Analecto

6 de dezembro de 2019

Os "100 aforismos sobre o amor e a morte", de Friedrich Nietzsche.

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O texto abaixo é uma honesta aula filosófica sobre 100 aforismos sobre o amor e a morte, escrito por Friedrich Nietzsche, com sugestões de como as ideias contidas em tal escrito podem ser usadas para desenvolver o país e ajudar as pessoas a se compreenderem.

Amor, cobiça e ciúme.

“Espero que ela tenha valido a pena.”

A bem da verdade, o amor pode ocasionar sofrimento. Os espíritos mais orgulhosos não admitem que o amor lhes faz sofrer. Por orgulho, então, uma pessoa que sofre por amor não revela esse sofrimento. É vergonhoso admitir que se sofre por amor. Tome por exemplo o amor não correspondido e a inveja por outra pessoa estar com aquele que você deseja pra si próprio. Algumas pessoas lidam com esse sofrimento desqualificando o amor entre aquelas pessoas: “ah, não é amor, é só cobiça, desejo carnal, eles não se amam de verdade.” Isso torna o sofrimento mais tolerável e talvez até te dê a sensação de que o relacionamento entre os dois terminará em breve. É só chamar aquele amor de “cobiça”.

Amor e cobiça são sentimentos muito próximos. Parece que a grande diferença entre um e outro é que um é “bom” e o outro é “mau”. O problema é que muitos podem julgar “bom” e “mau” com base nas suas próprias ambições: é amor quando eu tenho a pessoa que eu quero, mas cobiça quando outro tem a pessoa que eu queria ter. Assim, quando você quer se relacionar, vê todo o mundo se relacionando por aí, exceto você, você diz que ninguém ama de verdade, que tudo é cobiça. Mas você nem se importaria com essa “proliferação de cobiça” se você tivesse um parceiro. Aí, quando você tem, é amor e tudo tá perfeito.

Diferentes pessoas lidam com tal frustração amorosa de diferentes jeitos, porém. Tome o exemplo da mulher que não consegue se relacionar: para lidar com o sofrimento causado pela inveja, ela pode inventar pra si a ilusão de que é melhor que aquelas que têm um homem pra si. É uma recalcada. Essa palavra, “ter”, é adequada, porque muitas pessoas, na medida em que seu amor comporta também ciúme, querem o amado só pra si mesmas. Não querem partilhá-lo com mais ninguém. É como se o amado fosse sua posse mais valiosa. Isso mostra que, embora queiramos que o amor, em seu estado mais puro, seja altruísta, um monte de sentimentos que nós chamamos apressadamente de “amor” são manifestações de egoísmo: você quer o outro, às vezes até sem se importar com o que o outro pensa disso. Isso não é amor.

O ciúme leva uma pessoa a querer toda a atenção do amado pra si. Se o amado divide sua atenção entre o amante e outra atividade, o amante ciumento odiará essa atividade, a menos que tal atividade seja sua profissão, caso no qual o conforto do casal depende da atividade. Por exemplo: suponhamos que o amado gosta de jogar futebol. Se for um joguinho de futebol no final de semana com os amigos, a mulher ciumenta odiará que ele jogue futebol (e poucas coisas são mais tormentosas que o ódio feminino). Já se ele fosse um jogador profissional, ela não reclamaria.

Ao amar, é importante que a pessoa não se dê a outra, como uma posse. Você, ao amar uma pessoa incondicionalmente, isto é, sem estabelecer os termos da relação, o que pode e o que não pode, você se torna um escravo do outro. É preciso estabelecer limites com os quais você possa concordar. Se sua mulher, por exemplo, não discute esses termos com você ou te propõe termos que você vê que são injustos, não aceite (apesar de que a mulher é geralmente enérgica em sua vingança). Tem outras mulheres por aí. Uma coisa é amor, outra é exploração. Não permita que seu amor por alguém seja usado como coleira pela pessoa que você ama. Isso é especialmente grave numa situação em que a pessoa sabe que você a ama, mas não te ama de volta. É esse tipo de pessoa que explora você.

Mas existe um amor sem mescla de ciúme? Um amor “de verdade”? Sim, mas, infelizmente, raramente reconhecemos esse sentimento como amor. É a amizade. A amizade não comporta ciúme. Por causa disso, é o único amor verdadeiro entre os homens.

O casamento, sua durabilidade e seus problemas.

Será que casar vale a pena? Será que você está pronto pra conversar com aquela pessoa todos os dias da sua vida?

Amor eterno é sobrehumano, porque toda paixão acaba. Isso não quer dizer que você não possa voltar a amar alguém que deixou de amar e apenas se aplica ao amor por uma pessoa específica (pois é possível um amor duradouro pela humanidade inteira). Então, um casamento pautado somente na paixão rui quando a paixão esfria. O casamento que almeja a instituição de um amor eterno entre as partes pode degenerar em hipocrisia. Logo, não tenha em mente que o amor durará pra sempre e que o casamento, por causa disso, também durará pra sempre. Ele pode se extendido, porém.

Os casamentos que duram mais tempo são aqueles nos quais uma pessoa tira proveito próprio da outra. Se um for útil ao outro, o casamento se conserva. Mas se só um precisa do outro, o casamento rui. Os maiores amores não nascem apenas do desejo sexual, mas do reconhecimento de que você não pode ser feliz sozinho. Tem algo faltando na sua vida e você precisa dessa coisa pra se completar. Se você sente que uma pessoa que você ama pode te prover algo que te falta, você a amará mais do que se você não visse nela também um meio de completar o que te falta.

O casamento geralmente é feito entre pessoas que gostam ou afirmam gostar uma da outra. Ora, quando você passa a dividir sua casa com alguém de quem você gosta, você acaba gostando menos dessa pessoa. O casamento tem o grave problema de trazer pra mesma casa duas pessoas. E depois talvez uma terceira, o filho. Se manter muito próximo de uma pessoa desgasta a relação. Não apenas a pessoa se sente sufocada, como também você enjoa dela. O casamento, então, torna-se mais difícil de manter com o passar do tempo. Já se o casamento for pautado na utilidade mútua, ele sobrevive ao fim da paixão, porque as duas partes precisam um do outro pra outras coisas além do amor.

Decepção amorosa.

A expectativa elevada é uma subida a um lugar bem alto. Quanto maior a expectativa, maior e mais dura é a queda quando a expectativa é contrariada.

Quando amamos, é mais difícil ver as coisas como elas são. A ideia romantizada que fazemos dos relacionamentos é uma grande fonte de decepção. Nunca se deve entrar num relacionamento pensando que basta você pra fazer o outro feliz. A felicidade é um estado muito pessoal e assumir que você pode tornar alguém feliz é presunção. Você pode ajudá-lo a ser feliz, mas não pode torná-lo feliz. Se você entra num relacionamento achando que bastará sua companhia pra que o outro seja uma pessoa radiantemente alegre, você se decepcionará. “O amor tudo pode!” Eis uma frase problemática…

Outra fonte de decepção amorosa é a imagem que um dos lados deseja manter. Pra poupar o parceiro da dor de encarar aquilo que a pessoa tem de ruim, o amante esconde, ou tenta esconder, todas as suas falhas. Por exemplo: suponhamos que você esteja namorando alguém bem-sucedido, tanto quanto você, ambos têm um negócio e um quer ver o outro feliz, mas você também tem um desejo sexual muito intenso. Você quer ser o melhor pra pessoa que você ama, então você tenta se reprimir quando vocês não têm tempo pra se relacionar. Quando o homem ou a mulher se dedicam a outras atividades, especialmente construtivas, às vezes até pelo bem dos próprios filhos (é o caso do casal em que ambos os sujeitos trabalham pro sustento da família), há menos tempo pro sexo. O desejo insatisfeito pode levar qualquer das partes a adulterar. Então, se uma das partes de um casal, ou as duas partes do casal, se dedicam a coisas construtivas, uma parte deve entender se a outra adultera ou, sei lá, vê pornografia às escondidas.

Mas o fato é que você montou uma imagem de parceiro perfeito. Quando sua falha é descoberta em um momento de fraqueza, é muito provável que a pessoa fique decepcionada com você. Tristemente, muitas pessoas tentam se transformar na ideia que o amado faz delas. Mas se você tem que mudar por amor, você já não está dizendo que a pessoa não te amaria do jeito que você é, ou que você não acredita quando seu amado diz que não quer que você mude por ele?

Muitas vezes, porém, tal criação de expectativa no parceiro é involuntária. O amor verdadeiro traz pra fora comportamentos que nos são excepcionais e não normais. Então, quando o amor começa a esfriar, também essas caracaterísticas começam a desaparecer. Você está menos disposto a ajudar e a se sacrificar, por exemplo, a passar tempo com aquela pessoa. De repente, seu amado passa a se perguntar o que te fez mudar. O amor te fez mudar. É porque o amor desapareceu que você voltou ao seu normal, como era antes de amar.

Amor, medo e respeito.

Para Nicolau Maquiavel, um governante deve preferir ser temido, em vez de amado, sempre que tiver de escolher entre um ou outro. A razão disso é que é mais fácil fazer mal a quem você ama do que a quem você teme.

Existe uma diferença ligeira entre ser amado e ser respeitado. Quando você quer ser respeitado, é importante que o outro não te destrate. A forma mais fácil de fazer isso é causando medo. Ora, onde há amor não há temor. Se esse é o caso, uma pessoa que quer ser respeitada a todo custo precisa se tornar intratável, pra não ser amado. Porque, se ele não for amado, poderá ser temido, o que aumenta o respeito que outros têm por ele. Isso não quer dizer que os amantes não se respeitam, mas que geralmente se respeitam menos do que o empregado respeita seu chefe.

Em adição, o temor nos explica mais sobre o gênero humano do que o amor. Isso porque o amor nos distrai daquilo que o gênero humano (e também a natureza) tem de ruim, enquanto que o temor reconhece o que há de bom e de ruim no outro. Afinal, é importante conhecer aqueles que podem nos fazer mal, tanto pra nos defendermos deles quanto para tirar vantagem deles. O amor, nas humanidades, produz a arte, mas é o medo que produz a ciência.

Amor e a religião cristã.

A ênfase cristã no amor permite a fácil apropriação da religião pela arte, que é também voltada para o amor.

A religião cristã tem uma relação interessante com o amor. O judaísmo nos deu uma religião pautada na força, na conquista. Mas a religião cristã, ao enfatizar o amor, se torna esteticamente atraente. Quem sente falta de amor ou quem considera o amor algo importante sempre acaba vendo valor nos evangelhos. Se Deus é amor e eu me sinto feliz na prática do amor, eu quererei amar até mesmo meus inimigos. Ou, pelo menos, tentar… Se todos amassem uns aos outros indiscriminadamente, a vida na Terra já não seria um paraíso?

No entanto, é interessante que a religião também diga que somos dignos de ódio, nós, humanos. Se assim é, se não merecemos ser amados, como é que eu vou amar o próximo como a mim mesmo? Porque eu me odeio na medida em que eu digo que sou digno de ódio. Quem diz isso com convicção, já se odeia. Como então? Se o amor ao próximo é limitado pelo amor próprio (eu tenho que amar o outro como a mim mesmo, nem mais, nem menos) e eu me considero uma criatura odiável, eu vou acabar me sentindo justificado por odiar todo o mundo.

Assim, quem odeia a si mesmo acaba se tornando perigoso. Convencer a pessoa a se amar é, portanto, uma responsabilidade humanitária. Ninguém pode amar outra pessoa se estiver ocupado sentindo ódio constante de si. É pelo amor de si que a pessoa descobre quem ela realmente é (o famoso “torna-te quem tu és”) e pelo amor ao próximo que ela se aperfeiçoa.

A hora da morte.

A hora da morte pode ser um momento muito crítico. Depende de como concebemos a morte.

A morte é igual pra todos. Se assim é, não faz sentido que agreguemos ao valor de uma pessoa o julgamento de suas ações logo antes de morrer. Não tem importância se a pessoa aceita sorridente a morte ou se chora ao saber que sua vida está chegando ao fim. O que importa são suas ações em vida, particularmente aquelas que foram feitas quando seu corpo estava em melhor estado. Afinal, a pessoa poucas vezes se esforça em recordar como um ente querido morreu, mas lembra até sem querer das coisas que ele fez e ensinou. São suas ações em vida que farão as pessoas sentirem saudade de você… ou alívio por você ter morrido. A verdadeira diferença que faz uma pessoa só é sentida quando a pessoa não está mais por perto. Isso só acontece por causa das ações da pessoa e do impacto delas. Ora, as ações de um moribundo têm menos impacto. Os chamados “últimos momentos” são geralmente os que menos importam. Especialmente se a pessoa tiver deixado pra trás uma produção intelectual que será imortalizada.

Apesar disso, o momento da morte é um momento de muita comoção. Todo o mundo quer dizer algo ao moribundo, quando teve a vida inteira dele pra dizer essas coisas. Todo o mundo pensa que o cara que se vai aos oitenta anos viveu pouco. Você precisa aproveitar a companhia das pessoas que estão vivas enquanto você pode. Se você fica procrastinando, pode ser que depois seja tarde demais. A morte (ou o desaparecimento, a viagem sem volta ou qualquer coisa que signifique que você não verá mais aquela pessoa) é um fato. Se você tenta esquecer a morte a todo custo, se distrair dela, você esquece que as pessoas chegam ao fim. Se você esquece isso, você passa a pensar que sempre há tempo pra conversar, sair, jogar com aquela pessoa. Pensando assim, é mais fácil procrastinar. Aí, quando seu amigo morre, você pensa: “não fizemos metade das coisas que queríamos fazer.”

Eutanásia.

Matar é ilegal. Dependendo das circunstâncias, morrer também é.

O suicida quase sempre age racionalmente. Ele avalia se morrer vale a pena, e só valeria a pena se a vida lhe trouxesse mais sofrimento do que prazer. O suicida racional acredita que morrer lhe deixará no lucro, se a vida não lhe dá mais-valia. Se você deriva da vida muito mais sofrimento do que prazer, a vida vale a pena? Se esse sofrimento estiver lhe matando lentamente, você morrerá de qualquer jeito. Então, se a pessoa dispor de meios de morrer sem dor pra evitar o prolongamento do sofrimento, será que ele não tem direito a isso? Tal raciocínio levou países estrangeiros a sancionar leis que permitem a eutanásia, que é um suicídio assistido. Um médico ou equipe de médicos mata o paciente que escolhe morrer, utilizando sempre meios indolores e suaves. Isso não acontece no Brasil, porém. Aqui, isso é ilegal.

Numa situação em que você sabe que a morte é inevitável, como o caso de uma doença mortal e incurável, não seria interessante agendar a hora e o dia em que você vai morrer e, antes da ocasião, se preparar adequadamente, chamando seus familiares, dando instruções, se despedindo, jogando uma última partida de RPG de mesa só pra terminar a campanha, escrevendo mensagens em um blog ou enviando mensagens aos amigos que você só conhece online? Porque, atualmente, uma pessoa que sabe que vai morrer é mantida viva a todo custo e não tem controle sobre quando morrerá. Aí toda a família é surpreendida e os amigos, especialmente os mais distantes, só sabem que você desapareceu. Se tem uma coisa pior que saber que um ente querido morreu é não saber o que aconteceu. Então tal planejamento não pode ser uma coisa ruim.

A razão da interdição à eutanásia é moral. Nossa moral tem muito de religião também. Na verdade, a moral ocidental é uma tentativa de forçar todos a agirem de forma mais ou menos cristã. Parece injusto com o ateu que deseja se suicidar. Se bem que o ateísmo é incompreensível pra muitos em primeiro lugar.

Recomendações.

Antes de tomar uma decisão que pode mudar sua vida, avalie custos e benefícios.

O ciúme é um dos sentimentos mais baixos que o ser humano pode sentir. Parece até que nós não fomos feitos pra tolerá-lo. O ciúme arruína qualquer relação. Uma relação humana que estimula o ciúme, portanto, deveria ser evitada. Há várias pessoas no mundo, há muitas pessoas que você poderia amar. Por questões sanitárias (ou religiosas, caso você seja adepto de uma religião que não permite ter vários parceiros sexuais), porém, é melhor se relacionar sexualmente com apenas uma pessoa. Mas isso é diferente de amor. Há uma diferença entre amor e sexualidade, seja esse sexo por prazer ou por reprodução. Se o que você quer é amor, derive esse amor de todas as pessoas que estejam dispostas a dá-lo, especialmente na forma de amizade. Somente o sexo deve ser feito responsavelmente. Pondo as coisas dessa forma, uma relação sexual monogâmica deve ser sexual e nada mais. Sua violação não deveria ser vista como uma violação moral ou um ultraje, mas apenas como uma violação, no máximo, higiênica e sinal de que o parceiro é inseguro. Nesse caso, procure outro. Se tal relação tiver uma carga moral ou sentimental acima do que é merecido, haverá ciúme, medo e outros sentimentos que tornarão o relacionamento insuportável. Separar amor e sexo, o expurgo da sensação de posse do corpo do outro, a aceitação da procura e cessão de amor de todos e para todos, o aperfeiçoamento mútuo como objetivo comum entre os amantes, esses são os primeiros passos pra erradicação completa do ciúme na raça humana. A monogamia sexual deve ser vista exclusivamente como uma questão de saúde (uma preocupação reduzida pelos métodos preventidos já disponíveis) e nada mais, enquanto que a pluraridade afetiva, o amor de todos para todos, deveria ser encorajada.

Segue-se portanto que o casamento não tem razão de existir hoje. Em tempos de liberdade sexual, o casamento como compromisso eterno perde sua relevância. Tal relevância é ferida de morte com a facilidade com que divórcios são feitos. Pra que se casar? Ninguém pode te obrigar a se casar. Alguém pode se perguntar se uma monogamia exclusivamente sexual, como questão sanitária ou religiosa, justificaria a existência do casamento. Não justifica. O casamento tem várias cláusulas legais que não são necessárias a esse tipo de relação, cláusulas que não seriam cabíveis nem mesmo pra sexo casual com múltiplos parceiros, a menos que se esteja tentando decidir questões de custódia do filho. A certidão de casamento não tem razão de existir, mas a certidão de nascimento nunca perderá sua relevância. Alguém tem que cuidar do filho. E isso não justifica a existência do casamento mesmo como entidade legal? Também não, tanto porque o mundo é cheio de métodos contraceptivos como porque é possível ser pai sem estar casado com alguém. Não há necessidade de oficializar as coisas perante a corte, exceto naquilo que for necessário à regulação da custódia.

O problema da decepção amorosa pode ser facilmente resolvido adotando a visão de que podemos amar qualquer um e receber amor de qualquer um quanto também reduzindo nossas expectativas em relação à pessoa amada. É preciso parar de pensar que um casamento, ou mesmo um namoro, é uma experiência linda, maravilhosa, romântica, porque muitas vezes não é. É preciso olhar as coisas pragmaticamente. Se você entra em um relacionamento com grandes expectativas, você tem mais chances de ser frustrado. Se você entra com baixas expectativas, você tem mais chances de ter uma boa surpresa. Se seu parceiro te decepciona, procure outro. Há várias pessoas no mundo pra você amar.

Por último, aproveite ao máximo sua vida sem se preocupar tanto com a hora da morte. Se preocupar em excesso com isso te impedirá de aproveitar a vida e fazer algo construtivo com ela. Certifique-se de viver de um jeito que sua marca fique nas pessoas que você conheceu e que seu legado fique, porque as pessoas lembrarão de você por suas ações em vida.

3 de novembro de 2019

A Bíblia Sagrada e o neoliberalismo.

A Bíblia Sagrada dá vários exemplos de como cristãos deveriam ser caridosos com o próximo, de como a riqueza é algo se deve desprezar como secundário e de como a conduta correta é a repartição, preferencialmente igualitária, da riqueza e dos bens. Apesar disso, os evangélicos elegeram Jair Bolsonaro como presidente da república. Ora, Jair tem um programa de governo neoliberal. Isso só pode ter acontecido porque os evangélicos mantém noções erradas da palavra de Deus e também porque aqueles que querem um sistema justo de distribuição de riqueza ignoram o valor da Bíblia Sagrada e da religião em geral como dispositivos para o avanço dessas pautas.

O voto cristão e Bolsonaro.

Bolsonaro foi eleito com apoio dos evangélicos. Isso não é surpreendente? Como podem pessoas que afirmam se guiar pela escritura sagrada votar em tal sujeito? Que foi feito da ideia de que temos que ler e interpretar a Bíblia Sagrada nós mesmos? Quem são esses fiéis? Não parece haver resposta certa para estas perguntas. Mas teorias existem. E a minha é de que as forças do progresso e da ordem desprezam o potencial da Bíblia Sagrada. É pela torção das sagradas letras que pastores ficam milionários. Por que não usar seu texto em sentido claro para tornar mais fácil a vida dos pobres?

Bolsonaro tem um projeto de poder neoliberal, alavancado pelo seu ministro da economia, Paulo Guedes. Nada é mais anticristão do que o neoliberalismo econômico. Se a oposição tivesse insistido neste ponto, talvez o resultado eleitoral fosse diferente. E quanto à legalização da posse e do porte de armas? Jesus aprovaria isso? Alguém pode argumentar que Bolsonaro é conservador nos costumes, como a Bíblia Sagrada também é. Mas as traduções mais tradicionais da Bíblia Sagrada trazem os onze primeiros versos do capítulo oito do Santo Evangelho Segundo São João, onde é dito que não cabe a um pecador julgar outro pecador. Só pode atirar a pedra quem está sem pecado. Então, não cabe a mim julgar o comportamento do outro, porque também eu cometo erros. Logo, eu não posso condenar um homossexual, por exemplo, tanto quanto não posso condenar um adúltero ou mentiroso. Não cabe a mim condenar. O Novo Testamento não sanciona isso. Então não se deveria votar em alguém que diz que bateria em dois homens vistos se beijando na rua.

Não estou dizendo que deve haver uma fusão entre igreja e governo, porque acredito que o governo só deve proibir aquilo que faz mal ao povo e que a república democrática é o melhor modelo político disponível no momento. Não cabe ao governo cuidar da alma do povo. O que estou dizendo é que a Bíblia Sagrada pode e deve ser usada como dispositivo para justificar a justa repartição de riqueza. E este é o objetivo deste texto, a saber, mostrar como fazer isso. No entanto, para evitar produzir um texto muito longo, me focarei unicamente na pauta econômica, mais especificamente na defesa de um sistema de distribuição de riqueza, no qual a coleta de impostos é convertida em serviços públicos de interesse geral, como educação, saúde, segurança, moradia, sustento, entre outros, de forma que a pobreza não seja impedimento à vida ou à aquirição de emprego. Para garantir isso, deve haver interferência estatal na economia e uma gorda receita tributária (preferencialmente escalonada para que os ricos paguem mais que os pobres).

Só a fé salva?

Em se tratando de evangélicos, temos que lembrar que eles, como protestantes, têm suas doutrinas fundamentais ancoradas ou baseadas no trabalho da juventude de Lutero. Nesse trabalho, podemos destacar duas doutrinas frequentes. A primeira diz que a fé, sem as obras, basta para salvar, e que a prescrição de mandamentos pela sagrada escritura tem como única finalidade nos mostrar que nossas próprias forças não bastam para nos salvar. A fé seria então a única virtude verdadeiramente cristã e o cristão deveria se ocupar somente dela, sem se importar com nada mais (seja porque ele não tem, como ser humano, forças para fazer o que Deus manda, seja porque nenhuma boa obra pode conduzir à salvação do crente). Isso se liga à segunda doutrina, segundo a qual estamos salvos “de graça”. Como pode? Porque o ser humano, incapaz de fazer o bem por conta própria, só pode fazer o bem pela ação divina em sua pessoa. Logo, nenhuma boa ação que ele venha a fazer é mérito dele, mas de Deus, que age nele. Se é assim, não merecemos a salvação e nada do que façamos nos fará merecê-la. Só podemos ser salvos pela graça divina, a qual, como veremos no parágrafo seguinte, parece excluir as obras. Vemos então que a doutrina segundo a qual somente a fé é a virtude própria do cristão (a única) e a doutrina segundo a qual a graça de Deus nos salva (porquanto nenhuma boa ação é mérito nosso) se complementam.

Alguém pode se perguntar se tais doutrinas encontram amparo bíblico. Aparentemente, todo o amparo bíblico para essas doutrinas vêm das epístolas paulinas, particularmente a Epístola de São Paulo aos Romanos. No primeiro capítulo, Paulo diz que todos os males morais que acometem os destinatários da carta vêm da idolatria. Por exemplo: a carta diz, categoricamente, que a imundície é consequência da idolatria. Isso implica dizer que acreditar (veja aqui o papel que tem a fé) em coisas erradas leva a uma degeneração comportamental, porque Deus abandona o idólatra à concupiscência. Por outro lado, a mesma carta também diz que acreditar em Cristo como o único salvador e acreditar que ele ressuscitou dos mortos proporciona a salvação. Em vários pontos da carta aos romanos, a capacidade de justificação pelas obras, particularmente as obras da lei de Moisés, é esvaziada, porque Paulo apresenta a graça e as obras como tendo valor soteriológico mutualmente excludente. Isso apesar de Jesus condicionar a salvação à observância dos dez mandamentos, que fazem parte da lei de Moisés. Na Epístola de São Paulo aos Efésios, é dito que, por causa da fé, a graça de Deus nos salva.

Se você também se pergunta como podem cristãos modernos cometer grandes atrocidades, aí está sua resposta. Se espera que pelo cultivo da fé, Deus aja na pessoa do crente e mude seu comportamento. Enquanto isso não acontece, a única coisa com que devo me preocupar é minha fé. É preciso ser crente, não necessariamente bom, porque, se eu for crente, se espera que serei bom por consequência, já que a divindade agirá em mim e me impulsionará a ser bom. Este é o raciocínio implícito.

Surge uma dúvida: como é possível tal interpretação em face das palavras de Tiago, para quem “a fé sem as obras está morta”? A história responde: Lutero não considerava a Epístola Católica de São Tiago como canônica. Assim, a carta de Tiago, que põe pesada ênfase nas obras, na prática do bem, no trato igual entre os homens e na repartição de bens com os necessitados (como viúvas e órfãos), não foi considerada por Lutero como sendo inspirada por Deus. Isso acontece porque Lutero não queria incluir na sua versão da Bíblia Sagrada nenhum texto deuterocanônico. Saem, portanto, a Epístola de São Paulo aos Hebreus, a Segunda Epístola Católica do Apóstolo São Pedro, a Segunda Epístola Católica do Apóstolo São João, a Terceira Epístola Católica do Apóstolo São João, a Epístola Católica de São Judas, e o Apocalipse de São João, além da já mencionada carta de Tiago.

Se a fé basta para salvar, como podemos convencer tais pessoas de que seu proceder é errado? Se o ser humano é incapaz de praticar o bem com suas próprias forças, de que adianta dizer para alguém mudar de comportamento? E a dúvida que deve ter surgido na mente do leitor cristão: como harmonizar a exortação de Tiago e as palavras de Paulo? Chegaremos em breve a esse ponto.

Para quê ir à igreja?

Mas se a fé basta para salvar, qual é o sentido de ir à igreja? Bastaria crer para ser salvo. O Santo Evangelho Segundo São João, tão citado pela direita (o famoso “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, mas observe o contexto deste verso), também diz que haverá tempos em que templos se tornarão obsoletos. Deus é espírito, e convém que ele seja adorado em espírito e em verdade. Qual, portanto, é o sentido de ir à igreja? Não há necessidade de ir à igreja. Ir à igreja faz sentido para um católico, o qual sente que precisa dos rituais, dos sermões, das vigílias, dos jejuns. Mas o protestante e, consequentemente, o evangélico tem como sua única virtude redimidora a fé.

Suponhamos que Lutero esteja correto e suponhamos que a fé habilita o intuito divino a se manifestar em você, melhorando seu comportamento ou, talvez, sua vida em geral. Lembre que no primeiro capítulo da carta aos romanos, Paulo atribui todos os males da população romana à idolatria. Ora, idolatria é adorar algo que não é Deus. Nutrir uma crença falsa. Pense: sua vida melhorou por você ir à igreja? Se sua vida continua a mesma coisa ou piorou, então, segundo essa interpretação da carta aos romanos, você está acreditando em algo errado. Se você nutre crenças erradas, nenhuma quantidade de fé mudará sua vida. Mas como determinar se eu nutro crenças erradas?

Jesus diz que pelos frutos se conhece a árvore e que não pode uma árvore boa dar maus frutos. Veja a atitude dos seus líderes religiosos ou da organização religiosa com que você está envolvido. Por acaso é uma instituição que só se preocupa com dinheiro, que exige dízimo de certa quantia? Ninguém deveria ser forçado a dar o dízimo, muito menos em certa quantidade. Uma igreja que faz do dízimo seu evento central, que vende bens em seus cultos, tem, logo, o lucro como objetivo. Ora, o amor pelo dinheiro é a raiz de todo o mal. Um pastor que só se importa com o dinheiro tem em si a raiz do mal. Uma árvore com tal raiz só pode ser má e uma árvore má só pode dar maus frutos. Saia dessa igreja. Sua vida nunca melhorará por causa de sua permanência nela.

O compromisso cristão com os pobres.

Felizmente, vários evangélicos não agem de acordo com a doutrina protestante tradicional e acreditam que as obras têm seu valor, tanto quanto a fé. Isso é ótimo. Porém, os evangélicos, ao menos em sua maioria, estão preocupados com condutas meramente pessoais em seu caminho para a salvação. Não estão interessados em condutas que afetam positivamente o próximo. Por exemplo: o evangélico pode não ter dificuldade em guardar a pureza sexual, mas ter muita dificuldade em dar uma esmola. No entanto, como vemos na carta de Tiago, a fé sem as obras está morta. As obras que Tiago menciona são, por exemplo, visitar os órfãos e as viúvas em suas adversidades. Isso é tão importante quanto guardar-se imaculado do mundo. Não basta fazer bem a si mesmo. É preciso fazer bem aos outros. Essa é uma fé que dá frutos. Essa é a verdadeira religião.

Se uma árvore, para ser considerada boa, precisa dar bons frutos, então a fé, se é genuína, precisa das obras. Uma pessoa é julgada boa por suas ações. Uma fé verdadeira vem acompanhada das obras. Uma igreja “correta”, se é que há alguma, precisa colocar ênfase nas obras, tanto quanto coloca na fé; ênfase na edificação e no amparo do próximo, tanto quando no cuidado consigo próprio. As obras que o cristão deve fazer são aquelas ordenadas por Jesus, o qual exalta os pobres a todo momento e olha também para os ricos que aos pobres ajudam. Se você crê que a fé correta muda o comportamento, considere se essa é a fé correta: não basta crer, é preciso também ser bom e não apenas bom para si, mas também para os outros. Ora, um sistema de repartição de riqueza que garante que os ricos terão compromisso com os mais pobres e que os pobres, apesar de sua pobreza, não passarão necessidade de vestimenta, comida ou abrigo, tal sistema é defendido pela esquerda. A abdicação do excedente de vestimenta e a repartição da comida eram, inclusive, condições impostas por João Batista para o batizado. Alguém pode argumentar que o governo, se por um lado não pode proibir a homossexualidade, por outro não pode exigir que haja um sistema de repartição de riqueza “cristão”. No entanto, um sistema de repartição de riqueza bom também é uma reflexão civil. Além disso, embora Jesus não tenha nos obrigado a atacar pecadores (pelo contrário), ele nos ordenou a não acumular usura quando podemos usar nossos recursos para ajudar outros que precisam do excedente mais que nós. Logo, se o cristão não deveria votar em homofóbico, ele poderia, se o programa econômico fosse convincente, votar num socialista.

Ciente disto, sujeitos que se levantam contra o neoliberalismo deveriam se apropriar da Bíblia Sagrada tanto quanto os neoliberais dela se apropriam. Primeiramente para criar uma cultura de caridade entre as pessoas, em seguida para mostrar que é a caridade que motiva a economia igualitária. Queremos dar uma oportunidade a todos de ter educação, saúde, segurança e trabalho, não apenas aos ricos, mas também aos pobres, que se voltam para os serviços públicos para obter tais recursos. Não é como faz o neoliberalismo econômico, para quem cada um merece apenas aquilo pelo que pode pagar.

Versos seletos.

A lei de Moisés também estava preocupada com o estímulo à caridade. Um exemplo icônico é a ordem para não recolher a comida que cai durante o transporte após a colheita (Levítico 19:10). Após fazer a vindima, se algum fruto caísse, o dono da vinha deveria deixar o que caiu para trás, porque um outro, mais necessitado, poderia aparecer. Assim, a comida que caísse após a colheita ficava automaticamente para quem a encontrasse primeiro. Afinal, o dono da vinha já teria o bastante para si mesmo. Orientação similar pode ser encontrada em outro verso, no qual é dito que, durante a colheita, o dono da vinha não deveria colher tudo, mas sempre deixar um pouco por colher, para que outros, ao passarem necessidade, pudessem entrar na vinha e colher para si, direito garantido também aos estrangeiros (Levítico 23:22).

O compromisso com o próximo também está em outros livros da lei. Por exemplo, a lei também diz que eu não devo endurecer meu coração ou fechar minha mão para o pobre (Deuteronômio 15:7-11). Pelo contrário: eu devo lhe emprestar o que lhe bastar para que supra sua necessidade. Este texto é interessante por usar o termo “emprestar” em vez de “dar”. Porque se houver pleno emprego, uma pessoa, ao se levantar de sua necessidade, poderá coletar recursos para si mesma e também para retribuir a beneficência prestada. Eu só posso devolver o que me foi emprestado se eu tiver como. Podemos então entender este verso como uma dupla exortação à caridade e também ao trabalho. No assunto do emprego, é fácil fazer um paralelo entre o que diz a lei e a rejeição, por exemplo, à aprovada reforma trabalhista. Porque a escritura diz que o chefe não deve oprimir quem trabalha para ele (Deuteronômio 24:14). Muitas pessoas vão à igreja aos domingos, por exemplo. Não seria uma opressão a essas pessoas se elas tivessem que trabalhar também no domingo, como quer a medida provisória da liberdade econômica?

Essas, porém, são recomendações aos súditos. E quanto aos governantes? Sabemos que um governo que desfavorece os pobres é reprovável a Deus (Isaías 3:14-15). É difícil ler algo assim e não pensar na reforma da previdência. Por pouco ela não foi fatal. O texto aprovado pelo congresso ainda é bem ruim, mas teria sido pior com o regime de capitalização, entre outras coisas removidas em um processo de “desidratação“. Uma reforma que tira de quem não pode se defender é uma pilhagem.

Diga-se de passagem, a opressão aos necessitados foi uma das razões por trás do incidente em Sodoma! É muito interessante que quase todo o mundo, ao lembrar de Sodoma e Gomorra, só recordem dos residentes que tentaram estuprar os anjos recebidos por Ló, quando a própria escritura diz que o pecado de Sodoma foi, ao mesmo tempo, a abundância de riqueza e a opressão aos pobres (Ezequiel 16:49). Ora, pobres só podem existir em uma cidade abastada se a riqueza não estiver sendo justamente distribuída. Considere o Brasil: uma enorme arrecadação tributária, que poderia ser convertida em serviços que todos, pobres e ricos, poderiam usar, mas, especialmente agora, se tira dos pobres para dar aos ricos. Sodoma é aqui. Lembremos que o pecado traz consequências, mas cada um sofre pelos pecados que comete (Ezequiel 18:10-19). Muitos dos que votaram em Bolsonaro, especialmente os chamados “pobres de direita”, já se arrependeram. Se atentarmos para os mais necessitados que nós e deixarmos o emprego da violência, seremos menos dignos de punição. Quem já se arrependeu do voto que deu, bem fez. Faça melhor nos anos seguintes.

Novamente, ainda nos profetas, a escritura diz que o nosso próximo é digno não do nosso desprezo, mas da nossa piedade, misericórdia e juízo justo. Não devemos piorar a vida dos pobres, mas nos comiserarmos (Zacarias 7:9-10). Poderia ser você a passar necessidade. Em um sistema de justa repartição de riqueza, você não perderia acesso ao necessário por ter empobrecido. Quem é misericordioso é também digno de misericórdia. Ao permitir que o pobre tenha educação, saúde, segurança e emprego, também você terá permissão a essas coisas caso você venha a ser pobre depois.

Ao ser perguntado sobre o que fazer para obter a vida eterna, Jesus respondeu com os últimos seis mandamentos e o mandamento de amar ao próximo como a si mesmo. Porém, Jesus também diz que, se quisermos ser “perfeitos”, devemos também vender o que temos e dar o dinheiro aos pobres. A razão para isso é que tudo aquilo que sacrificamos nesta vida nos será dado de volta, talvez em dobro (Mateus 19:17-29). Este verso é interessante porque implica que a vida futura não será igual para todos. Mesmo que a observação do decálogo proporcione a salvação, a vida futura será melhor dependendo do quanto você ajudou o próximo nesta vida. E Jesus fala especificamente de dinheiro. É ajuda material. Novamente vemos aqui que Deus se opõe à opressão aos pobres. Em adição, vemos aqui que a observância do decálogo permite a salvação. Isso porque o decálogo, que ulteriormente se resume no amor devido a Deus e no amor devido ao próximo, é aquilo que fundamenta toda a lei (Mateus 22:37-40). Se admitimos que as obras são necessárias à fé, as obras de que precisamos são aquelas que edificam o próximo, inclusive materialmente.

O amor ao próximo é também importante por outra razão. A escritura diz que o amor devido a Deus e o amor devido ao próximo é mais importante que os holocaustos e sacrifícios (Marcos 12:29-33). Na lei de Moisés, os sacrifícios servem para expiar pecados. Se o amor é mais importante que o sacrifício, pode o amor perdoar pecados? Logo após ensinar a oração-modelo, que diz “perdoa-nos nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos que nos devem”, Jesus diz que o perdão ao próximo nos habilita ao perdão divino. Então, sim, o amor, e o perdão é uma manifestação de amor, proporciona perdão pelos pecados cometidos. Então, quem muito ama tem muitos pecados perdoados. Ame seu próximo, portanto.

E quem é meu próximo? A escritura diz que o amor ao próximo salva, mas, caso alguém queira se justificar, talvez seja necessário saber quem é esse próximo. O próximo é quem mais precisa de nós (Lucas 10:27-37). Novamente, misericórdia, compadecimento, mas também ajuda material. Eis outro gancho para a discussão sobre a distribuição de riqueza contra o neoliberalismo.

Se a Bíblia Sagrada tem se mostrado vermelha agora, os Atos dos Santos Apóstolos, Escritos pelo Evangelista São Lucas vão ainda mais adiante. Há vários princípios de repartição de riqueza na esquerda. Entre eles está “de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo sua necessidade“, assegurando que, ao menos potencialmente, tudo fosse de todos (ou tudo fosse “comum”, daí o termo “comunismo“). Ora, a segunda parte desse lema, “a cada um segundo sua necessidade”, ocorre duas vezes neste livro, uma vez em Atos 2:44-45 e outra em Atos 4:30-34. Na igreja de Jerusalém, pouco tempo depois da partida de Jesus, os devotos vendiam suas posses, davam o dinheiro aos apóstolos, os quais, por sua vez, adquiriam aquilo de que os devotos precisavam e distribuíam os bens segundo a necessidade de cada um. Se alguém precisasse de determinado bem mais que outro, o bem seria cedido ao que dele mais precisasse. Se os apóstolos não fossem uma classe diferente de indivíduo (de forma que havia classes sociais, apesar de os apóstolos se recusarem a ser tratados com reverência) e se Deus não governasse a igreja (de forma que havia, portanto, governo, logo estado), a igreja de Jerusalém seria uma sociedade comunista. É um absurdo que os comunistas da atualidade não estudem este assunto. Esse também é o livro que conta como Tabita, mulher cheia de boas obras e que dava esmolas, foi ressuscitada (Atos 9:36-42) e como um centurião que também dava esmolas foi digno de ser visitado por um anjo (Atos 10:1-4). Novamente, fazer bem aos que precisam. Se alguém precisa de ajuda material, outra ajuda não serve. Fazer bem ao próximo também é uma boa obra e o cristão não deve limitar suas boas obras somente a si mesmo. Essas pessoas davam seu excedente a quem mais precisava e receberam o favor de Deus.

Somos exortados a não tratar as pessoas com diferença (Tiago 2:1-8). Por que um a pessoa que se diz cristã votaria em um projeto de governo que trata diferentemente pessoas de um mesmo segmento, como militares de diferentes patentes? E mesmo que o governo tivesse que taxar o povo de forma diferente, por que taxar mais os que têm menos? O ideal seria tratar todos de maneira igual (homens e mulheres, por exemplo, deveriam se apostentar com a mesma idade e tempo de contribuição), mas, como isso muitas vezes é impossível, não faz sentido tirar de quem pode não sobreviver sem esse dinheiro. É o caso dos pobres.

Orientações.

Este texto, repito, não deve ser visto como uma defesa da união entre igreja e governo. Isso porque um governo cristão deverá elevar o evangelho ao grau de política pública. Um governo que tenta tal coisa, se torna vulnerável e será tomado por outras nações. Ele também se tornará pobre e sua população diminuirá aceleradamente. Esses problemas são expostos por Rousseau em seu Contrato Social, no qual ele diz, sucintamente, que o evangelho, ao pregar a castidade, o desapego aos bens materiais (lembre que é mais fácil um camelo passar pelo olho de uma agulha do que um rico pelas portas do paraíso) e o pacifismo, diminui a população e empobrece o estado, o qual também se vê obrigado a abrir mão de suas forças armadas. Também por esta razão, sempre se deve suspeitar de qualquer governante que se diga cristão: cedo ou tarde, ele terá de escolher entre seu povo e Cristo. A menos que a pessoa pense que exercer função de governante, legislador ou juiz provavelmente (especialmente em tempos de paz) não o colocará em confronto com suas crenças, aconselho que nenhum cristão se candidate a cargo político ou jurídico.

No entanto, a escritura também diz que quem pode fazer o bem e não faz, peca por omissão. Então, de um ponto de vista estritamente pragmático, seguindo o princípio de que devemos fazer bem, inclusive materialmente, ao próximo, devemos votar no projeto de governo que proporcionará o maior bem-estar para o maior número de cidadãos. E este é o uso que eu gostaria que fosse feito deste texto: fazer as pessoas verem que, ao menos no que diz respeito à economia, a Bíblia Sagrada não pode ser usada como fundação de apoio à direita política neoliberal.

As forças de esquerda não estão sabendo como utilizar esse dado. A direita usa a escritura para descreditar as pautas sociais de esquerda, mas não se vê a esquerda usar o mesmo texto para descreditar a direita socialmente e também, principalmente, economicamente. Isso é um problema num país onde o cristianismo é hegemônico e onde o protestantismo ganha cada vez mais espaço. O socialista ou comunista que vê a religião como inimiga já está derrotado no Brasil. O que se deve fazer é usá-la inteligentemente para trazer os cristãos de volta ao amor ao próximo. A direita usou um verso bíblico como seu bordão. A esquerda também poderia adotar um (se não os candidatos, ao menos os eleitores). Tal verso poderia ser Tiago 4:17.

8 de setembro de 2019

What I learned from reading “Recalled Sexual Experiences in Childhood with Older Partners: A Study of Brazilian Men Who Have Sex with Men and Male-to-Female Transgender Persons.”

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“Recalled Sexual Experiences in Childhood with Older Partners: A Study of Brazilian Men Who Have Sex with Men and Male-to-Female Transgender Persons” was written by Alex Carballo-Diéguez, Ivan Balan, Curtis Dolezal, and Maeve B. Mello. Below, what I learned reading this text.

  1. The aim of the study is to verify the frequency of occurrence of sexual relationships between boy or transgender with older partner in the Campinas region and to verify if such experiences are related to risky sexual behavior in adulthood.
  2. The method used involves the use of a questionnaire and an HIV test.
  3. Among the participants (575), 85% were boys or cisgender men and 15% were males (biologically) who did not identify as men.
  4. Among the participants, 32% said they had an older sexual partner back when they were children or adolescents.
  5. The average age for the younger party was nine years and the average age for the partner was nineteen.
  6. Most of the older partners were men.
  7. Of all participants who had sexual experiences in childhood or adolescence with an older partner, only 29% considered the experience abusive.
  8. 57% said the experience was pleasant.
  9. 29% say they feel indifferent about the sexual contact that took place in their younger years…
  10. Only 14% say they did not like the experience at the time it occurred.
  11. Transgenders had such experiences more often and had a higher positive response rate than cisgenders.
  12. Precocious subjects did not necessarily develop life-threatening sexual behavior.
  13. It is important to hear the child or adolescent about his or her judgment of the experience rather than assuming that what happened was abuse.
  14. People whose gender (mental and social) doesn’t match what is expected for their sex (biological) may have different perceptions of such experiences.
  15. Not all adult-child sexual relationships are violent.
  16. A good definition of child sexual abuse needs to define what can be considered sexual, at what age one can be considered a child, and what the age difference between participants must be to qualify age disproportion.
  17. It is also important to consider the effect of the participants’ gender in the appraisal of the experience.
  18. A distinction must be made between children’s sexual experience and adolescents’ sexual experience.
  19. A distinction needs to be made between the sexual experience of the child or adolescent from different nations in order to assess whether or not local laws and customs influence how the experience is judged by the child or adolescent.
  20. Finally, it is necessary to know from the child’s or adolescent’s point of view whether he or she considers the occurrence to be a negative experience or not.
  21. Finding out the prevalence of precocious sexual relationships is a very difficult task.
  22. If there is no closed definition of child sexual abuse, comparing results from different studies on the subject will be difficult or even impossible.
  23. Contrary to popular belief, boys can also suffer child sexual abuse.
  24. Most studies on early sexual experiences are conducted in Europe and the United States… which may hinder the generalization of these data…
  25. To alleviate this problem, the study authors decided to analyze data obtained in Brazil.
  26. For the sake of safe data, the study defines “early sexual experience with an older partner” as that which occurs between a person aged thirteen or younger and another at least four years older (for example, between a child of eleven and a teenager of fifteen).
  27. A homosexual boy may look for an older partner because the risk of being discriminated or laughed at is lower.
  28. The study defines “child sexual abuse” as an early sexual experience with an older partner, provided that such experience has caused emotional or physical discomfort.
  29. Study participants were recruited between 2005 and 2006.
  30. To qualify for the study, the subject had to be at least fourteen years old (Brazilian age of consent) at the time of the interview.
  31. Most early sexual experiences with older partners occurred with people outside the family.
  32. Among the experiences that take place within the family, most experiences occur among cousins.
  33. Very few participants have had such experiences with older girls or women.
  34. Such experiences involve games of “show”, intimate caress, masturbation, oral sex or anal sex.
  35. Anal occurred more often among transgenders than among cisgenders, in a ratio of 86% (transgender) to 51% (cisgender).
  36. Only a quarter of participants report being forced during the sexual experience.
  37. Less than a fifth say they have been threatened.
  38. Only one in ten participants reported experiencing physical pain during the experience.
  39. In total, 66% of reported experiences did not involve use of force or presence of pain.
  40. Less than one third of participants considered their early experience an abuse.
  41. 55% said they enjoyed the experience, 29% said they were indifferent and 14% said they did not like the experience at the time it occurred.
  42. Of the 114 subjects who said they did not feel bad at the time the experience occurred, only 22 considered the experience to be abuse even though they were not harmed by it.
  43. Interestingly, of the 76 who claim that experience harmed them at the time it occurred, only 41 considered the experience to be abuse.
  44. It follows that it is easier for a child or adolescent to consider his experience abusive if he has suffered from the experience.
  45. In addition, being abused (negative experience) is correlated with life-threatening sexual behavior in adulthood.
  46. 73% of men and 88% of transgender people deny that their experiences were forced.
  47. 80% of men and 86% of transgenders deny being threatened during the experience.
  48. 91% of men and 77% of transgenders deny having felt pain as a result of the experience.
  49. A minority of respondents say the experience was sexual abuse.
  50. It is necessary to distinguish between “abuse” of the child (when the child suffers) and “abuse” of the customs (when the child does not suffer, what was violated was the social norm that forbids these experiences).
  51. Something is not abuse just because the law says so.
  52. If I do not believe the child or adolescent who denies that the experience was violent, why should I believe the child or adolescent who claims that the experience was violent?
  53. People condemn the Brazilian Carnival because it is a time when many indulge in sexual licentiousness, but such licentiousness is not unique to the Carnival.
  54. A boy who attracts attention from an adult can take pride on that.
  55. Sexual discrimination can affect school performance.
  56. It should be remembered that such data were obtained in Campinas and surrounding areas, but data obtained in other parts of Brazil may differ.
  57. Local culture affects the way we view and judge our sexual experiences at a vulnerable age.

5 de setembro de 2019

What I learned from reading “The importance of sharing clinical information.”

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , — Yure @ 15:26

“The importance of sharing clinical information: the case report of an adverse reaction” was written by Alexandra Cadete, Lara Sutil, Carine Silva and Joana Simões. Below, what I learned reading this text.

  1. A doctor may employ a treatment even when there is no consensus on the safety and effectiveness of its use (not that it’s always a good thing)…
  2. When applying antiemetic therapy, it is necessary to choose well which medicine to use, since the incidence of adverse reactions can reach 25% if the subject undergoing therapy is a child.
  3. The extrapyramidal effect, which may be caused by metoclopramide, may be reversed with biperiden.
  4. Metoclopramide can cause a dystonic crisis even without overdose.
  5. If a child is vomiting and an antiemetic must be used, ondansetron or domperidone are better choices, but not metoclopramide.
  6. Antiemetic therapy is used when a vomiting crisis begins to cause dehydration.
  7. A dystonic crisis can occur up to two days after metoclopramide use.
  8. Such reactions are characterized by abnormal postures, spasms and twisting movements.
  9. This effect is more common in children and the elderly, but rare in young adults.
  10. If these effects appear without the subject taking antidopaminergic medication, the patient may have tetanus or a disorder that causes seizure.
  11. An extrapyramidal reaction may be reversed with anticholinergics or benzodiazepines.

What I learned from reading “Childhood sexual experiences with an older partner among men who have sex with men in Buenos Aires, Argentina”.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , — Yure @ 15:19

“Childhood sexual experiences with an older partner among men who have sex with men in Buenos Aires, Argentina” was written by Curtis Dolezal, Alex Carballo-Diéguez, Iván C. Balán, María A. Pando, Marina Mabragaña, Rubén Marone, Victoria Barreda and Maria M. Avila. Below, what I learned by reading their text.

  1. The aim of the study is to evaluate early sexual experiences with older partners in an Argentine population.
  2. Experiences of interest to the researchers were manual, oral, genital, or anal contacts, provided the participating subject was 13 or younger at the time when the experience occurred and provided the partner was at least four years older than the subject.
  3. In a sample of 500 participants, 18% had such experiences.
  4. Most subjects who had early sexual experiences with older partners do not consider the experience to be negative or abusive.
  5. Two-thirds of the participants had such experiences with women.
  6. Among those who had their sexual experience with women, only 4% consider the experience to be child sexual abuse.
  7. Among those who had their sexual experience with men, 44% consider the experience to be child sexual abuse.
  8. It is easier for the child or adolescent to consider the experience abusive if it has been objectively violent or painful, either physically or emotionally.
  9. It follows that the peaceful and voluntary experience is unlikely to be remembered as abusive.
  10. Specifically in this sample, there is no correlation between early sexual experiences and risk of lifetime contamination with HIV.
  11. Those who had early sexual experiences with a man reported use of force or threats more often than those who had such experiences with women.
  12. The study defines “child sexual abuse” as the early sexual experience in which the child or adolescent felt physically or emotionally harmed by his or her older partner.
  13. Homosexual participants more often reported unwanted sexual contact in childhood or adolescence and more often reported rape (unwanted carnal conjunction ) than heterosexual participants.
  14. Child sexual abuse (unwanted sexual experience during childhood or adolescence) is associated with adult functioning problems.
  15. One such problem is the contraction of risky sexual behaviors.
  16. But association is not the same as causality: a lot of children who have actually been abused do not develop any negative symptoms throughout their lives (which does not make such abuses acceptable).
  17. In addition, if the sexual experience has been peaceful and voluntary, the subject is unlikely to develop any negative symptoms in adulthood.
  18. The correlation between psychological problems and early sexual experiences is strong only among the subjects who were forced into such experiences.
  19. Violence may or may not occur in such experiences.
  20. Culture can also influence the evaluation of such child sexual experiences: some of these experiences are seen as games in Brazil.
  21. There are few studies on the effect of Latin American culture on the evaluation of an early sexual experience.
  22. In this sample, most of these relationships occurred outside the family.
  23. The average age for the youngest was 10 years and the average age for the oldest partner was 20 years.
  24. One participant told the researcher that he had a thousand times of sexual contacts with his partner in childhood and adolescence, and told the researcher other things that suggested he was highly sexually active at a vulnerable age.
  25. Half of the subjects who had early sexual experience had oral contact; most had manual contact.
  26. All participants who, in childhood or adolescence, had a relationship with an older woman claim to have penetrated her.
  27. 84% of those who have had experiences with older men claim to have been penetrated.
  28. 18% consider their early sexual experiences to be abusive and most deny being forced, threatened or injured.
  29. Those who had sexual contacts with women were, on average, older than those who had sexual contacts with men.
  30. Apart from the Chad who had one thousand sexual contacts with his partner, four other participants reported having between one hundred and two hundred sexual contacts with an older partner, but most participants reported ten or less.
  31. The woman is less likely to force the boy into a sexual contact.
  32. Each country has its definition of “abuse”: what people in the US call “abuse” may not receive that same treatment in Brazil.
  33. It is more difficult to regard the experience as abuse if the older partner is a woman: when a boy has a sexual contact with a woman, he has had heterosexual contact, free from the stigma of homosexuality.
  34. Such stigma increases the chances of the child or adolescent regarding the experience as negative: a precocious homosexual contact may still be regarded as negative even in the absence of pain or coercion.
  35. Majority of the subjects was not traumatized by their experience.
  36. The fact that something is infrequent does not mean that it is a minor problem: we must not stop combating sexual violence against children and adolescents just because violent experiences are not as frequent as peaceful ones.
  37. The fact that people who had sexual contact in childhood or adolescence in countries where such a thing is taboo suffer more than people who have had the same experiences in places where it is not taboo (or where disapproval is smaller) shows that disapproval of such behavior can have a role in forming negative symptoms.
  38. This study uses a relatively new method (respondent-driven sampling), so care must be taken when generalizing these data.
  39. In South America, it seems that people who have sex with men may still consider themselves heterosexual.
  40. Not every libidinous act before the age of fourteen should be considered rape: early sexual experiences are not uniformly negative and can be arranged in a positive to negative spectrum.

22 de agosto de 2019

What I learned by reading “The Social Contract”.

Filed under: Livros, Notícias e política, Saúde e bem-estar — Tags:, , — Yure @ 15:28

The Social Contract” was written by Jean-Jacques Rousseau. Below, what I learned by reading his text.

  1. It is not politicians who write about politics: being in office, they validate their thinking with their actions, not words.
  2. If I were a politician, I would not write about politics; I would do politics.
  3. Everyone who participates in a society should reflect on politics.
  4. Dependence on family members is, at first, natural.
  5. The family may continue to exist when there is no longer dependence on each other, but in this case the family exists only by convention and not by necessity.
  6. No one gives up his freedom unless he gains something in return.
  7. If you have been a slave for a long time, you stop desiring freedom.
  8. The first slaves were enslaved by force, but the slaves who came later were enslaved by custom.
  9. Everyone has the right to rule, if they wanna compete and think they can do it.
  10. Any monarch who wants to avoid conspiracies, rebellions, or civil wars should get rid of his people.
  11. Obeying to force is not an act of morals, but of prudence.
  12. If disobedience is not an option, there is no morality.
  13. If the strongest is always right in his actions, then I have to be strong.
  14. I can only disobey the strong being stronger than him.
  15. You only sell yourself if you think you will profit from it.
  16. The king derives his subsistence from the people; we are the ones who keep the government alive.
  17. No one works for free.
  18. A war is always between governments, not between nations, as the people often don’t want war to happen.
  19. There is no such thing as full slavery.
  20. People came first, government came second.
  21. The social contract is the renunciation of natural freedom for the sake of a conventional freedom established by mutual agreement to obtain the benefits of life in society.
  22. There is a “general will,” manifest in the laws and enforced by the contract.
  23. It is unfair to have several rights and no duties.
  24. If you refuse to obey the general will of people, you will end up being dragged into doing só anyway.
  25. Society sets humans apart from other animals.
  26. There are two types of freedom: natural and civil.
  27. Civil liberties are characterized by private property.
  28. Obeying one’s own rules is freedom too.
  29. The first monarchs were not landlords, but lords of people.
  30. Nature has made everyone different, but the social contract implies making everyone equal, not by nature, but by law.
  31. The general will alone drives a society towards its common end, which is the welfare of all.
  32. If there is one thing everyone wants, the government must guarantee that thing to keep the people together.
  33. By pursuing satisfaction of these points of convergence of the will of the subjects, the general will, the government can pursue equality, for it will be literally attending to all.
  34. If you don’t fight something that is happening upon you, then you are consenting.
  35. The truth alone does not bring wealth.
  36. The general will can go the wrong way when people are led to desire what is bad for themselves.
  37. This can be done by lying to the people.
  38. General will is the sum of all wills, excluding those that contradict each other; this allows us to see what everyone wants.
  39. The government can’t order from a particular person an action that doesn’t serve everyone.
  40. Political decision implies the use of your own criteria of what makes a decision “good”.
  41. When deciding your vote, use only personal criteria.
  42. The general will always concerns the whole.
  43. To save our lives, we sometimes have to risk it.
  44. Lack of information can kill.
  45. If you violate the laws of your government, you are subject to punishment.
  46. On the other hand, if you don’t like the laws in your country, you can look for another country with laws that you like more.
  47. A government that kills many is a bad government.
  48. The more crimes committed, the more impunity; the more impunity, the more crimes committed.
  49. There is no country where there is no crime.
  50. Everyone has a sense of justice, but justice only happens if there is reciprocity.
  51. There are laws that favor the bad and harm the good.
  52. Natural laws are not civil laws.
  53. You cannot legislate for only one person.
  54. The act of governing implies making the human being act in an unnatural way.
  55. The wise will not be understood by the vulgar without adopting their language.
  56. There are too complex ideas to translate into colloquial language.
  57. Legislating is a very serious activity.
  58. Legislating is so serious that the first laws were inseparable from religion.
  59. One should not make laws that the people cannot accept.
  60. There are vicious nations with good laws that the subjects do not submit to.
  61. There are nations that thrive despite having horrible laws.
  62. The more people, the harder it is to keep everyone together.
  63. Big governments require levels of power: the president cannot rule the entire country alone if the country is huge.
  64. Countries that do not have enough resources are forced to conquer the territory of others.
  65. If the people are desperate, they will accept any law.
  66. The challenge of the law is not to establish a new good thing, but to destroy a known evil.
  67. Freedom cannot stand without equality: if everyone starts on equal terms, they are able to exercise their freedom in equal measure and no one can complain that they were at a disadvantage.
  68. No one should be so rich as to be able to buy another person or so poor to the point of selling themselves.
  69. Laws must ensure equality.
  70. If the country cannot produce its own wealth through agriculture, it should invest in other means of making money.
  71. Impunity allows criminals to legislate.
  72. The people can, by their desire, destroy good laws: if the people desire their destruction, who can stop them?
  73. All action depends on two elements: will and power.
  74. The will of the government is the legislative and the power of the government is the executive.
  75. When one power tries to act as the other (when the legislature tries to act as executive or vice versa) or when the people refuse to obey the laws, either despotism or anarchy occurs.
  76. The larger the people, the less political power each person has.
  77. The stronger the government, the less freedom people will have.
  78. Mathematics is not meant to measure political action.
  79. It is not the number of people that makes the revolution, but the action of that number, meaning that an intelligent minority can work great political changes.
  80. The ruler must watch over the interest of the people.
  81. If either the people or the government have to sacrifice themselves, let it be the government, not the people.
  82. The general will is sovereign.
  83. A desire is stronger the more it is personal.
  84. Because of this the general will imposes itself less than the private interest.
  85. If the government is handled by only one person, the temptation will be too great, the potential for corruption will be very high.
  86. A monarchy would be highly active.
  87. Each member of the government has political power in itself, but the people, while sovereign in a democratic government, have no political power unless they unite.
  88. If you divide the power into different people, not completely separate but dependent on each other, as in the democratic regime, there’s less risk of despotism.
  89. Even in a democratic government, not everyone participates in democracy.
  90. It is not good for the enforcer to be the legislator.
  91. People who can govern themselves don’t need a president, a monarch or a congress.
  92. Perfect democracy has never existed because of a variety of obstacles that make representative (not perfect) democracy more fitting.
  93. Luxury corrupts rich and poor.
  94. Democratic governments are always changing.
  95. Democracy is a perfect model and that is why it cannot be perfectly managed by imperfect beings, such as us, humans.
  96. In an aristocracy there are two general wills: that of the people and that of the rulers.
  97. Aristocracies can exist in three flavors: natural, elective and hereditary.
  98. The best man is not necessarily the richest, since wealth does not buy virtue.
  99. In politics, you have to make things change, but also give the impression that things aren’t changing.
  100. Monarchs rely on weak people: if the people came to not depend on a monarch anymore, they would overthrow him.
  101. Machiavelli’s work should be read by lay people to let them know how the rulers operate in order to defend themselves, as people, from political abuse perpetrated by the government.
  102. Those who strive to come to power by dubious means attest that they cannot rule by legitimate means.
  103. It is easier to conquer a territory than to manage it.
  104. The example of parents can be abandoned by the child depending on which way he wants to go.
  105. The best kings were not educated to be kings.
  106. If the government is bad and nothing can be done, the best you can do is to suffer until the end of the government’s term.
  107. The three forms of government do not always work in all territories: the monarchy will never work in certain countries, just as there are some who reject democracy.
  108. A country needs to accept the form of government that suits it best.
  109. The worker must make a profit from his work, or the country will be poor.
  110. When the government begins to fail, a revolution can put it back on track.
  111. The production surplus of a difficult task is smaller.
  112. Vegetarian diet is superior.
  113. It is possible to live better by eating less.
  114. The food from the hot places is more delicious.
  115. You can’t tell which type of government is the best, but you can tell when people are being well or badly governed.
  116. It is not possible to know which type of government is the best because one’s concept of “good governance” varies.
  117. Power tends to corrupt.
  118. Because of this phenomenon, there is no human government that lasts forever.
  119. This “natural death” of government can occur in two ways: when government is restricted (that is, when a democracy becomes an aristocracy or an aristocracy becomes a monarchy) or when government dissolves.
  120. When the government makes decisions outside the law or without consulting the people or when a member of the government usurps power for himself, a window for state overthrowing is open.
  121. In situations like this, the people are forced to obey, but they are not obliged, because no one can take from them the right to revolt.
  122. If the government dissolves, we go into anarchy.
  123. “Tyrant” is an illegitimate governor.
  124. The typical behavior of the despot (a tyrant who governs a democracy) is to act as if he were above the law.
  125. To do something well you must not try the impossible.
  126. Each political body has the causes of its own destruction embedded in itself.
  127. To make something stable, you have to give up your intentions of making it last forever.
  128. The human body is the work of nature, but the political body is the work of humans.

  129. It is possible to make the government last longer and longer, but it will eventually fall.

  130. Legislative power is the heart of government, while executive power is its brain.

  131. Not believing in freedom is the ideological slave certificate.

  132. One should not consider the future before considering the present.

  133. Freedom and tranquility do not always go together.

  134. If people are too busy in private business, it is because the government cannot provide enough for the people.

  135. Plenty of public services work against private businesses.

  136. If the government is bad, we may feel discouraged to vote.

  137. Good laws lead to better laws.

  138. Bad laws lead to worse laws.

  139. When people no longer care about the government, politics has died.

  140. If the people could speak for themselves, there would be no need to elect representatives to create laws.

  141. It is only a law if people follow it: it is no use making a law that everyone will break.

  142. Submitting to an unfair government is cowardice.

  143. Do not demand from others what you cannot do.

  144. No particular act should constitute law.

  145. Democratic government is the easiest to establish if none is in place.

  146. It would be interesting if any member of the executive power could be removed from there by the will of the people.

  147. To attack popular assemblies is to declare war against the people.

  148. It is possible to mask private interests under a mask of fighting for the public good.

  149. Freedom is inalienable to the human being.

  150. If there is doubt about what the general will wants, a poll should be enough.

  151. A bad government will last long, unless it encounters opposition.

  152. The ostentation of wealth can become a cause of poverty.

  153. When a government becomes corrupt, it can only subsist in two ways: either corruption is removed (purification) or corrupt laws are enacted (total decay).

  154. Too many crimes reveal useless laws.

  155. The problems of Rome did not come from Rome itself, but from its army.

  156. The first governments were theocratic.

  157. This is because, in the government of nature, it seemed inconceivable that a man could become lord over fellow men; only a superhuman being should rule the men.

  158. Although there are similar gods among different peoples, they are not the same god manifesting to different peoples.

  159. The reason Christians are persecuted is that Jesus separated religion and government.

  160. But over time Christianity has become corrupted.

  161. In Europe, after Christianity, religion and politics are different things.

  162. The fusion of church and government creates a situation in which it is effectively the church that rules, because it is worse to go to Hell than to jail.

  163. Religion is dangerous to government: neighborly love, humility, detachment from material goods, reluctance to kill, chastity, government has an interest in the opposite of all these things.

  164. Jesus’ precepts, for example, work against the economy, population growth, and the army.

  165. By merging religion and government, the believer comes to see other nations, which have different laws, as enemies of God.

  166. Christianity is not the religion preached by Jesus.

  167. A society of true Christians would not last long, because neighboring nations would take advantage of their military weakness (a Christian cannot kill).

  168. “Republic” and “Christian” are mutually exclusive terms: it is not possible to imagine that a government based on the teachings of Jesus can survive, especially in a war situation.

  169. Forming an army to kill in a war is to violate the Christian precept “thou shall not kill”.

  170. A citizen’s soul isn’t the government’s business.

  171. The government needs to make laws that encourage sociability among citizens.

  172. Government cannot compel anyone to believe in a religion because faith is a personal thing.

  173. If there is religious intolerance in the country, the priests of the religions with most followers become rulers, because in a situation where religions are fighting, the priests have increased credit.

  174. The priest who says that only those in his church will be saved is putting himself above the local political ruler (such as the president or the congress).

19 de agosto de 2019

O que aprendi lendo “A importância da partilha da informação clínica.”

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , — Yure @ 13:49

“A importância da partilha da informação clínica: o relato de caso de uma reação adversa” foi escrito por Alexandra Cadete, Lara Sutil, Carine Silva e Joana Simões. Abaixo, o que aprendi lendo esse texto.

  1. Um tratamento pode ser amplamente utilizado mesmo que não haja consenso sobre a segurança e eficácia de seu uso!
  2. Ao aplicar terapia antiemética, é preciso escolher bem qual medicamento usar, já qua a incidência de reações adversas pode chegar a 25% se o sujeito submetido à terapia for uma criança.
  3. O efeito extrapiramidal, que pode ser causado pela metoclopramida, pode ser revertido com biperideno.
  4. Não precisa haver superdosagem pra que a metoclopramida cause uma crise distônica.
  5. Se uma criança estiver vomitando e um antiemético tiver que ser usado, que seja ondansetron ou domperidona, mas não metoclopramida.
  6. Terapia antiemética é utilizada quando uma crise de vômito começa a causar desidratação.
  7. Uma crise distônica pode acontecer até dois dias após o uso de metoclopramida.
  8. Tais crises são caracterizados por posturas anormais, espasmos e movimentos de torção.
  9. Esse efeito é mais comum em crianças e idosos, mas raro em adultos mais jovens.
  10. Se esses efeitos aparecerem sem que o sujeito tenha tomado medicação antidopaminérgica, o paciente pode estar com tétano, crise conversiva ou tendo uma convulsão.
  11. Uma reação extrapiramidal pode ser revertida com anticolinérgicos ou benzodiazepinas.

18 de agosto de 2019

O que aprendi lendo “Antologia Ilustrada de Filosofia”.

Filed under: Livros, Notícias e política, Saúde e bem-estar — Tags:, , — Yure @ 22:03

“Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna” foi escrita por Ubaldo Nicola. Abaixo, o que aprendi lendo esse livro.

  1. Livros de filosofia até que vendem bem.
  2. Isso mostra que há uma demanda pelo pensamento filosófico.
  3. Infelizmente, os livros de filosofia que são lançados são acadêmicos demais pra serem totalmente aproveitados por pessoas que nunca estudaram filosofia antes.
  4. Livros de filosofia vêm em diferentes graus de dificuldade: uma coisa é ler O Banquete; outra, totalmente diferente, é ler Ser e Tempo.
  5. A ideia do livro é apresentar os textos filosóficos que o autor considera importantes, mas de uma forma que o leigo possa entender e sem simplificar o texto.
  6. Assim, os trabalhos de cinquenta filósofos tiveram suas essências citadas (isto é, literalmente transcritas), mas cada parágrafo vem acompanhado de uma frase que sintetiza o parágrafo, de forma que o sujeito possa ler o texto e, se não entender, ler as sínteses ao lado de cada parágrafo.
  7. O critério pra escolha dos duzentos textos filosóficos que foram citados é o seu impacto: só as obras mais influentes foram escolhidas.
  8. Assim, duzentos textos, de cinquenta autores (com resumo biográfico de cada autor).
  9. O livro pode ser lido cronologicamente (do início ao fim) ou de forma exploratória (o leitor pensa numa pergunta e vê como diferentes filósofos respondem a essa pergunta).
  10. Para Aristóteles, a filosofia começa com os milésios, porquanto eles foram os primeiros a procurar causas racionalmente inteligíveis para o universo.
  11. Assim, a filosofia começa quando você começa a raciocinar, em vez de simplesmente aceitar o que disseram a você (no caso, a tradição mítica grega tinha que ser substituída pela razão).
  12. Esse raciocínio pode ser pautado na lógica, na experiência ou nas duas coisas.
  13. Uma resposta racional nem sempre está correta, porém.
  14. Os primeiros filósofos buscavam na natureza a causa para acontecimentos naturais, em vez de recorrer ao sobrenatural.
  15. Se tudo é feito de uma substância só, então nada se cria e nem se destrói: tudo o que vemos, ouvimos e sentimos é uma variação da mesma substância ou das mesmas substâncias.
  16. “Monismo” é a crença, racional ou não, de que tudo deriva de um princípio fundamental, único, que pode ser a água, o “infinito” ou o ar, por exemplo.
  17. Assim, no monismo, um elemento fundamental cria os outros ao se modificar.
  18. Por exemplo, para Anaxímenes, todos os elementos derivam, por transformação, do ar.
  19. De forma metafórica, isso é como dizer que tudo é ar.
  20. “Dualismo” é como o monismo, mas que admite dois princípios, em vez de um só.
  21. Já o “pluralismo” defende que a realidade se origina de vários princípios.
  22. Nem todos os filósofos antigos viam o mundo como fruto de causas exclusivamente materiais.
  23. O fato de alguém ser filósofo não indica que esse cara será um democrata.
  24. Por exemplo: para Heráclito, a opinião da maioria, se for a pior, não deveria prevalecer sobre a de um só, se for a melhor.
  25. Assim, se a verdade estiver com um só cara, o fato de a maioria discordar dele não faz com que ele esteja errado e nem justifica a não aceitação da verdade pelas massas.
  26. Se a minoria tiver razão, a opinião da maioria vale menos.
  27. A maioria das pessoas é incapaz de ouvir a razão, mesmo que todos sejam capazes de raciocinar.
  28. É como ter uma habilidade que não se usa ou como ter uma habilidade sem ser capaz de usá-la direito.
  29. A oposição de contrários gera coisas novas.
  30. A razão está em nós e também no universo, que é racional.
  31. Agir sem raciocinar é não estar consciente do que se está fazendo.
  32. A maioria procura objetivos transitórios, mas uma minoria, com razão, procura objetivos estáveis ou eternos.
  33. Tudo está em constante mudança, nada permanece no mesmo estado.
  34. A mudança é típica da vida: só o que está completamente morto não muda (“completamente” porque até cadáveres mudam de estado).
  35. Algumas mudanças são imperceptíveis, mas isso não quer dizer que não aconteçam.
  36. O conflito entre opostos cria coisas novas e situações novas, enquanto que a paz estanca a mudança.
  37. Isso não quer dizer que o universo está em guerra consigo mesmo, mas que esse conflito é necessário para sua harmonia: se um lado vencer o outro, a mudança também acaba.
  38. A vida é luta.
  39. A subida é uma ladeira abaixo pra quem está no topo.
  40. “Devir” é a ida de um extremo a outro (não necessariamente de forma súbita, podendo ser gradual).
  41. Tudo indica que o termo “filósofo” foi inventado por Pitágoras, o qual fundou uma seita aristocrática contra a qual o povo se rebelou.
  42. Existem gritantes correspondências entre a natureza e a matemática.
  43. Grande progresso matemático foi proporcionado pelos pitagóricos, que acreditavam que toda a realidade podia ser matematizada, inclusive a justiça, o intelecto e outras coisas que nós hoje não matematizamos.
  44. Os pitagóricos, claro, associavam a música à matemática.
  45. Cada estrutura geométrica pode ser expressa numericamente.
  46. A matemática “de verdade” começa com Pitágoras, que deu a ela um tratamento científico.
  47. Plantas são seres vivos, e os pitagóricos afirmavam isso numa época em que ninguém pensava assim.
  48. Animais sonham.
  49. Um sonho pode prenunciar uma doença.
  50. Permanecemos vivos enquanto nossos componentes permanecem em harmonia.
  51. Saúde é harmonia física, virtude é a harmonia moral.
  52. Amizade também é um tipo de harmonia.
  53. Se uma substância contamina, evite-a.
  54. Não se deve honrar aos homens e a Deus da mesma forma.
  55. A teoria da transmigração das almas ainda é professada entre budistas.
  56. Os sentidos nos dão impressões, não verdades, às quais só se pode ascender pela razão (por exemplo, o Sol parece pequeno da Terra, mas é pela razão que sabemos que ele não é do tamanho que parece ter).
  57. Não é possível pensar o nada, tal como não é possível ver o escuro ou escutar o silêncio.
  58. Nem todos têm condições de alcançar a verdade.
  59. Metafísica é o estudo do ser em geral.
  60. Verdade e opinião são coisas diferentes: a verdade é sustentada pela lógica (mesmo quando sua conclusão contradiz os sentidos) e a opinião é sustentada pelos sentidos (mesmo quando sua conclusão contradiz a lógica).
  61. Uma opinião pode ser verdadeira, quando ela é lógica e também sensorialmente verificável.
  62. Por vezes, por acidente, nos referimos a algo que não existe como se existisse.
  63. Não é possível chegar a verdade somente pelos sentidos.
  64. Se algo só “existe” no futuro, ele não existe.
  65. O nada é infértil.
  66. Quando não puder provar sua tese, prove que a tese oposta está errada.
  67. Se sua tese não é muito boa, prove que a tese oposta é pior.
  68. A soma de repousos não produz movimento.
  69. A matéria coexiste com o vazio.
  70. Algo não pode ser infinitamente dividido.
  71. Na matemática, algo pode ser infinitamente dividido; na natureza, não.
  72. Nosso mundo não é o único que existe.
  73. “Determinismo” é a ideia de que tudo é explicável por necessidade causal, de forma que não existe acaso, o que permite a elaboração de leis pra prever fenômenos.
  74. Qualidades subjetivas que atribuímos às coisas (como cor e sabor) não existem objetivamente, sendo geradas em nós quando entramos em contato com as coisas.
  75. Nossa linguagem é convencional: chamamos um gato de “gato” porque alguém deu esse nome ao bicho sabe-se lá por que, não porque o gato tem alguma coisa que nos predispõe a chamá-lo assim.
  76. Isso quer dizer que os sons das palavras não guardam relação com o objeto que tais palavras nomeiam.
  77. Se as coisas tivessem algo que nos predispusesse a chamá-las por algum nome em particular, deveria haver só uma língua no mundo.
  78. A linguagem humana depende da socialização: não haveria necessidade de palavras se não tivéssemos que nos comunicar.
  79. Uma palavra é atribuída a um objeto quando determinado grupo concorda que tal objeto deve ser nomeado dessa forma (daí a criação de gírias).
  80. É porque somos úteis uns aos outros que as sociedades são formadas: nenhum ser humano é capaz de sobreviver estando totalmente só.
  81. “Materialismo” é a ideia de que todos os fenômenos naturais têm causas exclusivamente materiais e mecânicas.
  82. Se a verdade não existe, tudo é opinião e, se tudo é opinião, a arte mais útil é a de convencer os outros de que sua opinião é a melhor (não necessariamente “correta”, mas melhor apenas).
  83. Algo racionalmente demonstrável pode estar errado: para algo ser verdade, não basta ser racional, é preciso também que seja real.
  84. Quando você não souber qual opinião é a verdadeira, fique com a que é mais útil a você e aos outros.
  85. Donde decorre que, mesmo que a verdade não existisse, mesmo se tudo fosse questão de opinião, a educação ainda seria necessária, não para chegar à verdade, mas pra que nos guiemos a fim de vivermos melhor.
  86. Cada pessoa percebe o mundo de uma maneira particular.
  87. O objetivo da educação é o aperfeiçoamento do aluno.

  88. Nossas formas de perceber o mundo são condicionais: se eu estiver doente e meus sentidos forem afetados, eu perceberei o mundo de maneira temporariamente diferente.

  89. Inteligência não é percepção: o daltônico não é mais burro que outra pessoa por não ser capaz de dizer a diferença entre esta e aquela cor.

  90. Se o daltônico, por exemplo, não gosta de ser daltônico e tiver meios de deixar de ser daltônico, deixe-o ser feliz (o mesmo é válido para qualquer outro que não gosta de sua condição).

  91. Palavras e discursos construtivos são medicamentos.

  92. As pessoas de “ânimo fraco” se beneficiariam de aprender com pessoas de “ânimo forte”.

  93. Se uma pessoa não acredita que uma boa opinião é, de fato, boa, você deve convencê-la, para que ela não aceite o mal por ignorância.

  94. Se o professor tem o dever de aperfeiçoar o aluno, não é justo que ele trabalhe de graça.

  95. Se a pessoa tiver boa educação, fará escolhas melhores.

  96. “Fenomenismo” é a doutrina segundo a qual não podemos conhecer a realidade objetivamente, mas somente sua aparência, seus sons, suas impressões, os quais podem não coincidir com a realidade de fato.

  97. “Relativismo” é a ideia de que não exitem verdades absolutas.

  98. “Retórica” é o uso das palavras como instrumentos para exercício de poder.

  99. Convencer (mudar a opinião de alguém através da razão) não é o mesmo que persuadir (mudar a opinião de alguém através da emoção).

  100. Você pode convencer uma pessoa de algo que você considera verdade, mas você também pode persuadi-la a aceitar algo que você considera mentira.

  101. O convencimento tem pretensão de ser aplicável a qualquer audiência, mas a persuasão só funciona com determinados públicos.

  102. A persuasão funciona mais vezes que o convencimento.

  103. Aprenda a tirar vantagem da ocasião.

  104. Algumas pessoas sustentam um ponto de vista e, quando são bem pagas, passam a sustentar o ponto de vista oposto.

  105. Um orador pode não acreditar no que ele mesmo está dizendo.

  106. Não é possível que algo exista e não exista ao mesmo tempo.

  107. A palavra opera em nível racional, mas também em nível irracional, como um gatilho emocional, que pode mesmo incitar reações físicas, como o choro e a aceleração do ritmo cardíaco.

  108. Palavras podem desencadear luxúria, a qual, em uma pessoa frágil, ofusca o raciocínio, levando a pessoa a fazer coisas de que depois se arrepende.

  109. Por causa disso, a linguagem pode servir para manipular os outros, incitando emoções até que o raciocínio seja suspenso.

  110. Palavras alteram o estado de espírito: tome a poesia como exemplo.

  111. Só é possível mentir pra quem não sabe a verdade ou dela não está seguro.

  112. Também é possível usar palavras pra acalmar emoções.

  113. Claro que a palavra pode ser usada de forma construtiva.

  114. Ouvir histórias sobre a vida de outros também suscita emoções.

  115. A mentira se aproveita dos erros do espírito alheio.

  116. Um discurso não precisa ser verdadeiro pra funcionar, só bem construído.

  117. Leigos não são os únicos a mentir: filósofos e cientistas também podem mentir.

  118. Palavras são como fármacos: funcionam diferentemente dependendo da situação e da pessoa.

  119. Com palavras, você pode destruir a pessoa além do ponto em que se pode ter qualquer esperança de reparo.

  120. Com a palavra se absolve o criminoso.

  121. Se você não sabe da sua própria ignorância, pensará que sabe tudo e não quererá aprender e nem se corrigir.

  122. Quando não souber a resposta, não finja que sabe.

  123. Pra aprender, é preciso reconhecer que você ainda não sabe aquilo que deseja aprender.

  124. Por causa disso, pessoas de cabeça dura não aprendem com seus erros, já que não admitem quando estão erradas, nem admitem que não sabem o que estão fazendo.

  125. Se você não sabe, pergunte.

  126. Se alguém não admite a própria ignorância, tal pessoa não pode se dizer “sábia”.

  127. Esse comportamento é comum entre políticos, oradores e poetas.

  128. Buscar sabedoria pode ser perigoso.

  129. Uma coisa é ser sábio, outra é se dizer sábio.

  130. Quando você expõe a ignorância de alguém, esse alguém pode ficar com raiva.

  131. Acreditar saber não é o mesmo que saber.

  132. Sábios de verdade são humildes, não arrogantes.

  133. Artistas trabalham com inspiração, razão pela qual eles nem sempre têm condições de explicar os próprios trabalhos.

  134. O escritor de ficção nem sempre conhece a fundo os temas sobre os quais escreve.

  135. Assim, ninguém é mais sábio que os outros por ser artista, escritor ou músico.

  136. A correção provoca rancor no falso sábio.

  137. Infelizmente, parece que os mais sábios dos homens habitam as mais baixas camadas sociais.

  138. Os mais sábios são tidos e menor conta, são esquecidos ou ignorados.

  139. A sabedoria é interdisciplinar: alguém é sábio quando seu conhecimento serve em muitas áreas, não somente em uma.

  140. Quando um ignorante descobre que é ignorante, já adquire alguma sabedoria.

  141. Aliás, estar ciente da sua ignorância já te desqualifica como totalmente ignorante.

  142. O conhecimento divino não é o conhecimento humano.

  143. Desmascarar a ignorância dos falsos sábios é uma responsabilidade civil.

  144. Ser bom naquilo que você faz não te torna bom em tudo.

  145. Não fale do que você não conhece.

  146. A sabedoria humana nada vale diante da sabedoria divina.

  147. A sabedoria sozinha não traz riqueza.

  148. “Ironia” é o uso de uma palavra com o sentido oposto ao usual.

  149. “Maiêutica” é a técnica de levar uma pessoa a determinada conclusão utilizando apenas perguntas, sem oferecer respostas.

  150. “Humanismo” é a ideia de que a filosofia deve incluir os problemas humanos em sua reflexão, em vez de se ocupar apenas da natureza da matéria e dos corpos.

  151. “Conceito” é qualquer conteúdo da mente, qualquer ideia, geralmente nomeável com um termo genérico (conceito de “cadeira”, por exemplo).

  152. Nem sempre somos capazes de definir claramente as palavras que usamos.

  153. A verdade é uma busca pessoal, a filosofia é o método pra chegar lá.

  154. A filosofia deve aperfeiçoar quem a usa.

  155. Aperfeiçoar alguma coisa implica conhecê-la.

  156. Se você deve se aperfeiçoar, você deve se conhecer, o que não é fácil.

  157. Nós nos conhecemos nos comparando com outros.

  158. Nem todos são capazes de se conhecer totalmente.

  159. Cuidar de si próprio requer conhecer a si próprio.

  160. Conhecer a si mesmo implica conhecer sua alma.

  161. Se conhecer também implica se reconhecer no outro.

  162. Analise sua mente.

  163. Você não pode ajudar bem outra pessoa a passar por uma experiência pela qual você não passou.

  164. Uma pessoa que domina bem uma arte pode ter vergonha de executá-la se houver outras pessoas que exerçam mal a mesma arte ou arte parecida.

  165. Se você não pode ajudar no progresso de alguém, encaminhe-o a quem possa.

  166. O papel do filósofo é ajudar os outros a encontrar a verdade, não encontrar a verdade pra eles.

  167. Não, o aluno do filósofo deve fazer esforço.

  168. Algumas mentiras nos são tão caras que atacamos quem nos diz a verdade.

  169. Deus não quer mal aos homens.

  170. A imperfeição do corpo e o condicionamento social dificultam a apreciação da verdade.

  171. Se a morte é o fim, não é diferente, do ponto de vista do que morre, de pegar no sono ou de desmaiar.

  172. Se a morte não é o fim, a vida continua.

  173. Alguns prisioneiros bem que gostariam de receber uma pena de morte, de forma que, pra eles, a morte não seria uma pena.

  174. Matar alguém que não se importa em morrer não é punição.

  175. Uma sentença emitida de é digna de repreensão.

  176. Siga bons exemplos.

  177. Quem pratica filosofia acaba se aplicando à política de alguma forma.

  178. Os mais sábios deviam governar.

  179. Se não puder ser político, ao menos funde uma escola.

  180. Concluir que o conhecimento é impossível te tornará preguiçoso.

  181. “Anamnese” (ou “reminiscência” ou “redespertar”) é a doutrina mística segundo a qual a alma é capaz de recordar aprendizados que contraiu antes de encarnar no atual corpo.

  182. Quando vemos algo, essa coisa pode nos lembrar de outra coisa.

  183. Esquecer é perder conhecimento.

  184. Lembrar é recuperar conhecimento perdido.

  185. Depois que você aprende a verdade, passa a se sentir desconfortável em meio aos que não conhecem a verdade.

  186. Mas se isolar numa bolha inutiliza essa verdade; quem sabe a verdade tem o dever de contá-la aos outros.

  187. Agora, se acreditarão, isso é outra história.

  188. Se a mentira é a única coisa com que você entra em contato ao longo de toda a sua vida, tal mentira será real pra você, será a “sua verdade”.

  189. A primeira contemplação da verdade pode causar dor e desconforto.

  190. Por causa disso, muitos consideram a verdade como mentira e voltam às mentiras que consideram reais… afinal, a verdade pode doer.

  191. A verdade pode causar confusão.

  192. Mas, depois que você se acostuma a ela, tudo passa a fazer sentido e a realidade se torna mais compreensível.

  193. Se você souber a verdade, deve contá-la aos outros.

  194. Mas não tenha esperanças de convencer os totalmente ignorantes, os quais, não cientes de sua ignorância, acreditam já saber de tudo.

  195. Tentar conversar com uma pessoa dessas, isto é, com uma pessoa ignorante que se julga sábia, é quase uma perda total de tempo.

  196. Quando a verdade é complexa, a mentira parece ser clara, tornando mais fácil a aceitação da mentira.

  197. A ascensão à verdade deve ser gradual.

  198. Na posse da verdade, a pessoa tende a ter pena dos que não a têm.

  199. Após saber da verdade, fica difícil se readaptar ao mundo dos ignorantes.

  200. Essa dificuldade de adaptação torna o sábio motivo de risada, de forma que os ignorantes concluem que a verdade não vale a pena, se ela for “enlouquecer” a pessoa.

  201. Talvez até tentassem matá-lo.

  202. O mundo sensível deve ser interpretado racionalmente: as coisas não são como nos parecem.

  203. Na frustração, abandonar os ignorantes é uma tentação real e que deve ser evitada, pois todos devem ser expostos à verdade.

  204. “Amor” é o sentimento natural que aproxima e harmoniza pessoas que são diferentes entre si, mas sem apagar suas diferenças (nesse sentido, a amizade e a caridade são formas de amor).

  205. Agressividade e guerra são frutos das nossas emoções.

  206. A imperfeição do corpo dificulta a ascensão à verdade.

  207. Isso porque o cuidado com o corpo nos toma tempo que poderia ser usado na reflexão: temos que comer, beber, dormir, tratar nossas doenças, ir ao banheiro, além da ocasional vontade de transar.

  208. O medo da dor também tolhe o pensamento.

  209. O cuidado com o corpo nos leva ao prazer proporcionado pela abundância, o qual, por sua vez, nos leva à cobiça e, portanto, à guerra.

  210. O jeito é tender às necessidades do corpo sem buscar os excessos que possamos vir a desejar.

  211. Ou seja, cuidar do corpo apenas minimamente, o bastante pra que seu estado prejudique o pensamento o mínimo possível.

  212. A homossexualidade sempre existiu e há até histórias folclóricas que tentam explicar por que ela acontece.

  213. Em alguns sentidos, é melhor ser homossexual que heterossexual.

  214. Um menino homossexual pode desejar outros meninos, mas também adultos.

  215. Tal menino se sente bem na presença de adultos e em ter contato com eles, o que era visto, na Grécia Antiga, como sinal de audácia e aptidão política.

  216. A homossexualidade pode ser observada também em crianças e adolescentes.

  217. O menino que se aproxima do homem não dá mostras de falta de vergonha, mas de coragem.

  218. O casamento não é necessário, principalmente entre homossexuais: qual é o sentido de formalizar as coisas?

  219. Se por um lado existem meninos atraídos por homens, por outro há homens atraídos por meninos.

  220. Essa atração pode se tornar uma paixão, a qual pode ser correspondida.

  221. O amor homossexual é mais intenso e mais abrangente que o heterossexual.

  222. Nem o sábio (que já é sábio) e nem o ignorante (que se acha sábio) procuram a sabedoria.

  223. Somente os que não são sábios, mas também não totalmente ignorantes, procuram a sabedoria, porque esses, sabendo que não são sábios, automaticamente sabem que precisam da sabedoria.

  224. Tais sujeitos se tornam “amantes da sabedoria”, ou filósofos.

  225. “Alma” é o princípio vital, aquilo que nos mantém vivos, o qual perdemos no momento da morte.

  226. “Ideia” é qualquer conteúdo mental, mas também pode ser interpretada no sentido de modelo perfeito, o qual embasa a feitura de objetos particulares, que tentam copiar tal modelo sem conseguir, dadas as limitações da matéria e do processo.

  227. Por exemplo, todos nós temos uma “ideia” do que um cachorro é.

  228. Então, comparando as coisas do mundo com essa ideia, sabemos se algo é um cachorro ou não.

  229. Existem formas mais altas e mais baixas de amar a beleza.

  230. A forma mais baixa é amar a beleza deste ou daquele corpo em particular.

  231. A forma mais alta é a amar a beleza em si, como conceito, o que permite apreciar todas as manifestações da beleza (nos corpos, nas leis, na política, na natureza, nos discursos, entre outros).

  232. Quem ama a beleza, não se prende à contemplação de um corpo só.

  233. Há beleza também no intelecto e na personalidade.

  234. Amar somente um corpo é mesquinho.

  235. Embora o amor seja um sentimento universal, nem sempre é possível defini-lo.

  236. Amar um corpo é também chamado de “enamorar-se”.

  237. Quando você ama algo, vê a beleza que nele há.

  238. Amar um corpo não é errado, porque amar não é errado, mas há coisa melhor que isso.

  239. Amar a beleza aperfeiçoa o homem.

  240. Ame primeiro um corpo, depois todos os corpos, depois as obras desses corpos, depois as ciências que permitem tais obras, depois a ciência da beleza e, por último, a beleza em si mesma.

  241. A contemplação do belo faz a vida valer a pena.

  242. A beleza da juventude atrai.

  243. A beleza da pessoa nos faz querer ficar perto dela, mesmo que tal beleza não seja a beleza física.

  244. Nem todas as formas de loucura são prejudiciais.

  245. A loucura pode ser motivada por amor.

  246. Isso acontece porque o amor apaixonado (ou, simplesmente, paixão) suspende a razão.

  247. Ora, quando a razão é suspensa, a pessoa enlouqueceu.

  248. Porém, convenhamos: às vezes é bom ficar doido.

  249. A loucura amorosa por vezes obra o bem, porque a loucura em si nem sempre é ruim.

  250. Na verdade, alguns comportamentos admiráveis são fruto de um impulso irrefletido.

  251. As pessoas mais improdutivas são também normais.

  252. Se amor é loucura, eis um exemplo de loucura benéfica.

  253. Quando vemos algo que é assombroso, pode ser que também tenhamos desejo de conhecer tal coisa.

  254. É nesse sentido que se diz que o espanto diante da realidade nos motiva à ciência e ao filosofar.

  255. Conhecer causa prazer.

  256. Se a realidade sempre causou espanto ao homem, então nunca houve tempo em que os homens não filosofassem: a filosofia seria tão velha quanto a raça humana.

  257. A menos que você esteja ocupado com a luta pela sobrevivência, você terá ócio e, nesse ócio, pensará.

  258. Por causa disso, a filosofia só veio mesmo a florescer em sociedades que já tinham resolvido a questão da sobrevivência.

  259. Quem vê não quer perder a visão e, se tivesse que escolher perder um dos sentidos, certamente não escolheria a visão.

  260. Isso acontece porque a visão é o sentido que nos permite perceber o maior número de detalhes do real.

  261. A princípio, a mente humana era estimulada a pensar por coisas pequenas, como os desafios cotidianos.

  262. Aos poucos, resolvendo questões de menor importância, o homem se voltou aos problemas maiores.

  263. É o assombro que nos mostra como somos ignorantes, o que nos permite sair do estado de ignorância total, que impede a busca pela sabedoria.

  264. Você pratica filosofia pra se livrar da ignorância.

  265. A filosofia como a conhecemos só é possível para pessoas que já estão com a vida resolvida, isto é, que têm as condições básicas de sobrevivência satisfeitas.

  266. Quem trabalha pra si mesmo é livre, quem trabalha pra outro é escravo.

  267. Curiosidade é um instinto, saciar a curiosidade é um prazer.

  268. A natureza foi a primeira coisa a causar espanto aos homens.

  269. O que diferencia o homem dos outros animais é a capacidade de conhecer, que difere em grau: animais conhecem pelos sentidos, mas o homem, além disso, é também capaz de fazer ciência desses dados sensoriais e é capaz de memória.

  270. Chamamos de racionalidade a capacidade de extrair regularidades generalizáveis observáveis em fenômenos.

  271. Para que haja ciência, é preciso que haja explicação: por que tal fenômeno ocorre?

  272. A ciência (razões por trás dos fenômenos) engloba a experiência (descrição dos fenômenos, cuja regularidade é apontada pela racionalidade).

  273. Sem memória não há aprendizado.

  274. A experiência é possível por causa da memória: o registro mental de uma ocorrência nos permite descrevê-la e, pela comparação de diferentes ocorrências do mesmo fenômeno, podemos apontar regularidades que possam ser exploradas.

  275. A experiência é, portanto, o início da ciência.

  276. Quando você desenvolve uma “lei”, uma expressão da regularidade de um fenômeno (como as chamadas “leis da física”), você já está fazendo ciência.

  277. É o caso da medicina: através da generalização, prescrevemos o mesmo remédio pra pessoas que têm exatamente a mesma condição.

  278. Ciências práticas precisam de uma base teórica pra existir.

  279. Não há ciência que não siga preceitos nascidos na filosofia.

  280. Por mais que as ciências teóricas sejam as mais necessárias, são as ciências práticas que têm mais fama e prestígio.

  281. É preciso lembrar que uma teoria geral precisa ser adaptada a casos particulares pelas ciências práticas: a teoria diz que remédios a base de cafeína curam dor de cabeça, mas você não vai dar um desses pra quem tem úlcera estomacal, porque assim, mesmo que ele cure a dor de cabeça, agravará a úlcera.

  282. A ciência química diz a causa dos fenômenos manipulados pela farmacologia; a primeira sabe as causas, enquanto a última se ocupa do fenômeno superficialmente.

  283. Os que aplicam princípios científicos em sua técnica são menos dignos de glória do que os que produziram tais princípios.

  284. Conhecer as causas de um fenômeno permite prevê-lo.

  285. Tal pessoa está apta a comandar outros que lidarão com o fenômeno.

  286. Você domina uma ciência quando está em condições de ensiná-la.

  287. As causas são inteligíveis pela razão, não somente pela observação (minha visão me mostra um ferro atraído por um ímã, mas só a razão pode dizer porque o ímã atrai o ferro).

  288. São as ciências teóricas que orientam as ciências práticas.

  289. Sabedoria é conhecimento das causas.

  290. Uma ciência que depende de outra está abaixo na hierarquia das ciências, que vai do mais prático (abaixo) ao mais teórico (acima).

  291. A análise abstrata da realidade (metafísica) é o que há de mais teórico.

  292. Essa análise, ao reduzir uma coisa qualquer a sua essência nos dá os conceitos com os quais trabalhar, nos dizendo o que cada coisa é (o chamado estudo do “ser enquanto ser”).

  293. “Ser” não é uma palavra que só tem um significado.

  294. O termo “causa” pode ser entendido em quatro sentidos: causa formal (o que a coisa é), causa material (de que é feita), causa eficiente (por qual processo foi feita) e causa final (pra quê foi feita).

  295. O que a coisa é e qual é sua finalidade são temas pouco estudados.

  296. A causa final é a mais importante, se identificável: nada melhor para compreender um mecanismo do que entender sua função antes de qualquer coisa.

  297. É o objetivo a ser alcançado que determina o que deve ser feito, como e quais recursos utilizar.

  298. O que fazer depende do objetivo a ser alcançado.

  299. A regularidade dos fenômenos naturais torna difícil acreditar que o mundo é resultado do acaso.

  300. Nem tudo tem causas finais.

  301. Causa formal e causa final podem coincidir na natureza.

  302. As coisas artificiais existem porque a natureza nem sempre nos provê de tudo.

  303. Por outro lado, é possível criar mecanismos artificiais que imitem processos naturais.

  304. Quando a natureza produz algo que não faria em condições normais, dizemos que ela cometeu um “erro”.

  305. Se tudo recebe sua carga motriz de outra coisa, então o que colocou o universo em movimento?

  306. Virtude é o bom hábito.

  307. No caso da moral, as virtudes morais ficam entre dois vícios: a coragem, por exemplo, é uma virtude fica entre a covardia e a temeridade; a assertividade fica entre a submissão e a agressividade.

  308. O mesmo pode ser dito do corpo: o excesso e a falta de alimento ou exercício, ambos estragam a saúde.

  309. A comida e o exercício físico devem estar em boa medida, nem em excesso, nem em carência.

  310. Hábitos equilibrados preservam o corpo.

  311. Virtudes morais também são fruto de hábitos equilibrados.

  312. “Substância” = 1 essência + n acidentes.

  313. “Essência” é aquilo que define alguma coisa (por exemplo, o conceito de homem é o que o define, logo, sua essência).

  314. Se a essência de algo some ou muda, aquela coisa deixa de ser o que é se torna outra.

  315. “Acidente” é uma característica presente em uma substância, mas que não altera sua essência (se o céu está nublado, ele não deixa de ser céu, logo “nublado” é acidente).

  316. “Potência” é aquilo que algo pode ser, enquanto que “ato” é aquilo algo é agora (movimento é passagem de potência a ato).

  317. Deus não deve ser adorado de qualquer forma.

  318. Se ninguém manda em você e seu poder deriva de você mesmo, você vive uma “autarquia”, o governo de si.

  319. Ações valem mais que palavras.

  320. Diferentes animais percebem o mundo de maneiras diferentes, então o que garante que o modo humano de perceber o mundo seja o correto?

  321. E se todos os loucos forem normais e nós, os que pensamos ser normais, formos loucos?

  322. O que é útil pra mim pode não ser útil a você.

  323. Loucura é natural.

  324. Se existissem valores universalmente aceitos, deveria haver menos religiões e menos códigos legais diferentes.

  325. Os costumes também variariam menos.

  326. Sua percepção é condicionada pelo seu ponto de vista.

  327. O que é extraordinário pra nós, não é para outras culturas.

  328. Frequentemente raciocinamos com conceitos relativos, como alto, baixo, pesado e leve, os quais só têm sentido em relação a outra coisa.

  329. Nossos juízos podem ser condicionados por nossos hábitos.

  330. “Tropo” é uma técnica discursiva cuja finalidade é levar a discussão à aporia.

  331. Quando você pensa que tudo é questão de opinião, você se torna cético.

  332. O cético não afirma nem nega nada, porque sua opinião não tem mais mérito que a de outro.

  333. A filosofia pode ser usada de forma terapêutica.

  334. A solução para o medo é o prazer de viver.

  335. Todas as nossas ações visam um prazer.

  336. Então, as melhores ações devem ser aquelas que nos dão mais prazer acompanhado do mínimo de dor, seja imediata ou futura.

  337. Buscar a felicidade é algo que não pode ser feito sem sabedoria.

  338. Existem medos que são inúteis, temos que nos livrar deles.

  339. Se a felicidade deve ser buscada com sabedoria e todos querem a felicidade, então todos devem praticar filosofia, não importando a idade.

  340. Quem está feliz, não quer mais nada, mas quem está infeliz faz tudo pra ser feliz.

  341. Fazer uma ideia errada de Deus é impiedade.

  342. A sensação nos permite experimentar o bem e o mal.

  343. O medo da morte é mais forte nos que desejam a imortalidade.

  344. Superar o medo da morte é superar o medo de tudo: quem não teme a morte, não teme nada.

  345. Para muitos, a parte mais angustiante não é a morte em si, mas ter que esperar por ela.

  346. Você sabe que vai morrer, só não sabe quando, e isso produz ansiedade.

  347. Na morte, todas as sensações cessam, não sendo, portanto, diferente de pegar no sono, algo que você já faz todas as noites.

  348. Então, não se preocupe com a morte, só viva a sua vida.

  349. Isso não quer dizer que você deve ser suicida, porque isso seria um desperdício de um monte de coisas boas que a vida pode oferecer.

  350. Temer a morte e desejar a morte prejudicam a liberdade.

  351. Procure o prazer prudentemente.

  352. Não aja como soubesse o futuro: pode ser que, no futuro, se descubra um jeito de não morrer.

  353. Algo que você considera inevitável agora pode não ser inevitável no futuro.

  354. O prazer é a métrica que nos permite julgar nossas ações.

  355. Se um prazer traz uma dor futura e essa dor é maior que prazer experimentado, tal prazer não vale a pena.

  356. Por outro lado, se uma dor traz um prazer maior no futuro, essa é uma dor que vale a pena sentir.

  357. O sustento é mais fácil de obter do que o luxo.

  358. Se você tem luxo, pode ser que você não saiba lidar com uma situação na qual não pode desfrutar desse luxo (por exemplo: uma pessoa rica que depois perde tudo, pode não conseguir se adaptar à vida de pobre).

  359. O melhor tempero pra uma comida é a fome: a comida é sempre mais gostosa quando estamos esfomeados.

  360. Se você sabe viver com pouco, poderá se adaptar à vida de pobre, caso venha a perder sua riqueza.

  361. Além disso, a comida simples é mais saudável.

  362. O prazer é bom quando ele faz cessar a dor; mais que isso é excesso e, como todo excesso, é arriscado.

  363. É possível maximizar o bem-estar escolhendo os prazeres segundo o grau de dor implícito: uma atividade que traz muito prazer e pouca dor (imediata ou futura) vale mais a pena que a atividade que traz muito prazer e também muita dor (imediata ou futura).

  364. Já uma atividade que traz mais dor que prazer não vale a pena e deve ser evitada.

  365. Sempre satisfaça suas necessidades naturais quando sua não-satisfação for mortal (como é o caso da fome, já que você pode morrer se não comer).

  366. Se você tem uma necessidade natural que não te matará se não for satisfeita (desejo sexual, por exemplo), você deve satisfazê-la se isso valer a pena (ver notas 363 e 364).

  367. Se você tem uma necessidade que não é natural (fama ou riqueza), ignore-a até que desapareça.

  368. “Hedonismo” é a doutrina filosófica segundo a qual o prazer é o elemento central da vida feliz.

  369. A ausência de dor (tranquilidade) é o único prazer estável, obtido quando você está numa condição em que não tem nada do que reclamar.

  370. Os outros prazeres são de curta duração.

  371. É sábio buscar a tranquilidade: use o prazer apenas pra afastar a dor.

  372. Quem não se guia pela razão, é propriamente um bicho.

  373. Emoções prejudicam o pensamento.

  374. A razão faz parte da natureza humana.

  375. Se esse é o caso, a ação racional é a ação natural do homem.

  376. Agir irracionalmente é antinatural ao homem, portanto.

  377. O que importa é o significado da palavra, não o vocábulo.

  378. Pior do que estar insatisfeito com sua condição é ter que fingir estar satisfeito pra manter a imagem.

  379. A condição de serenidade é preferível à situação em que muitas mudanças podem ocorrer.

  380. Infeliz é quem não está satisfeito com sua própria condição.

  381. Pior que desejar algo ruim é desejá-lo sem razão.

  382. Há quem não saiba dominar as próprias emoções, mas também há aqueles que não sabem se entregar às próprias emoções.

  383. Os que gostam de viver em público odeiam o estudo, a casa e a solidão.

  384. Quando você está insatisfeito consigo mesmo ou com sua condição, você se entrega a atividades inúteis, à inquietude (fica querendo fazer alguma coisa, sem saber o que fazer) e à indecisão.

  385. Tal pessoa não está em condições de fazer uma escolha da qual não irá se arrepender.

  386. Por exemplo: ela busca alento na solidão… aí percebe que odeia a solidão.

  387. Aí, o sujeito viaja pra outros lugares… aí percebe que está ficando sem lugares pra visitar.

  388. O insatisfeito acaba se resignando à falta do que fazer.

  389. Tal pessoa acaba tendo inveja da satisfação dos outros.

  390. Quem é invejoso e insatisfeito não pode obter sucesso pra si, então passa a desejar que os outros também fracassem.

  391. Mesmo quando você viaja, você fica com tédio no lugar que visita.

  392. Viagens excessivas são sinal de que a pessoa está tentando fugir de si mesma.

  393. O mal que experimentamos depende mais de nós mesmos do que do mundo à nossa volta: não é o mundo, mas como você lida com o mundo que importa.

  394. Quem está insatisfeito consigo próprio pode desenvolver ideação suicida.

  395. Se você põe suas esperanças de satisfação em diferentes metas, se decepcionará quando alcançar uma dessas metas e perceber que ainda não está feliz.

  396. Isso é agravado quando diferentes objetivos trazem os mesmos resultados após alcançados.

  397. Para uma pessoa assim, tudo no mundo se tornará tedioso cedo ou tarde.

  398. Ser razoável também é racional.

  399. Ascetismo é inútil.

  400. Quando você aceita a si mesmo, você se torna espontâneo e a vida se torna mais simples.

  401. Se você não se aceita, ficará insatisfeito (ver notas 380 a 397).

  402. As pessoas não estão te julgando o tempo todo; se você pensar que estão, estará sempre preocupado.

  403. A razão não deve ser usada pra esconder sua verdadeira natureza, porque o fingimento também prejudica a tranquilidade.

  404. Além disso, existem várias situações nas quais deixamos escapar pistas que dizem aos outros quem realmente somos.

  405. Aceitar a si mesmo nos deixa mais soltos e tranquilos.

  406. As coisas fáceis de obter são menos interessantes.

  407. Melhor você passar uma vergonha transitória do que fingir o tempo todo, só pra não passar essa vergonha.

  408. Uma coisa é a autoaceitação, outra é correr riscos desnecessários.

  409. Autocontrole também é uma virtude moral e, como tal, pode se tornar um vício quando em excesso.

  410. Existe uma hora pra se socializar e outra pra ficar sozinho.

  411. A vida não é só trabalho: não há nada de errado em tirar tempo pra curtir.

  412. Se você só trabalha ou só brinca, você adoecerá; é preciso fazer as duas coisas alternadamente.

  413. “Oito horas de trabalho, oito horas de sono, oito horas de tempo livre” é só uma das formas de organizar o tempo, você pode organizar o seu como você quiser.

  414. Quando você se socializa em excesso, alguns problemas pessoais podem ser agravados.

  415. Tudo bem você dizer “desculpa, hoje não tô a fim de ver ninguém, ligo quando eu melhorar”.

  416. O excesso de socialização também nos expõe à tentações.

  417. Quando você sente tédio por estar sozinho, se socialize.

  418. Quando você sente cansaço por estar com os outros, se isole.

  419. Socialização e recolhimento também devem ser alternados segundo a necessidade (se você gosta mais de estar sozinho do que com outros, tudo bem você passar mais tempo sozinho).

  420. Se você vai descansar, não leia sua correspondência nem mensagens que possam ter chegado.

  421. Um bom jeito de relaxar é ter algum contato com a natureza.

  422. Beba com moderação.

  423. Consumir vinho moderadamente alegra o espírito; consumir vinho em excesso produz o alcoólatra.

  424. Loucura pode ser útil, como força empregada pela criatividade.

  425. A menos que você seja profeta, não fale como se fosse superior.

  426. Para fazer algo de relevância histórica, é preciso deixar o modo cotidiano de agir.

  427. A tranquilidade é um bem que requer manutenção; se você descuida da sua, ela se estraga e desaparece.

  428. Felicidade é ausência de dor.

  429. A natureza humana é parte da natureza do universo, pois nela está inserida.

  430. Dependendo da sua disposição de espírito, nenhum lugar da Terra é ruim pra viver.

  431. O mundo interior é sempre acessível.

  432. Faça do bem comum (seu e dos outros) sua meta.

  433. Não há múltiplo sem unidade, a qual precede o múltiplo sempre.

  434. Matematicamente, todos os números derivam de unidades.

  435. Se o universo não viesse de um princípio único, mas de vários princípios, a harmonia do universo seria muito difícil ou talvez impossível de obter.

  436. Tal princípio pode se tornar qualquer outra coisa.

  437. Esse princípio não pode ser racionalmente estudado.

  438. “Transcendência” é a qualidade de algo que está fora da nossa realidade, existindo em outra, separada.

  439. Por exemplo: Deus é transcendente, ele não está na Terra e talvez nem em nosso universo.

  440. “Emanação” é o fenômeno no qual uma realidade se origina de outra por excesso de energia criativa, como se cada realidade fosse um prato que se enche e transborda para o prato maior imediatamente abaixo (tipo aquelas fontes).

  441. A emanação precisa de um princípio criativo, de onde parte a energia criativa.

  442. A arte é a manifestação sensível da inteligência.

  443. As belas-artes purificam a pessoa.

  444. A beleza não está somente nos corpos.

  445. Nem todo corpo é belo.

  446. Para causar prazer estético, a arte precisa estar harmônica com a alma de quem a vê, ouve ou sente.

  447. Por padrão, a matéria não tem significado.

  448. A matéria adquire significado dependendo do que você faz dela.

  449. Assim nasce a obra de arte, pela organização da matéria segundo uma ideia.

  450. A capacidade de apreciar a beleza varia de pessoa pra pessoa.

  451. A ciência pode ser bela, bem como a virtude.

  452. É mais fácil ver a beleza daquilo que você ama.

  453. O bem é belo.

  454. “Retorno” é a tentativa de se conectar com as realidades superiores emanadas (ver nota 440), culminando com a conexão com o princípio criativo.

  455. “Hipóstase” é cada uma das realidades emanadas (no sistema neoplatônico, seriam o princípio criativo, seguido pelo intelecto e depois a alma, inclusive a alma humana).

  456. Deus criou o tempo.

  457. Não há antes e depois sem o tempo.

  458. Então, perguntar o que Deus fazia “antes” de começar a criação não faz sentido, porque “antes” só existe se houver tempo e o tempo não existia antes da criação.

  459. Onde não há tempo, não há nem amanhã e nem ontem, só hoje.

  460. Falamos de tempo sem saber definir o tempo: tente você dizer o que é o tempo.

  461. Sabemos o que é o tempo intuitivamente, mas explicar o tempo a outra pessoa é muito difícil.

  462. Passado não existe mais; futuro ainda não existe.

  463. Só o presente existe.

  464. Nós medimos o tempo entre dois eventos passados (entre algo que ocorreu há dez dias e algo que ocorreu há dez anos), mas como se mede o que não existe?

  465. O mesmo se aplica ao futuro, quando medimos o tempo entre dois eventos cuja ocorrência antecipamos.

  466. Estranhamente, embora possamos medir o tempo entre eventos passados (que não existem mais) e eventos futuros (que ainda não existem), o presente (o qual existe) não pode ser medido.

  467. Só é possível medir o tempo e registrar tal medida no presente: quando um fenômeno acontece e o percebemos, registramos sua ocorrência no presente (na memória, por exemplo) e, quando outro evento acontece e o percebemos, também o registramos.

  468. Daí, é possível saber o tempo percorrido entre os dois registros.

  469. O passado pode ser trazido ao presente pela memória e o futuro pode ser trazido ao presente pela antecipação.

  470. Eventos passados e eventos futuros só existem enquanto são presente, mas passado e futuro como tempos só existem em nossa cabeça: o passado como memória, o futuro como antecipação.

  471. “Criação” é o processo pelo qual o universo veio a existir.

  472. “Mal” é ausência de bem.

  473. “Pecado” é a ação contrária à vontade divina.

  474. É pelo pecado que o ser humano produz o mal.

  475. Nem sempre é necessária uma razão pra fazer o mal: alguns o fazem só por prazer.

  476. Algumas ações são crimes e pecados.

  477. Por trás de algumas más ações está a vontade de se ferrar, como se alguns quisessem se dar mal pra ver o que acontece.

  478. Um ladrão não tolera ser roubado.

  479. Não é preciso passar necessidade pra roubar.

  480. Há os que roubam sem intenção de vender o objeto roubado nem usá-lo.

  481. Há também os que fazem o mal apenas para mostrar que podem fazê-lo, para impor sua vontade aos que dizem “não faça isso”.

  482. A mente humana sozinha não pode conhecer Deus totalmente.

  483. “Êxtase” é a sensação de comunhão com a divindade, o último nível de ascensão espiritual.

  484. Tal sensação não é racional.

  485. É possível entender algo que não existe: eu tenho em mente uma planta de uma casa que ainda não construí.

  486. É possível pensar num Deus perfeito.

  487. Ignorando o significado das palavras, é possível arranjar qualquer frase absurda.

  488. Uma coisa é raciocinar com conceitos (significados), outra é se ater só aos vocábulos (palavras).

  489. Se você crê em Deus, deverá harmonizar sua fé com a razão.

  490. Os fundamentos da lógica são intuitivos.

  491. O homem é capaz de conhecer a verdade.

  492. “Tomismo” é a doutrina filosófica de Tomás de Aquino, para quem fé e razão são complementares.

  493. O processo de passar da potência ao ato é chamado movimento.

  494. Não é possível parar o devir.

  495. Todo efeito tem causa, mas não é possível pensar uma cadeia causal infinitamente regressiva.

  496. É preciso que haja algo que criou sem ser criado.

  497. Não existe um efeito que tenha a si mesmo como causa.

  498. É estúpido ser conformista.

  499. Praticar uma autêntica ciência é loucura.

  500. Mas a loucura pode trazer felicidade.

  501. O ritual religioso pode também trazer loucura.

  502. Geralmente, os que condenam a loucura são os mais loucos.

  503. A loucura pode trazer alegria mais rapidamente do que a razão.

  504. Fanatismo religioso leva à loucura.

  505. A dissonância entre mente e corpo é sintoma de loucura.

  506. Mas o fato é que a mente é capaz de coisas incríveis nessas condições.

  507. Um sábio e um estúpido são loucos um para o outro.

  508. O critério de normal é variável.

  509. Há vários estilos intermediários de vida entre o religioso e o materialista.

  510. A missa não é o ritual, mas o que o ritual representa.

  511. Se você é religioso, não seja apenas de corpo.

  512. Valores tidos em alta conta pela sociedade podem não significar nada pra alguns que a integram.

  513. Ir à missa e não absorver nada dela é hipocrisia: você é religioso apenas por fora.

  514. “Livre-arbítrio” é a capacidade de escolha entre diferentes ações disponíveis.

  515. “Graça” é o nome dado à possibilidade de Deus salvar uma alma com base somente em seu arbítrio, sem levar em consideração as ações da pessoa em vida (você seria salvo “de graça”).

  516. “Loucura” é o contrário de razão.

  517. A sua capacidade de pecar prova que você não é programado por Deus.

  518. Não fosse a vontade de Deus em nos salvar, nenhum número de boas ações bastaria.

  519. Mas Deus não vai salvar uma pessoa que não faz o que ele manda.

  520. Você não é tão ruim quanto você pensa.

  521. Alguém só pode ser responsabilizado se a liberdade existir, porque, se fôssemos programados, nada seria nossa culpa, mas de quem nos programou.

  522. Temos uma dimensão espiritual e uma dimensão material.

  523. Realizar um ritual sem crer no ritual é hipocrisia.

  524. Pra quem é cristão, os evangelhos devem bastar.

  525. Discipline seu corpo pra que ele não te seja um estorvo.

  526. Só Deus tem total liberdade de ação.

  527. Você gasta mais quando pensa que seu dinheiro não vai acabar.

  528. Se tem coisas que não entendemos na natureza, como poderemos conhecer totalmente o sobrenatural?

  529. As representações humanas de Deus falham porque um ser finito não pode representar adequadamente um ser infinito (é a ideia de que um pensamento finito só pode pensar Deus reduzindo-o ao finito).

  530. Para conhecer algo pela razão é preciso colocar o desconhecido e o conhecido em proporção, comparando-os.

  531. Se determinado conteúdo desconhecido está tão além de nós a ponto de não poder ser colocado em proporção com o que já sabemos, tal conteúdo permanecerá desconhecido (como ensinar física a quem não sabe matemática).

  532. Assim, o aumento do conhecimento é gradual e lento.

  533. Não é possível esgotar cognitivamente o infinito: se é infinito, é inesgotável.

  534. Quanto mais distante um conhecimento é daquilo que você já sabe, mais difícil será aprendê-lo.

  535. Para aprender algo novo, é preciso admitir que você não sabe tudo.

  536. Então, os que mais aprendem estão cientes de sua própria ignorância.

  537. Se você olha a base de um triângulo muito de perto, pensará que não se trata de um triângulo, mas de uma linha apenas.

  538. O homem pode ser o que ele quiser, dentro de suas capacidades.

  539. Animais também têm mente inconsciente.

  540. A ligação entre alma e corpo é demonstrável pelo fato de substâncias sem elemento espiritual serem capazes de alterar estados de espírito.

  541. Há outros mundos além deste.

  542. Não há razão pra pensar que só a Terra abrigue vida inteligente.

  543. Existem coisas além do ponto aonde nossa visão alcança, do contrário o limite da Terra seria o horizonte.

  544. Se Aristóteles vivesse na Lua, concluiria que a Lua é o centro do universo, porque, independente de nossa posição no espaço, sempre temos a sensação de estar no centro do espaço.

  545. A farmacologia foi inventada por médicos que também acreditavam em magia e esperavam que o homem, sendo feito dos quatro elementos, poderia ter seu corpo afetado pelos elementos da natureza, que seriam administrados em um estado diferente de seu estado natural.

  546. Não há razão pra usar apenas medicamentos orgânicos, quando há também medicamentos minerais.

  547. Se os elementos do homem se dissipam, o sujeito morre.

  548. Conhecer a origem das doenças não pode ser feito sem conhecer a natureza.

  549. Animais “comuns” também pensam.

  550. A inteligência refina os dados sensoriais, mas tal refinamento não seria necessário se nossos sentidos fossem perfeitos.

  551. Não confunda pesquisa com fantasia, não atribua à natureza elementos que lhe são estranhos.

  552. Frio e calor são ambos necessários à vida.

  553. “Naturalismo” é a doutrina segundo a qual tudo é natural (ou seja, nada é sobrenatural), de forma que Deus seria como que a força que anima a natureza (portanto, imanente a ela).

  554. Para o naturalismo, a natureza deve explicar a si própria, sendo prejudicial o uso da metafísica como meio de explicá-la.

  555. Não, a natureza só pode ser explicada por processos naturais, dizem os naturalistas, porque não existe nada acima da natureza.

  556. Mulheres deveriam fazer parte das forças armadas.

  557. Se você tem uma cidade, pense em como defendê-la, mesmo que viva em tempos de paz.

  558. Nada de errado em discutir sua vida sexual com um médico.

  559. Pais saudáveis provavelmente gerarão um filho saudável.

  560. Não há necessidade de viver em família; melhor seria uma criação comunitária, na qual todos os adultos cuidam de todas as crianças, sem que o cuidado de uma criança seja incumbência de apenas dois adultos.

  561. Isso favorece o sentimento de pertencimento à sociedade, não à família, reduzindo o individualismo e favorecendo a vontade de trabalhar pelo bem do grupo inteiro.

  562. Todo o saber produzido por alguém deve estar disponível a todo o povo.

  563. Se todas as coisas fossem comuns (como no comunismo), seria preciso que os bens fossem movidos de uma pessoa à outra por um terceiro, que regulasse a partilha de bens, para que um necessitado pudesse ficar com o excedente produzido por outro, e aquilo de que você não precisa fosse dado a alguém que precisa.

  564. O egoísmo é reforçado pela casa própria, pelo casamento e pela construção de família, que leva você a se preocupar somente consigo e com os que estão imediatamente próximos, sem pensar no país.

  565. O amor ao próximo e à nação estimularia cada um a trabalhar (até porque, se excedente não for produzido, vai todo o mundo ficar pobre).

  566. A propriedade privada é uma fonte dos mais variados vícios.

  567. A inexistência da família não impede o desenvolvimento de valores morais.

  568. Se tudo fosse de todos, não haveria necessidade de dar presentes pra demonstrar afeto.

  569. O importante é que ninguém passe necessidade.

  570. É possível mostrar afeto por uma pessoa ajudando-a nos estudos, apoiando-a em tempos de doença e defendendo-a do perigo.

  571. Mesmo uma sociedade assim ainda precisa de leis.

  572. O conhecimento deve estar disponível a todos.

  573. A criança que brinca e corre crescerá forte.

  574. A criança deve ser exposta às oficinas e a outros locais de trabalho, pra que ela possa formar uma ideia do que ela quer fazer quando for mais velha.

  575. A criança deve ser um membro ativo da sociedade e trabalhar pra sua manutenção.

  576. Não menospreze a educação física.

  577. Se dedique ao ramo do saber que te dá mais prazer: se você gosta mais de filosofia, não tem sentido tentar se formar em química.

  578. Seria interessante ensinar agricultura a crianças.

  579. Aquilo que é louvável na vida privada pode causar a ruína de um governo: ser misericordioso enquanto cidadão é uma coisa, mas ser misericordioso como político pode ser inaceitável.

  580. Olhe para as coisas segundo o que elas são, não segundo o que você acha que elas deveriam ser.

  581. Por vezes o governo deve fazer algo que é considerado “ruim” para a moral.

  582. Se você é bom num mundo de gente má, você se ferrará muito.

  583. Não é possível ser uma pessoa boa 100% do tempo quando se é governante.

  584. Às vezes é necessário fazer algo condenável pelo bem do país.

  585. O povo está julgando o governante a todo momento.

  586. Ninguém é perfeito, nem como cidadão e nem como governante.

  587. Um hábito que constitui virtude na vida comum pode ser um vício na vida política; um hábito que constitui virtude na vida política pode ser um vício na vida comum.

  588. Se o governo for muito “bonzinho”, se ele não tiver pulso, todo o mundo quebrará a lei e o país descenderá no caos.

  589. A violência, por exemplo, na forma de prender malfeitores, deve ser empregada realisticamente.

  590. O ideal é que o governo seja amado e temido (“respeitado”, por assim dizer), mas é muito difícil conciliar as duas coisas.

  591. O governo deve se fazer amado ou temido dependendo da ocasião.

  592. Quando o governo perdoa um criminoso, qual é a mensagem que se passa, se não de que não existe lei?

  593. A criação de um novo governo requer violência.

  594. Se, por um lado, o governo precisa usar a violência, é de suma importância que nenhum dos integrantes do governo pareça pessoalmente cruel, isto é, ele precisa manter a imagem de que está apenas cumprindo a lei ou fazendo seu dever quando manda alguém pra cadeia.

  595. Se, por um lado, perdão e punição são ambos úteis, um governo que não perdoa pode subsistir sem a prática do perdão.

  596. O contrário não é possível: um país cujo governo só perdoa, sem nunca punir, será caótico.

  597. Um bom acordo político se funda no interesse recíproco: qual é o governante de bom senso que faz um “acordo” no qual não ganhará nada em troca?

  598. O governo que não pune cria cidadãos violentos.

  599. Donde decorre que, na prática, nenhum cidadão quer um governo “bonzinho”.

  600. Mas isso não quer dizer que o governo deve ser autoritário!

  601. Ser temido é mais seguro que ser amado.

  602. O governante deve antecipar o comportamento do povo, porque o povo está sempre disposto a trair o governante quando tal governante precisa do povo (embora o povo esteja sempre lá pra pedir favores e melhoras na condição de vida).

  603. Se você é político, não faça um acordo sem esperar nada em troca, porque você não tem garantia de que a pessoa que acordou com você estará disposta a fazer o mesmo.

  604. Na política, gratidão não compra seu pão.

  605. É mais fácil ofender alguém que você ama do que alguém que você teme.

  606. É mais fácil ser leal a quem você teme do que a quem você ama.

  607. O governo pode ser temido sem ser odiado.

  608. Se o governo passar dos limites e se tornar odiado pela população, também isso será prejudicial.

  609. Um político não deve fazer acordos com uma outra nação simplesmente porque ama aquela nação.

  610. Um bom jeito de atrair a ira da população é punir cidadãos visando ganho econômico.

  611. O político não é nada sem sua imagem.

  612. Não existe pessoa incapaz de trair.

  613. É próprio do homem combater com as leis; é próprio do animal combater com a força.

  614. O governo deve ser forte e inteligente, para afastar perigos externos.

  615. Não haveria a necessidade de astúcia se não houvesse pessoas más no mundo.

  616. Sempre há alguém disposto a enganar você.

  617. Política nada tem a ver com ética, nem com religião.

  618. Se todos trabalhassem, a jornada de trabalho de cada um não precisaria passar de seis horas por dia.

  619. Seria interessante se cada família produzisse as próprias roupas.

  620. Trabalhe no que te dá prazer.

  621. Todos deveriam conhecer agricultura.

  622. Melhor a roupa confortável que a roupa bonita.

  623. Se estiver em dúvida entre duas profissões que te dão prazer, escolha dentre essas a profissão que for mais útil aos outros.

  624. Desde que você não esteja prejudicando a ninguém nem a si mesmo, ninguém pode te dizer o que fazer no seu tempo livre.

  625. Não é censurável trabalhar no tempo livre, desde que você faça isso porque você é um desses raros homens que sente prazer no trabalho que exerce.

  626. Gostar de estudar não é uma vergonha.

  627. Se todos trabalhassem, as necessidades do país seriam supridas e ainda se obteria excedente.

  628. Ponha os desempregados pra trabalhar e você verá a economia florescer.

  629. As coisas essenciais, que todos usamos diariamente, são produzidas por menos da metade da população.

  630. Se todos trabalharem, reduzir a jornada de trabalho não ocasionará pobreza.

  631. A mulher deve participar da guerra.

  632. Homens e mulheres devem ser punidos igualmente por seus crimes.

  633. O problema do aumento populacional pode ser resolvido pela expansão de território.

  634. O sujeito mais velho da família deve ser o chefe da família, a menos que algum problema grave o impeça de exercer esse papel.

  635. Nesse caso, o segundo mais velho deve ser o chefe.

  636. Deve haver um limite mínimo e um limite máximo de pessoas em cada família.

  637. Caso uma família ultrapasse o número máximo de integrantes, alguns dos mais novos devem ser adotados por famílias que não tenham o número mínimo de integrantes.

  638. Numa cidade onde há excesso de cidadãos, é preciso que o excedente se mude.

  639. Relacionamento intergeracional poderia ser liberado.

  640. Onde há liberdade sexual, o casamento perde a relevância.

  641. Não se case com alguém que você nunca viu nu.

  642. Se o divórcio for fácil, poucos casamentos durarão.

  643. Melhor do que vencer uma guerra é não ter que entrar em guerra.

  644. Se algo for muito caro, pode ser que obtê-lo não valha a pena.

  645. Não se deve zombar de alguém por uma condição que ele não escolheu.

  646. A beleza de verdade vem do cuidado com o corpo, não dos cosméticos.

  647. “Utopia” é qualquer ideal de sociedade, quer ele seja ou não alcançável.

  648. Se o ideal é “perfeito”, tal ideal é inalcançável pelo homem.

  649. A Bíblia Sagrada usa tanto linguagem literal como simbólica, de forma que não se deve considerar tudo ao pé da letra.

  650. Uma interpretação particular da Bíblia Sagrada pode estar erradas: diferentes pessoas tiram diferentes conclusões dos textos sagrados.

  651. A forma mais fácil de interpretar a Bíblia Sagrada é pela via literal, mas fazer isso produz erros graves.

  652. Ao interpretar a Bíblia Sagrada literalmente, pode ser que o sujeito conclua uma blasfêmia.

  653. Quando os textos sagrados foram escritos, eles tinham em mente o público geral da época de cada escritor.

  654. Dessa forma, era preciso usar uma linguagem que funcionava naquele tempo com pessoas daquele contexto cultural.

  655. Por causa disso, o sujeito que interpreta a Bíblia Sagrada literalmente não está em boas condições de praticar a ciência.

  656. A Bíblia Sagrada pode ser mal interpretada.

  657. A natureza também é obra de Deus, uma obra que pode ser estudada cientificamente.

  658. Se a Bíblia Sagrada pode ser mal interpretada, devido a sua linguagem distante da nossa, mas a natureza pode ser interpretada de forma cada vez mais clara pela ciência que avança, uma pessoa não pode levianamente usar versos bíblicos, em seu sentido literal, pra contestar a ciência.

  659. Havia ciência nas épocas em que os textos sagrados foram escritos e os profetas provavelmente conheciam tal ciência pra usá-la como dispositivo de discurso, facilitando o entendimento de quem os ouvia.

  660. Deus não teria nos dado a razão se não fosse pra usarmos ela.

  661. Você lê a Bíblia Sagrada pra saber o que fazer pra salvar sua alma, não pra aprender astronomia.

  662. Se a experiência contradiz uma pessoa de prestígio, acredite na experiência.

  663. Isso porque uma pessoa, mesmo que seja um cientista do momento, sempre pode estar errada.

  664. Na ciência, é ver para crer: se um doutor qualquer diz algo cujo erro você constata pela sua experiência, não é no doutor que você deve acreditar.

  665. A ciência fala uma língua e essa língua é a matemática.

  666. Algumas pessoas creem que fazer ciência ou filosofia é o mesmo que interpretar textos, sem antes se perguntar se o texto lido está dizendo a verdade.

  667. A veracidade de um texto não é medida pela fama de quem o escreveu.

  668. Mas, se você quer dar crédito a um autor, estude a natureza, porque Deus é o autor da natureza.

  669. Hoje em dia, não se faz física sem matemática.

  670. Não é possível entender um texto sem interpretá-lo.

  671. A ciência que se ocupa das técnicas de interpretação de texto é a hermenêutica.

  672. Existem qualidades inerentes aos objetos e qualidades que são atribuídas a eles por nossa percepção (a “impressão” que temos deles).

  673. “Experiência” é a observação casual que fazemos de algo que se apresenta a nós.

  674. “Experimento” é a observação de um fenômeno que causamos pra propósitos de estudo, caracterizado pela repetição.

  675. As cócegas são uma propriedade subjetiva do tato, residindo portanto em nós, não na mão que faz as cócegas.

  676. Sentir cócegas tem mais a ver com sua sensibilidade do que com o objeto que as suscita.

  677. Embora todo corpo tenha extensão e solidez, qualidades subjetivas como sabor e cheiro só existem como impressões, dependendo da interação do objeto conosco, nunca do objeto em si.

  678. Quando você dá muito crédito a um autor, você ignora evidências de que tal autor possa estar errado.

  679. A recusa de um teólogo em aceitar evidência científica é justificável, já que se trata de uma questão de fé… mas é inaceitável que um cientista, que pertence a um ramo laico do saber, se feche para evidência contrária às suas conclusões.

  680. Existem cientistas dogmáticos, isto é, que não aceitam evidência que contradiga o que eles já aprenderam e consideram como correto.

  681. Algumas pessoas são convencidas pela evidência, mas não aceitam porque alguém de autoridade disse algo que contradiz a evidência.

  682. Pessoas que põem unicamente a autoridade de um autor como prova contra uma dada hipótese são participantes de um debate para o qual não contribuem.

  683. Pessoas assim atrapalham o debate, que passa a fechar sem conclusão.

  684. Uma ideia pode ser descreditada não pelo que ela é, mas pelo comportamento de quem a defende.

  685. Alguns pensadores que hoje estão mortos mudariam suas teorias se dispusessem do conhecimento que temos hoje e estivessem vivos.

  686. Assim, defender um texto científico escrito cem anos atrás, quando há evidência contrária hoje, é ridículo, algo que talvez não seria endorsado pelo pensador defendido.

  687. Ser adepto de um pensador de prestígio pode ser uma manifestação de timidez: você quer estar do lado vencedor, então, em vez de expor seu próprio pensamento, você fica na sombra de alguém cuja reputação já está estabelecida.

  688. Quando a evidência é experimental, ela só pode ser negada por outra evidência experimental, não por um modelo teórico.

  689. Estude seus erros para não repeti-los.

  690. Há um número de processos inconscientes que trabalham para o condicionamento de nossas conclusões científicas.

  691. Hábitos são fontes de erros.

  692. Nosso conhecimento do universo é condicionado por nossa percepção.

  693. Nosso conhecimento também é condicionado por nossa bagagem cultural.

  694. Nossa produção é condicionada por nosso ponto de vista.

  695. Por último, nossa produção é condicionada pelas palavras que usamos.

  696. Aprender algo de forma errada fará com que o produto do pensamento daquela pessoa seja defeituoso.

  697. Para evitar a produção de conhecimento que não serve, é preciso ter método.

  698. O título de filósofo só deve ser dado a quem, com a prática da filosofia, for capaz de mudar o mundo para melhor.

  699. Um saber das obras (experimento) é mais seguro que um saber de palavras (silogismo).

  700. Um saber que fundamenta em informações falsas está errado.

  701. A dedução só explica e clarifica o que já está implícito em afirmações aceitas; na prática, não produz conhecimento novo.

  702. “Indução” é a generalização dos achados coletados em uma amostra de casos semelhantes.

  703. Quando uma indução examina todos os casos possíveis de um fenômeno, ela é perfeita (amostragem total, verdadeira); quando examina apenas uma parcela desses casos, ela é imperfeita (amostragem representativa, estatística).

  704. Um bom método reduz a chance de conclusão errada.

  705. O pensamento científico é diferente do pensamento quotidiano.

  706. A prática científica deve ser feita sem se importar com o que a sociedade vai pensar da conclusão.

  707. Duas coisas semelhantes não são idênticas nem devem receber tratamento idêntico.

  708. Deve haver separação entre ciência e arte.

  709. Um achado científico deve ser generalizável.

  710. A reflexão sobre o método científico é mais importante que a ciência.

  711. A arte é prática, a ciência é teórica.

  712. Ninguém está te obrigando a aprender uma só ciência.

  713. Produzir um estudo visando um fim particular pode prejudicar sua imparcialidade e, consequentemente, sua generalização e validade.

  714. É fácil ficar rico mentindo pra leigos.

  715. Por mais que você tenha motivos e ideais nobres, não deixe que eles prejudiquem a imparcialidade de seu estudo.

  716. Se você domina mais de uma ciência, sua percepção do real é mais clara e seu trabalho científico será mais produtivo.

  717. “Método” é um sistema de regras que tem como função minimizar a chance de erro ao desempenhar certa tarefa.

  718. Se algo não parece certo, duvide.

  719. Pode ser que, no futuro, você perceba que a escola te ensinou muita coisa errada.

  720. Desconfie de quem já te enganou antes.

  721. Você só sabe que estava sonhando depois que acorda.

  722. Você só sabe que estava louco quando recupera a sanidade.

  723. O sonho usa memórias como matéria-prima.

  724. A dúvida deve se tornar um hábito.

  725. Quando uma mentira é boa demais, preferimos não buscar a verdade.

  726. O esforço pra alcançar a verdade pode não valer a pena, quando a verdade decepciona.

  727. Algo pode ser considerado verdade quando resiste a toda dúvida que se lhe opõe.

  728. “Cogito” é a ideia segundo a qual a prova de nossa existência é nosso pensamento: pra pensar, é preciso existir.

  729. Portanto, se eu penso, eu existo.

  730. Somos compostos de corpo e pensamento (ou espírito).

  731. “Evidência” é uma informação que não se pode contradizer.

  732. Uma boa dedução é feita com base em evidências.

  733. De vez em quando, enquanto sonhamos, percebemos que estamos sonhando.

  734. Todo corpo tem extensão e ocupa lugar único no espaço, lugar que não pode ser ocupado por outro corpo.

  735. “Inatismo” é a doutrina segundo a qual nascemos com certas habilidades mentais, de forma que certas coisas não precisamos aprender, porque literalmente nascemos sabendo.

  736. Se você trabalha com premissas falsas, um silogismo perfeitamente conduzido concluirá um absurdo.

  737. Uma dedução que não se apoia em evidências (ver nota 731) não é segura.

  738. A dedução deve seguir passos e as informações devem ser avaliadas na ordem correta.

  739. A matemática lida com coisas simples e evidentes, por isso nunca está errada quando corretamente conduzida: quanto mais simples for o objeto de estudo, mais difícil será errar.

  740. Deus deve ser bom, ou não será Deus.

  741. É preciso ter corpo para que haja sensação.

  742. Não escolhemos o que sentimos.

  743. É corpo o que tem três dimensões (altura, largura e comprimento).

  744. Portanto, a essência do corpo é sua extensão, sua delimitação no espaço.

  745. “Dedução” é a tentativa de concluir algo a partir de informações já disponíveis.

  746. Se as informações disponíveis forem falsas, a dedução concluirá erroneamente.

  747. “Mecanicismo” é a doutrina segundo a qual o mundo e seus fenômenos são explicáveis pelas leis do movimento e pelas leis que governam a matéria.

  748. O mecanicismo só deve ser aplicado a corpos, não ao pensamento ou a outras coisas incorpóreas.

  749. O único bicho que faz guerra é o ser humano.

  750. O uso da razão implica julgamento.

  751. O ser humano também é único bicho capaz de mentir.

  752. “Animais políticos”, como abelhas e formigas, agem em sociedade em virtude do instinto, de forma que, cada uma agindo como apenas como a natureza prescreve, a colônia prospera e o bem comum é mantido sem a necessidade de um comandante.

  753. Isso não acontece com seres humanos, pois sociedades humanas só prosperam sob um comandante.

  754. Isso acontece porque nós temos uma tendência individualista, que afasta um homem do outro.

  755. Além disso, o bem individual de uma abelha ou de uma formiga coincide com o bem comum, ao passo que, com o ser humano, o bem comum e o bem particular podem diferir.

  756. A razão, que permite o crescimento do ser humano, também nos leva a pensar de forma diferente, o que também afasta os homens um do outro.

  757. Algumas pessoas não precisam de uma razão pra mentir.

  758. Só humanos podem ofender uns aos outros além da dimensão física.

  759. A paz entre humanos é sempre um acordo (o chamado “contrato social”, que dá origem às sociedades), não algo natural.

  760. Você não precisa ser pobre pra ser violento.

  761. “Absolutismo” é a doutrina política segundo a qual todo o poder deveria se concentrar numa instituição só, tal instituição deveria estar acima da lei, os súditos não deveriam ter liberdade individual, tais súditos não poderiam se rebelar e deveria haver fusão entre igreja e governo.

  762. É o medo da punição que faz com que respeitemos a lei.

  763. O governo depende da capacidade do povo de se reconhecer nesse governo.

  764. Se você não teme a lei, a quebrará.

  765. Você é responsável pelas ações de seu governante, porque as autoriza.

  766. O poder pode ser concedido ou tomado.

  767. Evite a violência para não receber violência em troca.

  768. Se pudermos reduzir o pensamento humano à operações matemáticas, já andamos meio caminho na concepção de uma inteligência artificial perfeita.

  769. A linguagem e a matemática têm muito em comum.

  770. Observe como um silogismo é muito parecido com um cálculo aritmético.

  771. Acreditando em Deus você ganha mais que sendo ateu.

  772. Se você não vive como crente, terá menos fé.

  773. Quanto mais você pratica uma religião, mais difícil será deixá-la.

  774. Cedo ou tarde, você terá que decidir se crê ou não em Deus.

  775. Se você mesmo não sabe se Deus existe, você não pode, com razão, criticar nem o crente e nem o ateu.

  776. Há muitos ateus que odeiam ser ateus.

  777. Nos distraímos porque o tédio é insuportável.

  778. Do tédio brotam reflexões desconfortáveis, como o fato de que não sabemos como vamos morrer nem quando.

  779. A vida sem prazer nos leva a pensar só em problemas.

  780. Isso torna a vida mais abastada insuportável.

  781. Ninguém pode manter a sanidade se for privado de todo prazer.

  782. A busca por um objetivo é, em si, interessante, porque estamos distraídos na busca desse objetivo.

  783. Mas o que resta quando o objetivo é conquistado?

  784. Quando você está trabalhando, quer descansar.

  785. Quando você está descansando, quer trabalhar.

  786. A vida do rei é boa porque todo o mundo se empenha em lhe dar prazer.

  787. É o tédio que faz a cadeia ser uma punição tão horrível.

  788. Não se deve ser pessimista e nem otimista, mas realista.

  789. Não que ser realista não seja uma tragédia.

  790. Tem mais coisa na natureza do que se pode estudar.

  791. O homem não deve se achar sem valor, mas não deve se atribuir valor maior que o real.

  792. Pequeno e grande são relativos.

  793. A ciência não deve se ocupar do infinito.

  794. “Distração” é qualquer atividade que ocupa nossa mente para que não pensemos em algo que nos cause sofrimento.

  795. Se a extensão de algo pode ser limitada pela extensão de outra coisa de mesma natureza, tal algo é finito.

  796. Pensamentos não podem limitar corpos.

  797. Somente corpos podem limitar corpos.

  798. “Atributo” é algo percebido da essência de uma substância.

  799. “Panteísmo” é a doutrina segundo a qual a natureza do mundo e Deus coincidem, ou seja, Deus seria o espírito do mundo.

  800. “Imanentismo” é a doutrina segundo a qual algo que faz parte de uma substância não pode existir abstraído dessa substância.

  801. O nada é infértil.

  802. É preciso que exista algo que criou as coisas sem ter sido criado por nada.

  803. Deus não pode ser coagido.

  804. A criação está completa.

  805. Se Deus criou o mundo e Deus é sumamente racional, cada coisa no mundo deve ter um propósito.

  806. O conhecimento da causa torna mais fácil a explicação do efeito.

  807. Uma explicação material de um evento pode ser insuficiente.

  808. Uma explicação completa considera diferentes causas pro mesmo fenômeno (ver nota 294).

  809. Nenhum ser racional faz algo sem razão.

  810. Uma causa final óbvia não explica coisa alguma.

  811. Energia também pode ser dividida em partículas.

  812. A consciência não precisa preexistir à sensação, do contrário você não poderia acordar com barulho.

  813. Por outro lado, a presença de consciência não implica presença de sensação: você passa a não ouvir o som com o qual você se acostuma.

  814. Os órgãos dos sentidos continuam em funcionamento mesmo quando estamos inconscientes.

  815. Os órgãos dos sentidos podem captar estímulos que não chegam à consciência.

  816. Isso porque, além do estímulo, é preciso que o objeto que estimula os sentidos também nos chame atenção.

  817. “Finalismo” é a doutrina segundo a qual a natureza obedece um projeto, no qual cada coisa tem uma função, o que implica que nada ocorre por acaso, mas sempre por uma razão.

  818. O finalismo supõe que há uma intenção implícita em cada elemento da natureza, de forma que a natureza nem seria totalmente determinada e nem caótica.

  819. A criação de uma inteligência artificial não bastaria pra explicar a inteligência humana.

  820. Não há comparação entre mecanismos artificiais e a vida biológica, não se pode usar analogias tecnológicas pra descrever a vida.

  821. Uma máquina nunca está viva.

  822. Um mundo sem dor é humanamente impossível.

  823. Fazer economia é alcançar um fim com o mínimo possível de esforço e recursos (também chamado de eficiência).

  824. Se algo tem que ser aprendido, não está em todos; se não está em todos, não é inato.

  825. Não existe nenhum conhecimento inato.

  826. Conhecimento só pode ser adquirido pela reflexão interior ou pelas informações providas pelo mundo externo.

  827. Consenso não é argumento.

  828. Se conhecimento é inato ou não, que diferença faz?

  829. Os princípios universais (como “o ser é; o não ser não é”) precisam ser aprendidos, o que os desqualifica como inatos.

  830. É preciso estar consciente pra aprender.

  831. É preciso estar consciente pra pensar.

  832. Não existem princípios morais inatos.

  833. Leis e costumes variam de lugar pra lugar, de época pra época.

  834. Se conceitos morais fossem inatos, não seriam ignorados tão facilmente e a lei não seria tão facilmente quebrada.

  835. Se moral fosse indiscutível, não haveria discussões sobre o certo e o errado, dois conceitos cujo conteúdo muda de acordo com a cultura.

  836. Se moral fosse algo inato, não existiriam pessoas que quebram as leis sem se sentir culpadas por isso.

  837. Onde há impunidade, crime é brincadeira.

  838. Existem (ou, pelo menos, existiram) nações sem religião.

  839. O que é lei aqui pode ser crime em outro lugar ou outro tempo.

  840. Nossa mente trabalha combinando e modificando ideias que vêm do exterior, através da percepção.

  841. Algo repetido várias vezes, mesmo que seja verdade, não é algo que “todo o mundo sabe”.

  842. A sensação precede a linguagem.

  843. “Empirismo” é a ideia segundo a qual algo só é verdade se tiver base empírica e segundo a qual as ideias com que a mente trabalha vêm da experiência.

  844. “Liberalismo” é uma doutrina política que diz:

    1. A sociedade deve se fundar num acordo entre governo e cidadãos.

    2. A tarefa do governo é zelar pelos direitos individuais das pessoas.

    3. O governo não está acima da lei.

    4. O povo pode se rebelar quando o governo tenta fazer mal ao povo.

  845. Se o interlocutor e você chamam cão de cachorro, você pode seguramente substituir a palavra “cão” por “cachorro”.

  846. Isso porque palavras são convencionais: desde que o outro entenda você, não importa que palavra você usa para descrever algo.

  847. A habilidade de pensar aparece antes da de falar.

  848. Se não fosse a linguagem, nenhuma sociedade teria surgido.

  849. Socialização é uma exigência natural.

  850. Quem faz uma lei não pode ser a mesma pessoa a aprovar tal lei ou a aplicá-la.

  851. Se não for assim, os sujeitos que fazem a lei não precisarão respeitá-la.

  852. A função do governo é agir segundo o interesse do povo.

  853. Um poder para legislação, outro pra aplicação.

  854. Todos temos direito à propriedade privada.

  855. O governo que desapropria o que é meu é um governo ladrão.

  856. Se o governo não honra seus compromissos com o povo, o povo não precisa honrar seus compromissos com o governo.

  857. Se o governo roubar você, rebele-se.

  858. A essência da democracia é a divisão dos poderes: não havendo tal divisão, não há democracia.

  859. Um bom poder legislativo é composto de muita gente, não de uma pessoa só.

  860. O poder legislativo deve se obrigar às leis que produz.

  861. O poder executivo não deveria legislar.

  862. A liberdade de culto é limitada: o governo não pode admitir seitas secretas nem religiões a serviço dos interesses de outro país.

  863. Os quatro Evangelhos não falam que você tem que matar quem não é cristão.

  864. O fanático afirma agir racionalmente.

  865. Alguns disfarçam seus vícios com a aparência de virtude, como os que matam por “boas causas”.

  866. Governo e igreja não devem formar uma instituição só.

  867. A fusão entre governo e igreja pode fazer com que leis anticristãs se tornem religiosamente aceitáveis e que pessoas que cumprem leis injustas sintam que não estão pecando.

  868. A salvação das almas não é tarefa do governo humano.

  869. O governo não deve se meter na vida privada dos outros, mas garanti-la.

  870. O governo deve se preocupar com as necessidades materiais da pessoa, não com suas necessidades espirituais.

  871. O governo deve ser laico.

  872. Todas as religiões lícitas devem ser isonômicas, sujeitas às mesmas leis que todo o mundo.

  873. O judiciário não tem poderes ilimitados.

  874. O governo só deve proibir o que faz mal à sociedade.

  875. Uma igreja que diz que você deve se sujeitar ao mando do poder político de outro país deveria ser proibida.

  876. Um país estrangeiro não pode recrutar soldados dentre nossos cidadãos.

  877. É inadmissível que um país estrangeiro leve brasileiros a agir contra seus interesses.

  878. Um ateu ameaçado por um cristão não pode, cinicamente, dizer que Deus não permite matar: você não pode invocar misericórdia de alguém que você pensa não existir.

  879. A percepção é condicionada pelo nosso tamanho.

  880. A distância também condiciona a percepção.

  881. Uma verdade pode ser inaceitável por causa das consequências que ela traz.

  882. Não é possível pensar a “extensão em si”, abstraído de algo medido.

  883. “Imaterialismo” é a ideia de que a existência da matéria é logicamente indefensável.

  884. Pode uma árvore cair sem ninguém perceber?

  885. Se não for possível chegar a uma verdade segura sobre algo, seja cético em relação a todos os caminhos que se propõem a levar à tal verdade.

  886. Não é possível ciência se não houver causalidade.

  887. Não é possível prever um fenômeno que você está vendo pela primeira vez.

  888. Inferir causalidade depende de experiência prévia.

  889. Inferir não é demonstrar.

  890. Inferimos causalidade por hábito: se algo sempre aconteceu, pensamos que sempre acontecerá, mas isso não elimina a possibilidade de que, algum dia, sejamos pegos de surpresa.

  891. A física repousa na crença de que a regularidade do universo nunca mudará, o que implicaria uma mudança também nas chamadas leis da física.

  892. Se algo é possível, não dá pra provar que não vai acontecer.

  893. Qual é a garantia de que não descobriremos algo novo que mudará as leis da física com a qual trabalhamos (o que invalidaria todas as teorias feitas sobre tais fundamentos)?

  894. É impossível prever o futuro.

  895. A constância da natureza e, portanto, das leis postuladas sobre seu funcionamento, não pode ser provada: esteja pronto para o dia em que o Sol não se levantará.

  896. É possível fazer ciência segura sobre eventos passados, mas do futuro só se faz estatística (que lida com o possível e suas chances, não sobre certezas).

  897. Causalidade é um hábito seguro pra condução da vida cotidiana, mas não pense que algo sempre acontecerá apenas porque sempre aconteceu.

  898. “Hábito” é a ação não refletida que se baseia em experiências passadas: de tanto fazer determinada coisa, você acaba fazendo sem pensar.

  899. Algo bom é algo útil.

  900. A moralidade deve se basear no bem-estar do povo: algo que faz mal à sociedade é imoral.

  901. O significado de um termo é a coleção de características empíricas que o descrevem.

  902. Existem características comuns a diferentes coisas.

  903. Se as duas últimas notas são verdadeiras, então a noção metafísica de substância é um termo vazio: a substância de algo não é sua “natureza” metafísica, mas aquilo que percebemos dela e que aglomeramos em um conceito.

  904. Coincidiria, portanto, com o significado da palavra, não com uma “natureza” imanente à coisa (especialmente porque elementos essenciais a uma dada substância podem existir em outras).

  905. Se a substância é metafísica, não pode ser sensível.

  906. Se a substância não é metafísica, então o conceito clássico de substância está errado.

  907. Denominamos “substância” um amalgamado de qualidades que, sim, são percebidas sensorialmente.

  908. Se substância é uma definição de termo e o nosso conhecimento sobre algo a que o termo se refere pode mudar com o tempo, segue-se que substâncias não são imutáveis.

  909. A moral não é apenas subjetiva, ela é também sentimental.

  910. A moral prática, diferente dos estudos sobre a moral, se guia pelo sentimento de utilidade social e não pela razão: sabemos que estamos agindo imoralmente, mesmo que não sintamos culpa, quando vemos que prejudicamos a sociedade com nossos atos.

  911. Como nosso conceito de utilidade pública muda com o tempo e é diferente em outros lugares, diferentes culturas terão diferentes códigos morais.

  912. Não existe, entre humanos, uma moral que dure pra sempre.

  913. Podemos refletir racionalmente sobre a moral, mas, quando temos que fazer uma escolha moral, é o sentimento do que é “certo” (socialmente útil) que aponta a decisão “moral”.

  914. A reflexão moral só é útil antes do momento da escolha.

  915. A reflexão moral deve ter como ponto de partida o comportamento dos homens comuns, não os conceitos abstratos, como o de “justiça”.

  916. Uma ética que parte de conceitos abstratos para prescrever comportamentos (em vez de partir de comportamentos concretos pra chegar às regras) é inflexível demais pra ser aplicada a seres humanos imperfeitos.

  917. A ética deve se fundar em comportamentos observáveis pra tirar suas conclusões.

  918. A tolerância (tanto religiosa quanto política) só é possível aos que são humildes o bastante pra reconhecer que suas próprias opiniões podem estar erradas.

  919. Disso decorre que a intolerância é fruto de ignorância e presunção.

  920. O cristianismo medieval queria que a Terra inteira fosse cristã… mas nunca houve um só cristianismo.

  921. Os cristãos fizeram guerras no mundo inteiro, inclusive contra outros cristãos.

  922. Matar alguém porque a vítima tinha uma opinião que desagradava ao criminoso é uma monstruosidade que desqualifica o agressor como ser humano.

  923. Políticos perseguem os fracos e só praticam a tolerância com os fortes.

  924. Reprimir opiniões pacíficas pode radicalizar os reprimidos.

  925. Além disso, tais repressões acabam fazendo propaganda da causa perseguida, agregando números ao movimento que deveria ficar menor.

  926. Fora que tal movimento, se for bem-sucedido, quererá vingança.

  927. É mais fácil haver tolerância religiosa em locais onde há várias religiões do que em locais onde há só duas.

  928. Uma força ao mesmo tempo religiosa e política é quase imparável.

  929. Um cristão intolerante não é cristão.

  930. Havia divergências entre as primeiras personalidades cristãs.

  931. Minorias perseguem umas às outras também, em vez de se apoiarem como pessoas excluídas que são.

  932. Nunca houve um tempo em que o cristianismo fosse uma religião unificada.

  933. Mesmo perseguidos, grupos reprimidos ainda praticam a opressão entre si.

  934. O cristão só obtém perdão de Deus ao perdoar seu próximo, mas, apesar disso, católicos e evangélicos continuam se espetando mutuamente.

  935. Um cristão pode dizer que o perdão e a caridade são virtudes e depois contradizer suas palavras com seus atos.

  936. O único campo do conhecimento onde não há seitas é o campo onde não existem erros: o das ciências exatas.

  937. “Tolerância” é a atitude de tratar igualmente tanto aquele que pensa diferente de você e alguém que pensa como você.

  938. O estado deve ser laico.

  939. A igreja não pode empregar a força pra avançar seus objetivos.

  940. Fanatismo é doença: os fanáticos não são dignos de ódio, mas de tratamento.

  941. Se você tentar argumentar racionalmente com um fanático, ele apenas se exaltará mais, o que o fará se arraigar ainda mais em suas crenças.

  942. Uma crença não pode ser combatida com a razão porque crenças são baseadas no sentimento e não na razão.

  943. Se você não pode derrotar um fanático pela razão, derrote-o pela piada: faça-o sentir vergonha de sua posição.

  944. Se uma pessoa está matando porque pensa que essa é a vontade de Deus, nenhum argumento a fará parar.

  945. Para haver fanatismo, é preciso haver preconceito contra alguém ou alguma coisa.

  946. A diferença entre o fanatismo e o mero misticismo é que o fanático é também criminoso: você é fanático quando sua fé leva você a cometer um crime.

  947. Se você mata quem não vai à missa, é perda de tempo você ir à missa depois.

  948. O juiz não pode condenar um réu por pensar diferente dele.

  949. Fanatismo pode causar alterações corporais.

  950. O fanático não precisa de estímulo externo pra ficar fora de si.

  951. O fanatismo deve ser prevenido com a educação, porque é difícil combatê-lo depois que está instalado.

  952. O cristão fanático quer viver hoje a violência que é corriqueira no Velho Testamento.

  953. Se o fanatismo é um sentimento, mesmo que patológico, não pode ser efetivamente proibido por lei.

  954. Pensar que o mundo não poderia ser melhor nos leva ao conformismo.

  955. As coisas podiam ser diferentes.

  956. Algumas pessoas continuam otimistas mesmo na adversidade… o que nem sempre é uma boa coisa.

  957. Criar uma humanidade nova e melhor requer um sistema educacional novo e melhor.

  958. Devemos educar uma criança sem matar sua curiosidade, o que significa não responder suas perguntas diretamente, mas estimulá-la a encontrar respostas sozinha, dando-lhe os meios de encontrar tais respostas.

  959. O ser humano parece que se esforça em destruir o trabalho de Deus.

  960. Não estamos satisfeitos com o mundo como ele está.

  961. O homem é feito pela interação com o meio em que vive.

  962. Os três professores: a natureza, a experiência e os homens.

  963. Se os três professores estiverem em contradição, a educação do sujeito será de má qualidade.

  964. Se não houvesse propriedade privada, haveria menos inveja, menos conflito, menos política e certamente não haveria roubo.

  965. Temos mais necessidades que os indígenas isolados, por isso somos mais infelizes.

  966. O aluno deve ser capaz de aprender por si mesmo e tal habilidade deve ser estimulada pelo professor.

  967. A história humana é irreversível: não podemos, com nossas próprias forças, voltar ao estado primitivo.

  968. A política deve equilibrar liberdade e igualdade.

  969. Defenda sua liberdade com sua vida.

  970. A ordem social é convencional.

  971. O lado bom da sociedade é o trabalho coletivo que ela habilita, nos permitindo trabalhar juntos em busca de um fim.

  972. É mais fácil perceber que existe um contrato social quando o violamos.

  973. Se todo o mundo tiver as mesmas responsabilidades, ninguém se interessará em tornar essas responsabilidades mais pesadas.

  974. A pessoa só procura o mal pra si mesma quando é enganada e levada a pensar que está procurando seu bem.

  975. Quando existirem demandas diferentes em um mesmo grupo, devemos sondar qual é a demanda comum entre os integrantes e lutar por ela, porque é mais fácil manter um grupo coeso lutando pelo que todos querem do que lutando pelo que a maioria quer.

  976. Ao organizar um grupo, não inclua na agenda pautas conflitantes.

  977. Se for votar ou dar sua opinião, vote ou opine por si mesmo, sem refletir a opinião de uma associação a qual você pertence.

  978. Se uma grande associação leva muitos a opinar da mesma forma, não é mais possível obter a vontade geral do povo, mas apenas a vontade geral entre associações influenciadoras, as quais podem estar agindo contra os interesses do povo.

  979. Para obter a vontade geral, é preciso que cada um pense com a própria cabeça, não com a dos outros.

  980. Por mais que se pinte uma atrocidade com as cores da virtude ou do heroísmo, ainda se trata de uma atrocidade.

  981. A educação pode depravar a bondade, mas não destruí-la.

  982. Nosso mau comportamento afetará as gerações futuras.

  983. Se você se bastasse a si mesmo, seria automaticamente feliz.

  984. Na natureza, a terra não é de ninguém e os frutos são de todos.

  985. A ideia de propriedade privada não surgiu de uma vez, mas gradualmente.

  986. O desejo por prestígio e a inveja das habilidades dos outros alimenta a competição pela fama.

  987. O status (importância atribuída a alguém pelo grupo ao qual ele pertence) permitiu o nascimento da vergonha entre os que têm menos status e do desprezo entre os que têm mais status.

  988. A coisa mais absurda é transformar a ofensa pessoal num crime, algo que só poderia ter vindo da cabeça de alguém que se acha mais importante que os outros.

  989. O crime de ofensa pessoal é uma tentativa de punir os outros segundo o quão importante o ofendido pensa que é.

  990. Punir outra pessoa por ofensas pessoais leva à normalização e radicalização da vingança.

  991. Por que sociedades pré-industriais são mais felizes?

  992. Você só progride se sentir necessidade, logo, sociedades menos desenvolvidas têm menos necessidades.

  993. Se têm menos necessidades, são mais felizes.

  994. A razão que levou alguns homens a progredirem tanto, quando outros homens preferiram ficar como estavam, é um mistério: por que a necessidade de progresso vem a uns, mas não para outros?

  995. O ideal é trabalhar pra si mesmo.

  996. A necessidade de empregar outros para seus fins ocasionou a escravidão.

  997. Com a propriedade privada, vem também a ostentação.

  998. O pobre precisa de emprego.

  999. O rico precisa de empregados…

  1000. Alguns querem dinheiro não porque precisam, mas só pra serem melhor que os outros.

  1001. As primeiras leis foram criadas para beneficiar os ricos.

  1002. A justiça erra muitas vezes.

  1003. As línguas orientais são ricas em metáforas e em figuras, transmitem emoção em um nível mais profundo e por isso são bonitas.

  1004. Essa carga poética é prejudicada pela padronização da língua, promovida pela escola.

  1005. A alma percebe o mundo através dos sentidos, o que quer dizer que a percepção não reside no sentido, mas na alma que se serve de informação sensorial.

  1006. Nossa autoconservação é guiada pelos princípios de prazer e dor.

  1007. A autoconsciência começa com o tato: é pelo tato que sabemos onde começa e onde termina nosso próprio corpo e os outros corpos.

  1008. Na falta da visão, é possível se orientar pelo tato.

  1009. “Sensismo” é a doutrina segundo a qual nossas ideias sempre são fruto, em última instância, da sensação apenas: a mente se limita a operar conceitos que correspondem a percepções sensíveis.

  1010. Conheça os limites da sua mente pra reduzir as chances de concluir absurdos.

  1011. Para isso, a mente humana deve analisar a si mesma.

  1012. “Criticismo” é o comportamento de submeter a escrutínio os resultados e métodos empregados pela própria pessoa, a fim de conhecer as limitações de tais resultados e tais métodos, o que permite saber até que ponto meu pensamento é válido.

  1013. Nosso conhecimento de um objeto é limitado por nossos esquemas mentais.

  1014. Isso quer dizer que as limitações da mente filtram nossas percepções de um objeto, condicionando o que podemos (e o que não podemos) saber sobre o mundo.

  1015. A física se tornou realmente produtiva ao mudar de método, se matematizando.

  1016. É possível fazer conclusões sem recorrer à experiência, mas elas são de natureza explicativa: todo solteiro é um não-casado.

  1017. Mas muitas outras afirmações só podem ser feitas após uso da experiência.

  1018. Se você transpuser os limites da sua mente, abandone suas pretensões de certeza.

  1019. A tendência a generalizar suas conclusões como leis verdadeiras e eternas deve ser combatida.

  1020. Nossa razão é incapaz de explicar tudo, então é preciso que desenhemos uma linha nítida entre o que podemos conhecer agora e o que não podemos.

  1021. Se soubermos quais são tais limites da razão, erraremos menos frequentemente.

  1022. O progresso científico deve usar tanto juízos analíticos (dedutivos, explicativos e evidentes) quanto juízos sintéticos (indutivos, extensivos e experimentais).

  1023. Um juízo analítico explica conhecimento que já existe através da decomposição, enquanto um juízo sintético acrescenta conhecimento novo pela agregação.

  1024. Espaço e tempo são coisa da nossa mente.

  1025. É mais realista conceber uma verdade científica válida para todos os homens do que uma verdade científica universalmente e eternamente válida para tudo.

  1026. O mundo que percebemos deriva da nossa humanidade: se fôssemos seres de espécie diferente, o mundo pareceria totalmente diferente a nós.

  1027. O mundo não é exatamente como o percebemos: se tivéssemos mais que cinco sentidos ou se tivéssemos menos que cinco, nossa percepção do mundo mudaria.

  1028. Nossa percepção do mundo também seria diferente se nossa mente percebesse o tempo ou espaço de uma maneira diferente.

  1029. O efeito de um objeto sobre os sentidos é chamado “sensação”.

  1030. Concluir algo de uma sensação é chamado “empiria”.

  1031. Enquanto produz uma sensação, um acontecimento pode ser chamado de “fenômeno”.

  1032. O fenômeno só é possível se ele for captável, ou seja, todo fenômeno pressupõe um sujeito que observa e um objeto observado.

  1033. A existência de algo não deriva de sua definição: dizer que algo existe porque é perfeito não faz essa coisa existir.

  1034. Não se fica rico escrevendo noves no extrato sacado.

  1035. Para ser moral, algo precisa ser universalizável: se todos agissem como você, sua vida (ou a humanidade) seria melhor ou pior?

    1. Se melhor, o ato é moral.

    2. Do contrário, ele não é moral (pode ser amoral ou imoral).

  1036. A dor nos motiva a melhorar nossa condição.

  1037. Se fosse aceitável se suicidar sempre que a adversidade parece insuperável, um monte de gente com problemas que depois se mostram perfeitamente resolvíveis teriam tirado a própria vida.

  1038. Quando muitas promessas são quebradas, promessas futuras perdem o valor e são tidas como fingimento.

  1039. Não desenvolver suas habilidades é imoral.

  1040. Se todos resolverem não desenvolver suas habilidades, a humanidade parará de progredir.

  1041. Ajude os outros na necessidade deles, porque pode ser que você se veja em necessidade algum dia.

  1042. “Sublime” é o objeto que causa prazer estético não por sua harmonia (como uma pintura pacífica, uma ficção infantil ou uma música calma), mas por sua potência (um tornado ou a queda de um meteoro).

  1043. A apreciação de algo sublime pode requerer medidas de segurança.

  1044. Mesmo que a beleza seja algo universal, o gosto ainda é particular: você pode concordar que a Monalisa é um belo quadro e ainda assim não gostar dela, preferindo outra coisa que pode até não ser tão bela.

  1045. A beleza é limitada e compreensível, mas o sublime pode vir de fenômenos “sem forma”, ilimitados, estimulando somente a imaginação e não a compreensão.

  1046. O sublime pode causar também medo.

  1047. Obter a paz mundial requer uma constituição liberal mundial que todos possam observar.

  1048. Não precisamos pensar se a paz é possível ou não; é preciso agir como se ela fosse possível.

  1049. Todos os políticos devem agir visando a paz em seu território.

  1050. Repúblicas democráticas minimizam o risco de guerra.

  1051. Mesmo em paz, não é possível eliminar a agressividade em cada um.

  1052. Uma república democrática deve equilibrar liberdade e igualdade.

  1053. Deve haver uma só lei para todos os cidadãos.

  1054. Geralmente, é o governo que quer a guerra, não o povo.

  1055. Dessa forma, se o povo tiver protagonismo político, como ocorre nas democracias, não haverá conflito frequente entre dois estados.

  1056. Só pode ser chamado de república o estado em que tanto povo quanto governo são cidadãos, isto é, detentores de poderes políticos.

  1057. É possível ser virtuoso e ateu.

  1058. Você passa a vida toda se definindo, descobrindo o que você é e o que você não é.

  1059. “Eu” é o pronome através do qual a pessoa que fala designa a si mesma.

  1060. Uma pessoa pode ser livre sem saber que é.

  1061. Uma pessoa pode colocar obstáculos à própria liberdade.

  1062. Há diferença entre estar cônscio de si mesmo e cônscio da existência do mundo separado de você.

  1063. A tarefa do intelectual é guiar a humanidade ao progresso, definido como aumento gradual da liberdade do homem, diante daquilo que lhe é externo.

  1064. A humanidade deve sempre superar seu atual grau de bem-estar.

  1065. A melhor forma de ensinar é pelo exemplo.

  1066. Acreditar em liberdade ou em determinismo é uma escolha guiada mais pelo caráter da pessoa do que pela razão.

  1067. Uma nação é feita de língua e costumes, não de território.

  1068. Uma nação realmente conquista uma outra quando a nação conquistada passa a falar a língua do dominador.

  1069. Se você é escravo, será ainda mais escravo quanto mais você aceita a escravidão.

  1070. A filosofia é produzida gradualmente pela razão, enquanto a arte é produzida de súbito pela inspiração.

  1071. A filosofia é uma experiência racional, mas a arte é uma experiência da pessoa inteira.

  1072. A arte é mais facilmente aceita que a filosofia.

  1073. No artista, produzir arte é um instinto, um desejo natural.

  1074. Você não pode escolher ter inspiração; ela vem sozinha.

  1075. A arte é uma síntese entre sujeito e objeto, porquanto a subjetividade do autor pode ser encontrada na matéria (a obra de arte).

  1076. Aptidão artística é um dom.

  1077. Você pode saber desenhar sem ser um artista, porque o artista depende da inspiração pra existir (sendo que a inspiração só vem quando ela quer).

  1078. A filosofia deve explicar o mundo.

  1079. Se não houvesse correspondência entre realidade e razão, a filosofia seria uma prática impossível.

  1080. Tal como só se pode compreender um órgão examinando o resto do corpo (o que torna mais claro o papel do órgão), um fenômeno só pode ser plenamente compreendido em seu contexto, seja ele um fenômeno natural ou histórico.

  1081. Nada acontece sem razão.

  1082. A filosofia não deve se intrometer em tarefas que outros ramos do saber desempenham melhor.

  1083. A filosofia evolui com o tempo, tal como a sociedade também evolui.

  1084. A partir do momento em que a filosofia se torna prescritiva, ela abandona sua pretensão de certeza: a filosofia pode acuradamente descrever o presente, mas ela só poderia descrever acuradamente o futuro se o futuro pertencesse a ela.

  1085. Suas ideias devem descrever objetos concretos e nunca perdê-los de vista; a filosofia deve sempre guardar relação com nosso mundo.

  1086. “Absoluto” é o termo filosófico que designa uma noção racional de Deus, diferente daquela noção usada na fé.

  1087. A mudança ocorre em três etapas: estado inicial (afirmação), interferência exterior (negação) e, após a resolução do conflito entre os dois, síntese (a conclusão, que supera o estado inicial e a interferência ao reunir o que se aproveita das duas coisas, gerando harmonia temporária, até a próxima interferência).

  1088. Para mudar, é preciso renunciar ao proceder anterior.

  1089. A terceira etapa, a síntese, torna-se a primeira etapa do processo seguinte, onde uma nova interferência causará uma nova mudança.

  1090. É inútil se deter no ser e no não-ser sem também considerar o processo de transformação.

  1091. A filosofia pode explicar a religião.

  1092. A filosofia e a religião podem discorrer sobre o mesmo assunto de forma diferente e ainda assim concluírem coincidentemente.

  1093. É difícil criar leis válidas em todos os governos porque o sentimento de patriotismo, que nos leva a amar o que nos torna diferentes dos outros povos, é algo real.

  1094. Uma constituição universal é, então, utópica.

  1095. A única coisa que todos os seres humanos têm em comum é a espécie e tudo o que está incluso no conceito de homo sapiens, mas nada além disso (por isso diferentes povos agem diferentemente).

  1096. Disso decorre a soberania dos povos: se um povo ama a si mesmo, não quererá interferência estrangeira em seus negócios.

  1097. A oposição entre os povos aumenta o patriotismo.

  1098. Como não existe uma autoridade maior que os governos nacionais, não há nada (exceto o povo) que faça com que os governos do mundo observem uma lei comum.

  1099. Cada governo é determinado por seu povo.

  1100. Os governos só observariam leis universais se os povos assim quisessem.

  1101. Se um governo tem mais poder que outro, quererá interferir com o mais fraco.

  1102. Conserve o que é seu.

  1103. Um estado (isto é, governo e povo) é como uma gigantesca família.

  1104. Não há qualidade humana que esteja ausente no conceito de Deus.

  1105. As qualidades existentes no conceito de Deus estão em grau infinito.

  1106. Há uma tendência psicológica de pensar que há algo real (empírico) correspondente a cada conceito racional da mente.

  1107. O conhecimento que cada um tem é um conjunto de representações do mundo objetivo, que podem ser partilhadas com outros, mas essencialmente pessoais.

  1108. Sendo assim, mesmo habitando a mesma Terra, cada um vive em um mundo próprio.

  1109. Isso acontece porque o nosso conhecimento do mundo objetivo sempre tem que passar por processos muito pessoais, como os cinco sentidos e a capacidade de raciocinar: o cego vive num mundo diferente, tal como vivem em mundos diferentes aqueles que não tem um ou mais dos cinco sentidos, aqueles que têm mais que cinco sentidos, os iluminados ou aqueles que não estão em plena posse da razão.

  1110. Como não há conhecimento sem sujeito e sem objeto e como não é possível apreender algo do objeto sem a subjetividade, segue-se que tal fenômeno é inevitável.

  1111. Não é possível o conhecimento sem as noções de tempo, espaço e causalidade.

  1112. “Sublimação” é a conversão de energia psíquica (sexual ou não) em criatividade.

  1113. “Nirvana” é um estado místico no qual a pessoa alcança a plenitude pela supressão de todos os desejos.

  1114. Como você sabe que não está sonhando?

  1115. Mesmo que a realidade seja um sonho, ela é um sonho de natureza diferente: os sonhos “comuns” não têm continuidade, mas, ao acordarmos, vemos que um dia continua o outro.

  1116. Assim, se a realidade for um sonho, é o único com continuidade.

  1117. Só saberemos, com certeza, se não estamos sonhando se acordarmos.

  1118. Sonho e vigília são duas facetas da mesma vida.

  1119. O sonho sempre usa elementos da nossa experiência de vida para criar suas narrativas.

  1120. Se o mundo precisa passar pela subjetividade pra ser conhecido, uma interpretação 100% objetiva do mundo não é possível.

  1121. O amor é um tema filosófico.

  1122. Amor e sexualidade andam juntos.

  1123. Se sexo não fosse gostoso, a humanidade teria desaparecido.

  1124. É preciso uma pulsão irracional e forte, como o desejo sexual, pra levar uma pessoa à péssima decisão de ter um filho num mundo tão ruim.

  1125. Nossa liberdade também é coibida pelos nossos instintos, vontades fortes que visam a preservação do corpo e da espécie num estado de prazer maximizado.

  1126. Muitas pessoas sentem culpa após o orgasmo, porque sentem que fizeram uma grande besteira.

  1127. A vontade de fazer sexo é quase sobrepujante, mas, depois que você se satisfaz, você não acha estranho que algo tão simples e de tão curta duração possa ter desencadeado tamanho desejo?

  1128. Isso porque o impulso sexual tem o bem-estar coletivo como objetivo, não o bem-estar pessoal.

  1129. Como o bem-estar coletivo é mais importante, a natureza nos deu um desejo louco de trepar, mas, como não se trata do bem-estar individual, a recompensa é pequena demais em comparação ao desejo sentido.

  1130. É preciso haver sujeito e objeto para que haja conhecimento (mesmo que ambos coincidam).

  1131. A vida individual é uma contestação viva do sistema, da coletividade.

  1132. As três formas de viver: esteticamente (busca pelo prazer), eticamente (busca pelo bem) e religiosamente (busca por Deus).

  1133. Viver esteticamente requer viver intensamente, requer não se conformar com a rotina.

  1134. Infelizmente, viver dessa forma é muito difícil, porque não há muitas oportunidades de excitação.

  1135. Donde decorre que viver esteticamente é extremamente chato no momento em que você fica sem ter o que fazer.

  1136. A vida estética é sintoma de desespero: talvez a pessoa esteja fugindo de algo…

  1137. Numa vida estética, se vai de um estado de espírito a outro, não há continuidade; é como se a pessoa vivesse várias pequenas vidas autocontidas.

  1138. A vida estética é irresponsável: só pensa no presente.

  1139. Mudar de estilo de vida (estético, ético e religioso) não é um processo gradual, já começando no momento em que se opta por um deles.

  1140. Viver eticamente requer disciplina: você planeja seu futuro e age de acordo, se colocando no caminho até seu objetivo.

  1141. O problema da vida ética é que ela não responde às questões fundamentais da vida e da existência.

  1142. Pode ser que o homem ético se pergunte “por que estou fazendo isso?”.

  1143. O homem ético é orientado a tarefas.

  1144. Se eu tenho um objetivo, tenho que me disciplinar para obtê-lo, me submeter a regras.

  1145. O homem ético consegue tirar satisfação de si mesmo, enquanto o homem estético precisa de estímulos externos.

  1146. Anjos e animais não se angustiam, mas somente o homem.

  1147. Ter que escolher pode ser pior do que as opções dentre as quais você escolhe.

  1148. A angústia cresce com a sabedoria.

  1149. Toda escolha implica renúncia.

  1150. A angústia de escolher entre múltiplas opções pode levar o sujeito a preferir não escolher.

  1151. A angústia pode causar paralisia.

  1152. Se afogar na angústia é tão ruim… quanto nunca tê-la sentido.

  1153. A angústia pode ser uma experiência de crescimento, se você senti-la sem ser por ela vencido.

  1154. Angústia é um sentimento particularmente humano.

  1155. A angústia não é o mesmo que medo.

  1156. Angústia é consequência natural da liberdade.

  1157. Trata-se do sofrimento que vem de pensarmos nas possibilidades implícitas em cada escolha: “E se…?”

  1158. A possibilidade pode causar mais tormento que a realidade e isso considerando que a realidade já é pesada.

  1159. Opções demais provocam angústia, o desconforto causado pela liberdade de escolha entre várias possibilidades.

  1160. Não se deve esperar nada da vida.

  1161. Depois de feita a escolha, a angústia desaparece, até o momento em que se tenha que escolher novamente.

  1162. O religioso, na prática, vive apenas segundo as normas da sua fé, não se sentindo preso às regras do povo (socialização) ou do governo (as leis).

  1163. Nem Deus, nem os fiéis, devem subjugar sua religião ao governo humano.

  1164. Deus não obedece às leis humanas.

  1165. Amar Deus sem acreditar em Deus (isto é, como conceito ou ideia norteadora, “absoluto”) é efetivamente amar a si mesmo (como homem).

  1166. O religioso age além da ética humana.

  1167. Isso porque a moral divina é absoluta e, se é absoluta e o absoluto deve também ser único, as outras morais disponíveis se tornam relativas.

  1168. Um adolescente pode perceber que o seu país precisa mudar, mesmo quando nenhum adulto percebe isso.

  1169. Nem tudo é ciência.

  1170. Mas deveria haver ciência pra certas coisas para as quais, no momento, não há.

  1171. Não há ciência sem matemática.

  1172. É mais realista conhecer as leis que regem um fenômeno do que tentar desvendar a origem do universo ou o objetivo da vida.

  1173. Antes da ciência sempre vem a religião.

  1174. A ciência não se debruça sobre questões metafísicas porque muitas são impossíveis de responder.

  1175. “Reducionismo” é a doutrina segundo a qual todos os aspectos do mundo são governados por sistemas que podem ser decompostos em elementos simples, de natureza material ou mecânica.

  1176. “Positivismo” foi um movimento filosófico ocidental do século dezenove, que via a ciência como o ápice do conhecimento humano, colocando tanto a metafísica como a teologia no patamar de saberes superados.

  1177. A lei que rege a história: oprimidos e opressores entram em conflito e isso origina mudança.

  1178. Isso porque a mudança se origina de condições materiais, concretas (particularmente econômicas, produtivas ou sociais): ideais sozinhos não operam mudanças de paradigma.

  1179. Antigamente, havia vários grupos oprimidos e vários grupos opressores, mas agora há menos grupos em cada lado, embora tais grupos sejam bem maiores (como a burguesia opressora e o proletariado oprimido).

  1180. Na idade média, a exploração é justificada pelos costumes e pela religião, mas, com o advento da burguesia, a exploração se tornou aberta, sem justificativas nobres.

  1181. Com o advento da burguesia, tudo vira trabalho assalariado.

  1182. No capitalismo, valores familiares não precisam existir.

  1183. A burguesia proporcionou um aceleramento sem precedentes em nível tecnológico.

  1184. O capitalismo mostrou a verdadeira capacidade produtiva humana.

  1185. No capitalismo, as coisas mudam rápido e cada vez mais rápido.

  1186. O capitalismo é contra o reacionarismo: o comércio mundial elimina fronteiras econômicas e acaba com o caráter nacional da indústria.

  1187. O capitalismo permite que um país tire recursos naturais de outro pra fazer mercadoria que será vendida num terceiro país.

  1188. Isso opera contra o nacionalismo e contra a autossuficiência de cada nação: em um mundo globalizado, não é possível manter o nível de conforto adquirido se isolando do resto do mundo.

  1189. Com a transformação da cultura em mercadoria, o pensamento nacional cede espaço ao internacional.

  1190. Na era capitalista, quem não é capitalista é “primitivo”.

  1191. Ser “primitivo”, num mundo capitalista, é não entrar no jogo burguês adotado pelas nações “desenvolvidas”, que são consideradas “desenvolvidas” por serem capitalistas.

  1192. Como o ocidente começou esse processo primeiro, ele submeteu o oriente.

  1193. O capitalismo não teria sido possível se não fossem as falhas do feudalismo.

  1194. Um sistema de produção é abandonado quando ele passa a não mais comportar a força produtiva que se tornou padrão de uma época, ou seja, quando tal sistema se torna um estorvo.

  1195. Só no sistema capitalista a sociedade entra em crise por excesso de produção.

  1196. Crises de superprodução podem ser vencidas pela expansão do sistema capitalista, mas isso prepara o terreno para crises maiores.

  1197. “Comunismo” é um sistema de organização social sem classes sociais e sem meios de produção privados, orientando-se pelo princípio de que cada um tem direito ao que pode produzir, sendo tal direito limitado pela necessidade do outro (se você tem excedente, esse excedente é seu, mas apenas se não houver quem precise desse excedente mais que você).

  1198. “Revolução” é a revolta bem-sucedida feita por oprimidos contra seus opressores.

  1199. A tensão entre proletariado e burguesia é natural e a superação do capitalismo se colocará como única alternativa possível quando os problemas do capitalismo se acumularem ao ponto de não ser mais possível consertá-lo.

  1200. A revolução com movimentos individuais, depois grupais, depois setoriais, até envolver uma classe social inteira.

  1201. A competição entre trabalhadores prejudica sua união.

  1202. A modernização do trabalho fabril pelas máquinas simplifica funções, de forma que o salário do operador não precisa ser alto.

  1203. Crises econômicas podem servir pra mobilizar trabalhadores.

  1204. Máquinas sofisticadas extinguem profissões.

  1205. Trabalhadores podem até vencer batalhas, mas continuam perdendo a guerra.

  1206. Os meios de comunicação devem ser usados pra unificar e mobilizar trabalhadores.

  1207. Isso permite movimentos de alcance nacional.

  1208. Use a tecnologia a seu favor.

  1209. Mesmo que os trabalhadores não consigam vencer a guerra, sua unificação como classe social e, eventualmente, através de um partido político, permite que eles façam suas conquistas, principalmente no campo legal.

  1210. Faça amizade com os inimigos de seu inimigo.

  1211. Quando a burguesia se vê no aperto, ela pede socorro ao proletariado.

  1212. O trabalhador culto, erudito, é uma ameaça ao sistema.

  1213. A tendência é que a classe média caia pra uma classe mais baixa.

  1214. Quando isso acontece, você adiciona ao proletariado pessoas com nível de educação maior que a média para aquela classe.

  1215. Existem ricos que apoiam a causa operária.

  1216. Uma classe que luta pela própria sobrevivência e não pela destruição do sistema que propicia a opressão é, na verdade, conservadora.

  1217. Se uma classe oprimida luta contra uma classe opressora a fim de trazer de volta condições passadas, trata-se de uma classe reacionária.

  1218. As camadas mais baixa do proletariado podem servir como massa de manobra da burguesia, já que estão desesperados o bastante pra se venderem.

  1219. A forma mais garantida de vencer é não ter nada a perder.

  1220. Uma revolução proletária seria uma revolução operada pela maioria, porque tem mais trabalhador que patrão.

  1221. Essa é uma tarefa nacional: cada proletariado deve se livrar da burguesia do próprio país.

  1222. O opressor precisa dos oprimidos, por isso não pode matá-los.

  1223. A pobreza parece crescer mais rapidamente que a população e a riqueza.

  1224. Os dois princípios criadores da arte são o espírito apolíneo (predominante nas artes plásticas) e o espírito dionisíaco (predominante na música).

  1225. A inspiração do primeiro tipo gera uma obra harmônica, metódica, enquanto que a inspiração do segundo tipo gera uma obra espontânea e irrefletida.

  1226. Se a inspiração artística é uma desconexão com o real, então o espírito apolíneo pode ser comparado à desconexão pelo sonho, enquanto o espírito dionisíaco é a desconexão pela embriaguez.

  1227. Ambos os princípios são necessários à arte, pra que uma obra não seja tão harmônica a ponto de ser chata, nem tão espontânea a ponto de ser um caos.

  1228. Homem e mulher estão em conflito constante e a reconciliação entre os dois é sempre momentânea.

  1229. A linguagem mítica pode ser mais clara e, por isso, preferível à linguagem filosófica.

  1230. Sonhos são a máxima expressão da criatividade.

  1231. A embriaguez pode ser criativa: tem gente que só consegue produzir arte depois de tomar um porre.

  1232. Aliás, a embriaguez criativa pode ser alcançada por outros meios além do álcool.

  1233. Um desses meios é a loucura.

  1234. Transforme sua vida numa obra de arte.

  1235. A filosofia se propõe a explicar tudo racionalmente.

  1236. Uma vida ascendente é a aquela na qual felicidade e instinto coincidem: somente a partir da cisão entre os dois, somente numa sociedade em que se crê que o instinto traz infelicidade, é que é possível a decadência.

  1237. O filósofo que conceitualiza a filosofia como renúncia a vida achará o suicídio algo racional.

  1238. O pudor da nudez e a vergonha da sexualidade só podem existir num mundo onde há uma moral que torna os homens impotentes.

  1239. Uma pessoa pode ter em si duas morais conflitantes.

  1240. A moral dos senhores é aquela que valoriza o que é forte, enquanto a moral dos escravos, quando estes chegam ao poder, valoriza o que é fraco.

  1241. Antigamente, “bom” era aquilo que os fortes faziam: se uma pessoa forte mata, então matar é elevado ao grau de virtude.

  1242. Então, antigamente, tudo o que o forte, sábio ou independente (os chamados “homens nobres”) faziam era considerado virtude.

  1243. Já os dominados pelos homens nobres criavam uma moral onde era considerado virtude aquilo que era o oposto das virtudes dos dominadores, ou seja, criavam uma moral de oposição, onde a fraqueza, a ignorância e a dependência um do outro são coisas boas.

  1244. A moral dos dominados (“escravos”) concebe ações que são inerentemente boas ou más: “bom” não é mais aquilo que o nobre faz, mas aquilo que está de acordo com um código que diz quais ações são boas e quais são más.

  1245. Embora cada moral de escravos tenha pretensões universais e eternas, cada moral acaba sendo fruto de seu contexto histórico-geográfico.

  1246. “Niilismo” é a aceitação do fato de que nada tem sentido ou significado intrínseco.

  1247. “Super-homem” é a pessoa que aceita que não existem valores universais ou morais universais, que leva uma vida segundo o espírito dionisíaco, não se importa com a passagem do tempo e que, diante de um mundo sem sentido, atribui o sentido que preferir ao mundo.

  1248. A partir do iluminismo, as pessoas gradualmente sentem menos necessidade de Deus, mas isso não significa que elas encontram um substituto para ele.

  1249. No momento em que uma pessoa passa a não acreditar em Deus, ela não tem mais nenhum valor absoluto.

  1250. O ateísmo também é representa uma perda de pontos de referência sólidos.

  1251. Sem valores absolutos e sem pontos de referência sólidos, o ateísmo acaba sendo uma experiência dolorosa.

  1252. Ao abandonar Deus, o centro de tudo passar ser a raça humana, em vez da divindade.

  1253. O ateísmo é um produto humano.

  1254. Se algum dia todos se tornarem ateus, a igreja deixará de existir.

  1255. O gênero humano deve ser superado: se for possível ser algo melhor que meramente humano, por que não sê-lo?

  1256. Todas as espécies são capazes de se aperfeiçoar.

  1257. Não queira regredir a um estado anterior.

  1258. A humanidade pode agir pior que muitos animais.

  1259. A alegria do fraco e do feio é a crueldade, quando este consegue subjugar o forte e o belo.

  1260. O corpo, a natureza e os instintos falam, então escute-os.

  1261. Só um mar pode receber um rio poluído sem se arruinar, tal como somente um homem forte pode se encontrar com algo potencialmente corruptor sem se corromper.

  1262. O homem forte é capaz de grande bem e de grande mal.

  1263. O homem deve se aperfeiçoar sempre.

  1264. Antes do cristianismo, havia uma noção de que o tempo era cíclico: tudo o que aconteceu acontecerá novamente.

  1265. Uma mente doente adoecerá o corpo.

  1266. Mente e corpo influenciam um ao outro, de forma que não se pode dizer que o espírito é independente do corpo ou oposto a ele.

  1267. Um problema físico pode ser causado por uma memória, sem que a pessoa se dê conta de que é aquela memória, aquele pensamento, que origina o sintoma.

  1268. Analogamente, uma mente sã mitiga problemas corporais.

  1269. Se a pessoa esqueceu algo, só pode lembrá-lo sozinha e gradualmente.

  1270. Uma experiência de tensão emocional pode desencadear sintomas físicos.

  1271. Confrontar e vencer uma memória patogênica cessará os sintomas a ela associados.

  1272. O inconsciente fala através dos sonhos.

  1273. Sonhos apontam para nossos instintos insatisfeitos, como o medo de algo, desejo sexual ou uma bexiga bem cheia.

  1274. O sonho pode ser influenciado por qualquer desejo.

  1275. Sonhos sempre têm lógica, mesmo que pouca.

  1276. Vários detalhes de um sonho podem desaparecer quando a pessoa desperta; ela não é capaz de lembrar todo o sonho.

  1277. A sexualidade infantil existe.

  1278. A sexualidade infantil segue menos regras que a adulta e pode, por isso, ser considerada “perversa”.

  1279. Uma história é mais impactante quando sentimos que o destino do protagonista poderia ser o nosso.

  1280. A experiência sexual infantil, quando considerada escandalosa, é negada pelo adulto no qual a criança se torna.

  1281. A agressividade é um instinto humano não-eliminável.

  1282. A civilização é o mal menor, não o ideal.

  1283. Embora a agressividade seja inerente às pessoas, é possível, ainda assim, um futuro sem guerras.

  1284. Os dois tipos de instintos: eróticos (atração e sexualidade) e tanatológicos (repulsão e agressividade).

  1285. Ambas as pulsões são necessárias à sobrevivência do homem, então não podemos nos apressar a igualar tais pulsões ao bem e ao mal.

  1286. Infelizmente, amor e ódio estão frequentemente mesclados.

  1287. Um exemplo de pulsão que mistura amor e ódio é o instinto de autopreservação: por amor ao meu corpo, devo matar quem tenta me matar.

  1288. Por causa da mistura das duas classes de instinto, pessoas vão pra guerra por diferentes razões: alguns querem apenas defender sua terra e querem o bem de seu povo, enquanto outros agem por vingança, cobiça ou preconceitos de raça, classe ou religião.

  1289. Agredir pode causar prazer.

  1290. Dar um caráter nobre a uma atitude baixa facilita a tomada de tal atitude.

  1291. Talvez por isso há quem mate “em nome de Deus”.

  1292. A sexualidade é a pulsão da vida.

  1293. A agressividade é a pulsão da morte.

  1294. Mas o homem pode controlar ambas as pulsões.

  1295. Nunca existiu um “bom selvagem” em parte alguma do mundo.

  1296. A pulsão de morte, a agressividade, não é eficientemente combatida diretamente.

  1297. Então, é mais fácil conter a agressividade exercitando a sua pulsão oposta: o amor.

  1298. Pelo exercício do amor, não pela repressão direta à agressão, é que o ser humano se tornará mais pacífico, porque nunca queremos machucar quem amamos.

  1299. Assim, somente pelo exercício do amor mútuo é que podemos chegar a um mundo no qual, apesar da existência de pulsão agressiva, não haverá guerra.

  1300. Ama teu próximo como a ti mesmo.

  1301. A solidariedade, o sofrimento sentido ao presenciar sofrimento, é uma força que favorece o aparecimento de comunidades.

  1302. Isso porque a solidariedade proporciona identificação.

  1303. Seres humanos nunca serão iguais entre si.

  1304. Por causa disso, é natural que escolhamos os mais aptos a governar para serem nossos líderes.

  1305. Mesmo sem guerra, não haveria paz em níveis, por exemplo, interpessoais.

  1306. Uma paz perfeita, não a mera ausência de guerra, só seria possível se seres humanos não tivessem emoções.

  1307. A civilização é raiz de muitos males.

  1308. Parece que pessoas com menos inteligência são as que mais se reproduzem, o que contribui para o empobrecimento intelectual médio da humanidade.

  1309. O excesso de regras em torno da sexualidade pode causar a extinção da humanidade.

  1310. Animais são domesticados e humanos são civilizados; o mesmo processo com diferentes nomes.

  1311. O que era aceitável ontem não é mais hoje.

  1312. Com a civilização, o nosso intelecto cresce, mas a agressividade passa a ser direcionada para dentro.

  1313. A guerra é uma ruptura do processo civilizatório: o homem se torna animal por um tempo.

  1314. A rejeição da guerra também acontece em nível estético: a guerra é feia, isso também contribui para não gostarmos dela.

  1315. Se for necessário dizer qual é a duração do presente, que se diga que o presenta dura enquanto o observador vive.

  1316. A percepção do tempo é relativa: dois eventos de um minuto parecem ter durações diferentes se um deles é mais intenso que o outro.

  1317. Definir o presente matematicamente é impossível.

  1318. “Intuição” é a compreensão imediata de uma verdade qualquer.

  1319. Diferente do conhecimento racional, que precisa fazer uma ponte entre o conhecido e o desconhecido, o conhecimento intuitivo pode existir sem que a mente tenha nada parecido com ele antes de sua apreensão.

  1320. A razão é gradual e a intuição é imediata.

  1321. O presente é o conjunto material da existência.

  1322. A evolução das espécies é o processo pelo qual uma espécie, ao se adaptar ao seu ambiente (seleção natural), gera crias mais adaptadas a esse ambiente.

  1323. Pelo acúmulo de novas características, determinado espécime pode ser considerado o primeiro de uma nova espécie.

  1324. Só que isso não quer dizer que a espécie evoluída é melhor do que a espécie que o origina, apenas que é melhor adaptada para aquele ambiente.

  1325. Se o ambiente fosse outro ou a espécie fosse outra, o resultado seria outro.

  1326. Donde decorre que, se a teoria da evolução estiver correta, o ser humano não é o melhor resultado desse processo, ao menos não necessariamente, sendo apenas um resultado de um número desconhecido de resultados: pode ser que o neandertal fizesse um melhor trabalho que nós no domínio da Terra, se eles não tivessem sido extintos.

  1327. Isso também implica dizer que a evolução não significa sempre progresso (a menos que se queira admitir que a natureza segue um projeto).

  1328. A evolução das espécies implica fatores que a espécie não pode controlar, de forma que não está em poder de determinada espécie decidir se evolui ou não, nem como evoluirá.

  1329. “Evolucionismo” é o uso da teoria evolutiva de Darwin na explicação do mundo inteiro, tentando traçar tudo a uma origem biológica ou forma de adaptação.

  1330. A natureza não é racional, logo não age segundo plano algum.

  1331. A inteligência humana não é capaz de explicar a vida: por que estamos vivos e como, se nenhum de nossos elementos têm vida em si mesmo e sua alocação não basta para criar um corpo funcional?

  1332. Além disso, a vida individual, tal como a vida coletiva, não segue “leis” estáticas, como as da física; não é possível fazer “leis da vida”.

  1333. A morada da intuição é o instinto, com o qual nascemos.

  1334. Logo, nascemos tanto com meios de conhecer pela razão quanto com meios de conhecer pela intuição.

  1335. A consciência humana é impossível sem o cérebro humano.

  1336. O cérebro tem capacidade plástica e sua estrutura é otimizada para o uso que se faz dele.

  1337. Pode ser que a morte deixe de existir no futuro.

  1338. Há coisas que não é possível compreender pela inteligência, mas somente pelo instinto.

  1339. Inteligência e instinto podem fornecer boas soluções para um dado problema.

  1340. O processo civilizatório tem nos feito negligenciar a intuição.

  1341. Uma atitude é pragmática quando tem como fundamento teórico as consequências de uma ação, ou seja, você é pragmático quando considera os resultados e consequências de uma ação como aquilo de mais importante em seu julgamento.

  1342. Uma crença pode se fundar de três formas…

    1. Pela recusa em discutir suas opiniões.

    2. Pelo controle e eliminação do contraditório.

    3. Pela blindagem racional.

  1343. Crenças obtidas por tais meios são consideradas indubitáveis para aquele que crê.

  1344. Isso é diferente de quando você chega a uma conclusão usando o método científico, o qual renuncia à infalibilidade, mas, talvez justamente por isso, é mais fecundo de bons resultados.

  1345. O método científico, por renunciar à infalibilidade, proporciona a autocorreção.

  1346. Tal como uma ciência é julgada por seus resultados, o pragmatismo tenta um método análogo ao científico, mas na filosofia: uma ideia filosófica deve ser julgada por seus resultados.

  1347. Uma pessoa que se sente feliz afastando de si tudo o que poderia contradizer suas crenças por derradeiro passa a desconsiderar a própria razão.

  1348. Isso acontece porque, embora o homem seja um animal racional, ele não é de todo racional.

  1349. O problema da pessoa que desenvolve suas crenças afastando as crenças opostas é que ela só poderá fazer isso perfeitamente fugindo da socialização.

  1350. Fazer isso é antinatural, a menos que a pessoa seja eremita.

  1351. Assim, as opiniões de um influenciam as dos outros e talvez seja melhor assim, ao menos porque crenças partilhadas permitem a união.

  1352. É possível manipular várias pessoas ao mesmo tempo.

  1353. O estado (o governo ou o povo) pode fazer com que dissidentes, por medo, fiquem calados.

  1354. É o que ocorre em ditaduras.

  1355. O problema das ditaduras é que elas duram pouco em locais onde a sociedade é complexa.

  1356. Isso porque nenhuma instituição pode controlar todos os pensamentos de todas as pessoas.

  1357. Se uma ditadura manipular apenas certas pessoas-chave, não será necessário manipular todos.

  1358. Uma ditadura precisa de um povo ignorante pra subsistir.

  1359. Não é possível remover de um homem sua capacidade de duvidar.

  1360. Liberdade de pensamento é uma habilidade que não se extingue.

  1361. Outros povos e outras épocas têm ou tiveram costumes diferentes: se, por acaso, você tivesse nascido em outro lugar ou noutro tempo, você teria crenças diferentes.

  1362. O choque cultural nos permite criticar nossa própria cultura.

  1363. As coisas são melhores agora ou eram melhores antes?

  1364. É melhor viver neste país ou em outro?

  1365. Perguntas como essas nos fazem duvidar de nós mesmos e também dos formadores da opinião local.

  1366. Questões metafísicas estão sempre abertas, sem resposta definitiva.

  1367. O método científico, avaliando opiniões segundo critérios objetivos, conduz ao consenso.

  1368. Assim, as opiniões produzidas cientificamente são muito mais confiáveis, porque ela lida com dados empíricos e verificáveis, através de métodos repetíveis, para que qualquer um, se dispor dos meios, possa fazer o experimento e constatar que as coisas são daquele jeito.

  1369. As consequências de uma ideia são mais importantes que sua essência.

  1370. Quando estiver em dúvida quanto ao que escolher, se pergunte que diferença faz: se todas as opções levam às mesmas consequências, tanto faz qual você escolhe.

  1371. Se o homem é determinado ou livre, que diferença faz em termos de consequência, se nossa vida seguirá do mesmo jeito não importando qual opção é a correta?

  1372. Considerar as consequências práticas de uma atitude é uma ótima forma de encerrar um debate que parece não ter fim.

  1373. Se não há diferença entre as consequências de duas escolhas, é perda de tempo discutir: é provável que ambas as escolhas estejam corretas, o que torna o debate inútil.

  1374. Um debate que não considera as consequências de cada rumo a ser tomado não é um debate sério.

  1375. Como cada escolha afeta o mundo?

  1376. Se diferentes escolhas afetam o mundo da mesma forma, tanto faz qual eu escolho.

  1377. A ciência é um dos saberes que julga cada coisa pelas suas consequências.

  1378. Se duas opções afetam o mundo da mesma forma, pode ser que a dicotomia seja aparente e ambas as explicações sejam, na verdade, a mesma.

  1379. A filosofia deveria se comportar como a ciência e deixar de encarar um dado conceito sem levar em consideração sua consequência prática.

  1380. Se uma doutrina filosófica ou teoria científica se apresenta como infalível, provavelmente está errada.

  1381. A consideração das consequências de uma ideia aproxima a filosofia da ciência.

  1382. Quando a filosofia desconsidera as consequências práticas de um sistema filosófico, ela passa a ser papo furado, um raciocínio puramente verbal.

  1383. Definir um objeto sem considerar suas consequências leva a um entendimento incompleto do objeto.

  1384. A filosofia deveria concluir prescritivamente, não apenas definindo e explicando, mas também nos dizendo como usar a filosofia de maneira prática para operar alguma mudança na realidade.

  1385. Assim, produzir uma teoria cujas consequências práticas ainda são desconhecidas é ter feito o trabalho apenas pela metade; a teoria é o meio do caminho, não o ponto de chegada.

  1386. Encarar as coisas pragmaticamente é algo que qualquer um pode fazer, não somente os acadêmicos.

  1387. Como todas as ações humanas estão postas no tempo, não existe tema que não possa ser tratado pela história.

  1388. O mesmo é válido para a natureza, por isso se faz história natural.

  1389. Como um problema só pode ser compreendido examinando as condições (passadas) que o proporcionaram, segue-se que uma boa filosofia não pode ser feita sem a história.

  1390. Não há acontecimento sem tempo, logo todo acontecimento tem história.

  1391. Fazer filosofia sem recorrer à história é fazer uma filosofia tão abstrata quanto inútil.

  1392. Tal tentativa, de fazer um “saber pelo saber”, não tem nada de bonito, justo ou útil e certamente não te eleva acima dos demais homens.

  1393. Que conhecimento útil à humanidade foi produzido pelos que dela se isolaram?

  1394. A pretensão universal e eterna das conclusões metafísicas também estão sujeitas à história, por isso é possível escrever a história da metafísica e de como seus conceitos, métodos e conclusões mudam com o tempo.

  1395. O conhecimento que você produz é baseado no conhecimento produzido anteriormente e poderá ser superado no futuro ou usado como meio de se chegar a conclusões novas.

  1396. Então também o seu conhecimento é historicamente determinado.

  1397. A dialética hegeliana não é universalmente aplicável.

  1398. As informações obtidas por um campo do conhecimento podem ser usadas por outro campo.

  1399. As quatro coisas que movem o artifício humano: a utilidade, a beleza, a verdade e a justiça.

  1400. Esses quatro objetivos têm história também: a história da arte (beleza), a história da política ou economia (utilidade), a história da filosofia (verdade) e a história da moral ou ética (justiça).

  1401. Progredir nessas áreas do pensamento requer liberdade criativa.

  1402. O retrocesso faz parte da história, mas ela geralmente progride.

  1403. Também a decadência faz parte da história.

  1404. Não há investigação filosófica ou científica que não esteja, em maior ou menor grau, viciada por nossa subjetividade.

  1405. Para combater isso, é preciso priorizar a objetividade de um fenômeno, não nossas crenças.

  1406. Isso é possível abrindo espaço para dúvida, admitindo que talvez estejamos errados, permitindo que o experimento retifique nossas crenças, em vez de tentar “retificar” o experimento com nossas crenças.

  1407. Temos que nos aproximar do fenômeno como se nunca o tivéssemos visto, deixando de lado as expectativas que temos em relação ao fenômeno, se o que quisermos é compreender o fenômeno cientificamente.

  1408. Um dado objetivo da realidade deve explicar a si mesmo, em vez de interpretado segundo crenças ingênuas que o pesquisador talvez tenha.

  1409. Não aja como se já soubesse como o fenômeno se desenrolará, se o que você quer é compreendê-lo cientificamente.

  1410. Sempre que for estudar algo cientificamente, finja que não sabe nada a respeito daquele fenômeno, atendo-se somente aos dados que são observados e ao método de pesquisa, sem assumir, de antemão, uma conclusão.

  1411. A interpretação científica do mundo pode não servir para a vida cotidiana.

  1412. Isso acontece porque, ao fazer ciência, você abstrai do mundo um pedaço dele, o qual você estudará objetivamente, o que facilita o conhecimento profundo daquele aspecto da vida, mas pode não ter relevância para a vida como um todo.

  1413. Além disso, a ciência, se objetiva, precisa se desfazer da subjetividade, sendo que a subjetividade existe no mundo real.

  1414. Isso quer dizer que a ciência, por uma questão metodológica, deixa de fora de sua prática um monte de coisas que ocorrem no mundo real e que não podem ser refletidas no “mundo de pesquisa” pra não atrapalhar a ciência.

  1415. A ciência é extremamente útil e deve continuar sendo praticada seriamente e objetivamente, mas nunca deve ser tomada como um espelho fiel da realidade, porque a subjetividade, que é um fato, não está (e nem deveria estar) na ciência.

  1416. Um exemplo do direito positivo: ninguém, ao estudar direito, estuda o criminoso ou a vítima ou os sentimentos das partes, mas as leis somente e sua aplicação e é assim que deve ser.

  1417. Além disso, vivemos num mundo orgânico, o qual a ciência só pode estudar setorialmente, separando cada aspecto a ser estudado em profundidade, ou seja, enquanto a ciência estuda cada aspecto do mundo em separado, nós vivemos num mundo onde todos os elementos estão em ação global, inseparados.

  1418. “Fenomenologia” é a doutrina segundo a qual nenhum conteúdo mental deve ser considerado eternamente ou universalmente verdadeiro e nenhum processo perceptivo deve ser considerado uma descrição objetiva do mundo.

  1419. Assim, usar o método fenomenológico é assumir uma postura crítica diante das nossas próprias crenças e assumir que estudar objetivamente algo do mundo não equivale a estudar o mundo inteiro.

  1420. Exclua de seu estudo tudo o que não for necessário a ele (não apenas em termos materiais, mas também mentais), para que não haja interferência.

  1421. A compreensão de um fenômeno requer impessoalidade, o abandono dos nossos preconceitos.

  1422. A distância entre ciência e homem comum põe a ciência em crise, porque ela se torna incompreensível e até inútil ao sujeito normal.

  1423. Existem questões que a ciência não pode responder: as questões pessoais.

  1424. A análise objetiva do mundo abstrai o mundo de seu significado, uma vez que adquire caráter meramente descritivo.

  1425. Se a ciência é objetiva, o mundo não pode ser estudado por ela em sua totalidade, mas apenas a parcela que pode ser reduzida à objetividade.

  1426. Não existe ciência da subjetividade.

  1427. A ciência só tem sentido enquanto guarda relação com o mundo real.

  1428. Como a ciência objetiva não é capaz de explicar tudo, embora tivéssemos a esperança de que tudo poderia ser tratado pela ciência e pela razão, cada vez mais pessoas se voltam ao irracionalismo, porque se frustram com o fato de que a ciência não tem resposta pra tudo.

  1429. Se a ciência exclui a subjetividade de sua atividade, segue-se que a razão ainda precisa da filosofia, porque a subjetividade é território filosófico, de forma que a filosofia e a ciência se completam.

5 de julho de 2019

What I learned by reading “Alice – True or not True?”.

Filed under: Livros, Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yure @ 12:59

“Alice – True or not True?” Was written by CM Rubin. Below, what I learned by reading this text.

The relationship between Alice and Lewis.

Lewis was more comfortable around little girls than around adults. In the Victorian Era, it was normal for an adult man to have a platonic relationship with a little girl. That would be cause of suspicion today. Although Lewis was accused of having “perverse desires,” he often supported charitable initiatives to defend poor children and young women. Lewis also believed that female education was more than just teaching her how to be a housewife. Alice might have been Lewis’s most important friend, but not the only one: ​​Lewis was friends with several other children. Lewis also believed that adults in general do not listen to children and that no one tries to explain important things to children, even when those things have a dramatic impact on their lives.

The Victorian Era was also a time when there was nothing wrong with children posing naked in photo essays. Lewis had a platonic contact with Alice and also photographed the nudity of his beloved. However, he did not do these things without permission from Alice’s parents and from Alice herself. It is not possible to say with certainty what was going on in Lewis’s mind during his interaction with Alice. Alice did not consider her contact to Lewis to be negative. The meaning of their relationship is up to interpretation. The friendship between the two ended when Alice’s parents decided that Lewis was not a good match for a future marriage.

After Such Kindness.

Such friendship also became a source material for the creation of fiction: some authors have created stories that show what might have happened if their friendship did not end. One such story is called After Such Kindness, by Gaynor Arnold, in which a guy develops friendship with his friend’s daughter and they become quite fond of each other. Although After Such Kindness is based on the true story of Lewis and Alice, the characters of After Such Kindness are not faithful portraits of Lewis and Alice.

The original idea of After Such Kindness was to write a novel about a platonic relationship between a girl and a man, but from the girl’s point of view.

Years later, the girl, now a woman who is unhappy with her marriage, finds her childhood diary … and begins to reinterpret that friendship she had as a child. Nowadays, we know that the children are sexual beings and that there are adults who are attracted to children, so it is no longer possible to look at a friendship between an adult and a child without seeing in it some sexual connotation (the so-called “stranger danger”). There are adults who fall in love with children. So, a person, after growing up, upon looking back at that special friendship, may notice that something felt “off”. This is especially serious when we remember that Lewis took pictures of Alice’s nudity. If such friendship happened today, Lewis could be arrested and Alice could be sent to therapy.

What I learned from “An Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Based on Nonclinical Samples”.

Filed under: Notícias e política, Saúde e bem-estar — Tags:, , — Yure @ 12:59

“An Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Based on Nonclinical Samples” was written by Bruce Rind, Robert Bauserman and Philip Tromovitch. Below, what I learned by reading this text.

Moral panic.

The topic of sexual experiences in childhood or adolescence became relevant from the second half of the 1970s. The concern over child sexuality is typically American and spread to other countries from United States. This concern became a moral panic which infected science. It created the idea that adult/child sex, for example, is inherently harmful. Assuming harm is an attempt to turn a moral problem into a medical problem. And now, in the clinical field and among laymen, it is commonly believed that sexual experiences in childhood or adolescence are harmful, with frequent and intense harm for both boys and girls. For most people, such experiences are child sexual abuse. Which is true… for subjects in clinical or forensic populations. Some scholars even went as far as to say that all the problems that an adult could have are caused by a sexual experience in childhood or adolescence. By working with such assumption, we may end up offering a wrong treatment to victims of abuse. When a therapist uses pseudoscience, the patient comes out worse than when he entered.

There is a “child abuse industry”: people who profit from child abuse. The fight against child physical abuse and child verbal abuse isn’t profitable, but fighting child sexual abuse sells like water in a desert. That creates a sense of alarm in the population and democratic institutions. Remember Janet Reno? As sexual abuse causes more public outrage, companies and non-profit initiatives who advocate children’s rights focus on this form of abuse, leaving aside problems that are statistically more serious, such as physical abuse, verbal abuse, and parental neglect of children and adolescents. That’s not right: you should fight sexual abuse without neglecting other forms of child abuse. Otherwise, one type of abuse will distract us from fighting other types.

Abuse as a concept.

Let’s dare to ask: is it true that a precocious sexual experience is often traumatic, whether you are a boy or a girl? Researchers are not unanimous about precocious sex being inherently harmful. Do they all deserve to be called “abuse”? Or is this label being misused? Do not underestimate the power of a label. The prevalence of child sexual abuse varies from study to study because the definitions of child sexual abuse vary from study to study: what is considered abuse, when something is sexual and how old a person has to be to be considered a “child”? If the label is inaccurate, studies who use that concept will also be. When a child or adolescent has a sexual contact, but does not suffer as a result of the contact, which may have been consented to, what has been abused: the person or the prevailing moral code? Is the indiscriminate use of that term (abuse) to describe all of these contacts objectionable? Certainly, however, the use of moral terms as if they were scientific undermines the objectivity required by science. The indiscriminate use of such term predisposes us to a negative judgment of all such experiences, even the innocuous ones. Moreover, such misuse of negatively charged terms leads us to presume that violence was made to the minor, even in cases where such violence did not occur.

This is important because violation of moral standards does not necessarily harm anyone. Something can be “wrong” and be innocuous. When a person who has had a sexual contact in childhood or adolescence develops mental problems in adulthood, we tend to think that the “loss of innocence” is to blame, but we are actually supposed to look for alternative causes as well, such family environment, which may be more plausible causes. Caution is needed before attributing such imbalance to the contact. That’s because the effect of a sexual contact in childhood or adolescence is mediated by non-sexual factors: it is not the fact that the contact was sexual, but whether or not it was voluntary, whether or not it was painful, whether or not it caused shame or guilt. The damage depends on the context in which the contact occurs (if it was forced, painful, shameful, among other conditions).

Scientifically, “abuse” is the term designed to describe conduct that is likely to harm someone. The term “child sexual abuse” should then be restricted to sexual contacts without voluntary participation of all parties or contacts in which pain or shame were factors, as these are almost always harmful, either physically or mentally. Not all sexual experiences in childhood or adolescence deserve to be labelled “child sexual abuse”, since a considerable number of such contacts are neither forced nor harmful. The term “child sexual abuse” should only be used if the experience has been negative or if the child was coerced into it.

Methodology problems.

In a qualitative research, the researcher describes his findings narratively, not mathematically. As statistical studies sometimes validate narrative studies, both types of research should complement each other. The problem with qualitative studies is that, because they are offered in a narrative way, the author’s prejudices can be transmitted to the text. This, coupled with problems such as skewed sampling, makes qualitative research results inconsistent: each researcher concludes differently from the other. For example: if you are going to study child sexual abuse, or “adult/child sex”, you are not supposed to study only subjects in therapy for recovery of abuse effects, because you are only studying subjects who suffered from the contact, deliberately closing your study to people who have a different narrative. By emphasizing only negative occurrences, the person you are talking to will only remember negative occurences. It is not possible to know the nature of sex using clinical samples, unless we want to conclude that sex is harmful.

Meanwhile, someone who studies only positive accounts of adult/child sex has incurred in the same problem. Both will have skewed results, after skewing their samples, even if they interview three million people, because, if your sample is skewed, the number of people you interviewed doesn’t matter. Such studies, therefore, are not generalizable. If you need to conduct your study with a limited population, why not use a sample of college students, instead of clinical subjects, as the number of positive and negative reactions is more likely to be fairly represented?

This is specially true considering how the contact is experienced between the sexes. The results of a study conducted with girls only can’t be generalized to boys: at least in the case of the boy, voluntary participation in sexual contact in childhood or adolescence is not related to problems in adult functioning. The boy will probably grow normal, provided that the experience was not coercive. The damage most likely will occur if the child or adolescent is forced into the contact, in which case we can safely say they were raped (even though the use of legal terms in scientific works is very strange). The same does not occur with the girl, however, as she may suffer even when her participation is voluntary. Damage becomes even more common in an incestuous configuration.

Sexual behaviors are most often condemned by morals and not by science. Yet, we must remember that there are scientists who are also moralists. Because of that, both masturbation and homosexuality have been considered diseases before. Even oral sex was once considered a sick behavior. Our attitudes both towards masturbation and homosexuality only changed after we started to look into non-clinical subjects. Back when masturbation was taboo, researchers used the fact that most people in therapy also indulged in masturbation as a proof that masturbation causes mental illness. Remember how masturbation was once called “self-abuse.” That caused a moral panic centered on masturbation. People who masturbated feared that such occurrences would cause them ills, but such evils could be caused by their own fear of developing them. Also, it is the fight against masturbation that is behind the American custom of circumcising boys on a large scale. The same process was used to justify the belief that homosexuality is a disease: you only studied homosexuals who were already in treatment to cure their homosexuality, but not homosexuals who were happy with their condition.

The same is done now with precocious sexual relationships. If we want to know the truth about sexual contacts in childhood or adolescence, we need to study children and adolescents in general, not just those in the clinical population (Arreola et al, 2008; Arreola et al, 2009; Bauserman & Rind, 1997; Carballo-Diéguez et al, 2011; Condy et al, 1987; Dolezal et al, 2014; Kilpatrick, 1987; Lahtinen et al, 2018; Leahy, 1996; Mulya, 2018; Rind, 2001; Rind, 2016; Rind & Tromovitch, 1997; Rind & Welter, 2013; Rind & Welter, 2016; Rind et al, 1998; Sandfort, 1984; Sandfort, 1987; Tindall, 1978; Ulrich et al, 2005-2006; Wet et al, 2018). Comparing studies done outside the clinical population, the reader will see that sexual contact in childhood or adolescence not often produces damage, that rarely such damage is permanent, and that boys are less frequently injured than girls. Some people claim that such contacts have had a positive impact on their quality of life. In fact, some children or adolescents who had sexual experiences with an adult patiently wait until the adult has served their sentence, só they can reconcile and continue the relationship. To say that all these contacts are rape is to distort reality.

Confirmation bias.

A therapist who firmly believes that homosexuality is a disease will look for symptoms of such disease, which will make him more likely to blame homosexuality for all the problems that the patient has. The same holds true for a sexual contact in childhood or adolescence. You need to consider the whole history of your patient, rather than paying selective attention to this or that experience. So if a delinquent teenager had sex with his mother once at the age of ten but was beaten by his father every day, do not rush to say that the the incestuous episode is to blame for his delinquency. You can not conclude much if you choose not to pay attention to much. This is a sign of confirmation bias.

Correlation and causality.

Some studies pick subjects who had a sexual contact in childhood or adolescence and say that a percentage of people with a precocious sexual history also tends to have mental adjustment problems… but this does not prove that the contact caused these problems. That does not answer how much of that damage comes from the contact and how much comes from other sources.

For example: in the United States, whites have an intelligence quotient, on average, greater than that of blacks, but blacks are generally less socioeconomically favored as well. So we can not rush to say that such a difference of intelligence quotient is due to race, when it may well be caused by economic differences: if you are poor, you have fewer opportunities for intellectual development, less opportunity to exercise logic and mathematics, necessary for the development of the IQ.

In small communities, there are fewer churches and fewer crimes; in big cities, there are more churches and more crimes. Would you conclude that churches increase the number of crimes committed? However, both things (the number of churches and the number of crimes) are explained by the population density: in a place with a lot of people, there will be a lot of temples and a lot of crime.

In the case of sexual contact in childhood or adolescence, many of the young people engaging in such practice come from dysfunctional families. So how much of the damage attributed to these contacts is best explained by family imbalance? After all, in a bad family, the kid will seek affection from someone outside of home. Interpreting the experience of another person according to your prejudices does not change the experience as the person remembers. So, you are supposed to ask the interviewee how he feels about his sexual contact in childhood or adolescence, not only if he is depressed or stressed, if you want to establish a causal link (a pleasant experience is unlikely to have caused the maladjustment). At the same time, try to seek other explanations for the maladjustment as well. Studies show that a sexual contact in childhood or adolescence cause fewer problems than an unstable family.

We need to separate third variables if we want to know exactly how much damage these contacts cause. Knowing how much damage is attributable to the experience requires probing other variables: among those with mental disorders and a history of precocious sexual contacts, how many of them also suffer from domestic abuse, which could explain both things (the precocious sex and the maladjustment)?

The numbers.

Comparing different studies, we can notice that, outside the clinical population:

  1. 11% of girls react positively to sexual contacts in childhood or adolescence.
  2. 18% of girls react indifferently to sexual contacts in childhood or adolescence.
  3. 72% of girls react negatively to sexual contacts in childhood or adolescence.
  4. 37% of boys react positively to sexual contacts in childhood or adolescence.
  5. 29% of boys react indifferently to sexual contacts in childhood or adolescence.
  6. 33% of boys react negatively to sexual contacts in childhood or adolescence.

Therefore, two-thirds of the boys do not suffer from such contacts, but two-thirds of the girls do suffer. The reaction differences between boy and girl can be explained culturally: boys see sex as an adventure or learning opportunity, but girls see sex as an invasion or something immoral. Another explanation is that girls who engage in sexual experiences in childhood or adolescence tend to have this experience when they are still far too young: a 8-year-old girl having sex with a 30-year-old man is unlikely to enjoy what happened. Plus, girls are also the most frequent victims of incestuous rape. That being said, the high percentage of negative experiences among girls could signal that girls are forced into sex more often than boys.

Cultural considerations.

If you fight for the rights of children and adolescents, do not spend tax money to persecute children and adolescents, because laws against child sexual abuse also convict children who are doing libidinous acts to each other in a context of play (in Brazil, any libidinous act, whether voluntary or not, harmful or not, is punishable if one of the participants is less than fourteen years old, even if both participants have less than fourteen years, which implies that it is forbidden to date before the age of fourteen). Instead of forbidding certain forms of sex, wouldn’t it make more sense to prohibit elements that make sex harmful? One such element that favors harm is ignorance: minors are kept vulnerable because they are not informed about sex, since our society is ashamed to talk about it with them. Another reason why they are not informed is because giving sexual information enables informed consent.

“Children can’t consent” is a statement that relies on the social and legal concept of “informed consent”, that is, we are not talking about consent in the strict sense (permission or initiative), which can be issued by anyone who is able to speak. Furthermore, the presence or absence of informed consent does not predict harm or absence of harm, but the presence or absence of “pure” consent (simple permission or initiative) predicts. If they were informed, they would be able to give informed consent as well and nobody wants that. However, if you don’t talk about sex with your children, you are keeping them vulnerable to sexual advances, as they won’t be able to recognize them and tell them apart from regular affection.

However, of those who suffer from such a contact, most recover, so that permanent harm is a minority occurrence. Now: among those with a history of sexual contacts in childhood or adolescence and mental adjustment problems, how much of their mental imbalance is safely attributable to the sexual contact? Family problems and sexual contacts in childhood or adolescence are two often related occurrences: a toxic family predisposes the minor to seek love from another source. Physical abuse and parental neglect are more harmful than sexual experiences in childhood or adolescence.

Sexual contacts in childhood or adolescence are something that must be studied with reason, not with emotion. Because the sleep of reason produces monsters.

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