Analecto

8 de março de 2019

O que aprendi lendo “The Worst Combinations of Child Abuse and Neglect”.

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The Worst Combinations of Child Abuse and Neglect” foi escrito por Philip G. Ney, Tak Fung e Adele Rose Wickett. Abaixo, o que aprendi lendo esse texto.

  1. Abuso sexual não é a única a ameaça à criança: existe abuso físico, negligência física, abuso verbal e negligência emocional também.
  2. Menos de 5% desses maus-tratos ocorrem isoladamente: a mãe que bate no filho pode muito bem ser a mesma mãe que não o leva ao médico quando sente dor ou que o deixa passar fome.
  3. A pergunta do estudo: já que uma criança geralmente está sujeita a mais de um tipo de abuso por vez, quais combinações são as piores?
  4. A pior combinação é: negligência física, abuso físico e abuso verbal.
  5. Isso porque a criança que não tem suas necessidades físicas atendidas, apanha dos pais e ainda por cima tem que ouvir toda sorte de xingamentos e gritos crescerá tendo menos aproveitamento da vida e com autoestima menor do que a de outras crianças.
  6. Ignorar os sentimentos da criança e abusá-la verbalmente são práticas mais comuns quando a criança é pequena.
  7. Mães que negligenciam os filhos provavelmente abusarão deles mais tarde.
  8. Entender os efeitos do abuso infantil requer entender a sinergia entre os tipos de abuso, já que um tipo de abuso raramente ocorre isoladamente.
  9. Profissionais que estudam abuso infantil geralmente se focam no abuso físico ou no sexual, de forma que eles negligenciam as combinações entre os tipos de abuso.
  10. Negligenciar as necessidades infantis antes dos abusos começarem a ocorrer potencializa os efeitos negativos do abuso.
  11. Para entender os efeitos da sinergia entre tipos de abuso, é preciso fazer separação entre abuso físico e sexual, bem como entre abuso e negligência.
  12. Isso porque diferentes tipos de abuso desencadeiam diferentes tipos de sintoma.
  13. Abuso físico e abuso verbal ocorrem com mais frequência do que abuso sexual.
  14. Abuso sexual ocorre mais no contexto onde também ocorre negligência física.
  15. Abuso verbal ocorre mais no contexto onde também ocorre negligência emocional.
  16. Os dois tipos mais danosos de abuso são abuso físico e abuso verbal.
  17. Nas dez piores combinações de abuso e negligência, abuso sexual só aparece uma vez, abuso verbal aparece sete vezes, negligência física aparece seis vezes, abuso físico aparece cinco vezes e negligência emocional aparece também cinco vezes.
  18. Isso não quer dizer que abuso sexual é seguro, mas que todas as formas de abuso são ruins, com abuso sexual sendo apenas a forma menos frequente.
  19. Sofrer apenas um tipo de abuso durante a infância é ocorrência excepcional, não regra.
  20. Via de regra, a criança maltratada nunca é abusada ou negligenciada de apenas um jeito.
  21. A criança ou adolescente em relação com adulto pode não querer se separar desse adulto.
  22. A mãe que sofreu abuso ou negligência física, emocional ou verbal provavelmente fará seus filhos passarem pelo mesmo.
  23. A criança que sofreu abuso físico ou verbal pensa mais em suicídio.
  24. Abuso sexual sozinho é o menos danoso dos cinco tipos de abuso, mas se torna particularmente danoso circunstancialmente quando combinado com negligência emocional: imagine ser estuprado, contar o incidente pra sua mãe e ela não tomar nenhuma atitude.
  25. Se a criança for apoiada pelos pais em um momento tão delicado, é provável que ela se recupere.
  26. Negligência potencializa o efeito de quaisquer abusos que possam ocorrer (presumivelmente porque a criança sente que, se não pode contar com os pais pra protegê-la, não pode contar com ninguém).

3 de março de 2019

O que aprendi lendo “Immediate and Long-Term Impacts of Child Sexual Abuse”.

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Immediate and Long-Term Impacts of Child Sexual Abuse” foi escrito por John N. Briere e Diana M. Elliott. Abaixo, o que aprendi lendo este texto.

  1. Sintomas de abuso sexual infantil podem aparecer devido a circunstâncias que se manifestaram após o abuso.
  2. Nem sempre é possível fazer uma ligação causal entre relação sexual precoce e sintoma negativo, o qual pode ser causado por outras coisas.
  3. O abuso sexual infantil é apenas um problema: outras formas de abuso infantil, como o abuso emocional e o abuso físico, podem também causar danos ao funcionamento adulto da criança quando ela cresce.
  4. Se você disse que relação sexual precoce nem sempre é algo traumático, é improvável que você escute alguém dizer “ei, eu concordo.”
  5. Boa parte dos estudos sobre experiências sexuais infantis usam amostras clínicas ou forenses, as quais têm potencial de generalização limitado: podem existir crianças por aí que têm histórias diferentes.
  6. No caso do abuso sexual infantil, nem todas as crianças reagem ao abuso da mesma forma: é muito difícil, se não impossível, construir um “perfil da criança abusada”.
  7. Existem crianças que se relacionam sexualmente na infância e crescem perfeitamente normais.
  8. Isso porque contato sexual varia segundo frequência e intensidade: uma coisa é você ser acariciado e outra totalmente diferente é ser estuprado.
  9. A presença ou ausência de determinado sintoma não fecha e nem nega a ocorrência de abuso sexual.
  10. O propósito do estudo é descrever os sintomas comumente atribuídos ao abuso sexual infantil, mas sem pretensão de dizer que todas as crianças sexualmente abusadas reportarão esses sintomas ou que tais sintomas não possam ser ocasionadas por outras condições.
  11. Alguns sintomas de relações precoces forçadas ou dolorosas diminuem com o tempo, mas outros sintomas pioram com o tempo.
  12. Um desses sintomas é o estresse pós-traumático.
  13. A chance de uma criança sexualmente abusada receber diagnóstico de estresse pós-traumático é 48% maior do que a chance de uma criança virgem receber o mesmo diagnóstico.
  14. Um dos sintomas icônicos do estresse pós-traumático são as alucinações que ocorrem de tal forma que parece que o evento traumático está ocorrendo naquele momento novamente, quando só se trata de uma memória especialmente intensa.
  15. No caso do abuso sexual, as alucinações (que podem ser visuais, auditivas, olfativas, gustativas ou mesmo táteis) podem ser ativadas por coisas que lembram o ocorrido, como a própria excitação sexual: imagine reviver uma experiência traumática sempre que sentir tesão.
  16. Outra manifestação do estresse pós-traumático são as memórias intrusivas.
  17. Pesadelos também são comuns em pessoas estresse pós-traumático.
  18. Outro efeito possível do abuso sexual infantil é a distorção cognitiva: você aprende a ver o mundo como um lugar mais perigoso do que realmente é, por exemplo.
  19. Outra forma dessa distorção é a tentativa de justificar o que aconteceu, o que pode levar a problemas de autoestima (“eu fui abusado porque mereci”).
  20. Outro efeito possível é o desconforto emocional, que pode tomar forma de depressão ou ansiedade.
  21. A chance da criança estuprada receber diagnóstico de depressão é quatro vezes maior do que da criança que não foi estuprada.
  22. Experiências forçadas ou dolorosas são disruptivas por natureza.
  23. Elas prejudicam a confiança na justiça do mundo.
  24. A chance de uma criança estuprada receber um diagnóstico de quaisquer males relacionados à ansiedade é cinco vezes maior do que a da criança não estuprada.
  25. Na população clínica, adultos que foram molestados quando crianças têm dificuldades em exercer sua sexualidade, porque associaram sexo com intrusão e dor.
  26. Isso pode até mesmo impedir o sujeito de ter orgasmos durante o sexo.
  27. Para não falar da raiva, que também é um tipo de desconforto emocional associado ao abuso.
  28. Geralmente, vítimas de abuso sexual não se tornam abusadores eles próprios.
  29. Em outros casos, a experiência sexual pode ser esquecida.
  30. Pessoas sexualmente abusadas têm maior chance de desenvolver vícios em substâncias.
  31. Já outras se matam.
  32. Maior parte dos casos de sexo com menor, abusivos ou não, ocorre entre pessoas que se conhecem, não entre desconhecidos, de forma que a criança provavelmente já conhecia bem o outro menor ou adulto com quem está se relacionando.
  33. Por exemplo: boa parte dessas experiências são incestuosas.
  34. Importante lembrar que dados sobre relacionamento sexual precoce são gerais e podem não coincidir com experiências particulares.
  35. Estudos quantitativos não levam em conta características patogênicas ou protetivas individuais: cada um julga e lida com suas experiências de forma particular.
  36. Relação sexual na infância ou na adolescência não ocasiona síndromes, isto é, não há garantia de que o sujeito desenvolverá todos os sintomas comumente atribuídos a esse tipo de incidente e pode até ser que ele se desenvolva de forma perfeitamente normal, apesar do ocorrido.
  37. Um bom número dos sujeitos que sofrem com tais experiências podem até se recuperar sozinhos.
  38. Por outro lado, a pessoa pode desenvolver sintomas negativos depois de um tempo assintomática.
  39. Não podemos descartar a possibilidade de um grande número de sujeitos assintomáticos ser efeito de medição incorreta, então sempre use os melhores métodos de pesquisa.
  40. Por exemplo: ao realizar um estudo sobre experiência sexual precoce, procure por sintomas comumente atribuídos a esse tipo de experiência e, se o sujeito não apresentar nenhum, ele é propriamente assintomático.
  41. Certos fatores aumentam as chances de tornar a relação abusiva: uso de força, incesto, ataques frequentes, múltiplos sujeitos envolvidos, idade…
  42. Abuso concomitante, claro, piora as coisas: imagine ser estuprado na escola e apanhar da mãe quando chega em casa.
  43. A reação dos pais pode gerar ou agravar sintomas de abuso quando este é revelado, então é importante que o pai saiba como lidar com a situação pra não piorar as coisas pro filho.
  44. Deixe claro para o seu filho que ele pode lhe confiar qualquer segredo.
  45. O temperamento da criança e suas experiências passadas afetam a forma como ela lida com esses encontros.

28 de fevereiro de 2019

O que aprendi lendo “Children’s Disclosures of Sexual Abuse in a Population-Based Sample”.

Filed under: Notícias e política, Saúde e bem-estar — Tags:, , , , — Alma @ 18:47

Children’s Disclosures of Sexual Abuse in a Population-Based Sample” foi escrito por Hanna-Mari Lahtinen, Aarno Laitila, Julia Korkman e Noora Ellonen. Abaixo, o que aprendi lendo esse texto.

  1. A maioria dos estudos sobre abuso sexual infantil são retrospectivos (adultos são entrevistados sobre suas experiências na infância) ou são focados em crianças que denunciaram o ocorrido (amostra forense).
  2. Como esses métodos não são tão bons, os autores deste estudo usaram dados coletados de crianças da população geral.
  3. Eles obtiveram dados de 11.364 crianças e adolescentes entre o sexto e o nono ano do ensino fundamental finlandês.
  4. Dentre esses, apenas 2,4% tiveram contato sexual com sujeito ao menos cinco anos mais velho.
  5. Dentre esses 2,4%, 80% conta o ocorrido a outros, mas a maioria conta pra um amigo, não pra um adulto (48%).
  6. Apenas 26% contaram o ocorrido a um adulto.
  7. 12% contaram às autoridades.
  8. 41% dos que não contaram a experiência a adultos não o fez por não achar que o incidente fosse sério o bastante pra merecer intervenção.
  9. Apenas 14% não denunciaram por medo.
  10. A evidência primária em processos de sexo com menor é o depoimento do menor.
  11. Não há consenso sobre o que conta como abuso sexual infantil e o que não conta.
  12. É mais difícil a criança revelar que algo sexual lhe aconteceu se ela não confiar nos pais.
  13. Algumas temem serem culpadas pelo que aconteceu.
  14. Meninos falam menos com adultos sobre suas experiências sexuais, de forma que uma amostra com vários meninos como sujeitos terá porcentagens menores de denúncia.
  15. Medo e dor aumentam as chances de denúncia: claro que a criança contará aos adultos se algo grave lhe acontecer.
  16. Se a experiência não tiver sido abusiva, é provável que a criança ou adolescente tenha tido a experiência com um amigo.
  17. A denúncia ocorre com mais frequência entre aqueles que se sentem vítimas.
  18. Como adultos podem reinterpretar suas experiências sexuais infantis de forma diferente de como eles interpretavam quando eram crianças, entrevistar crianças nos dá uma imagem mais fidedigna do que aconteceu.
  19. A idade dos participantes varia entre dez e dezessete anos (55% do sexto ano, 45% do nono ano).
  20. Abuso emocional: tratamento de silêncio, insulto, jogar ou chutar coisas, ameaçar com violência.
  21. Abuso físico: empurrão, puxão de cabelo, dar tapas, dar socos, atacar com objeto, chutar, dar palmadas, espancar, ameaçar com faca ou arma de fogo, atacar com faca ou arma de fogo (sim, tem pai que faz isso com o filho), outras formas de violência.
  22. A definição de “abuso sexual” encontrada no estudo é a mesma definição usada pelo Código Penal finlandês, então o texto também chama de “abuso” as experiências inofensivas e voluntárias, desde que a diferença etária seja de, pelo menos, cinco anos entre os participantes.
  23. Apesar disso, o estudo sondou a impressão que a criança teve em relação ao ato, isto é, deu às crianças a chance de dizerem se elas consideraram o incidente como abuso ou não, a despeito do que diz a lei.
  24. O estudo também sondou a qualidade do ato, isto é, se a criança considerou o incidente como positivo, negativo ou insignificante.
  25. Dentre as 11.364 crianças entrevistadas, 256 tiveram experiências sexuais com pessoa ao menos cinco anos mais velha.
  26. 45% só tiveram uma experiência, 20% tiveram entre duas e dez experiências e 13% tiveram mais de dez experiências.
  27. Maior parte dos sujeitos que teve tais experiências foram meninas do nono ano.
  28. A média de idade do sujeito foi catorze anos e a média de idade do parceiro foi vinte e três anos.
  29. 64% dos atos libidinosos foram entre o menor e alguém de, pelo menos, vinte anos.
  30. A diferença média de idade foi nove anos.
  31. 119 das crianças que tiveram experiências sexuais com parceiro cinco anos mais velho também sofriam abuso emocional proporcionado pela mãe, mas apenas 97 pelo pai.
  32. A mãe abusa fisicamente dos filhos mais vezes do que o pai.
  33. Apenas 16% (35 sujeitos) das crianças e adolescentes consideraram a experiência sexual como abuso, 51% consideraram a experiência como sendo não-abusiva e 33% se mostraram indecisos.
  34. Maior parte dos atos libidinosos foram contatos não-penetrativos.
  35. A experiência foi positiva para 71% dos meninos, mas para apenas 26% das meninas.
  36. 46% das meninas avaliou a experiência como negativa, contra 9% dos meninos.
  37. Somando meninos e meninas, 34% dos sujeitos avalia a experiência como positiva, 27% como insignificante e 40% como negativa, ou seja, experiências sexuais negativas com pessoa pelo menos cinco anos mais velha são um fenômeno minoritário.
  38. Força, intimidação e chantagem só foram empregadas 20% das vezes.
  39. 35% das experiências foram com estranhos, 14% com amigo, 16% com conhecido, 8% com parceiro romântico, 6% com familiar.
  40. 80% das crianças e adolescentes contaram a experiência a alguém: 48% a um amigo ou aos pais, 11% a irmãos, 6% a outros, 5% ao professor, 7% à polícia, 2% ao enfermeiro da escola, 3% ao conselheiro da escola e 4% ao serviço social.
  41. Somando tudo, apenas 26% contaram a adultos.
  42. 41% não contou a experiência por não achar que fosse algo digno de nota, 14% por medo, 14% por achar que ninguém quereria saber, 14% por não ver nenhum benefício em contar a alguém, 10% por vergonha.
  43. 8% não denunciaram por outras razões, incluindo “eu gostei do que aconteceu”.
  44. A criança que se sente abusada ou indecisa sobre como se sentir em relação à experiência é a que mais provavelmente revelará o ocorrido a um adulto.
  45. Se a experiência for negativa, a criança provavelmente revelará o ocorrido.
  46. Contar o ocorrido a outros também é mais frequente entre crianças pequenas (menores de sete anos).
  47. A criança que sofre abuso emocional ou físico em casa tende mais a guardar segredo (talvez por medo da reação dos pais).
  48. A denúncia é mais frequente quando o parceiro tem 30 anos ou mais.
  49. Outros fatores que estimulam a denúncia são o uso de força, violência ou chantagem.
  50. Embora uma minoria dessas crianças e adolescentes tenha contado a experiência a quaisquer adultos, a maioria total (80%) conta pra alguém, mesmo que para amigos.
  51. A definição de “abuso” é diferente entre adultos e crianças, a criança não considera abuso um monte de coisas que nós, adultos, achamos inaceitáveis.
  52. Para a criança, a diferença de idade sozinha não torna “abuso” um contato sexual.
  53. Já no caso dos adolescentes, ser chamado de “gostoso” pode ser visto como elogio, não como “assédio”.
  54. Assim, maior parte dos casos do chamado “abuso sexual infantil” pode ser composta de atos de pouca seriedade.
  55. Abuso sexual infantil está acontecendo menos vezes hoje do que antigamente.
  56. Crianças com necessidades especiais sofrem abuso mais frequentemente.
  57. Um terço das tentativas de sexo com menor são abortadas se a criança disser “eu vou contar pra alguém”.

25 de dezembro de 2017

Dano psicológico.

Sobre Dano Psicológico

Uma breve resposta a Doobious Wolf.

Escrito por mim para os leitores do Analecto, na esperança de que alguém mostre este texto ao Doobious Wolf.

Resumo.

Em resposta a Doobious Wolf, tento esclarecer por que temos a sensação de dano intrínseco à relações sexuais entre adultos e menores. Acontece que relações entre adulto e menor não seguem padrões de resultado, isto é, não terminam todas da mesma forma e que, portanto, é um mito sustentar que todas as crianças que se relacionaram com adultos sentirão os mesmos efeitos. Em adição, crianças que tiveram essas relações e as descrevem como positivas podem ter uma boa memória convertida em razão de ansiedade pela necessidade de esconder o ocorrido e também pela vergonha que acompanha o ato. No entanto, esse é um fenômeno cultural que não é facilmente observado em sociedades mais liberais como o Brasil ou sociedades indígenas isoladas. Donde decorre que só há dano intrínseco à relações negativas, mas efeitos negativos podem aparecer em pessoas com experiências positivas porque o meio em que vivem rejeita essas relações (vitimização secundária).

Abstract.

In response to Doobious Wolf, I try to clarify why do we feel that there’s intrinsic harm to sexual relationships between adults and minors. What actually happens is that adult-minor relationships don’t follow outcome patterns, that is, they don’t always have the same effect on the minor and, because of that, it’s a myth that all children who had a relationship with an adult will feel the same effects. Plus, children who had those relationships and regard them as positive can still have a positive memory turned into a source of anxiety due to the need to hide and due to the shame that comes with the act. However, that’s a cultural phenomenon that isn’t easily observed in Brazil or isolated indigenous societies. From which we draw that there’s intrinsic harm only to negative relationships, but negative effects may appear on people with positive experiences because their cultural context rejects those relationships (secondary victimization).

O problema.

Num vídeo em que Doobious Wolf, pseudônimo de um usuário do YouTube, dá respostas aos comentários relevantes que recebera, ele resolve responder a um comentário que o inquire sobre sua opinião acerca da tese de vitimização secundária1 de crianças que tiveram relações sexuais com adultos. No comentário, Warz (também pseudônimo) pergunta a Wolf se o dano psicológico não poderia ser minimizado se a sociedade não visse sexo em geral como algo de suprema importância.2 Com efeito, temos muitos tabus sexuais e Warz pergunta se o tabu de relações entre adultos e menores não estaria por trás de muitos traumas ocorridos em decorrência dessas relações.

Doobious Wolf então respondeu que, embora ele concorde que crianças podem ter relações com adultos e não receber dano físico por causa dessas relações, ele não descarta a possibilidade de dano psicológico inerente.3

Antes de tratar essa questão em profundidade, o autor do vídeo demonstra que está disposto a argumentar de forma imparcial sobre o assunto, em vez de condenar a priori a ideia de que leis de idade de consentimento não têm razão de existir (ponto sustentado por Amos Yee). Ele inclusive fez uma pesquisa no sítio da American Psychological Association e listou um número de efeitos decorrentes do abuso sexual infantil, a saber: chupar o dedo, molhar a cama, problemas de sono, desordem alimentar, queda no rendimento escolar, isolamento, agressividade, abuso de álcool, abuso de drogas e ansiedade. Não tiro sua razão quanto a isso, isto é, de que experiências sexuais abusivas são prejudiciais ao menor. No entanto, sabendo que:

  1. Um número grande dessas relações não resulta em dano, inclusive psicológico,4 podendo inclusive serem lembradas como “positivas” e

  2. Um número dessas relações não é forçada,5

Fica patente a utilização errada do termo “abuso” ou “estupro” para descrever todas as relações sexuais engajadas antes da idade de consentimento,6 que é catorze no Brasil. O que tentarei fazer com este curto texto é mostrar evidências e argumentos contra a tese de dano psicológico inerente.

Argumentação.

Ao pesquisar dano a longo prazo em casos de relações sexuais envolvendo pessoas abaixo da idade de consentimento (doravante “menores”), é preciso levar em consideração que um sintoma não está sempre necessariamente ligado a uma causa específica. Por exemplo: uma tosse pode ser sintoma de tuberculose, coqueluche, pneumonia entre outras doenças.

Então, quando uma criança sofre qualquer dos efeitos apontados por Wolf, ela pode os sofrer por outras razões, especialmente se a relação sexual tiver sido pacífica e desejada, por exemplo, um ato libidinoso não-penetrativo, não-violento e não-recíproco.7 Logo, uma relação sexual, especialmente se a relação é tida por positiva pelo menor, não pode ser seguramente apontada como causa de desajuste psicológico na vida adulta.8 Ela pode estar desajustada por outros problemas de infância ou mesmo que só começaram depois de adulto.

Ao pesquisar efeitos de abuso sexual, é preciso procurar por comorbidades e controlar variáveis terceiras, como ambiente familiar, estresse psicológico, pressão escolar, repressão sexual, abuso verbal, abuso físico (chineladas, palmadas, golpes de cinturão) e outros dados que possam ser relevantes.9 Um bom jeito de saber quais variáveis precisam ser controladas antes de oferecer um diagnóstico definitivo seria falando com o menor para saber como ele julga a relação que teve, qual o grau de permissão concedido ou se o menor iniciou o ato. Se a experiência tiver sido negativa, é mais seguro, mas não completamente seguro, concluir que ela é a razão do desajuste. Para concluir definitivamente, seria preciso saber do menor se ele pode fazer a ligação entre o ato e o desajuste. Em suma, o menor deve julgar a relação, não o terapeuta.

Ao não fazer isso, nos arriscamos a um diagnóstico errado e, consequentemente, a um tratamento errado, o que pode causar mais problemas ao menor.10

Uma outra variável a ser considerada seria o tratamento que o menor recebeu por causa de sequelas. Suponhamos que uma criança teve uma relação sexual positiva na infância, não lutou contra ela, a teve por bem-vinda, chegando a pedir por mais, mas depois ela cresce, olha para trás e sente vergonha do seu comportamento, sente que foi abusada e manipulada. Que tipo de tratamento essa pessoa deveria receber? Susan Clancy sugere que o adulto deveria aceitar o que aconteceu e entender que é sua interpretação do ato que está causando o desajuste e que o adulto deve deixar o incidente no passado.11 No entanto, Clancy sofreu perseguição acadêmica e popular, primeiro porque há doutores que praticam terapia sobre o paradigma de abuso de menor, de forma que os dados de Clancy se mostrariam uma perturbação econômica, e segundo porque ela propõe a aceitação de uma memória tida como socialmente hedionda, o que não seria problema se a sociedade não visse esse tipo de relação como tabu.12

É desse tipo de vitimização secundária que Warz está falando: o conflito entre valores morais e experiências pessoais levam a pessoa a se sentir imoral por ter gostado do “abuso” sofrido, transformando uma experiência positiva em causa de ansiedade. Isso dá a impressão de dano psicológico inerente, porque isso significa que sintomas negativos podem aparecer em pessoas com experiências negativas e também em pessoas com experiências positivas. Mas mesmo assim, há um número de relacionamentos entre adultos e menores que são lembrados como positivos e não causam ansiedade ao menor depois que ele cresce.

Isso me leva à outra variável que é o ambiente cultural. Segundo o Relatório Rind, 42% dos meninos e 16% das meninas lembra das experiências sexuais infantis como positivas (contando os quatro tipos genéricos13 e contando relações entre menor e menor),14 mas, num estudo realizado em Campinas, Brasil, o número entre meninos é de 57% (contando apenas um tipo,15 contando somente relações entre adulto e menor).16 Em adição, outras culturas que lidam melhor com a sexualidade infantil, mesmo sendo mais liberais sexualmente, não estão lotadas de adultos traumatizados,17 com alguns sendo bastante pacíficos.18 Então, é preciso verificar se o ambiente cultural também não tem participação na geração de efeitos negativos sobre pessoas que têm experiências positivas. Esses dados também corroboram com o ponto de Warz, de que talvez o tabu (a ideia de que essas relações são erradas, todos esses adultos são monstros, todas essas relações implicam o uso do menor como meio de satisfação e outros preconceitos) tenha um papel na formação de sintomas.

Por último, o fato de o número de experiências positivas nos Estados Unidos (onde a idade de consentimento é, no mínimo, dezesseis) ser baixo, mas alto em outros lugares (a idade de consentimento no Brasil é catorze), mostra que uma alta idade de consentimento não impede essas relações de ocorrerem,19 mas desencoraja adultos responsáveis que poderiam prover um menor de uma experiência que poderia até ser desejada por ele.20 Isso refuta a tese de dano psicológico inerente a todas as relações, mas não refuta a tese de dano inerente à relações forçadas ou negativas, as quais merecem serem chamadas de “abuso”.

Se por um lado o problema do dano psicológico inerente foi resolvido, é preciso tomar precaução quanto a esses efeitos, quando aparecem em crianças que não foram abusadas sexualmente ou que não tiveram nenhum contato sexual, mesmo não-abusivo, mesmo com outras crianças. Se nutrirmos a crença de que esses sintomas são necessários, ao passo que a sociedade parece ignorar voluntariamente outras explicações para os sintomas quando a suspeita de abuso aparece, podemos dar margem à acusações falsas de molestamento. Mas a verdade é que relações na infância não terminam sempre do mesmo jeito,21 tornando inútil a tentativa de fazer uma lista fixa de efeitos a ser aplicada a todas as crianças, especialmente se a experiência foi positiva.

O pânico moral em relação à pedofilia está nos levando a superproteger nossos filhos, causando uma ruptura entre gerações: crianças desconfiam de adultos e adultos fogem de crianças. A privação de afeto entre gerações prejudica os menores, que ficam sem ajuda dos adultos mesmo em casos críticos.22 Na atual conjuntura, uma acusação falsa poderia destruir a vida de uma pessoa.23 Isso desencoraja a interação saudável entre adulto e menor.

Conclusão.

Se existem relações positivas, que resultam em adultos normais, que funcionam tão bem como adultos que não tiveram essas relações, a tese de dano psicológico inerente é falsa. No entanto, uma pessoa com memórias positivas pode ter sua experiência transformada em razão de ansiedade por causa da reação social ao ato, causando sentimentos de vergonha e também de culpa, se o menor tiver iniciado o ato. Mas isso é uma reação do ambiente, portanto o tabu tem um papel no desenvolvimento de efeitos negativos em pessoas com experiências positivas.

Proponho que pessoas com experiências positivas devam ter seu julgamento respeitado, tanto quanto as que tiveram experiências negativas. Com efeito, se a experiência foi positiva, falar de dano não faz sentido; se deve falar de benefício. Estigmatizar uma pessoa com experiências positivas, a fim de fazê-la se sentir mal pelo ocorrido é, também, abuso, porque os efeitos não apareceriam se ninguém tivesse “interpretado” a experiência segundo critérios alheios à pessoa. Isso também explica porque sociedades mais liberais têm menos adultos traumatizados por abuso sexual infantil. A criança com experiências positivas, em contato com uma sociedade que trata essas relações como tabu, passa a sentir vergonha do ocorreu e a esconder o que fez, talvez se vendo forçada a admitir publicamente que o ato foi abusivo, mesmo que seu julgamento contradiga essa posição. Isso não pode ser saudável. A criança com experiências positivas deveria ser capaz de falar sobre elas sem sofrer por isso, tal como aqueles que denunciam casos negativos que lhes aconteceram e recebem apoio emocional.

Por último, isso mostra que leis de idade de consentimento não impedem essas relações de ocorrerem, mas desencoraja pessoas atraídas por menores que são bem-intencionadas, bem como relacionamentos positivos entre dois menores. A idade de consentimento propõe-se a medir a maturidade do menor, mas como? Por que a idade de consentimento varia segundo a cultura local? Porventura crianças amadurecem mais rápido no Japão ou no México, em comparação com Estados Unidos e Reino Unido? Se a idade de consentimento não mede maturidade, então o que ela mede? Se ela é uma categoria legal, não precisa ser incluída num debate psicológico, a menos que estejamos falando também impacto social (como é o caso deste texto). Abstraído o elemento social, seria melhor falar em “maturidade”, não em idade de consentimento.

Como eu não tenho conta no YouTube, não posso mostrar este texto a Doobious Wolf. Então, se você estiver lendo e tiver conta, eu ficaria grato se você mostrasse este texto a ele. No entanto, lembrando que Doobious Wolf é um pseudônimo, então você não deveria lhe mostrar este texto sem antes julgar se é seguro.

Referências.

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1Vitimização secundária: um tipo de dano psicológico que não é causado por um ato em si, mas pela reação de outros ao ato (no caso, uma criança que se relaciona com um adulto e gosta do que ocorreu, mas acaba sofrendo com a reação dos pais, com o sentimento de vergonha que lhe é imputado, com o exame médico para detectar sinais de abuso ou pela intervenção legal). Ver Paedophilia: the Radical Case. Chapter 3: The ‘Molester’ and His ‘Victim’ ; páginas 42 a 44. https://www.ipce.info/host/radicase/chap03.htm

2Para ver o que outros pesquisadores pensam sobre esta matéria, ver a compilação Society’s stigma of the act may account for a large portion of the harm. https://clresearchblog.wordpress.com/2017/07/08/societys-stigma-of-the-act-may-account-for-a-large-portion-of-the-harm/

3Comment Response Time! (12/07/17). https://www.youtube.com/watch?v=dw5cIBhQ940

4A Meta-Analytic Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Using College Samples. Results ; Self-reported reactions to and effects from CSA ; páginas 36 a 37. https://www.ipce.info/library_3/rbt/metaana.pdf

5Positive Memories: Cases of positive memories of erotic and platonic relationships and contacts of children with adults, as seen from the perspective of the former minor. Boys with women ; BW-10 – Vili Fualaau ;  páginas 118 a 122. https://www.ipce.info/host/rivas/boys_women/vili_fualaau.htm

6A Meta-Analytic Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Using College Samples. Summary and conclusion ;  página 46. https://www.ipce.info/library_3/rbt/metaana.pdf

8A Meta-Analytic Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Using College Samples. Previous literature review ; Qualitative literature reviews ; página 23. https://www.ipce.info/library_3/rbt/metaana.pdf

9A Meta-Analytic Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Using College Samples. The four assumed properties of CSA revisited ; Causality ; página 44. https://www.ipce.info/library_3/rbt/metaana.pdf

10Positive Memories: Cases of positive memories of erotic and platonic relationships and contacts of children with adults, as seen from the perspective of the former minor. Boys with men ; BM-16 – Chris ;  páginas 26 a 32. https://www.ipce.info/host/rivas/boys_men/chris.htm

11Para ser justo, Clancy não acredita que relações entre adultos e menores, mesmo que sejam positivas, devam ser permitidas, porque, a seu ver, uma criança não é capaz de emitir consentimento informado. Mas há quem conteste a noção de consentimento informado. Ver Sex and The Age of Consent: the Ethical Issues. https://www.ipce.info/library/journal-article/sex-and-age-consent-ethical-issues

12Abusing Not Only Children, but Also Science. http://www.nytimes.com/2010/01/26/health/26zuger.html

13Menino/homem, menino/mulher, menina/homem, menina/mulher.

14A Meta-Analytic Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Using College Samples. Results ; Self-reported reactions to and effects from CSA ; página 36. https://www.ipce.info/library_3/rbt/metaana.pdf

15Menino/homem.

16Recalled Sexual Experiences in Childhood with Older Partners: A Study of Brazilian Men Who Have Sex with Men and Male-to-Female Transgender Persons. https://link.springer.com/article/10.1007/s10508-011-9748-y

17Paedophilia: the Radical Case. Chapter 2: Children’s Sexuality: What do We Mean? ; página 22. https://www.ipce.info/host/radicase/chap02.htm

18Body Pleasure and The Origins of Violence. http://violence.de/prescott/bulletin/article.html

19Child Sexual Abuse: Top 5 Countries With the Highest Rates. http://www.ibtimes.co.uk/child-sexual-abuse-top-5-countries-highest-rates-1436162

20No Brasil, uma menina de doze anos pediu sexo a um adulto de vinte e nove. A mãe denunciou, mas se arrependeu e o adulto foi absolvido. Ver Tribunais Absolvem Acusados De Sexo Com Menor Apesar De Nova Lei. http://g1.globo.com/brasil/noticia/2012/05/tribunais-absolvem-acusados-de-sexo-com-menor-apesar-de-nova-lei.html

21A Meta-Analytic Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Using College Samples. Child sexual abuse as construct reconsidered ; página 46. https://www.ipce.info/library_3/rbt/metaana.pdf

22Ipce Newstletter #30. Hysteria is Dangerous: Did Pedophilia Hysteria Cause Child’s Death? https://www.ipce.info/newsletters/newsl_pdf/Ipce%20Newsletter%20E%2030.pdf

23Para ter uma ideia de como, veja o filme A Caça, de 2012. Resenha do Filme “A Caça”. https://psicologiadospsicologos.blogspot.com/2014/08/resenha-do-filme-caca.html

8 de setembro de 2016

O “Exame Metanalítico Sobre Propriedades Assumidas do Abuso Sexual de Crianças, Utilizando Amostras Universitárias” de Rind, Bauserman e Tromovitch.

“A Meta-Analytic Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Using College Samples” foi escrita por Bruce Rind, Robert Bausermand e Phillip Tromovitch. Abaixo, algumas afirmações feitas nesse texto. Elas podem ou não refletir minha opinião sobre este assunto. Perguntas sobre minha opinião pessoal podem ser feitas nos comentários.

  1. A afirmação de que relações íntimas na infância e na adolescência sempre causam dano intenso apesar do gênero do menor não encontram base empírica.

  2. A mídia nos dá a sensação de que relações envolvendo menores são sempre prejudiciais, quer em casos onde um dos participantes é adulto, quer em casos onde todos os participantes são menores.

  3. Vários estudiosos concordam com essa visão da mídia, afirmando que a maioria, ou mesmo todas, as relações envolvendo menores são prejudiciais.

  4. Alguns estudiosos chegaram ao cúmulo de dizer que todos os problemas mentais que aparecem na idade adulta são resultado de abuso sexual na infância.

  5. Mas será que isso é verdade? O imaginário popular dita que todas as relações com menores, quer envolvam adultos ou não, são intensamente danosas todas as vezes em que ocorrem, não obstante o gênero da “vítima” (se menino ou menina). O propósito do exame feito pelos autores é verificar se esta crença está correta.

  6. Nós temos o hábito de dizer que todas as relações envolvendo menores são “abuso sexual infantil”, que todos esses menores são “vítimas”, que todos os adultos ou menores mais velhos são “criminosos”, mas o uso desses termos na literatura científica é problemático, porque existem experiências envolvendo menores que não são negativas. Nesses casos, não há vítima e, não havendo vítima, não há abuso. Logo, não há razão científica pra chamar todas essas relações de abusivas. Além disso, o uso de termos com carga negativa impede a availação imparcial desses eventos.

  7. A quebra de valores sociais não necessariamente constitui abuso. Masturbação e homossexualidade já foram consideradas socialmente erradas (com a masturbação inclusive sendo referida como “autoabuso”) e, no entanto, ambas as práticas não causam dano, não podendo ser consideradas abuso no mais das vezes. Assim, não há nexo causal entre quebra de valores sociais e prejuízo aos envolvidos.

  8. Um ato imoral não necessariamente é prejudicial.

  9. É diferente o pai penetrar à força sua filha de cinco anos e um jovem de treze anos beijar sua namorada de quinze na boca. Faz sentido punir o segundo caso? Por acaso o segundo caso pode ser chamado de “estupro”?

  10. Quando a ciência chama relações íntimas entre adultos e menores de “abuso” em todas as vezes que ocorrem, mesmo quando não há dano, mesmo quando o menor diz que o ato foi benéfico, revela que a ciência está trabalhando com categorias morais ou legais. Mas a ciência, se quer ser imparcial, não pode emitir juízo de valor. Deixe os dados falarem; o leitor dirá se é abuso ou não.

  11. Antigamente, todos os atos sexuais “imorais” eram considerados abusivos, mas, hoje, a relação envolvendo menores (entre adulto e criança, por exemplo) é a última fronteira da sexualidade moral tradicional. É um dos poucos atos sexuais que ainda são chamados de “sempre abusivos”.

  12. Embora haja pesquisadores que digam que relações íntimas entre dois menores ou entre menor e maior sejam sempre danosas, também existem pesquisadores que discordam. Assim, a literatura científica não é unânime nesse ponto.

  13. O problema de algumas pesquisas é a falta de controle de variáveis. Por exemplo: um menino de oito anos tem alguns jogos sexuais exploratórios com um irmão dez anos mais velho, mas esse mesmo menino recebe golpes de cinturão diariamente do pai. Ele então cresce com disajuste psicológico. Alguns pesquisadores fariam vista grossa pros atos do pai e apontariam que o irmão é a causa do disajuste, por ter abusado sexualmente do menino, mesmo que o menino diga que esses jogos foram inofensivos.

  14. Relações íntimas entre adultos e menores ou entre dois menores, mesmo que o menor seja uma criança, não necessariamente são negativas e nem sempre resultam em dano.

  15. Alguns estudiosos raciocinam que o resultado, se negativo ou positivo, é mais influenciado por fatores extrassexuais. Não é o ato em si, mas as condições que o cercam (por exemplo, se o ato foi forçado por um estranho, se os pais descobriram e fizeram alarde, entre outros).

  16. Já para outros estudiosos, o dano causado aos menores é superestimado porque os pesquisadores querem saber quantos casos são negativos entrevistando pacientes que já estão em tratamento por causa de sequelas. É como ir a um hospital pra saber a porcentagem de pessoas doentes. Claro que você receberá um resultado próximo de 100%. Assim, indivíduos clínicos não são uma demográfica confiável pra saber qual é o impacto de relações íntimas entre adultos e menores ou entre dois menores na população em geral.

  17. Para os pesquisadores contrários, o fato de haver pessoas que tiveram relações íntimas na infância ou na adolescência, mas que não relatam experiências negativas ou efeitos negativos decorrentes, apenas indica que os sintomas não tiveram tempo de aparecer. Antes de 2009, no Brasil, relações com menores de catorze anos só seriam crime se o ato não fosse aprovado pelo menor, se não fosse aprovado pelos pais do menor ou se fosse prejudicial ao menor. Uma relação que preenchia requisitos de segurança e era aprovada pelo menor e pelos pais não era nem considerada “pedofilia”. Então eu duvido que tenha um só homem da minha idade no Nordeste que não teve umas “brincaderinhas” com o pai. Somos todos assintomáticos?

  18. Esses estudiosos usam essas amostras pra generalizações, apesar de amostras clínicas e legais não poderem ser usadas pra generalizações fora do âmbito clínico ou legal, ou seja, não podem ser usadas como representantes de toda a população.

  19. Pessoas que tiveram relações íntimas na infância e na adolescência, mas que não denunciaram, nem procuraram tratamento, podem não o ter feito porque não sentiram efeito negativo. Assim, há uma população de “abusados” que não sofreu com o “abuso”. Fica difícil chamar isso de abuso então. Pense: com que idade você perdeu a virgindade e qual foi a idade do parceiro? Essas relações são tão incomuns assim?

  20. No que diz respeito à equivalência de gênero, tanto existem estudiosos que afirmam que relações na infância ou na adolescência causam efeito igual em meninos e meninas quanto há estudiosos que dizem que meninos reagem mais positivamente. É importante lembrar que “relações sexuais” aqui não inclui somente sexo em sentido estrito (penetração fálica pela boca, ânus ou vagina). Afinal, penetrar uma criança causa dor, nojo e trauma no mais das vezes. Logo, se estivéssemos falando só de sexo em sentido estrito, seria impossível concluir que tem crianças que não sofrem com relações. Os estudiosos estão incluindo nesse balaio de relações sexuais os “atos libidinosos” (beijos nos lábios, carícias íntimas, cócegas nos genitais, admiração mútua da nudez, entre outros atos não-penetrativos).

  21. Os autores do estudo descobriram que, na população universitária e na população nacional, homens que tiveram experiências sexuais na infância, sim, reagem bem melhor a elas do que mulheres.

  22. Outros estudiosos, porém, concluem que a afirmação de que meninos reagem melhor é mito.

  23. Existe outro problema em alguns estudos: o pesquisador tende a prestar mais atenção às experiências negativas, a despeito das positivas. Ele exclui, diminui ou resume as positivas, dando a impressão de insignificância.

  24. Eventos traumáticos são minoria estatística entre a população de indivíduos que tiveram relações na infância ou adolescência. Para saber a razão pela qual apenas relations negativas aparecem na mídia, veja Atração Por Menores: Guia Para Iniciantes.

  25. Mesmo eventos traumáticos podem ser uma comorbidade: além de ter relações íntimas, a criança era também negligenciada pelos pais ou abusada não-sexualmente. Será que o trauma é culpa só do “molestamento”?

  26. Muitas crianças que sofrem trauma não apenas tiveram relações íntimas, forçadas ou não, mas também sofriam bullying, pressão emocional, negligência, entre outras coisas, de forma que seu trauma pode muito bem ter sido uma combinação de fatores, com as relações, especialmente se não tiverem sido forçadas, nem dolorosas, tendo um papel de menor importância.

  27. Muitos estudiosos estão de acordo que não é a relação íntima em si que causa o dano, mas “variáveis terceiras”, como grau de permissão, grau de dor e dinâmica familiar.

  28. Quem estuda abuso sexual de menores deve relevar os aspectos não-sexuais na formação do julgamento.

  29. Mesmo os resultados negativos não traumáticos são minoria.

  30. Se você estiver recrutando pessoas que tiveram relações na infância ou adolescência, não faça um anúncio pedindo a presença de pessoas que foram “molestadas”, porque assim as pessoas que tiveram experiências positivas e que não se sentem vítimas não irão atender ao estudo, prejudicando sua imparcialidade. Afinal, pessoas que tiveram experiências positivas, como eu, não se sentem “molestadas”.

  31. Não apenas o dano dessas relações é infrequente como raramente é intenso.

  32. Como é que tem estudiosos dizendo que intimidade entre adulto e criança tem igual efeito em meninos e meninas… se eles não querem pesquisar meninos?

  33. Estudos anteriores aos anos noventa tem problemas de subjetividade, imprecisão e de amostragem, o que os leva a concluir de forma contraditória.

  34. Para resolver esse problema de uma vez por todas, os autores do estudo conduziram uma meta-análise usando amostras neutras: estudantes universitários. Dentre a população universitária, deve haver um bom número de indivíduos de ambos os gêneros que tiveram envolvimentos íntimos na infância ou na adolescência, mas que podem ou não ter gostado, consequentemente, que podem ou não ter denunciado ou procurado tratamento.

  35. Para ser justo, os autores fizeram essa meta-análise por meio de revisão literária. Eles pegaram estudos já feitos e fizeram os cálculos, em vez de fazer entrevistas diretas. No entanto, seus resultados são validados por estudos posteriores feitos com métodos melhores, um deles, inclusive, conduzido em Campinas, aqui, no Brasil.

  36. Nos Estados Unidos, metade da população é exposta à universidade de alguma forma. Então, a população universitária é perfeita pra esse tipo de estudo, em termos de generalização.

  37. Estranhamente, estudos sobre abuso sexual de crianças usando amostras universitárias são raros… Por quê?

  38. Este estudo usará somente amostras universitárias.

  39. Antes que alguém fique “irritado”, este estudo não leva em conta somente atos forçados. Do contrário, não poderia concluir como conclui. Ele leva em conta “graus de liberdade” e a presença de elementos como penetração ou força. Assim, nem todos os casos analisados na população universitária envolvem violência ou coerção, incluindo também atos sexuais nos quais os menores se engajaram de boa vontade.

  40. O estudo procura também por males somáticos, como problemas de sono ou distúrbios gastrointestinais, que possam estar ligados às relações.

  41. O que é abuso sexual de crianças? Dependendo do seu viés doutrinário, pode ser qualquer contato íntimo entre uma criança ou um adulto, a despeito da ausência de dano e da vontade da criança em participar, ou pode ser somente experiências indesejadas, pois o rótulo de “abuso” só seria cabível em casos onde há prejuízo.

  42. O que é uma criança? Para a maioria dos estudos revisados pelos autores, “criança” é alguém menor de dezesseis anos. Para a lei brasileira, “criança” é o indivíduo menor de doze anos. No entanto, mais da metade dos estudos revisados chama também de abuso uma situação em que dois menores se envolvem, na medida em que um deles é cinco anos mais velho (exemplo: menino de treze e menina de oito, ou menina de doze e menino de sete).

  43. Se levarmos em consideração todas as definições possíveis de abuso, a quantidade de casos que podem ser inclusos em todas as definições é muito pequena.

  44. Os casos analisados pelos autores do estudo variam em intensidade. Um simples convite pra fazer algo íntimo já contaria como abuso. A escala seria: convite, exibicionismo, carícias, masturbação, sexo oral, tentativa de coito e coito consumado. Pondo as coisas dessa forma, dá pra ver como o estudo conclui que muitos casos de abuso não terminam em dano, pois tudo abaixo da masturbação geralmente não causa dor nem sofrimento, a menos que o sujeito seja forçado.

  45. O dano varia segundo intimidade do ato e grau de proximidade entre os dois. Uma carícia íntima feita por alguém de confiança provavelmente não causa dano, enquanto que a penetração por um estranho completo pode causar um trauma.

  46. Cerca de metade das pessoas que tiveram relacionamentos íntimos na infância ou adolescência repetem a experiência antes da idade adulta.

  47. Uso de força em relações entre adulto e criança ou entre duas crianças não ocorre sequer em metade dos casos. Mais da metade das vezes, o menor não é forçado.

  48. Se uma relação chega a causar dano (por força ou penetração, por exemplo), o grau de desajuste provocado pelo ato em si é pequeno. A violência associada ao ato causa maior parte do dano.

  49. Importante lembrar que esses dados se referem à população geral, não àqueles que procuraram tratamento para sequelas por abuso sexual (os quais compõem minoria da população e cujas experiências não podem ser generalizadas).

  50. Os autores verificaram os sujeitos do estudo em busca de qualquer dos sintomas a seguir: alcoolismo, ansiedade, depressão, dissociação, desordem alimentar, hostilidade, problemas interpessoais, sensação de falta de controle sobre a própria vida, transtorno obsessivo-compulsivo, paranoia, fobias, psicopatia, baixa autoestima, desajuste sexual, desajuste social, somatização, tendência suicida.

  51. Dois fatores que contribuem para o desajuste são a força empregada (estupro) e o fato de a vítima ser menina (penetração, provavelmente). Assim, meninos tendem a sofrer menos ou a não sofrer em experiências sexuais na infância ou adolescência, na medida em que não houve emprego de força.

  52. O número de relações forçadas com menores é pequeno, comparado ao número de relações consentidas, seja com adultos ou com outros menores.

  53. Verdadeiramente, o que prejudica o menor é a violência da relação, não a relação em si. Fora o elemento violento, desaparece a vítima. Se você for menino, contudo.

  54. Meninos não diferem do grupo de controle se não houver violência na relação que tiveram. Mas meninas, estranhamente, manifestam problemas mesmo em relações consentidas.

  55. Intimidade indesejada é sempre danosa.

  56. A chance de haver prejuízo é maior se houver penetração. Ainda mais se o ato for repetido ou for de longa duração. Ainda mais se forçado e feito por uma figura de autoridade, como o pai.

  57. Das amostras estudadas, 72% das meninas e 33% dos meninos concordaram que as experiências sexuais que tiveram na infância ou adolescência foram “negativas”. No entanto, 37% dos meninos e 11% das meninas concordaram que suas experiências foram “positivas”. Donde decorre que relações na infância ou adolescência não são sempre negativas, o que significa que não é a relação em si que causa o dano, mas elementos que lhe são associados. Além disso, isso mostra que meninos reagem muito melhor.

  58. Um dos estudos revisados pelos autores fez os entrevistados classificarem suas experiências sexuais na menoridade em uma escala que vai de 1 (muito positiva) a 7 (muito negativa), de forma que as experiências seriam melhores quanto menor fosse o número. A média dos meninos foi 3,38, ao passo que a média das meninas foi 5,83. Então, sim: meninos tendem a reagir melhor à intimidade com adultos ou outros menores durante sua menoridade. Isso também mostra que intimidade antes dos dezoito anos não necessariamente resulta em prejuízo.

  59. Se por um lado a experiência foi boa quando ela ocorreu, como essas crianças veem o que aconteceu depois que amadurecem? 59% de 514 mulheres vê essas experiências como negativas, mesmo que as tenham sentido como positivas quando ocorreram, mas apenas 26% dos homens (118 amostras) têm a mesma sensação. Por outro lado, 42% dos homens vê essas experiências como positivas mesmo depois de chegarem à idade adulta, enquanto que 16% das mulheres mantém a posição de que a experiência foi positiva mesmo depois de amadurecerem.

  60. É muito difícil que relações antes da idade de consentimento prejudiquem o desempenho sexual na vida adulta.

  61. Aqueles que foram prejudicados pelo ato se recuperam em algum tempo. O que significa que dano permanente é também incomum. Isso quer dizer que, quando há prejuízo, o dano não é tipicamente intenso. Experiências sexuais traumáticas são uma minoria ínfima.

  62. Depois de tudo o que foi visto, está claro que intimidade entre dois menores ou entre adulto e menor não causa dano em grande parte das vezes em que ocorre. Então, terapêutas que trabalham com menores que tiveram jogos ou relacionamentos sexuais não devem assumir que essas experiências são negativas e devem perguntar ao paciente como ele se sente em relação a elas. O psicólogo não deve tratar um problema que não existe. Analogamente, os pais não devem tomar o namoro do filho como um mau sinal automático.

  63. Mas algo ainda não está claro: se existem relações positivas e relações negativas, então o que é que causa o dano? Claro que fatores como penetração, dor e coerção influenciam o resultado negativamente, de forma que uma experiência sexual sem esses elementos pode muito bem ser inofensiva. Mas como se explica a presença de desajuste em pessoas que só relatam experiências positivas?

  64. Parece que a resposta reside na família. Além da experiência sexual do menor, que foi positiva, problemas familiares não relacionados a sua sexualidade podem ter causado o desajuste. Assim, desajuste em pessoas com experiências positivas pode ser explicado por outros fatores, como negligência (deixar a criança passar fome ou ignorar seu choro) e abuso não-sexual (chineladas, golpes de cinturão).

  65. Dessa forma, se uma pessoa teve experiências sexuais positivas na infância ou adolescência, mas ainda assim apresenta algum tipo de problema psicológico, faz mais sentido atribuir seu problema a outros fatores, não a sua experiência sexual.

  66. Alguns adultos foram perguntados se seus problemas emocionais têm como fonte as relações que tiveram quando menores ou problemas familiares atuais. Muitos reportam que as relações não os afetam mais, mas a família continua ruim.

  67. Os autores concluem que, na população universitária, cerca de 14% dos homens e 27% das mulheres tiveram intimidade sexual na infância ou adolescência. No entanto, se algum deles tinha algum problema psicológico, ele raramente tinha raízes nessa intimidade.

  68. Envolvimentos traumáticos são, portanto, uma minoria estatística.

  69. Assim, a afirmação de que experiências sexuais na infância ou adolescência, principalmente se não forem forçadas ou dolorosas, sempre são prejudiciais é preconceito. Elas podem ser prejudiciais, mas, estatisticamente, elas normalmente não são e, quando são, o dano é geralmente pequeno. Traumas por experiências sexuais são raros.

  70. Um terço dos homens estudados reportam que a experiência foi negativa, mas dois terços dizem que não foi(ou seja, pode ter sido positiva ou neutra). Com mulheres, é o contrário. No entanto, quando ocorre dano, ele normalmente é superado.

  71. Três de cada oito homens que tiveram experiências íntimas na infância ou adolescência reportam que a experiência foi positiva. Com mulheres, o número foi uma em dez.

  72. A razão disso é cultural: meninos veem experiências sexuais como uma “aventura” ou um meio de satisfação da curiosidade natural, mas meninas, por causa de padrões sociais construídos acerca do sexo feminino, tendem a ver essas experiências como imorais. Isso é especialmente grave se ocorre penetração.

  73. Menores podem sentir prazer.

  74. Meninas tendem a sentir vergonha desses encontros, mas meninos os veem como uma prova de maturidade, principalmente se interagem com o sexo oposto, principalmente se a mulher for mais velha. Quando a experiência não é positiva, o menino é geralmente indiferente.

  75. Outra razão pra que o menino responda melhor a esses encontros é que seu corpo precisa de menos estímulo para sentir prazer. Eles se envolvem com o ato mais rapidamente. Parece que o sexo masculino é mais ativo.

  76. As reações ao ato, quando o ato não é doloroso e nem violento, podem ser facilmente atribuídas aos papeis sexuais tradicionalmente atribuídos a homens e mulheres. Homens aprendem na adolescência que devem ser viris, libidinosos, dominantes, em movimento. Mulheres são ensinadas a ser passivas, castas, sexualmente reticentes. Mas o mundo está se livrando de papeis sociais baseados em gênero.

  77. Por que o número de experiências negativas com meninas é tão alto? Porque, por alguma razão, elas são mais alvo de experiências sexuais forçadas. Assim, não é o ato em si, mas a dor e a violência que causa o dano. As mulheres que respondem positivamente ou indiferentemente não experimentaram nem dor e nem violência.

  78. Se por um lado reações de meninas e meninos a experiências sexuais são muito diferentes, por outro elas são muito parecidas, se levarmos em consideração somente as experiências em que o menor foi forçado. Porque os efeitos são quase iguais quando coerção está presente.

  79. Muitos indivíduos que tiveram experiências sexuais na infância ou adolescência e que têm algum tipo de desajuste emocional já tinham esse desajuste antes da experiência.

  80. Experiências sexuais negativas ocorrem mais comumente dentro da família.

  81. Às vezes, não é o pai que tem relações íntimas com os filhos, mas os filhos entre si. Irmãos podem forçar um ao outro.

  82. Experiências sexuais raremente afetam a estrutura familiar. Geralmente, é a estrutura familiar que facilita essas experiências. Por exemplo: uma criança que se envolve sexualmente com um adulto, debaixo do nariz dos pais, está, com certeza, sendo negligenciada em outras coisas também. Os pais não estão ligando. Por isso a criança fica desajustada, mesmo que a relação seja positiva: uma relação assim, na sociedade atual, é sinal de negligência.

  83. Se seu filho vai mal na escola, há uma boa chance de que ele esteja sendo fisicamente, emocionalmente ou verbalmente abusado, em vez de sexualmente abusado.

  84. Abuso verbal é mais danoso do que relações íntimas na infância ou adolescência, segundo o estudo. Isso porque abuso verbal é mais comum e é sempre violento, ao passo que experiências sexuais não são tão comuns e podem ser voluntárias.

  85. Se a relação ocorrer dentro da família, a chance de prejuízo é maior. Não foi meu caso.

  86. Muitas vezes, tudo vai bem… até que alguém descobre.

  87. Relações entre menor e menor ou entre adulto e menor foram mais analisadas por um viés legal e moral do que empírico.

  88. Se não há prejuízo, não é abuso, de um ponto de vista científico. Então a ciência não deve chamar relações inofensivas de abusivas. Pra merecer o título de “abuso”, deve haver dano em algum lugar.

  89. Chamar tudo de abuso induz o pesquisador e o leitor a assumir que o ato foi negativo, mesmo que não tenha sido.

  90. No século dezoito, masturbação era imoral. No século dezenove, homossexualidade era imoral. No século vinte, relações envolvendo menores são imorais. Neste século, elas podem deixar de ser. Eu tenho certeza que foi esta pista que levou a direita cristã conservadora ao limite.

  91. Tratar a masturbação como doença levou à criação de tratamentos que causavam mais dano do que benefício, pois tratavam um problema que não estava lá. Tratar relações com menores como doentias proporciona o mesmo efeito, se não existir prejuízo nessas relações. Claro que alguns menores podem sofrer com o ato. Mas se ele não sofreu, não precisa ser tratado.

  92. Algumas de nossas definições médicas têm laços com o direito, que por sua vez tem laços fatuais com os costumes e, logo, com a religião.

  93. Masturbação, promiscuidade, sexo oral e homossexualidade já foram todos comportamentos tidos por doentios. Agora estão tratando a sexualidade infantil como doentia.

  94. Um ato socialmente inaceitável não necessariamente é doença.

  95. “Para esses estudantes universitários do sexo masculino, 37% viram suas experiências sexuais na menoridade como positivas no momento em que ocorreram; 42% veem essas experiências como positivas quando refletem sobre elas; e em dois estudos que perguntavam sobre efeitos positivos percebidos, um número entre 27% e 37% afirmam que essas experiências proporcionaram influência positiva em suas vidas sexuais atuais. Mais importante, esses homens, não obstante o nível de consentimento (isto é, voluntário ou não) não diferem do grupo de controle em ajuste psicológico atual, embora homens que só tiveram experiências forçadas diferissem, implicando que aprovação voluntária do ato está associada com ajuste psicológico normal.” Como pode um “abuso” trazer benefício?

  96. Se o ato não for forçado, a chance de prejuízo é muito menor. Experiências sexuais negativas na infância e adolescência, mesmo que com parceiros adultos, são minoria estatística.

  97. Dizer a uma criança “você foi abusada” quando ela não se sente abusada simplesmente a fará ignorar você. A experiência permanece a mesma. Se você tentar forçar a ideia de abuso na criança, o abusador é você.

  98. Muitos menores que têm essas relações se recusam a ser chamados de “vítimas”.

  99. Quem deve julgar a experiência é o menor.

  100. De acordo com os autores, se um ato teve participação voluntária do menor e redundou em benefício, o termo correto a ser empregado é “sexo entre menor e menor” ou “sexo entre adulto e menor”, guardando o termo “abuso sexual de menor” para experiências forçadas ou negativas. Eu, no entanto, acho que o termo “sexo” deve ser substituído por “intimidade”, porque “sexo” entrega a ideia de penetração, o que não ocorre todas as vezes.

  101. Outro problema é que as definições atuais tratam crianças e adolescentes como seres de igual maturidade. Uma criança de cinco anos é diferente de um adolescente de quinze.

  102. Relações entre adulto e adolescente são mais comuns e já foram socialmente aceitas na antiguidade.

  103. Não há necessidade de presumir violência em relações com menores abaixo da idade de consentimento. Mas isso não necessariamente implica que os pesquisadores querem mudança nas leis.

  104. Casos de experiências sexuais que ocorrem fora da família antes da maioridade podem afetar a família se descobertos, por causa da intervenção jurídica. No entanto, o número de menores que conta o segredo representa menos de um quarto dos casos. O que significa que três quartos dos casos nunca são revelados.

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