Analecto

19 de maio de 2020

Leituras da semana #3.

Filed under: Livros, Passatempos — Yure @ 18:04

Nesta semana, continuo minha leitura de Além do Bem e do Mal, do Nietzsche, minha leitura da Análise da Proficiência em Matemática, do Roberto Machado, e a leitura de Arte de Lidar com as Mulheres, de Schopenhauer. Também começo minha leitura de Alma, do Voltaire.

Além do bem e do mal, ou prelúdio de uma filosofia do futuro.

Ainda no assunto de que existem mentiras nas quais vale a pena acreditar e verdades que são intoleráveis, Nietzsche resume todo o seu pensamento sobre esse assunto na máxima de que “felicidade não é argumento”. Argumentos são feitos pra encontrar a verdade das coisas. O fato de você ser feliz não indica que você tem razão naquilo que você acredita. Analogamente, existem verdades que fazem sofrer. É o caso do isolamento social na pandemia: ele é verdadeiramente necessário, mas quem gosta dele? Você dizer que algo te faz sofrer, que certa ideia é dolorosa e difícil de aceitar, não serve de argumento contra alguma coisa qualquer. Novamente, algo que te faz feliz não necessariamente é verdade.

A verdade é útil, mas é preciso torná-la também prazerosa pra que seja aceita. Se a verdade não for prazerosa, inofensiva e útil, haverá quem dela discorde, haverá quem chame a verdade de mentira. Nietzsche chega mesmo a afirmar que a força de um espírito pode ser medida pela sua resistência ao peso da verdade. É forte quem a aguenta. Claro que sempre haverá verdades que são irremediavelmente desagradáveis, danosas ou inúteis. Mas o ideal é que a verdade recompense, que ela valha a pena, se o que se quer é torná-la aceitável.

Por causa disso, o pudor dos sábios dispara e eles passam a se autocensurar. Ao redor dos homens profundos, diz Nietzsche, uma máscara se forma quase que naturalmente. O que acontece com filósofos e cientistas que descobrem verdades desagradáveis? Execração pública. Na verdade, ao descobrir algo verdadeiro, mas despudorado, o próprio pensador pode distorcer o que ele próprio descobriu até que ele próprio se convença de que sua descoberta está errada. Esse fenômeno é que faz gente dizer, ainda hoje, que existem coisas que é melhor não saber.

Pêgo numa rede. Autor: Luis Ricardo Falero. Fonte: Wikimedia Commons.

Esse problema é amplificado pela presença de um círculo social ao redor do pensador. Cada pessoa é uma prisão, diz Nietzsche. Se o pensador tem uma esposa, filhos, um ótimo trabalho que paga bem, admiração nacional, ele vai colocar tudo isso a perder ao defender uma verdade que decepcionará todo o mundo? Por isso é melhor que você seja tão independente quanto possível, se o que você quer é pensar por si mesmo. Assim, haverá menos coisas em jogo e você não terá muito a perder. Fama e riqueza não combinam com filosofia, já que também essas coisas impõem servilismo. Você não é dependente de quem te paga? Nietzsche chega mesmo a pregar a renúncia à religião, que também se impõe, ordenando solidão, jejum, castidade. Se bem que há controvérsias… Talvez ser um “espírito livre” seja hoje um ideal, já que há certas servidões às quais não se pode renunciar (ponho a religão entre estas).

Nem por isso Nietzsche engole suas palavras nas páginas anteriores e passa a defender que se busque a verdade a todo custo. Não. Ele diz cinicamente que os filósofos do amanhã continuarão defendendo suas verdades pessoais como todos os filósofos até aquele momento fizeram. Nietzsche parece que dá à filosofia “do futuro” o mesmo papel que os sofistas davam à retórica: defender uma posição pessoalmente sustentada pelo usuário. Bom, então tá. A filosofia do futuro é uma defesa das “verdades pessoais”, diz Nietzsche, coisa que eu vejo como simples defesa de opinião.

Embora eu não concorde com isso (“verdade pessoal” é uma contradição pra mim), Nietzsche também afirma que a maioria das pessoas pode estar errada e, por isso, nenhum filósofo deveria se intimidar se ele defende uma posição minoritária. Parece improvável, mas é possível que todo o mundo esteja errado e você seja a única pessoa com razão sobre alguma coisa. Outra coisa com que concordo é que Nietzsche também afirma que o filósofo do futuro não pode ser dogmático. Ele precisa entender que aquilo que ele considera verdade pode não ser nem absoluto, nem eterno e nem universal. Precisamos parar de fazer sistemas de pensamento “perfeitos”, como se nunca fôssemos errar.

Alma.

Voltaire, neste artigo sobre a alma, afirma que os antigos concebiam alma e vida como sinônimos. “Alma” é aquilo que anima o corpo, o que lhe mantém vivo. Quando o corpo morre, é porque a alma não está mais lá. Essa observou levou nações antigas, inclusive os judeus, a afirmar que tudo morre com o corpo, inclusive a alma. Não havia razão pra acreditar que a alma é imortal ou que o homem tem uma parte de seu ser que sobrevive à morte. Em todo caso, há controvérsias. Mas como? Porque a alma é um princípio metafísico: ninguém vê, ouve ou sente a alma. Então a alma só pode ser estudada especulativamente e isso faz com que ninguém entre em acordo sobre o que ela é, de que é feita, qual sua origem e pra onde ela vai (se é que vai pra algum lugar) quando o corpo morre.

De onde vem a ideia de que a alma é imortal? Pra Voltaire, isso se deve às inexplicáveis visões de espíritos que alguns homens têm. Minha irmã teve dois sonhos com pessoas moribundas que morreram no mesmo dia em que ela teve tais sonhos. Ela já foi espírita. Tem um monte de gente que afirma ver espíritos de gente morta o dia todo, todos os dias. A ideia de que a alma é imortal, diz Voltaire, se baseia principalmente nisso: eu vi a pessoa, mas sei que seu corpo está morto, então algo dela sobreviveu à morte do corpo. Isso, claro, não convence todo o mundo, especialmente os que interpretam tais acontecimentos como uma feliz combinação entre doenças psíquicas e coincidência. Obviamente, você não precisa ter visto espíritos pra acreditar em alma imaterial ou imortal, já que muitas religiões populares afirmam tais coisas mesmo que não sejam “místicas”.

Assunção da virgem. Autor: Guido Reni. Fonte: Wikimedia Commons.

Uma dessas religiões populares é o cristianismo. Os primeiros cristãos acreditavam que a alma era material e imortal. Se você lê o relato da Profecia de Ezequiel, você vê como Deus ressuscita um exército de mortos na frente do profeta. O processo é todo material: os órgãos se reconstituem, depois vem o ar da respiração, ou espírito (Ezequiel 37:1-10). Ninguém, à época, achava estranho que Deus desse a habilidade de pensar à matéria (Mateus 3:9). Então, a alma é corporal e, como tal, faz parte do corpo. O mesmo é afirmado pelas testemunhas de Jeová, o que embasa sua repulsa à transfusão de sangue (Levítico 17:10-11). No entanto, embora as testemunhas afirmem que a alma, ou vida, está no corpo, não a têm por imortal (Eclesiastes 9:5).

Os animais têm alma? Algumas pessoas identificam alma com espírito (o “eu”) e outras ainda dizem que existem setores vegetativos e irascíveis na alma. Então, pensam, o animal tem uma alma com setor vegetativo e irascível, mas não um setor intelectual. Ele vive e ele sente, mas não pensa. Se assim é, como podemos ensinar truques aos animais? O animal realmente é incapaz de pensar? E a criança, antes de aprender a raciocionar, tem alma intelectual? Por que o animal não teria? A alma animal é imortal? Se não é, por que a nossa seria? Se só a alma racional é imortal, como ficam os bebês que morrem antes de desenvolverem a faculdade da razão, ou os que não a desenvolveram por problemas de origem congênita? É bom os veganos usarem esse argumento: comer um porco é tão válido quanto comer um bebê de inteligência equivalente.

Voltaire diz que o estudo da alma é inútil, porque esse é o tipo de questão que nunca ninguém vai resolver. Debater sobre a natureza da alma, ele diz, é como um debate entre dois cegos sobre a natureza da luz. Fora que esse é um debate inútil: discutir se a alma é ou não material, se é ou não corporal, não vai resolver o problema da fome no Nordeste. Se a razão não pode chegar a uma conclusão sobre a alma e se tal razão é requisitada em outras coisas, é melhor tomar como verdade aquilo que sua religião diz e dar o problema por resolvido. É melhor empregar a razão em problemas materiais. Por causa disso, aceitando que somos ignorantes em relação à alma, não temos o direito de discriminar ninguém por concebê-la diferentemente de nós. E deveria ser assim com qualquer questão que só pode ser respondida pela religião.

Análise da proficiência em matemática dos professores das séries iniciais por meio da teoria da resposta ao item: um estudo de caso.

Dizem que a matemática está em tudo. No mundo em que vivemos, é difícil pensar que seja de outro modo, realmente… A matemática está presente em várias situações do cotidiano e muitas das habilidades que hoje permitem o funcionamento do homem normal dependem da matemática. Por causa disso, a matemática é ensinada desde os primeiros anos do ensino básico, nas escolas públicas. É importante pra sociedade que todos saibam matemática, ao menos o bastante pra sobreviverem no mundo moderno. É importante que o gurizinho saiba contar e operar números, não apenas pra passar na prova, mas também pra se virar na vida.

As aulas de matemática não são boas o suficiente. Isso ocorre em duas esferas: social e educacional. Na esfera social, as aulas de matemática acabam resultando em conhecimentos que só servem dentro da escola. A criança poucas vezes usa na vida real o conhecimento matemático que só a escola pode lhe dar. Assim, você acaba aprendendo matemática só mesmo pra passar na prova, porque coisas como adição, subtração, contar dinheiro, essas coisas dá pra aprender sem a escola, em casa, com os pais.

Alegoria da juventude. Autores: Daniel Seghers e Erasmus Quellinus II. Fonte: Wikimedia Commons.

Na esfera educacional, Roberto escreve que, segundo dados publicados em 2016, mais da metade das crianças do terceiro ano do fundamental não têm conhecimento matemático esperado pra aquele nível do ensino básico. O PISA, feito com alunos do sétimo ano, coloca o Brasil entre as últimas posições dentre os países, ordenados segundo qualidade de ensino em leitura, matemática e ciência. Claro que um país desses elegeria Bolsonaro, o que poderia ter sido evitado se a educação tivesse chegado a níveis satisfatórios nos governos anteriores. As crianças daquele tempo viraram eleitores. Isso quer dizer que as aulas só estão servindo pra ajudar a passar na prova e nem isso está sendo feito corretamente. Isso é grave porque a criança precisará de um conhecimento matemático sólido pra encarar as disciplinas de biologia, química e física no ensino médio.

Roberto traça esses problemas à formação do professor e sugere que seria interessante que houvesse um sistema brasileiro de avaliação dos professores, tal como há pros alunos, os quais já fazem SAEB, ENEM e ENADE. Um sistema de avaliação aplicado aos professores permitiria que as universidades soubessem quais as lacunas na formação do professor e consertassem seus cursos de acordo.

Um dos problemas que Roberto vê, mesmo sem ainda aplicar seu método, é que o curso de pedagogia (o qual habilita a pessoa a lecionar qualquer coisa na primeira metade do ensino fundamental) é superficial. Mas claro que é! Você aprende um pouco de tudo no curso de pedagogia: língua portuguesa, matemática, história, geografia, ciências, educação física, educação artística e qualquer outra disciplina que você venha a ter que ensinar no ensino fundamental… Mas, ele diz, o ensino de matemática nesses cursos é especialmente ruim, representando de 3% a 4% da carga horária de todo o curso. Como que o sujeito vai “raciocionar matematicamente” se ele tem que aprendê-lo num curso tão limitado? Na verdade, essa formação é ruim o bastante pra garantir uma baixa taxa de aprovação de pedagogos em concursos públicos… Por causa disso, há uma demanda por cursos de especialização e pós-graduação, uma vez que o curso de pedagogia sozinho não está dando conta. Finalmente, Roberto descreve a estrutura do trabalho e coloca a mão na massa.

A arte de lidar com as mulheres.

Voltando ao assunto do casamento, Schopenhauer volta a insistir que o amor sozinho não basta pra se casar com alguém, porque o amor não dura pra sempre. Se o amor passa antes da morte de um dos cônjuges, o que vai acontecer é que chegará um momento em que o casamento se torna intolerável. Schopenhauer chega a afirmar que o casamento é uma dívida contraída na juventude e paga na velhice, graças a esse efeito de amortecimento afetivo. Além do amor, você deveria ter outro tipo de vínculo com a pessoa com quem você se casa. Tal vínculo deveria ser o de necessidade. Se um não precisa do outro e o divórcio é uma opção, o divórcio se imporá quando o amor acaba. Mas por que isso acontece? Por que casar por amor pode resultar em infelicidade? Schopenhauer argumenta que é porque o amor age segundo os interesses da espécie e não do indivíduo. Se houver reprodução, pouco importa pra natureza se as partes envolvidas se amam. Por isso o amor vai ficando menos passional quando o corpo do outro deixa de atrair.

O único jeito de evitar isso sem contrair um vínculo de necessidade é se os amantes forem também amigos um do outro. A nossa sociedade, ao fazer distinção entre amor e amizade (como se amizade não fosse um tipo de amor) trabalha contra isso. É como se você não pudesse ter um vínculo romântico com um amigo de longa data. Por quê? Se você se casa com alguém de quem você já é amigo faz tempo, você não concorda que tal casamento seria tão estável quanto feliz? É conveniente casar com um amigo.

Vênus dormindo. Autor: Artemisia Gentileschi. Fonte: Wikimedia Commons.

Voltando às dicas de como escolher seus amores, Schopenhauer sugere que o ideal é não casar, mas, se você tiver que casar por alguma razão, não se case com alguém capaz de dissipar os seus bens. Seu patrimônio não deve ser entregue nas mãos de alguém que pode arruiná-lo. Por isso se deve escolher alguém que entenda de economia, de finanças, alguém que saiba gerir o próprio patrimônio.

Schopenhauer diz que tal pessoa é a mulher de família rica. Uma pessoa que passa necessidade mais provavelmente verá você como mero provedor e ficará de olho no quanto você pode melhorar a vida dela. Você será uma posse dela ou, como diz Schopenhauer, um “instituto de previdência social” ambulante. Se você se casa com alguém interesseiro, você será abandonado no momento em que não puder mais sustentar essa pessoa. Um casamento desses é uma relação parasitária. Na verdade, essa possibilidade põe em questão o principal argumento a favor do casamento, que é o suporte na velhice. Qual é a garantia de que seu parceiro ainda “estará lá” pra quando você estiver em idade avançada, necessitado de amparo? Talvez tal parceiro já tenha te traído (ninguém está a salvo do chifre) ou você tenha se separado dele.

Schopenhauer passa então à discussão sobre a poligamia. Pra ele, a monogamia é contrária à natureza e contrária à razão. Suponhamos que você se casa com uma mulher que depois você descobre ser infértil. Se você quiser passar seus genes à frente, você terá que doar esperma e essa nova geração, fruto de seus genes, você talvez nem conheça. Não seria mais natural arrumar outra mulher que conceba um filho de sua semente, caso a sua atual mulher seja infértil? Entre outros argumentos. A única razão pra ser monogâmico é a religião. Se você não é religioso, pra quê você iria querer ser monogâmico? Especialmente hoje, tempos em que abundam métodos contraceptivos e o casamento civil está em franco declínio. Se a monogamia fosse natural, ninguém trairia o parceiro. Pelo contrário: nunca houve um tempo em que a humanidade fosse fiel. Monogâmicos verdadeiros, que só desejam uma pessoa eleita, são raros. A abolição da monogamia seria benéfica pra sociedade, diz Schopenhauer.

« Newer PostsOlder Posts »

%d blogueiros gostam disto: