Analecto

4 de março de 2018

Defendendo causas controversas online.

Filed under: Computadores e Internet, Organizações — Tags:, , — Yurinho @ 01:09

Eu vejo algumas pessoas defendendo causas controversas na Internet e fazendo isso de forma terminantemente infrutífera. Eu não sei se estão brincando ou não. Eu nunca fiz essa defesa de forma incisiva, mas, se eu tivesse que fazer, eu faria mais ou menos da forma abaixo.

No livro Paedophilia: The Radical Case, O’Carroll diz que os grupos homossexuais radicais lutavam em bandos contra o preconceito. Eles faziam o seguinte: quando um deles sofria discriminação, ele falava com os outros, os quais, por sua vez, falavam com ainda outros e, quando tinham contingente suficiente, se “montavam” (travestiam) e iam ao local onde seu colega havia sofrido discriminação. Lá, eles acampavam. Como era um protesto pacífico, a polícia não podia fazer muita coisa. Por outro lado, se alguém partisse pra violência contra eles, ocorreriam denúncias. Era uma tentativa, muito efetiva, de forçar os preconceituosos a aceitarem que homossexualidade acontece e que o número de homossexuais é grande, que eles estão unidos.

Essa estratégia (chamada radical drag) se resume em quatro pontos que estão sendo negligenciados, em maior ou menor grau, pelos meus colegas com ideias heréticas: ação responsiva, ação coordenada, planejamento secreto, ação pacífica. Na Internet, um protesto desses pode ser feito menos efetivamente, mas com muito mais frequência.

Ação responsiva (“não ataque, apenas contra-ataque”).

Uma ação responsiva é aquela que ocorre após uma outra ação, em resposta a esta. Quando seu ponto de vista é atacado por alguém, você deve atacar de volta, como meio tanto de defesa como de destruição do ponto de vista do outro. Meus colegas têm evidência científica e argumentação filosófica, mas eles as usam de maneira ofensiva. Eles começam a briga. Quando você começa a briga, você pode ser ignorado sem problemas. Mas, quando você responde à declaração de alguém, o outro não pode ignorar você sem parecer que é incapaz de argumentar de volta. Além do mais, se a ação também for coordenada, ele pode se sentir envergonhado do ponto de vista que defende e calar sobre ele, diminuindo, portanto, a oposição.

Em adição, ao responder a mensagem de alguém que critica seu ponto de vista, você está postando algo publicamente. Outros virão e verão a troca de mensagens públicas e julgarão qual lado tem razão. Por outro lado, se você ataca e é ignorado, esse efeito não acontece, porque uma pessoa tende mais a acreditar numa pessoa que, num debate, destrói o ponto de vista do opositor. Se você é ignorado, não há opositor, não há pessoa com a qual comparar sua opinião, logo ela não é magnificada.

Ação coordenada (“se for contra-atacar, não o faça sozinho”).

Quando muitos atacam ao mesmo tempo, os ataques ocorrem mais rapidamente, cada um é encorajado a atacar com mais intensidade (por se sentir protegido) e é mais difícil apontar o “cabeça”, o “responsável”. Os defensores do estabelecido já têm seus exércitos, mas, se sua argumentação for boa, é como atacar um grande exército com uma arma de destruição em massa. Se várias pessoas atacam um ponto de vista e os proponentes desse ponto de vista não têm argumentação suficiente pra defender esse ponto, quem assiste ao debate e se interessa pela posição divergente se sente tentado a participar, mesmo que não esteja “formalmente” no movimento.

Se você ataca sozinho, principalmente se você for o que começa a briga, está se comportando de maneira suicida, porque o estabelecido consumirá você. Por outro lado, se você for em grupo e for atacado, todos denunciam o que atacou você às autoridades do site onde o ataque ocorreu. Tanto para razões de defesa como de represália, é importante que todos estejam a par das regras do site onde a argumentação está ocorrendo.

Planejamento secreto (“não fale do /b/”).

É importante que o planejamento não seja feito em público, para que os proponentes do estabelecido não se preparem para o que poderia vir de ti. Quando se fala de Internet, isso pode ser feito pela abordagem do fórum. Crie um fórum no qual os participantes podem colocar links para reportagens que defendem o estabelecido. Lá, os outros leitores lêem a reportagem, examinam seus pontos fracos, seleccionam o material que usarão (evidência científica, retórica, humor, outras reportagens, entre outros) e vão comentar na reportagem, em massa. Se quatro forem, já é um bom número, para a quantidade de cliques que uma reportagem recebe por dia. O mesmo pode ser feito para postagens em mídias sociais, como o Facebook ou o Twitter. Um usuário do fórum denuncia o comportamento, os outros verificam o que pode ser feito, vão lá e atacam. Dessa forma, também é possível inflar a quantidade de reações positivas (“curtidas” ou likes) a uma postagem, tornando-a popular e mais fácil de ser encontrada.

Além do fórum, servidores no Discord ou grupos de Skype também poderiam ser usados, dependendo da causa defendida e do número de integrantes. Às vezes até um blog no qual interessados e dono possam discutir nos comentários serve.

Ação pacífica (“ganhe proponentes, não os perca”).

Sempre que você escreve algo pra outra pessoa, na Internet, em público, você deve pensar nas outras pessoas que lerão o que você escreveu, não somente no receptor direto da mensagem. Leve o outro a falar besteira e a colocar sua posição em perigo. Se ele se irritar, não o irrite de propósito, mantenha-se magnânimo, não se deixe levar pelas suas emoções, comporte-se. Se o oponente se atrapalhar, agir emotivamente, atacar você (em vez de seu argumento), deixe-o fazer sem descer ao seu nível. Os outros que estiverem lendo, ao verem que você está se comportando bem, enquanto que o proponente do estabelecido está se comportando de maneira errática, tenderão a não se associar à posição defendida por um lunático, especialmente se sua posição tiver fundação sólida e for simples de compreender. Faça perguntas, leve o oponente a uma situação em que ele tenha que provar que não é um idiota, confronte-o com as contradições de sua posição. Mas sempre faça isso responsivamente e sempre faça isso em grupo.

Se você estiver argumentando, é importante também que o seu oponente não possa fazer nada contra sua pessoa, então nada do que você fizer pode ser ilegal, nem quebrar as diretrizes da comunidade onde o impasse está ocorrendo. Dessa forma, se o oponente fizer algo contra você, dependendo do que é, você terá todo o direito e autoridade de denunciar seu comportamento às autoridades do site. Assim, mesmo que você seja banido sem razão, pelo menos levará o estabelecido junto.

Salto para a realidade.

Outra vantagem da abordagem do fórum ou do grupo oculto é a avaliação do número de indivíduos ativos nessas comunidades. Quando o número de indivíduos ativos for grande o suficiente para a demográfica de um determinado lugar, talvez seja hora de fazer protestos no mundo físico, além de manter os protestos no mundo virtual. Talvez seja o momento de começar a fazer pelo menos os cartazes pra grudar por aí, divulgando a ideia e os links relevantes. Dependendo da causa, reuniões online talvez sejam o único meio possível de juntar essas pessoas, as quais poderão sair em bando depois a fim de fazer protestos iguais em estrutura, mesmo que não em conteúdo, ao radical drag. É preciso construir contingente antes e muitas comunidades hoje estão se formando graças a Internet. Use-a inteligentemente.

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