Analecto

15 de fevereiro de 2015

Insensibilidade.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yurinho @ 14:08

Roubo – Wikipédia, a enciclopédia livre.

Ontem, acordei com uma comoção entre minha mãe e meu sobrinho. De repente, a porta do meu quarto quase foi posta abaixo pelo meu sobrinho exagerado. Eu dei-lhe a chave e lá foi ele com minha mãe para algum lugar. Minutos depois, meu sobrinho volta, quase chorando. E aí ele me disse o seguinte:

Meu tio foi baleado na cabeça, tá desmaiado no chão…

Obviamente não fui eu. Meu irmão foi baleado, de fato, e ontem foi uma loucura aqui, quer seja aqui, ao meu redor, ou aqui dentro, no meu espírito. Lá fora porque todos estavam desesperados, aqui dentro porque eu não entrei em desespero em momento nenhum… Eu até me senti meio culpado por não ter derramado uma lágrima e não ter mudado minha expressão o dia todo. Eu sacudi a cabeça devagar e respondi:

Vai morrer…

Aí que meu sobrinho chorou mesmo. Disse que eu não devia ter dito aquilo. Aí eu percebi que havia falado besteira, então o abracei. Disse que não havia qualquer certeza sobre o seu estado de saúde e que, talvez, ele sobrevivesse. Ele ficou visivelmente mais calmo e eu pude dar cabo da minha constipação. Durante o dia, eu pensava coisas como “meu irmão está gravemente ferido no hospital, eu não deveria estar sentindo alguma coisa?” Mas, quanto mais eu pensava sobre isso, mais eu me convencia de que eu não tinha do que me lamentar. Cinicamente, um pensamento se esgueirou na minha mente e até me fez rir: “se ele morrer, eu acabarei tendo que assumir as tarefas da casa.” E outro: “se ele morrer, minha mãe poderá ficar com o seguro desemprego dele, já que um meliante sacou o dinheiro dela.”

A razão pela qual eu não me importava com o estado do meu irmão vinha da Apologia de Sócrates. Eu estava quase certo de que ele não sobreviveria, então que morresse logo, para acabar seu sofrimento. Porque a morte ou é o nada, como um longo sono sem sonhos, ou é a mudança desta para outra vida. Ele ficaria bem, talvez até melhor que eu. Mas eu ainda me sentia um pouco culpado.

Fui jogar Shining Force 2, ri bastante da animação de ataque daquela monja, quase cheguei à North Parmecia. Depois fui ler A República, depois fui ler a Bíblia, depois fui ler A Educação Para Além do Capital para fazer um trabalho… Meu dia correu normalmente, apesar de meu irmão estar numa péssima situação. Minha única preocupação era a possível dor que ele teria sentido no momento do tiro. Não chorei, não fiquei triste, nem nada. Eu só não fiz piada porque eu tinha que cuidar do meu sobrinho, o qual estava abalado, e eu não queria desrespeitá-lo.

Aliás, meu sobrinho ficava gradualmente mais calmo ao ver que eu estava calmo. É importante para uma criança que alguém na família pareça forte numa situação como aquela. E, embora eu não me julgue forte, ele ficou mais seguro ao ver que eu não estava preocupado.

Os celulares, que eu detesto, não paravam de tocar e de interromper meus estudos. Pessoas daqui, da capital, de outros estados, ligavam o tempo todo querendo saber da condição de saúde do meu irmão. É incrível como esses parentes “próximos” só ligam quando alguém está pra morrer. Alguém escreveu que amizade tem mais a ver com partilhar momentos felizes e não tanto os tristes… Inobstante, recebi mais de vinte ligações em três celulares e às vezes um celular tocava enquanto eu atendia outro. Ai, que saco! Deve ser assim que um operador de vendas por telefone se sente! Além dessas ligações, recebi dez visitas de pessoas comuns e de testemunhas. Um cara até veio dedurar os nomes dos ladrões assassinos (meu irmão foi baleado depois que eles tentaram roubar o celular dele e meu irmão percebeu que estava sem celular na hora).

Muito bem. Depois recebi uma ligação da minha mãe. Aparentemente, Jeová intercedeu pelo meu irmão. Como vocês já sabem, eu não sou testemunha de Jeová, mas minha mãe, meu irmão e meu sobrinho são. Então, a bala não acertou a cabeça dele, mas o pescoço. Apesar disso, não lhe atingiu a coluna, nenhum vaso sanguíneo, nenhum osso e ficou coladinha com a aorta. Um pouco mais pro lado e aí, sim, ele teria morrido de hemorragia. Alguém pode argumentar que, se ele fosse atendido a tempo e fizesse um tratamento com transfusões, talvez ele tivesse chance. Mas é como eu disse, são testemunhas de Jeová. Não fazem transfusões.

Meu irmão, que estava faltando reuniões, faltando ao campo e deixando de lado a religião aos poucos, talvez agora conserte seu comportamento para algo mais condizente com aquilo que ele prega. Mas quem sou eu pra dizer essas coisas?

Agora que eu sabia que ele não ia morrer mesmo, superei minha culpa. Depois de mais um tempo, fiquei sabendo que ele seria submetido à cirurgia para desalojar a bala mas, depois de uma hora, minha mãe ligou de novo para dizer que o corpo dele expeliu a bala por contra própria e que ele havia recebido alta. Assisti alguns gordinhos lindos com vontade de fazer xixi e fui dormir.

Hoje, perguntei ao meu irmão se o tiro doeu. Ele me disse que não. Aí voltei a me sentir culpado porque aquilo me fazia sentir que meu comportamento sóbrio estava justificado. Falei que eu me sentia insensível e minha mãe disse que era importante que alguém na família se mantivesse sóbrio numa situação tensa para orientar os outros e facilitar o socorro. Que bom que não sou um completo anormal.

12 de janeiro de 2015

Anotações sobre a “Apologia de Sócrates”.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , — Yurinho @ 22:23

“Apologia de Sócrates” foi escrita por Platão. Abaixo, algumas afirmações feitas nesse texto. Elas não são citações, mas paráfrases, e podem não corresponder ao que eu penso sobre o assunto.

  1. Sócrates costumava “tornar mais forte a razão mais fraca“, isto é, mostrar a verdade nos pensamentos incomuns.
  2. Os comediantes, como Aristófanes, espalharam mentiras.
  3. Se Sócrates agisse como todo o mundo, não teria sido acusado.
  4. Sócrates era sábio porque estava ciente de sua ignorância e a admitia.
  5. Os poetas falam por inspiração, não por sabedoria.
  6. Os técnicos sabem muito de uma coisa só, não deveriam se julgar sabedores das áreas que não conhecem só porque dominam bem seu ofício.
  7. A verdadeira razão da condenação de Sócrates parecia ser que ele simplesmente dizia a verdade!
  8. Meleto acusava Sócrates de não saber o que era bom pra juventude, mas Meleto é que não sabia.
  9. Se Sócrates corrompeu alguém sem querer, deveria ser instruído, não punido pela lei.
  10. Meleto se contradiz ao dizer que Sócrates é ateu e acredita em deuses desconhecidos.
  11. Acusações falsas só revelam o ódio a uma pessoa justa.
  12. Ninguém sabe exatamente tudo o que acontece depois da morte, mas todos fogem dela como se tivessem certeza de que é o pior dos males.
  13. Se você ensina o bem, não corrompe.
  14. Sofrer injustiça é melhor que causá-la.
  15. Sócrates se recusou a pedir misericórdia.
  16. A condenação de um sábio já velho à morte traria censura sobre Atenas.
  17. Sócrates permaneceu com atitude digna na iminência da morte.
  18. A morte ou é sono eterno ou é mudança da alma de um local para outro.

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