Analecto

25 de dezembro de 2018

O que aprendi lendo “I only have good feelings about what happened”.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, — Yurinho @ 17:49

I have only good feelings about what happened”, foi escrito por T.Rivas. Abaixo, o que aprendi lendo esse texto.

  1. O texto trata de uma troca de e-mail entre Rivas e Miller sobre as experiências sexuais infantis de Miller.
  2. Em sua conversa com Rivas, Miller ocultou detalhes que poderiam identificar o adulto com quem ele se relacionou na infância.
  3. A experiência ocorreu nos anos sessenta, quando Miller tinha onze anos.
  4. O relacionamento acabou quando Miller tinha catorze anos, embora sexo casual tenha ocorrido em outras ocasiões após isso.
  5. O adulto que se relacionou com Miller era amigo da família.
  6. Miller considera o relacionamento passado como uma “amizade com benefícios”.
  7. O aspecto sexual não era penetrativo.
  8. O adulto satisfazia Miller e a si mesmo, mas Miller não satisfazia o adulto de volta nem era requerido a isso.
  9. Miller já era sexualmente ativo antes desse relacionamento e era mau visto por alguns adultos por causa disso.
  10. A amizade entre os dois não consistia somente em atos libidinosos: o adulto ajudava Miller com o dever de casa, saía com ele e o incentivava a aprender eletrônica.
  11. A relação acabou quando Miller começou a se sentir culpado por não ser capaz de fazer com o adulto o que este fazia com ele.
  12. Assim, o aspecto de desigualdade corroeu o relacionamento.
  13. Embora o adulto fosse atraído por Miller e o satisfizesse, Miller não conseguia e nem queria satisfazer o adulto, por não gostar dele tanto quanto este gostava de Miller.
  14. Miller, porém, gostava de se sentir desejado.
  15. Embora os pais de Miller não rejeitassem o adulto, eles pediram que o relacionamento parasse pelo bem dos dois.
  16. Miller diz que talvez isso tivesse a ver com o fato de que seu pai estava secretamente se relacionando com as filhas (ato pelo qual ele foi preso), ou seja, o pai não podia condenar o adulto por fazer algo que também ele fazia.
  17. Miller encerra sua mensagem dizendo que o fato de um número de relacionamentos entre adultos e menores ser abusivo não deveria garantir que todos esses relacionamentos fossem ilegais, tal como o fato de que maior parte dos abusos infantis ocorrerem dentro da família não sustentaria uma abolição da família.

O que aprendi lendo “I didn’t know how to deal with it.”

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, — Yurinho @ 17:48

I didn’t know how to deal with it” foi escrito por Frans Gieles. Abaixo, o que aprendi lendo esse texto.

  1. O texto é sobre atos libidinosos antes da idade de consentimento.
  2. Embora um bom número dessas experiências seja considerada positiva no momento em que ocorreu, a criança ou adolescente, ao crescer, passa a ver a experiência diferentemente e a se arrepender do que fez.
  3. Isso pode ocorrer por causa da sensação de vulnerabilidade: o sujeito sente que não pode sair da relação depois que ela começa.
  4. A rápida progressão do relacionamento também pode prejudicar o menor.
  5. Outra fonte de sentimentos negativos é a manutenção do segredo: o menor que tem que guardar segredos da família e dos amigos também pode ficar com a consciência pesada.
  6. Ainda outra razão para ver a experiência negativamente é a falta de espontaneidade: o mais novo se sente controlado.
  7. Por razões como essas, o menor que aceita se relacionar antes dos catorze anos cresce e sente vergonha de ter aceitado.
  8. Esse tipo de relacionamento pode minar a autoconfiança do menor.
  9. Além disso, há o problema de que o menor pode passar a evitar o parceiro e, apesar disso, continuar sofrendo pressão.
  10. Donde decorre que a ausência de violência não torna relacionamentos precoces completamente livres de risco.
  11. A reinterpretação de uma experiência positiva como negativa não ocorre sem razão.
  12. Uma das razões é a negatividade sexual da sociedade.
  13. Outra é a mídia.
  14. Essas fontes de narrativas diferentes são absorvidas por sujeitos que não têm senso crítico.
  15. Assim, numa situação de relacionamento precoce sem violência real, crescer em um ambiente que rejeita tal relacionamento levará o sujeito a ver a experiência como negativa apesar de consensual.
  16. Esse julgamento posterior é consolidado em clínicas de saúde mental, caso o menor seja forçado a atender a algum tipo de terapia.
  17. Logo todos os desvios de conduta do menor serão atribuídos a seu relacionamento passado.
  18. O menor nunca deve se sentir forçado.
  19. A iniciativa não pode ser tomada pelo mais velho.
  20. O menor deve ser capaz de deixar o relacionamento quando desejar.
  21. Se uma relação tem que ser mantida em segredo pra continuar existindo, é melhor não ter tal relação.
  22. Enquanto relacionamentos antes da idade de consentimento forem proibidos, mantê-los é imoral.
  23. Mesmo que fosse legal, a relação é antiética enquanto ela não preencher os requisitos nos itens 18 a 21.
  24. Mudanças sociais podem acontecer na geração seguinte… ou podem levar várias gerações.
  25. Primeiramente, é preciso que ato libidinoso antes da idade de consentimento não seja mais visto como “sempre abuso”, o que requer uma renovação da espinha dorsal de pesquisa da sexualidade infantil, um novo paradigma.
  26. Se um ato libidinoso antes da idade de consentimento pode ser avaliado como “prazeroso” no momento em que ocorreu, mas “imoral” depois que o sujeito se torna adulto, é mais responsável, considerando a chance de isso ocorrer, não procurar tais relacionamentos.
  27. Isso é especialmente verdade em relacionamentos entre adulto e menor.
  28. O sujeito com menos de catorze anos que mantém atos libidinosos pode ser estigmatizado por causa disso.
  29. Os pais têm direito de saber no que seu filho está se metendo.
  30. E poucos pais permitiriam tal coisa.

17 de dezembro de 2018

“MAP Starting Guide” agora no Ipce!

Eu mandei o MAP Starting Guide pro Ipce esses dias e hoje ninguém menos que Frans Gieles respondeu meu e-mail. Ele publicou o texto no Ipce, embora erroneamente atribuído só a mim, quando a Hikari coautorou o texto comigo (eu já pedi pra ele corrigir isso). Gieles, que é praticamente o dono do Ipce e uma das pessoas-chave das oficinas JORis da NVSH nos Países Baixos, disse que trabalhará numa tradução do texto para o holandês. Assim, o MAP Starting Guide estará disponível em cinco idiomas:

É o único texto que escrevi que teve esse alcance, se bem que ele não teria sido possível sem a Hikari, que é muito mais experiente e educada do que eu. Gieles porém pediu que duas coisas fossem corrigidas no texto.

Primeiro, que o termo “JORIS” fosse redigido como “grupos JORis da NVSH”. A versão em português e a versão russa são baseadas no texto antigo, o qual só menciona a B4U-ACT como grupo de mútuo apoio, e seria interessante que a versão russa mencionasse também os JORis.

Segundo, um problema que só existe nas versão mais recentes (inglês e espanhol): eu esqueci de mencionar que pensamentos e sentimentos nunca poderão ser ilegalizados. Na versão original do texto, que sobrevive em português e russo, eu mencionei isso, mas esqueci totalmente de mencionar esse fato na versão em inglês e a versão em espanhol herdou esse erro.

Gieles mencionou que deseja colocar também as versões em espanhol e em russo no Ipce, com a ressalva de que a versão em russo deve ser posta num PDF. Se esse for o caso, seria legal se os tradutores para espanhol e russo revisassem os textos no que acharem necessário. Como eu atualizei a versão em inglês, partes do texto terão que ser retraduzidas se for do interesse dos tradutores seguir esse conselho. Pelo menos pra mim, ambas as traduções estão boas como estão. Tanto que não consertarei a versão em português, já que o texto original, no qual a versão em português foi baseada, é muito diferente do texto atual. Fora que, como Ipce não tem uma ala portuguesa, a versão em português será a única a não ser posta lá também.

Desde já, obrigado pelas traduções!

24 de setembro de 2018

Para bem ou para mal, o “MAP Starting Guide” foi reescrito.

Um ano depois de sua publicação original, o MAP Starting Guide foi reescrito. A mensagem do texto é a mesma, mas agora está escrita com palavras diferentes. Antes, a mensagem explícita era “você não é um monstro, apesar de a sociedade ver você como tal”. Agora, a mesma mensagem está escrita como “você nasceu na sociedade errada”. No texto original, eu fazia vários apelos emocionais e o texto tinha uma carga muito pessoal. Eu estava falando com você e consolando você como eu faria a um amigo. Agora o texto está mais acadêmico, se bem que ainda bastante pessoal. A versão original foi mantida em português e os russos traduziram o texto original também, que pode ser lido no Right to Love. Como eu estou em dúvida sobre o texto novo ser ou não melhor que o antigo, eu acautelei o dono do Right to Love para que ele não traduzisse a nova versão, porquanto a versão original é “fofa” o bastante para que os mais jovens a compreendam melhor.

A revisão foi necessária porque um número de críticas não foram adereçadas como deviam, notavelmente no que diz respeito às definições. Além disso, eu não estava sendo completamente imparcial e eu queria que o texto pudesse ser apreciado a despeito da orientação política do leitor (se pró-contato ou anti-contato). O texto tentava não soar pró-contato, mas falhava aqui e ali. Se o texto tem finalidade “terapêutica”, ele deveria atingir tantos quanto fosse possível e professar um alinhamento específico prejudicaria esse objetivo. No texto atual, onde foi necessário dizer algo que soasse pró-contanto, eu tinha que prontamente oferecer contra-argumentos em voga, principalmente no que diz respeito à questão do consentimento informado. Mas por que falar algo pró-contato seria necessário? Bom, eu precisava, para reiterar meu ponto de que a culpa e a vergonha sentidas pelo público-alvo eram oriundas de uma dissonância entre o sentimento e a orientação sociopolítica do Ocidente, mostrar que há locais ou houve tempos em que tais relacionamentos eram ou são normais e desejáveis, bem como eles podem ser engajados de forma saudável para ambas as partes. Foi estranho que, logo após a seção statistics and anecdotes eu enfiasse um “criança não consente”, mas mesmo essa expressão veio a ser reduzida a termos essenciais e desmistificada.

Por último, essa versão do MAP Starting Guide será atualizada conforme eu aprendo mais sobre esse assunto. Diferente da primeira versão, esta não é um trabalho fechado. Qualquer informação que auxilie no bem-estar do público-alvo será revista e incluída, de forma neutra.

Para aqueles que estão preocupados, não me tornei anti-contato. Eu estou preparando uma aberração textual de grandes proporções afetuosamente chamada lolipill. Claro que esse é o nome de trabalho, não o nome definitivo. Eu fui aconselhado a não traduzir esse texto pro inglês e também aconselhado a publicá-lo como livro, mas eu não sei se eu seguirei ambos os conselhos. É que, se esse texto tiver ressonância no Brasil, a ressonância será mitigada com a reação internacional. Então, é preciso que o texto encontre ouvintes em outros países para que haja resistência coletiva. Se os países de terceiro mundo ouvirem, bem como os países de primeiro mundo com mentalidade mais aberta, os países mais conservadores poderão ser “sitiados” por essa pressão, que talvez seja exercida por grupos islâmicos, imigrantes e de jovens nesses territórios conservadores. Além disso, publicando como livro, a velocidade de propagação do texto será menor e seu alcance seria muito baixo, uma vez que pouca gente lê livros regularmente no Brasil.

Mas quando o texto for solto, eu farei uma versão mais polida dele para publicar como livro. Essa versão mais polida não será traduzida, ao menos não num primeiro momento.

1 de outubro de 2015

Atração por menores.

“Pessoas atraídas por menores” é um termo que refere-se a adultos que são atraídos por crianças ou adolescentes e também se refere a adolescentes que são atraídos por crianças. O conceito se sobrepõe a outros, como pedofilia e hebefilia. No entanto, esta categoria é relativamente nova e a maioria das pessoas não vê a diferença entre a atração por menores e a pedofilia, a qual é, em si, carregada de grandes quantidades de estigma. Por causa disso, a autoestima das pessoas atraídas por menores é severamente danificada, elas se escondem e desenvolvem ódio de si mesmas. Mas é importante que a pessoa atraída por menores entenda que ela não é uma ameaça para menores, que sua atração é aceita em outras culturas e que, colocando as coisas assim, a atração por menores não é uma doença por si só, mas é tornada tal pela sociedade. Isso deve ajudar as pessoas atraídas por menores a aceitarem-se de todo o coração, a ver os fenômenos culturais como passivas de mudança, a melhorar a compreensão de si mesmos e encaminhá-las a alguém que as ajude, se necessário.

Introdução.

Tente procurar a palavra “pedofilia” on-line agora mesmo. O que você provavelmente verá é uma série de artigos de notícias sobre casos de estupro infantil, molestamento ou coisa pior. No entanto, para um grupo de pessoas, essa é uma imagem muito reducionista. Estou falando de pessoas atraídas por menores. Essas pessoas reconhecem que têm sentimentos por menores, por isso estão em posição de julgar o que os outros dizem sobre elas. E para muitas pessoas atraídas por menores, as notícias não refletem quem elas realmente são.

O fenômeno da atração por menores é muito diverso para ser adequadamente descrito pelos meios de comunicação. Há pessoas atraídas por menores que são pedófilas, mas também há nepiófilas (atraídos por bebês) e hebéfilas (atraídos por pubescentes). Há pessoas atraídas por menores que sentem que a atração delas, apesar de ser ilegal, não precisa ser ilegal, mas outras preferem que as coisas continuem como estão. E o mais interessante é que há menores que são atraídos por menores mais novos, sem mencionar os menores que são atraídos por colegas da mesma idade.

O problema é que os meios de comunicação, ao espalhar a desinformação, fazem com que muitas pessoas atraídas por menores se sintam isoladas ou desesperadas. Eles não se veem nos monstros retratados nas notícias. Então, se você é obediente à lei e se sente atraído por menores, você pode pensar que é um de poucos ou que você logo infringirá a lei. Isso causa sentimentos de desespero. No entanto, esse desespero é baseado em uma falsa suposição: que todas as pessoas atraídas por menores são criminosos ativos ou potenciais.

Dito isto, procurar informações sobre a atração por menores em geral e a pedofilia em particular pode ser uma atividade muito dolorosa e infrutífera. O objetivo deste texto é fornecer informações precisas sobre a atração por menores para as pessoas atraídas por menores, a fim de fazê-las se sentir mais à vontade, ao mesmo tempo em que enfatiza a necessidade de se manter obediente às leis. A primeira seção tenta definir atração por menores, a segunda tenta explicar a diferença entre pensamentos e ações. Espero que, depois de ler isto, você consiga dormir bem. Porque o texto tem pessoas atraídas por menores como audiência, vou escrever em segunda pessoa.

Antes de prosseguir, eu preciso declarar que este guia não vai te ensinar a quebrar a lei: não há informação sobre aliciamento, compartilhamento de pornografia infantil, nada disso. Se você chegou a esta página esperando algo assim, temo que você fique desapontado. O texto é introdutório e, apesar de sua forma acadêmica, não deve ser visto como um relatório científico. Por favor, verifique as referências para mais informações.

Atração por menores.

Ser atraído por menores é ter uma ligação erótica com pessoas que ainda não são adultas. Porque “menor” é um termo cultural, não biológico, como “criança”, não há idade universal para alguém ser chamado de “menor”, ​​embora, na maioria das sociedades ocidentais, você seja um adulto apenas aos 18 anos de idade. Atração por bebês é chamada de nefiofilia, a atração por crianças pré-púberes é chamada de pedofilia, a atração por crianças e adolescentes púberes é chamada de hebefilia, a atração por adolescentes pós-pubescentes é chamada de efebofilia. É importante ressaltar que esses termos implicam uma atração preferencial: se você se sentiu sexualmente atraído por uma criança uma vez, mas foi uma ocorrência única ou se seu desejo por adultos é maior, você não é um pedófilo. Destes, apenas a pedofilia (e, por extensão, a nefiofilia) é considerada um transtorno mental, de acordo com a Classificação Internacional de Doenças e o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, mas somente se o pedófilo estiver profundamente angustiado pelos sentimentos que tem ou se ele agiu de acordo com o impulso. Dito isto, um pedófilo não é necessariamente doente mental, dependendo de quão bem o pedófilo lida com seus sentimentos. A razão pela qual a hebefilia e a efebofilia não são consideradas doenças, mesmo quando o sujeito se relaciona com adolescentes, é porque essas atrações são muito comuns para serem consideradas como anormais. Além disso, a classificação da hebefilia como transtorno mental teria efeitos indesejáveis ​​no campo forense ( Frances & First, 2011 ), o que poderia explicar por que a idade de consentimento ao redor do mundo pode ser tão baixa, como 12, em alguns países.

Enquanto pessoas atraídas por menores diferem em “idades de atração”, elas também diferem de acordo com posição política. A idade de consentimento é uma lei. Posicionar-se como favorável ou contra uma lei é uma posição política. Há pedófilos que são favoráveis ​​à reforma da idade de consentimento e há aqueles que não são. As pessoas atraídas por menores que são favoráveis ​​a baixar ou abolir a idade de consentimento são frequentemente chamadas de “pró-contato” ou “pró-consentimento”. Aqueles que são favoráveis ​​a deixar a idade de consentimento como está ou aumentá-la são frequentemente chamados de “anti-contato”. Esses rótulos não são indicativos de ficha criminal: uma pessoa pode ser pró-contato e obediente à lei. O sujeito obediente à lei é muitas vezes chamado de “não-ofensivo”. Nenhum dos rótulos implica uma posição sobre a pornografia infantil: há pessoas atraídas por menores que, mesmo sendo pró-contato, não querem a legalização da pornografia infantil, enquanto alguns anti-contatos podem querer a legalização de pornografia infantil de desenho, sendo contra a legalização de pornografia infantil com crianças reais.

Poder-se-ia perguntar por que você, por exemplo, adotaria uma posição particular sobre a idade do consentimento. Enquanto aqueles que são pró-contato argumentam que algumas relações entre adulto e criança, sexuais ou não, poderiam ser inofensivas ou mesmo benéficas, de uma forma que seria mais justo se essas relações fossem julgadas caso a caso (ver citação de “Trevor”, em Rivas, 2016 , página 92), aqueles que são anti-contato argumentam que o dano ainda acontece e que pode ser devastador ou que, mesmo que essas relações possam ser inofensivas e positivamente lembradas, elas ainda são imorais, porquanto o consentimento dado pela criança sempre pode ser questionado. O mero fato de que tal debate exista em comunidades atraídas por menores deve servir para dissipar o preconceito de que as pessoas sexualmente atraídas por menores são sempre antiéticas. Porque a sexualidade inclui vários elementos interpessoais e uma dinâmica entre a pessoa que deseja e a pessoa desejada, algo que é observado até mesmo em adolescentes (se houver adolescentes atraídos por menores, então o que é dito sobre o desejo adolescente em Drury & Bukowsky, 2013, página 128 e 129 também se aplica aqui), então é seguro dizer que a atração sexual é uma característica de uma resposta erótica mais ampla que inclui sentimentos de amor (para uma conta pessoal de um pedófilo, ver O’Carroll, 1980, capítulo 1). É improvável que você defenda qualquer das duas posições, desconsiderando a segurança e os sentimentos das crianças.

É importante notar também que as pessoas atraídas por menores nem sempre são adultas: de acordo com uma das pesquisas da B4U-ACT, a maioria das pessoas atraídas por menores sente sua primeira atração por uma criança menor aos 12 anos e percebe que tal atração é preferencial aos 14 anos. Isso significa que há adolescentes que são atraídos por crianças, por exemplo. Como uma pessoa que odeia pessoas atraídas por menores em consequência de seu desejo de proteger as crianças responde a isso? Proteger as crianças implica também proteger as crianças atraídas por menores. Então, odiar pessoas atraídas por menores em geral não é algo que possa ser conciliado com o desejo de proteger as crianças em geral.

Causas.

As causas da atração por menores não são claras. Ela parece ser notada pela primeira vez na adolescência e é resistente a mudanças. Considerando que até mesmo as pessoas com menos de 12 anos são seres sexuais e que têm brincadeiras sexuais entre si (para exemplos de atividade sexual na infância, ver Campbell et al, 2013 , páginas 154 a 157), pode-se pensar que o problema da atração por menores reside no fato de que a pessoa, quando cresce, continua a ser atraída por crianças, mas nem sempre é assim: algumas pessoas percebem que são preferencialmente atraídas por crianças também na idade adulta. O traço, no entanto, parece ser inerente. Não há como “se tornar” uma pessoa atraída por menor: você é ou não é. No entanto, pode-se falar de “descoberta”. Você se descobre como uma pessoa atraída por menores, mas não se pode dizer que um evento específico “desencadeou” a atração.

Por um tempo, pensou-se que ter contatos sexuais com um adulto faria com que a criança crescesse como pedófila. Essa linha de pensamento é chamada de “teoria do ciclo do abuso” e está sendo contestada atualmente. Parece não haver um vínculo necessário entre ter contatos sexuais na infância e crescer atraído por crianças, especialmente se esse contato for considerado negativo.

A única coisa que pode ser dita é que a atração por menores em geral e pedofilia em particular não são escolhas, com um punhado de pesquisadores afirmando que a pedofilia poderia ser uma orientação sexual. Se a atração por menores for uma orientação sexual, uma analogia com a homossexualidade é possível: nada pode te “tornar gay”, ou você é gay ou não é. Mas você pode dizer que “se descobre gay”. Embora isso não garanta que o sexo entre adultos e crianças deva ser legal, isso significa que, se os pedófilos não escolherem sua condição e a mudança dessa condição não for possível, odiá-los só por isso é injusto. Você não é responsável pelos sentimentos que tem, mas apenas por suas ações.

Características.

Pessoas atraídas por menores percebem sua primeira atração por volta dos 12 anos de idade. Ao contrário da crença popular, não é um fenômeno exclusivamente masculino: mulheres e meninas também podem ser atraídas por pessoas muito mais jovens do que elas. Os sentimentos que eles têm vêm em três níveis: carinhoso, romântico e sexual. No primeiro nível, você pode ter o desejo de cuidar dos jovens, oferecer orientação (ver artigo encontrado no New York Post, 2007, citado em Rivas, 2016 , páginas 113 a 115), proteger e estar disponível para as suas necessidades. Isso ajudaria a explicar por que tantos escândalos sexuais envolvem pessoas em posições de orientação, como padres ou professores. No segundo nível, o desejo é ter expressão emocional ( Rivas, 2016 , página 264). No terceiro nível, os desejos são voltados para o que poderíamos chamar de “molestamento”, em termos legais: tocar, acariciar, atos libidinosos que são mais frequentemente centrados na criança (ver citação de D. J. West, em O’Carroll, 1980, capítulo 3). Tem sido apontado na literatura que, pelo menos quando se trata de pedófilos (não incluindo hebéfilos ou efebófilos), a penetração é uma característica rara do contato sexual com crianças. Considerando que esses sentimentos sexuais podem coexistir com sentimentos amorosos, parece natural que os pedófilos, como pessoas atraídas por crianças pré-púberes, evitem a conjunção carnal, pois esta seria ao mesmo tempo dolorosa e provavelmente degradante para a criança (ver O’Carroll, 1980, capítulo 6, onde ele explica por que deveria haver uma idade de consentimento para certos atos de penetração). É improvável que uma criança imatura gostasse de penetração: perder a virgindade pode ser uma experiência dolorosa para meninas mais velhas e até mulheres, quanto mais para uma criança pequena. Uma criança nunca deve ser submetida a qualquer coisa além do seu nível de maturidade.

No entanto, como está implícito nos dois primeiros níveis de atração (carinho e romance), você provavelmente não sentiria gratificação se a criança ou adolescente não estivesse disposto a participar. Os leigos poderiam então perguntar “e os casos de estupro infantil que vemos na televisão?” Sabe-se agora que a maioria das pessoas presas por sexo com menores não preenche os critérios diagnósticos para a pedofilia. Em termos leigos, isso significa que a maioria das pessoas que são processadas por sexo com crianças não são pedófilos em primeiro lugar. Há várias razões para uma pessoa ter relações sexuais com menores e a pedofilia é apenas uma delas. A pessoa pode fazer sexo com um menor por experimentação, vingança, desejo de causar dor, intoxicação, desordem mental ou, em casos extremos raros, por ser forçado por um menor mais forte. Se apenas uma minoria dessas pessoas na televisão são pedófilos de verdade, os leigos devem estar mais preocupados com pessoas “normais” que poderiam abusar de seus filhos. Se um abusador realmente pode ser “qualquer um”, sabe-se agora que raramente é um pedófilo.

Finalmente, considerando o impacto social dessas relações e os sentimentos amorosos e românticos que coexistem com os sentimentos sexuais, não é surpresa que muitas pessoas atraídas por menores optem por permanecer celibatárias em relação a crianças e adolescentes (o exemplo clássico é a relação entre Alice Liddell e Lewis Carroll, como visto em Rivas, 2016 , páginas 247 e 248). De fato, mesmo entre aqueles que adotam uma visão pró-contato, ter um relacionamento sexual com um menor é visto como antiético, já que pode expor tanto o adulto quanto o menor às tribulações da intervenção social. Assim, os pedófilos que têm sentimentos sinceros de amor pelas crianças devem permanecer celibatários, mesmo que se julguem inofensivos, pelo menos até que o clima se torne mais receptivo a essas relações ( Rivas, 2016, página 271).

Existe um tratamento ou cura?

Quer a atração por menores seja uma orientação sexual ou um distúrbio, ela é resistente a mudanças. Sabemos que a terapia de aversão, antes usada como uma tentativa de transformar a atração homossexual em heterossexual, não funciona. De fato, a terapia de aversão já foi chamada de punição, do tipo cruel e incomum, por Leinwand. Essa punição ainda é aplicada a pessoas com atrações sexuais problemáticas. As técnicas de terapia de aversão incluem choque elétrico, indução de vômito, zumbidos de alta frequência e outros estímulos desagradáveis, enquanto, ao mesmo tempo, também é dado àquela pessoa algo que as excita sexualmente (veja notas em O’Carroll, 1980 , capítulo 4).

Se a atração por menores não puder ser modificada, o melhor que podemos fazer no clima atual é ajudar as pessoas atraídas por menores a permanecerem cumpridoras da lei enquanto melhoramos sua qualidade de vida. Quando você está isolado ou tem a sensação de “não ter mais nada a perder”, você está mais propenso a quebrar a lei. Isso significa que isolar as pessoas atraídas por menores da sociedade não é útil para os objetivos da sociedade, nem para seus objetivos de permanecer na lei. Com isso em mente, o grupo terapêutico B4U-ACT não defende o tratamento que visa “curá-lo”, especialmente porque o B4U-ACT não vê atração por menores como uma doença. Os terapeutas que trabalham com o B4U-ACT devem se dedicar ao tratamento humano, com foco no seu bem-estar, o que diminui as chances de quebra da lei.

Sentimentos e ações.

Sentir atração por menores é diferente de agir segundo tal atração. Para fazer uma analogia, várias pessoas têm vontade de fazer coisas ilegais: assassinar ou espancar uma pessoa que não gosta, experimentar drogas ilícitas ou jogar jogos ilícitos. No entanto, ter esses sentimentos não garante que uma pessoa agiria de acordo com esses impulsos. Mas as pessoas têm direito às suas fantasias. O mesmo vale para você.

No Japão, a pornografia infantil desenhada, sob a forma de mangá lolicon / shotacon, é tolerada. Mas a disponibilidade de tal pornografia (como acontece com qualquer pornografia) não parece aumentar as taxas de abuso sexual infantil no Japão (Diamond & Uchiyama, 1999, página 10). Segundo o International Business Times, ambos os Estados Unidos e o Reino Unido, dois territórios que investem muito na luta contra a pedofilia, aparecem na lista dos cinco países com maiores índices de abuso sexual infantil. É importante lembrar que a informação vem de uma agência de notícias e que a definição de “criança” no artigo não é fornecida. Mas vamos supor que a lista esteja correta. Se for, como podemos explicar tal fato?

Em um estudo sobre a presença de pornografia e sua correlação com as taxas de crimes sexuais, descobriu-se que a República Tcheca tinha menores taxas de abuso sexual infantil depois de legalizar a posse de pornografia infantil (Diamond et al, 2011, página 1039). Embora isso não garanta que a pornografia infantil deva ser legal, isso pode significar que a presença de pornografia infantil torna os pedófilos, em particular, menos propensos a procurar encontros com crianças reais. Isso poderia ajudar a explicar por que as taxas de abuso sexual infantil são baixas no Japão, mas altas nos Estados Unidos: o Japão permite que os pedófilos tenham uma saída para seus sentimentos, dando-lhes uma descarga segura. Desde que tal saída seja mangá, crianças reais não precisam participar da produção. Por isso, há algumas pesquisas sobre pornografia infantil de realidade virtual, que serviria ao mesmo propósito. Embora as evidências mostrando que a pornografia infantil faz com que os pedófilos fiquem menos propensos a se relacionar com crianças sejam inconclusivas, vale a pena investigar cientificamente até que ponto a pornografia que não envolve crianças reais, como o mangá ou a realidade virtual, é capaz de imitar esse efeito. Portanto, se você for contra qualquer modificação nas leis de idade de consentimento, essa possibilidade é algo que você deve considerar.

Mesmo que nenhuma saída seja dada, ninguém pode tirar seu direito de fantasiar. Não é possível tornar pensamentos e sentimentos ilegais. Enquanto você tiver uma maneira de ter alívio sexual legal, a propensão para quebrar a lei será menor. Além disso, existem outras formas de expressão que não são sexualmente explícitas. Por exemplo, um romance sobre esse tema foi publicado em 2018. Não foi o primeiro livro de seu tipo e provavelmente não será o último. Outro exemplo seria o filme I Love You, Daddy, lançado em 2017. A existência de obras de ficção legais com tais temas mostra que a sublimação do desejo através do trabalho artístico também é possível e também pode ser feita de forma aceitável, legal e até mesmo lucrativa. É importante notar também que tais obras podem muito bem terem sido escritas feitas por pessoas que não são atraídas por menores de idade.

Idade de consentimento e cultura.

A volatilidade das leis as torna inadequadas para definir o que é doentio e o que não é, mesmo que elas possam ditar o que é socialmente aceitável e o que não é. Essa é uma questão importante a ser considerada para o bem-estar das pessoas atraídas por menores, porque parte da vergonha que sentem sobre seus sentimentos vem do fato de que muitas formas de atração por menores são ilegais em determinado território.

A idade do consentimento varia de acordo com as culturas, ou seja, de acordo com tempo e local. As primeiras idades de consentimento eram muito baixas. Nos Estados Unidos, por exemplo, a idade de consentimento costumava ser 7 em Delaware. Movimentos sociais, especialmente o feminismo (ver, por exemplo, Sandfort, 1987 , capítulo 1), desempenharam um papel na mudança dessa imagem. Mas até hoje, as idades de consentimento podem ser muito baixas em outros lugares: a menor idade de consentimento no Japão é 13, a idade de consentimento no Brasil é 14 em todo o país e é 12 nas Filipinas. O caso do Brasil é especialmente interessante porque a idade de consentimento no Brasil era de 16 anos em 1920, atualmente é de 14 anos e havia uma proposta para diminuir para 12, seguindo, entre outras coisas, a descoberta de que a idade de consentimento estava interferindo nos romances adolescentes. Assim, dos países que acabei de mencionar, o Brasil mostra uma tendência a diminuir sua idade de consentimento com o passar do tempo. Há também países sem idade de consentimento, mas que têm limites mínimos de idade para o casamento, os quais também podem ser bem baixos. Esses países frequentemente impõem restrições à atividade sexual para mantê-la dentro do casamento. Então, em alguns países, se você é casado, a disparidade de idade não importa. Por último, em culturas isoladas indígenas, tal lei também pode estar ausente (para vários exemplos de tais tribos, ver O’Carroll, 1980, capítulo 2). Por fim, existem iniciativas contra o próprio conceito de idade de consentimento, como o programa partidário do Partido Comunista da Grã-Bretanha (CPGB-PCC), que lista, como uma de suas demandas imediatas, a abolição das leis de idade de consentimento e a elaboração de legislação alternativa contra o abuso sexual infantil. Por outro lado, um movimento mundial para aumentar a idade de consentimento em todo o globo não poderia ser feito sem encontrar muita resistência cultural, especialmente no Oriente. Esse movimento levaria décadas para ter sucesso.

Isso significa que ter casos românticos ou sexuais com menores nem sempre é ilegal, dependendo do contexto cultural (isto é, das leis locais e do período histórico). Se você tivesse nascido no lugar certo, na hora certa, sua atração seria tolerada, aceita ou mesmo valorizada. Não é que você seja doente; você apenas nasceu na cultura errada. Embora isso seja um fato e embora a idade de consentimento seja uma lei volátil, essas informações sozinhas não devem ser vistas como uma incitação para violar a lei, nem como um incentivo para se relacionar com crianças. Tal volatilidade foi exaustivamente apontada em outros trabalhos (veja as referências para alguns).

Considerando isso, pode-se perguntar por que a idade de consentimento no Reino Unido e nos Estados Unidos, por exemplo, é tão alta. Um dos argumentos para manter uma alta idade de consentimento é que as crianças amadurecem em ritmos diferentes: um adolescente de 15 anos poderia se comportar como se tivesse 12 anos, apesar de outra pessoa de 15 anos ser capaz de se comportar como se tivesse 18 anos. Assim, definir uma idade de consentimento alta pode garantir que nenhuma criança ou adolescente subdesenvolvido consinta com algo que eles, na verdade, não entendem.

Estatísticas e anedotas.

Porém, idades mais baixas de consentimento implicam que relacionamentos em uma certa idade podem não ser violentos. Isso leva à pergunta sobre se o contato sexual antes da idade do consentimento é sempre prejudicial ou não. As relações entre adultos e crianças podem funcionar? A evidência estatística e anedótica mostra que as relações intergeracionais não são consistentemente prejudiciais. Se o contato sexual precoce fosse sempre prejudicial, a idade do consentimento variaria menos. Além disso, se esse fosse o caso, a idade de consentimento seria uma lei muito mais antiga, como as leis contra assassinato, violência, estupro e roubo.

A consideração sobre contatos sexuais precoces lembrados como positivos não seria incluída neste documento se não fosse registrado na literatura que o conhecimento de tal informação poderia melhorar sua autoestima. Mas uma discussão sobre a intimidade sexual entre adulto e criança não pode ser feita sem considerar as razões para a proibição.

Evidências não demonstram a crença de que a intimidade sexual entre adultos e crianças é sempre prejudicial. Alguns desses contatos são lembrados como positivos. Um dos livros usados ​​como referência para este texto é Positive Memories, de Rivas, que compila anedotas de contatos sexuais voluntários entre menores de 15 anos ou menos com adultos de 18 anos ou mais ( Rivas, 2016 , página 9). Essas anedotas foram extraídas de outros trabalhos, como biografias, artigos de notícias, artigos científicos e outros. As fontes podem ser encontradas na bibliografia do livro. Outras compilações estão disponíveis em outros lugares.

Alguns estudos que poderiam ser usados ​​para provar a existência de relações intergeracionais não violentas estão por aí. Alguns que eu posso mencionar são Arreola et al, 2008; Arreola et al, 2009; Bauserman & Rind, 1997; Carballo-Diéguez et al, 2011; Condy et al, 1987; Dolezal et al, 2014; Kilpatrick, 1987; Lahtinen et al, 2018; Leahy, 1996; Mulya, 2018; Rind, 2001; Rind, 2016; Rind & Tromovitch, 1997; Rind & Welter, 2013; Rind & Welter, 2016; Rind et al, 1998; Sandfort, 1984; Sandfort, 1987; Tindall, 1978; Ulrich et al, 2005-2006; Wet et al, 2018. Esses estudos oferecem evidências estatísticas e anedóticas de que o contato sexual entre adulto e criança pode ser inofensivo e voluntário (isto é, não violento). Você pode notar que alguns desses estudos são relativamente recentes, enquanto outros são antigos. Seria interessante verificá-los se você gostaria de ler mais sobre o assunto. Mas não é meu objetivo expor os dados que foram coletados por esses pesquisadores.

Também vale a pena mencionar que nenhum desses estudos assume uma posição pró-legalização definitiva. Por exemplo, Mulya, 2018, diz que anedotas de intimidade sexual positiva entre adulto e criança compiladas por ele não devem ser vistas como uma tentativa pessoal de tornar essas relações legalmente aceitáveis. Da mesma forma, o estudo de Lahtinen et al, 2018, apenas tenta explicar por que algumas crianças não denunciam contato sexual com adultos às autoridades quando tal contato acontece e uma das descobertas do estudo é que algumas crianças não relatam porque não veem o contato como algo que valha a pena mencionar, enquanto alguns não relatam porque gostaram da experiência. Mas o estudo não conclui que tais experiências devam ser legalizadas, mas sim que as crianças devem ser encorajadas a denunciar, independentemente de como avaliam a experiência. Dito isto, a mera exposição desses dados não deve ser vista como incentivo para violar a lei. Além disso, os dados científicos por si só não podem operar mudanças na lei e, se a ciência quiser ser imparcial, ela não deve se preocupar com o clima político ou com a lei, mas com os fatos.

Se as relações intergeracionais podem ser positivas, por que o contato sexual entre adulto e criança ainda é ilegal? A resposta depende do consentimento informado. A crença de que as crianças não podem consentir parece ser a única razão pela qual esses contatos ainda são considerados sempre abusivos (ver citação de Archard, em Jahnke et al, 2017, página 3). Mas o que significa “consentir” neste contexto, já que muitos desses contatos são considerados “voluntários” pela suposta vítima?

O consentimento informado é necessário quando o risco está presente: sempre que você está prestes a fazer algo perigoso, você precisa estar ciente das consequências de um ato e deve ser capaz de tomar uma decisão livre sobre correr o risco ou não (ver Lavin, 2013, página 5). O sexo é considerado arriscado, no sentido de potencialmente prejudicial. Se o sexo é potencialmente prejudicial, todos que se envolvem em práticas sexuais devem dar o consentimento informado, isto é, devem estar cientes das consequências e ser capazes de assumir uma postura livre ao assumir o risco ou não. O problema do contato sexual entre adulto e criança é que, enquanto alguns adultos não estão plenamente conscientes das consequências de seus atos e enquanto o desequilíbrio de poder é inerente às relações humanas, as crianças são ignorantes das consequências e estão em posição desfavorecida em relação a todo o resto da sociedade. O consentimento informado baseia-se em informações ou em dinâmicas de poder favoráveis ​​e nenhuma das duas coisas existe para a criança em tal relacionamento. E isso também explica por que a idade de consentimento varia de acordo com as culturas: diferentes países têm diferentes atitudes em relação ao sexo, juventude mais ou menos informada, extensão mais ampla ou mais estreita dos direitos das crianças, em diferentes contextos históricos. Então, quando alguém diz “as crianças não podem consentir”, o que elas estão dizendo, em termos funcionalistas, é:

  1. as crianças não são informadas o suficiente para dar um consentimento válido em relações sexuais inerentemente desiguais e;

  2. essa questão é importante porque o sexo é arriscado, isto é, potencialmente prejudicial.

Porque dar consentimento a um ato sem informação sobre as consequências é uma escolha nula e porque dar consentimento em uma situação onde você não pode realmente dizer “não” (pois um adulto perigoso poderia tentar forçar a criança se o consentimento for negado) também é um ato nulo, o consentimento da criança é nulo ou, pelo menos, não informado, portanto, juridicamente inválido (caso a criança tenha consentido, o que não significa que a lei relevará tal consentimento). Não importa se a criança disse sim: se o seu consentimento é nulo, o ato é equivalente ao estupro, mesmo que apenas em termos puramente legais (daí o termo “estupro” de vulnerável). Essa é a razão por trás do consentimento informado e a razão pela qual o contato sexual entre adulto e criança permanece ilegal. Mesmo que o ato seja genuinamente praticado livremente e mesmo que nenhum dano, mas apenas benefício, resulte do ato, ele ainda é imoral.

Para muitas coisas, pais e responsáveis ​​consentem no lugar de seus filhos (Lavin, 2013). Então, quando se trata de questões sexuais, mesmo que a idade de consentimento fosse abolida, isso não equivale à liberação plena da criança. A criança ainda seria cuidada e nutrida pelos pais, que seriam responsáveis ​​por ela e responsabilizados pelo dano que a criança poderia sofrer de qualquer coisa, sexual ou não. Por causa disso, muitos pais não aceitariam seus filhos se envolverem em tais aventuras, mesmo que a criança venha expressar seu desejo de participar.

Em qualquer caso, as crianças têm seu próprio ritmo de amadurecimento e cada criança se desenvolve de maneira diferente. Crianças deveriam aprender sobre sua sexualidade à sua maneira. Essa é uma situação muito complicada, porque a introdução de elementos adultos em uma sexualidade que ainda está em desenvolvimento poderia prejudicar tal desenvolvimento, o que poderia resultar em frustração para a criança, talvez não imediatamente, mas depois que ela cresce. Ainda teríamos que considerar a possibilidade de adultos egoístas enganarem ou manipularem a criança ou, de alguma forma, tentarem fazer com que seu interesse prevaleça sobre o interesse da criança. Se isso é uma possibilidade, a legalização continua sendo arriscada. Tenho certeza de que você pode ser uma pessoa amorosa, mas outros podem não ser muito. E finalmente, uma criança e um adulto em uma relação sexual poderiam estar procurando por coisas diferentes: o adulto poderia estar procurando por intimidade física e apegos emocionais, enquanto a criança seria motivada pela curiosidade e prazer. Se as motivações forem diferentes, o relacionamento pode não ser satisfatório para ambos.

Além disso, mesmo que exista um contato sexual positivo entre adulto e criança e mesmo que evidências anedóticas mostrem que há menores desejando tais encontros, o ato, quando descoberto, causará danos a ambas as partes do relacionamento, devido ao processo judicial e possível terapia posterior. Reitero que agir segundo esses desejos em um contexto cultural que desaprova tal conduta é uma demonstração de irresponsabilidade. As pessoas atraídas por menores pró-contato estão interessadas em mudar as leis (ver Sandfort, 1987, capítulo 3 para um exemplo de tentativa de reforma da idade de consentimento na Holanda), mas não devem estar interessadas em violar as leis, não apenas por causa de sua própria segurança, mas também por causa de como a criança poderia responder à intervenção (para uma anedota sobre como a intervenção social sozinha pode prejudicar tanto o adulto quanto a criança, ver Rivas, 2016, páginas 27 a 32)

Conclusão.

Se você não necessariamente cometerá nenhum crime, se a maioria das pessoas que cometem crimes sexuais contra crianças não são pedófilos e se tais atrações foram, são e poderiam ser aceitáveis ​​dependendo do contexto cultural, então você não tem motivos para se sentir mal. Se isso é tudo o que você precisava ouvir ou ler, você poderia deixar de lado a questão e parar de se preocupar com ela, pois é a carga social atribuída aos sentimentos, e não os sentimentos em si, que causam a vergonha e a culpa. Isso quer dizer que é a sociedade que faz você se sentir mal, não os sentimentos que estão presentes em você.

Se for esse o caso, você poderia se beneficiar de alguma companhia para, pelo menos, lidar com a sensação de isolamento. Existem comunidades legais on-line e fora da Internet nas quais as pessoas atraídas por menores podem confiar, trocar experiências e receber orientação de pessoas que compartilham a atração. Claro, você também é encorajado a evitar comunidades ilegais. B4U-ACT tem um grupo de mútuo apoio, por exemplo. Outras comunidades como Boychat / Girlchat, Virtuous Pedophiles e os grupos JORis da NVSH (este último na Holanda) também são opções. Destes, apenas o Virtuous Pedophiles têm exigências políticas de associação, já que a pessoa que se junta ao seu grupo também precisa ser contra a legalização. Devo lembrar ao leitor que o fato de alguém ser favorável a mudanças na lei não indica que a pessoa é criminosa. B4U-ACT, Boychat / Girlchat e os grupos JORis de NVSH não possuem essa exigência política. Como o B4U-ACT quer alcançar o maior número possível de pessoas atraídas por menores, faz sentido que ele não professe qualquer ponto de vista específico sobre a questão do contato: quando a Paedophile Information Exchange operou no Reino Unido, o ativismo pró-contato da organização fez com alguns membros se distanciassem do grupo ( O’Carroll, 1980, capítulo 11). Quando se trata de reforma da idade de consentimento, grupos de autoajuda e ativismo político são difíceis de conciliar, se não impossíveis. Dito isto, se um grupo de apoio para pessoas atraídas por menores quiser alcançar o maior número possível de pessoas, ele deve evitar qualquer posição definitiva sobre a idade de consentimento, o que encorajaria a participação de pessoas atraídas por menores não obstante seu posicionamento em relação às leis. Tal atitude também manteria a própria organização segura. Os grupos JORis e B4U-ACT também realizam reuniões fora da Internet de vez em quando, mas, enquanto os grupos JORis tentam ser um grupo de apoio onde as pessoas podem se apresentar e falar sobre suas lutas para receber apoio de pares, as reuniões presenciais da B4U-ACT são de natureza acadêmica e pesquisadores também participam. Enquanto as pessoas assistem às reuniões do B4U-ACT por conta própria, algumas pessoas são encaminhadas aos grupos JORis pelo sistema de justiça.

Não ver atração por menores como algo negativo e ter amigos que entendem tal atração e escutam você é crucial para o seu bem-estar, o que evita a temida mentalidade de “não ter nada a perder”, o que faria as pessoas atraídas por menores assumirem comportamentos desesperados, como o suicídio. Se as pessoas odeiam pessoas atraídas por menores porque acreditam que elas sempre quebram a lei e todos aqueles que quebram a lei são atraídos por menores, então não há razão para pessoas atraídas por menores, já que essa crença é comprovadamente errada. Não vale a pena odiar você. De fato, se você é obediente à lei, você pode se passar como pessoa perfeitamente “normal”. Muitos provavelmente são amigos de pelo menos uma pessoa como você.

Para dissipar os preconceitos que existem sobre as pessoas atraídas por menores, a melhor solução seria a participação social deles. É muito mais seguro “se assumir” online, em contas dedicadas, e muitos o fizeram no Facebook, Twitter, Youtube, WordPress, Tumblr, Medium e assim por diante. A liberdade de expressão é um direito humano e a liberdade de pensamento é algo que não pode ser tirado de você. Nenhuma petição pode mudar isso. Se você puder se assumir on-line, especialmente se souber separar sua identidade pública de uma identidade on-line, isso já será útil. O preconceito contra pessoas atraídas por menores só existe porque os outros podem dizer o que quiserem sobre uma minoria silenciosa. Quantas pessoas atraídas por menores estão por aí? O palpite mais baixo, de acordo com a página de fatos do B4U-ACT, é de 600.000 adultos, contando apenas os Estados Unidos. Quantos existem em outros países? Todas essas pessoas são más?

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