Analecto

12 de maio de 2020

Leituras da semana #1.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, — Yure @ 11:44

Os livros que li nesta semana foram o Além do bem e do mal, ou prelúdio de uma filosofia do futuro (Nietzsche) e A arte de lidar com as mulheres (Schopenhauer). Um amigo meu disse que minhas entradas estavam muito confusas desde que passei a colocar tudo num post só. Então, os textos do tipo “diário” são publicados agora em posts separados.

Além do bem e do mal, ou prelúdio de uma filosofia do futuro.

Embora Nietzsche tenha dito que o livre-arbítrio, concebido como a capacidade do homem de fazer o que quer, não seja uma ideia correta, ele também diz que o determinismo, a ideia de que o homem não tem nenhuma liberdade, também está errada. A marca do determinismo é a defesa dos malfeitores. Se não podia ser de outro jeito, se somos seres determinados, então ninguém realmente tem culpa de seus próprios atos. A pessoa é daquele jeito e… é isso, você aceita. Só que não é assim. Existem coisas sob nosso controle e existem coisas que não estão sob o nosso controle. O arbítrio humano não é absoluto (então não é “livre”), mas ele existe. Você só pode escolher dentre as opções que são dadas. Se assim é, nem tudo que acontece no mundo ou na sua vida é responsabilidade sua. Mas existem coisas que estão sob sua responsabilidade e por essas você responde.

Nietzsche então volta à sua discussão anterior sobre a existência das “leis da física”, com a comparação entre a natureza e um livro. Se a natureza é um texto, as leis da física são uma interpretação desse texto, a forma como entendemos a natureza e não a própria natureza em sentido literal. Concordo. Mas aí ele faz a sua afirmação controversa: se assim é, por que eu tenho que acreditar nas tais leis da física? Ele conclui, de forma assumidamente pessoal (porque também é uma interpretação), que não há lei nenhuma na natureza. Como ele assume que isso é interpretação dele, ele convida os leitores a o questionarem e diz que isso é algo positivo.

Lembremos que Nietzsche também escreve que uma ideia errada é mantida viva porque é trazida à memória (ele usa o livre-arbítrio como exemplo) e também diz que existem mentiras nas quais vale a pena crer. Então, se ele diz que questioná-lo é algo positivo é porque ele quer que sua ideia de que a natureza não segue leis seja mantida na memória pra que alguém, em algum lugar, acabe acreditando nisso. Eu penso que esse é seu objetivo em mais de um ponto do livro. É minha interpretação do texto dele. O que impede um cara que afirma que existem mentiras nas quais se deve acreditar de mentir por causas que ele considera justas? Quais causas? A supremacia dos sentidos e a aceitação do mundo “como ele é”, isto é, como ele parece ser.

A aurora. Autor: Noël Hallé. Fonte: Wikimedia Commons.

Nietzsche diz que isso torna o homem mais feliz e por isso diz que a ciência que mais deixa feliz o homem é aquela que falsifica o mundo pra seu próprio uso. A ciência que ama a vida, ele diz, amará o erro. Me diz se isso faz sentido hoje, durante a pandemia de coronavírus. É fácil pensar assim quando nossa vida não depende de ciência bem feita. Se Nietzsche vivesse hoje, morreria do jeito que morreram outros que zombaram do isolamento social, um desses males necessários. Não somente os cientistas são aconselhados a procederem assim, mas também os filósofos. Nietzsche afirma que os filósofos não devem nem buscar a verdade e nem defender aqueles que a buscam. Afinal, ele diz, a verdade se impõe de qualquer jeito. Parece o Bolsonaro dizendo que “70% vai pegar o vírus” de qualquer jeito.

Mas, se você quer mesmo buscar a verdade, você não pode descuidar dos homens comuns. É muito estranho que cientistas e filósofos supostamente comprometidos com a verdade não queiram conversa com os homens comuns. Se você só se mistura com outros cientistas, outros filósofos, outros acadêmicos, você está vivendo um mundo de exceções e não a regra. O estudo da regra é mais importante que o estudo da exceção. O estudioso do homem, portanto, tem que ir aos lugares onde os homens, via de regra, vão, viver o que eles vivem. Ele teria que se misturar com o povo e aceitar que ele próprio é homem e não alguém superior. Mas Nietzsche considera isso negativo! Ele não quer que ninguém se misture ao povão! Novamente, ele desaconselha a busca pela verdade.

Em seguida, Nietzsche entra no assunto mais popular de sua filosofia: a crítica à moral. Pra Nietzsche, e também pra um monte de gente, vícios como o ódio e a cobiça são inerentes à vida humana. Não dá pra viver longe desses aspectos negativos da alma humana, simplesmente porque a alma está em nós. Além disso, esses vícios contribuem pra intensidade da vida tanto quanto as virtudes o fazem, talvez até mais. Então é possível aumentar a intensidade da vida intensificando esses vícios.

Realmente, a vida dos que se entregam aos vícios irresponsavelmente é muito intensa, mas também muito curta. Por exemplo: o filho do mecânico amigo do meu pai morreu aos catorze anos, porque era envolvido com o crime e foi executado saindo da casa da namorada. Trazendo Nietzsche pra realidade humana, da qual ele acha que não se desliga, é muito difícil desejar uma vida “intensa” e viciosa. Eu mesmo não quero uma vida dessas. Prefiro viver tranquilamente e por um bom tempo. E acho que, se possível, vale a pena acabar com o ódio, o ciúme, a cobiça, mesmo que isso resulte numa vida mais “chata”.

A arte de lidar com as mulheres.

Pra Schopenhauer, associar a posse de determinada mulher à felicidade é um truque da natureza pra manter o ser humano em constante reprodução. Isso mantém a espécie em perpétua existência. Mas, se assim é, por que o amor seria também algo tão doloroso? É que, pra Schopenhauer, viver é sofrer. A espécie humana não deixou de existir desde que foi criada, então ela vive faz muito tempo. Se a vida é sofrimento, nunca houve época em que os homens não sofressem. Enquanto houver gente na terra, haverá sofrimento pelas mais diversas causas. Amor é só uma dessas causas. Qualquer coisa pode nos fazer sofrer, mesmo aquilo tipicamente tido por “bom”.

Além disso, tal felicidade prometida pelo amor monogâmico é irracional: por que esta te faria feliz, e não qualquer outra? O mundo é tão grande! Quais a chances de você realmente conhecer “o amor de sua vida”? Essencialmente, não há garantia de que uma pessoa qualquer poderia te fazer feliz mais do que faria qualquer outra. Se você acha que encontrou o verdadeiro amor, sabendo que tal ocorrência é tão rara, você deveria desconfiar. A chance de decepção na busca do “amor de sua vida” é muito alta. Muitos homens, pensando terem encontrado o amor de suas vidas, acabam ferrando a si mesmos e seu patrimônio num casamento insensato, enquanto outros, sendo recusados, recorrem à força pra tomar a pessoa que “amam”, o que é crime.

Se, por ventura, você encontrar tal amor, não pense que ele será mantido sem esforço. Tal como um pensamento é esquecido se não for anotado, também um amor sem compromisso se vai. Essa é uma preocupação real, já que, diz Schopenhauer, o número de homens férteis é mais que o dobro do número de mulheres férteis.

Pequeno cupido caçando com um rifle. Autor: Frances Brundage. Fonte: Wikimedia Commons.

Mudando de assunto, Schopenhauer fala do suicídio por amor. Quando estamos inflamados de amor por uma pessoa, estamos, diz ele, cheios de uma energia natural que procura expressão. É como um balão bem cheio de líquido, que precisa ser esvaziado. Você não deveria se surpreender com tal metáfora. Mas então. Se o amor não encontra expressão, esse balão não pode ser esvaziado. Isso provoca tal desconforto, tal sofrimento, que é melhor morrer pra fazer a dor parar. Isso, ou aceitar a loucura que se instala. Schopenhauer diz que várias pessoas se matam por amor a cada ano, ora só um dos amantes, ora os dois. E isso acontece porque o amor é uma força poderosa demais pra ser suportada por seres meramente humanos. Ela é uma força perigosa, no fim das contas, mas também inevitável.

Seguindo seu itinerário (se é que há itinerário), Schopenhauer se volta agora pra natureza do amor sexual. Pra ele, o homem é mais propenso ao adultério, porque seu desejo por uma mulher, ele diz, diminui com a satisfação de tê-la, ao passo que a mulher tem seu desejo aumentado com a satisfação de ter um homem. Schopenhauer explica isso por um argumento biológico: o homem pode, sem problemas, engravidar uma mulher por dia, mas a mulher só pode ter uma gravidez por ano, em média. Não só isso, mas também o desejo sexual masculino, diz Schopenhauer, dura mais tempo do que duram os atributos atraentes da esposa e tal instinto lhe é inerente.

Muito bem, acho que já posso falar dos dois problemas que aflingem o raciocínio de Schopenhauer até aqui. O primeiro é que ele parece presumir que não existe homossexualidade. O segundo é que, hoje, sabemos que a mulher pode trair tanto quanto o homem, o que pode significar que Schopenhauer esteja tomando um fenômeno cultural como se fosse um fenômeno natural, lhe concebendo uma explicação natural. Talvez porque a mulher era mesmo mais recatada no século dezenove, Schopenhauer tenha se enganado. Na verdade, há quem diga até que a mulher trai mais que o homem.

Recomendações.

As passagens que eu li de Além do Bem e do Mal seriam abomináveis hoje. Mentiras alegres abundam na nossa sociedade e estamos vendo o que está acontecendo. A verdade dói, mas ela é verdade. Não buscá-la é uma imprudência. Você só deveria acreditar em algo apenas porque te deixa feliz se você também não fosse sofrer por acreditar nisso. Nietzsche talvez fosse a favor do isolamento social se estivesse vivo, mas não pelas razões que nós somos. Ele seria a favor do isolamento porque se separar do povão é algo positivo pra ele. Não fosse por isso, ele seria contra, já que ele era contra tudo aquilo que deprime o homem e lhe tolhe o potencial, mesmo que seja necessário.

Embora Schopenhauer tenha escrito seus textos pra homens, denunciando as falhas que ele vê na mulher, é claro que as falhas por ele apontadas também existem nos homens. Dessa forma, uma mulher, hoje, poderia pegar A Arte de Lidar Com as Mulheres e tirar proveito dele. Não é tanto um sexo específico que você deve evitar, mas pessoas que apresentem as faltas lá apontadas qualquer que seja seu sexo. Seus conselhos sobre o amor são especialmente pertinentes pra ambos os sexos, que precisam parar de voluntariamente se cegarem por amor. O simples fato de estar apaixonado não garante que você deva investir numa relação com uma dada pessoa, embora seja isso que todo o mundo diga a você. “Siga seu coração” é uma das mentiras mais perigosas dentre aquelas que são constantemente repetidas. Dela devemos nos libertar.

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