viúvas em suas adversidades. Isso é tão importante quanto guardar-se imaculado do mundo. Não basta fazer bem a si mesmo. É preciso fazer bem aos outros. Essa é uma fé que dá frutos. Essa é a verdadeira religião.

Se uma árvore, para ser considerada boa, precisa dar bons frutos, então a fé, se é genuína, precisa das obras. Uma pessoa é julgada boa por suas ações. Uma fé verdadeira vem acompanhada das obras. Uma igreja “correta”, se é que há alguma, precisa colocar ênfase nas obras, tanto quanto coloca na fé; ênfase na edificação e no amparo do próximo, tanto quando no cuidado consigo próprio. As obras que o cristão deve fazer são aquelas ordenadas por Jesus, o qual exalta os pobres a todo momento e olha também para os ricos que aos pobres ajudam. Se você crê que a fé correta muda o comportamento, considere se essa é a fé correta: não basta crer, é preciso também ser bom e não apenas bom para si, mas também para os outros. Ora, um sistema de repartição de riqueza que garante que os ricos terão compromisso com os mais pobres e que os pobres, apesar de sua pobreza, não passarão necessidade de vestimenta, comida ou abrigo, tal sistema é defendido pela esquerda. A abdicação do excedente de vestimenta e a repartição da comida eram, inclusive, condições impostas por João Batista para o batizado. Alguém pode argumentar que o governo, se por um lado não pode proibir a homossexualidade, por outro não pode exigir que haja um sistema de repartição de riqueza “cristão”. No entanto, um sistema de repartição de riqueza bom também é uma reflexão civil. Além disso, embora Jesus não tenha nos obrigado a atacar pecadores (pelo contrário), ele nos ordenou a não acumular usura quando podemos usar nossos recursos para ajudar outros que precisam do excedente mais que nós. Logo, se o cristão não deveria votar em homofóbico, ele poderia, se o programa econômico fosse convincente, votar num socialista.

Ciente disto, sujeitos que se levantam contra o neoliberalismo deveriam se apropriar da Bíblia Sagrada tanto quanto os neoliberais dela se apropriam. Primeiramente para criar uma cultura de caridade entre as pessoas, em seguida para mostrar que é a caridade que motiva a economia igualitária. Queremos dar uma oportunidade a todos de ter educação, saúde, segurança e trabalho, não apenas aos ricos, mas também aos pobres, que se voltam para os serviços públicos para obter tais recursos. Não é como faz o neoliberalismo econômico, para quem cada um merece apenas aquilo pelo que pode pagar.

Versos seletos.

A lei de Moisés também estava preocupada com o estímulo à caridade. Um exemplo icônico é a ordem para não recolher a comida que cai durante o transporte após a colheita (Levítico 19:10). Após fazer a vindima, se algum fruto caísse, o dono da vinha deveria deixar o que caiu para trás, porque um outro, mais necessitado, poderia aparecer. Assim, a comida que caísse após a colheita ficava automaticamente para quem a encontrasse primeiro. Afinal, o dono da vinha já teria o bastante para si mesmo. Orientação similar pode ser encontrada em outro verso, no qual é dito que, durante a colheita, o dono da vinha não deveria colher tudo, mas sempre deixar um pouco por colher, para que outros, ao passarem necessidade, pudessem entrar na vinha e colher para si, direito garantido também aos estrangeiros (Levítico 23:22).

O compromisso com o próximo também está em outros livros da lei. Por exemplo, a lei também diz que eu não devo endurecer meu coração ou fechar minha mão para o pobre (Deuteronômio 15:7-11). Pelo contrário: eu devo lhe emprestar o que lhe bastar para que supra sua necessidade. Este texto é interessante por usar o termo “emprestar” em vez de “dar”. Porque se houver pleno emprego, uma pessoa, ao se levantar de sua necessidade, poderá coletar recursos para si mesma e também para retribuir a beneficência prestada. Eu só posso devolver o que me foi emprestado se eu tiver como. Podemos então entender este verso como uma dupla exortação à caridade e também ao trabalho. No assunto do emprego, é fácil fazer um paralelo entre o que diz a lei e a rejeição, por exemplo, à aprovada reforma trabalhista. Porque a escritura diz que o chefe não deve oprimir quem trabalha para ele (Deuteronômio 24:14). Muitas pessoas vão à igreja aos domingos, por exemplo. Não seria uma opressão a essas pessoas se elas tivessem que trabalhar também no domingo, como quer a medida provisória da liberdade econômica?

Essas, porém, são recomendações aos súditos. E quanto aos governantes? Sabemos que um governo que desfavorece os pobres é reprovável a Deus (Isaías 3:14-15). É difícil ler algo assim e não pensar na reforma da previdência. Por pouco ela não foi fatal. O texto aprovado pelo congresso ainda é bem ruim, mas teria sido pior com o regime de capitalização, entre outras coisas removidas em um processo de “desidratação“. Uma reforma que tira de quem não pode se defender é uma pilhagem.

Diga-se de passagem, a opressão aos necessitados foi uma das razões por trás do incidente em Sodoma! É muito interessante que quase todo o mundo, ao lembrar de Sodoma e Gomorra, só recordem dos residentes que tentaram estuprar os anjos recebidos por Ló, quando a própria escritura diz que o pecado de Sodoma foi, ao mesmo tempo, a abundância de riqueza e a opressão aos pobres (Ezequiel 16:49). Ora, pobres só podem existir em uma cidade abastada se a riqueza não estiver sendo justamente distribuída. Considere o Brasil: uma enorme arrecadação tributária, que poderia ser convertida em serviços que todos, pobres e ricos, poderiam usar, mas, especialmente agora, se tira dos pobres para dar aos ricos. Sodoma é aqui. Lembremos que o pecado traz consequências, mas cada um sofre pelos pecados que comete (Ezequiel 18:10-19). Muitos dos que votaram em Bolsonaro, especialmente os chamados “pobres de direita”, já se arrependeram. Se atentarmos para os mais necessitados que nós e deixarmos o emprego da violência, seremos menos dignos de punição. Quem já se arrependeu do voto que deu, bem fez. Faça melhor nos anos seguintes.

Novamente, ainda nos profetas, a escritura diz que o nosso próximo é digno não do nosso desprezo, mas da nossa piedade, misericórdia e juízo justo. Não devemos piorar a vida dos pobres, mas nos comiserarmos (Zacarias 7:9-10). Poderia ser você a passar necessidade. Em um sistema de justa repartição de riqueza, você não perderia acesso ao necessário por ter empobrecido. Quem é misericordioso é também digno de misericórdia. Ao permitir que o pobre tenha educação, saúde, segurança e emprego, também você terá permissão a essas coisas caso você venha a ser pobre depois.

Ao ser perguntado sobre o que fazer para obter a vida eterna, Jesus respondeu com os últimos seis mandamentos e o mandamento de amar ao próximo como a si mesmo. Porém, Jesus também diz que, se quisermos ser “perfeitos”, devemos também vender o que temos e dar o dinheiro aos pobres. A razão para isso é que tudo aquilo que sacrificamos nesta vida nos será dado de volta, talvez em dobro (Mateus 19:17-29). Este verso é interessante porque implica que a vida futura não será igual para todos. Mesmo que a observação do decálogo proporcione a salvação, a vida futura será melhor dependendo do quanto você ajudou o próximo nesta vida. E Jesus fala especificamente de dinheiro. É ajuda material. Novamente vemos aqui que Deus se opõe à opressão aos pobres. Em adição, vemos aqui que a observância do decálogo permite a salvação. Isso porque o decálogo, que ulteriormente se resume no amor devido a Deus e no amor devido ao próximo, é aquilo que fundamenta toda a lei (Mateus 22:37-40). Se admitimos que as obras são necessárias à fé, as obras de que precisamos são aquelas que edificam o próximo, inclusive materialmente.

O amor ao próximo é também importante por outra razão. A escritura diz que o amor devido a Deus e o amor devido ao próximo é mais importante que os holocaustos e sacrifícios (Marcos 12:29-33). Na lei de Moisés, os sacrifícios servem para expiar pecados. Se o amor é mais importante que o sacrifício, pode o amor perdoar pecados? Logo após ensinar a oração-modelo, que diz “perdoa-nos nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos que nos devem”, Jesus diz que o perdão ao próximo nos habilita ao perdão divino. Então, sim, o amor, e o perdão é uma manifestação de amor, proporciona perdão pelos pecados cometidos. Então, quem muito ama tem muitos pecados perdoados. Ame seu próximo, portanto.

E quem é meu próximo? A escritura diz que o amor ao próximo salva, mas, caso alguém queira se justificar, talvez seja necessário saber quem é esse próximo. O próximo é quem mais precisa de nós (Lucas 10:27-37). Novamente, misericórdia, compadecimento, mas também ajuda material. Eis outro gancho para a discussão sobre a distribuição de riqueza contra o neoliberalismo.

Se a Bíblia Sagrada tem se mostrado vermelha agora, os Atos dos Santos Apóstolos, Escritos pelo Evangelista São Lucas vão ainda mais adiante. Há vários princípios de repartição de riqueza na esquerda. Entre eles está “de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo sua necessidade“, assegurando que, ao menos potencialmente, tudo fosse de todos (ou tudo fosse “comum”, daí o termo “comunismo“). Ora, a segunda parte desse lema, “a cada um segundo sua necessidade”, ocorre duas vezes neste livro, uma vez em Atos 2:44-45 e outra em Atos 4:30-34. Na igreja de Jerusalém, pouco tempo depois da partida de Jesus, os devotos vendiam suas posses, davam o dinheiro aos apóstolos, os quais, por sua vez, adquiriam aquilo de que os devotos precisavam e distribuíam os bens segundo a necessidade de cada um. Se alguém precisasse de determinado bem mais que outro, o bem seria cedido ao que dele mais precisasse. Se os apóstolos não fossem uma classe diferente de indivíduo (de forma que havia classes sociais, apesar de os apóstolos se recusarem a ser tratados com reverência) e se Deus não governasse a igreja (de forma que havia, portanto, governo, logo estado), a igreja de Jerusalém seria uma sociedade comunista. É um absurdo que os comunistas da atualidade não estudem este assunto. Esse também é o livro que conta como Tabita, mulher cheia de boas obras e que dava esmolas, foi ressuscitada (Atos 9:36-42) e como um centurião que também dava esmolas foi digno de ser visitado por um anjo (Atos 10:1-4). Novamente, fazer bem aos que precisam. Se alguém precisa de ajuda material, outra ajuda não serve. Fazer bem ao próximo também é uma boa obra e o cristão não deve limitar suas boas obras somente a si mesmo. Essas pessoas davam seu excedente a quem mais precisava e receberam o favor de Deus.

Somos exortados a não tratar as pessoas com diferença (Tiago 2:1-8). Por que um a pessoa que se diz cristã votaria em um projeto de governo que trata diferentemente pessoas de um mesmo segmento, como militares de diferentes patentes? E mesmo que o governo tivesse que taxar o povo de forma diferente, por que taxar mais os que têm menos? O ideal seria tratar todos de maneira igual (homens e mulheres, por exemplo, deveriam se apostentar com a mesma idade e tempo de contribuição), mas, como isso muitas vezes é impossível, não faz sentido tirar de quem pode não sobreviver sem esse dinheiro. É o caso dos pobres.

Orientações.

Este texto, repito, não deve ser visto como uma defesa da união entre igreja e governo. Isso porque um governo cristão deverá elevar o evangelho ao grau de política pública. Um governo que tenta tal coisa, se torna vulnerável e será tomado por outras nações. Ele também se tornará pobre e sua população diminuirá aceleradamente. Esses problemas são expostos por Rousseau em seu Contrato Social, no qual ele diz, sucintamente, que o evangelho, ao pregar a castidade, o desapego aos bens materiais (lembre que é mais fácil um camelo passar pelo olho de uma agulha do que um rico pelas portas do paraíso) e o pacifismo, diminui a população e empobrece o estado, o qual também se vê obrigado a abrir mão de suas forças armadas. Também por esta razão, sempre se deve suspeitar de qualquer governante que se diga cristão: cedo ou tarde, ele terá de escolher entre seu povo e Cristo. A menos que a pessoa pense que exercer função de governante, legislador ou juiz provavelmente (especialmente em tempos de paz) não o colocará em confronto com suas crenças, aconselho que nenhum cristão se candidate a cargo político ou jurídico.

No entanto, a escritura também diz que quem pode fazer o bem e não faz, peca por omissão. Então, de um ponto de vista estritamente pragmático, seguindo o princípio de que devemos fazer bem, inclusive materialmente, ao próximo, devemos votar no projeto de governo que proporcionará o maior bem-estar para o maior número de cidadãos. E este é o uso que eu gostaria que fosse feito deste texto: fazer as pessoas verem que, ao menos no que diz respeito à economia, a Bíblia Sagrada não pode ser usada como fundação de apoio à direita política neoliberal.

As forças de esquerda não estão sabendo como utilizar esse dado. A direita usa a escritura para descreditar as pautas sociais de esquerda, mas não se vê a esquerda usar o mesmo texto para descreditar a direita socialmente e também, principalmente, economicamente. Isso é um problema num país onde o cristianismo é hegemônico e onde o protestantismo ganha cada vez mais espaço. O socialista ou comunista que vê a religião como inimiga já está derrotado no Brasil. O que se deve fazer é usá-la inteligentemente para trazer os cristãos de volta ao amor ao próximo. A direita usou um verso bíblico como seu bordão. A esquerda também poderia adotar um (se não os candidatos, ao menos os eleitores). Tal verso poderia ser Tiago 4:17.

8 de setembro de 2019

The size of the task.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , — Yurinho @ 15:29

As I said, I am abandoning the annotation format and converting annotations already published into proper texts. The size of the task is this: 122 entries to be modified and 122 to be deleted. While I complete this task, I do not intend to post anything new. At most, you will notice the number of published entries decreasing and the content of some being gradually (or even suddenly) modified. So if it looks like I’m too quiet, I’m actually just doing this maintenance. If you want to talk to me, there’s a contact form on the sidebar. Or you can comment on this entry and I will reply when I see it. I apologize to the six or seven frequent readers of this site! I will be as quick as possible.

7 de setembro de 2019

Cansaço (e Skyler7).

Filed under: Computadores e Internet, Livros, Passatempos — Tags:, — Yurinho @ 11:10

Sabe, ontem, eu estava pensando na cama sobre este sítio na Internet e sobre o uso que venho fazendo dele. Eu não gosto mais de falar da minha vida pessoal por aqui, e não tem nada que eu possa dizer sobre o cenário político que outros já não tenham dito. Só o que eu posso fazer com alguma satisfação é a publicação de anotações sobre o que leio. Isso até ontem: estou perdendo a vontade de publicar anotações. A razão pra isso é muito simples: elas são bem feias e não dá gosto de lê-las.

Foi uma péssima ideia de design eu escolher o formato de anotações pra comentar livros, páginas online e artigos científicos. Eu deveria ter escolhido o formato de resenha. Profundamente me arrependo de não ter feito isso. Cinco anos após ter começado, fazendo anotações sobre a Metafísica de Aristóteles, eu começo a ver que foi uma decisão pobre. Quando eu terminar minha leitura e anotações de Male Intergenerational Intimacy, eu vou ver o que eu posso fazer a respeito disso. Eu pensei em transformar as anotações publicadas em resenhas, bastando que eu as reescrevesse. Eu poderia inclusive dedicar meu tempo a isso, a reformar todas as anotações que eu tenho para o formato de resenha. Criar textos de verdade, sabe? Não informações soltas. Até porque resenhas atraem acessos: resenhas são ótimos meios de conhecer uma obra e avaliar se você quer ou não lê-la.

Então, quando eu acabar de ler Male Intergenerational Intimacy, eu começarei a transformar anotações em resenhas. Mas aí eu esbarro noutro problema, que é a linguagem. Depois de fazer cada resenha, eu teria que traduzi-las pro inglês? Logo eu estarei trabalhando e não terei tempo de fazer isso. Então, embora eu não goste muito de fazer isso, eu preciso escolher um idioma para cada resenha, em vez de publicar a resenha em dois idiomas. Eu pensei no seguinte: a resenha será escrita no idioma da obra que eu li. Assim, se eu li um livro em português, também a resenha será em português. Se o livro foi escrito em inglês, também a resenha será em inglês.

Isso casa bem com o fato de que este sítio completou dez anos três meses atrás. Eu preciso repensar o que eu tô fazendo por aqui. Eu tenho preguiça de escrever coisas longas e traduzi-las. Também medo, dependendo do que eu estou escrevendo. Mas preguiça é predominante, porque o medo tem deixado gradualmente de existir. Eu tenho ficado mais confiante. Eu só queria anunciar isto. Por outro lado, textos pessoais, como este, ainda serão disponibilizados em dois idiomas (até eu resolver repensar isso também).

Por último, Skyler, se você estiver lendo, dá uma olhada nisto.

What I learned from reading “Dialogues between Hylas and Philonous.”

Filed under: Livros — Tags:, , — Yurinho @ 10:07

“Dialogues between Hylas and Philonous” was written by Berkeley. Below, what I learned from reading this book.

  1. Contact with nature invigorates the mind.
  2. Total skepticism (according to which the only truth is that there is no truth in anything else) is harmful because it puts everything into a relativistic framework.
  3. One cause of skepticism is the fact that authoritative people, such as philosophers and scientists, sometimes claim that there is no secure knowledge, profess extravagant things as truth or contradict each other .
  4. Sometimes, the layman‘s knowledge is safer.
  5. Approaching an object naively can be more effective than approaching it with science sometimes.
  6. When you are convinced that you are wrong, change your ways.
  7. Skeptic is a person who doubts everything.
  8. Those who deny are not skeptical; the skeptic doubts, that is, neither affirms nor denies.
  9. If during an argument, the opponent speaks something stupid but it’s also something small, it is not worth arguing about it.
  10. Denying the existence of matter does not negate mathematics.
  11. The “true skeptic” does not even affirm the existence of a sensible reality.
  12. What is a “sensible thing”: what can I learn only by the senses or what can I learn with the help of sensory aids?
  13. For example: reading a book, I see letters and I see the word “cat”.
  14. But it’s the mind who says that word is “cat”, because the mind has learned to interpret the signs that way.
  15. The eyes can only say that the letters C, A and T are written there.
  16. So what’s sensible: the word “cat” or the letters that make up the name?
  17. It’s aggravated when the word refers to something that is intelligible but not sensible, such as love.
  18. Causes and causality are rational, non-sensible inferences.
  19. The language is arbitrary : we have no reason to call the cat a cat, we just needed a word to designate it and we came up wiht that.
  20. Does heat have a real existence or is it a sensation born in us?
  21. The big problem here is where the sensations come from: if they are reactive, they are subjective; otherwise, they are objective.
  22. There is no intense sensation that does not cause pain or pleasure.
  23. How to define pleasure or pain without explaining what is sensation?
  24. Pleasure and pain exist in the mind, whom arranges sensations in intensity scale.
  25. Using subjective criteria to grade heat and cold leads to nonsense.
  26. Pleasure and pain exist only in the mind and the proof is that something that is pleasurable for some is painful for others (the so-called “personal taste”).
  27. Language in the full sense of the word is popular language: if I am speaking and you are understanding me, then it’s perfect and nothing needs to change in the language we use.
  28. The same thing looks different depending on the method of observation.
  29. If the microscope is more reliable, our normal vision is not enough.
  30. “Movement” can be understood as the change of position of one body in relation to another body, used as a reference.
  31. The reason why color is a subjective feature is that different people and animals perceive different spectra.
  32. Small animals perceive the world on a different scale.
  33. “Fast” and “slow” are subjective.
  34. Speed ​​is inversely proportional to the time a given object reaches a goal.
  35. Secondary qualities, such as color and taste, are identified by pleasure and pain, while primary qualities cause neither.
  36. Even when we assume that things have objective existence, our idea of ​​them is subjective.
  37. If the extension is subjective, it would not be part of the matter.
  38. Philosophically, substance and substrate are the same thing.
  39. Be careful not to use philosophical terms out of habit, not really knowing what they mean.
  40. What is matter anyway?
  41. If philosophy works with concepts, then unless we have a closed concept of what is matter, it will not be possible to make a philosophy of matter.
  42. If you conceive something in your mind, there is no guarantee that it exists outside of the mind.
  43. You can’t tell the exact distance of something just by looking at it.
  44. If you conceive distance as a “line” between the eye and the focused object, you do not see this line; the line is hypothetical.
  45. If I see a statue of Julius Caesar, I am seeing the statue; it’s reason who tells me what the statue represents.
  46. Often, the connection from one idea to another is pure custom, as is the case with prejudice.
  47. Do I listen to the vehicle or the sound it produces?
  48. You can only hear the sound, you can see the image , you can see the phenomenon , which does not necessarily give us a sure idea of ​​the object that produces it.

22 de agosto de 2019

What I learned by reading “The Social Contract”.

Filed under: Livros, Notícias e política, Saúde e bem-estar — Tags:, , — Yurinho @ 15:28

The Social Contract” was written by Jean-Jacques Rousseau. Below, what I learned by reading his text.

  1. It is not politicians who write about politics: being in office, they validate their thinking with their actions, not words.
  2. If I were a politician, I would not write about politics; I would do politics.
  3. Everyone who participates in a society should reflect on politics.
  4. Dependence on family members is, at first, natural.
  5. The family may continue to exist when there is no longer dependence on each other, but in this case the family exists only by convention and not by necessity.
  6. No one gives up his freedom unless he gains something in return.
  7. If you have been a slave for a long time, you stop desiring freedom.
  8. The first slaves were enslaved by force, but the slaves who came later were enslaved by custom.
  9. Everyone has the right to rule, if they wanna compete and think they can do it.
  10. Any monarch who wants to avoid conspiracies, rebellions, or civil wars should get rid of his people.
  11. Obeying to force is not an act of morals, but of prudence.
  12. If disobedience is not an option, there is no morality.
  13. If the strongest is always right in his actions, then I have to be strong.
  14. I can only disobey the strong being stronger than him.
  15. You only sell yourself if you think you will profit from it.
  16. The king derives his subsistence from the people; we are the ones who keep the government alive.
  17. No one works for free.
  18. A war is always between governments, not between nations, as the people often don’t want war to happen.
  19. There is no such thing as full slavery.
  20. People came first, government came second.
  21. The social contract is the renunciation of natural freedom for the sake of a conventional freedom established by mutual agreement to obtain the benefits of life in society.
  22. There is a “general will,” manifest in the laws and enforced by the contract.
  23. It is unfair to have several rights and no duties.
  24. If you refuse to obey the general will of people, you will end up being dragged into doing só anyway.
  25. Society sets humans apart from other animals.
  26. There are two types of freedom: natural and civil.
  27. Civil liberties are characterized by private property.
  28. Obeying one’s own rules is freedom too.
  29. The first monarchs were not landlords, but lords of people.
  30. Nature has made everyone different, but the social contract implies making everyone equal, not by nature, but by law.
  31. The general will alone drives a society towards its common end, which is the welfare of all.
  32. If there is one thing everyone wants, the government must guarantee that thing to keep the people together.
  33. By pursuing satisfaction of these points of convergence of the will of the subjects, the general will, the government can pursue equality, for it will be literally attending to all.
  34. If you don’t fight something that is happening upon you, then you are consenting.
  35. The truth alone does not bring wealth.
  36. The general will can go the wrong way when people are led to desire what is bad for themselves.
  37. This can be done by lying to the people.
  38. General will is the sum of all wills, excluding those that contradict each other; this allows us to see what everyone wants.
  39. The government can’t order from a particular person an action that doesn’t serve everyone.
  40. Political decision implies the use of your own criteria of what makes a decision “good”.
  41. When deciding your vote, use only personal criteria.
  42. The general will always concerns the whole.
  43. To save our lives, we sometimes have to risk it.
  44. Lack of information can kill.
  45. If you violate the laws of your government, you are subject to punishment.
  46. On the other hand, if you don’t like the laws in your country, you can look for another country with laws that you like more.
  47. A government that kills many is a bad government.
  48. The more crimes committed, the more impunity; the more impunity, the more crimes committed.
  49. There is no country where there is no crime.
  50. Everyone has a sense of justice, but justice only happens if there is reciprocity.
  51. There are laws that favor the bad and harm the good.
  52. Natural laws are not civil laws.
  53. You cannot legislate for only one person.
  54. The act of governing implies making the human being act in an unnatural way.
  55. The wise will not be understood by the vulgar without adopting their language.
  56. There are too complex ideas to translate into colloquial language.
  57. Legislating is a very serious activity.
  58. Legislating is so serious that the first laws were inseparable from religion.
  59. One should not make laws that the people cannot accept.
  60. There are vicious nations with good laws that the subjects do not submit to.
  61. There are nations that thrive despite having horrible laws.
  62. The more people, the harder it is to keep everyone together.
  63. Big governments require levels of power: the president cannot rule the entire country alone if the country is huge.
  64. Countries that do not have enough resources are forced to conquer the territory of others.
  65. If the people are desperate, they will accept any law.
  66. The challenge of the law is not to establish a new good thing, but to destroy a known evil.
  67. Freedom cannot stand without equality: if everyone starts on equal terms, they are able to exercise their freedom in equal measure and no one can complain that they were at a disadvantage.
  68. No one should be so rich as to be able to buy another person or so poor to the point of selling themselves.
  69. Laws must ensure equality.
  70. If the country cannot produce its own wealth through agriculture, it should invest in other means of making money.
  71. Impunity allows criminals to legislate.
  72. The people can, by their desire, destroy good laws: if the people desire their destruction, who can stop them?
  73. All action depends on two elements: will and power.
  74. The will of the government is the legislative and the power of the government is the executive.
  75. When one power tries to act as the other (when the legislature tries to act as executive or vice versa) or when the people refuse to obey the laws, either despotism or anarchy occurs.
  76. The larger the people, the less political power each person has.
  77. The stronger the government, the less freedom people will have.
  78. Mathematics is not meant to measure political action.
  79. It is not the number of people that makes the revolution, but the action of that number, meaning that an intelligent minority can work great political changes.
  80. The ruler must watch over the interest of the people.
  81. If either the people or the government have to sacrifice themselves, let it be the government, not the people.
  82. The general will is sovereign.
  83. A desire is stronger the more it is personal.
  84. Because of this the general will imposes itself less than the private interest.
  85. If the government is handled by only one person, the temptation will be too great, the potential for corruption will be very high.
  86. A monarchy would be highly active.
  87. Each member of the government has political power in itself, but the people, while sovereign in a democratic government, have no political power unless they unite.
  88. If you divide the power into different people, not completely separate but dependent on each other, as in the democratic regime, there’s less risk of despotism.
  89. Even in a democratic government, not everyone participates in democracy.
  90. It is not good for the enforcer to be the legislator.
  91. People who can govern themselves don’t need a president, a monarch or a congress.
  92. Perfect democracy has never existed because of a variety of obstacles that make representative (not perfect) democracy more fitting.
  93. Luxury corrupts rich and poor.
  94. Democratic governments are always changing.
  95. Democracy is a perfect model and that is why it cannot be perfectly managed by imperfect beings, such as us, humans.
  96. In an aristocracy there are two general wills: that of the people and that of the rulers.
  97. Aristocracies can exist in three flavors: natural, elective and hereditary.
  98. The best man is not necessarily the richest, since wealth does not buy virtue.
  99. In politics, you have to make things change, but also give the impression that things aren’t changing.
  100. Monarchs rely on weak people: if the people came to not depend on a monarch anymore, they would overthrow him.
  101. Machiavelli’s work should be read by lay people to let them know how the rulers operate in order to defend themselves, as people, from political abuse perpetrated by the government.
  102. Those who strive to come to power by dubious means attest that they cannot rule by legitimate means.
  103. It is easier to conquer a territory than to manage it.
  104. The example of parents can be abandoned by the child depending on which way he wants to go.
  105. The best kings were not educated to be kings.
  106. If the government is bad and nothing can be done, the best you can do is to suffer until the end of the government’s term.
  107. The three forms of government do not always work in all territories: the monarchy will never work in certain countries, just as there are some who reject democracy.
  108. A country needs to accept the form of government that suits it best.
  109. The worker must make a profit from his work, or the country will be poor.
  110. When the government begins to fail, a revolution can put it back on track.
  111. The production surplus of a difficult task is smaller.
  112. Vegetarian diet is superior.
  113. It is possible to live better by eating less.
  114. The food from the hot places is more delicious.
  115. You can’t tell which type of government is the best, but you can tell when people are being well or badly governed.
  116. It is not possible to know which type of government is the best because one’s concept of “good governance” varies.
  117. Power tends to corrupt.
  118. Because of this phenomenon, there is no human government that lasts forever.
  119. This “natural death” of government can occur in two ways: when government is restricted (that is, when a democracy becomes an aristocracy or an aristocracy becomes a monarchy) or when government dissolves.
  120. When the government makes decisions outside the law or without consulting the people or when a member of the government usurps power for himself, a window for state overthrowing is open.
  121. In situations like this, the people are forced to obey, but they are not obliged, because no one can take from them the right to revolt.
  122. If the government dissolves, we go into anarchy.
  123. “Tyrant” is an illegitimate governor.
  124. The typical behavior of the despot (a tyrant who governs a democracy) is to act as if he were above the law.
  125. To do something well you must not try the impossible.
  126. Each political body has the causes of its own destruction embedded in itself.
  127. To make something stable, you have to give up your intentions of making it last forever.
  128. The human body is the work of nature, but the political body is the work of humans.

  129. It is possible to make the government last longer and longer, but it will eventually fall.

  130. Legislative power is the heart of government, while executive power is its brain.

  131. Not believing in freedom is the ideological slave certificate.

  132. One should not consider the future before considering the present.

  133. Freedom and tranquility do not always go together.

  134. If people are too busy in private business, it is because the government cannot provide enough for the people.

  135. Plenty of public services work against private businesses.

  136. If the government is bad, we may feel discouraged to vote.

  137. Good laws lead to better laws.

  138. Bad laws lead to worse laws.

  139. When people no longer care about the government, politics has died.

  140. If the people could speak for themselves, there would be no need to elect representatives to create laws.

  141. It is only a law if people follow it: it is no use making a law that everyone will break.

  142. Submitting to an unfair government is cowardice.

  143. Do not demand from others what you cannot do.

  144. No particular act should constitute law.

  145. Democratic government is the easiest to establish if none is in place.

  146. It would be interesting if any member of the executive power could be removed from there by the will of the people.

  147. To attack popular assemblies is to declare war against the people.

  148. It is possible to mask private interests under a mask of fighting for the public good.

  149. Freedom is inalienable to the human being.

  150. If there is doubt about what the general will wants, a poll should be enough.

  151. A bad government will last long, unless it encounters opposition.

  152. The ostentation of wealth can become a cause of poverty.

  153. When a government becomes corrupt, it can only subsist in two ways: either corruption is removed (purification) or corrupt laws are enacted (total decay).

  154. Too many crimes reveal useless laws.

  155. The problems of Rome did not come from Rome itself, but from its army.

  156. The first governments were theocratic.

  157. This is because, in the government of nature, it seemed inconceivable that a man could become lord over fellow men; only a superhuman being should rule the men.

  158. Although there are similar gods among different peoples, they are not the same god manifesting to different peoples.

  159. The reason Christians are persecuted is that Jesus separated religion and government.

  160. But over time Christianity has become corrupted.

  161. In Europe, after Christianity, religion and politics are different things.

  162. The fusion of church and government creates a situation in which it is effectively the church that rules, because it is worse to go to Hell than to jail.

  163. Religion is dangerous to government: neighborly love, humility, detachment from material goods, reluctance to kill, chastity, government has an interest in the opposite of all these things.

  164. Jesus’ precepts, for example, work against the economy, population growth, and the army.

  165. By merging religion and government, the believer comes to see other nations, which have different laws, as enemies of God.

  166. Christianity is not the religion preached by Jesus.

  167. A society of true Christians would not last long, because neighboring nations would take advantage of their military weakness (a Christian cannot kill).

  168. “Republic” and “Christian” are mutually exclusive terms: it is not possible to imagine that a government based on the teachings of Jesus can survive, especially in a war situation.

  169. Forming an army to kill in a war is to violate the Christian precept “thou shall not kill”.

  170. A citizen’s soul isn’t the government’s business.

  171. The government needs to make laws that encourage sociability among citizens.

  172. Government cannot compel anyone to believe in a religion because faith is a personal thing.

  173. If there is religious intolerance in the country, the priests of the religions with most followers become rulers, because in a situation where religions are fighting, the priests have increased credit.

  174. The priest who says that only those in his church will be saved is putting himself above the local political ruler (such as the president or the congress).

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