Analecto

1 de março de 2018

Anotações sobre “Diagnostic and Statistical Manual”.

Filed under: Livros, Organizações, Saúde e bem-estar — Tags:, — Yurinho @ 22:58

“Diagnostic and Statistical Manual: Mental Disorders” foi escrito pela American Psychiatric Association. Abaixo, algumas afirmações parafraseadas feitas nesse texto.

  1. Havia um tempo em que cada instituição tinha seu próprio manual (um catálogo de doenças, com seus nomes e sintomas, usado para facilitar o diagnóstico), o que dificultava o diálogo entre instituições de saúde, tanto em termos de nomenclatura, quanto em termos de estatística.
  2. A primeira tentativa de escrever um manual unificado que fosse reconhecido em todo o território estadunidense foi o Standard Classified Nomenclature of Diseases, de 1932.
  3. Nomenclatura e estatísticas para desordens mentais estava mais fácil de fazer, então elas ganharam seu próprio manual (com nomenclatura e estatísticas próprias), com seu próprio passo de atualização.
  4. No entanto, quando a segunda guerra mundial estourou, o uso da nomenclatura e diagnóstico padrão desse manual foi praticamente inútil, porque somente dez por cento dos casos de desordem mental apresentados por soldados tinha diagnóstico padrão.
  5. “Personalidade psicopata” era um termo genérico utilizado para descrever todos os traços de personalidade que só se tornavam relevantes em guerra, mas que não posavam problema na vida normal.
  6. A marinha americana e, posteriormente, as outras forças armadas americanas ajudaram na revisão do sistema.
  7. Depois de diferentes revisões com diferentes propósitos, três manuais estavam em uso: o padrão, o das forças armadas e o da administração dos veteranos.
  8. Uma nova revisão era necessária e havia pressão para que ela fosse publicada como a versão “oficial” da Associação Americana de Psiquiatria.
  9. Só então nasceu o DSM-I.
  10. A coleta de estatísticas sobre desordens mentais é de interesse do governo.
  11. Essas estatísticas não poderiam ser colectadas sem o esforço coletivo da Associação Americana de Psiquiatria e o Comitê Nacional de Higiene Mental.
  12. Cada desordem mental pode vir acompanhada de um modificador em sua nomenclatura, atribuído pelo médico, para que outro médico tenha acesso a um diagnóstico mais específico quando o paciente passar para outras mãos.
  13. Esses modificadores são “com reação psicótica”, “com reação neurótica” e “com reação comportamental”.
  14. O DSM também lista desordens mentais de origem biológica (como doenças que começam depois de dano cerebral).
  15. Se um problema cerebral começa devido a uma infecção, o doutor deve escrever o nome da infecção no diagnóstico.
  16. Especificação também é necessária quando o problema tem origem química (a substância, como álcool ou drogas, deve ser especificada).
  17. Especificação também é necessária quando o problema tem origem pessoal (uma experiência traumática, de forma que o doutor deve descrever qual evento desencadeou o problema, que pode ter sido a guerra, a perda de um filho ou violência).
  18. Especificação também é necessária quando o problema tem origem desconhecida (nesse caso, o doutor deve dizer que a causa é desconhecida).
  19. DSM-I usava o termo “mongolismo”.
  20. Substâncias podem causar dano cerebral permanente.
  21. Especificação também é necessária quando o problema tem origem médica (ocorreu em decorrência de uma operação no cérebro, por exemplo).
  22. Problemas cerebrais podem ter origem em choque elétrico.
  23. O mesmo vale pra radiação.
  24. DSM-I usava o termo “desordem maníaca-depressiva” (para o que hoje é “transtorno bipolar”).
  25. Tipos de desordem esquizofrênica:
    1. Simples.
    2. Hebefrênica.
    3. Catatônica.
    4. Paranoide.
    5. Não-diferenciada (que pode ser aguda ou crônica).
    6. Esquizo-afetiva.
    7. Infantil.
    8. Residual.
  26. Um problema mental pode refletir no corpo (somatização).
  27. Ansiedade, depressão, dissociação, conversão, fobia e transtorno obsessivo-compulsivo podem ter origem completamente psicológica, se bem que nem sempre podemos apontar qual é a causa.
  28. Comportamento passivo-agressivo, se for um traço de personalidade, pode ser considerado doença.
  29. Desvio sexual e vício são classificados como desordens de personalidade sociopática.
  30. As revisões de nomenclatura seguem as descobertas científicas da época.
  31. Mesmo que uma desordem mental tenha relação com problemas biológicos, como dano cerebral, o problema biológico deve ser diagnosticado separadamente, ou seja, não cabe ao psicólogo ou psiquiatra diagnosticar um problema biológico.
  32. Nem todos os problemas psicológicos se originam de um cérebro danificado, o que significa que uma pessoa pode ter um problema como depressão apesar de ter um cérebro perfeitamente saudável.
  33. A seção dois introduz um quarto modificador, “com deficiência mental”, que, por sua vez, tem três modificadores menores: leve, mediano e severo.
  34. Deficiência mental pode ser um sintoma de um problema maior.
  35. O DSM-I faz uma ressalva ao dizer que “deficiência mental” é um termo legal, clinicamente vago, mas que usam porque não acharam termo melhor.
  36. “Com deficiência mental” não pode ser diagnóstico primário.
  37. Os três tipos de desordem psicótica: afetiva, esquizofrênica, paranóide.
  38. Uma causa possível é dificuldade de adaptação da mente ao ambiente (tensões interiores e exteriores).
  39. Modificadores psicóticos só podem ser aplicados em casos sintomáticos.
  40. Modificadores neuróticos só podem ser aplicados em casos onde a ansiedade é a sensação prevalente, a qual pode ser sentida ou contida por meio de mecanismos de defesa ou rituais.
  41. Sintomas neuróticos também podem aparecer devido a problemas de adaptação entre mente e ambiente.
  42. Um homossexual pode sentir ansiedade ao sentir desejo e ser proibido de satisfazê-lo.
  43. “Aguda” é uma situação reversível, enquanto que “crônica” é pra sempre.
  44. Não confunda sintoma e doença.
  45. Um problema cerebral crônico pode tanto amenizar quanto pode piorar.
  46. Quando usar o modificador de deficiência mental, certifique-se de incluir o QI do paciente no diagnóstico.
  47. Monóxido de carbono pode causar dano cerebral permanente.
  48. Consumo de álcool também pode causar esse dano.
  49. Diagnóstico diferencial pode ser um desafio.
  50. Por exemplo, nem sempre é possível apontar a diferença entre desordem cerebral crônica associada à arteriosclerose e desordem cerebral crônica associada à senilidade.
  51. Agravado pelo fato de que uma pessoa pode ter os dois problemas.
  52. Convulsões podem ser sinal de sífilis, intoxicação, traumatismo, arteriosclerose ou neoplasma cerebral.
  53. Em “emoções infantis”, a palavra “infantis” está entre aspas…
  54. Algumas doenças cerebrais evoluem a ponto de transformar a pessoa num ser vegetativo.
  55. Transtorno bipolar existe em três sabores: predominantemente maníaco (alegre, saltitante, irritável), predominantemente depressivo (apático, cansado, triste) e “outro tipo” (mista ou circular).
  56. Hipocondria é um tipo de esquizofrenia paranóide.
  57. Sintomas esquizofrênicos podem desaparecer semanas após terem começado, mas frequentemente voltam.
  58. Paranóia se desenvolve devagar, sendo logicamente fundada em uma interpretação errada de algo que realmente aconteceu.
  59. Fora isso, porém, o paranóico é normal.
  60. Paranóia é diferente de “estado paranóide”, porque a paranóia é lógica, embora fundada numa interpretação errada de um fato, enquanto que o estado paranóide tem pouca ou nenhuma lógica.
  61. Uma reação psicofisiológica ocorre quando a mente exagera ou cria estados corporais (por exemplo: os enjôos falsos sentidos por pessoas com emetofobia, as quais, de tão preocupadas que estão em não vomitar, acabam sentindo enjoo sem razão).
  62. É o caso de pessoas que sentem coceira quando assustadas.
  63. Também dos que sentem dor de cabeça quando sentem raiva…
  64. Se a reação é repetida, o corpo sofrerá de verdade (é o caso dos que têm úlcera por estresse).
  65. Ansiedade é um sinal de perigo percebido pela consciência.
  66. O perigo sinalizado vem de dentro.
  67. Uma pessoa pode ou não ter um problema dependendo de como ela lida com a ansiedade.
  68. Ansiedade “comum” é um estado de “expectativa” não associado a nenhum objeto específico, aparentemente, diferente das fobias.
  69. O impulso reprimido que causa a ansiedade pode causar dissociação.
  70. Uma compulsão pode ser vista como mórbida pelo próprio paciente, mas ele não pode evitar e precisa satisfazer a compulsão.
  71. Exemplos: tocar madeira, lavar as mãos, fazer o sinal da cruz várias vezes ao dia, performar tarefas em determinada ordem (é meu caso, admito), entre outros.
  72. Depressão também libera tensão de ansiedade, de forma que a ansiedade pode estar por trás de reações depressivas.
  73. Depressão frequentemente, mas nem sempre, está associada a culpa.
  74. A intensidade da depressão, quando reativa e relacionada a uma perda, dependendo do valor do elemento perdido e das circunstâncias em que a perda ocorreu.
  75. O nome clínico para baixo controle das emoções é “personalidade emocionalmente instável”.
  76. “Passivo-dependente” é a pessoa que desenvolve um apego emocional a uma pessoa que é mais forte ou mais experiente, porque tem a necessidade de uma figura “paterna” que lhe guie.
  77. Viver num ambiente “moralmente anormal” pode levar a pessoa a “patologicamente” questionar valores morais da sociedade que não é “anormal” como aquela em que ele viveu.
  78. O DSM-I lista a homossexualidade, o travestismo, a pedofilia, o fetiche sexual e o sadismo sexual como doenças (lembrando: esse livro foi escrito nos anos cinquenta).
  79. Vício em drogas é um sintoma, não o problema, o que explica porque uma pessoa que se recupera do vício recai ou se vicia em outras coisas.
  80. Bebês podem ter problemas psicológicos relacionados a falta de pessoas que lhe apoiem em sua fraqueza (como os pais).
  81. O grau de sucesso em uma tarefa depende de estabilidade emocional, intelecto, condição física, atitude, motivação, treinamento, mas também de suas desvantagens psiquiátricas (os defeitos limitam as qualidades).
  82. Isso quer dizer que uma pessoa com um problema psiquiátrico moderado, mas que teve bom treinamento e tem bom autocontrole, pode se sair melhor em uma tarefa do que uma pessoa normal, mas mal treinada.
  83. Tem um diagnóstico chamado “personalidade inadequada”.
  84. Tem um diagnóstico chamado “personalidade antissocial” e outro chamado “personalidade associal”.
  85. Algumas condições antes tidas por doenças foram reclassificadas como sintomas.
  86. É possível delirar de cansaço.
  87. “Saudável” também é diagnóstico, indicando que o paciente não precisa ser tratado.
  88. “Crueldade” é um termo suplementar para diagnóstico.
  89. Tal como “desobediência”.

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