Analecto

5 de junho de 2020

Pedofilia e LGBT.

Filed under: Notícias e política, Organizações, Saúde e bem-estar — Tags:, — Yure @ 11:49

Esses dias, a hashtag “pedofilia não é sexualidade” apareceu no topo dos trending topics do Twitter, por causa de uma notícia vinculada em algum lugar segundo a qual pedófilos buscam aceitação no movimento LGBT. Eu já discuti esta questão, mas não com o detalhe que eu pretendo discutir agora. Espero que este texto dê alguma luz às pessoas confusas com essa notícia, tanto de um lado quanto de outro.

Há muito tempo, Frits Bernard fundou a Enclave. A Enclave foi uma editora focada em trabalhos do tipo “boylove”, o amor de homens por meninos. Bernard não era apenas escritor, ele era também psicólogo. Através dessa editora, ele publicou, entre outras coisas, o livro Paedophilia: a Factual Report. Foi um movimento bem interessante na época e que teve uma aceitação nunca vista (embora longe de ser total). Onde foi isso? Holanda. Na Holanda, juntaram-se ao movimento de emancipação da pedofilia outros pensadores e associações inteiras. Pulam na carroça o senador Edward Brongersma, o professor universitário Theo Sandfort, algumas associações religiosas (católicas e evangélicas) e outras associações foram criadas, como a Dutch Paedophile Association. Isso culminou com o caso descrito por Tom O’Carroll, em seu Paedophilia: the Radical Case, a chamada “tolerância holandesa”. Nos anos setenta, uma marcha pública enorme aconteceu, reunindo pedófilos e também menores de idade, com uma pauta clara: a alteração das leis de idade de consentimento. Uma petição pela alteração da lei quase deu certo e conseguiu assinaturas o bastante pra ser avaliada no congresso local. Essa petição não deve ser confundida com uma outra, francesa, que foi feita antes e pedia a abolição da idade de consentimento.

Como algo assim poderia ter sido possível? Como um país, qualquer que fosse, teria uma “marcha pela pedofilia”, na qual figuravam até mesmo menores de idade? O que explica a existência continuada do Ipce, da Nambla, entre outros? Por que a respeitável NVSH não abandonou sua posição sobre a pedofilia, depois de umas cinco décadas? Essas pessoas não viam que a pedofilia é inerentemente ruim às crianças? A resposta é não. Em épocas menos pudicas como a de hoje, épocas que ainda estavam sob o efeito da revolução sexual dos anos sessenta, era mais fácil admitir que a sexualidade infantil é um fato inegável e que um bom número desses relacionamentos simplesmente não resulta em nenhum dano. Até hoje saem estudos sobre isso (Arreola et al, 2008; Arreola et al, 2009; Bauserman & Rind, 1997; Carballo-Diéguez et al, 2011; Condy et al, 1987; Dolezal et al, 2014; Kilpatrick, 1987; Lahtinen et al, 2018; Leahy, 1996; Mulya, 2018; Rind, 2001; Rind, 2016; Rind & Tromovitch, 1997; Rind & Welter, 2013; Rind & Welter, 2016; Rind et al, 1998; Sandfort, 1984; Sandfort, 1987; Tindall, 1978; Ulrich et al, 2005-2006; Wet et al, 2018), incluindo um do mês passado (Rind, 2020). Evidência estatística e evidência anedótica mostram que esse tipo de relacionamento, no qual a diferença de idade é um fator gritante, só está associado a dano psicólogico ou físico quando associado a variáveis terceiras (dor, vergonha, culpa, força, manipulação, entre outros). Assim, pras pessoas daquela época, abolir a idade de consentimento não queria dizer licensa pra estuprar, mas, sim, que um relacionamento só deveria ser considerado criminoso se fosse danoso ou indesejado. Na prática, crianças e adolescentes estariam sob a mesma proteção que rege relações adultas, que é a lei do estupro. Em tempos mais politicamente corretos, esse tipo de opinião causa muitos problemas se defendida, mas ela tem voltado à tona.

Em todo caso, o que essa opinião tem a ver com o movimento LGBT? Antes dos anos noventa, dirigentes do movimento gay apoiavam esse raciocínio. Harry Hay, por exemplo, um dos dirigentes do movimento gay nos Estados Unidos, apoiou a fundação e existência da Nambla. Assim, houve um tempo em que pedófilos atendiam às mesmas marchas por direitos homossexuais. Isso acontecia porque o movimento gay era um movimento não apenas por liberação, mas por mudança geral na moral sexual e também nas estruturas de poder que a sustentavam. Era a consequência natural da revolução sexual que ainda estava fresca na memória das pessoas. Mas essa mescla não era unânime. Dirigentes de outras regiões não gostavam da presença de pedófilos no movimento, porque isso reduzia suas chances de ser aceitos pela sociedade maior. Eles acreditavam, com razão, que a aceitação da homossexualidade pela população leiga passaria pela rejeição à pedofilia.

Esse sentimento culminou num acontecimento emblemático, no qual Harry Hay atendeu a uma marcha onde pedófilos haviam sido excluídos, segurando um cartaz que dizia “Nambla marches with me.” Sabe o que aconteceu? Ele, um dos grandes do movimento gay americano, foi expulso da marcha. Se eu tivesse que escolher um momento no qual o movimento gay, em sua busca por aceitação, rompeu com a pedofilia, esse seria o momento. O governo americano condicionou a aceitação da homossexualidade à renúncia a qualquer apoio a organizações que defendessem mudanças liberais nas leis de idade de consentimento. Testemunhamos então uma minoria sexual (homossexuais) excluir uma minoria menor (pedófilos), como a maioria (todo o resto) fez. Percebendo que sua aceitação dependia de posicionamentos antipedófilos, os movimentos homossexuais, desde então, passaram a ser fortemente contrários a qualquer um que defenda a pedofilia.

E essa é a história. Existiu uma ligação, sim, entre homossexualidade e pedofilia no século passado, mas tal ligação não é relevante hoje. Qualquer pessoa que faça essa ligação hoje em dia está mal informada ou trolando. Um exemplo de trolagem desse tipo foi o movimento memético Heart Progress. Acabou que eles eram proponentes da direita alternativa americana, que buscavam ligar a esquerda à pedofilia enquanto posavam de grupo de esquerda pró-pedofilia. É o que o povo chama de “bandeira falsa”.

Antes de terminar, como eu disse, há vários estudos sendo publicados sobre o assunto da “atração por menores”, entre eles o de Michael Seto, segundo o qual, sim, a pedofilia é uma orientação sexual ordenada por idade. Outros cientistas vêm chegando à mesma conclusão, observando que a única diferença entre um pedófilo e um sujeito “normal” é que o pedófilo sente por crianças a mesma atração que o normal sente por adultos. Se assim é, a pedofilia não necessariamente envolve sentimentos de dominação, ódio, sadismo e coisas que tais, tal como a atração por adultos também não necessariamente envolve qualquer dessas coisas. É verdade, um monte de pessoas presas por sexo com menor cometeu algum tipo de desfeita à criança, mas David Finkelhor, sociólogo, autor inclusive de livros antipedófilos, é rápido ao afirmar que, nos Estados Unidos, apenas 20% das pessoas presas por sexo com menor preenchem os critérios diagnósticos pra pedofilia (F65.4, no CID-10). Não é interessante? A maioria das pessoas presas por abuso sexual infantil não é pedófila em primeiro lugar, mas pessoas com outros problemas, como abuso de substâncias, ninfomania ou falta de parceiros adultos. Na verdade, há quem faça isso por curiosidade.

Além disso, se a pedofilia não difere da teleiofilia (atração por adultos) em outra coisa que não a faixa etária da atração, segue-se que é possível a um adulto amar uma criança. E isso explica o grande número de pedófilos que, por causa desse amor, não se relaciona sexualmente com as crianças das quais se aproximam. Eles não apenas temem ser presos, mas temem quais consequências o processo poderia causar à criança: interrogatório, exame forense, reação dos pais e da comunidade, tudo isso sendo agravado se a criança também gosta do adulto em questão. Por causa disso, existem círculos terapêuticos, como B4U-ACT, que tentam ajudar pedófilos a se manterem dentro da lei, enquanto também tentam melhorar sua qualidade de vida. Afinal, se sua vida é boa e você é aceito pela sociedade em que você vive, você põe muito a perder se você resolve se aventurar numa relação ilegal.

O que fazer, então? Se você é pedófilo, isto é, se você sente atração por crianças, eu espero que o fato de você ver sua atração como uma sexualidade não te faça pensar que você deve se juntar ao movimento LGBT. Porque é inútil você tentar se aproximar de quem, simplesmente, não te quer por perto. Você deveria procurar outros como você e se juntar com eles. Tentar entrar “pro time vencedor” só resultará em mais humilhação. Se você quiser criar um movimento pedófilo hoje (você tem uma coragem do caramba, amigo), você só pode contar com outros como você. Afinal, os homossexuais, em seus primórdios, não procuraram aceitação da maioria porque a maioria não queria nada com eles. Foi preciso que seu movimento crescesse e se tornasse expressivo pra sequer ser considerado.

Resumindo: se alguém tentar agrupar pedófilos e LGBT, tal pessoa está mal-informada ou tentando te fazer de bobo. Não acredite. Isso já foi verdade, mas não é assim hoje e trazer essa ligação à memória é irrelevante.

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