Analecto

7 de abril de 2018

Eron.

Filed under: Notícias e política — Tags:, , , — Yurinho @ 22:06

Nesta semana, eu me meti numa briga feia no Holocaust21 com um cara chamado Eron. Sua indignação está justificada: eu cometi erros de definição (por exemplo, coloquei no mesmo balaio o movimento dos direitos do homem e o sexualismo masculino) e posei de completo idiota, admito. Mas um ponto em que Eron tocou me deixou um pouco perturbado: ele não acredita na democracia e me censurou por eu ter enviado meu texto sobre estupro de vulnerável para o congresso. Para ele, o caminho correto seria uma ditadura imposta por nós. Eu achei aquilo uma loucura. Mas os eventos ocorridos nos últimos dois dias no Brasil me fizeram reconsiderar.

Lula tem aprovação de quase metade do Brasil. Ele liderou várias pesquisas de intenção de voto, mesmo que sua candidatura fosse incerta, uma vez que ele respondia a processos que poderiam condená-lo em segunda instância, o que efetivamente ocorreu. As provas, ou melhor, o que foi apresentado como prova de seus crimes não me convenceu, mas um monte de políticos que cometeram crimes filmados e com áudio perfeito não sofreram nada, continuam intocáveis. O nosso presidente atual é o maior criminoso em nosso território. Então, não se pode falar que existe democracia no Brasil, pelo menos não no momento. O que existe é uma ditadura formada pela mídia, pelo executivo e pelo judiciário. Aliás, diga-se de passagem, três forças que por vezes brigam entre si. Numa situação dessas, em que uma minoria passa por cima de metade do quinto país em extensão territorial, não se pode mesmo falar de democracia. Pra que eu perdi meu tempo enviando aquele texto? Uma ditadura popular chega mesmo a ser uma possibilidade apetecível. Mas como o povo instaurará uma ditadura sua sem armas? Alguém escreveu que o estado deve se desarmar antes de desarmar a população. Eis a razão. Se tivéssemos armas e meios materiais de rebelião, o Brasil não seria a anarquia que é agora.

Isso também mostra que não há leis de verdade no Brasil. Existe a lei do mais forte e o mais forte é, muitas vezes, o mais rico. De que adianta, quando eu discuto atração por menores, eu dizer que “você deve permanecer dentro da lei” e não quebrar leis de idade de consentimento, quer você seja adulto ou menor com menos de catorze anos? De que adianta você ouvir que não deve roubar ou matar ou traficar drogas? Os nossos governantes são criminosos altamente bem sucedidos e impunes! E você ser inocente não implica que você não pode ser preso, não precisa ser ex-presidente pra ir pra cadeia por uma acusação não suficientemente provada. Não estou dizendo pra você quebrar as leis ou que eu vou quebrar as leis, mas encaremos os fatos: na atual situação, que importa se você é obediente à lei? É tudo tão óbvio, que eu lamento só considerar a situação seriamente depois de ocorrer uma catástrofe. A posição de Eron agora não parece lunática. A atual ditadura que estamos vivendo é muito efetiva e serve bem ao interesse de quem está no poder. Poderia ser nós ali. Imagine se fosse. Não precisa ser o exército, não precisa ser uma ditadura militar, mas que fosse nossa ditadura, uma ditadura popular.

No entanto, não acho isso viável. Como dito, seria necessária uma revolução pra isso e uma revolução pra amanhã não poderia ser feita sem armas. O melhor que podemos fazer é continuar falando a respeito e convencendo os outros, usando as mesmas armas usadas contra nós, se possível: doutrinação, propaganda, retórica, publicidade, não necessariamente a verdade. É uma sugestão cínica. Isso porque ainda somos uma nação capitalista e o que tem valor é o que traz lucro. Opiniões impopulares não são lucrativas, então é preciso que nosso ponto de vista se torne popular, logo, lucrativo o bastante. Em adição, é preciso que o ponto de vista deles se torne impopular e pouco lucrativo, além de performarmos outras disrupções econômicas que poderiam, inclusive, afetar negativamente a nós mesmos. Eu espero que a vida de quem apoiou o a saída da Dilma esteja melhor. Você se arrepende do que fez? Veja aonde nos levou sua busca pela justiça sem limites. Será que sua busca não foi sabotada por alguém?

7 de novembro de 2016

Sobre o movimento estudantil.

Filed under: Notícias e política — Tags:, , — Yurinho @ 19:17

Um certo colunista da Época comparou a Ana Júlia com aquelas pessoas que fazem desmatamento na Amazônia para que outros paguem a conta. Seu argumento é de que o movimento estudantil está prejudicando muitos para obter pouco benefício, pois tanto a medida provisória como a proposta de emenda constitucional contra as quais os estudantes protestam estão avançando a despeito do movimento.
Na verdade, é o contrário: o governo é que faz “desmatamento”, o movimento estudantil é que é a “paga da conta”. A maioria da população é contra tanto a proposta quanto a medida, então os parlamentares que votam a favor dessas medidas votam contra a democracia, a qual deveria zelar pelo desejo da maioria.
Quando o Estado deixa de honrar seus compromissos com os súditos, tampouco os súditos precisam honrar seus compromissos com o Estado. O Estado começou e se o movimento se calasse, nós teríamos que “pagar” uma conta ainda maior. Imagine você, cearense que assiste Cidade 190, Barra Pesada, Os Malas e a Lei, se a proposta de emenda constitucional que limita os gastos públicos fosse aprovada. O que aconteceria conosco? Quem, afinal, está fazendo “desmatamento” aqui? Teríamos que “pagar a conta” com nossa submissão à violência?
O argumento de que o movimento estudantil não dá resultado não se sustenta: a presença da ideologia do movimento ganha espaço no parlamento, com pressões para retirar a medida provisória e voltar ao projeto de lei, que tinha o texto diferente, que vinha sendo debatido há cerca de uma década. De fato, é quase trocar seis por meia-dúzia, mas é alguma coisa.
Aqui, na minha cidade, os alunos estão conformados, o movimento estudantil é zero aqui. Não há escolas ocupadas. Como eu não posso fazer nada, comecei a rezar, pedindo que Deus ajude aos estudantes que lutam pela democracia e pela justiça, debaixo de som alto à noite, porque nosso Deus é Deus de justiça.
Outro ponto da coluna da Época é que a rede particular não adere ao movimento. Mas isso é natural: o Estado deve zelar pelas coisas públicas, apenas secundariamente pelas privadas. Então, se os alunos da rede privada não aderem, fazem bem, embora melhor fariam se aderissem, pois mostrariam que se preocupam. Nada tem a ver colocar a rede de ensino privado na história, como se isso fosse um dado relevante. Aliás, pode até ser, porque com aumento de tempo de estada do aluno na escola, ao passo que os gastos com a educação diminuem, a escola pública se tornará uma opção inviável; com efeito, no ensino de tempo regular, nem todas as escolas têm merenda, então imagine passar sete horas lá. Com o aumento da carga horária, é de se esperar que a mensalidade da rede privada aumente também. Educação não será coisa de rico, mas de muito rico. É o Estado nos traindo.

29 de outubro de 2016

Como eu voto.

Filed under: Notícias e política, Organizações — Tags:, , — Yurinho @ 18:46

Eu sei que a temporada eleitoral já passou. É o quanto eu venho procastinando este texto. Com o estabelecimento do teto para gastos da união e o novo ensino médio, porém, pensei que talvez fosse interessante escrever isto para deixar o recado. Assim, o texto pode se tornar relevante na próxima temporada eleitoral.
Antes que alguém pergunte, eu não gosto nem do teto de gastos nem do novo ensino médio. Mas eu aprendi esses dias que não se deve discutir política, mas votar. Então, eu posso pelo menos falar de como votar, em vez de entrar em detalhes sobre essas coisas. Talvez eu até entre, mas noutra ocasião (afinal, é meu blog, eu escrevo o que eu quiser).

Primeiro, é necessário verificar se esta é uma condição em que a reeleição é possível. Se a reeleição é possível, é necessário verificar se o candidato eleito anterior fez um bom trabalho ou não em seu último mandato. Para avaliar isso, é necessário ter critérios, que são pessoais. É importante frisar o caráter de pessoalidade dos critérios, porque as notícias, sendo facilmente manipuláveis, não constituem critério de avaliação de um governo, senão as consequências sensíveis da administração. Isso quer dizer que eu não devo me perguntar se o governo vai bem no Brasil inteiro ou na maior parte do Brasil, o que requereria buscar informações nos noticiários, mas se o governo vai bem pra mim, tão-somente.

A pessoalidade do voto tem dupla função: afastar o indivíduo de possíveis mentiras e garantir a democracia. Como eu disse, as notícias e a opinião dos outros podem ser manipuladas, corresponder à verdade apenas parcialmente ou simplesmente não ser o que você observa. Então, se expor às opiniões dos outros e às notícias pode servir como meio de levar o indivíduo a ver coisas que não estão lá. Por outro lado, dar esse caráter de pessoalidade ao voto garante uma democracia mais justa: se a maioria das pessoas, em suas experiências pessoais, verifica, através de seus critérios pessoais, que o governo vai mal, essa maioria, pelo poder do voto, motivado por interesses pessoais, retira do governo aquilo que lhe faz mal. Muito se fala que a mídia de massa é manipuladora, mas as pessoas nem por isso encaram o noticiário de maneira crítica. Então, se a televisão tem interesses, ela usará seu aparato mediático para manipular a opinião da maioria, o que não aconteceria se o noticiário não constituísse critério de avaliação política, mas somente a experiência pessoal. A manipulação de massa constitui vantagem desleal e, por extensão, uma perversão da pureza democrática. Um julgamento democrático “puro” requer que o indivíduo vote por ele mesmo. Afinal de contas, se a maioria, por esse processo, reprova ou aprova o sistema estabelecido, a democracia é propriamente feita: é a opinião da maioria falando pela própria maioria, que vê as coisas pelos seus próprios olhos e não pelos olhos dos outros.

Os meus critérios são sempre: educação, saúde e segurança. Se a educação funciona pra mim, então ele (o último candidato eleito que procura reeleição) fez um bom trabalho na educação pra mim. Se a saúde vai bem pra mim, então ele fez um bom trabalho na saúde pra mim. Se a segurança vai bem pra mim, então ele fez um bom trabalho na segurança pra mim. Para determinar se essas coisas vão bem, eu ajo de maneira pragmática: a educação vai bem se eu aprendi satisfatoriamente o que eu queria, a saúde vai bem se eu recebi tratamento satisfatório para minhas doenças, a segurança vai bem se eu não fui vítima de violência. Se as três condições forem preenchidas, então devo reeleger o último candidato eleito. Se as três condições não forem preenchidas, então para onde foi o dinheiro público? Ou foi mal usado ou desviado. Não reeleger. Se ele for bem em apenas um ou dois critérios, devo pesar perdas e ganhos. Se os benefícios cobrirem os malefícios, devo reeleger. Caso contrário, não.

Outras pessoas têm diferentes critérios e isso é importante, pois o governo ideal pra mim não é o governo ideal para outros. Muitos têm como critério a mobilidade urbana, o meio-ambiente, a economia, os empregos, entre outros. É importante que cada um tenha seus critérios, mas ainda mais importante é que esses critérios sejam pessoais e que avaliem a experiência pessoal do cidadão com o governo. Não vote pelo Brasil inteiro; se cada um vota por si, já vota pelo Brasil inteiro, mas, procurando votar segundo a opinião do outro, pode-se acabar votando por uma minoria, o que é o contrário da democracia.

Segundo, caso o candidato que tenta se reeleger falhe nos meus critérios, caso haja vários candidatos dentre os quais escolher ou caso o último candidato eleito não procure ou não possa se reeleger, é necessário pesquisar qual dentre os candidatos disponíveis é mais qualificado. Isso também é feito segundo critérios, que devem também ser pessoais. Em páginas que catalogam candidatos na Internet, é possível ver algumas informações sobre cada candidato: idade, profissão, filiação partidária, “nome de guerra” e ficha criminal por exemplo. Além disso, um bom jeito de obter informações sobre um candidato é ouvindo o que ele tem a dizer, via propaganda política e debates, e o que os outros candidatos dizem dele. Enquanto não é lícito ouvir fontes de terceiros, mesmo quando se dizem imparciais, é lícito ouvir os que estão inseridos na competição. Pela propaganda política e sobretudo pelos debates, eu posso saber quem tem mais chances de preencher os critérios pessoais que não foram preenchidos na etapa anterior.

Antes de julgar seriamente, devemos eliminar do julgamento todos os candidatos que têm nomes políticos jocosos ou propositalmente engraçados, que tenham propagandas políticas que faltam com o decoro, com a seriedade, que façam piada ou que infundem um ar de comédia a um assunto tão sério. O último que fez isso e se deu bem se mostrou uma decepção. O primeiro critério é ficha criminal: um candidato que já cometeu crimes políticos ou que tenham relação com a política local deve ser evitado. Se ele cometeu outros crimes, não políticos e não relacionados à política, é justo lhe dar uma chance. O segundo critério, para desempate do primeiro, é a profissão. Prefiro sempre os candidatos que têm profissões públicas, não por serem melhores ou piores, mas porque, para novos candidatos, me é urgente assegurar que terão preferência pelas coisas públicas: o Estado se ocupa do que é público e apenas secundariamente do que é privado. Assim, eu não iria querer um Estado que descuida das coisas públicas, que são dele, para cuidar das coisas dos outros, embora nem por isso as deva atrapalhar ou destruir. Então, o público deve ter prioridade sobre o privado e profissionais públicos sabem das vicissitudes encontradas em seus ofícios, o que significa que têm clarividência ao menos dos problemas que devem ser enfrentados na coisa pública. Filiação partidária é o critério seguinte, o qual é usado para desempatar caso haja empate no critério anterior. Isso porque filiação partidária não diz muito hoje: com candidatos mudando de partido, às vezes como quem muda de roupa, é possível ver que “ideologia de partido” é um conceito desacreditado. Ainda acontece, é verdade, mas não com frequência a ponto de filiação partidária ser primeiro critério. Eu diria de quais partidos eu gosto se isso não contradissesse o que eu disse no começo sobre não acatar recomendações de candidato de terceiros.

Resumindo, temos o programa de dois casos. Caso 1: reeleição possível. Caso 2: reeleição impossível.

Caso 1: candidato fez bom trabalho em todos os critérios pessoais, reeleger. Se o candidato não fez um bom trabalho em todos os critérios pessoais, verificar perdas e ganhos do último mandato. Se o candidato não fez um bom trabalho em nenhum critério pessoal, não reeleger, seguir para caso 2.

Caso 2: eliminar todos os candidatos que não são sérios. Verificar quais candidatos atendem ao primeiro critério pessoal, eliminar os que não atendem e prosseguir. Verificar quais candidatos dos que sobraram atendem ao segundo critério pessoal, eliminar os que não atendem, prosseguir. Continuar testando todos os candidatos e eliminando aos que não atendem aos critérios pessoais, em ordem do mais importante ao menos importante. Caso faltem critérios e nenhum dos candidatos restou, anule seu voto. Caso faltem critérios e ainda há empate, opte por aquele dentre os restantes que causaria menos dano se eleito. Se ainda assim persistir, tanto faz dentre os que restam.

12 de agosto de 2016

Anotações sobre os “Dois Tratados Sobre o Governo”, de Locke.

Dois Tratados sobre o Governo foi escrito por John Locke. Abaixo, alguns pensamentos parafraseados desse texto.

  1. Se o poder monárquico é de natureza paterna, por que os reis dominam mais que suas famílias?
  2. Se a monarquia é o governo que Deus escolheu para os homens, porque ele não pune as democracias (pelo contrário, as nações mais ricas do mundo frequentemente são democráticas)?
  3. A interpretação mais clara é preferível à mais obscura.
  4. Se queremos provar algo com base em uma fonte textual, não podemos nos pronunciar sobre o que o texto não diz.
  5. Se o poder de começar e terminar guerras só pode residir na mão dos monarcas, então todos os governos do mundo são monárquicos.
  6. É possível comandar sem ser necessariamente rei.
  7. Toda herança implica regras para determinar o herdeiro.
  8. Deus teria deixado regras para determinar a sucessão do poder paterno de Adão se isso fosse importante.
  9. Se isso fosse algo relevante e só os sucessores “legítimos” de Adão pudessem governar alguma coisa, ao passo que não sabemos quem são esses “legítimos” (supondo que não seja todo o mundo, o que já é errado), então nenhum governo é legítimo.
  10. Especular sobre a sucessão do poder patriarcal concedido a Adão não põe nem tira ninguém do trono.
  11. Deixar que seu primogênito suceda seu trono pode até ser tradição, mas é uma tradição idiota se seu primogênito for um babaca.
  12. Qual o sentido de dizer que eu devo obedecer sem dizer a quem obedecer?
  13. E se o pai não tivesse filhos, quem o sucederia num sistema político pautado em primogenitura?
  14. O poder político é um acordo, não um direito natural passado de pai pra filho.
  15. É possível comprar o direito de primogenitura (Génesis 25:31), de forma que o primogênito não receba o que deveria receber.
  16. Se algo é concedido condicionalmente, não é absoluto, óbvio.
  17. Além do mais, se o reino pertence à descendência de Adão, Jesus não poderia ser rei, pois o Verbo já existia antes de Adão.
  18. Se o poder só pode ser herdado por um descendente de Adão, então o poder pode ser herdado por qualquer humano.
  19. A quem pertence o poder?
  20. Se o poder pode ser usurpado, então o poder patriarcal não é inviolável, pois pode ser tomado, mesmo que ilegitimamente.
  21. Existem pessoas que não são nem senhores e nem escravos.
  22. Pai e mãe são os que criam, não necessariamente os que geram.
  23. “Injúria” é ofensa ao direito de alguém.
  24. O direito à herança vem do dever paterno de sustentar os filhos.
  25. A propriedade do pai passa para o filho com a morte do pai porque a sociedade acha isso justo, não porque “é assim que foi e sempre será”.
  26. Não é possível discorrer sobre obediência sem mencionar a quem ela é devida.
  27. Se é a paternidade que nos dá direito absoluto, então o súdito não deve obediência absoluta ao monarca a menos que este seja seu pai.
  28. “Novo nada” é uma novidade que não muda nada.
  29. Os pais devem estar de acordo na criação do filho e, segundo o quinto mandamento, eles têm igual autoridade, de forma que o filho não pode desrespeitar o pai nem se a mãe mandar.
  30. Ambos os pais merecem respeito, não somente a mãe.
  31. Usar versos bíblicos abstraídos do contexto para facilitar seu uso arbitrário é distorcer a palavra divina.
  32. É grave pecado matar, especialmente se for como sacrifício a um deus pagão e muito mais grave se o sacrifício for os filhos (Salmos 106:38).
  33. Atos cometidos pela paixão são extravagantes.
  34. O desejo de proteger o filho leva os pais a extremos.
  35. Deus nos deu capacidade reprodutiva porque ele quer que a humanidade se perpetue.
  36. Outros povos relatam o dilúvio.
  37. O pai e a mãe fazem o corpo do filho, mas quem dá a vida e a razão é Deus, portanto matar alguém é usurpação do direito divino.
  38. Afirmações sem provas podem ser negadas até sem razão.
  39. A submissão de Eva é uma maldição feita contra Eva, não uma vantagem conferida a Adão.
  40. Se Adão fosse mesmo monarca, porque ele deveria trabalhar para comer?
  41. Como Eva pecou primeiro, ela foi submetida a Adão.
  42. Tendo excesso, não ajudar quem tem falta é pecado (Tiago 2:16).
  43. Deus não nos dá o direito de dominar outro a ponto de matá-lo de fome se desejarmos, então não é possível usar a Bíblia Sagrada pra justificar a tirania.
  44. É mais fácil crescer e se multiplicar sem monarquia.
  45. A Terra é de todos os seres humanos, tal como são todos os seus recursos, então temos igual direito à natureza, de forma que não podemos desperdiçar seus recursos (desperdício é tirar de alguém).
  46. Antes de cogitar se a Bíblia está se manifestando por metáforas, verifique se o significado literal faz sentido.
  47. Usar a Bíblia para condenar filósofos é um negócio complicado: muitos filósofos conhecem a Bíblia melhor que a maioria dos religiosos.
  48. Usar a Bíblia como argumentação contra fieis ignorantes permite provar o que quer que o orador queira.
  49. A monarquia humana é um estilo de governo impróprio para o povoamento da Terra inteira (Génesis 1:28).
  50. Nenhum ser humano pode arrogar a Terra para si com base no direito natural.
  51. A posição do filósofo de que nenhum ser humano tem direito natural de governar outro pode ser defendida por Davi (Salmos 8:6), o qual diz que a criação foi posta sob nossos (da humanidade inteira) pés.
  52. Adão e Noé não tinham autoridade sobre outros seres humanos.
  53. Discurso bonito nem sempre está correto.
  54. Possibilidades não são coisas de fato.
  55. Não existe monarca sem súditos.
  56. Dizer que Adão tinha direito de soberania porque fora criado primeiro está incorreto: os animais vieram antes (Génesis 1:25-26).
  57. Adão não submeteu Eva, mas Deus submeteu Eva a Adão por ocasião do pecado original (Génesis 3:16).
  58. Não se esquive da questão que você quer tratar.
  59. Prove tantos pressupostos quanto puder.
  60. Pouco crédito merece o texto que se funda numa suposição.
  61. Abusar dos súditos os leva à rebelião.
  62. Quando você não define algo de maneira clara, acaba definindo o termo pelo seu uso ao longo do discurso.
  63. As leis baixadas pelo governo são menos eficazes do que as leis firmadas entre a própria comunidade.
  64. Se você acusa alguém de não definir os termos do discurso, é bom que você defina os seus pra não passar por hipócrita.
  65. Se nascemos sob a autoridade de nossos pais, quando nos tornamos livres?
  66. Uma das formas de estabelecer um discurso é atacando e destruindo o discurso vigente.
  67. Destruir um discurso pode ser feito de uma vez por todas se seus pressupostos forem destruídos.
  68. Liberdade nem sempre é ausência de governo.
  69. Mesmo que exista um único detentor do direito paterno de Adão, não necessariamente o detentor dessa autoridade, se existir, torna-se governante por virtude dela.
  70. O governo dos hebreus podia muito bem ser aristocrático ou democrático representativo.
  71. O poder político reside nos três poderes: legislativo (faz as leis), executivo (aprova ou rejeita as leis) e judiciário (juízes, advogados, promotores).
  72. O amor entre as pessoas é um incentivo à prática da política: se eu amo o outro e esse outro tem um problema que eu posso resolver, por que eu não resolveria o dele?
  73. Existem comunidades ainda em estado de natureza.
  74. Pessoas diferentes têm capacidades diferentes, de forma que precisamos um do outro pra sobreviver.
  75. Para o filósofo, é preciso que os crimes sejam punidos, porque temos o dever de zelar por tantas pessoas quanto for possível e um criminoso pode causar dano à várias pessoas.
  76. Embora os súditos estejam submissos ao governo, os governos não estão submetidos uns aos outros.
  77. Polemizando com Pascal, o filósofo aponta que existem sociedades tribais que não desenvolveram religião nenhuma.
  78. Só saímos do estado de natureza quando nos filiamos à alguma sociedade.
  79. Querer poder absoluto sobre outra pessoa implica entrar em guerra com ela, se ela preza sua liberdade.
  80. A legítima defesa é um recurso justo de um ponto de vista jurídico, porque, na iminência da morte, sendo a vida um bem que os humanos não podem restituir, o agredido não tem tempo para apelar à lei.
  81. A essência do estado de natureza é a ausência de juiz.
  82. A liberdade natural consiste em não estar sujeito a ninguém.
  83. A liberdade civil é se submeter às leis estatais porque você consentiu com isso, porque viu benefício nisso.
  84. A vida não é nossa, então não podemos concedê-la para outra pessoa, pela via da escravidão.
  85. É normal cair em erros que você mesmo condena.
  86. A minha força de trabalho e meu corpo são propriamente privados.
  87. O que origina o direito à propriedade: o trabalho, o acordo ou os dois?
  88. Se precisássemos de permissão pra apanhar, por exemplo, comida do chão, morreremos no estado de natureza.
  89. A água que corre no rio é de todos, mas a água que eu colocar no meu jarro é minha.
  90. Então, a propriedade privada começa quando alguém se apropria de algo a que antes todos tinham direito.
  91. Não se deve consumir mais que o necessário, ou seja, não podemos tirar, por egoísmo, algo que não vamos usar do domínio comum.
  92. Não observar esse princípio leva à disputas inclusive de terreno.
  93. A posse de terras é obtenível pelo contrato.
  94. A raridade de algo aumenta seu valor.
  95. Em alguns lugares do mundo, o direito que o senhor tem sobre suas terras expira se ele não usá-las de forma construtiva.
  96. Antigamente, a pessoa tinha direito ao que pudesse usar, mas agora, a pessoa tem direito ao que puder pagar, mesmo que nunca use.
  97. O trabalho estabelece a diferença de valor de cada coisa, de forma que algo vale mais quanto mais trabalho der pra fazer.
  98. Terra plantada vale mais que terra bruta.
  99. De todas as coisas que usamos, apenas uma pequena parte vem da natureza sem passar pelo trabalho humano (o ar que respiramos, por exemplo, mas até as frutas que compramos são colhidas, cuidadas, transportadas até nós, para então ser vendidas).
  100. O dinheiro tem mais efeito quanto mais pessoas reconhecerem seu valor.
  101. O que tornou o ouro e a prata medidas de valor entre as nações (como uma espécie de moeda universal) foram três coisas: durabilidade, raridade e dificuldade de falsificação.
  102. Dar pra outro o que você não usa é um melhor do que acumular sem usar.
  103. Melhor que algo se desgaste por abuso, do que por desuso.
  104. O escambo de coisas por ouro acabou tornando o ouro uma moeda conveniente, por sua durabilidade.
  105. A invenção do dinheiro estimulou o ser humano a querer mais que o necessário.
  106. Isso porque o dinheiro permite comprar as posses desejáveis dos outros.
  107. Numa comunidade sem moeda e sem comércio, cada um fica apenas com o que lhe basta, sem gerar excedente de produção.
  108. A existência do dinheiro permite vender o que não está em uso, isto é, o excedente, a fim de obter dinheiro para comprar outra coisa que se venha a querer.
  109. A busca por dinheiro e poder, no fim das contas, é uma busca por segurança.
  110. O domínio dos pais sobre os filhos é temporário.
  111. Se as pessoas pudessem ser mais felizes sem lei, ela desapareceria.
  112. A lei tem por função dar a todos uma quantidade decente de liberdade.
  113. O adulto é aquele que já adquiriu razão e juízo o bastantes para governar sua própria vida, ou seja, por esse ponto de vista, é possível ser adulto antes dos dezoito anos.
  114. Se os pais morrem deixando o filho totalmente só, essa criança passa a ser responsabilidade do Estado, até que este encontre uma nova família para a criança ou até que a criança adquira razão suficiente para conduzir sua vida.
  115. Somos mais livres quando submetidos a leis justas.
  116. Quem não chegar ao nível suficiente de razão nunca será um adulto livre.
  117. O filho deve ser tratado com amor, mas não sem justiça.
  118. Se o pai respeita o filho, será respeitado por ele.
  119. A mãe que não presta assistência ao filho (alimentação, educação e segurança) é uma criminosa.
  120. Os pais devem recompensar o bom comportamento do filho e punir seu mau comportamento.
  121. A recompensa e a punição são excessivas quando redundam em dano para a educação do filho, pois tanto recompensa demais quanto punição demais o estragam.
  122. Se o pai controla o filho como um monarca controla seu povo, põe em risco sua independência futura, porque o filho não saberá se virar sem os pais.
  123. Exigir servidão por serviço prestado é extorsão ou chantagem.
  124. O pai pode dar mais herança ao filho favorito.
  125. “Piedade” é respeito aos pais.
  126. Os pais são os melhores juízes para desavenças entre irmãos.
  127. A primeira sociedade foi entre homem e mulher, depois entre pais e filhos, só então entre cliente e servidor.
  128. Se os pais se divorciam, a mãe não necessariamente fica com os filhos (seria interessante se a guarda dos filhos, em caso de separação, fosse decidida em cartório antes do matrimônio).
  129. O escravo só é tratado como indivíduo de segunda classe porque não tem direito a ter posses.
  130. Minha propriedade: minha vida, minha liberdade, meus bens.
  131. O fim do estado de natureza está condicionado à eleição de um juiz.
  132. Assassinos são inimigos da humanidade inteira.
  133. Em monarquias absolutas, o monarca é frequentemente injusto: pode fazer tudo impunemente.
  134. Os governantes devem estar sob as leis que estabelecem para a população.
  135. Qualquer pessoa que preza por sua vida, liberdade ou bens deveria participar da política.
  136. Qualquer grupo de pessoas pode fundar pequenos governos.
  137. A existência de um governo não afeta a liberdade dos que estão fora dele.
  138. Democracia: a maioria decide pelos demais.
  139. Num governo em que a minoria decide, ocorrem dissensões.
  140. Uma democracia pode concordar em tomar decisões somente quando um certo número de votos além da maioria é atingido, mas não deveria aceitar sugestões de um número de indivíduos que constitui a minoria.
  141. Se não há registro de algo, isso não necessariamente significa que não aconteceu.
  142. O desenvolvimento de habilidades intelectuais só pode surgir em sociedades que já resolveram questões de sobrevivência.
  143. A população escolhe o governante.
  144. Todas as monarquias foram eletivas no começo.
  145. O governo deve ser exercido pela persuasão mais do que pela violência, porque o objetivo do governo é o bem-estar dos súditos.
  146. Em Israel, antes da monarquia, não havia grande diferença entre ser juiz (governar) e ser chefe de guerra.
  147. A constituição de chefe militar muitas vezes marca transição entre estado de natureza e monarquia.
  148. O rei, em Israel, era sobretudo general.
  149. A monarquia é campo de muitas misérias.
  150. Os governos que não se iniciam pelo consenso do povo frequentemente se iniciaram pela violência.
  151. Se nascemos todos sob um governo e por isso não temos liberdade de iniciar outro, como se explica a rebelião?
  152. Você se submete segundo sua necessidade.
  153. Quem viaja não necessariamente é súdito do país para o qual viaja.
  154. As leis para visitantes são reduzidas, mas também seus direitos.
  155. A função do Estado é assegurar a propriedade e o bem comum.
  156. Quando me torno súdito de um Estado, abdico do meu direito de punir os outros.
  157. Quando me torno súdito de um Estado, abdico do meu direito de fazer o que achar necessário para meu próprio bem ou dos outros.
  158. O que faz uma lei ser uma lei é o consenso da sociedade, não a arbitrariedade do governante, ao menos em um regime democrático.
  159. O Estado não pode expropriar nada dos súditos, a menos que estes consintam, uma vez que o trabalho do Estado é também garantir o direito de propriedade privada.
  160. Se o Estado tivesse o direito de tirar propriedades quando quisesse, então, na prática, tudo é do Estado e ninguém tem propriedade privada.
  161. Qualquer causa que envolva expropriação de bens é suspeita.
  162. O pagamento de impostos é necessário, mas deve haver consenso sobre quanto e quais impostos pagar, o que deveria ser feito de maneira democrática.
  163. As leis devem valer para ricos, pobres, famosos e anônimos.
  164. As leis devem destinar-se ao bem público.
  165. As leis não devem sancionar a cobrança de impostos absurdos.
  166. Já que só se fazem leis de tempos em tempos, não há necessidade de legislativo permanente: seria interessante se, depois que terminam de elaborar e votar determinada lei ou conjunto de leis, os legisladores voltassem às suas vidas e outro corpo legislativo, com outros integrantes, fosse convocado para decidir outra lei ou conjunto de leis no futuro.
  167. Embora o legislativo não seja permanente, o executivo precisa ser.
  168. A população deve moldar o legislativo, escolhendo quem entra e quem sai.
  169. Se o Estado não honra seus deveres para com a população, tampouco a população deve honrar seus deveres para com o Estado.
  170. O bem do povo é a suprema lei estatal.
  171. Se um crime é cometido para o bem do povo, deveria ser perdoável.
  172. Se a absolvição de alguém não causará mal a ninguém, que seja absolvido.
  173. Se o interesse do monarca não é o bem público, é um tirano.
  174. Nesse caso, o governante quererá tratar os súditos como servos.
  175. Se o governante quisesse o bem público, a população não iria se importar com o que quer que ele fizesse, mesmo que fosse criminoso.
  176. Se o judiciário é réu, quem julga?
  177. Se o monarca é réu, quem julga?
  178. O pai não é dono do filho.
  179. O poder político, isto é, coletivo, para o bem de todos, é sancionado por pacto entre os integrantes de uma sociedade..
  180. O pai deve ensinar ao filho como usar sua propriedade.
  181. A conquista de território não é início de governo, mas fim de um governo existente.
  182. Os pactos motivados pelo medo são inválidos.
  183. Se um crime é cometido por muitos ainda é um crime.
  184. Se o pai não consegue justiça, o filho talvez consiga, ou talvez a filha, ou talvez a mãe, de forma que o mesmo apelo pode ser feito por todos na família, um de cada vez, até dar certo.
  185. Numa guerra, o crédito da vitória não é só do general.
  186. Os filhos não devem ser culpados pelos crimes dos pais.
  187. Se eu entro em guerra com alguém e venço, só tenho direito àquilo que o outro perdeu.
  188. Desonrar os deveres acarreta perda de direitos.
  189. Deus, sendo sumamente justo, quererá cumprir as promessas que faz.
  190. A conquista é a tomada do governo por um estrangeiro, enquanto que a usurpação é a tomada do governo por um cidadão.
  191. Se não houver critério de escolha do monarca, qualquer um pode ser.
  192. Tirano é político corrupto.
  193. O rei não está acima dos acordos que faz com seus súditos.
  194. Corrupção de governo não ocorre somente na monarquia, mas também nas aristocracias, democracias e relações entre cidadãos.
  195. Se eu recebo herança de meu pai e meu irmão recebe outra parte da herança, eu não posso tomar a parte do meu irmão.
  196. O guarda que abusa de seu poder não é melhor que o rei que abusa do poder dele só porque seu abuso tem menor alcance.
  197. A menos que seja para o bem de todos, a polícia não deveria ter o direito de invadir minha casa.
  198. Se alguém tenta me assassinar, eu não tenho tempo de chamar as autoridades, então resistir é legítima defesa.
  199. O político que atrai a suspeita do povo está lascado.
  200. Há diferença entre dissolução do governo (depor os governantes) e dissolução da sociedade (voltar ao estado de natureza).
  201. É possível a sociedade se dissolver e os governantes não se darem conta.
  202. Guerra e leis inaceitáveis causam dissolução da sociedade.
  203. Não são os nomes ou a reputação dos governantes que faz o governo, mas sim suas ações.
  204. Se um governante entrega o poder a um estrangeiro, acabou com o governo.
  205. A população tem direito de evitar a tirania e de se livrar dela.
  206. Usar a polícia, o dinheiro público ou a concessão de cargos para corromper a política é causa de rebelião.
  207. Alguns políticos são descarados o bastante para deixar transparecer suas intenções maliciosas.
  208. Votar sem levar o debate com a devida seriedade é sinal patente de má intenção.
  209. A população deveria convocar um novo legislativo sempre que sentir vontade.
  210. Se o povo tiver uma boa razão pra odiar o governo a qual está submetido, ele pode, se quiser, se rebelar.
  211. Se o legislativo muda ao sabor do povo, o povo não tem razão de se rebelar: o que quer que saia de ruim é culpa dele apenas.
  212. Usar a força sem autoridade já é entrar em guerra.
  213. Quem aplica golpe contra o governo é culpado de todo o mal que se segue ao golpe, bem como são culpados os que apoiaram o golpe.
  214. Há diferença entre rebelião (ataque) e resistência (defesa).
  215. A resistência não pode se manter pra sempre; a rebelião se faz necessária.
  216. Numa guerra entre povo e governante, um não é superior ao outro.
  217. Se o rei, de caso pensado, quer destruir o povo, deixa de ser rei.
  218. Se o rei passa a ser submisso a outra pessoa, deixa de ser rei.
  219. O juiz do político é o povo.
  220. O povo pode interpretar as leis.

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