Analecto

9 de fevereiro de 2018

O “Críton”, de Platão.

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Este livro foi escrito por Platão. Abaixo, algumas paráfrases desse texto. Elas não necessariamente reflectem minha opinião sobre um dado assunto.

  1. Uma pessoa pode dizer que você realmente é feliz ao ver você tranquilo mesmo quando uma desgraça acontece.
  2. Se a morte é inevitável, só se pode aceitá-la.
  3. As pessoas odeiam quem faz mais caso do dinheiro do que dos amigos.
  4. Apesar disso, você não precisa sempre se importar com o que pensam de você.
  5. Espalhar mentiras sobre alguém pode causar a morte indireta do caluniado.
  6. Se o povo fosse capaz de grandes males, deveria ser também capaz de grandes boas ações.
  7. Maior parte das pessoas não tem senso crítico, parecendo até operar ao acaso.
  8. Um juiz pode ser barato.
  9. Se você não for capaz de sofrer com seus filhos, não tenha filhos.
  10. Se alguém tem uma opinião de você, só aceite essa opinião se você achar que deve.
  11. Sócrates aceitou sua pena porque estava sendo fiel aos seus princípios, foi uma questão de integridade.
  12. Não aceite a opinião de quem sabe menos que você.
  13. Se você aceitar essa opinião, a de quem sabe menos, você pode se arruinar ou morrer.
  14. Não basta viver; se deve viver bem.
  15. Se você não faz nada sem antes se perguntar o que os outros achariam, me pergunto o que você faz.
  16. Se o procedimento injusto é sempre inadmissível, não se deve pagar mal com mal.
  17. Você deve respeito ao dono da nação na qual você nasceu.
  18. Embora você esteja submisso às leis, ainda pode tentar mudá-las por meios lícitos.
  19. Se você não gosta das leis de um lugar, vá para outro.
  20. Se você gosta da sua nação, quererá ajudá-la a melhorar.

27 de dezembro de 2017

Anotações sobre “Assim Falou Zaratustra”.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , — Yurinho @ 21:58

“Assim Falou Zaratustra” foi escrito por Friedrich Nietzsche. Abaixo, algumas afirmações feitas nesse texto. Elas podem ou não coincidir com o que eu penso sobre este assunto. Perguntas sobre minha opinião podem ser feitas nos comentários.

  1. O amor pela humanidade pode isolar você dela, por amá-la demais.
  2. Você pode acabar ajudando outros a dificultar sua vida.
  3. O solitário é visto com suspeita.
  4. Uma pessoa pode se isolar por fanatismo religioso.
  5. É possível que uma pessoa só tenha uma religião por estar desapontada com o gênero humano.
  6. O homem moderno não é o último passo na evolução.
  7. Outras pessoas não estão interessadas em melhorarem a si mesmos.
  8. Se você evoluir, talvez você olhe pra trás e veja que estava agindo tolamente.
  9. Em muitos sentidos, somos piores que macacos.
  10. Não esqueça deste mundo.
  11. A crença de que a alma é empoderada pela submissão do corpo está errada.
  12. Desdenhar do corpo em vez de usá-lo para o próprio bem e o dos outros é sinal de alma fraca.
  13. Pode ser que você se canse da sua felicidade, da sua razão e da sua moral.
  14. Pode a felicidade realmente justificar nossa existência?
  15. A razão não pode conhecer tudo.
  16. O homem é uma corda estendida sobre um abismo, entre o animal e seu próximo estágio evolutivo.
  17. O ser humano precisa ser superado; ele não é ponto de chegada.
  18. Se você não conseguir fazer essa mudança acontecer de uma vez, não deixe de ajuda assim mesmo.
  19. Aja sem esperar agradecimento.
  20. Se você fala de um futuro distante, você não será compreendido por pessoas do aqui e do agora.
  21. A estrela brilhante vem do caos interior.
  22. Trabalho também é distração.
  23. Pensar diferente da massa é se arriscar a ser chamado de lunático.
  24. A alma morre antes do corpo.
  25. Você talvez sinta que não vale a pena viver se não puder viver eternamente, mas concentre-se em viver a vida passageira plenamente.
  26. A vida humana é vazia de sentido, exceto a evolução ao estágio seguinte.
  27. Quando você defender uma ideia controversa e zombarem de você, fique feliz por não te lincharem.
  28. Mas se rirem, continue, se você vê valor nisso.
  29. É melhor falar com seus amigos em vez de falar com a multidão.
  30. Faça seus amigos pensarem diferente e os amigos dos seus amigos acabarão pensando diferente também.
  31. Que o solitário encontre outros solitários.
  32. Animais podem ser menos perigosos que pessoas.
  33. Um objetivo da vida virtuosa: o bom sono.
  34. Pessoas que se preocupam em excesso com suas horas de sono estão esquecendo de permanecer acordadas.
  35. Se você sofre, sente prazer ao esquecer o sofrimento.
  36. Acreditar em outros mundos é loucura; só existe um mundo e é este.
  37. O corpo e a terra merecem respeito.
  38. Viva no mundo real.
  39. “Curem-se, dominem-se, criem um corpo superior!”
  40. O ateu deve ter misericórdia do religioso.
  41. Não inflinja males a si mesmo; cure seu corpo.
  42. Desprezar o corpo é sinal de tendência suicida.
  43. Pode ser também sinal de inveja contra aqueles que têm melhor condição física.
  44. A evolução do ser humano perpassa a evolução do corpo humano.
  45. Virtudes nascem da paixão.
  46. A salvação do sofredor crônico é uma morte rápida.
  47. Todo o mundo tem desejos ilegais ou nojentos.
  48. Os melhores textos foram escritos com o sangue de seus autores.
  49. Só um lutador pode amar a sabedoria.
  50. Há um pouco de loucura no amor e um pouco de razão na loucura.
  51. Somos afetados por forças que não vemos.
  52. Quando você chega ao topo, provavelmente se vê sozinho lá.
  53. Fora que você pode ser atingido por um raio lá encima.
  54. Esse raio frequentemente é alguém melhor que você.
  55. A pessoa que prega que devemos nos desfazer de nossos corpos e que a verdadeira vida começa na morte, provavelmente vê a vida como puro sofrimento.
  56. É estranho que uma pessoa como essa não conclua que seria legal se suicidar ou matar os outros como ato de “misericórdia” ou “amor”.
  57. Esses indivíduos não apenas pregam contra a própria vida, mas também contra a vida dos que virão.
  58. O trabalho nos faz esquecer de nós mesmos.
  59. Não tem sentido em ter paz depois de uma derrota; a paz deve vir pela vitória.
  60. As mulheres jovens querem homens bonitos e meigos, mas nem sempre convém ao homem ser bonito ou meigo.
  61. Seja o melhor possível, mesmo que isso lhe custe a aprovação das mulheres.
  62. Todos os bons guerreiros estão prontos pra morrer.
  63. O estado pode mentir.
  64. O estado não é o povo.
  65. O estado pode ferir leis e costumes.
  66. Um ateu pode obedecer religiosamente ao estado.
  67. O estado pode se por como um ídolo e exigir adoração.
  68. O estado é mantido por pessoas que não fazem diferença na história.
  69. O estado pode matar seu povo de caso pensado.
  70. O estado pode roubar seus bens.
  71. Quanto menos se possui, menos se é possuído.
  72. Humanos precisam evoluir de forma a não precisar de governo.
  73. A pessoa que não sabe debater usará a violência e não aceitará imparcialidade.
  74. Os grandes produtos do espírito humano não são devidamente percebidos pelas pessoas comuns.
  75. Covardes são astutos.
  76. Se algo estimula demais o pensamento, é visto com suspeita.
  77. Uma pessoa pode perdoar seus erros e não perdoar suas qualidades.
  78. Te tratam como vítima pra que você veja suas qualidades como defeitos e seus defeitos como qualidades.
  79. Quando você é bom, acaba cercado de invejosos.
  80. Vá aonde os fracos não vão.
  81. Castidade pode se tornar vício.
  82. Ser casto é uma questão de aptidão, não pode ser imposto aos outros.
  83. O amigo impede o monólogo interminável do solitário.
  84. Formamos amizade com semelhantes, com que temos relação de igualdade.
  85. As variações entre nossos conceitos de bem e mal são um recurso de sobrevivência.
  86. O que é aceitável em outros lugares pode ser tido como repugante aqui.
  87. Uma comunidade já é decadente quando um de seus membros se torna egoísta.
  88. O amor e o ódio estão por trás de todas as virtudes.
  89. Pode ser que você se sinta bem depois de chamar uma pessoa só pra falar bem de você.
  90. Sua autoestima aumenta quando você faz com que outros pensem bem de você.
  91. A solidão é insuportável àqueles que pensam mal de si mesmos.
  92. Um grupo grande pode se sentir tentado a matar pessoas de outros grupos.
  93. Deixe o futuro ser a causa do presente.
  94. Não importe de que se é livre, mas pra quê.
  95. Quanto mais você se dá bem, mais eles te odeiam.
  96. Se o homem é uma criança, então muitas crianças fazem a mulher de brinquedo.
  97. Melhor que humilhar seu inimigo é fazê-lo ver que o ódio dele te fortalece.
  98. Condenar é melhor do que fazer o outro reconhecer o erro quando ele não quer reconhecê-lo.
  99. Antes de ter filhos, se pergunte se pode criá-los.
  100. Se você não pode ser bom pai, você não tem direito de ter filhos.
  101. Um pai fez um bom trabalho quando seu filho o supera.
  102. Casamento deveria ser um acordo feito entre os pais pra criar um filho que superasse os pais, mas o casamento raramente é visto dessa forma.
  103. Alguns casamentos são tão hediondos que alguém pode se perguntar se Deus realmente abençoa o casamento.
  104. Um mau casamento prejudica o filho.
  105. Você nunca sabe com quem está se casando.
  106. Um monte de sentimentos são confudidos com amor.
  107. Depois de casadas, algumas pessoas descobrem que não se amavam.
  108. Às vezes o coração envelhece mais rápido que o cérebro, mas outras vezes é o contrário.
  109. O ouro é tão valioso quanto inútil, como algumas virtudes.
  110. O bem da espécie vem antes do bem do indivíduo.
  111. É difícil a quem ama fechar a mão ao amado quando é preciso fazê-lo.
  112. Quando você recebe uma boa ação de alguém e depois descobre que a boa ação era socialmente inaceitável, você pode passar a sentir vergonha do presente que recebeu, mesmo que dele tenha usufruído.
  113. Nada é imutável.
  114. Não é justo se divertir pouco.
  115. Uma pessoa pode ficar magoada por receber ajuda.
  116. Não poder calar a boca torna difícil a convivência.
  117. Se você não domar seu coração, perderá a cabeça.
  118. Alguém que causa sofrimento pode estar procurando compensação para o próprio sofrimento.
  119. Não queira ser virtuoso esperando pagamento por isso.
  120. Uma pessoa “virtuosa” pode estar agindo por interesse.
  121. A mãe não busca pagamento por amar o filho.
  122. A virtude deve estar em você, não na sua imagem.
  123. Agir virtuosamente pode também ser uma forma dissimulada de obter aprovação pisando nos outros (Lucas 18:9-14).
  124. Agir virtuosamente permite esconder intenções reprováveis que prejudicam sua aceitação por um grupo.
  125. Para alguns, virtude é julgar os outros.
  126. Não há consenso sobre o que “virtude” é.
  127. Não existe boa ação sem algum interesse, se bem que pode ser um bom interesse.
  128. É possível torcer o significado de uma palavra através de constante uso indevido.
  129. Não somos iguais, mas devemos ser tratados com justiça.
  130. Existem intelectuais que só estão lá pra dizer “amém” à ordem social, mesmo quando sabem que a ordem está errada.
  131. Os intelectuais mais honrados em seu tempo são aqueles que validam os preconceitos de um contexto histórico-geográfico, como Kant.
  132. Uma pessoa que pensa diferente irrita a multidão.
  133. A multidão amaldiçoa os homens que acabam sendo os únicos responsáveis por seu avanço, como Galileu foi amaldiçoado por mostrar que todos estavam errados, fora ele.
  134. O povo pensa que sua voz é a de Deus (basta lembrar que o povo queria que Jesus morresse).
  135. A política pode comprar a ciência a fim de validar a moral do governo.
  136. Se a ciência quer progredir, precisa ser amoral, não pode ter medo de rejeição.
  137. Se você tiver que se submeter a alguém, se submeta àquele a quem você seria mais útil.
  138. Filosofia não é poesia, muito menos poesia de má qualidade.
  139. Há crimes mais graves que o assassinato.
  140. Todos os dias são sagrados, não espere “o momento certo” pra fazer qualquer coisa.
  141. Você não poder “querer existir”.
  142. É possível amar algo mais do que a própria vida.
  143. Nossos conceitos de bem e mal não são absolutos.
  144. A vida é guerra de preferências.
  145. Beleza é poder em forma visível.
  146. Você é capaz de todo o tipo de maldade, mas você é exigido a praticar o bem.
  147. É possível rir de medo.
  148. Não repita com seus filhos os erros que seus pais cometeram com você.
  149. Uma pessoa pode estar convicta de que deve ignorar prazeres terrenos, mas suas vísceras nunca serão convencidas disso.
  150. O asceta com pouca força de vontade ficará envergonhado mais vezes.
  151. Desejar algo, mas dizer que a coisa virtuosa a ser feita é não saciar o desejo, pode ser entendido como hipocrisia: você diz que é “virtuoso” só porque sabe que não pode fazer o que deseja, então glorifica sua incapacidade como sendo “a coisa certa” (uvas azedas, implicando que eles não transformariam sua incapacidade em virtude se pudessem ter o que desejam).
  152. Você tem que dizer a verdade aos hipócritas.
  153. Se adultos não te acham sábio, tente a sorte com crianças.
  154. Uma pessoa que fala compliado não necessariamente é um pensador profundo.
  155. Os grandes acontecimentos começam em silêncio.
  156. Igreja é um tipo de estado.
  157. O estado é hipócrita.
  158. O estado se julga a coisa mais importante do mundo.
  159. Quando você diz algo e a pessoa reage violentamente, pode ser porque ela sabe que você tem razão.
  160. Uma pessoa pode estar tão cansada e desmotivada que não tem forças sequer pra sair da cama, pegar uma faca e se matar.
  161. Um vício pode não se desenvolver numa pessoa a menos que ela antes aprenda a correr.
  162. Punição é vingança, frequentemente chamada “justiça”.
  163. Uma pessoa pode falar consigo de um jeito e de outro jeito com os outros.
  164. Não é a altura que assusta, é a possibilidade de queda.
  165. Permanecer puro na multidão é como sair limpo da água suja.
  166. Você não pode dar um veredito absoluto sobre alguém quando você não é capaz de dar um veredito absoluto sobre si próprio.
  167. Ordenar outros a um objetivo pode ser mais difícil do que alcançá-lo sozinho.
  168. Os melhores líderes tem o pudor de uma criança.
  169. Uma pessoa pode ter ideias maduras, mas isso não significa que ela tem maturidade para empregar essas ideias.
  170. Adivinhar (instinto) não é concluir (lógica).
  171. Por vezes você escuta a doutrina do Diabo na boca de um pastor.
  172. O benefício da solidão só pode ser sentido quando você para de chorar a perda dos amigos.
  173. Não corra atrás das mulheres e a felicidade correrá atrás de você.
  174. Nossos conceitos de bem e mal são núvens passageiras.
  175. As pessoas não perdoam quem não sente inveja dos que vivem o modo de vida padrão.
  176. Alguém pode falar de você sem pensar em você.
  177. Se uma pessoa não tem tempo pra você, não perca seu tempo com ela.
  178. Todo o elogio é uma cobrança por mais.
  179. Os que andam devagar podem se tornar um problema aos que querem ir rápido.
  180. Humildade motivada por medo de ser atacado é covardia.
  181. Homens se domesticam entre si, como humanos domesticam cães.
  182. A mediocridade é, por vezes, erroneamente chamada de “moderação”.
  183. Para amar o outro, é preciso ser capaz de amar a si mesmo.
  184. Melhor sofrer do que idolatrar.
  185. Alguns mentem por amor.
  186. O desprezo de alguém pode ser desprezível.
  187. Mude para um lugar onde seu amor seja aceitável.
  188. Há quem reze para se eximir da responsabilidade de agir.
  189. Existem comunidades secretas em todos os lugares, mesmo que não sejam sociedades humanas.
  190. Não dá pra fingir que algo inútil é “profundo”.
  191. Tem diferença entre solidão e abandono.
  192. A voluptuosidade e o desejo de domínio não necessariamente são ruins.
  193. A voluptiosidade só é um mal para ascetas, celibatários e outras pessoas que fogem do prazer.
  194. Para todos os outros, a voluptuosidade é como o vinho: gostasa, saudável, pode ser tomada com parcimônia.
  195. O desejo de dominar está ligado à insatisfação com o aqui e o agora, à rejeição de respostas apressadas.
  196. Não se curve, como um escravo, às opiniões dos outros.
  197. Não tenha vergonha de si mesmo.
  198. A sociedade não quer que as crianças se amem pelo que são.
  199. A vida é difícil porque o ser humano evoluiu nessa direção; estamos pagando o preço de escolhas que nossos ancestrais fizeram (o que não nos escusa da responsabilidade de deixá-lo melhor).
  200. Não aceite tudo, não rejeite tudo.
  201. Os que amam sem dar amor de volta são parasitas em forma humana.
  202. Não é sábio aceitar como presente algo que você pode conseguir sozinho.
  203. Quem não é capaz de mandar a si mesmo deve obedecer.
  204. E há aqueles que sabem mandar, mas não obedecer.
  205. Se você não diz a verdade, não é bom.
  206. A verdade dói.
  207. Bem e mal não são conceitos sólidos para humanos.
  208. A humanidade não trabalha bem com meio-termos; historicamente, ela pende de um extremo a outro.
  209. Se algo deve ser comprado, tem pouco valor.
  210. Não importa de onde você veio, mas pra onde você olha.
  211. Os melhores não são insuperáveis.
  212. Se você está insatisfeito com o mundo, não está escusado de mudá-lo.
  213. Você vive neste mundo.
  214. Novos valores podem estar tão errados quanto os anteriores.
  215. Como pode alguém dizer “estou cansado deste mundo” e ter medo da morte?
  216. Estar “cansado deste mundo” é um estilo de vida na moda.
  217. Não tenha inimigos que não são dignos de ódio.
  218. Hoje em dia, xeretar a vida dos outros faz parte do trabalho do vizinho.
  219. Casamento não deve ser uma decisão tomada às pressas.
  220. Se você não gosta mais da sua mulher, se divorcie, em vez de traí-la em segredo.
  221. Casamento pode ser um inferno.
  222. Admita quando o casamento não dá certo.
  223. Casamento é uma decisão que precisa ser planejada e pensada antes de ser tomada.
  224. Se não puder ter filhos que te superem, é melhor não tê-los.
  225. O ser humano é o animal mais cruel que existe.
  226. Uma pessoa pode ser cruel com outros humanos, mas também consigo própria, como se sentisse prazer em sofrimento autoimposto, vendo uma fonte de orgulho no próprio sofrimento.
  227. A alma não é imortal.
  228. Se eu tiver que viver sozinho com outra pessoa, tenho que aprender a amá-la.
  229. Se uma pessoa te ama por tua sabedoria, ela deixará de te amar se tu ficares burro.
  230. Fazer uma loucura pode ser melhor do que fazer nada.
  231. Coisas aleatórias acontecem.
  232. Se você não vive em sociedade, obviamente não aprenderá normas sociais, das quais muitos querem se livrar.
  233. Nobreza é uma variante dourada dos mesmos arquétipos já existentes na plebe.
  234. A saúde do trabalhador pode ser melhor que a do nobre sedentário.
  235. A classe trabalhadora, se é realmente a melhor, deveria ser soberana.
  236. Classe trabalhadora (camponês) não é o mesmo que classe média.
  237. Um rei pode ainda ser bem visto por causa de sua família.
  238. É uma calamidade quando os homens mais sábios não são os governantes.
  239. Existem pessoas que precisam mentir para continuar vivendo.
  240. Privar um religioso de sua divindade não o liberta.
  241. Os fracos não deveriam ser os únicos a ditar o certo e o errado.
  242. A riqueza não é indicativo de maldade; um rico e um pobre podem ser igualmente perversos.
  243. É possível estar mais seguro na cadeia.
  244. Uma pessoa pode ser tida por sábia sem ser inteligente.
  245. É perigoso ao solitário ir à praça pública sem se preparar antes.
  246. Não adianta falar pra todos se ninguém quer escutar.
  247. O homem normal não acredita que o ser humano possa evoluir.
  248. “Somos todos iguais” se tornou desculpa para o conformismo.
  249. Não se deve pensar meramente na sobrevivência do homem, mas também em como nos tornarmos algo melhor do que somos.
  250. Para alguns, o necessário não é o bastante.
  251. Ser humano não é o ápice; devemos ser mais que humanos.
  252. Existem causas mais valiosas do que a sobrevivência.
  253. É melhor viver do seu jeito do que do jeito que os outros querem que você viva.
  254. Se você tem coração, domine seu medo.
  255. Se você sofre por si mesmo, é um fraco, mas esse não é o caso quando você sofre pela humanidade.
  256. Subjugue o raio que poderia te matar.
  257. Discernimento não é uma virtude popular.
  258. A crença infundada não pode ser destruída pela razão, então apele à emoção.
  259. Pessoas comuns desconfiam da razão.
  260. Não mentir não é o mesmo que amar a verdade.
  261. A fonte da sua virtude é aquilo que você ama.
  262. Não tente ser virtuoso além das suas forças.
  263. Não tente algo que você sabe que dará errado.
  264. Se você não acha motivo de riso na vida, está procurando mal.
  265. Melhor enlouquecer de felicidade do que de tristeza.
  266. Algumas pessoas elogiam a castidade porque castidade lhes dá tesão.
  267. Temos medo de animais, inclusive daquele que vive em nós.
  268. Também é inocência não saber o que é inocência.
  269. A sabedoria pode levar alguém a assumir comportamento anormal.
  270. Aceitar o que a vida tem de bom implica aceitar também a dor que a mesma vida pode te infligir; você não pode escolher ficar só com a parte boa.

25 de dezembro de 2017

Dano psicológico.

Sobre Dano Psicológico

Uma breve resposta a Doobious Wolf.

Escrito por mim para os leitores do Analecto, na esperança de que alguém mostre este texto ao Doobious Wolf.

Resumo.

Em resposta a Doobious Wolf, tento esclarecer por que temos a sensação de dano intrínseco à relações sexuais entre adultos e menores. Acontece que relações entre adulto e menor não seguem padrões de resultado, isto é, não terminam todas da mesma forma e que, portanto, é um mito sustentar que todas as crianças que se relacionaram com adultos sentirão os mesmos efeitos. Em adição, crianças que tiveram essas relações e as descrevem como positivas podem ter uma boa memória convertida em razão de ansiedade pela necessidade de esconder o ocorrido e também pela vergonha que acompanha o ato. No entanto, esse é um fenômeno cultural que não é facilmente observado em sociedades mais liberais como o Brasil ou sociedades indígenas isoladas. Donde decorre que só há dano intrínseco à relações negativas, mas efeitos negativos podem aparecer em pessoas com experiências positivas porque o meio em que vivem rejeita essas relações (vitimização secundária).

Abstract.

In response to Doobious Wolf, I try to clarify why do we feel that there’s intrinsic harm to sexual relationships between adults and minors. What actually happens is that adult-minor relationships don’t follow outcome patterns, that is, they don’t always have the same effect on the minor and, because of that, it’s a myth that all children who had a relationship with an adult will feel the same effects. Plus, children who had those relationships and regard them as positive can still have a positive memory turned into a source of anxiety due to the need to hide and due to the shame that comes with the act. However, that’s a cultural phenomenon that isn’t easily observed in Brazil or isolated indigenous societies. From which we draw that there’s intrinsic harm only to negative relationships, but negative effects may appear on people with positive experiences because their cultural context rejects those relationships (secondary victimization).

O problema.

Num vídeo em que Doobious Wolf, pseudônimo de um usuário do YouTube, dá respostas aos comentários relevantes que recebera, ele resolve responder a um comentário que o inquire sobre sua opinião acerca da tese de vitimização secundária1 de crianças que tiveram relações sexuais com adultos. No comentário, Warz (também pseudônimo) pergunta a Wolf se o dano psicológico não poderia ser minimizado se a sociedade não visse sexo em geral como algo de suprema importância.2 Com efeito, temos muitos tabus sexuais e Warz pergunta se o tabu de relações entre adultos e menores não estaria por trás de muitos traumas ocorridos em decorrência dessas relações.

Doobious Wolf então respondeu que, embora ele concorde que crianças podem ter relações com adultos e não receber dano físico por causa dessas relações, ele não descarta a possibilidade de dano psicológico inerente.3

Antes de tratar essa questão em profundidade, o autor do vídeo demonstra que está disposto a argumentar de forma imparcial sobre o assunto, em vez de condenar a priori a ideia de que leis de idade de consentimento não têm razão de existir (ponto sustentado por Amos Yee). Ele inclusive fez uma pesquisa no sítio da American Psychological Association e listou um número de efeitos decorrentes do abuso sexual infantil, a saber: chupar o dedo, molhar a cama, problemas de sono, desordem alimentar, queda no rendimento escolar, isolamento, agressividade, abuso de álcool, abuso de drogas e ansiedade. Não tiro sua razão quanto a isso, isto é, de que experiências sexuais abusivas são prejudiciais ao menor. No entanto, sabendo que:

  1. Um número grande dessas relações não resulta em dano, inclusive psicológico,4 podendo inclusive serem lembradas como “positivas” e

  2. Um número dessas relações não é forçada,5

Fica patente a utilização errada do termo “abuso” ou “estupro” para descrever todas as relações sexuais engajadas antes da idade de consentimento,6 que é catorze no Brasil. O que tentarei fazer com este curto texto é mostrar evidências e argumentos contra a tese de dano psicológico inerente.

Argumentação.

Ao pesquisar dano a longo prazo em casos de relações sexuais envolvendo pessoas abaixo da idade de consentimento (doravante “menores”), é preciso levar em consideração que um sintoma não está sempre necessariamente ligado a uma causa específica. Por exemplo: uma tosse pode ser sintoma de tuberculose, coqueluche, pneumonia entre outras doenças.

Então, quando uma criança sofre qualquer dos efeitos apontados por Wolf, ela pode os sofrer por outras razões, especialmente se a relação sexual tiver sido pacífica e desejada, por exemplo, um ato libidinoso não-penetrativo, não-violento e não-recíproco.7 Logo, uma relação sexual, especialmente se a relação é tida por positiva pelo menor, não pode ser seguramente apontada como causa de desajuste psicológico na vida adulta.8 Ela pode estar desajustada por outros problemas de infância ou mesmo que só começaram depois de adulto.

Ao pesquisar efeitos de abuso sexual, é preciso procurar por comorbidades e controlar variáveis terceiras, como ambiente familiar, estresse psicológico, pressão escolar, repressão sexual, abuso verbal, abuso físico (chineladas, palmadas, golpes de cinturão) e outros dados que possam ser relevantes.9 Um bom jeito de saber quais variáveis precisam ser controladas antes de oferecer um diagnóstico definitivo seria falando com o menor para saber como ele julga a relação que teve, qual o grau de permissão concedido ou se o menor iniciou o ato. Se a experiência tiver sido negativa, é mais seguro, mas não completamente seguro, concluir que ela é a razão do desajuste. Para concluir definitivamente, seria preciso saber do menor se ele pode fazer a ligação entre o ato e o desajuste. Em suma, o menor deve julgar a relação, não o terapeuta.

Ao não fazer isso, nos arriscamos a um diagnóstico errado e, consequentemente, a um tratamento errado, o que pode causar mais problemas ao menor.10

Uma outra variável a ser considerada seria o tratamento que o menor recebeu por causa de sequelas. Suponhamos que uma criança teve uma relação sexual positiva na infância, não lutou contra ela, a teve por bem-vinda, chegando a pedir por mais, mas depois ela cresce, olha para trás e sente vergonha do seu comportamento, sente que foi abusada e manipulada. Que tipo de tratamento essa pessoa deveria receber? Susan Clancy sugere que o adulto deveria aceitar o que aconteceu e entender que é sua interpretação do ato que está causando o desajuste e que o adulto deve deixar o incidente no passado.11 No entanto, Clancy sofreu perseguição acadêmica e popular, primeiro porque há doutores que praticam terapia sobre o paradigma de abuso de menor, de forma que os dados de Clancy se mostrariam uma perturbação econômica, e segundo porque ela propõe a aceitação de uma memória tida como socialmente hedionda, o que não seria problema se a sociedade não visse esse tipo de relação como tabu.12

É desse tipo de vitimização secundária que Warz está falando: o conflito entre valores morais e experiências pessoais levam a pessoa a se sentir imoral por ter gostado do “abuso” sofrido, transformando uma experiência positiva em causa de ansiedade. Isso dá a impressão de dano psicológico inerente, porque isso significa que sintomas negativos podem aparecer em pessoas com experiências negativas e também em pessoas com experiências positivas. Mas mesmo assim, há um número de relacionamentos entre adultos e menores que são lembrados como positivos e não causam ansiedade ao menor depois que ele cresce.

Isso me leva à outra variável que é o ambiente cultural. Segundo o Relatório Rind, 42% dos meninos e 16% das meninas lembra das experiências sexuais infantis como positivas (contando os quatro tipos genéricos13 e contando relações entre menor e menor),14 mas, num estudo realizado em Campinas, Brasil, o número entre meninos é de 57% (contando apenas um tipo,15 contando somente relações entre adulto e menor).16 Em adição, outras culturas que lidam melhor com a sexualidade infantil, mesmo sendo mais liberais sexualmente, não estão lotadas de adultos traumatizados,17 com alguns sendo bastante pacíficos.18 Então, é preciso verificar se o ambiente cultural também não tem participação na geração de efeitos negativos sobre pessoas que têm experiências positivas. Esses dados também corroboram com o ponto de Warz, de que talvez o tabu (a ideia de que essas relações são erradas, todos esses adultos são monstros, todas essas relações implicam o uso do menor como meio de satisfação e outros preconceitos) tenha um papel na formação de sintomas.

Por último, o fato de o número de experiências positivas nos Estados Unidos (onde a idade de consentimento é, no mínimo, dezesseis) ser baixo, mas alto em outros lugares (a idade de consentimento no Brasil é catorze), mostra que uma alta idade de consentimento não impede essas relações de ocorrerem,19 mas desencoraja adultos responsáveis que poderiam prover um menor de uma experiência que poderia até ser desejada por ele.20 Isso refuta a tese de dano psicológico inerente a todas as relações, mas não refuta a tese de dano inerente à relações forçadas ou negativas, as quais merecem serem chamadas de “abuso”.

Se por um lado o problema do dano psicológico inerente foi resolvido, é preciso tomar precaução quanto a esses efeitos, quando aparecem em crianças que não foram abusadas sexualmente ou que não tiveram nenhum contato sexual, mesmo não-abusivo, mesmo com outras crianças. Se nutrirmos a crença de que esses sintomas são necessários, ao passo que a sociedade parece ignorar voluntariamente outras explicações para os sintomas quando a suspeita de abuso aparece, podemos dar margem à acusações falsas de molestamento. Mas a verdade é que relações na infância não terminam sempre do mesmo jeito,21 tornando inútil a tentativa de fazer uma lista fixa de efeitos a ser aplicada a todas as crianças, especialmente se a experiência foi positiva.

O pânico moral em relação à pedofilia está nos levando a superproteger nossos filhos, causando uma ruptura entre gerações: crianças desconfiam de adultos e adultos fogem de crianças. A privação de afeto entre gerações prejudica os menores, que ficam sem ajuda dos adultos mesmo em casos críticos.22 Na atual conjuntura, uma acusação falsa poderia destruir a vida de uma pessoa.23 Isso desencoraja a interação saudável entre adulto e menor.

Conclusão.

Se existem relações positivas, que resultam em adultos normais, que funcionam tão bem como adultos que não tiveram essas relações, a tese de dano psicológico inerente é falsa. No entanto, uma pessoa com memórias positivas pode ter sua experiência transformada em razão de ansiedade por causa da reação social ao ato, causando sentimentos de vergonha e também de culpa, se o menor tiver iniciado o ato. Mas isso é uma reação do ambiente, portanto o tabu tem um papel no desenvolvimento de efeitos negativos em pessoas com experiências positivas.

Proponho que pessoas com experiências positivas devam ter seu julgamento respeitado, tanto quanto as que tiveram experiências negativas. Com efeito, se a experiência foi positiva, falar de dano não faz sentido; se deve falar de benefício. Estigmatizar uma pessoa com experiências positivas, a fim de fazê-la se sentir mal pelo ocorrido é, também, abuso, porque os efeitos não apareceriam se ninguém tivesse “interpretado” a experiência segundo critérios alheios à pessoa. Isso também explica porque sociedades mais liberais têm menos adultos traumatizados por abuso sexual infantil. A criança com experiências positivas, em contato com uma sociedade que trata essas relações como tabu, passa a sentir vergonha do ocorreu e a esconder o que fez, talvez se vendo forçada a admitir publicamente que o ato foi abusivo, mesmo que seu julgamento contradiga essa posição. Isso não pode ser saudável. A criança com experiências positivas deveria ser capaz de falar sobre elas sem sofrer por isso, tal como aqueles que denunciam casos negativos que lhes aconteceram e recebem apoio emocional.

Por último, isso mostra que leis de idade de consentimento não impedem essas relações de ocorrerem, mas desencoraja pessoas atraídas por menores que são bem-intencionadas, bem como relacionamentos positivos entre dois menores. A idade de consentimento propõe-se a medir a maturidade do menor, mas como? Por que a idade de consentimento varia segundo a cultura local? Porventura crianças amadurecem mais rápido no Japão ou no México, em comparação com Estados Unidos e Reino Unido? Se a idade de consentimento não mede maturidade, então o que ela mede? Se ela é uma categoria legal, não precisa ser incluída num debate psicológico, a menos que estejamos falando também impacto social (como é o caso deste texto). Abstraído o elemento social, seria melhor falar em “maturidade”, não em idade de consentimento.

Como eu não tenho conta no YouTube, não posso mostrar este texto a Doobious Wolf. Então, se você estiver lendo e tiver conta, eu ficaria grato se você mostrasse este texto a ele. No entanto, lembrando que Doobious Wolf é um pseudônimo, então você não deveria lhe mostrar este texto sem antes julgar se é seguro.

Referências.

CARBALLO-DIÉGUEZ, A. ; BALAN, I. ; DOLEZAL, C. ; MELLO, M. B. Recalled Sexual Experiences in Childhood with Older Partners: A Study of Brazilian Men Who Have Sex with Men and Male-to-Female Transgender Persons. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.1007/s10508-011-9748-y>. Acessado em: 12/25/17.

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LISBOA, F. S. Resenha do Filme “A Caça”. Disponível em: <https://psicologiadospsicologos.blogspot.com/2014/08/resenha-do-filme-caca.html>. Acessado em: 25/12/17.

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ZUGER, A. Abusing Not Only Children, but Also Science. Disponível em: <http://www.nytimes.com/2010/01/26/health/26zuger.html>. Acessado em: 25/12/17.

1Vitimização secundária: um tipo de dano psicológico que não é causado por um ato em si, mas pela reação de outros ao ato (no caso, uma criança que se relaciona com um adulto e gosta do que ocorreu, mas acaba sofrendo com a reação dos pais, com o sentimento de vergonha que lhe é imputado, com o exame médico para detectar sinais de abuso ou pela intervenção legal). Ver Paedophilia: the Radical Case. Chapter 3: The ‘Molester’ and His ‘Victim’ ; páginas 42 a 44. https://www.ipce.info/host/radicase/chap03.htm

2Para ver o que outros pesquisadores pensam sobre esta matéria, ver a compilação Society’s stigma of the act may account for a large portion of the harm. https://clresearchblog.wordpress.com/2017/07/08/societys-stigma-of-the-act-may-account-for-a-large-portion-of-the-harm/

3Comment Response Time! (12/07/17). https://www.youtube.com/watch?v=dw5cIBhQ940

4A Meta-Analytic Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Using College Samples. Results ; Self-reported reactions to and effects from CSA ; páginas 36 a 37. https://www.ipce.info/library_3/rbt/metaana.pdf

5Positive Memories: Cases of positive memories of erotic and platonic relationships and contacts of children with adults, as seen from the perspective of the former minor. Boys with women ; BW-10 – Vili Fualaau ;  páginas 118 a 122. https://www.ipce.info/host/rivas/boys_women/vili_fualaau.htm

6A Meta-Analytic Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Using College Samples. Summary and conclusion ;  página 46. https://www.ipce.info/library_3/rbt/metaana.pdf

8A Meta-Analytic Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Using College Samples. Previous literature review ; Qualitative literature reviews ; página 23. https://www.ipce.info/library_3/rbt/metaana.pdf

9A Meta-Analytic Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Using College Samples. The four assumed properties of CSA revisited ; Causality ; página 44. https://www.ipce.info/library_3/rbt/metaana.pdf

10Positive Memories: Cases of positive memories of erotic and platonic relationships and contacts of children with adults, as seen from the perspective of the former minor. Boys with men ; BM-16 – Chris ;  páginas 26 a 32. https://www.ipce.info/host/rivas/boys_men/chris.htm

11Para ser justo, Clancy não acredita que relações entre adultos e menores, mesmo que sejam positivas, devam ser permitidas, porque, a seu ver, uma criança não é capaz de emitir consentimento informado. Mas há quem conteste a noção de consentimento informado. Ver Sex and The Age of Consent: the Ethical Issues. https://www.ipce.info/library/journal-article/sex-and-age-consent-ethical-issues

12Abusing Not Only Children, but Also Science. http://www.nytimes.com/2010/01/26/health/26zuger.html

13Menino/homem, menino/mulher, menina/homem, menina/mulher.

14A Meta-Analytic Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Using College Samples. Results ; Self-reported reactions to and effects from CSA ; página 36. https://www.ipce.info/library_3/rbt/metaana.pdf

15Menino/homem.

16Recalled Sexual Experiences in Childhood with Older Partners: A Study of Brazilian Men Who Have Sex with Men and Male-to-Female Transgender Persons. https://link.springer.com/article/10.1007/s10508-011-9748-y

17Paedophilia: the Radical Case. Chapter 2: Children’s Sexuality: What do We Mean? ; página 22. https://www.ipce.info/host/radicase/chap02.htm

18Body Pleasure and The Origins of Violence. http://violence.de/prescott/bulletin/article.html

19Child Sexual Abuse: Top 5 Countries With the Highest Rates. http://www.ibtimes.co.uk/child-sexual-abuse-top-5-countries-highest-rates-1436162

20No Brasil, uma menina de doze anos pediu sexo a um adulto de vinte e nove. A mãe denunciou, mas se arrependeu e o adulto foi absolvido. Ver Tribunais Absolvem Acusados De Sexo Com Menor Apesar De Nova Lei. http://g1.globo.com/brasil/noticia/2012/05/tribunais-absolvem-acusados-de-sexo-com-menor-apesar-de-nova-lei.html

21A Meta-Analytic Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Using College Samples. Child sexual abuse as construct reconsidered ; página 46. https://www.ipce.info/library_3/rbt/metaana.pdf

22Ipce Newstletter #30. Hysteria is Dangerous: Did Pedophilia Hysteria Cause Child’s Death? https://www.ipce.info/newsletters/newsl_pdf/Ipce%20Newsletter%20E%2030.pdf

23Para ter uma ideia de como, veja o filme A Caça, de 2012. Resenha do Filme “A Caça”. https://psicologiadospsicologos.blogspot.com/2014/08/resenha-do-filme-caca.html

8 de novembro de 2017

A “Carta a Einstein, 1932” de Freud.

“Carta a Einstein, 1932” foi escrita por Freud. Abaixo, algumas afirmações feitas no texto. Elas podem ou não corresponder ao que eu penso sobre o assunto. Perguntas sobre minha opinião podem ser feitas nos comentários.

  1. Um problema de época: é possível um futuro sem guerra?
  2. O avanço tecnológico não é capaz de parar a guerra.
  3. Um físico não tem estudo o bastante sobre o sentimento humano, geralmente, então ele deve procurar um entendido no assunto antes de formar sua opinião.
  4. Einstein escreveu uma carta a Freud pra saber se ele teria uma resposta ao problema, já que Freud estava ganhando fama de especialista em instintos humanos.
  5. Uma resposta imparcial a um problema precisa depender o mínimo possível da política.
  6. Pelo menos para propósitos de paz mundial, deveria haver um legislativo e um judiciário internacionais, compostos pelos líderes de cada nação, mas Einstein admite que isso é superficial: não adianta uma regra perfeita que não será seguida.
  7. Um tribunal pode ter suas decisões anuladas por pressões não relacionadas ao direito.
  8. Um tribunal internacional teria que ser superior às nações que o constituem e, portanto, incontestável.
  9. Um dos obstáculos à ideia é o desejo de poder.
  10. O desejo de poder leva uma nação a se intrometer nos negócios da outra.
  11. Guerra é um negócio, existem empresas disso.
  12. Por que a população não resiste à decisão de entrar em guerra com outra?
  13. Soldados fazem profissão da guerra, mas também apenas acatam as ordens sem pensar se a guerra é necessária.
  14. As pessoas são levadas a crer que a guerra é necessária (mesmo quando não é) porque escolas, mídia e por vezes a igreja são controlados por uma minoria que lucra com a guerra.
  15. É assim que uma minoria manipula pensamentos e emoções.
  16. Como, ainda assim, uma pessoa chega a um grau de furor capaz de morrer por uma causa que não existe?
  17. Ódio e desejo de destruição são inatos ao ser humano, o qual sente prazer em odiar.
  18. Quando uma pessoa descobre como incitar o ódio de alguém, já obteve uma parcela de controle sobre esse alguém.
  19. Será que é possível evoluir de forma a superar permanentemente o ódio? Haverá um tempo em que o ser humano será incapaz de odiar sua própria espécie ou seus conterrâneos?
  20. Os intelectuais também podem ser manipulados pela mídia.
  21. Guerra não é a única forma de ódio. O ódio pode aparecer sob diferentes formas. Mas a guerra ainda é sua manifestação mais drástica e mais cruel.
  22. Einstein estava completamente convicto de que Freud podia responder suas perguntas.
  23. Um mesmo objeto pode ser analisado por mais de uma ciência.
  24. Um cientista pode não saber lidar com questões políticas.
  25. Direito e violência apenas parecem antagônicos; não é possível fazer uma lei valer sem armas.
  26. Humanos são animais.
  27. Quando as armas foram inventadas, a inteligência começou a tomar o lugar da força bruta na resolução de conflito.
  28. A forma mais segura de acabar com a violação do direito é matando os infratores, o que não significa que essa é a melhor forma de lidar com o crime.
  29. Matar um “inimigo” traz prazer ao assassino, por satisfazer seu impulso animal para a morte.
  30. Mas as pessoas por vezes pensam: “melhor torná-lo útil a nós do que matá-lo.”
  31. Pode ser que você poupe um inimigo ao torná-lo útil, mas talvez você sinta medo de uma possível vingança.
  32. Evolução modificou as formas de opressão, mas o mais forte ainda oprime o mais fraco até hoje.
  33. Mais vários fracos podem se juntar pra eliminar um forte.
  34. Quando vários fracos depõem um forte, estabelecem um novo direito em conjunto.
  35. Mas isso também é violência.
  36. Se a comunidade é quebrada, outro forte aparecerá para oprimir.
  37. A fonte de poder de uma comunidade são os sentimentos comuns em cada membro.
  38. Para que uma comunidade possa subsistir, cada indivíduo deve abrir mão de um pouco de sua liberdade pessoal.
  39. Uma comunidade perfeitamente equilibrada é uma ideia apenas.
  40. A comunidade, para ser perfeitamente equilibrada, precisaria eliminar a hierarquia em todas as suas formas.
  41. A menos que a hierarquia deixe de existir, os mais altos nessa hierarquia continuarão ditando leis para os que estão mais abaixo nela.
  42. Além disso, os mais altos na hierarquia podem querer se colocar acima das leis, de forma que as leis que valem para o povo não possam valer para os governantes.
  43. E também tem a justa violência da população que se sente oprimida e que tenta obter sua dignidade de volta.
  44. Nada disso impede a busca por soluções pacíficas.
  45. De um ponto de vista realista, algumas guerras tiveram boas consequências, mas algumas trouxeram só prejuízo à ambas as partes.
  46. A multitude de governos facilita a guerra, de forma que poucos governantes para grandes quantidades de território, obtidas pela anexação, diminuiria a chance de guerra.
  47. Ironicamente, isso quer dizer que paz pode ser trazida depois de uma guerra, na qual o vencedor conquista o território e o povo inimigos.
  48. Difícil é manter o território unido.
  49. Guerras são raras, mas destrutivas.
  50. Se houver uma autoridade central para arbitrar os conflitos entre as nações, pode ser que a guerra seja evitada.
  51. Uma organização do tipo “Nações Unidas” é inútil se ninguém a escutar.
  52. As duas forças que mantém a sociedade unida: violência (lei) e vínculos emocionais.
  53. No entanto, se não houver violência, uma comunidade pode permanecer unida pelos vínculos emocionais.
  54. Nações cristãs podem guerrear entre si, fazendo alianças com nações de outras religiões.
  55. O nacionalismo opera contra a paz entre as nações.
  56. Paz seria mais fácil de obter se o mundo fosse comunista.
  57. Mas estabelecer um comunismo mundial é um objetivo tão distante quanto difícil de alcançar.
  58. Pondo as coisas dessa forma, parece que paz mundial jamais será uma possibilidade.
  59. Só existem dois tipos de impulso: união e agressão.
  60. Nenhum dos dois é fundamentalmente ruim, ambos são necessários à sobrevivência.
  61. Um instinto, como sobrevivência, pode ter uma parcela de cada impulso.
  62. Uma pessoa pode declarar guerra por várias razões, as quais nem sempre são declaradas.
  63. É possível agir agressivamente por causas “nobres”, mas também é possível fingir que se está destruindo por uma boa causa.
  64. O impulso destrutivo é também suicida.
  65. Pelo menos em nossa sociedade, não é possível eliminar a agressividade humana.
  66. Trazer a paz pela violência já é manifestação de agressividade.
  67. Embora não seja possível eliminar a agressividade, é possível controlar suas formas de expressão.
  68. Evitar a guerra requer prática sistemática do amor e o estabelecimento de interesses comuns.
  69. Os governantes devem ser educados sem censura.
  70. Os instintos devem se submeter à razão, o que não implica eliminá-los, mas procurar formas aceitáveis de expressão.
  71. Mas esperar que todos submetam seus instintos à razão é esperar uma utopia; nem todos podem fazer isso.
  72. É mais fácil evitar a guerra pelo exercício do amor e do companheirismo, porque esperar que todos se tornem racionais é loucura.
  73. A guerra pode até se tornar comum, mas não se tornará aceitável.
  74. Isso porque a guerra mata, humilha, nos força a lutar uns contra os outros, destrói nossos bens e nos causa miséria.
  75. Conforme o poder destrutivo cresce, a guerra se torna uma ameaça a todos os seres vivos.
  76. Não vale a pena fazer guerra, mas muitos ainda a vêem como aceitável.
  77. Com o tanto que haja ao menos uma nação que pose um risco às outras, nenhuma nação parará de investir em forças armadas.
  78. Civilização trouxe tanto males quanto benefícios.
  79. Não é possível dizer aonde o processo de civilização nos levará.
  80. A civilização favorece a repressão sexual.
  81. O processo de evolução cultural (civilização) pode muito bem levar o ser humano à extinção.
  82. Sensações agradáveis aos nossos ancestrais são agora intoleráveis ao homem moderno.
  83. Direcionar agressividade para dentro tem consequências boas (você não está machucando ninguém) e ruins (você provavelmente ficará doente).
  84. Apesar de o processo de condicionamento cultural trazer consequências negativas, ao menos ele serve para nos afastar do desejo por guerra.

25 de outubro de 2017

Anotações sobre “Além do bem e do mal ou prelúdio de uma filosofia do futuro”.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , — Yurinho @ 16:13

Além do bem e do mal ou prelúdio de uma filosofia do futuro” foi escrito por Nietzsche. Abaixo, o que aprendi lendo esse livro.

O bem e o mal.

Nem tudo é “bom” ou “ruim”: há áreas cinzentas entre os valores. Antinomia de valores pode muito bem ser só um ponto de vista. Pensadores tradicionais pensam no “sim” e no “não”, esquecendo do “talvez”. Pode até ser que duas coisas aparentemente contrárias sejam duas manifestações da mesma coisa. O fato é que é infantil olhar as coisas usando critérios morais absolutos, porque “moral” é a interpretação subjetiva de um mundo objetivamente amoral. Toda moral é, portanto, uma escolha e não tem existência fora na pessoa, na natureza. Morais universalmente aceitas não existem na Terra. Isso é válido também para além da moral: há graus entre verdadeiro e falso. Uma afirmação pode ser “mais verdadeira” que outra, sem ser totalmente verdadeira, seja porque há mescla de falsidade, seja porque é uma verdade incompleta.

Fazer ciência da moral não é possível, porque moral muda conforme tempo e espaço. Cada tempo pensa que sua moral é melhor do que as anteriores. O modo atual de pensar é melhor que o anterior ou somos levados a pensar assim? Veja o caso dos moralistas: eles odeiam povos indígenas, porque estes mostram uma sociedade que funciona com princípios morais diferentes, considerados “menos refinados”. Seu ódio reflete apenas seu orgulho ferido. A mudança da moral segundo tempo, lugar e pessoa é fatual. Segue-se que não há fundamento seguro para a construção de uma ciência chamada “ética”.

Hipocrisia e moralismo.

O ser humano tem as coisas mais fúteis como as mais importantes. Por causa disso, várias coisas fúteis são tidas como “boas”, mesmo que num nível individual. Um exemplo é o desprezo: quem se despreza ainda se orgulha do desprezo que tem de si mesmo. Quando esse desprezo toma forma de autonegação (o desprezo por si próprio), ele pode adquirir contornos hipócritas. Por exemplo: a pessoa que se esforça pra não sentir emoções. Ora, o desejo de superar uma emoção já é causado por outras emoções.

Um outro exemplo de “futilidade importante” é a ignorância. Para alguns, a ignorância é uma condição de manutenção da vida. É pela ignorância que a sociedade encontra estabilidade e não muda. A ignorância conserva, mesmo que conserve em um estado negativo. É perfeita para aqueles que temem mudar seus hábitos, mesmo que para melhor. Outro exemplo é o desinteresse. Por que uma ação tem que ser desinteressada pra ser boa? Eu não posso agir corretamente motivado por interesse próprio? Nem todas as ações feitas com interesse são erradas. O amor não é desinteressado, mas nem por isso inválido.

Outro exemplo é a mentira. Para algumas pessoas, a mentira é melhor do que a incerteza. Uma informação que te deixa feliz ou que te torna virtuoso pode ainda assim ser falsa. Da mesma forma, uma verdade pode ser desagradável. Então, podemos amar a mentira porque a mentira nos deixa alegres. O peso da realidade faz o sonho nos dominar. A mentira é, portanto, importante para aqueles que constroem suas vidas sobre a mentira. É o caso daqueles que querem dar uma forma de verdade incontestável à sua moral pessoal. Muitos julgamentos morais são arbitrários, mas argumentados de forma a parecerem científicos. É possível justificar um vício transformando-o numa virtude ou incluindo-o numa virtude. Assim, temos a sensação de que certas atitudes são sempre erradas ou “más”, mesmo que tal leitura da realidade não subsista ao escrutínio e tudo seja manipulação da linguagem. Apesar de tudo isso, a verdade se impõe. Felicidade pessoal não é argumento que sustente uma moral que se pretenda universal.

Tais futilidades podem ser usadas contra você. Tome como exemplo a obediência e a abstinência. Todo o mundo quer que você obedeça, mas os mais ricos são os que mais mandam e os que menos obedeceram. A abstinência nos leva a desejar e esse desejo pode ser usado a favor de alguém. Suponhamos, por exemplo, que a mulher de quem você gosta exige que você mude por ela ou ela deixará você. Mudar por amor é provar que a pessoa por quem você muda não te ama pelo que você é, mas pelo que ela pode te tornar. Ela usa a abstinência como arma para explorar você. Então, um lugar em que a “moral vigente” valoriza a obediência e a abstinência pode ser um ambiente que facilite o controle e a exploração de uns pelos outros.

Aceitando a moral como escolha pessoal.

De tanto você se esforçar em ver as coisas de forma distorcida, você não pode mais ver as coisas como são. A realidade moral, dos nossos conceitos de bem e de mal, passa a ser tida como absoluta quando, na realidade, ela varia de cultura pra cultura e até de pessoa pra pessoa. Uma moral pode ser imoral pra outra moral. Há mais morais do que é possível contar nos dedos de duas mãos. Como então superar isso? Se algo tem que morrer, ignore-o: abdique da ideia de que a moral proposta por alguém é universalmente aceita e viva dessa forma. Não deixe que ninguém te diga como ser feliz. Agir dessa forma, porém, não é algo que se faz somente com a própria força de vontade, mas é algo próprio dos fortes. “Basta querer pra conseguir” é um enunciado errado.

Quem pretende superar a moral absoluta tem que estar pronto pra se colocar em grande risco. Quando você começar a agir dessa forma, pode ser que te olhem diferente. Aquilo que você é pode não corresponder à ideia que fazem de você: viver com uma moral própria, pessoal, pode ser visto por aqueles que acreditam em morais absolutas como uma demonstração de desumanidade. Quem age segundo princípios, especialmente os próprios princípios, acaba se distanciando do agir comum, o que faz com que outras pessoas queiram puni-lo. E é aí que entra um dos desafios de mudar de comportamento: a quebra do pertencimento. Se você mudou para melhor e seus amigos não aprovam a mudança, rompa a amizade. Falar é fácil.

No entanto, mesmo depois de aceitar que não há moral objetiva e que toda moral é uma escolha, você não se tornará blindado contra as consequências de seus atos. Mesmo que você mude de comportamento, ainda sofrerá as consequências de um erro passado. Seja capaz de aceitar isso. A dor constrói, o prazer conforma. Quem não tem coração duro na adolescência não o terá na idade adulta. A pessoa amadurece ao enfrentar dificuldades. Quem sofre e sobrevive ao sofrimento acaba se tornando alguém melhor em termos de experiência.

A natureza filosófica.

Um ato consciente não é 100% feito sem instinto: nós pensamos porque queremos ou o pensamento nos vem de súbito? A filosofia, que se propõe a ser racional, por exemplo, se origina também do instinto e o mesmo pode ser dito das ciências, como a física, a qual é um meio de apreender o mundo que nos estimula. Tal instinto é a curiosidade: nos interessamos por fenômenos raros. Logo, praticar filosofia é uma manifestação dos instintos humanos. A marca da filosofia é a dúvida. Mas não é possível duvidar de tudo. Duvidar de tudo nos leva a duvidar de nosso pensamento. O filósofo pode dizer que quer duvidar de “tudo”, mas salvaguardar certas coisas da dúvida, como os princípios de raciocínio com os quais trabalha, uma vez que não é possível conduzir um raciocínio sem pressupostos. Um pressuposto comum é a religião. Tem muito pensamento sério baseado em crenças religiosas, mesmo que o pensador não perceba isso.

Há diferença entre descobrir e inventar, a descoberta sendo a constatação de algo que nos é mostrado pelo mundo e a invenção sendo a realização de uma ideia. Também há diferença entre criar e desenvolver. Existem pessoas que têm boas ideias e existem pessoas que desenvolvem bem as ideias que outros tiveram. Também é assim na filosofia.

Crítica à filosofia.

A filosofia se guia por perguntas. Algumas aberrações filosóficas são produzidas não quando a filosofia conclui de forma errada, mas quando ela pergunta de forma errada. Tais aberrações podem estar gestando antes da pergunta ser feita, quando o filósofo decide colocar coisas claras em dúvida. Então, antes de fazer uma pergunta qualquer, faça uma outra pergunta antes: “eu preciso perguntar isso?” Complicar o óbvio pode ser desejo de chamar atenção. Um filósofo que põe em dúvida o óbvio, então, pode estar sendo motivado pelo desejo por fama. E aí outros caem em sua armadilha e logo o pensamento de muitos se desvirtua. Ainda se crédito à ideias que nunca foram demonstradas e contra as quais se acumulam evidências contrárias.

Além disso, a filosofia muitas vezes trabalha com termos que não foram definidos. Como posso dizer “penso, logo existo” se eu não sei o que é pensar? O que é filosofia? Saber o que é filosofia requer prática de filosofia. Mas como eu vou praticar filosofia sem saber o que ela é? Assim a filosofia precisa ter conceitos claros como instrumentos de sua atividade, ou suas conclusões, mesmo quando não monstruosas, serão vazias. É grave construir algo novo sobre um erro antigo. Então uma filosofia nova que se funda em uma filosofia anterior, que incorre nesse erro conceitual (como é o caso das tradições metafísicas), pode facilmente ser questionada.

Outro problema da filosofia é que, por se fundar em conceitos, ela está invariavelmente sujeita à linguagem e, consequentemente, à gramática. A gramática de um povo influencia a filosofia a ponto de pessoas que raciocinam com gramáticas semelhantes chegarem à conclusões semelhantes. Isso permite que as filosofias de diferentes povos sejam diferentes entre si. Isso prejudica o caráter supostamente universal da filosofia. Claro que isso não significa que todos em um território sempre agem igual: mesmo que tenham princípios iguais, não terão objetivos iguais.

Embora a filosofia seja “amor pela sabedoria”, um filósofo pode ser amigo da sua verdade, que não necessariamente é a verdade de fato. Existem filósofos empenhados em mostrar que não estão errados, mesmo que estejam, porque são vaidosos. Já outros não estão tão a fim de provar a sua verdade, mas a verdade de quem os paga. O filósofo deve sê-lo por predisposição, talento, não por dinheiro (até porque paga muito mal e o campo é restrito) e nem por fama (porque compromisso com a verdade requer defender verdades desagradáveis).

O filósofo por vezes teme a si mesmo. A filosofia que apenas repete os valores de seu tempo e só está interessada em justificá-los é uma filosofia de coleira, digna de pena. Uma pessoa pode ser inteligente e esconder isso, pra pertencer à sociedade. Algumas pessoas sabem que estão certas, mas, temendo as consequências da verdade, se veem desejando que outros não pensem como elas. Assim, mesmo que alguém faça filosofia, pode ser que a faça de forma mais “suave” porque teme as consequências de ideias radicais nas quais acredita. A filosofia feita por alguém revela também seu caráter. Portanto examine-a.

Além disso, a filosofia produz uma multitude de resultados, devido a multitude de métodos, já que a filosofia, não sendo ciência, não tem método unificado. Alguns resultados se contradizem mutuamente. Isso causa ceticismo. O ceticismo, na medida em que tem dúvidas sem propor nada novo, é conservador. Há filósofos que já não mais creem na capacidade da filosofia de explicar o que quer que seja, já que é difícil filósofos entrarem em acordo entre si. Quando os filósofos se desesperam da filosofia, ela perde seu crédito. Já outros usam a filosofia apenas para destruir verdades estabelecidas sem propor nenhum novo entendimento da vida. Destruir uma certeza sem propor novas certezas é doentio. É preciso ter certeza, pelo menos, de si mesmo.

Por último, existem verdades que são percebidas por pessoas comuns, antes de ser percebidas pelos intelectuais, porque fazem parte do contexto comum. Se a filosofia se eximir do contexto comum, será inútil e a sabedoria popular lhe será superior. Apesar disso, mesmo que a filosofia se ocupe da vida comum, pode ser que ela não seja compreendida e seja tida por loucura. As pessoas negam as ideias que não têm maturidade pra compreender, como negam a existência de estrelas cuja luz não nos chegou. Por causa disso, pode ser que suas ideias não sejam entendidas neste século.

A ação correta.

No período helenístico, se costumava dizer que a vida feliz é aquela que se vive segundo a natureza. Se agir segundo a natureza é agir segundo a vida, ninguém precisa dizer a você pra fazer isso; você já está fazendo.

O valor de algo deve ser medido segundo suas consequências. Quando o valor de algo é medido segundo a intenção, em vez de segundo as consequências, então é lícito fazer atrocidades se for “por uma boa causa”. Se algo deve ser motivado pelas consequências que se quer obter, então procurar a verdade sem razão (o chamado “saber pelo saber”) te faz não encontrá-la. Você só procura a verdade se a mentira te incomoda ou porque você espera que sua vida melhore com isso. Além disso, mais que encontrar a verdade, é preciso que a verdade seja útil: atingir um ideal é ultrapassá-lo. Descobrir uma verdade que não serve pra nada é como morrer de sede no meio do mar, água que não se pode beber.

Cada um deve agir visando a felicidade, essa é a consequência que se procura. No entanto, o erro da pessoa feliz é pensar que não perderá a felicidade.

Na busca pela felicidade, nos deparamos com outros que fazem o mesmo por seus próprios meios (já que toda moral é uma escolha pessoal), o que pode causar conflitos e, portanto, ódio. Só é possível sentir ódio de alguém igual ou superior a nós. Por outro lado, algumas pessoas superiores a nós não estão interessadas em nossa destruição. Isso pode ser motivo de desconforto para alguns. Algumas pessoas sentem desconforto ao ser bem tratadas por alguém superior, porque sentem que não podem retribuir.

Crítica à religião.

O catolicismo domina em locais onde a prática tem mais valor do que o puro pensamento, porque o catolicismo condiciona a salvação às boas obras. Na verdade, uma pessoa pode agir mais como católico do que como brasileiro, tal é a ênfase nas obras. É diferente do protestantismo, que condiciona a salvação à fé somente. Se o catolicismo condiciona a salvação às boas obras, você não pode ser salvo somente crendo. O processo pode ser árduo. Ninguém é santo por diversão. Mas aí surge um problema: o mais difícil de fazer não necessariamente é o melhor a se fazer. Imagine se, depois de uma vida de austeridade e ascetismo, você descobre, depois da morte, que a forma que você pensava ser a correta de buscar a salvação era, na verdade, errada. Infelizmente, a crença na vinda vindoura pode tornar uma pessoa mais propensa a não aproveitar a vida presente. E se essa abnegação não compensar no final?

Nenhuma religião é totalmente santa. Existem pastores que estão apenas interessados em ganhar dinheiro e fiéis que vão pra igreja apenas porque não têm o que fazer em casa. Qualquer instituição composta de seres humanos que afirme ser santa, isto é, sem pecado, é automaticamente hipócrita, porque não há quem não peque. Seja no clero, seja entre os leigos, não é possível que todos sejam santos o tempo todo.

Há que se lembrar que a fé varia de pessoa pra pessoa. Se a religião for obrigatória, nem por isso todos crerão. Tem pessoas que são religiosas por “estilo” somente, como se fosse um adorno. Essas pessoas não estão interessadas na salvação, mas em status. Outro problema da religião é o fanatismo. Alguns são tão fanáticos que, no exercício do amor à divindade, se esquecem de amar o próximo. Não se deve amar um só ser em detrimento de todos os outros. Deus mesmo nunca mandou que se fizesse isso. Quem luta contra monstros deve tomar cuidado pra não se tornar também um monstro.

A moral dos senhores e a moral dos escravos.

Há dois tipos de moral: a dos senhores e a dos escravos. Antigamente, uma pessoa bem-sucedida era considerada virtuosa e ela era quem ditava o que era virtude e o que não era, através de seu comportamento. Assim, antigamente, na época da moral dos senhores, virtuoso era o comportamento do vencedor, qualquer que ele fosse. Aquele que luta por uma causa a ponto de os oprimidos se refugiarem sob sua sombra, por proteção, já nasceu senhor. Na moral do senhor, o mau é a insignificância, a necessidade de aprovação dos outros, a impotência, mas é o contrário na moral do dominado. Na moral dos dominados, ou dos escravos, que por inveja criam uma moral oposta à dos senhores, tudo o que é “opressivo”, como a desigualdade, é mau. Provam isso apontando as falhas de seus senhores, mas também sistematicamente negando as qualidades de tais senhores, tais como coragem, sagacidade, compaixão (porque também dominadores são capazes dela) e solidão, esta última sendo a virtude que limpa a pessoa da sujeira contraída pelo convívio com os outros.

Se você estivesse por cima, você pensaria em igualdade? Por isso a igualdade é reivindicada pelos oprimidos: se os oprimidos fossem opressores, não pensariam em igualdade. Mas para que haja essa mudança de paradigma, é preciso que o escravo tome o lugar do senhor ou tenha esse lugar concedido a ele. A emancipação feminina, por exemplo, só foi possível porque as assembleias políticas compostas totalmente por homens deram a elas o direito de votar.

Educação e família.

Se você acredita que o filho repete os erros do pai porque isso é genético, que utilidade você vê na educação? O filho não necessariamente agirá como seu pai. O pai pode ser a pessoa mais virtuosa e, ainda assim, estragar seu filho mimando-o. A criança mimada é viciosa. Tem-se então um pai virtuoso e um filho vicioso. A educação é importante, talvez mais que a genética. Mas a educação precisa ser boa. Uma educação qualquer, por exemplo, também ensina a dissimular e isso não é bom.

21 de setembro de 2017

Anotações sobre o “Crepúsculo dos Ídolos”.

Crepúsculo dos Ídolos foi escrito por Friedrich Nietzsche. Abaixo estão algumas afirmações feitas no livro. Uma afirmação pode ou não coincidir com o que eu penso sobre o assunto.

  1. Defender uma causa controversa requer que o indivíduo se mantenha sereno.

  2. O triunfo requer petulância.

  3. Força em excesso prova força suficiente.

  4. A mentira é mais comum do que a verdade.

  5. Dizem que a falta do que fazer é mãe de todos os vícios.

  6. Às vezes sabemos que algo não é verdade, mas temos medo de nos opor.

  7. Dizer que a verdade é sempre simples é mentir duas vezes.

  8. O que não mata, fortalece.

  9. Se ajude para receber ajuda dos outros.

  10. Não procure adeptos.

  11. A verdade é um atentado ao pudor.

  12. Ou se tem virtude ou se tem vantagens.

  13. Tem coisas que fazemos escondido, mas querendo que outros encontrem.

  14. Não se deve olhar o passado a fim de repetir os erros lá contidos.

  15. Satisfação aumenta a imunidade.

  16. Uma mulher com virtudes masculinas é irresistível, mas uma mulher sem essas virtudes não resiste a nada.

  17. A música nos deixa alegres.

  18. Pense andando.

  19. Existem os que se movem pra resolver o problema, existem os que só olham o problema e existem os que preferem não ver o problema.

  20. É preciso saber o que desejamos e se vale a pena desejar isso.

  21. Passar por cima dos outros é necessário pra progredir.

  22. A filosofia grega, que dizia que viver não vale a pena, mais especificamente a filosofia socrática, era doentia.

  23. Um consenso pode estar errado: pode ser que muitos concordem com uma coisa errada.

  24. Julgar a vida é idiotice; a vida é a vida.

  25. Somos parte da vida.

  26. Quando alguém emite um juízo de valor sobre a vida, sendo que ele próprio faz parte da vida, está pirado.

  27. Um sábio que julga a vida está se pondo acima dela, como juiz, o que prova que ele não é assim tão sábio.

  28. Para enfurecer um adversário e colocá-lo contra a parede, ponha-o numa situação em que ele tem que provar que não é um idiota.

  29. A feiúra de Sócrates podia muito bem ser um reflexo de sua má saúde, ajudada pelo excesso de controle sobre os próprios instintos.

  30. Se os instintos podem nos tiranizar, a razão pode nos tiranizar também.

  31. Uma pessoa pode ter que se forçar a ser racional.

  32. A doença do grego: excesso de razão.

  33. Por causa desse excesso de razão, o ato de satisfazer os instintos passou a ser visto como demonstração de fraqueza e não necessariamente o é.

  34. Quando a dialética abala a autoridade vigente, as pessoas esperam do dialético uma solução para o problema que ele próprio criou, o que lhe dá autoridade pra dizer o que a massa deve fazer.

  35. O ascetismo dessas morais é procurado como meio de salvação, mas essa vida clara, comedida, fria, prudente… nem sempre traz a felicidade que promete.

  36. Numa vida saudável, felicidade e instinto são a mesma coisa.

  37. Filósofos erram, pois não consideram o conceito como construção, como submisso às vicissitudes da história.

  38. A filosofia tradicional vê o devir como problemático.

  39. O ser imutável não encontra fundamento empírico mas os filósofos (falando aqui apenas dos platônicos, penso) querem que ele exista, o que os leva a admitir que o devir é ilusório e que o ser imutável é objeto de especulação.

  40. Os sentidos não mentem.

  41. O que acontece é que os sentidos nos dão uma informação imparcial, mas nossa interpretação dessa informação que pode estar errada.

  42. A filosofia tradicional parte do universal pra explicar o singular.

  43. Lógica não é sinal irrefutável de razão: algo pode fazer sentido e estar errado.

  44. Não é possível demonstrar que o mundo não é como parece ser, isto é, como nossos sentidos o captam.

  45. Uma ideia pode levar milênios para ser superada, mas ela é superada quando acaba não servindo mais pra nada.

  46. A moral pode se manifestar contra a natureza.

  47. As paixões podem trabalhar a favor da razão.

  48. Alguém que combate a ciência não luta inteligentemente contra nenhum inimigo.

  49. A moral tradicional prefere suprimir o desejo sexual, por exemplo, em vez de se perguntar como esse desejo poderia ser usado de forma construtiva.

  50. Se a paixão é uma expressão da vida, atacá-la é atacar a vida.

  51. Quem faz guerra contra os próprios desejos é quem não é capaz de usá-los a seu favor.

  52. Guerrear contra os desejos revela fraqueza de espírito: você mata o desejo porque não tolera sua sedução.

  53. O estabelecido precisa de oponentes.

  54. Uma moral que não tem como objetivo a preservação da vida é doentia.

  55. Qualquer moral que não tenha a vida como objetivo é decadente.

  56. Um humano não pode dizer como o ser humano deve ser.

  57. Quando uma pessoa diz “seja assim”, normalmente está dizendo, mesmo que não saiba, “seja como eu”.

  58. O maior vacilo que a razão pode cometer é confundir causa e efeito.

  59. A moral e a religião cometem esse vacilo constantemente.

  60. Não se pode fazer generalizações com base em um só exemplo.

  61. Não coma muito, nem coma pouco; coma o suficiente.

  62. Se eu sou virtuoso, farei o bem, mas fazer o bem não me torna virtuoso.

  63. Vício e luxo não são a causa da decadência humana, mas sinais dessa decadência.

  64. Outro vacilo: assumir causalidade onde ela não existe.

  65. Outro vacilo: imaginar causas que não existem.

  66. Outro vacilo: fingir que já se conhece o que é, na verdade, desconhecido.

  67. Se permitimos uma dor se apoderar de nós, é porque reconhecemos que a merecemos, mesmo quando não a merecemos de fato.

  68. Movimento peristáltico, como uma bela digestão, pode ser confundido com tranquilidade de espírito.

  69. Não temos razão de existir.

  70. Não há “fim”, isto é, objetivo.

  71. Moral não prova nada.

  72. O juízo moral crê numa realidade que não existe.

  73. Moral é interpretação e interpretações são pessoais.

  74. Moral é relativa.

  75. É possível falar uma coisa sem compreender as próprias palavras.

  76. Uma pessoa que não sabe o que a moral realmente é não pode tirar fruto dela.

  77. “Moral” é uma tentativa de melhorar o ser humano.

  78. Mais fácil melhorar o gênero humano pela ciência.

  79. Domesticar um animal é adoecê-lo, ao fazê-lo agir de uma forma não estipulada pela natureza.

  80. Quando se quer enfraquecer alguém, adoeça-o.

  81. Um número de processos de eugenia foram religiosamente sancionados.

  82. O Evangelho é contra o arianismo, é contra os valores de raça pura e dominante.

  83. A educação pode matar o gênio.

  84. Política e ciência são coisas diferentes.

  85. As épocas de maior avanço em termos filosóficos e científicos foram épocas de crise política.

  86. Nenhuma escola ensina a pensar.

  87. Não há mais disciplina que ensine lógica.

  88. Infelizmente, a ciência faz parte da democracia.

  89. Faz sentido um ateu moralista?

  90. Não se faz arte sem estar embriagado, mesmo que não de álcool.

  91. É possível estar embriagado de tesão.

  92. É possível estar embriagado de sonho.

  93. A sensação de força e de plenitude é o que torna a embriaguez uma fonte de inspiração artística.

  94. A embriaguez de Apolo nos leva a pintar, esculpir e descrever, mas embriaguez dionisíaca nos leva a compor, tocar e dançar.

  95. Existem ateus que querem deixar de ser ateus.

  96. Só é possível ter espírito (circunspeção, paciência, astúcia, mentira e domínio) na necessidade dele.

  97. Algumas vezes, imparcialidade é manifestação de arrogância.

  98. A filosofia de Kant é desonesta.

  99. As maiores tragédias só acontecem com as pessoas mais ilustres.

  100. Sempre seguir as regras da sociedade acaba comprometendo a pessoa.

  101. A mãe da filosofia é a atração por menores.

  102. Praticar arte só por fazer é lutar contra a moral.

  103. O objetivo do ensino superior é transformar um homem numa máquina estatal kantiana, ensinando-o, através da moral, a ter ódio de si próprio.

  104. De vez em quando, faça arte sem método.

  105. O gênio consome energia e trabalha sob pressão e arruinará sua saúde se não der uma pausa pra mexer o corpo.

  106. Mais vale um homem real do que um ideal.

  107. Doenças são sinal de decadência não causas de decadência.

  108. O anarquista culpa a sociedade e o cristão culpa a si mesmo.

  109. O socialista faz da revolução sua vingança e o cristão, muitas vezes, faz do juízo final sua vingança.

  110. Não é possível agir sem interesse.

  111. Ser totalmente altruísta, isto é, nunca pensar em si, é fórmula de suicídio.

  112. Melhor você negar seu valor do que o valor da vida.

  113. O doente terminal deveria ter direito de se matar, se quisesse.

  114. Se a pessoa perdeu a dignidade de viver, permita-a morrer dignamente.

  115. Todas as épocas se julgam no ápice da realização moral.

  116. Uma moral muito restritiva vem de um povo mais fraco e delicado, que “não suporta” certas coisas.

  117. O valor de uma moral vem de sua serventia.

  118. Nossa sociedade detesta correr riscos.

  119. Alguém que zela pela liberdade não pode se vender.

  120. Você só pode ser forte se precisar sê-lo.

  121. Pra quê serve o casamento hoje?

  122. A moral kantiana nada mais foi do que a validação dos costumes de sua época.

  123. O sacrifício heróico é o ato que desconsidera a sobrevivência do praticante em nome de uma causa maior que sua própria vida.

  124. O criminoso é um homem forte que nasceu numa época que não compreende sua força.

  125. Antes de ganhar notoriedade, todos os gênios são odiados por seu tempo.

  126. Educar sentimentos e pensamentos não te torna belo, mas educar o corpo torna.

  127. A realidade está nos acontecimentos verdadeiros do mundo, não na nossa cabeça e nem na nossa moral.

  128. Não existe mudança sem sacrifício.

6 de setembro de 2017

Anotações sobre o nascimento da tragédia.

Filed under: Livros, Música, Passatempos — Tags:, , , — Yurinho @ 16:15
  1. A tragédia nasce do espírito da música, diz o autor.

  2. Por que os gregos tinham necessidade do gênero trágico, eles que eram tão felizes?

  3. Pessimismo não é sinal seguro de declínio.

  4. Foi Sócrates quem matou a tragédia grega. A razão descreditou a tragédia.

  5. A racionalidade pode ser sinal mais seguro de declínio do que o pessimismo.

  6. A ciência é questionável. Infelizmente, ela pode ser questionada erroneamente também.

  7. A ciência não pode pensar a si mesma. Esse é o trabalho pra arte ou pra filosofia. Nietzsche prefere a arte.

  8. A tarefa do livro é ver a ciência sob a ótica do artista.

  9. É possível ser tão lúcido a ponto de ficar louco? Sim, é possível.

  10. O cristianismo, pelo ódio ao mundo, leva o cristão a fechar os olhos aos prazeres desta vida em prol de vagas promessas, diz o autor. Importante lembrar que se trata do cristianismo mais tradicional. O judaísmo não tem, por exemplo, um “céu” pra onde as almas vão. Para os judeus, só há um mundo onde humanos podem viver: este. É o mesmo com as testemunhas de Jeová. Essa crítica de Nietzsche só se sustenta no cristianismo que afirma a existência de dois mundos.

  11. Para o cristão, esta vida é sem sentido. Nietzsche vê nisso um sintoma de grave doença.

  12. A moral, diz Nietzsche, é o começo do fim.

  13. Uma filosofia que afirma o valor deste mundo em detrimento do outro mundo cristão é uma filosofia anticristã. Só que hoje, com o movimento cristão alternativo ganhando força, existe um cristianismo que afirma só um mundo. Então, Nietzsche já não é mais tão anticristão como costumava ser no seu século.

  14. O espírito trágico, diz Schopenhauer, não vê neste mundo nenhuma razão de apego. Assim, ele conduz o indivíduo à resignação. Nietzsche discorda. Pra Nietzsche, o espírito trágico não traz nenhuma resignação.

  15. Pra alguns, é melhor que nada seja verdade do que o inimigo ter razão de alguma coisa. Esse pessoal frequentemente se dirige e seduz os jovens.

  16. Não adianta ouvir de ouvidos tampados.

  17. O consolo do cristão é a vida futura. O consolo do ateu é o riso mundano, diz o autor. No entanto, o cristão pode se consolar de ambas as formas, já que essa vida futura pode estar bem longe. Ou não (Mateus 24:36).

  18. A arte plástica e a arte musical nascem desse confronto entre o dionisíaco e o apolíneo. O impulso dionisíaco produz a música e, no seu combate com o apolíneo, é estimulado a produzir mais música. O impulso apolíneo produz artes plásticas, como a escultura, da mesma forma que Dionísio produz música. Mas a tragédia ocorre quando os dois estão juntos, lado a lado, o que não necessariamente quer dizer que eles estão em concórdia.

  19. Apolo e Dionísio são relacionados aos dois estados de inspiração do artista: Apolo é o sonho, Dionísio é a embriaguez. Isso porque Dionísio é também o deus grego do porre.

  20. Dizem os antigos que os deuses apareciam em sonhos, nos dando uma ideia de como eles eram em aparência. Aí o pessoal esculpia eles. E é quando estamos bêbados que mais dançamos. Festa sem álcool não existe.

  21. Para alguns poetas, a poesia é a arte de interpretar sonhos.

  22. Não é possível praticar artes plásticas sem imaginar a cena a ser representada antes de começar, diz o autor. Isso não é verdade; eu sei, por experiência própria, quando desenho, que a cena pode ser imaginada conforme a representação progride. Não há necessidade de ter uma cena completa em mente antes de começar. É como desenhar por associação livre, um jogo de perguntas e respostas entre você e o papel.

  23. A sensação de que o mundo físico é falso é sinal de aptidão para a filosofia. Porque a filosofia diz que as coisas não são como parecem.

  24. Tem sonhos mais reais que a realidade. Se você não acordasse, nunca iria saber.

  25. Para desespero de Descartes, sim, existem casos em que um sonho continua o outro. Como saber se estou acordado agora, então? Porque, pra Descartes, a única diferença entre sonho e vigília é que um sonho não continua o outro, mas um dia no mundo real continua o dia anterior. Se um sonho pode continuar o sonho da noite anterior, como é que eu vou poder diferenciar com segurança?

  26. Viver sóbrio, mesmo que torne a vida mais longa, torna a vida mais chata. A pessoa que não se permite um excesso, que é excessivamente controlada e comedida (tipo eu), tem uma longa vida chata, em comparação com a curta vida louca do bêbado festeiro, que ao menos o faz feliz.

  27. Tomar um porre de vez em quando não necessariamente é ruim.

  28. O porre é a concretização da instrumentalidade humana.

  29. Nem todas as festas são dionisíacas. Nem todo o sátiro é Dionísio. Existem festas em que a pessoa se embebeda e produz arte. Mas existem festas em que a pessoa se embebeda e vira um animal.

  30. Tem gente que preferia não ter nascido.

  31. O sofrimento é necessário à arte, porque nos permite imaginar como as coisas poderiam ser diferentes. Assim, a arte que consola vem da realidade opressiva.

  32. Às vezes é preciso estar bêbado pra dizer a verdade.

  33. A música representa, à sua maneira, os mesmos objetos que a arte plástica, mas sem mostrá-los. É como quando você nomina um tema: “Ambiente Aquático”, “Louco Dançarino”, “Exodia”, são todas músicas sem letra, mas que representam alguma coisa por similitude, isto é, sem mostrar o objeto a que se reportam. Existem exceções, como músicas com letra e músicas cujo nome tão somente se refere às técnicas usadas (“Prelúdio e Fuga em A-Menor”, pra dizer que a música usou a técnica de prelúdio, a técnica de fuga e é tocada em a-menor).

  34. A poesia imita a música. Mas palavras não podem imitar o simbolismo universal da música, que se dirige ao coração, em um nível mais penetrante que o da palavra.

  35. Ninguém sabe exatamente como a tragédia grega começou, mas porque ninguém se importou em sequer fazer a pergunta com seriedade.

  36. Para que a arte funcione, precisa ser reconhecida como arte e não como realidade. É o que Kant diz do sublime, de certa forma, quando afirma que o sublime só pode ser apreciado sem perigo real.

  37. Não existe plateia sem show.

  38. A comédia é a “descarga artística da náusea do absurdo”. É tão doido que chega a ser engraçado. E porque é engraçado que é tolerável.

  39. Para Nietzsche, o sátiro é superior ao ser humano, por viver a realidade inteira com toda a sua intensidade. A civilidade impede o ser humano de fazer o mesmo.

  40. O poeta quer retratar a realidade, mas como, se ele não a viver?

  41. Na tragédia, Dionísio é representado pelo coro, enquanto que Apolo é representado pela cena. Som e imagem se juntam, embora não se misturem, num espetáculo com todos os elementos de um e de outro.

  42. Uma pessoa sábia ainda pode errar e se tornar miserável. Paralelo com Salomão.

  43. Alguém escreveu: “um sábio mago só pode nascer de um incesto.” Isso porque magos não são seres naturais, mas que resistem à natureza, ao passo que o parecer da época era de que incesto é algo antinatural.

  44. A sabedoria humana foi um acidente. Para o autor, ela não é natural. Pra mim, se ela é acidental, é um feliz acidente.

  45. O princípio do mal é a individuação. Não poderíamos fazer mal um ao outro se fôssemos um só.

  46. A música atinge todo o seu potencial na tragédia. Caso você ainda não tenha percebido, “tragédia”, aqui, é o gênero de teatro.

  47. Para Nietzsche, as religiões começam a morrer com a ortodoxia. Quando você faz um cânon oficial, descartando tudo o mais como mito, você impede a depuração e revitalização da religião. Então, como o cristianismo subsiste? Porque, verdade seja dita, não existe ortodoxia no crisitianismo… Existe uma Bíblia Sagrada, é verdade, mas não há interpretação oficial fora da Igreja Católica. Por exemplo, o Protestantismo encoraja cada cristão a ter sua interpretação da Bíblia. Como é possível uma ortodoxia assim? Nietzsche, contudo, fala de cânon histórico, mas o fenômeno cristão mostra que é possível que uma religião subsista com cânon histórico, desde que não haja cânon doutrinário. Se houvesse uma só interpreação da Bíblia, o cristianismo seria destruído quando essa interpreação fosse descreditada, mas o que se observa é que, quando uma interpretação cai, duas aparecem no lugar.

  48. A tragédia grega morreu de suicídio. Trágico.

  49. O suicídio da tragédia ocorreu quando Eurípides começou a escrever tragédias em que o destino poderia ter sido evitado. Isso fez com que a população, que antes encarava o destino com indiferença (“qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento, então é inútil me preocupar”), passou viver em estado de alerta (“qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento, mas eu posso evitar, então devo me preocupar o tempo todo”). A tragédia, que antes promovia a aceitação da vida, passou a promover a sua negação. Não é a vida como é que importa, mas como ela deveria ser.

  50. A tragédia foi sucedida por outro gênero que melhor atendia às pessoas que agora pensavam dessa forma: a nova comédia.

  51. O valor formativo do trabalho de Eurípides o tornava requisitado. Não se ia mais ao teatro pra sofrer com os personagens, mas pra aprender.

  52. Antes, era possível encarar a miséria humana com indiferença, mas agora ela era temida.

  53. A única crítica que o arrogante escuta é a dele próprio.

  54. Derrotar um gênero artístico requer a prática desse gênero.

  55. Eurípedes arruinou o gênero trágico por causa de Sócrates! Parece que foram contemporâneos. Como Eurípedes não gostava da atual forma da tragédia grega, ele começou a conversar com Sócrates, que também não assitia as tragédias. Foi pela influência socrática que Eurípedes concebeu sua interpretação da tragédia, a qual ele levou a efeito.

  56. Quando Eurípedes percebeu que estava destruindo o gênero trágico, ele tentou fazer uma peça nos moldes da tragédia tradicional, mas já era tarde demais. Destruir e depois pedir desculpas não conserta o que foi destruído. Além do mais, considerando que Eurípedes não entendia a tragédia tradicional e passou sua vida discordando dos mestres, não duvido que sua retratação tenha sido uma porcaria de peça.

  57. Eurípedes removeu o elemento dionisíaco das suas tragédias, ao passo que nunca conseguiu chegar totalmente ao apolíneo. Havia um vazio em suas peças que precisava ser preenchido. Ele preencheu com ajuda de Sócrates. Com filosofia.

  58. A tragédia euripidiana conta o final da peça já no prólogo.

  59. Uma peça que estimula a pensar é uma peça que desencoraja a sentir. Tudo bem você refletir depois sobre a peça, mas é contraprodutivo estimular essa reflexão durante a peça. Durante a peça, você deveria assistir.

  60. Se Sócrates não era artista, como é que Eurípides deixava Sócrates ajudar?

  61. A poesia é a verdade para idiotas. Porque algumas pessoas só entendem a verdade através da arte, não pelo discurso científico.

  62. Platão ia ser poeta, se não tivesse se encontrado com Sócrates e virado filósofo.

  63. O romance é uma fábula intensa.

  64. A influência socrática sobre Eurípedes deu à luz “tragédias” que enfatizavam a ligação entre felicidade e virtude. Só que essa é uma ligação que não é necessária: muitos bons sofrem. A tragédia anterior, que mostrava o sofrimento como ato do destino, algo que poderia sobrevir a qualquer um, não é mais realista, ao menos nesse ponto?

  65. A tragédia encontra seu elemento dionisíaco (musical) no coro. Remover o coro da tragédia é remover Dionísio. Sem Dionísio, não há mais tragédia, uma vez que a tragédia é Apolo e Dionísio.

  66. Sócrates não começou a batalha contra Dionísio, mas apenas ajudou a terminá-la, transformando, por meio de Eurípides, a expulsão de Dionísio em uma moda a ser seguida.

  67. Os gregos eram tão originais que alguns artistas preferem não estudá-los, pra não verem que algumas de suas ideias, aparentemente tão originais, já foram tentadas e desenvolvidas antes. É por isso que um dos meus amigos não lê TV Tropes.

  68. Alguém contente consigo próprio não pode ser derrotado por simples inveja ou mentira. Por isso as pessoas temem ou se envergonham perto dele.

  69. A busca pela verdade dá sentido às pessoas. Querem procurar a verdade, mas não necessariamente encontrá-la. Porque, se encontrarem, o que farão da vida depois disso? Já pensou como seria nossa vida se não houvesse mais nada pra aprender? Se soubéssemos tudo? Talvez ela até fosse melhor, mas nem todos a levariam numa boa, porque não iriam saber o que fazer com a vida. A busca pela verdade inalcançável, esquecendo que é inalcançável, é uma autoajuda, um meio de dar significado a uma vida que, de outra forma, não teria sentido.

  70. Uma luta intelectual não pode ser somente assistida. Quem assite, tem que lutar também.

  71. A filosofia e a ciência não podem se sustentar sozinhas. O ser humano precisa da arte. E o grego que havia começado a curtir a tragédia de Eurípedes percebeu também, em algum tempo, que o conhecimento humano tem limites. A frustração de se deparar com esses limites criou uma nova demanda pela tragédia, mas como voltar a ela agora, uma vez que o grego havia aprendido a detestar Dionísio?

  72. O comentário mais fiel de uma cena é feito pela trilha sonora que toca junto com ela.

  73. Se a música combinar com a cena, o entendimento da plateia é melhorado.

  74. É por isso que se canta, em vez de simplesmente declamar poesia.

  75. A cientifização da arte faz com que encaremos gênios que não pactuam com essa cientifização como incompreensíveis. E no entanto são os melhores.

  76. Uma classe de escravos que percebe que está sendo tratada injustamente e passa a desejar vingança é algo perigoso ao estabelecido. Quando um escravo começa a querer se vingar e a vingar até as gerações futuras, não há religião que o pare (“se Deus existe e é bom, deve ser contra a opressão!”).

  77. Tem muito pastor ateu.

  78. Não é possível saber tudo.

  79. Causalidade, tempo e espaço são coisa da nossa cabeça.

  80. Uma sociedade científica deve deixar de existir quando começa a ser ilógica. Uma cultura científica ilógica está caduca.

  81. Para Nietzsche, a ópera não é uma criação de artistas, mas de leigos.

  82. O problema da ópera (e de muitas músicas por aí) é priorizar a letra sobre a melodia, a harmonia e o pulso.

  83. Nem todas as pessoas sensíveis são artistas. Sensibilidade não é o mesmo que aptidão artística.

  84. Não existe estado sem indivíduos.

  85. A educação e as notícias predispõem uma pessoa a julgar um trabalho de arte de determinada forma.

  86. Um crítico de arte pode julgar uma obra com critérios que não têm nada a ver com arte.

  87. Um pouco de dissonância ajuda a música.

29 de agosto de 2017

O que aprendi lendo “Manifesto do Partido Comunista”.

“Manifesto do Partido Comunista” foi escrito por Marx e Engels. Abaixo, o que aprendi lendo o texto deles.

  1. Quando as pessoas acusam umas as outras de comunistas, sendo que elas não o são, é hora de um comunista de verdade aparecer e explicar o que ele é.

  2. “Comunista” é frequentemente usado pejorativamente.

  3. Há duas classes que se combatem em todos os períodos históricos: opressores e oprimidos.

  4. Essa guerra sempre culmina de uma das duas formas: os dois morrem ou a sociedade muda de paradigma.

  5. A indústria tornou a manufatura artesanal obsoleta.

  6. As liberdades conquistadas com esforços podem ser sacrificadas em nome da liberdade de comércio.

  7. A opressão burguesa subjuga os talentos pessoais pelo poder do salário.

  8. A existência da burguesia depende do avanço dos meios e das relações de produção.

  9. O avanço da burguesia não pode mais retroceder.

  10. Temos agora necessidade de material internacional.

  11. Material intelectual também é passível de exportação e importação.

  12. O avanço do modo de vida burguês faz com que nações mais ricas e poderosas subjuguem culturalmente as mais fracas.

  13. Isso também unificou territórios.

  14. Graças a esse avanço, tivemos um avanço tecnológico sem precedentes.

  15. A classe burguesa começou a ascender quando as forças de produção superaram a capacidade do sistema feudal já velho.

  16. Sua ascensão, então, deve-se à falta de liberdade que um sistema antigo proporcionava e à crescente demanda por um benefício que essa liberdade traria.

  17. O crescimento excessivamente rápido das forças de produção, porém, proporciona crises de superprodução.

  18. Parece que o fim do capitalismo será um evento natural, porque as crises de superprodução crescem em intensidade.

  19. Eventualmente, entraremos numa crise econômica da qual não sairemos.

  20. O trabalhador também é mercadoria: com efeito, se vende.

  21. Muita gente vive pra trabalhar.

  22. Quando os meios de produção evoluem, alguns trabalhos são menos requisitados.

  23. Se você está lutando contra alguém, não ataque os inimigos desse alguém.

  24. A vitória do sindicato não dura pra sempre: precisa ser mantida e só pode ser mantida com muito custo.

  25. Se há uma coisa certa nessas vitórias é a união que elas proporcionam entre os trabalhadores.

  26. Um partido dos trabalhadores só dará certo se os trabalhadores pararem de competir entre si.

  27. Uma classe política não ganha tudo de uma vez: nunca se deve parar de lutar por direitos enquanto os direitos forem insuficientes.

  28. A elite nem sempre está de acordo entre si e isso é uma vantagem para as massas.

  29. Para que um lado da elite prevaleça sobre outro, é preciso ajuda do povão: o lado da elite que convencer o maior número de pessoas comuns vence.

  30. Trabalhador é igual em qualquer lugar do mundo: ganha-se mais, ganha-se menos, mas sempre explorado.

  31. Uma revolução feita pela classe trabalhadora é uma revolução feita pela maioria, e nisso ela seria única.

  32. Os trabalhadores devem destruir a elite.

  33. A elite precisa dos trabalhadores, por isso os dá meios de subsistência, mas será que os trabalhadores precisam da elite?

  34. Desarticular trabalhadores requer manipulação dos salários: pague melhor quem tem mais adesão ao sistema vigente.

  35. No entanto, se os trabalhadores se unirem em grupos que reivindicam aumento pra todos, fica mais difícil.

  36. Nem todo o trabalhador é comunista.

  37. O comunismo não tem mentores… ou, pelo menos, não deveria ter: seu referencial teórico são os próprios trabalhadores que decidem a pauta em conjunto.

  38. A propriedade privada deve ser abolida.

  39. O salário mínimo se chama “mínimo” porque compreende apenas o necessário pra que a pessoa possa subsistir e continuar trabalhando.

  40. Se o salário mínimo aumenta, é porque o custo de vida também aumentou.

  41. Por outro lado, é possível aumentar o salário mínimo sem que o custo de vida tenha aumentado, mas isso permite que comerciantes aumentem os preços.

  42. Logo, aumentar o salário mínimo também aumenta o custo de vida: você não pode ter conforto ganhando salário mínimo, a menos que seu custo de vida seja especialmente baixo (como é o caso de homens solteiros).

  43. Quanto menos você ganha, mais você sente necessidade do patrão: fará o que for necessário pra se manter no emprego, mesmo a custo da dignidade pessoal, o que é especialmente verdade em tempos de desemprego.

  44. Quando alguém diz que algo trará mais liberdade, verifique se não trará mais liberdade só pra quem está falando.

  45. A liberdade da elite é a de compra e venda.

  46. Assim, a liberdade da elite nada tem a ver com a liberdade do povo.

  47. No comunismo, o que você produz é seu.

  48. É possível ganhar dinheiro sem trabalhar.

  49. Se não houver patrões, as pessoas trabalharão para si mesmas.

  50. A família deve ser abolida.

  51. A família favorece a exploração infantil, se feita da parte dos próprios pais.

  52. Dizem que o comunismo quer destruir a educação familiar, mas a educação familiar já foi destruída quando a elite inventou a escola e a infância, tornando a educação uma responsabilidade estatal, não mais familiar.

  53. Dizer que as mulheres serão de todos não implica dizer que a mulher poderá ser coitada por qualquer um como se fosse um objeto.

  54. Liberdade de se relacionar saudavelmente com qualquer um que concorde com a relação.

  55. Ninguém está a salvo do chifre, nem a elite.

  56. A mulher não pertence a ninguém, nem o homem.

  57. O chifre impera na elite.

  58. Não havendo necessidade de “vender seu corpo”, a prostituição não existe no comunismo.

  59. Trabalhador é trabalhador aqui e na China: não há necessidade de “pátria” no comunismo.

  60. Trabalhadores são uma nação em todos os territórios.

  61. As ideias dominantes são as da elite: nosso conceito de certo e errado, por exemplo, é imposto de cima.

  62. A elite quer que um intelectual concorra com o outro, não que trabalhem juntos.

  63. Crianças não devem trabalhar em fábricas, mas devem produzir também, isto é, devem trabalhar de alguma forma indistinta da educação humanística.

  64. A criança deve aprender o conteúdo curricular normal, mas deve aprender, junto com esse currículo ou como parte dele, uma profissão.
  65. Se a luta política não é possível no momento, lute ao menos no campo intelectual.

  66. O socialismo pode ser reacionário também.

  67. Quando você lê uma obra feita em outro país, tenha em mente que trazer o livro pro Brasil não significa trazer com você o país de origem: uma análise política feita na França sobre a França não se aplica ao Brasil.

  68. As aspirações humanas não necessariamente coincidem com as aspirações de uma classe.

  69. Não ponha tudo a perder se você não tiver o que ganhar.

  70. Existem socialistas na elite também.

  71. Zona rural e zona urbana devem se tornar uma coisa só, a família deve ser abolida e, se houver um estado, este deve apenas gerenciar a produção coletiva.

26 de agosto de 2017

Anotações sobre “Curso de Filosofia Positiva”.

“Curso de Filosofia Positiva” foi escrito por Auguste Comte. Abaixo, alguns pensamentos encontrados no texto dele.

  1. Se filosofar é procurar a verdade, então há três formas de filosofia: pela religião, pela metafísica e pela ciência.

  2. Uma só lei não explica o universo inteiro.

  3. Nos dois primeiros estágios de desenvolvimento, a filosofia está interessada nas causas primeiras e nas causas finais, mas, no último estágio, ela renuncia a essa pretensão em nome da busca das leis que governam os fenômenos particulares.

  4. O ápice do instante teológico foi o monoteísmo, enquanto que o ápice do estado metafísico foi a filosofia da natureza, mas a ciência sempre progride, sem chegar a um instante em que se possa dizer “nada mais há para ser explicado”.

  5. A ciência deve romper com a religião (o que não implica que uma deva combater a outra, mas que, por serem formas diferentes de filosofia, não podem ser totalmente conciliadas e uma tentativa de conciliação implicaria subjugação e prejuízo à livre prática científica).

  6. Se a ciência funciona pela validação ou refutação de uma premissa, é claro que ela não poderia ter surgido antes da metafísica ou da teologia, as quais proveram as premissas.

  7. Observar (procurar por algo) não é o mesmo que olhar.

  8. Tentativa e vacilo fazem parte do andar filosófico.

  9. O estado metafísico é provisório, intermediário.

  10. O escritor não quer saber das causas dos, nem pra que servem os, fenômenos, além da medida do necessário para entender como funcionam.

  11. Mais importa saber como a gravidade funciona do que saber o que é a gravidade.

  12. O ser humano não precisa de perguntas sem resposta, do tipo “de onde viemos, o que somos, para onde vamos?” para guiá-lo na vida.

  13. Quando algo se torna ciência, não deixa de ser filosofia, mas deixa de ser metafísica.

  14. O movimento da filosofia para a direção positiva (priorização da ciência em lugar da metafísica) começou com Bacon, Descartes e Galileu.

  15. Estudos sociais precisam se tornar ciência (“física social”, mais tarde renomeada “sociologia”).

  16. Teologia e metafísica não explicam fenômenos sociais.

  17. Antigamente, nosso conhecimento não era dividido em campos.

  18. A divisão do conhecimento em áreas é positiva, pois permite que cada pesquisador estude um detalhe em profundidade.

  19. Essa divisão de conhecimentos permite o avanço mais rápido das ciências.

  20. Mas a divisão excessiva das ciências também traz problemas.

  21. É mais fácil ser bom em tudo quando se conhece tudo superficialmente.

  22. A divisão das ciências é artificial, foi feita por nós, enquanto que, na natureza, a biologia, por exemplo, não está separada da química.

  23. Um cientista deve trabalhar com o outro, as áreas científicas devem manter um diálogo.

  24. É preciso que as descobertas particulares encontrem seu lugar num sistema geral, organizado por uma outra classe de cientista.

  25. Se uma ciência é velha, sem acordo entre os cientistas que a praticam, a partir da qual nada foi descoberto, qual é o sentido de persistir nela?

  26. Um procedimento lógico é melhor explicado em sua aplicação.

  27. É possível criar um estudo pela combinação de duas ciências.

  28. Um estudo envolvendo mais de uma área científica explica mais detalhes de um objeto estudado.

  29. A anarquia de pensamento, isto é, uma situação em que nenhum pensador concorda com o outro, é causa de males sociais.

  30. A ciência deve estabelecer a verdade que a política aplicará.

  31. A filosofia discorda de si pela divergência de método.

  32. Se a teologia, a metafísica e a ciência continuarem perdendo tempo em tentar superar uma a outra, o pensamento humano não evoluirá.

  33. Querer uma filosofia capaz de explicar tudo, como quis Hegel, é coisa de quem pensa que o corpo total de conhecimento acumulado é menor do que na verdade é.

  34. A ciência não pode conhecer tudo.

  35. Se fosse possível um sistema filosófico capaz de explicar todos os fenômenos, será que isso faria muita diferença, se comparado à moda atual de explicar cada fenômeno segundo leis próprias?

  36. Você pode propor objetivos que você mesmo não pode atingir sozinho em seu tempo de vida, porque outros continuarão de onde você parou.

  37. Nem tudo o que é útil é verdade.

  38. Qualquer divisão das ciências é artificial por definição.

  39. O fato de falharmos várias vezes ao perseguir um objetivo não implica que é impossível alcançá-lo.

  40. Só é possível classificar as ciências pelos seus objetos observáveis.

  41. O objetivo da ciência é prever fenômenos e modificá-los.

  42. Estudar um fenômeno por prazer não é errado.

  43. Embora cada ciência possa ocupar-se de si mesma, sua aplicação técnica requer a ajuda de outros saberes.

  44. Quando um estudo já tem muito tempo de existência, como a filosofia, uma exposição cronológica decente fica cada vez menos possível, porque não dá pra expor tudo em suas relações.

  45. No entanto, essa forma de entender as coisas têm a desvantagem de não explicar como o conhecimento foi formado.

  46. A ciência e a técnica se ajudam no progresso de ambas.

  47. Os conhecimentos mais gerais são os mais estranhos a nós, por guardarem menos ligação com o prático.

  48. O fenômeno “puro” deve ser estudado primeiro, para depois estudarmos suas modificações.

  49. O entendimento completo da química requer o conhecimento básico de física, pois os fenômenos químicos são condicionados por calor, eletricidade e movimento, todas coisas estudadas na física.

  50. Apesar disso, a química não é parte da física e deve ser tratada como uma ciência à parte.

  51. A sociologia depende de todas as outras ciências, mas suas leis não influenciam as outras ciências.

  52. Um ramo do conhecimento pode ainda ser metafísico ou teológico quando outros ramos contemporâneos já são positivos.

  53. Precisão não iguala certeza.

  54. A matemática perpassa e valida tudo na ciência.

16 de agosto de 2017

Anotações sobre temor e tremor.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , — Yurinho @ 14:59
  1. Coerência é um comportamento incomum. Muitos não fazem o que dizem que outros deveriam fazer. Muitos fazem o que reprovam nos outros. A regra é ser hipócrita, ser coerente é exceção.

  2. Um filósofo pode convidar outros a duvidar com ele, mas jamais pode forçá-los a isso.

  3. O que deu certo comigo pode não dar certo contigo.

  4. O autor deste livro não é filósofo.

  5. Os sistemas filosóficos existentes estão incompletos.

  6. Os escritores mais relevantes muitas vezes são os que vendem menos cópias.

  7. Sistemas filosóficos são um excesso, diz o autor.

  8. Para afastar alguém, perca o atrativo.

  9. Pessoas célebres ainda são seres humanos.

  10. Vencer uma luta sem recorrer aos meios que outros usaram, os meios óbvios, é digno de respeito. Abraão não era erudito, não era forte, não era atlético. E, no entanto, Abraão é Abraão.

  11. Ter fé e ser otimista retarda o envelhecimento.

  12. Já imaginou se Abraão tivesse recusado a ordem divina? Talvez tivesse acontecido a mesma coisa que poderia ter acontecido se Isaac não tivesse se casado com Rebeca (que tinha dez anos).

  13. Em matérias religiosas, a fé tem valor maior do que a razão. Depende de em que você tem fé, contudo….

  14. A marca da juventude é o desejo. Quem deseja, se move. Quem se conforma, para. Parado se envelhece mais.

  15. Moisés não entrou na terra prometida, diz o autor, porque ele não acreditou que Deus iria realmente fazer água jorrar da pedra (Números 20:10-13). Eu tenho minhas dúvidas.

  16. Como a vida de Isaque valia pra Abraão mais que sua própria vida, Deus não pediu um suicídio da parte de Abraão. Um verdadeiro teste de fé requeria sacrificar o que havia de mais importante. No entanto, se Abraão tivesse se matado por ordem divina, seu impacto talvez fosse o mesmo.

  17. Abraão respondeu positivamente ao destino do qual qualquer outro fugiria.

  18. Até quem não era judeu respeitava a fama de Abraão.

  19. Quem mais trabalha não necessariamente é o que garante sua comida. Tem gente que come sem trabalhar. Então, se alguém te diz que você só pode comer se trabalhar, deveria acrescentar: “ao menos de forma lícita”.

  20. Nobreza não salva ninguém.

  21. Saber uma história não implica envolvimento emocional. Eu posso ser indiferente aos personagens dela.

  22. Inteligência se obtém na prática.

  23. O que tornou Abraão tão venerável, diz o autor, foi a angústia que ele sentiu ao escolher entre Deus e seu filho. Essa angústia está implícita no texto, para o autor. Não é uma questão de sacrificar o melhor, mas de sofrer com isso por amor a Deus.

  24. Embora Abraão seja um exemplo de fé, não vamos sair por aí matando os próprios filhos. Há outras formas de demonstrar fé, especialmente se Deus não fala diretamente com você, como o fez com Abraão. No entanto, alguém que ouve esse relato pode querer fazer um sacrifício a Deus, e de boa vontade e bom coração. Daí, ele resolve sacrificar o que há de mais importante. Já pensou se for seu filho? Por isso que ler a Bíblia Sagrada requer bom senso.

  25. Nem tudo na vida sucede como na pregação pastoral.

  26. O que passa na cabeça do fanático: “Se Abraão tentou matar o próprio filho, por que eu não posso?” É como se ele questionasse se atos santos só o são se praticados por certas pessoas e ele tem razão em pensar dessa forma. O problema é ele tentar imitar a aparência do ato, não sua motivação. O que moveu Abraão a fazer o que fez foi sua fé. Não é pra imitar o ato exterior (o sacrifício), mas o interior (a fé). Cultivando esses valores e mantendo-os como motivação, nossas ações serão todas santas (Tito 1:5). Assim, se você tem um valor que lhe motiva, esse valor não precisa se manifestar de forma socialmente inaceitável, a menos que Deus assim ordene.

  27. Pra que lembrar do que não pode acontecer de novo? Ora, pra enriquecimento moral.

  28. Abraão era santo ou homicida? Essa é a pergunta do autor.

  29. Um raciocínio deve sempre ser levado às últimas consequências.

  30. Para o autor, algumas reflexões não devem ser comunicadas. Supondo que ele conclua que Abraão era assassino, ele não diria aos outros que pensa dessa forma pra não fazer tropeçar. Além do mais, isso seria fonte de conflito pro pensador crente, pois a fé diz “santo”, ao passo que a razão diz “homicida”. No entanto, o raciocínio deve ser levado às últimas consequências não importa o quê. Se o raciocínio concluir dessa forma, seja.

  31. Se eu não teria coragem de imitar a fé de Abraão, eu não seria hipócrita por invocar seu exemplo? Falo que os outros devem ter a fé de um cara que eu não posso imitar. Como eu posso exortar alguém a imitar alguém que eu não consigo imitar ou, por vezes, nem quero imitar? Falo isso porque tem gente que não está interessado em imitar bons exemplos bíblicos e, no entanto, diz que os outros devem fazê-lo (é o caso de muito pastor por aí).

  32. Parece que o autor concluirá que a fé justifica o ato. Isso é perigoso….

  33. Faz sentido que o autor fale tanto da fé de Abraão, sendo ele protestante. Católicos preferem enfatizar a caridade cristã, isto é, o exemplo de Jesus. Ortodoxos…. Bom, não sei nada deles.

  34. Se todos fizessem o que Abraão fez, seu exemplo seria perdido na banalização. Ele deixaria de ser o que é se todos o imitassem. Donde decorre que a fé de Abraão deve ser imitada, mas sua aparência (o sacrifício do próprio filho) não deve, ou Abraão perderia sua relevância. É um “exemplo a não ser seguido”. Estranho.

  35. Não podemos imitar o sacrifício do filho sem antes imitar a fé. Querer matar o filho sem ter obtido o grau de fé que Abraão tinha não justifica o ato, diz o autor. Concentre-se na fé primeiro, depois Deus pode até falar com você e lhe propor uma prova. Enquanto ele não faz isso, solte a faca.

  36. Depois de imitar a fé, é preciso imitar o amor que Abraão tinha por Isaque.

  37. O autor endorsa falar do teste de Abraão como algo horrível e angustiante, pra que os outros percam a vontade de usar a fé pra sustentar o assassinato do filho.

  38. Falar da prova de Abraão antes de falar de sua fé e do seu amor pode colocar em risco o desejo do fiel de continuar crendo.

  39. Se alguém quiser acompanhar o exemplo de Abraão e matar o próprio filho, o autor diz que se deve desencorajar esse crente. Conduta estranha pra um protestante.

  40. Hegel é tão obscuro que até filósofos e críticos de filosofia não o compreendem. Só quem pode compreender Hegel é ele próprio e Deus. Isso, claro, na suposição de que Hegel tinha intenção de ser entendido e não estava pregando uma peça em todo o mundo. Já pensou se Hegel ressuscita e vai até uma faculdade de filosofia e vê o sofrimento dos alunos a ponto de confessar “gente, eu tava brincando!”?

  41. A filosofia não pode supor que um problema é sem importância. Todos os problemas filosóficos são importantes, mesmo que não igualmente. Se algo não tem importância, não se faz filosofia disso. Se é feita filosofia de algo, é porque esse algo tem importância.

  42. A fé dá coragem. Olha esses caras que se jogam em aviões contra prédios.

  43. Quanto mais cedo começa o sofrimento, mais cedo ele acaba. Por causa disso, começar logo o sofrimento pode ser uma prova de ansiedade. “Quanto mais cedo eu começar, mais cedo termino com isso.” A pessoa está sofrendo com a espera, talvez mais do que com o próprio ato. Está com medo.

  44. Abraão não pensou, só fez.

  45. Amar Deus sem fé é o fenômeno descrito por Feuerbach (o humano amando a si), que Kierkegaard também mostra com fatual, mas não como única expressão religiosa.

  46. É estranho que até religiosos queiram ir além da fé.

  47. Ação piedosa independe de classe social.

  48. O homem realmente crente, de fé sincera, não parece especial por fora. Ele parece tão humano como qualquer outro.

  49. O homem realmente crente participa do mundo sendo indiferente a ele. Age como uma pessoa normal, mediana.

  50. Ele não tem apego aos bens materiais. Ter ou não ter, tanto faz.

  51. É tranquilo, observa.

  52. Não se sente tentado pelos prazeres mundanos, não se sente pressionado pelos cuidados mundanos.

  53. Quando o homem religioso cessa a atividade religiosa, tem dificuldade em voltar aos afazeres mundanos.

  54. O homem religioso não vê progresso em deixar a religião.

  55. O homem religioso não gosta do que era antes.

  56. Nem tudo é possível. Dizer que tudo é possível é algo pueril…. Ou simplesmente idiota.

  57. Tente ser independente, mesmo quando ama.

  58. Resignação é parte da autossuficiência. Se você abdicar do que não pode conseguir sozinho, não precisará de ninguém.

  59. A cultura é o caminho através do qual uma pessoa conhece a si própria. Assim, conhecer a produção intelectual anterior ajuda na produção do próprio conhecimento, inclusive do autoconhecimento. Rejeitar a produção anterior é desperdício.

  60. Tudo é possível pra Deus. Isso normalmente implica consciência de que nem tudo é possível ao ser humano.

  61. Não é possível, diz o autor, ter fé sem se resignar primeiro.

  62. A fé é coisa de quem a compreende. Acreditar sem compreender é convicção, não fé, diz o autor.

  63. Se não é possível ter fé sem se resignar e a resignação é uma conclusão filosófica, não é possível ter fé verdadeira sem ser filósofo. No entanto, o autor nega ser filósofo. Estranho também.

  64. As pessoas podem “perder a fé” no momento da resignação. Para o autor, essas pessoas nunca tiveram fé em primeiro lugar, porque a fé só pode ser obtida depois da resignação. “Nem tudo está ao meu alcance. Para aquilo que não posso alcançar, deixarei que Deus decida o melhor.” Isso é resignação, admitir que nem tudo te é possível e deixar que Deus decida se o que não te é possível deve ou não te ser dado.

  65. Quem quer ter fé sem se resignar é covarde, mole ou não quer tanto assim, diz o autor.

  66. Renunciar a tudo em nome da fé é ganhar tudo de volta e muito mais, diz o autor. Isso parece guardar relação com os preceitos morais contidos em Mateus 6:33 e em Mateus 19:29.

  67. Quando o autor diz que não é possível renunciar a fé sem contradição, parece querer dizer que aqueles que deixam a fé o fazem por terem fé fraca e não porque a fé está errada.

  68. Por que algumas pessoas têm vergonha de sua fé?

  69. A fé começa onde a razão acaba.

  70. Cada indivíduo é próprio. Não seja obcecado em ser como os outros. Abdicar da sua individualidade em favor do geral é besteira.

  71. Sociedades não-cristãs não necessariamente são inferiores.

  72. Atos feitos na fé são incompreensíveis aos que não a tem. Explicar não clarificará as coisas.

  73. Porque Abraão fez o que fez? Porque Deus mandou.

  74. Para o autor, o dever é a manifestação da vontade divina.

  75. Abraão sacrifica o finito em nome do infinito.

  76. Tem gente que esquece o próprio sofrimento de tanto pensar no sofrimento dos outros. É meu caso.

  77. Já pensou se Abraão não tivesse realmente ouvido Deus e só estivesse esquizofrênico?

  78. Quando algo não é evidentemente errado nem evidentemente certo, só se pode julgá-lo por suas consequências.

  79. Se uma pessoa só faz uma coisa se o resultado dela for imediato, ela fará pouca coisa ou nada. Não devemos nos intimidar com a distância entre nosso ponto inicial e o ponto de chegada. Aliás, se vale a pena lutar por algo, não importa se é possível ou não. Lute somente. Pode até demorar demais, mas não vamos chegar a lugar nenhum pensando se vale a pena perseguir um objetivo tão distante.

  80. As pessoas, quando lembram da história de Abraão, geralmente não pensam na angústia que Abraão deve ter sentido ao saber que tinha que sacrificar Isaac.

  81. Ao relevar um ato heroico ou de grande importância, é preciso pensar nos sentimentos humanos que estão por trás do ato. O que o agente sentia quando fez o que fez? Se você tirar a humanidade, isto é, os sentimentos desses atos, eles deixam de ser grandes. São só histórias.

  82. A história de Abraão é a suspensão da moral normal por um objetivo divino. A ordem de Deus tem mais valor do que as máximas terrenas.

  83. Quando Deus me dá um dever, eu tenho um dever para com ele. Se ele me dá o dever de amar ao próximo, o faço por dever para com Deus. No entanto, Deus me deu um dever para com o próximo, então, por uma certa ótica, não é um dever para com Deus, mas para com o próximo, porque não interajo diretamente com Deus e nem ele ganha qualquer coisa com isso.

  84. A doutrina cristã é difícil de ser seguida em alguns pontos cruciais, como o abandono de tudo pelo amor a Deus. Mesmo nos Evangelhos, que enfatizam o amor, tem coisas que muitas pessoas, mesmo tendo muito amor, não estão dispostas a fazer (Mateus 19:21-22 / Lucas 10:27-37 / Lucas 14:26).

  85. Eu tenho que amar o próximo, diz 1 João 3:23, mas como posso, se eu tenho que odiar qualquer um que não é Cristo, conforme algumas traduções de Lucas 14:26? Por isso a tradução moderna de Lucas 14:26 é “quem ama […] mais que a mim”. Não é que eu tenha que odiar todo o mundo, claro que não! Mas eu devo amar Jesus mais do que aos outros e Deus acima de tudo. Assim, é proibido ao cristão odiar qualquer pessoa. Por isso não é possível um estado cristão; cairia ao primeiro sinal de guerra. Qualquer cristão que professe seu ódio, especialmente na política, é hipócrita.

  86. A igreja é um estado dentro de outro.

  87. O ódio ao mundo em nome de Cristo é perigoso ao estado. Imagine se você conhecesse um cara que segue só os quatro Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Sabe o que ele seria, em termos de ideologia política? Anarco-comunista. Não tem coisa mais ofensiva ao estado estabelecido do que a ideologia cristã pura. Claro, ele tem Jeová como Deus e Jesus como rei, mas nenhuma autoridade terrena é superior a deles. Ideais de castidade, por exemplo, de desapego aos bens materiais, de pacifismo, comunhão de bens e partilha de recursos a cada um segundo sua necessidade (Atos 2:42-45), todas essas coisas, se praticadas em larga escala, arruinam o estado.

  88. O crente de verdade é visto como mentalmente perturbado. Se alguém diz ter fé, mas não adota um comportamento peculiar pro mundano, talvez não tenha tanta fé assim.

  89. Mas como saber se o indivíduo está realmente lunático ou está agindo por ordem de Deus? Ninguém sabe! Só quem pode responder isso é a própria pessoa e, ironicamente, ela não saberá se estiver realmente lunática.

  90. As lágrimas comovem.

  91. Está escrito: o que Deus uniu, não o separe o homem (Mateus 19:6). Mas isso não exclui a possibilidade de Deus intervir pra separar. Não que eu pense que ele tenha boas razões pra isso. Parece estranho Deus intervir negativamente no casamento de alguém.

  92. O noivo calado não está gostando de casar.

  93. Nenhuma mulher é perfeita.

  94. Se todos agissem como quer a filosofia, o mundo seria uma comédia, diz o autor.

  95. Na época do autor, a dúvida sobre a imortalidade da alma estava “espalhada”. Imagine se ele vivesse hoje.

  96. Pouca gente tem a paixão necessária pra refletir criticamente e imparcialmente sobre a imortalidade da alma. Claro que isso só é possível por um viés cristão, mas nem no cristianismo essa crença é total.

  97. As pessoas riem umas das outras, mas, no final das contas, estão todos rindo de si mesmos….

  98. Ridículo alguém dizer que obteve a suprema sabedoria aos vinte anos. Nem Jesus começou seu ministério antes dos trinta.

  99. Os mais cultos são os que menos assumem o erro.

  100. Qual o sentido de assistir uma comédia cujo tema ocorre à nossa frente o tempo todo?

  101. Ter azar no amor por ter tentado é uma coisa. Ter azar no amor por destino é outra totalmente diferente. Imagine nascer com uma sexualidade gravemente condenável pela sua sociedade.

  102. É duro não obter aquele a quem nos podemos entregar, mas é indizivelmente duro não nos podermos entregar.”

  103. Qual é a função social de um poeta sem talento?

  104. Não existe gênio normal. Ser genial já é anormal.

  105. Professores universitários não necessariamente pensam. Por exemplo, meus professores de filosofia eram todos doutores, treinados em um autor específico. Assim, eles acabam devotando sua vida a repetir o pensamento desses autores em maior ou menor grau, em vez de desenvolver o próprio. Isso não quer dizer que eles não pensam, mas, como trabalham principalmente com a memória, podem até dar aulas de espírito ausente.

  106. Quando aparece um grande “sábio” de uma época, as pessoas tendem a não divergir muito dele. Assim, não se contestam verdades basilares postas em voga por grandes mentes de um tempo. Isso se chama “paradigma intelectual”, que muda conforme o nível tecnológico da campanha. Antigamente, ninguém duvidava do Aristóteles. Por muito tempo, se acreditou que Aristóteles sabia tudo o que se podia saber. Se pensava que divergir de Aristóteles era, necessariamente, errar. Depois, veio Tomás de Aquino, que, na verdade, repaginou Aristóteles. Depois, tivemos Bacon, então Descartes, então Kant, depois Hegel. Agora é a Globo. Amanhã pode ser Newgon.

  107. Subjetividade e realidade são coisas diferentes. Eu não preciso manifestar o que sinto.

  108. Considerando tudo isso, o autor não consegue entender Abraão. Só pra lembrar que esse livro é sobre ele.

  109. Abraão não falou nada a Isaac, Eliezer, nem a ninguém, porque ninguém entenderia se ele falasse. Se você tem que fazer algo que ninguém vai entender se você explicar, não explique. Só faça.

  110. Melhor lutar contra o mundo inteiro do que contra si mesmo.

  111. A moral pode ser uma tentação também. Às vezes, a coisa certa a ser feita é imoral.

  112. Para o autor, a humanidade de seu tempo já havia chegado ao ápice. Ele concluiu que tentar progredir mais, “imaginando” que havia mais para descobrir, era perda de tempo e engano de si mesmo. Já pensou se lhe tivessem dado ouvidos?

  113. Humanidade se aprende sozinho. Humanidade, para o autor, é a paixão. Não é possível ensinar a amar.

  114. Fé também é paixão. Não é possível ensinar a ter fé.

  115. Toda a brincadeira tem um nível de seriedade.

  116. É um risco constante que o progresso traga regresso.

  117. Uma pessoa não pode explicar o que não compreendeu.

  118. Somos predispostos ao mal.

  119. Na hora que eu escrevi a anotação anterior, ouvi quatro tiros lá fora. Depois ouvi uma mulher gritando. Por que será?

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