Analecto

17 de maio de 2018

Three ways to eliminate a law.

Filed under: Livros, Notícias e política, Organizações, Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yurinho @ 18:59

These days, I had no computer, so I could not write much here. Using my nephew’s computer is a nightmare, because it’s a notebook without a keyboard. I had to click on the letters that I wanted to type, using a virtual keyboard, which soon turned out to be a physical and mental torture. So I took a vacation from the Internet and decided to write things in a notebook and also draw. One of the things I wrote was a little reflection on how to get rid of a law that bothers you.

I found three ways: democratic, implosive, radical. The democratic path requires converting as many people as possible into your line of thought, so that a given idea gains political strength and political representation. This is easy to do, but it is a long process that can take decades. However, in the long run, it is one of the most guaranteed method if you are good at rhetoric. The fact is that if you keep pushing and your group keeps growing, it will eventually work out. After all, feminists are not even the majority of women and look what they have done.

The implosive route consists in the alienation between law and code. Take 217- A of the Brazilian Penal Code as an example. That text says that no one can have carnal conjunction or practice a libidinous act before the age of fourteen. Some jurists argue that by condemning as rape all libidinous acts committed before the age of fourteen (because violence is presumed), even in the presence of evidence that no violence took place, it interferes with the subject’s presumption of innocence (also known as due process). If I am convicted before the trial even starts, the law is unconstitutional. That’s what the argument says. There have been some attempts to make the government realize that 217-A is unconstitutional, but none have worked so far. This is the implosive route: if the law were declared unconstitutional, that is, conflicting with a larger code, it would lose its effect. It is the most difficult route, but it has an instant consequence.

The radical way is to normalize illegal behavior by systematic disobedience . The government itself may end up doing this. For example, the new definition of molestation in the state of Arizona says that any contact made by an adult to a child’s genitals counts as molestation. This effectively criminalizes bathing and diaper changes. Who can obey this? Certainly not mothers. In the case of 217-A, the major offenders of this law are the minors themselves , developing juvenile or child-to-child relationships, as well as games that may be considered libidinous, typical of naughty children who are left unsupervised.

So I can not tell you to break the laws, although there’s a lot of kids who can not read this text and who just do not care. Anyway, it’s never enough to be bold when I say be a good citizen and obey the law. But the implosive route sounds tempting. If there are lawyers arguing that this law is unconstitutional and if there are judges who refuse to apply it literally, I have decided to verify things on my own. So, I downloaded the Brazilian Constitution and the Child and Adolescent Statute. In the next few days, I will read them calmly and seek arguments against 217-A. I also did a very short online course (only five hours) of legal argumentation and learned about the relativization of law and how the judge can hear other sources outside the text of the law, such as science and philosophy . Even though I may not be able to find these arguments, since I gradutated in philosophy and I know little of rights, it’s still a good idea for me to read these codes. After all, it is the law of my country. I have to keep up to date with it.

Três formas de eliminar uma lei.

Filed under: Livros, Notícias e política, Organizações, Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yurinho @ 18:46

Esses dias, eu estava sem computador, então eu não pude escrever muita coisa aqui. Usar o computador do meu sobrinho é um pesadelo, porque é um notebook sem teclado. Eu tinha que clicar nas letras que eu queria digitar, utilizando um teclado virtual, o que logo se mostrou um estorvo físico e mental. Então eu tirei umas férias da Internet e fiquei escrevendo coisas num caderno e também desenhando. Uma das coisas que escrevi foi uma pequena reflexão sobre como se livrar de uma lei que te incomoda.

Eu encontrei três formas: democrática, implosiva, radical. A via democrática requer converter o máximo possível de pessoas a sua linha de pensamento, a fim de que determinada ideia ganhe força política e, depois, representação política. Isso é fácil fazer, mas é um processo longo, que pode demorar décadas. No entanto, a longo prazo, é um dos métodos mais garantidos se você manjar de retórica. Fato é que, se você continuar insistindo e seu grupo continuar crescendo, eventualmente dará certo. Afinal, as feministas não são nem sequer a maioria das mulheres e olha o que elas fizeram.

A via implosiva consiste na alienação entre lei e código. Tomemos como exemplo o 217-A do Código Penal. Esse texto diz que ninguém pode ter conjunção carnal ou praticar ato libidinoso antes dos catorze anos. Alguns juristas argumentam que, ao condenar como estupro todos os atos libidinosos engajados antes dos catorze anos (porque violência é presumida), mesmo quando eu tenho provas de que não usei violência, interfere com a presunção de inocência do sujeito. Se eu entro no julgamento já condenado, a lei é inconstitucional. É isso que diz o argumento. Houve algumas tentativas de fazer o governo perceber que o 217-A é inconstitucional, mas nenhuma deu resultado até agora. É nisso que consiste a via implosiva: se a lei fosse declarada inconstitucional, isto é, conflitante com um código maior, ela perderia o efeito. É a via mais difícil, mas tem consequência instantânea.

A via radical consiste na normalização do comportamento ilegal pela desobediência sistemática. O próprio governo pode acabar fazendo isso. Por exemplo: a nova definição de molestamento no estado do Arizona diz que qualquer contato feito por um adulto aos genitais de uma criança conta como molestamento. Isso efetivamente criminaliza banhos e trocas de fralda. É uma lei de palha, impraticável. Quem poderá obedecer a isso? Certamente, não as mães. No caso do 217-A, os maiores infratores dessa lei são os próprios menores, ao desenvolverem relacionamentos juvenis ou infantis entre si, além de jogos que podem ser considerados libidinosos, típicos das crianças travessas que são deixadas sem supervisão.

Então, eu não posso dizer pra você quebrar as leis, embora tenha um monte de criança que não sabe ler isto que estou escrevendo e que simplesmente não se importa. Mas a via implosiva soa tentadora. Se existem advogados argumentando que essa lei é inconstitucional e se existem juízes que se recusam a aplicá-la literalmente, eu resolvi verificar as coisas por conta própria e baixei a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente. Nos próximos dias, eu os lerei com calma e procurarei argumentos contra o 217-A. Eu também fiz um curso online muito capenga (só cinco horas) de argumentação jurídica e aprendi sobre a relativização do direito e como o juiz pode ouvir outras fontes fora o texto da lei, como a ciência e a filosofia. Mesmo que eu não seja capaz de encontrar esses argumentos, uma vez que minha área não é o direito, ainda é uma boa ideia eu ler esses códigos. Afinal, é a lei do meu país. Eu tenho que me manter atualizado em relação a ela.

28 de setembro de 2017

Presente de aniversário.

An English version of the following text can be found after the Portuguese version.

Hoje eu faço, oficialmente, vinte e cinco anos. Recebi um e-mail da Câmara dos Deputados. No Brasil, há duas formas de um indivíduo sugerir uma lei: pelo site do Senado e pelo site da Câmara. Então, depois que eu escrevi meu texto Estupro de Vulnerável, que expõe todos os problemas do artigo 217-A do Código Penal, eu resolvi levar as coisas ao modo Justin Bailey e enviei minha ideia à Câmara. Lá, ela seria enviada a alguém que tivesse saco pra ler. Isso foi em julho. Hoje, alguém com saco recebeu minha mensagem e ela será lida. Basicamente, eu proponho o retorno aos tempos anteriores a 2009, quando uma relação com um menor de idade só seria criminosa se o menor fosse forçado, prejudicado ou se os pais não concordassem com a relação. Assim, uma relação inofensiva e aprovada por todas as partes (pais, menor e interessado) não precisaria ser punida. Ela nem seria considerada “pedofilia”, apesar de ser, clinicamente, se um dos participantes fosse adulto. Vale lembrar que nem todas as relações entre adulto e menor resultam em prejuízo, com algumas sendo benéficas. Essas que são “benéficas” o povo não vê como pedofilia, porque têm para si que pedofilia é sinônimo de estupro de menor, o que não é verdade.

Em julho também, resolvi continuar com meu plano e fiz a mesma coisa no site do Senado. Deixa eu explicar: o site do Senado permite que façamos leis e as enviemos pra consulta pública. Se a nossa ideia tiver vinte mil apoios, ela será enviada à Comissão de Direitos Humanos e, se ela receber um bom parecer, será debatida na Câmara e no Senado. Depois disso, tive ainda a audácia de contactar todos os partidos políticos atualmente existentes no Brasil e sugerir pra eles as mudanças que meu texto propõe. Só um me retornou: o Partido Novo (acho esse nome péssimo, por falar nisso, é como nomear um diretório de “Nova Pasta”).

Caso você esteja se perguntando como eu pretendo reduzir os casos de gravidez na adolescência dessa forma, saiba que eu trato desse problema no meu texto, bem como outros, inclusive sexualidade infantil, aulas de educação sexual e outros, comparando o Brasil com países mais permissivos e que têm taxas menores de gravidez adolescente, como o Japão, onde a idade de consentimento é treze anos e só quatro em cada mil mulheres engravida antes dos dezenove, sugerindo que o problema da gravidez adolescente não é legal, mas educacional. Encaremos os fatos: menores terão relações entre si ou com mais velhos queiramos ou não, então é bom que estejam pelo menos informados e que os pais tenham o direito de permitir ou proibir, como tinham antes.

Fico feliz por meu texto ter sido encaminhado pra… alguém que esqueci o nome. “Alguma Coisa Forte”, talvez “Rodrigo Forte”, sei lá. O fato é que a lei anterior era superior, em termos de proporção penal e liberdade. Então, foi um bom presente de aniversário. Temos que procurar caminhos possíveis para luta.

English version below.

Today, I officially turn 25. I received an e-mail from the Lower House today. In Brazil, there are two ways for someone to suggest a law: Senate site and Lower House site. So, after I wrote Statutory Rape (a heads-up: I edited the text and added more stuff after Apertado translated it, meaning that the English version is technically incomplete), a text that exposes all problems of the article 217-A in the Penal Code, I decided to take things to Justin Bailey mode and sent my idea to the Lower House. There, it would be sent to someone who had patience to read. That was in July. Today, someone with patience received my message and it will be read. Basically, I propose a return to how things were before 2009, back when a relationship with a minor would only be criminal if the minor was forced, harmed or if the parents didn’t agree with it. That way, a harmless relationship that is approved by all parties (parents, minor and interested) wouldn’t need to be punished. It wouldn’t even be considered “pedophilia”, despite being clinically so, if the interested party is an adult. That’s because laymen think that positive relationships with minors aren’t pedophilia, because, for most people, pedophilia is just child rape, which isn’t true.

Also in July, I decided to do the same thing in Senate site. Let me explain: the Senate site allows us to write law ideas and turn them into petitions. If a petition reaches twenty thousand supports, it will be sent to the Human Rights Commission. There, if it receives a good review, it will be sent for debate in Congress. After that, I had the audacity to contact all political parties currently in existence in Brazil in order to suggest the changes proposed by my text. Only one got back at me: the New Party (I think that name is awful, by the way, it’s like naming a directory as “New Folder”).

If you are wondering how would it reduce the cases of teenage pregnancy, I address those problems in my text, as well as other problems such as child sexuality, sexual education lessons and others, comparing Brazil to more permissive countries that have lower teen pregnancy rates, such as Japan, where age of consent is 13 and only 4 in 1000 women become pregnant before age 19, suggesting that teenage pregnancy isn’t a legal, but educational problem. Let’s face the facts: minors will build relationships with each other wether we want it or not, so it would be nice for them to be at least informed on it and that the parents have the right to allow or forbid like they had before.

I’m thankful for my text being sent to… someone whose name I forgot. “Something Forte”, maybe “Rodrigo Forte”, not sure. Fact is that the previous law was superior in terms of penalty proportion and freedom. I guess it was a nice birthday gift. We gotta exploit available channels and fight.

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