Analecto

15 de maio de 2015

Mészáros: educação contra o capital.

Philosophy – Wikipedia, the free encyclopedia.

Atenção, professoras de filosofia da educação, este trabalho foi escrito por Yure! Se você ver este trabalho em meio aos trabalhos de seus alunos, assinado por Yure, somos a mesma pessoa!

 

Este é um resumo de uma parte do primeiro capítulo do livro A Educação para Além do Capital, de István Mészáros.

 

Senhor Mészáros começa apresentando alguns pedaços interessantes do pensamento de Paracelso, Martí e Marx.

 

Segundo Paracelso, a educação não tem limites cronológicos se não a vida do corpo. Enquanto estamos vivos, aprendemos. A cada instante, aprendemos algo novo e esse aprendizado se encerra na morte. Já para Martí, é quase isso, exceto que a educação mediada pela escola, tendo em vista determinados fins, é condicionada e isso se põe como obstáculo ao aprendizado genuíno. Pela autoridade da escola, acabamos por aceitar como corretas coisas que não são verdade, mas meras convenções. Ou seja, para Martí, a pessoa não aprende o tempo todo, pois não necessariamente aprende na escola à qual tem que ir. Marx não está tão interessado sobre quando o ser humano aprende, e sim como aprende. Segundo ele, a educação escolar é um condicionamento: o educador é educado e essa educação é passada a futuros alunos. A menos que o professor seja um livre pensador, suas aulas são reprodução do pensamento já existente. Mas, mesmo que ele seja um livre pensador, as escolas têm seus objetivos e o professor acaba se vendo obrigado a condicionar suas aulas segundo os objetivos da escola, que, como uma entidade inserida na sociedade, herda esses objetivos dessa realidade maior que é a sociedade capitalista ocidental (o contexto de Marx).

 

Os pensamentos desses três indivíduos convergem sobre a necessidade de uma mudança no nosso sistema educacional. Segundo Mészáros, a escola tem um papel de mudança, mas esse papel é desempenhado de forma incompleta: a escola capitalista tem um comportamento estranho de tampar buracos na lógica do capital, sem dar espaço ao pensamento que poderia substituir o capital. Isto é, a educação ganha uma aparência de ambiente produtor de mudanças, mas, na verdade, é um ambiente de manutenção, sendo assim uma instituição conservadora. Claro que o capitalismo tem projetos educacionais atraentes, mas são projetos que concordam com a realidade capitalista, no sentido de que amenizam efeitos negativos oriundos da sua lógica e não suas causas, permitindo o aparecimento de novos efeitos.1 Esses projetos falham porque visam consertar o capitalismo, sendo que o capitalismo não tem conserto.

 

O capitalismo leva às últimas consequências um fenômeno chamado divisão do trabalho.2 Porém, pensadores como Adam Smith, não são capazes de ver que a causa da divisão é justamente o sistema capitalista, que dá a cada um sua determinada função. Por exemplo: o indivíduo que formou-se sapateiro e artesão tem uma visão de mundo naturalmente mais ampla do que a do outro que formou-se somente sapateiro. Ora, mas o indivíduo que é apenas sapateiro desempenha melhor essa função e tem melhores chances no mercado em que está inserido. O domínio de várias perícias não é apenas desencorajado, mas impraticável, se o que você quer é ganhar dinheiro.3 As pessoas são, assim, transformadas em objetos.

 

Esse é um problema que não pode ser resolvido meramente com a razão, a menos que a razão trabalhe contra o capitalismo e não contra este ou aquele efeito de seus processos dementes. Mas a pregação da razão como solução dos problemas da sociedade é uma manifestação de má-fé. Não basta admitir que o problema é “nosso” ou de determinado pensador, é necessário também apontar as causas desses erros. Se elas estão na educação, então temos que mudar a educação, mas não podemos sem mudar a sociedade, que sofre justamente com má educação. Cai-se, então, num círculo vicioso. Então, a possibilidade de uma razão libertária acaba tornando-se utópica. Além disso, pensadores como Robert Owen acabam por propor uma mudança através de um ajuste a favor dos trabalhadores, o que é suspeito, porque, se por um lado a classe trabalhadora não deveria ser tão explorada, ele teme que os trabalhadores tenham liberdade demais, já que Owen é membro da classe dominante. Além do mais, foram postuladas reformas graduais, as quais tiveram sua validade desmentida pela história. A mudança precisa acontecer de uma vez.

 

A escola, a possível salvadora da humanidade, serviu à sociedade como meio de adestramento de crianças, que se tornarão futuros capitalistas, com os objetivos e valores do capital integralizados, justificados. Assim, a educação contra o capital requer uma quebra com esses valores que são integralizados nos alunos. Mas vale lembrar que a educação não acontece apenas na escola. A aprendizagem é nossa própria vida. Maior parte da aprendizagem então se dá fora da escola e aí se vê uma brecha para atacar a educação que os alunos recebem e que os perverte. Esse ataque não é simplesmente uma negação do que está sendo ensinado, contudo, mas o estímulo ao trabalho por uma sociedade alternativa.

 

Para Mészáros, Marx e Martí, a escola atual é uma lavagem cerebral na qual são incutidos nos alunos valores que justificam o capital, como, por exemplo, a de que pobres o são porque não querem trabalhar e que deveriam haver leis que limitem o tempo livre desses vagabundos, obrigando os meninos a ir para escolas profissionalizantes e mandando os pais a trabalhos forçados, nos quais ganhavam “um centavo por dia”, como diz Locke.

 

1Por exemplo, a crise ambiental. Muito se fala de atitudes sustentáveis, mas essas são medidas de contenção de efeitos e não de eliminação de causas. Não precisaríamos ter de adotar, cada um, essas atitudes se a necessidade de matéria-prima e de lucro não fosse tão desenfreada. Mas ninguém fala dessas coisas, se não de forma banal. O que não quer dizer que não tenhamos que ser “sustentáveis”, já que agora isso se tornou necessário, enquanto a fome por matéria-prima e o desperdício são características descaradas de quem pouco se importa com isso, justamente aqueles que mais causam danos em nome do lucro.

 

2Divisão do trabalho: a cisão entre trabalho do pensar e trabalho do fazer. Existe uma elite que pensa e um bando de trabalhadores que sabe apenas desempenhar sua função. A elite pensa e não trabalha. Os trabalhadores não têm tempo nem oportunidade de pensar, tão engajados que estão na luta pela sobrevivência.

 

3Esse é o contexto de Mészáros. Hoje, as condições mudaram a ponto de ser recomendável que o indivíduo seja o mais “capacitado” possível, o que não significa que as coisas estejam melhores. Agora, há uma segregação ainda maior entre os pobres e os ricos, porque os pobres não podem pagar pela capacitação exigida.

 

Por que a crise afetou a educação?

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Atenção professoras de filosofia da educação, este artigo foi escrito por Yure! Então, se você vir este artigo em meio aos artigos de seus alunos e ele estiver assinado com o nome Yure, somos a mesma pessoa!

 

Resumo.

 

Hannah Arendt filosofou sobre muitas coisas e escreveu muitos livros. Mas este artigo se foca em um aspecto específico de um de seus livros. Neste artigo, temos uma análise dos principais pontos do tópico “crise na educação”, do livro Entre Passado e Futuro.

 

Aqui, é feito um apanhado do ponto de vista da filósofa sobre como a educação deveria ser para salvaguardar a integridade da criança antes de estar pronta para a vida adulta. Além disso, também é feito aqui uma reflexão sobre como a crise afetou a educação e de como a configuração da crise remonta às ideologias americanas. Porém, não é um artigo sobre política e de como ela afeta a educação. Este artigo procura as razões mais pessoais por trás do texto de Arendt, para mostrar como o problema na educação não é culpa exclusivamente do Estado.

 

Palavras-chave: Arendt, educação, crise, política.

 

Abstract.

 

Hannah Arendt philosophized over many things and wrote many books. But this article focuses on a specific aspect of one of her books. In this article, we have an analysis of the main points in the topic “crisis in education”, from the book Between Past and Future.

 

Here, we try to make a collection of the philosopher’s views on how the education should be to keep the child’s integrity safe before the child is ready to start an adult life. Plus, a reflection over how the education went into crisis and how the crisis’ configuration can be backtracked to the American ideologies is also done. However, this isn’t an article about politics and how it affects the education. This article looks for more personal reasons behind Arendt’s text, to show that the problem in education isn’t something to be blamed solely on the State.

 

Keywords: Arendt, education, crisis, politics.

 

 

Introdução.

 

A educação não é exatamente estável hoje. Apesar de a educação ter passado por momentos piores, já ter sido caótica e também muito mais elitista, hoje nós temos a impressão de que nosso ensino está avançando na direção certa e já mostrando resultados. Na verdade, não é bem isso o que acontece. O que acontece é que hoje nós temos um inculcamento de uma ideologia que forma para o sistema, o que é apenas natural, considerando que a escola é um organismo inserido na sociedade e, como tal, acaba trabalhando para seu perpetuação. A situação parece melhor porque a educação é conformista.

 

Então, embora nossa educação certamente esteja melhor, ainda lhe falta o elemento libertário, que sempre escapou das paredes da escola e sempre foi sua maior ambição. A educação que forma para a vida e não simplesmente para o sistema seria aquilo que os professores bem intencionados mais almejam, mas é uma esperança que ainda é frustrada pelas demandas do sistema capitalista que ativamente boicota os esforços de professores sinceros em formar livres pensadores.

 

Se nossa educação é vista com olhos otimistas, foi à custa de críticas feitas no passado sobre uma educação ainda pior. De fato, é sobre críticas que se forma aquilo que hoje nós vemos como “avançado”, uma vez que não se pode criar o novo sem apontar o que falta ao velho. Neste documento, procuro enunciar algumas críticas feitas por Hannah Arendt contra a educação de seu tempo e seu terreno (Estados Unidos, século vinte). São críticas ainda muito atuais, pois alguns dos problemas que ela aponta não foram devidamente adereçados e provavelmente não o serão num futuro próximo, mas estão aí para orientar nossa educação atual para o rumo devido.

 

Como base, este texto utiliza a quinta parte, “a crise na educação”1, do livro Entre o Passado e o Futuro. Porém, em vez de se ater aos aspectos políticos, procuro dar mais ênfase aos aspectos existenciais e psicológicos, recorrendo à política quando necessário apenas. Isso porque a política do tempo e do terreno de Arendt não é como a nossa política, hodierna e brasileira, o que faz com que alguns pontos do seu texto não nos sejam relevantes.

 

Na primeira parte, por que educar, examinamos o ponto de vista de Arendt acerca da razão de ser na educação e de como ela acontece. Depois, em por que a crise afetou a educação, procuramos saber o que levou a educação que Arendt observava à crise sobre a qual ela discorre. Também delineamos as características da crise. Por último, o que fazer frente à crise.

 

Por que educar?

 

Por que mesmo devemos educar as pessoas? O que levou o ser humano a ensinar coisas aos seus filhos? Não seria simples a resposta? Nós educamos porque o mundo está posto ali já antes de nosso nascimento. Esse é um mundo estranho que tem que ser explicado.

 

O mundo no qual são introduzidas as crianças […] é um mundo velho […], construído pelos vivos e pelos mortos.2

 

Ele tem seus próprios processos de ação e suas regras são complexas na mesma medida em que ele é velho. Nós estamos em um constante processo de descobrimento dessas regras, das regras de funcionamento do mundo natural, mas nós também criamos nossas próprias regras, as regras do mundo social. São regras difíceis, por vezes contraintuitivas, sem as quais não podemos sobreviver. A inobservância dessas regras torna a vida neste mundo difícil, penosa, e indigna. Cada nova descoberta, acordo, técnica e até mesmo moda que substitui o que é velho faz com que aqueles que não aderem à mudança se tornem obsoletos, indesejáveis. E o ser humano não é capaz de viver sozinho no mundo. Seu poder vem da maioria, da socialização. Então, pertencer à sociedade, participar em seus avanços e usufruir da observância das regras do “jogo da vida”, que se desenrola na arena do mundo, é necessário para a sobrevivência não apenas do indivíduo, mas de toda espécie humana. Talvez isso fosse razão suficiente: educamos para ensinar como o mundo funciona, como ele é, de forma que as crianças desenvolvam sua forma de viver da melhor maneira possível. E os recém-chegados ao mundo, as crianças, não sabem dessas regras ainda e precisam de um lugar onde possam aprendê-las. Por isso, Arendt afirma que:

 

[…] a essência na educação é a natalidade.3

 

Para Arendt, a educação começa, em primeiro lugar, em casa, mas não como letramento. Em casa, a criança, na sua vida privada, é preparada pelos pais, de forma segura, para aquilo que depois seria a ponte entre vida privada e vida pública: a escola. Em casa, a criança se desenvolve, se conhece e se torna ciente de suas capacidades físicas e mentais, através, por exemplo, do jogo. É como uma planta, que está crescendo e precisa ser nutrida pelos pais. Ela aprende de forma orgânica, natural, coisas como falar o idioma materno e as primeiras regras de comportamento, que são absorvidas pela imitação. Em outras palavras, os pais são as primeiras figuras de autoridade que a criança conhece. Assim, há uma relação de autoridade e responsabilidade entre pai e filho.

 

[Os pais] assumem na educação a responsabilidade, ao mesmo tempo, pela vida e desenvolvimento da criança e pela continuidade do mundo.4

 

Para proteger a criança, a vida privada precisa ser protegida também. Para Arendt, a criança não deve ser exposta ao mundo, isto é, à vida pública, sem antes estar devidamente preparada. A vida pública seria caracterizada pela política e, no contexto americano, pela igualdade. Só que, quando há igualdade, não há autoridade, que é requisito para uma formação devida. Então, antes que a criança possa entrar em contato com a política, com a igualdade e com a vida pública, ela precisa ser antes preparada na escola e, antes de ir para a escola, precisa ser preparada na família.

 

Para Arendt, a escola é uma ponte. Ela faz uma ligação entre vida privada, família, e vida pública, o mundo, sem, ao mesmo tempo, ser o mundo ou a família. A escola prepara a criança para entrar no mundo dos adultos, sendo uma etapa necessária para sua emancipação.

 

É importante ressaltar que a escola não necessariamente é a instituição a qual estamos acostumados. Existem diferentes tipos de escola em diferentes tipos de sociedade. A escola pode ser a igreja, pode ser o lar, pode ser o convívio. Ela não necessariamente é um instituto especializado. Funciona como escola qualquer etapa intermediária, preparatória, entre família e mundo. Essa mudança de um extremo para outro é feita de forma gradual. Idealmente, a formação da criança, além de prepará-la para o mundo, deveria também prepará-la para mudá-lo. E de fato…

 

[…] estamos sempre educando para um mundo que ou já está fora dos eixos ou para aí caminha […].5

 

Colocamos em nossas crianças nossas esperanças de manter o progresso do mundo.

 

Resumindo.

 

Para Arendt, a educação ideal começa na família, com a preparação da criança, num meio privado, para a escola. A criança precisa ser protegida da vida pública, porque não está pronta ainda, até que ela esteja amadurecida o bastante para ser-lhe apresentada aos poucos através da escola, que faz assim a ponte entre família e mundo. A criança não deve lidar com política e deve estar submetida à autoridade dos pais.

 

A autoridade é necessária à educação, o que também implica a responsabilidade por parte da figura de autoridade, que também é o professor, quando ela chega à escola. Assim, há uma dialética entre autoridade sobre o filho e também dever por sua segurança e formação devida, enquanto ele está nesse meio privado. Quando o filho está maduro o bastante, deve ir para a escola.

 

Na escola, a criança é preparada para o mundo dos adultos, ao qual deve ingressar quando estiver devidamente pronta.

 

Por que a crise afetou a educação?

 

Arendt estava inserida num contexto norte-americano. Como todo filósofo tende a interpretar a realidade que o cerca, ela falou dos Estados Unidos. Porém, ela não é tão atual ao dizer que a crise na educação nos Estados Unidos é algo que era devido à peculiaridades do estilo de vida de lá. Essas coisas não são peculiaridades, ao menos não mais. Com a gradual americanização do mundo, a crise norte-americana se repete, quase tal e qual, em outros lugares, incluindo no Brasil. Como será visto, a adoção de alguns paradigmas ideológicos estadunidenses pelo resto do mundo põe em questão alguns princípios basilares que foram discutidos na seção anterior e que são indispensáveis ao correto desenvolvimento da criança.

 

Que paradigmas? Os paradigmas de repúdio à autoridade e de esforço desenfreado pela igualdade. Isso porque o contexto de Arendt veio logo após o nazismo, no qual a imagem da autoridade foi manchada pelo autoritarismo. Isso gerou uma crise que afeta vários campos, mas falaremos apenas da educação aqui.

 

Nós temos hoje uma série de preconceitos sobre a vida pública e a vida privada. Isso não é fonte de problemas apenas educacionais, mas também psicológicos e existenciais. A vida pública é glorificada como algo ao qual todos temos que entrar tão cedo quanto possível, ao passo que a vida privada é vista como uma oportunidade do ser humano de se render aos seus impulsos reprováveis. Existe uma pressão pelo fim da vida privada, uma pressão para que você aja do mesmo modo em público e em casa. Dá para ver, de imediato, por que isso é algo nefasto.

 

Por “fim da vida privada”, me refiro à pressão para que seu comportamento seja “genérico”, seja o mesmo em diferentes situações. Ao mesmo tempo, é requerido que você despenda cada vez mais tempo fora de casa, trabalhando, se socializando, interagindo. As pessoas desenvolveram um preconceito com a vida privada, como se ela não fosse produtiva. Isso também tem origens no pragmatismo americano. Na vida pública, você produz mais, então deveria passar menos tempo em casa, onde você não produz.

 

A vida pública americana é um local de igualdade. Nesse lugar, todos somos iguais, ou, pelo menos, é o que se prega. É um lugar no qual nós somos livres para falar, pensar e agir, uma liberdade que foi o lema do século passado. Operários e mulheres foram livres dos grilhões dos senhores e dos maridos, conquistando, pela liberdade, condições melhores de vida e de escolha. Mas essa é uma liberdade que não deveria se estender aos filhos.

 

Aquilo mesmo que significara uma verdadeira libertação para trabalhadores e mulheres […] constituiu abandono e traição no caso das crianças […].6

 

Os filhos passaram a reivindicar para si uma igualdade impraticável entre adultos e crianças, criando suas próprias microentidades com suas próprias leis, onde podem buscar amparo quando elas têm suas aspirações de igualdade ultrajadas pela autoridade dos adultos.

 

Isso põe em questão a autoridade que é necessária para ensinar. Além disso, a autoridade teve sua imagem manchada por abusos cometidos no passado. Os pais educados pela igualdade talvez se sintam mal em exercer autoridade sobre os filhos e acabam os deixando se desenvolver como lhes apraz, mas isso não é apenas um problema ideológico, tendo também sua faceta mesquinha: renegar a autoridade é renegar também a responsabilidade. Os filhos crescem repudiando a autoridade e os pais desta geração são pais irresponsáveis. A crise na educação tem também raízes na crise que afeta a família. Talvez falar de autoridade com tanta convicção e até paixão soe um tanto antidemocrático, mas a obediência a quem pode comandar melhor é sempre uma atitude sensata.7

 

Isso afeta também a escola. No contexto de Arendt, temos o exemplo dos imigrantes.

 

Como para a maior parte dessas crianças o inglês não é a língua natal […], [a escola] obviamente deve assumir funções que […] seriam desempenhadas normalmente no lar.8

 

Como a família está falhando, cabe à escola algumas das tarefas que deveriam ser dos pais. Daí a demanda por escolas de tempo integral, já que os pais irresponsáveis não querem cuidar dos filhos como deveriam e despendem tempo demais trabalhando, normalmente porque o sistema capitalista o pressiona para isso. Afinal, é requisitado cada vez mais trabalho de nossa parte para manter nosso nível de conforto. E isso tem implicações no funcionamento da escola. O currículo teria que ser ajustado, o ambiente da escola teria que ser mudado e a escola, que não deveria ser nem família nem mundo, acaba perdendo seu caráter frente aos alunos, que a veem como uma mera extensão da casa. A mudança no currículo escolar ocorre de forma análoga à mudança no currículo universitário no contexto de Arendt, onde não havia ensino médio.

 

Em consequência dessa ausência de uma escola secundária, a preparação para o curso superior tem que ser proporcionada pelos pprios cursos superiores, cujos currículos padecem, por isso, de uma sobrecarga crônica, a qual afeta por sua vez a qualidade do trabalho ali realizado.9

 

Tendo que ser família e escola, a escola perde o foco naquilo que realmente deveria estar ensinando, ocasionando um ensino inferior. É importante levar em conta que esse problema é amenizado nas escolas de tempo integral, por razões evidentes.

 

Outro problema é a tendência moderna de manter as crianças como crianças. “Aprender brincando” é um lema muito ouvido recentemente, mas isso tem seus efeitos negativos sobre o desenvolvimento da maturidade da criança.10 A criança passa a ter dificuldade em saber quando deve parar de brincar e quando deve começar a ser séria, pois as duas coisas estão mescladas. Isso é especialmente frustrante para a criança mais velha ou o adolescente, que já rejeitam as brincadeiras tolas das crianças mais novas e acabam tendo que brincar com elas em nome da ideologia de igualdade que permeia a educação.

 

Ao discutir que a quantidade de alunos que não sabem ler nos Estados Unidos é maior que em todos os países da Europa, Arendt diz que isso se dá pela corrida dos Estados Unidos em ser uma “nova ordem mundial”, em ter tudo novo, incluindo métodos de ensino. Os métodos norte-americanos são experimentais (ou, pelo menos, eram na época em que Arendt escreveu o livro) e têm que ser pautados nessas ideologias de liberdade e igualdade democráticas. Esses métodos são ainda imaturos e atacam aquilo que a Europa já sabe que dá certo. O método europeu funciona bem, mas por que ele não é aceito nos Estados Unidos? Simplesmente por se fundar em uma ideologia incompatível.

 

O que é intentado na Inglaterra é a “meritocracia”, que é obviamente mais uma oligarquia, dessa vez não de riqueza ou de nascimento, mas de talento. […] A meritocracia contradiz, tanto quanto qualquer outra oligarquia, o princípio da igualdade que rege uma democracia igualitária. Assim, o que torna a crise educacional na América tão […] aguda é o temperamento político do país, que espontaneamente peleja para igualar […] jovens e velhos, […] dotados e pouco dotados, […] crianças e adultos e […] alunos e professores.11

 

É o fim da autoridade. Mas é justamente isso que querem os Estados Unidos. Uma educação internamente igualitária, onde professores não valem mais que seus alunos em hierarquia.

 

Um forte golpe sobre a autoridade do professor foi uma reforma na pedagogia que permitiu que professores que não conhecem bem a matéria que devem passar fossem admitidos no ofício, com o pretexto de termos “professores aprendentes”, que aprendem a matéria durante o ofício. Só que isso tira do professor aquilo que mais lhe dá autoridade, que é a crença de que ele sabe mais que os alunos. Se ele sabe tanto quanto os alunos em determinado assunto, por que os alunos o devem ver como professor mesmo?12

 

Como a autoridade do professor europeu está bem estabelecida, seus ensinamentos são levados mais em conta pelos alunos, são mais admiráveis, são mais difíceis de ser contestados (o que é uma faca de dois gumes), são melhor aceitos. E, como responsabilidade e autoridade andam juntas, o professor tende a ser mais responsável pelos seus alunos, zelando pelo seu crescimento. E crescimento é algo tido em alta conta pelos próprios alunos, porque, numa meritocracia, quem mais estuda e mais sabe, mais pode. Num sistema igualitário, tanto faz eu estudar ou não.

 

Resumindo.

 

A crise na educação também da crise na família e da crise na política. Da política porque existe agora uma demanda por igualdade e liberdade para todos, ao menos aqui na América e nos países sob influência dos Estados Unidos. Da família porque temos uma pressão para acabar com a vida privada, onde a criança deveria se desenvolver, ao passo que os pais não querem mais assumir responsabilidade integral pelos filhos, relegando a autoridade aos professores. Afinal, é na vida privada onde se criam os filhos e os pais são constantemente afastados dela.

 

As crianças acabam sendo levadas à escola cada vez mais cedo, às vezes em tempo integral, sobrecarregando a escola, que perde seu caráter.

 

O que fazer frente a crise?

 

Desconstruindo a seção anterior, nós temos os seguintes pontos fracos apontados por Arendt no ensino:

 

  1. Absorção de uma educação igualitária, sem autoridade, nem de professores, nem de pais. As figuras de autoridade estão relegando seu poder à outras figuras.

  2. Falta de responsabilidade por parte dos pais (crise da família). Os pais passam menos tempo com os filhos, não querendo fazer mais esforço que o mínimo possível para seu desenvolvimento.

  3. Ausência de benefícios por aprender. Os alunos não veem vantagem em aprender.

  4. Sobrecarga da escola com coisas triviais que deveriam ser tratadas na família. A escola perde aos poucos seu caráter preparatório e passa a ser vista como extensão à família.

 

Em primeiro lugar, é necessário trazer de volta a autoridade dos pais e professores. Isso não é fácil por razões ideológicas. Os pais desta geração foram educados pela igualdade e talvez não saibam como lidar com uma situação na qual eles são imbuídos de autoridade. São pais fracos, que se limitam a amparar o filho quando algo dá errado, mas isso é ruim em duas vias.

 

Primeiro porque fomentam a rebelião do filho, que se junta com outros de sua idade na formação de grupinhos. E é aí que está o inferno.

 

[…] ao emancipar-se da autoridade dos adultos, a criança não foi libertada, e sim sujeita a uma autoridade muito mais terrível e verdadeiramente tirânica, que é a tirania da maioria. […] A reação das crianças a essa pressão tende a ser ou o conformismo ou a delinquência juvenil, e frequentemente é uma mistura de ambos.13

 

A criança não está pronta para a vida pública e ingressar num grupo de iguais é lidar com o mundo público, com um sistema político chamado democracia. Se ela não sabe se expressar, pode sentir-se frustrada por ter sugestões genuinamente boas rejeitadas por uma maioria ignorante e ela não poderá fazer nada. Talvez nem sequer voltar à família privada por vergonha de admitir seu erro aos adultos. Outra coisa que permite a vida em sociedade é o devido controle sobre as emoções e isso é algo que se aprende com a educação e com a prática.

 

[…] a medicina cura as doenças do corpo, a sabedoria livra a alma das paixões .14

 

Os grupos de pessoas que não foram educadas pelos pais não favorece a prática do controle ordeiro das emoções (essa é uma das coisas que não deveria ser ensinada na escola, mas em casa, e os conflitos entre alunos na escola seriam melhor controlados se os filhos trouxessem educação emocional de casa) e não pode subsistir por muito tempo, descendendo ao caos.

 

A segunda via é a de que, deixando o filho agir como quiser, mas amparando-o quando seus planos dão errado, o pai está impedindo o filho de sentir as consequências de seus atos, o que prejudica seu julgamento.

 

Não podendo ser educada em casa, a criança não estará pronta para a escola, na qual provavelmente encontrará a mesma situação. Os professores ou não querem ter autoridade ou não querem assumir responsabilidade. Eles querem manter as crianças como crianças. Como a escola também é um dispositivo ideológico do Estado, talvez os professores prefiram doutriná-las15, mas até isso pode ser difícil, se os jovens que receberão a doutrina não reconhecerem autoridade no professor. Especialmente se o professor de matemática for apenas pedagogo. Houve um tempo em que os professores da primeira à quarta série eram apenas pedagogos, não sendo formados na matéria em que ensinavam. Aquilo era muito suspeito.

 

E isso não é perigoso apenas no âmbito escolar em geral, mas dentro da sala de aula, quando o pedagogo se mostra incapaz de responder perguntas específicas feitas por alunos interessados e ou os desaponta ou mente. Isso também acontece quando, por falta de professores, mestres de outras matérias acabam sendo chamados para ensinar assuntos que não dominam. Por vezes, o aluno percebe que o professor comete erros grosseiros em relação à matéria com relativa frequência ou mesmo muita frequência. Acaba completamente a autoridade e também o respeito quando o aluno percebe que sabe mais que o professor, porque fica a impressão de que o professor está se esforçando para enganar os alunos, fingindo ensinar o que não sabe. Já na Grécia Antiga se pensava que ser capaz de ensinar algo é um distintivo de que aquela pessoa conhece o que está ensinando.16 Mas os pedagogos deixam a desejar no ensino das matérias que deveriam ensinar. Então instituir pedagogos para ensinar algo que não aprenderam é um retrocesso milenar.

 

Agora, o próximo problema: os pais não querem ou não podem assumir responsabilidade sobre os filhos. Isso tem raízes no sistema capitalista. Dependendo da condição da política, temos que trabalhar mais ou menos para mantermos nosso nível de vida. Se temos de trabalhar mais, não podemos tomar devida conta de nossos filhos, entregando-os aos outros. Mas a autoridade que é necessária para o desenvolvimento da criança se desenvolve com convivência. Como a criança reconhecerá a autoridade de uma pessoa que passa pouco tempo com ela, na vida privada que é a família? Se temos de trabalhar menos, nem por isso queremos despender mais tempo com os filhos, posto que não temos costume de fazer isso.

 

Esse é talvez o ponto mais difícil de resolver, porque não bastaria uma reforma política, mas também uma mudança de comportamento nos pais. Não basta assumir autoridade, mas também responsabilidade e autoridade sem responsabilidade é autoritarismo.

 

Num sistema igualitário, em contraste com a meritocracia europeia, aqueles que estudam e se esforçam não são devidamente recompensados. E por isso, não são vistos com respeito, mas antes com inveja. Isso faz com que os ignorantes assaltem moralmente e até fisicamente aqueles que são bons estudantes, ao passo que não se esforçam para mudar sua própria condição por não verem vantagem nisso. Isso não apenas fomenta a mediocridade entre as crianças, mas também o bullying, porque cada criança procura um meio de se sobressair, logo, se não tem sentido se sobressair por saber mais, elas talvez procurem se sobressair pela força física e pelo controle sobre os outros. Os que estudam e se esforçam precisam ser recompensados com mais do que simples notas no histórico escolar. Mas isso precisa ser devidamente policiado também, para evitar o surgimento de oligarcas. Aqueles que tem desempenho ruim devem receber também atenção para que não sejam excluídos. Afinal, muitas vezes um aluno vai mal por causa do professor, por causa de um problema de saúde ou familiar, por causa de condições que estão além de seu controle. O professor então precisaria atentar não apenas para os bons estudantes, mas também para os péssimos.

 

Como decorrência da crise na família, as escolas acabam também desempenhando tarefas tipicamente familiares. Para que o aluno trate a escola com mais seriedade, ele precisa saber que ali não é sua casa. Isso não significa ser demasiado duro com o aluno, mas que a escola deixasse claro que ali não é o lugar para aprender aquilo que deveria ser aprendido dos pais. Ao recusar esses papéis, a escola está forçando os pais a assumir responsabilidade pelo filho, o que é o correto.

 

Só que isso não seria uma medida adotada pelas escolas particulares, as quais Arendt deixa de fora de seu discurso17, porque as escolas particulares e também as escolas paroquiais não são “uniformizadas” como as escolas do Estado. Cada uma funciona da maneira que lhe apraz. Isso porque a escola particular precisa de clientes, ela é uma empresa inserida num mundo capitalista competitivo. Ela precisa se diferenciar da concorrência para não definhar e uma escola que tire dos pais o máximo possível de responsabilidade vai bem entre pais que não querem assumir tais responsabilidades. Então, as escolas particulares continuarão quebradas em sentido moral enquanto a transferência de responsabilidade for lucrativa.

 

Resumindo.

 

“Resolver” a crise na educação não é um trabalho simples porque não é um trabalho meramente político, mas também psicológico. Atacar uma ideia (o “sistema”) sem relevar os aspectos materiais e palpáveis que a compõem (as pessoas que fazem o sistema, isto é, alunos, professores e Governo) é fazer metafísica desnecessária.18

 

Seria necessário restituir a autoridade dos pais e professores, seria necessário que estes fossem mais responsáveis, seria necessário que os alunos vissem benefícios em aprender e seria necessário que a escola não fosse um ambiente de infantilização dos alunos, mas um ambiente no qual eles se preparam para o mundo adulto, o que só pode ser alcançado quando a escola parar de ser também família.

 

Conclusão.

 

Eu não quis, com este trabalho, tirar de Arendt a razão em dizer que o problema na educação é também um problema político, mas quis mostrar que há também uma face psicológica, existencial por trás da crise, e que atacar somente a política é um ato de má-fé sartriana (embora ela não faça isso, há quem faça)19.

 

A política influi sobre muitas coisas, mas a política é feita por nós também. A política é feita por pessoas que escolhem seus governos e, se essas são pessoas corruptas, é claro que nossa política será corrupta. Isso é válido para qualquer tipo de política, não apenas a política estatal nacional que se mostra com mais frequência, mas também para as políticas mais pessoais e mais práticas que estão ao nosso redor: a família e também a escola. Mudar a escola não é apenas questão de mudar o governo, é também questão de mudar professores e alunos, que às vezes também são afetados pelas condições dentro de suas famílias. Muito material se produziu contra o governo, mas pouco se produz contra a pessoa, salvo maus livros de autoajuda, levando alguns a crer que a culpa nunca é deles, mas sempre do Estado.

 

O grande problema que não foi ainda resolvido é que operar esse tipo de mudança requer educação, que ainda está sob a crise. Porém, é possível tirar a educação dessa crise de forma gradual, um passo de cada vez, passos sendo operados por aqueles que já conseguiram uma educação decente em meio ao caos. Esses somos nós, filósofos. É importante continuar a produzir, não apenas para o governo, mas também para pessoas, que possam mudar sua atitude individual dentro na educação, para que não passem suas vidas esperando de braços cruzados pela reforma política. Ou seja, se não conseguirmos tirar a educação desta crise, podemos pelo menos permitir que ela respire, agindo como pudermos sobre esses pontos individuais, sem descuidar dos mais gerais. Porém, por ser uma crise grande, embora não totalmente paralisante, ela não pode ser resolvida de imediato e talvez nem num futuro próximo.

 

Referências bibliográficas.

 

ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. Tradução de Mauro W. Barbosa de Almeida. São Paulo: Editora Perspectiva, 2000.

 

ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução de Leonel Vallandro. Porto Alegre: Editora Globo, 1969.

 

DEMÓCRITO. Fragmento 31, in Os pré-socráticos: fragmentos, doxografia e comentários. Tradução de Paulo F. Flor. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

 

IDEM. Fragmento 47, in ibidem.

 

1Arendt fala especificamente de uma crise ideológica que afeta vários campos, inclusive a educação. É uma crise “na” educação, no sentido de que ela vem de fora e afeta a educação. Não uma crise “da” educação, porque não se origina nela.

 

2ARENDT, página 226.

 

3ARENDT, página 223.

 

4ARENDT, página 235.

 

5ARENDT, página 243.

 

6ARENDT, páginas 237-238.

 

7DEMÓCRITO, página 307.

 

8ARENDT, página 223.

 

9ARENDT, página 228.

 

10ARENDT, página 233.

 

11ARENDT, página 229.

 

12ARENDT, página 231.

 

13ARENDT, páginas 230-231.

 

14DEMÓCRITO, página 305.

 

15ARENDT, página 225.

 

16ARISTÓTELES, Livro I, 981b, 5-10, página 38

 

17ARENDT, página 227.

 

18Esta não é uma expressão redundante; existe metafísica necessária. Mas é desnecessária neste caso porque os críticos estariam atacando uma ideia abstraída de elementos bem materiais. Logo, não é necessário fazer metafísica desse problema.

 

19Para Arendt, a raiz da crise que afeta esses vários campos, política, família e educação, é a forma como encaramos o passado, que levou à contestação do conceito de autoridade. A crise vem do ataque à autoridade nesses diversos campos. Eu não estou dizendo que Arendt pensa que é um problema exclusivamente político, mas que ela pensa que também é político e, com isso, estou de acordo.

 

25 de setembro de 2013

Enjaulados.

A semana filosófica começa na próxima segunda-feira e amanhã poderei escolher os cursos que me interessarem, além de assistir palestras como mulher raivosa. Meu padrão de sono está desarrumado ainda e hoje nem consegui tirar uma soneca decente à tarde. Pelo menos assim posso tentar dormir cedo. Nem consegui tirar a droga das cópias de que precisava. Uma pena.
De toda forma, este felino preguiçoso que vos fala irá apresentar-se amanhã. Aqui vai o texto da apresentação de Psicologia da Aprendizagem para os pescadores de trabalhos…

Enjaulados (Detention ou Learning Curve), 1998, de Andy Anderson.

Yure Kitten

Há quatro tipos de personagens: o professor, os funcionários da escola, o aluno que quer realmente estudar e os alunos ditos “baderneiros”. O professor (que é substituto) é humilhado constantemente pelos alunos daquela escola, que desencorajam todos os outros funcionários. Os funcionários são oprimidos pelos alunos, tanto moralmente quanto fisicamente, e não querem entrar em conflito com os interesses deles (logo não há lições de formação humana ou filosofia ou qualquer coisa que poderia incitar um debate). Os alunos baderneiros, obviamente, atrapalham os poucos alunos que realmente querem aprender.
O professor substituto tinha de aturar a conduta dos alunos e fez o possível para manter o controle. Mas, certo dia, uma de suas colegas foi atacada por uma aluna e espancada violentamente. Vendo que a situação era realmente desesperadora, o professor resolveu que mudaria a conduta de seus alunos de alguma forma. Ele organizou uma excursão com os alunos e deu-lhes lanche no ônibus, mas o lanche tinha sedativos. Quando os alunos adormeceram, foram levados ao mato, onde havia uma grande jaula circular. Eles tiveram suas roupas confiscadas e foram colocados dentro da jaula enquanto ainda dormiam… até serem acordados por uma alta e irritante música que repetia por horas. As barras da jaula eram eletrificadas e o professor lhes ministrou aulas do lado de fora. À medida que as notas dos alunos subiam, eles recebiam suas roupas de volta, ganhavam direito de tomar banho e outras coisas do tipo. Os que insistiam em desrespeitar o professor eram eletrocutados. Apesar disso, com o passar do tempo, eles ficavam cada vez mais dóceis e passaram a respeitar o professor, além de terem aprendido lições de moral e respeito durante o cativeiro.
O filme carrega a mensagem de que o comportamento de um ser humano normal sempre pode ser corrigido mediante o estímulo correto, mesmo que extremo.
Heráclito professou que todos têm uma coisa chamada “logos”, palavra de difícil tradução que pode ter significados como “palavra, enunciado, definição, discurso, explicação, cálculo, medida, avaliação, razão, causa, pensamento, necessidade e outros mais” (NICOLA, p18). Porém, não são todos os que sabem dessa faculdade. A maioria das pessoas ignora o logos que elas têm por causa de outras coisas, geralmente mais baixas. No caso dos meninos do filme, eles queriam subjugar os professores e fazer valer seus desejos egoístas, repelindo sistematicamente qualquer forma de educação. Porque isso lhes dava uma imagem aceitável perante outros alunos. Os alunos que não participavam dessa busca pela imagem de aluno “bad boy” eram excluídos. Não são todos que se dedicam a elevação de bens espirituais como a sabedoria e a razão, principalmente hoje, num mundo saturado de respostas prontas e distrações que impedem as pessoas de dedicarem tempo aos significados, às definições, às explicações, à avaliação, às razões. Principalmente hoje, o logos é de poucos que resolvem trilhar o árduo caminho de fazer dele um meio de viver, como a filosofia e a ciência.
Ainda assim, pessoas ignorantes, isto é, os que não sabem e não querem saber, julgam-se espertas, inteligentes, tornando-se arrogantes e prepotentes por saberem das coisas imediatas e rejeitarem qualquer coisa que não tenha utilidade à curto prazo. Muitos, apesar disso, respeitam aqueles que têm autoridade e cujos títulos sugerem que seus detentores são mais sábios, mas existem aqueles que rejeitam mesmo essas autoridades por aceitarem como meio de vida aquilo que elas acreditam ser sem valor, por ser difícil, desgastante. Essas pessoas rejeitam e zombam dos professores, dos filósofos, dos cientistas, por dedicarem-se à trabalhos difíceis e ficarem à sombra de celebridades fúteis que recebem atenção e dinheiro. Elas cultuam a ignorância como forma de status e a balanceiam com “esperteza”, pragmatismo e cinismo. Assim, basta ser “esperto”, levar vantagem e fazer o mínimo de esforço. Similar ao que acontecia nos tempos de Sócrates, quando ele notou que é importante saber que não se sabe, porque, quando você acha que sabe de tudo que é realmente importante à sua vida, você se fecha para novos conhecimentos ou os descarta como fúteis. Os alunos realmente não queriam aprender nada da escola, porque consideravam que o que se aprende na escola é difícil, árduo e simplesmente irrelevante. Aprender o conteúdo escolar não era necessário; pra quê estudar aquilo? Os alunos se achavam “espertos” ao rejeitarem aquilo que não tinha utilidade imediata e, cheios de si, julgavam já saber o necessário para viver. Algo similar ao aluno cuja única aspiração é aprender uma profissão técnica e ganhar dinheiro. Isso é uma baixíssima manifestação de egoísmo e ignorância.
Por outro lado, o sofista Górgias já havia associado palavra à magia. Existem palavras capazes de incitar ou acalmar emoções, palavras que até mesmo podem desencadear reações físicas como o rubor (NICOLA, p46). Palavras podem mudar o comportamento de alguém. O professor, durante o cativeiro, faz alguns discursos aos seus alunos que são forçados a prestar atenção e, pouco a pouco, mudam de comportamento.
Galileu (NICOLA, p212) narrou certa vez uma dissecação pública que pôs em evidência que os nervos partem do cérebro, não do coração, como dizia Aristóteles. Um aprendiz da escola aristotélica foi então testado, após ver a dissecação com seus próprios olhos. Foi-lhe perguntado se sua opinião quanto a Aristóteles havia mudado e ele respondeu que, mesmo tendo provas o bastante de que Aristóteles estava errado, preferiu acreditar no que lhe foi oferecido pela sua escola. Talvez os alunos do filme tenham resistido à educação moral dos professores anteriores por já terem sido ensinados o contrário em algum outro lugar, como a família. Metade da educação vem de casa. Os alunos são, em sua maioria, rebeldes sem causa, desajustados, provavelmente vindo de famílias desequilibradas. Como ensinar que se deve dizer a verdade quando o aluno já aceita que mentir para levar vantagem é sempre válido? Especialmente porque, diferente do caso de Galileu, você raramente tem um caso concreto que possa servir de prova irrefutável, enquanto que o aluno provavelmente já se aproveitou da ignorância dos outros no passado e obteve bons resultados.
Isso, no final, lembra da célebre tese de Hobbes, de que o ser humano não é um animal bom por natureza como queria Rousseau, mas perverso, violento e covarde, que deve ser educado da maneira correta e devidamente coibido pela vida em sociedade. Num artigo da revista Superinteressante havia o seguinte:
“Os bebês só não matam uns aos outros porque não lhes damos acesso a facas e revólveres”, disse o pediatra e psicólogo Richard Tremblay, da Universidade de Montreal, em uma entrevista à revista americana Science. A grande questão, ele completa, não é como as crianças aprendem a agredir, mas como elas aprendem a não fazer isso (VERSIGNASSI, REZENDE).
O professor, na sala de aula, é imbuído de um certo nível de autoridade. Será que o professor, como o Príncipe, deveria conhecer técnicas políticas para evitar uma “rebelião”, como ressalva Maquiavel? Em Maquiavel, existem virtudes a serem evitadas (NICOLA, p193). O professor não pode ser manso demais, não pode ser mesmo muito “bonzinho”. Também há “vícios” que devem ser empregados, como a devida punição proporcional ao erro, mesmo que o professor tenha que recorrer a superiores. Por outro lado, não pode abusar de seu poder para não atrair o ódio dos súditos (ou alunos) bem como não pode abusar das recompensas para não parecer fraco. Mas o professor no filme foi bem maquiavélico ao escolher ser temido para só então, durante o cativeiro, ser amado.
Outro fator que poderia levar o aluno a desiludir-se com a escola é algo observado por Husserl: a incapacidade da ciência moderna de responder as questões fundamentais do ser humano. A ciência não é contestada, contudo, não é um problema referente à validade da ciência, mas à capacidade da ciência de dar-nos significado. A ciência ainda não responde de forma satisfatória muitas de nossas questões (NICOLA, p459). Pra quê aprender matemática ou português, por exemplo, se isso não me acrescentar o que quero que me seja acrescentado? Qual o significado da vida? Posso ter segurança no futuro? Infelizmente, a tendência imediatista dos jovens do filme quer respostas prontas e não está disposta nem mesmo às longas elucubrações filosóficas. Isso elimina qualquer forma de responder à essas perguntas e implica o fechamento do aluno à quase todas as disciplinas.
Talvez não houvesse outro meio de se educar a classe, visto que eram alunos violentos, agressivos e perigosos. Que outra solução poderia haver para aquela situação? Ou se apelava para algo extremo como aquilo (o medo) ou se desistia, porque o respeito do aluno não se podia obter. Novamente, embora salas como aquela existam, um filme tende a exagerar para mostrar uma mensagem.
1. ANDERSON, Andy. Enjaulados [filme-vídeo]. Produção de Andy Anderson e direção de Andy Anderson. 1998. 1 DVD, 110 minutos, NTSC, cor, som.
2. NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Maria Margheritta de Luca. São Paulo, 2010.
3. VERSIGNASSI, Alexandre e REZENDE, Rodrigo. Evolução da Evolução. Superinteressante edição 240.

Satisfeitos, docinhos de caju? Bom saber.

18 de setembro de 2013

O Narrador.

O Narrador – Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov – 1936.
1. Que relação existe entre o ensaio O Narrador e Experiência e Pobreza, de 1933?
O ato de narrar um relato é uma consequência da experiência oralmente comunicável, que estava em falta. O Narrador é como que uma continuação de Experiência e Pobreza.
2. Por que Benjamin introduz o ensaio sobre o narrador afirmando que ele não está mais entre nós?
Como dito, o ato de narrar é uma consequência da experiência oralmente comunicável. Sem experiência pra contar, sem necessidade de narrar. Não significa que o narrador deixou de existir, mas que existem poucos e que são distantes. Os traços de narrador, antes comuns a todos, passam a ser ostentados por poucos, servindo como barreira entre eles e as pessoas ditas “comuns”. Também vale lembrar que RPG não existia naquela época.
3. “São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente […] é como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências”. Qual a causa desse fenômeno?
A falta de algo bom para dizer. Narrar sem saber o que narrar normalmente termina numa narração podre, bem se sabe.
4. De que forma o fenômeno da guerra interferiu negativamente para o desaparecimento da narrativa?
[As experiências de guerra,] Como não são experiências úteis à vida dos outros, ficam retidas neles [os soldados], incomunicáveis. A experiência comunicável é a experiência útil que constrói o ouvinte. Mas a experiência de guerra não tem qualquer valor a quem ouve, normalmente.
5. Quais os dois tipos mais característicos de narradores? Por quê?
O narrador estrangeiro, porque”quem vem de longe tem muito o que contar” e o narrador local porque “conhece suas histórias e tradições.”
6 . Quais os representantes dessas figuras entre os autores alemães?
Hebel e Gotthelf pertencem ao tipo A, Sielsfield e Gerstäcker pertencem ao tipo B.
7. Qual o solo propício para o aparecimento do narrador? Como se dá a passagem de um aprendizado ao outro?
O sistema corporativo medieval, em que pessoas eram empregadas de longe, trazendo as experiências de seu povo, e então eram letradas na cultura local. Seria interessante também uns livros de Storyteller.
8. Descreva o aparecimento de Leskov nesse universo da narrativa.
Leskov tinha uma repulsa natural pela burocracia ortodoxa. À serviço, viajou por toda a Rússia, entrando em contato com todo o tipo de gente. Daí começou a escrever contos sobre essa gente engajada contra a burocracia.
9. Qual o personagem principal de Leskov? Qual o tema de seus contos?
O homem comum, justo e ativo, que se torna santo sem ter de passar por todo o lance ortodoxo chato.
10. De que forma o mundo prático entra na narrativa? Qual o estofo dos contos de Gotthelf, Nodier e Hebel?
Na forma de “conselhos” sobre coisas do dia a dia. Como os perigos da iluminação à gás, dicas de agronomia e coisas do gênero misturadas à narrativa.
11. Como se chama o conselho tecido na substância viva da existência? Explique!
Sabedoria. Naturalmente, sabedoria é o saber vindo da experiência, da reflexão, da discussão e da convivência. Ela não se origina nos livros e nas academias, que dizem coisas específicas que talvez você jamais use. A sabedoria difere por ser universal.
12. Comente de que forma o lado épico da verdade está em extinção.
Com o avanço técnico e a perda da experiência comunicável, perde-se esse aspecto épico (onde épico quer dizer histórico; originalmente, épico era o poema que relatava o início de uma civilização).
13. Qual o primeiro indício da morte da narrativa?
A morte da sabedoria. Hoje em dia, Dungeons & Dragons 4.0.
14. O que acelerou o seu aparecimento?
Avanço técnico e a invenção do romance. Hoje em dia, 3D&T Alpha.
15. Qual a diferença entre os dois gêneros: romance e narrativa? Qual a origem do romance?
O romance origina-se com a imprensa. É algo fundamentalmente literário e não oral. Enquanto que a narrativa é fruto da experiência do narrador, o romancista inventa e raramente tem experiência daquilo que escreve.
16. O que aconteceu quando se tentou injetar o exemplo no gênero romance?
Criou-se o romance de formação, que nem é tão diferente assim.
17. Há uma forma de comunicação, estranha à narrativa, que atualmente influencia a forma épica. Que forma é essa? Comente sua natureza!
A informação, que atrai por ser verificável. Um incêndio nas proximidades atrai mais que a revolução num país distante, porque é mais palpável.
18. Com que palavras Vilemessant, o fundador do jornal Figaro, descreveu essa forma de comunicação?
“Para meus leitores”, costumava dizer, “o incêndio num sótão do Quartier Latin é mais importante que uma revolução em Madri”.
19. De que forma se diferenciam informação e narrativa?
A informação pode sempre ser confirmada quanto mais palpável e próxima ela for. Por isso ela atrai.
20. De que maneira a informação inibe a criatividade?
A narrativa frequentemente recorria ao miraculoso. A informação não. Sem o miraculoso, a narrativa fica “seca”, científica, desinteressante. A rica narrativa tradicional, contudo, é deixada de lado por não ser suficientemente crível.
21. Comente os textos “A Fraude” e “A Águia Branca” de Leskov!
Como eu nunca li, tenho de citar Benjamin: “O extraordinário e o miraculoso são narrados com a maior exatidão, mas o contexto psicológico da ação não é imposto ao leitor. Ele é livre para interpretar a história como quiser, e com isso o episódio narrado atinge uma amplitude que não existe na informação.”
22. Descreva o comportamento do rei egípcio Psammenit descrito nas Histórias de Heródoto!
Ele teve de aturar seus filhos tornando-se escravos, mas só ficou desesperado ao ver um de seus servidores ser preso.
23. Explique a frase: “o tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência.”
O descontentamento com o mundo atual abre caminhos para um uso novo daquilo que já foi dito.
24. De que forma o tédio é um condicionamento do nosso tempo? Qual sua origem?
As pessoas de hoje são muito “na delas”. Não conversam mais, não mais contam o que aconteceu de interessante entre elas, e cada vez menos quanto mais trabalham.
25. Comente de que maneira as atividades ligadas ao tédio se extinguiram na cidade.
O trabalho solitário e veloz da cidade, diferente do lento e coletivo trabalho do campo, não permite, por exemplo, que se conte um relato para passar o tempo.
26. Qual a atividade que era exercitada enquanto se contavam histórias?
Trabalho manual.
27. Comente: “assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso.”
Naturalmente, sempre que um conto é narrado, ele é narrado do ponto de vista do narrador. Suas características são impressas no conto, sua personalidade transparece, mesmo que seja apenas na escolha das palavras.
28. De que maneira Paul Valéry descreve o mundo dos artífices?
“O produto precioso de uma longa cadeia de causas semelhantes entre si”.
29. Por que Benjamin olha com melancolia o fim da arte de narrar?
A melancolia é como a saudade, é o olhar para trás. Claro que ele olharia tal fenômeno com melancolia, afinal a narração é uma ótima e valorosa arte, tanto para propósitos de entretenimento, como de conselho e educação, além de ajudar na preservação da história de um povo.
30. “A morte é a sanção de tudo o que o narrador pode contar.” Explique!
A forma como se vive modifica a forma como se morre. Se você narra suas experiências, o ouvinte aprende sobre você e sobre sua história. Quando o narrador morre, os ouvintes podem pensar: “da forma como ele nos disse que viveu, faz sentido ele ter morrido assim.”

7 de setembro de 2013

Experiência e pobreza.

A professora passou-nos uma tarefa. Ela nos deu um papel com trinta e quatro perguntas sobre o texto Experiência e Pobreza de Walter Benjamin. Na segunda-feira, teremos de escrever uma dissertação que responda a essas perguntas. Como de costume, sempre que estudo, ponho os resultados aqui.
1. De que forma Benjamin expõe a teoria do fim da mediação da tradição?
Ele comenta que não mais se tem interesse em passar a experiência de geração à geração. Os livros, a ciência, todas essas coisas são, necessariamente, contra a tradição popular. A ciência é autofágica, sempre se renova, devorando a si mesma. O que é velho não serve mais numa sociedade cientificista.
2. Qual a metáfora que ele utiliza para comentá-la?
Uma parábola em que um velho homem diz aos seus filhos que há um tesouro enterrado em seus vinhedos. O homem morre e os filhos começam a cavar a terra, mas sem achar nada, até que descobrem que os vinhedos são muitíssimo férteis, aprendendo assim, através da metáfora do pai, que o verdadeiro tesouro é o trabalho. Ao comparar essa parábola com o mundo de hoje, Benjamin torna claro que o conselho dos mais velhos não é mais tão levado em conta como antigamente e que a sabedoria oral cumulativa não mais interessa. O que interessa é o conhecimento científico.
3. Defina a autoridade.
É uma qualidade dada à uma pessoa por aqueles que decidem que ela é mais capaz em algum aspecto. Ligada ao renome e à sabedoria, a autoridade é uma qualidade que reveste o indivíduo de liderança, pois subtende-se que ele é capaz de comandar. A autoridade, contudo, diferencia do autoritarismo que é a autoridade usurpada e abusada. Ao passo que a autoridade relaciona com o respeito, o autoritarismo relaciona com o medo.
4. Que experiências os soldados aprendem na guerra?
Experiências horríveis, as quais eles gostariam de esquecer. Como não são experiências úteis à vida dos outros, ficam retidas neles, incomunicáveis. A experiência comunicável é a experiência útil que constrói o ouvinte. Mas a experiência de guerra não tem qualquer valor a quem ouve, normalmente.
5. Questão cinco eliminada.
6. O que provoca o desaparecimento da experiência?
A falta de experiências comunicáveis que passam adiante. Também a falta de quem as leve em consideração. As pessoas tentam sempre começar do zero, ignorando o que veio antes e submetendo o mundo ao seu julgamento, ignorando o progresso contínuo que foi feito até a geração anterior. Fora que experiências construtivas ficam cada vez mais escassas.
7. O que significa “uma geração […] viu-se abandonada numa paisagem diferente em tudo”?
Benjamin refere-se ao pessoal que foi mandado pra guerra. Sem preparo para o que estavam por ver e sentir, ficavam desnorteados. Pode-se aprender sobre guerra nos livros, de fato, mas a primeira experiência com a guerra é sempre traumática. Você não sabe o que é a guerra se nunca participou de uma.
8. O que significa a expressão “a angustiante riqueza de ideias”?
O oposto da miséria que surgiu com o desenvolvimento da técnica. Benjamin refere-se à astrologia, ioga, ciência cristã, quiromancia e outros mais. É como um resgate, uma renovação, dos saberes que, apesar de não pactuarem com a ciência tradicional, funcionam e podem ser comunicados por serem construtivos. Fazem parte do patrimônio cultural.
9. Comente a frase “a cópia da Renascença terrível e caótica”.
A variedade de costumes e estímulos que, apesar de serem patrimônio, são vagos e sem sentido quando abstraídos da experiência e da memória.
10. Explique “qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural se a experiência não o vincula mais a nós?”.
Talvez tenhamos estátuas erguidas a heróis, por exemplo, mas não saibamos a história deles. Os monumentos, as homenagens e os costumes tornam-se mera repetição automática quando a memória não é capaz de associá-los às suas raízes, origens e razões por trás.
11. O que significa “a pobreza da experiência”?
É exatamente a tradição sem a memória. Não temos experiências boas para contar nem experiências capazes de construir a geração seguinte quando, tentados pelas novidades, jogamos o passado fora para começar do zero.
12. Comente a barbárie! O que é o bárbaro?
Eliminar o passado, contudo, tem um lado positivo: a barbárie positiva. Começar do zero, de formas criativas, pode gerar experiências novas para gerações futuras. Não que não seja ruim esquecer os porquês da tradição, mas, ao fazer isso, há a possibilidade da construção de uma nova cultura.
13. Qual a crítica que Benjamin faz à tradição?
A tradição do tempo de Benjamin não trazia consigo seus significados. Você pode dizer que alguém deve perdoar o próximo, mas por que perdoar? Os rituais, monumentos, feriados estavam desprovidos de propósito, visto que sua história estava sendo esquecida.
14. Que exemplo ele tira de Descartes? E de Einstein?
Descartes foi um bárbaro ao jogar toda a tradição filosófica fora provisoriamente para ficar apenas com aquilo que absolutamente fosse indubitável (que, por sinal, foi algo que ele encontrou, o cogito). Daí ele partiu. Einstein foi um bárbaro quando perdeu o interesse pelo resto da física para dedicar-se apenas às incoerências entre a física newtoniana e suas observações astronômicas.
15. Que significado Benjamin atribui ao termo “ao que está dentro” em oposição à interioridade?
O que está dentro é o motor que impele ao movimento, isto é, a necessidade, próximo da inspiração artística em Schelling (o impulso para criação). Não corresponde à subjetividade (interioridade).
16. Que relação existe aqui entre a crítica e a engenharia?
A crítica ao seu tempo é compatível com a engenharia daquele tempo que, ao surgir dos recursos materiais de um período histórico, impulsiona às mentes ao futuro, mudando a época e a forma do indivíduo de agir e pensar. A frase “[…] rejeitam o homem tradicional, solene, nobre, adornado com todas as oferendas do passado, para dirigir-se ao contemporâneo nu, deitado como um recém-nascido nas fraldas sujas de sua época” me toca.
17. Explique as frase: “desilusão radical com o século” e “total fidelidade a esse século”.
Desilusão porque ocorre a rejeição do passado e o desajuste da pessoa às outras que preferem agarrar-se a ele. Fidelidade porque não se é possível criar algo novo a partir do nada, logo é necessário usar os materiais existentes em seu tempo de uma forma inusitada. Não é possível, por mais que você odeie seu período histórico, fazer algo muito além dele.
18. O que significa para Brecht ser o comunismo “a repartição da pobreza e não da riqueza”?
É necessário entender o comunismo para entender essa crítica e o comunismo não é explicado no texto, mas vamos lá… O comunismo é a repartição igualitária de bens seguindo os conceitos de “ao necessitado o que ele precisa” e “do hábil o que ele produz”. O único jeito de essa crítica ter cabimento seria se o Estado não tivesse recursos o bastante para todos, o que faria com que a parte devida a cada um fosse muito pequena. A riqueza, antes nas mãos de poucos, passaria a estar nas mãos de ninguém.
19. O que significa para Loos a frase “Não escrevo para os nostálgicos da Renascença e do Rococó”?
Loos escrevia sobre coisas inovadoras, para gente com uma “sensibilidade moderna”. Ele não era um exaltador da melancolia.
20. O que é rejeitado na imagem do homem tradicional?
Como diz o texto: tradicionalidade, solenidade, nobreza, adornos com oferendas do passado.
21. Como se pode definir a crítica de Scheerbart?
Por meio de seus romances, Scheebart não descreve a realidade, mas como ela seria no futuro, quando a tecnologia mudou o ser humano e sua linguagem. Não dá, em seus romances, nomes “humanos”, como Pedro ou qualquer coisa dessa natureza, mas os nomeia conforme essa nova linguagem que nada tem a ver com o humano atual. Descrever o presente não é construtivo o bastante; é necessário voltar os olhos para as possibilidades de futuro arbitrário e inorgânico.
22. Por que hospedar em casas de vidro?
Porque o vidro translúcido é inimigo do segredo e da propriedade. Amigo também dos vizinhos tarados. O vidro, sendo um material no qual nada se fixa, deixa espaços vazios, abertos, nas paredes, no teto e no chão.
23. Compare uma casa de vidro com um dormitório dos anos oitenta!
É de lascar; nasci em 1992. Mas… nos anos oitenta, um dormitório era cheio de adornos, poltronas, estantes e tudo o mais que poderia consumir espaço. Não havia mais o que ser feito. Diferente da casa de vidro com paredes heterogêneas à qualquer quadro.
24. O que significa “as coisas de vidro não tem nenhuma aura?”.
Que são neutras, vagas, puras. Precisam de alguém que lhes adicione algo. Resposta vaga essa…
25. No ensaio de 1929 “O Surrealismo”, Benjamin havia dito: “Viver numa casa de vidro é uma virtude revolucionária por excelência. Também isso é embriaguez. Um exibicionismo moral que nos é extremamente necessário.” No presente artigo ele fala que “as coisas de vidro não tem nenhuma aura”. Relacione as duas afirmações.
A ausência de aura de um objeto realça as virtudes do dono. São coisas vagas que não dizem nada, logo você volta-se ao detentor do objeto. Viver numa casa de vidro é viver exposto, sem nada a esconder (eu passo, obrigado), nem nada que dê algo a mais a entender além daquilo que lhe é essencial.
26. Descreva o comportamento de um habitante em um interior burguês ao se quebrar algum objeto!
Eles ficam encolerizados, porque os rastros deles que foram deixados no lugar foram violados.
27. Qual a relação do comportamento com a arquitetura?
A aversão a esse comportamento pactua com o estilo arquitetônico Bauhaus. É um estilo reto, simétrico, resistente, onde é difícil deixar vestígio.
28. “Os homens aspiram libertar-se de toda a experiência.” Comente.
Eles querem começar de novo, negam a tradição e visam a novidade. É um momento em que nada dura muito.
29. O que significa a existência do camundongo Mickey?
A “existência cheia de milagres, que não somente superam os milagres técnicos como zombam deles”.
30. Qual o sentido da técnica para Benjamin?
Acomodar o indivíduo cercado pelas dificuldades diárias da vida.
31. Explique “um automóvel não pesa mais que um chapéu de palha.”
Refere-se ao desenho do Mickey, óbvio. À fantasia das pessoas fatigadas com as complicações da vida.
32. Que espaço existe para a vida?
Sei lá. Que tipo de pergunta é essa? O texto nada fala a respeito e responder fora do texto implica oferecer uma variedade de respostas de diferentes autores ou mesmo a minha. Tenho que responder pessoal? Se for, existe o espaço vazio que espera nosso conteúdo.
33. Como é avaliada a inversão de sentido?
Boa pergunta… Acho que como uma coisa nem completamente boa nem completamente ruim, por razões já discutidas.
34. O que recebemos em troca do “patrimônio cultural”?
“A miúda moeda do atual.”
35. O que significa a “capacidade de renúncia”?
A capacidade de negar o passado para dedicar-se ao incerto futuro.

23 de janeiro de 2013

Sem sono.

UECE – Aluno On-Line.

Desliguei o computador às vinte e três horas, com sono, mas fui me deitar, dei uma necessária patada e depois não consegui mais dormir. Resolvi checar o Aluno Online para ver se os reajustes de matrícula já estavam de pé e, para minha surpresa, estavam. Corrigi meus enganos e inclui disciplinas de acordo com minha disponibilidade, que é alta.

  • Tópicos de filosofia nível um.
  • Ética nível três.
  • Filosofia da educação nível um.
  • Psicologia da aprendizagem.

Eu faria mais se me fossem ofertadas disciplinas no primeiro horário das sextas-feiras, mas é a vida. Que bom que este será um semestre produtivo. Mal posso esperar para começar.

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