Analecto

18 de agosto de 2019

O que aprendi lendo “Antologia Ilustrada de Filosofia”.

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“Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna” foi escrita por Ubaldo Nicola. Abaixo, o que aprendi lendo esse livro.

  1. Livros de filosofia até que vendem bem.
  2. Isso mostra que há uma demanda pelo pensamento filosófico.
  3. Infelizmente, os livros de filosofia que são lançados são acadêmicos demais pra serem totalmente aproveitados por pessoas que nunca estudaram filosofia antes.
  4. Livros de filosofia vêm em diferentes graus de dificuldade: uma coisa é ler O Banquete; outra, totalmente diferente, é ler Ser e Tempo.
  5. A ideia do livro é apresentar os textos filosóficos que o autor considera importantes, mas de uma forma que o leigo possa entender e sem simplificar o texto.
  6. Assim, os trabalhos de cinquenta filósofos tiveram suas essências citadas (isto é, literalmente transcritas), mas cada parágrafo vem acompanhado de uma frase que sintetiza o parágrafo, de forma que o sujeito possa ler o texto e, se não entender, ler as sínteses ao lado de cada parágrafo.
  7. O critério pra escolha dos duzentos textos filosóficos que foram citados é o seu impacto: só as obras mais influentes foram escolhidas.
  8. Assim, duzentos textos, de cinquenta autores (com resumo biográfico de cada autor).
  9. O livro pode ser lido cronologicamente (do início ao fim) ou de forma exploratória (o leitor pensa numa pergunta e vê como diferentes filósofos respondem a essa pergunta).
  10. Para Aristóteles, a filosofia começa com os milésios, porquanto eles foram os primeiros a procurar causas racionalmente inteligíveis para o universo.
  11. Assim, a filosofia começa quando você começa a raciocinar, em vez de simplesmente aceitar o que disseram a você (no caso, a tradição mítica grega tinha que ser substituída pela razão).
  12. Esse raciocínio pode ser pautado na lógica, na experiência ou nas duas coisas.
  13. Uma resposta racional nem sempre está correta, porém.
  14. Os primeiros filósofos buscavam na natureza a causa para acontecimentos naturais, em vez de recorrer ao sobrenatural.
  15. Se tudo é feito de uma substância só, então nada se cria e nem se destrói: tudo o que vemos, ouvimos e sentimos é uma variação da mesma substância ou das mesmas substâncias.
  16. “Monismo” é a crença, racional ou não, de que tudo deriva de um princípio fundamental, único, que pode ser a água, o “infinito” ou o ar, por exemplo.
  17. Assim, no monismo, um elemento fundamental cria os outros ao se modificar.
  18. Por exemplo, para Anaxímenes, todos os elementos derivam, por transformação, do ar.
  19. De forma metafórica, isso é como dizer que tudo é ar.
  20. “Dualismo” é como o monismo, mas que admite dois princípios, em vez de um só.
  21. Já o “pluralismo” defende que a realidade se origina de vários princípios.
  22. Nem todos os filósofos antigos viam o mundo como fruto de causas exclusivamente materiais.
  23. O fato de alguém ser filósofo não indica que esse cara será um democrata.
  24. Por exemplo: para Heráclito, a opinião da maioria, se for a pior, não deveria prevalecer sobre a de um só, se for a melhor.
  25. Assim, se a verdade estiver com um só cara, o fato de a maioria discordar dele não faz com que ele esteja errado e nem justifica a não aceitação da verdade pelas massas.
  26. Se a minoria tiver razão, a opinião da maioria vale menos.
  27. A maioria das pessoas é incapaz de ouvir a razão, mesmo que todos sejam capazes de raciocinar.
  28. É como ter uma habilidade que não se usa ou como ter uma habilidade sem ser capaz de usá-la direito.
  29. A oposição de contrários gera coisas novas.
  30. A razão está em nós e também no universo, que é racional.
  31. Agir sem raciocinar é não estar consciente do que se está fazendo.
  32. A maioria procura objetivos transitórios, mas uma minoria, com razão, procura objetivos estáveis ou eternos.
  33. Tudo está em constante mudança, nada permanece no mesmo estado.
  34. A mudança é típica da vida: só o que está completamente morto não muda (“completamente” porque até cadáveres mudam de estado).
  35. Algumas mudanças são imperceptíveis, mas isso não quer dizer que não aconteçam.
  36. O conflito entre opostos cria coisas novas e situações novas, enquanto que a paz estanca a mudança.
  37. Isso não quer dizer que o universo está em guerra consigo mesmo, mas que esse conflito é necessário para sua harmonia: se um lado vencer o outro, a mudança também acaba.
  38. A vida é luta.
  39. A subida é uma ladeira abaixo pra quem está no topo.
  40. “Devir” é a ida de um extremo a outro (não necessariamente de forma súbita, podendo ser gradual).
  41. Tudo indica que o termo “filósofo” foi inventado por Pitágoras, o qual fundou uma seita aristocrática contra a qual o povo se rebelou.
  42. Existem gritantes correspondências entre a natureza e a matemática.
  43. Grande progresso matemático foi proporcionado pelos pitagóricos, que acreditavam que toda a realidade podia ser matematizada, inclusive a justiça, o intelecto e outras coisas que nós hoje não matematizamos.
  44. Os pitagóricos, claro, associavam a música à matemática.
  45. Cada estrutura geométrica pode ser expressa numericamente.
  46. A matemática “de verdade” começa com Pitágoras, que deu a ela um tratamento científico.
  47. Plantas são seres vivos, e os pitagóricos afirmavam isso numa época em que ninguém pensava assim.
  48. Animais sonham.
  49. Um sonho pode prenunciar uma doença.
  50. Permanecemos vivos enquanto nossos componentes permanecem em harmonia.
  51. Saúde é harmonia física, virtude é a harmonia moral.
  52. Amizade também é um tipo de harmonia.
  53. Se uma substância contamina, evite-a.
  54. Não se deve honrar aos homens e a Deus da mesma forma.
  55. A teoria da transmigração das almas ainda é professada entre budistas.
  56. Os sentidos nos dão impressões, não verdades, às quais só se pode ascender pela razão (por exemplo, o Sol parece pequeno da Terra, mas é pela razão que sabemos que ele não é do tamanho que parece ter).
  57. Não é possível pensar o nada, tal como não é possível ver o escuro ou escutar o silêncio.
  58. Nem todos têm condições de alcançar a verdade.
  59. Metafísica é o estudo do ser em geral.
  60. Verdade e opinião são coisas diferentes: a verdade é sustentada pela lógica (mesmo quando sua conclusão contradiz os sentidos) e a opinião é sustentada pelos sentidos (mesmo quando sua conclusão contradiz a lógica).
  61. Uma opinião pode ser verdadeira, quando ela é lógica e também sensorialmente verificável.
  62. Por vezes, por acidente, nos referimos a algo que não existe como se existisse.
  63. Não é possível chegar a verdade somente pelos sentidos.
  64. Se algo só “existe” no futuro, ele não existe.
  65. O nada é infértil.
  66. Quando não puder provar sua tese, prove que a tese oposta está errada.
  67. Se sua tese não é muito boa, prove que a tese oposta é pior.
  68. A soma de repousos não produz movimento.
  69. A matéria coexiste com o vazio.
  70. Algo não pode ser infinitamente dividido.
  71. Na matemática, algo pode ser infinitamente dividido; na natureza, não.
  72. Nosso mundo não é o único que existe.
  73. “Determinismo” é a ideia de que tudo é explicável por necessidade causal, de forma que não existe acaso, o que permite a elaboração de leis pra prever fenômenos.
  74. Qualidades subjetivas que atribuímos às coisas (como cor e sabor) não existem objetivamente, sendo geradas em nós quando entramos em contato com as coisas.
  75. Nossa linguagem é convencional: chamamos um gato de “gato” porque alguém deu esse nome ao bicho sabe-se lá por que, não porque o gato tem alguma coisa que nos predispõe a chamá-lo assim.
  76. Isso quer dizer que os sons das palavras não guardam relação com o objeto que tais palavras nomeiam.
  77. Se as coisas tivessem algo que nos predispusesse a chamá-las por algum nome em particular, deveria haver só uma língua no mundo.
  78. A linguagem humana depende da socialização: não haveria necessidade de palavras se não tivéssemos que nos comunicar.
  79. Uma palavra é atribuída a um objeto quando determinado grupo concorda que tal objeto deve ser nomeado dessa forma (daí a criação de gírias).
  80. É porque somos úteis uns aos outros que as sociedades são formadas: nenhum ser humano é capaz de sobreviver estando totalmente só.
  81. “Materialismo” é a ideia de que todos os fenômenos naturais têm causas exclusivamente materiais e mecânicas.
  82. Se a verdade não existe, tudo é opinião e, se tudo é opinião, a arte mais útil é a de convencer os outros de que sua opinião é a melhor (não necessariamente “correta”, mas melhor apenas).
  83. Algo racionalmente demonstrável pode estar errado: para algo ser verdade, não basta ser racional, é preciso também que seja real.
  84. Quando você não souber qual opinião é a verdadeira, fique com a que é mais útil a você e aos outros.
  85. Donde decorre que, mesmo que a verdade não existisse, mesmo se tudo fosse questão de opinião, a educação ainda seria necessária, não para chegar à verdade, mas pra que nos guiemos a fim de vivermos melhor.
  86. Cada pessoa percebe o mundo de uma maneira particular.
  87. O objetivo da educação é o aperfeiçoamento do aluno.

  88. Nossas formas de perceber o mundo são condicionais: se eu estiver doente e meus sentidos forem afetados, eu perceberei o mundo de maneira temporariamente diferente.

  89. Inteligência não é percepção: o daltônico não é mais burro que outra pessoa por não ser capaz de dizer a diferença entre esta e aquela cor.

  90. Se o daltônico, por exemplo, não gosta de ser daltônico e tiver meios de deixar de ser daltônico, deixe-o ser feliz (o mesmo é válido para qualquer outro que não gosta de sua condição).

  91. Palavras e discursos construtivos são medicamentos.

  92. As pessoas de “ânimo fraco” se beneficiariam de aprender com pessoas de “ânimo forte”.

  93. Se uma pessoa não acredita que uma boa opinião é, de fato, boa, você deve convencê-la, para que ela não aceite o mal por ignorância.

  94. Se o professor tem o dever de aperfeiçoar o aluno, não é justo que ele trabalhe de graça.

  95. Se a pessoa tiver boa educação, fará escolhas melhores.

  96. “Fenomenismo” é a doutrina segundo a qual não podemos conhecer a realidade objetivamente, mas somente sua aparência, seus sons, suas impressões, os quais podem não coincidir com a realidade de fato.

  97. “Relativismo” é a ideia de que não exitem verdades absolutas.

  98. “Retórica” é o uso das palavras como instrumentos para exercício de poder.

  99. Convencer (mudar a opinião de alguém através da razão) não é o mesmo que persuadir (mudar a opinião de alguém através da emoção).

  100. Você pode convencer uma pessoa de algo que você considera verdade, mas você também pode persuadi-la a aceitar algo que você considera mentira.

  101. O convencimento tem pretensão de ser aplicável a qualquer audiência, mas a persuasão só funciona com determinados públicos.

  102. A persuasão funciona mais vezes que o convencimento.

  103. Aprenda a tirar vantagem da ocasião.

  104. Algumas pessoas sustentam um ponto de vista e, quando são bem pagas, passam a sustentar o ponto de vista oposto.

  105. Um orador pode não acreditar no que ele mesmo está dizendo.

  106. Não é possível que algo exista e não exista ao mesmo tempo.

  107. A palavra opera em nível racional, mas também em nível irracional, como um gatilho emocional, que pode mesmo incitar reações físicas, como o choro e a aceleração do ritmo cardíaco.

  108. Palavras podem desencadear luxúria, a qual, em uma pessoa frágil, ofusca o raciocínio, levando a pessoa a fazer coisas de que depois se arrepende.

  109. Por causa disso, a linguagem pode servir para manipular os outros, incitando emoções até que o raciocínio seja suspenso.

  110. Palavras alteram o estado de espírito: tome a poesia como exemplo.

  111. Só é possível mentir pra quem não sabe a verdade ou dela não está seguro.

  112. Também é possível usar palavras pra acalmar emoções.

  113. Claro que a palavra pode ser usada de forma construtiva.

  114. Ouvir histórias sobre a vida de outros também suscita emoções.

  115. A mentira se aproveita dos erros do espírito alheio.

  116. Um discurso não precisa ser verdadeiro pra funcionar, só bem construído.

  117. Leigos não são os únicos a mentir: filósofos e cientistas também podem mentir.

  118. Palavras são como fármacos: funcionam diferentemente dependendo da situação e da pessoa.

  119. Com palavras, você pode destruir a pessoa além do ponto em que se pode ter qualquer esperança de reparo.

  120. Com a palavra se absolve o criminoso.

  121. Se você não sabe da sua própria ignorância, pensará que sabe tudo e não quererá aprender e nem se corrigir.

  122. Quando não souber a resposta, não finja que sabe.

  123. Pra aprender, é preciso reconhecer que você ainda não sabe aquilo que deseja aprender.

  124. Por causa disso, pessoas de cabeça dura não aprendem com seus erros, já que não admitem quando estão erradas, nem admitem que não sabem o que estão fazendo.

  125. Se você não sabe, pergunte.

  126. Se alguém não admite a própria ignorância, tal pessoa não pode se dizer “sábia”.

  127. Esse comportamento é comum entre políticos, oradores e poetas.

  128. Buscar sabedoria pode ser perigoso.

  129. Uma coisa é ser sábio, outra é se dizer sábio.

  130. Quando você expõe a ignorância de alguém, esse alguém pode ficar com raiva.

  131. Acreditar saber não é o mesmo que saber.

  132. Sábios de verdade são humildes, não arrogantes.

  133. Artistas trabalham com inspiração, razão pela qual eles nem sempre têm condições de explicar os próprios trabalhos.

  134. O escritor de ficção nem sempre conhece a fundo os temas sobre os quais escreve.

  135. Assim, ninguém é mais sábio que os outros por ser artista, escritor ou músico.

  136. A correção provoca rancor no falso sábio.

  137. Infelizmente, parece que os mais sábios dos homens habitam as mais baixas camadas sociais.

  138. Os mais sábios são tidos e menor conta, são esquecidos ou ignorados.

  139. A sabedoria é interdisciplinar: alguém é sábio quando seu conhecimento serve em muitas áreas, não somente em uma.

  140. Quando um ignorante descobre que é ignorante, já adquire alguma sabedoria.

  141. Aliás, estar ciente da sua ignorância já te desqualifica como totalmente ignorante.

  142. O conhecimento divino não é o conhecimento humano.

  143. Desmascarar a ignorância dos falsos sábios é uma responsabilidade civil.

  144. Ser bom naquilo que você faz não te torna bom em tudo.

  145. Não fale do que você não conhece.

  146. A sabedoria humana nada vale diante da sabedoria divina.

  147. A sabedoria sozinha não traz riqueza.

  148. “Ironia” é o uso de uma palavra com o sentido oposto ao usual.

  149. “Maiêutica” é a técnica de levar uma pessoa a determinada conclusão utilizando apenas perguntas, sem oferecer respostas.

  150. “Humanismo” é a ideia de que a filosofia deve incluir os problemas humanos em sua reflexão, em vez de se ocupar apenas da natureza da matéria e dos corpos.

  151. “Conceito” é qualquer conteúdo da mente, qualquer ideia, geralmente nomeável com um termo genérico (conceito de “cadeira”, por exemplo).

  152. Nem sempre somos capazes de definir claramente as palavras que usamos.

  153. A verdade é uma busca pessoal, a filosofia é o método pra chegar lá.

  154. A filosofia deve aperfeiçoar quem a usa.

  155. Aperfeiçoar alguma coisa implica conhecê-la.

  156. Se você deve se aperfeiçoar, você deve se conhecer, o que não é fácil.

  157. Nós nos conhecemos nos comparando com outros.

  158. Nem todos são capazes de se conhecer totalmente.

  159. Cuidar de si próprio requer conhecer a si próprio.

  160. Conhecer a si mesmo implica conhecer sua alma.

  161. Se conhecer também implica se reconhecer no outro.

  162. Analise sua mente.

  163. Você não pode ajudar bem outra pessoa a passar por uma experiência pela qual você não passou.

  164. Uma pessoa que domina bem uma arte pode ter vergonha de executá-la se houver outras pessoas que exerçam mal a mesma arte ou arte parecida.

  165. Se você não pode ajudar no progresso de alguém, encaminhe-o a quem possa.

  166. O papel do filósofo é ajudar os outros a encontrar a verdade, não encontrar a verdade pra eles.

  167. Não, o aluno do filósofo deve fazer esforço.

  168. Algumas mentiras nos são tão caras que atacamos quem nos diz a verdade.

  169. Deus não quer mal aos homens.

  170. A imperfeição do corpo e o condicionamento social dificultam a apreciação da verdade.

  171. Se a morte é o fim, não é diferente, do ponto de vista do que morre, de pegar no sono ou de desmaiar.

  172. Se a morte não é o fim, a vida continua.

  173. Alguns prisioneiros bem que gostariam de receber uma pena de morte, de forma que, pra eles, a morte não seria uma pena.

  174. Matar alguém que não se importa em morrer não é punição.

  175. Uma sentença emitida de é digna de repreensão.

  176. Siga bons exemplos.

  177. Quem pratica filosofia acaba se aplicando à política de alguma forma.

  178. Os mais sábios deviam governar.

  179. Se não puder ser político, ao menos funde uma escola.

  180. Concluir que o conhecimento é impossível te tornará preguiçoso.

  181. “Anamnese” (ou “reminiscência” ou “redespertar”) é a doutrina mística segundo a qual a alma é capaz de recordar aprendizados que contraiu antes de encarnar no atual corpo.

  182. Quando vemos algo, essa coisa pode nos lembrar de outra coisa.

  183. Esquecer é perder conhecimento.

  184. Lembrar é recuperar conhecimento perdido.

  185. Depois que você aprende a verdade, passa a se sentir desconfortável em meio aos que não conhecem a verdade.

  186. Mas se isolar numa bolha inutiliza essa verdade; quem sabe a verdade tem o dever de contá-la aos outros.

  187. Agora, se acreditarão, isso é outra história.

  188. Se a mentira é a única coisa com que você entra em contato ao longo de toda a sua vida, tal mentira será real pra você, será a “sua verdade”.

  189. A primeira contemplação da verdade pode causar dor e desconforto.

  190. Por causa disso, muitos consideram a verdade como mentira e voltam às mentiras que consideram reais… afinal, a verdade pode doer.

  191. A verdade pode causar confusão.

  192. Mas, depois que você se acostuma a ela, tudo passa a fazer sentido e a realidade se torna mais compreensível.

  193. Se você souber a verdade, deve contá-la aos outros.

  194. Mas não tenha esperanças de convencer os totalmente ignorantes, os quais, não cientes de sua ignorância, acreditam já saber de tudo.

  195. Tentar conversar com uma pessoa dessas, isto é, com uma pessoa ignorante que se julga sábia, é quase uma perda total de tempo.

  196. Quando a verdade é complexa, a mentira parece ser clara, tornando mais fácil a aceitação da mentira.

  197. A ascensão à verdade deve ser gradual.

  198. Na posse da verdade, a pessoa tende a ter pena dos que não a têm.

  199. Após saber da verdade, fica difícil se readaptar ao mundo dos ignorantes.

  200. Essa dificuldade de adaptação torna o sábio motivo de risada, de forma que os ignorantes concluem que a verdade não vale a pena, se ela for “enlouquecer” a pessoa.

  201. Talvez até tentassem matá-lo.

  202. O mundo sensível deve ser interpretado racionalmente: as coisas não são como nos parecem.

  203. Na frustração, abandonar os ignorantes é uma tentação real e que deve ser evitada, pois todos devem ser expostos à verdade.

  204. “Amor” é o sentimento natural que aproxima e harmoniza pessoas que são diferentes entre si, mas sem apagar suas diferenças (nesse sentido, a amizade e a caridade são formas de amor).

  205. Agressividade e guerra são frutos das nossas emoções.

  206. A imperfeição do corpo dificulta a ascensão à verdade.

  207. Isso porque o cuidado com o corpo nos toma tempo que poderia ser usado na reflexão: temos que comer, beber, dormir, tratar nossas doenças, ir ao banheiro, além da ocasional vontade de transar.

  208. O medo da dor também tolhe o pensamento.

  209. O cuidado com o corpo nos leva ao prazer proporcionado pela abundância, o qual, por sua vez, nos leva à cobiça e, portanto, à guerra.

  210. O jeito é tender às necessidades do corpo sem buscar os excessos que possamos vir a desejar.

  211. Ou seja, cuidar do corpo apenas minimamente, o bastante pra que seu estado prejudique o pensamento o mínimo possível.

  212. A homossexualidade sempre existiu e há até histórias folclóricas que tentam explicar por que ela acontece.

  213. Em alguns sentidos, é melhor ser homossexual que heterossexual.

  214. Um menino homossexual pode desejar outros meninos, mas também adultos.

  215. Tal menino se sente bem na presença de adultos e em ter contato com eles, o que era visto, na Grécia Antiga, como sinal de audácia e aptidão política.

  216. A homossexualidade pode ser observada também em crianças e adolescentes.

  217. O menino que se aproxima do homem não dá mostras de falta de vergonha, mas de coragem.

  218. O casamento não é necessário, principalmente entre homossexuais: qual é o sentido de formalizar as coisas?

  219. Se por um lado existem meninos atraídos por homens, por outro há homens atraídos por meninos.

  220. Essa atração pode se tornar uma paixão, a qual pode ser correspondida.

  221. O amor homossexual é mais intenso e mais abrangente que o heterossexual.

  222. Nem o sábio (que já é sábio) e nem o ignorante (que se acha sábio) procuram a sabedoria.

  223. Somente os que não são sábios, mas também não totalmente ignorantes, procuram a sabedoria, porque esses, sabendo que não são sábios, automaticamente sabem que precisam da sabedoria.

  224. Tais sujeitos se tornam “amantes da sabedoria”, ou filósofos.

  225. “Alma” é o princípio vital, aquilo que nos mantém vivos, o qual perdemos no momento da morte.

  226. “Ideia” é qualquer conteúdo mental, mas também pode ser interpretada no sentido de modelo perfeito, o qual embasa a feitura de objetos particulares, que tentam copiar tal modelo sem conseguir, dadas as limitações da matéria e do processo.

  227. Por exemplo, todos nós temos uma “ideia” do que um cachorro é.

  228. Então, comparando as coisas do mundo com essa ideia, sabemos se algo é um cachorro ou não.

  229. Existem formas mais altas e mais baixas de amar a beleza.

  230. A forma mais baixa é amar a beleza deste ou daquele corpo em particular.

  231. A forma mais alta é a amar a beleza em si, como conceito, o que permite apreciar todas as manifestações da beleza (nos corpos, nas leis, na política, na natureza, nos discursos, entre outros).

  232. Quem ama a beleza, não se prende à contemplação de um corpo só.

  233. Há beleza também no intelecto e na personalidade.

  234. Amar somente um corpo é mesquinho.

  235. Embora o amor seja um sentimento universal, nem sempre é possível defini-lo.

  236. Amar um corpo é também chamado de “enamorar-se”.

  237. Quando você ama algo, vê a beleza que nele há.

  238. Amar um corpo não é errado, porque amar não é errado, mas há coisa melhor que isso.

  239. Amar a beleza aperfeiçoa o homem.

  240. Ame primeiro um corpo, depois todos os corpos, depois as obras desses corpos, depois as ciências que permitem tais obras, depois a ciência da beleza e, por último, a beleza em si mesma.

  241. A contemplação do belo faz a vida valer a pena.

  242. A beleza da juventude atrai.

  243. A beleza da pessoa nos faz querer ficar perto dela, mesmo que tal beleza não seja a beleza física.

  244. Nem todas as formas de loucura são prejudiciais.

  245. A loucura pode ser motivada por amor.

  246. Isso acontece porque o amor apaixonado (ou, simplesmente, paixão) suspende a razão.

  247. Ora, quando a razão é suspensa, a pessoa enlouqueceu.

  248. Porém, convenhamos: às vezes é bom ficar doido.

  249. A loucura amorosa por vezes obra o bem, porque a loucura em si nem sempre é ruim.

  250. Na verdade, alguns comportamentos admiráveis são fruto de um impulso irrefletido.

  251. As pessoas mais improdutivas são também normais.

  252. Se amor é loucura, eis um exemplo de loucura benéfica.

  253. Quando vemos algo que é assombroso, pode ser que também tenhamos desejo de conhecer tal coisa.

  254. É nesse sentido que se diz que o espanto diante da realidade nos motiva à ciência e ao filosofar.

  255. Conhecer causa prazer.

  256. Se a realidade sempre causou espanto ao homem, então nunca houve tempo em que os homens não filosofassem: a filosofia seria tão velha quanto a raça humana.

  257. A menos que você esteja ocupado com a luta pela sobrevivência, você terá ócio e, nesse ócio, pensará.

  258. Por causa disso, a filosofia só veio mesmo a florescer em sociedades que já tinham resolvido a questão da sobrevivência.

  259. Quem vê não quer perder a visão e, se tivesse que escolher perder um dos sentidos, certamente não escolheria a visão.

  260. Isso acontece porque a visão é o sentido que nos permite perceber o maior número de detalhes do real.

  261. A princípio, a mente humana era estimulada a pensar por coisas pequenas, como os desafios cotidianos.

  262. Aos poucos, resolvendo questões de menor importância, o homem se voltou aos problemas maiores.

  263. É o assombro que nos mostra como somos ignorantes, o que nos permite sair do estado de ignorância total, que impede a busca pela sabedoria.

  264. Você pratica filosofia pra se livrar da ignorância.

  265. A filosofia como a conhecemos só é possível para pessoas que já estão com a vida resolvida, isto é, que têm as condições básicas de sobrevivência satisfeitas.

  266. Quem trabalha pra si mesmo é livre, quem trabalha pra outro é escravo.

  267. Curiosidade é um instinto, saciar a curiosidade é um prazer.

  268. A natureza foi a primeira coisa a causar espanto aos homens.

  269. O que diferencia o homem dos outros animais é a capacidade de conhecer, que difere em grau: animais conhecem pelos sentidos, mas o homem, além disso, é também capaz de fazer ciência desses dados sensoriais e é capaz de memória.

  270. Chamamos de racionalidade a capacidade de extrair regularidades generalizáveis observáveis em fenômenos.

  271. Para que haja ciência, é preciso que haja explicação: por que tal fenômeno ocorre?

  272. A ciência (razões por trás dos fenômenos) engloba a experiência (descrição dos fenômenos, cuja regularidade é apontada pela racionalidade).

  273. Sem memória não há aprendizado.

  274. A experiência é possível por causa da memória: o registro mental de uma ocorrência nos permite descrevê-la e, pela comparação de diferentes ocorrências do mesmo fenômeno, podemos apontar regularidades que possam ser exploradas.

  275. A experiência é, portanto, o início da ciência.

  276. Quando você desenvolve uma “lei”, uma expressão da regularidade de um fenômeno (como as chamadas “leis da física”), você já está fazendo ciência.

  277. É o caso da medicina: através da generalização, prescrevemos o mesmo remédio pra pessoas que têm exatamente a mesma condição.

  278. Ciências práticas precisam de uma base teórica pra existir.

  279. Não há ciência que não siga preceitos nascidos na filosofia.

  280. Por mais que as ciências teóricas sejam as mais necessárias, são as ciências práticas que têm mais fama e prestígio.

  281. É preciso lembrar que uma teoria geral precisa ser adaptada a casos particulares pelas ciências práticas: a teoria diz que remédios a base de cafeína curam dor de cabeça, mas você não vai dar um desses pra quem tem úlcera estomacal, porque assim, mesmo que ele cure a dor de cabeça, agravará a úlcera.

  282. A ciência química diz a causa dos fenômenos manipulados pela farmacologia; a primeira sabe as causas, enquanto a última se ocupa do fenômeno superficialmente.

  283. Os que aplicam princípios científicos em sua técnica são menos dignos de glória do que os que produziram tais princípios.

  284. Conhecer as causas de um fenômeno permite prevê-lo.

  285. Tal pessoa está apta a comandar outros que lidarão com o fenômeno.

  286. Você domina uma ciência quando está em condições de ensiná-la.

  287. As causas são inteligíveis pela razão, não somente pela observação (minha visão me mostra um ferro atraído por um ímã, mas só a razão pode dizer porque o ímã atrai o ferro).

  288. São as ciências teóricas que orientam as ciências práticas.

  289. Sabedoria é conhecimento das causas.

  290. Uma ciência que depende de outra está abaixo na hierarquia das ciências, que vai do mais prático (abaixo) ao mais teórico (acima).

  291. A análise abstrata da realidade (metafísica) é o que há de mais teórico.

  292. Essa análise, ao reduzir uma coisa qualquer a sua essência nos dá os conceitos com os quais trabalhar, nos dizendo o que cada coisa é (o chamado estudo do “ser enquanto ser”).

  293. “Ser” não é uma palavra que só tem um significado.

  294. O termo “causa” pode ser entendido em quatro sentidos: causa formal (o que a coisa é), causa material (de que é feita), causa eficiente (por qual processo foi feita) e causa final (pra quê foi feita).

  295. O que a coisa é e qual é sua finalidade são temas pouco estudados.

  296. A causa final é a mais importante, se identificável: nada melhor para compreender um mecanismo do que entender sua função antes de qualquer coisa.

  297. É o objetivo a ser alcançado que determina o que deve ser feito, como e quais recursos utilizar.

  298. O que fazer depende do objetivo a ser alcançado.

  299. A regularidade dos fenômenos naturais torna difícil acreditar que o mundo é resultado do acaso.

  300. Nem tudo tem causas finais.

  301. Causa formal e causa final podem coincidir na natureza.

  302. As coisas artificiais existem porque a natureza nem sempre nos provê de tudo.

  303. Por outro lado, é possível criar mecanismos artificiais que imitem processos naturais.

  304. Quando a natureza produz algo que não faria em condições normais, dizemos que ela cometeu um “erro”.

  305. Se tudo recebe sua carga motriz de outra coisa, então o que colocou o universo em movimento?

  306. Virtude é o bom hábito.

  307. No caso da moral, as virtudes morais ficam entre dois vícios: a coragem, por exemplo, é uma virtude fica entre a covardia e a temeridade; a assertividade fica entre a submissão e a agressividade.

  308. O mesmo pode ser dito do corpo: o excesso e a falta de alimento ou exercício, ambos estragam a saúde.

  309. A comida e o exercício físico devem estar em boa medida, nem em excesso, nem em carência.

  310. Hábitos equilibrados preservam o corpo.

  311. Virtudes morais também são fruto de hábitos equilibrados.

  312. “Substância” = 1 essência + n acidentes.

  313. “Essência” é aquilo que define alguma coisa (por exemplo, o conceito de homem é o que o define, logo, sua essência).

  314. Se a essência de algo some ou muda, aquela coisa deixa de ser o que é se torna outra.

  315. “Acidente” é uma característica presente em uma substância, mas que não altera sua essência (se o céu está nublado, ele não deixa de ser céu, logo “nublado” é acidente).

  316. “Potência” é aquilo que algo pode ser, enquanto que “ato” é aquilo algo é agora (movimento é passagem de potência a ato).

  317. Deus não deve ser adorado de qualquer forma.

  318. Se ninguém manda em você e seu poder deriva de você mesmo, você vive uma “autarquia”, o governo de si.

  319. Ações valem mais que palavras.

  320. Diferentes animais percebem o mundo de maneiras diferentes, então o que garante que o modo humano de perceber o mundo seja o correto?

  321. E se todos os loucos forem normais e nós, os que pensamos ser normais, formos loucos?

  322. O que é útil pra mim pode não ser útil a você.

  323. Loucura é natural.

  324. Se existissem valores universalmente aceitos, deveria haver menos religiões e menos códigos legais diferentes.

  325. Os costumes também variariam menos.

  326. Sua percepção é condicionada pelo seu ponto de vista.

  327. O que é extraordinário pra nós, não é para outras culturas.

  328. Frequentemente raciocinamos com conceitos relativos, como alto, baixo, pesado e leve, os quais só têm sentido em relação a outra coisa.

  329. Nossos juízos podem ser condicionados por nossos hábitos.

  330. “Tropo” é uma técnica discursiva cuja finalidade é levar a discussão à aporia.

  331. Quando você pensa que tudo é questão de opinião, você se torna cético.

  332. O cético não afirma nem nega nada, porque sua opinião não tem mais mérito que a de outro.

  333. A filosofia pode ser usada de forma terapêutica.

  334. A solução para o medo é o prazer de viver.

  335. Todas as nossas ações visam um prazer.

  336. Então, as melhores ações devem ser aquelas que nos dão mais prazer acompanhado do mínimo de dor, seja imediata ou futura.

  337. Buscar a felicidade é algo que não pode ser feito sem sabedoria.

  338. Existem medos que são inúteis, temos que nos livrar deles.

  339. Se a felicidade deve ser buscada com sabedoria e todos querem a felicidade, então todos devem praticar filosofia, não importando a idade.

  340. Quem está feliz, não quer mais nada, mas quem está infeliz faz tudo pra ser feliz.

  341. Fazer uma ideia errada de Deus é impiedade.

  342. A sensação nos permite experimentar o bem e o mal.

  343. O medo da morte é mais forte nos que desejam a imortalidade.

  344. Superar o medo da morte é superar o medo de tudo: quem não teme a morte, não teme nada.

  345. Para muitos, a parte mais angustiante não é a morte em si, mas ter que esperar por ela.

  346. Você sabe que vai morrer, só não sabe quando, e isso produz ansiedade.

  347. Na morte, todas as sensações cessam, não sendo, portanto, diferente de pegar no sono, algo que você já faz todas as noites.

  348. Então, não se preocupe com a morte, só viva a sua vida.

  349. Isso não quer dizer que você deve ser suicida, porque isso seria um desperdício de um monte de coisas boas que a vida pode oferecer.

  350. Temer a morte e desejar a morte prejudicam a liberdade.

  351. Procure o prazer prudentemente.

  352. Não aja como soubesse o futuro: pode ser que, no futuro, se descubra um jeito de não morrer.

  353. Algo que você considera inevitável agora pode não ser inevitável no futuro.

  354. O prazer é a métrica que nos permite julgar nossas ações.

  355. Se um prazer traz uma dor futura e essa dor é maior que prazer experimentado, tal prazer não vale a pena.

  356. Por outro lado, se uma dor traz um prazer maior no futuro, essa é uma dor que vale a pena sentir.

  357. O sustento é mais fácil de obter do que o luxo.

  358. Se você tem luxo, pode ser que você não saiba lidar com uma situação na qual não pode desfrutar desse luxo (por exemplo: uma pessoa rica que depois perde tudo, pode não conseguir se adaptar à vida de pobre).

  359. O melhor tempero pra uma comida é a fome: a comida é sempre mais gostosa quando estamos esfomeados.

  360. Se você sabe viver com pouco, poderá se adaptar à vida de pobre, caso venha a perder sua riqueza.

  361. Além disso, a comida simples é mais saudável.

  362. O prazer é bom quando ele faz cessar a dor; mais que isso é excesso e, como todo excesso, é arriscado.

  363. É possível maximizar o bem-estar escolhendo os prazeres segundo o grau de dor implícito: uma atividade que traz muito prazer e pouca dor (imediata ou futura) vale mais a pena que a atividade que traz muito prazer e também muita dor (imediata ou futura).

  364. Já uma atividade que traz mais dor que prazer não vale a pena e deve ser evitada.

  365. Sempre satisfaça suas necessidades naturais quando sua não-satisfação for mortal (como é o caso da fome, já que você pode morrer se não comer).

  366. Se você tem uma necessidade natural que não te matará se não for satisfeita (desejo sexual, por exemplo), você deve satisfazê-la se isso valer a pena (ver notas 363 e 364).

  367. Se você tem uma necessidade que não é natural (fama ou riqueza), ignore-a até que desapareça.

  368. “Hedonismo” é a doutrina filosófica segundo a qual o prazer é o elemento central da vida feliz.

  369. A ausência de dor (tranquilidade) é o único prazer estável, obtido quando você está numa condição em que não tem nada do que reclamar.

  370. Os outros prazeres são de curta duração.

  371. É sábio buscar a tranquilidade: use o prazer apenas pra afastar a dor.

  372. Quem não se guia pela razão, é propriamente um bicho.

  373. Emoções prejudicam o pensamento.

  374. A razão faz parte da natureza humana.

  375. Se esse é o caso, a ação racional é a ação natural do homem.

  376. Agir irracionalmente é antinatural ao homem, portanto.

  377. O que importa é o significado da palavra, não o vocábulo.

  378. Pior do que estar insatisfeito com sua condição é ter que fingir estar satisfeito pra manter a imagem.

  379. A condição de serenidade é preferível à situação em que muitas mudanças podem ocorrer.

  380. Infeliz é quem não está satisfeito com sua própria condição.

  381. Pior que desejar algo ruim é desejá-lo sem razão.

  382. Há quem não saiba dominar as próprias emoções, mas também há aqueles que não sabem se entregar às próprias emoções.

  383. Os que gostam de viver em público odeiam o estudo, a casa e a solidão.

  384. Quando você está insatisfeito consigo mesmo ou com sua condição, você se entrega a atividades inúteis, à inquietude (fica querendo fazer alguma coisa, sem saber o que fazer) e à indecisão.

  385. Tal pessoa não está em condições de fazer uma escolha da qual não irá se arrepender.

  386. Por exemplo: ela busca alento na solidão… aí percebe que odeia a solidão.

  387. Aí, o sujeito viaja pra outros lugares… aí percebe que está ficando sem lugares pra visitar.

  388. O insatisfeito acaba se resignando à falta do que fazer.

  389. Tal pessoa acaba tendo inveja da satisfação dos outros.

  390. Quem é invejoso e insatisfeito não pode obter sucesso pra si, então passa a desejar que os outros também fracassem.

  391. Mesmo quando você viaja, você fica com tédio no lugar que visita.

  392. Viagens excessivas são sinal de que a pessoa está tentando fugir de si mesma.

  393. O mal que experimentamos depende mais de nós mesmos do que do mundo à nossa volta: não é o mundo, mas como você lida com o mundo que importa.

  394. Quem está insatisfeito consigo próprio pode desenvolver ideação suicida.

  395. Se você põe suas esperanças de satisfação em diferentes metas, se decepcionará quando alcançar uma dessas metas e perceber que ainda não está feliz.

  396. Isso é agravado quando diferentes objetivos trazem os mesmos resultados após alcançados.

  397. Para uma pessoa assim, tudo no mundo se tornará tedioso cedo ou tarde.

  398. Ser razoável também é racional.

  399. Ascetismo é inútil.

  400. Quando você aceita a si mesmo, você se torna espontâneo e a vida se torna mais simples.

  401. Se você não se aceita, ficará insatisfeito (ver notas 380 a 397).

  402. As pessoas não estão te julgando o tempo todo; se você pensar que estão, estará sempre preocupado.

  403. A razão não deve ser usada pra esconder sua verdadeira natureza, porque o fingimento também prejudica a tranquilidade.

  404. Além disso, existem várias situações nas quais deixamos escapar pistas que dizem aos outros quem realmente somos.

  405. Aceitar a si mesmo nos deixa mais soltos e tranquilos.

  406. As coisas fáceis de obter são menos interessantes.

  407. Melhor você passar uma vergonha transitória do que fingir o tempo todo, só pra não passar essa vergonha.

  408. Uma coisa é a autoaceitação, outra é correr riscos desnecessários.

  409. Autocontrole também é uma virtude moral e, como tal, pode se tornar um vício quando em excesso.

  410. Existe uma hora pra se socializar e outra pra ficar sozinho.

  411. A vida não é só trabalho: não há nada de errado em tirar tempo pra curtir.

  412. Se você só trabalha ou só brinca, você adoecerá; é preciso fazer as duas coisas alternadamente.

  413. “Oito horas de trabalho, oito horas de sono, oito horas de tempo livre” é só uma das formas de organizar o tempo, você pode organizar o seu como você quiser.

  414. Quando você se socializa em excesso, alguns problemas pessoais podem ser agravados.

  415. Tudo bem você dizer “desculpa, hoje não tô a fim de ver ninguém, ligo quando eu melhorar”.

  416. O excesso de socialização também nos expõe à tentações.

  417. Quando você sente tédio por estar sozinho, se socialize.

  418. Quando você sente cansaço por estar com os outros, se isole.

  419. Socialização e recolhimento também devem ser alternados segundo a necessidade (se você gosta mais de estar sozinho do que com outros, tudo bem você passar mais tempo sozinho).

  420. Se você vai descansar, não leia sua correspondência nem mensagens que possam ter chegado.

  421. Um bom jeito de relaxar é ter algum contato com a natureza.

  422. Beba com moderação.

  423. Consumir vinho moderadamente alegra o espírito; consumir vinho em excesso produz o alcoólatra.

  424. Loucura pode ser útil, como força empregada pela criatividade.

  425. A menos que você seja profeta, não fale como se fosse superior.

  426. Para fazer algo de relevância histórica, é preciso deixar o modo cotidiano de agir.

  427. A tranquilidade é um bem que requer manutenção; se você descuida da sua, ela se estraga e desaparece.

  428. Felicidade é ausência de dor.

  429. A natureza humana é parte da natureza do universo, pois nela está inserida.

  430. Dependendo da sua disposição de espírito, nenhum lugar da Terra é ruim pra viver.

  431. O mundo interior é sempre acessível.

  432. Faça do bem comum (seu e dos outros) sua meta.

  433. Não há múltiplo sem unidade, a qual precede o múltiplo sempre.

  434. Matematicamente, todos os números derivam de unidades.

  435. Se o universo não viesse de um princípio único, mas de vários princípios, a harmonia do universo seria muito difícil ou talvez impossível de obter.

  436. Tal princípio pode se tornar qualquer outra coisa.

  437. Esse princípio não pode ser racionalmente estudado.

  438. “Transcendência” é a qualidade de algo que está fora da nossa realidade, existindo em outra, separada.

  439. Por exemplo: Deus é transcendente, ele não está na Terra e talvez nem em nosso universo.

  440. “Emanação” é o fenômeno no qual uma realidade se origina de outra por excesso de energia criativa, como se cada realidade fosse um prato que se enche e transborda para o prato maior imediatamente abaixo (tipo aquelas fontes).

  441. A emanação precisa de um princípio criativo, de onde parte a energia criativa.

  442. A arte é a manifestação sensível da inteligência.

  443. As belas-artes purificam a pessoa.

  444. A beleza não está somente nos corpos.

  445. Nem todo corpo é belo.

  446. Para causar prazer estético, a arte precisa estar harmônica com a alma de quem a vê, ouve ou sente.

  447. Por padrão, a matéria não tem significado.

  448. A matéria adquire significado dependendo do que você faz dela.

  449. Assim nasce a obra de arte, pela organização da matéria segundo uma ideia.

  450. A capacidade de apreciar a beleza varia de pessoa pra pessoa.

  451. A ciência pode ser bela, bem como a virtude.

  452. É mais fácil ver a beleza daquilo que você ama.

  453. O bem é belo.

  454. “Retorno” é a tentativa de se conectar com as realidades superiores emanadas (ver nota 440), culminando com a conexão com o princípio criativo.

  455. “Hipóstase” é cada uma das realidades emanadas (no sistema neoplatônico, seriam o princípio criativo, seguido pelo intelecto e depois a alma, inclusive a alma humana).

  456. Deus criou o tempo.

  457. Não há antes e depois sem o tempo.

  458. Então, perguntar o que Deus fazia “antes” de começar a criação não faz sentido, porque “antes” só existe se houver tempo e o tempo não existia antes da criação.

  459. Onde não há tempo, não há nem amanhã e nem ontem, só hoje.

  460. Falamos de tempo sem saber definir o tempo: tente você dizer o que é o tempo.

  461. Sabemos o que é o tempo intuitivamente, mas explicar o tempo a outra pessoa é muito difícil.

  462. Passado não existe mais; futuro ainda não existe.

  463. Só o presente existe.

  464. Nós medimos o tempo entre dois eventos passados (entre algo que ocorreu há dez dias e algo que ocorreu há dez anos), mas como se mede o que não existe?

  465. O mesmo se aplica ao futuro, quando medimos o tempo entre dois eventos cuja ocorrência antecipamos.

  466. Estranhamente, embora possamos medir o tempo entre eventos passados (que não existem mais) e eventos futuros (que ainda não existem), o presente (o qual existe) não pode ser medido.

  467. Só é possível medir o tempo e registrar tal medida no presente: quando um fenômeno acontece e o percebemos, registramos sua ocorrência no presente (na memória, por exemplo) e, quando outro evento acontece e o percebemos, também o registramos.

  468. Daí, é possível saber o tempo percorrido entre os dois registros.

  469. O passado pode ser trazido ao presente pela memória e o futuro pode ser trazido ao presente pela antecipação.

  470. Eventos passados e eventos futuros só existem enquanto são presente, mas passado e futuro como tempos só existem em nossa cabeça: o passado como memória, o futuro como antecipação.

  471. “Criação” é o processo pelo qual o universo veio a existir.

  472. “Mal” é ausência de bem.

  473. “Pecado” é a ação contrária à vontade divina.

  474. É pelo pecado que o ser humano produz o mal.

  475. Nem sempre é necessária uma razão pra fazer o mal: alguns o fazem só por prazer.

  476. Algumas ações são crimes e pecados.

  477. Por trás de algumas más ações está a vontade de se ferrar, como se alguns quisessem se dar mal pra ver o que acontece.

  478. Um ladrão não tolera ser roubado.

  479. Não é preciso passar necessidade pra roubar.

  480. Há os que roubam sem intenção de vender o objeto roubado nem usá-lo.

  481. Há também os que fazem o mal apenas para mostrar que podem fazê-lo, para impor sua vontade aos que dizem “não faça isso”.

  482. A mente humana sozinha não pode conhecer Deus totalmente.

  483. “Êxtase” é a sensação de comunhão com a divindade, o último nível de ascensão espiritual.

  484. Tal sensação não é racional.

  485. É possível entender algo que não existe: eu tenho em mente uma planta de uma casa que ainda não construí.

  486. É possível pensar num Deus perfeito.

  487. Ignorando o significado das palavras, é possível arranjar qualquer frase absurda.

  488. Uma coisa é raciocinar com conceitos (significados), outra é se ater só aos vocábulos (palavras).

  489. Se você crê em Deus, deverá harmonizar sua fé com a razão.

  490. Os fundamentos da lógica são intuitivos.

  491. O homem é capaz de conhecer a verdade.

  492. “Tomismo” é a doutrina filosófica de Tomás de Aquino, para quem fé e razão são complementares.

  493. O processo de passar da potência ao ato é chamado movimento.

  494. Não é possível parar o devir.

  495. Todo efeito tem causa, mas não é possível pensar uma cadeia causal infinitamente regressiva.

  496. É preciso que haja algo que criou sem ser criado.

  497. Não existe um efeito que tenha a si mesmo como causa.

  498. É estúpido ser conformista.

  499. Praticar uma autêntica ciência é loucura.

  500. Mas a loucura pode trazer felicidade.

  501. O ritual religioso pode também trazer loucura.

  502. Geralmente, os que condenam a loucura são os mais loucos.

  503. A loucura pode trazer alegria mais rapidamente do que a razão.

  504. Fanatismo religioso leva à loucura.

  505. A dissonância entre mente e corpo é sintoma de loucura.

  506. Mas o fato é que a mente é capaz de coisas incríveis nessas condições.

  507. Um sábio e um estúpido são loucos um para o outro.

  508. O critério de normal é variável.

  509. Há vários estilos intermediários de vida entre o religioso e o materialista.

  510. A missa não é o ritual, mas o que o ritual representa.

  511. Se você é religioso, não seja apenas de corpo.

  512. Valores tidos em alta conta pela sociedade podem não significar nada pra alguns que a integram.

  513. Ir à missa e não absorver nada dela é hipocrisia: você é religioso apenas por fora.

  514. “Livre-arbítrio” é a capacidade de escolha entre diferentes ações disponíveis.

  515. “Graça” é o nome dado à possibilidade de Deus salvar uma alma com base somente em seu arbítrio, sem levar em consideração as ações da pessoa em vida (você seria salvo “de graça”).

  516. “Loucura” é o contrário de razão.

  517. A sua capacidade de pecar prova que você não é programado por Deus.

  518. Não fosse a vontade de Deus em nos salvar, nenhum número de boas ações bastaria.

  519. Mas Deus não vai salvar uma pessoa que não faz o que ele manda.

  520. Você não é tão ruim quanto você pensa.

  521. Alguém só pode ser responsabilizado se a liberdade existir, porque, se fôssemos programados, nada seria nossa culpa, mas de quem nos programou.

  522. Temos uma dimensão espiritual e uma dimensão material.

  523. Realizar um ritual sem crer no ritual é hipocrisia.

  524. Pra quem é cristão, os evangelhos devem bastar.

  525. Discipline seu corpo pra que ele não te seja um estorvo.

  526. Só Deus tem total liberdade de ação.

  527. Você gasta mais quando pensa que seu dinheiro não vai acabar.

  528. Se tem coisas que não entendemos na natureza, como poderemos conhecer totalmente o sobrenatural?

  529. As representações humanas de Deus falham porque um ser finito não pode representar adequadamente um ser infinito (é a ideia de que um pensamento finito só pode pensar Deus reduzindo-o ao finito).

  530. Para conhecer algo pela razão é preciso colocar o desconhecido e o conhecido em proporção, comparando-os.

  531. Se determinado conteúdo desconhecido está tão além de nós a ponto de não poder ser colocado em proporção com o que já sabemos, tal conteúdo permanecerá desconhecido (como ensinar física a quem não sabe matemática).

  532. Assim, o aumento do conhecimento é gradual e lento.

  533. Não é possível esgotar cognitivamente o infinito: se é infinito, é inesgotável.

  534. Quanto mais distante um conhecimento é daquilo que você já sabe, mais difícil será aprendê-lo.

  535. Para aprender algo novo, é preciso admitir que você não sabe tudo.

  536. Então, os que mais aprendem estão cientes de sua própria ignorância.

  537. Se você olha a base de um triângulo muito de perto, pensará que não se trata de um triângulo, mas de uma linha apenas.

  538. O homem pode ser o que ele quiser, dentro de suas capacidades.

  539. Animais também têm mente inconsciente.

  540. A ligação entre alma e corpo é demonstrável pelo fato de substâncias sem elemento espiritual serem capazes de alterar estados de espírito.

  541. Há outros mundos além deste.

  542. Não há razão pra pensar que só a Terra abrigue vida inteligente.

  543. Existem coisas além do ponto aonde nossa visão alcança, do contrário o limite da Terra seria o horizonte.

  544. Se Aristóteles vivesse na Lua, concluiria que a Lua é o centro do universo, porque, independente de nossa posição no espaço, sempre temos a sensação de estar no centro do espaço.

  545. A farmacologia foi inventada por médicos que também acreditavam em magia e esperavam que o homem, sendo feito dos quatro elementos, poderia ter seu corpo afetado pelos elementos da natureza, que seriam administrados em um estado diferente de seu estado natural.

  546. Não há razão pra usar apenas medicamentos orgânicos, quando há também medicamentos minerais.

  547. Se os elementos do homem se dissipam, o sujeito morre.

  548. Conhecer a origem das doenças não pode ser feito sem conhecer a natureza.

  549. Animais “comuns” também pensam.

  550. A inteligência refina os dados sensoriais, mas tal refinamento não seria necessário se nossos sentidos fossem perfeitos.

  551. Não confunda pesquisa com fantasia, não atribua à natureza elementos que lhe são estranhos.

  552. Frio e calor são ambos necessários à vida.

  553. “Naturalismo” é a doutrina segundo a qual tudo é natural (ou seja, nada é sobrenatural), de forma que Deus seria como que a força que anima a natureza (portanto, imanente a ela).

  554. Para o naturalismo, a natureza deve explicar a si própria, sendo prejudicial o uso da metafísica como meio de explicá-la.

  555. Não, a natureza só pode ser explicada por processos naturais, dizem os naturalistas, porque não existe nada acima da natureza.

  556. Mulheres deveriam fazer parte das forças armadas.

  557. Se você tem uma cidade, pense em como defendê-la, mesmo que viva em tempos de paz.

  558. Nada de errado em discutir sua vida sexual com um médico.

  559. Pais saudáveis provavelmente gerarão um filho saudável.

  560. Não há necessidade de viver em família; melhor seria uma criação comunitária, na qual todos os adultos cuidam de todas as crianças, sem que o cuidado de uma criança seja incumbência de apenas dois adultos.

  561. Isso favorece o sentimento de pertencimento à sociedade, não à família, reduzindo o individualismo e favorecendo a vontade de trabalhar pelo bem do grupo inteiro.

  562. Todo o saber produzido por alguém deve estar disponível a todo o povo.

  563. Se todas as coisas fossem comuns (como no comunismo), seria preciso que os bens fossem movidos de uma pessoa à outra por um terceiro, que regulasse a partilha de bens, para que um necessitado pudesse ficar com o excedente produzido por outro, e aquilo de que você não precisa fosse dado a alguém que precisa.

  564. O egoísmo é reforçado pela casa própria, pelo casamento e pela construção de família, que leva você a se preocupar somente consigo e com os que estão imediatamente próximos, sem pensar no país.

  565. O amor ao próximo e à nação estimularia cada um a trabalhar (até porque, se excedente não for produzido, vai todo o mundo ficar pobre).

  566. A propriedade privada é uma fonte dos mais variados vícios.

  567. A inexistência da família não impede o desenvolvimento de valores morais.

  568. Se tudo fosse de todos, não haveria necessidade de dar presentes pra demonstrar afeto.

  569. O importante é que ninguém passe necessidade.

  570. É possível mostrar afeto por uma pessoa ajudando-a nos estudos, apoiando-a em tempos de doença e defendendo-a do perigo.

  571. Mesmo uma sociedade assim ainda precisa de leis.

  572. O conhecimento deve estar disponível a todos.

  573. A criança que brinca e corre crescerá forte.

  574. A criança deve ser exposta às oficinas e a outros locais de trabalho, pra que ela possa formar uma ideia do que ela quer fazer quando for mais velha.

  575. A criança deve ser um membro ativo da sociedade e trabalhar pra sua manutenção.

  576. Não menospreze a educação física.

  577. Se dedique ao ramo do saber que te dá mais prazer: se você gosta mais de filosofia, não tem sentido tentar se formar em química.

  578. Seria interessante ensinar agricultura a crianças.

  579. Aquilo que é louvável na vida privada pode causar a ruína de um governo: ser misericordioso enquanto cidadão é uma coisa, mas ser misericordioso como político pode ser inaceitável.

  580. Olhe para as coisas segundo o que elas são, não segundo o que você acha que elas deveriam ser.

  581. Por vezes o governo deve fazer algo que é considerado “ruim” para a moral.

  582. Se você é bom num mundo de gente má, você se ferrará muito.

  583. Não é possível ser uma pessoa boa 100% do tempo quando se é governante.

  584. Às vezes é necessário fazer algo condenável pelo bem do país.

  585. O povo está julgando o governante a todo momento.

  586. Ninguém é perfeito, nem como cidadão e nem como governante.

  587. Um hábito que constitui virtude na vida comum pode ser um vício na vida política; um hábito que constitui virtude na vida política pode ser um vício na vida comum.

  588. Se o governo for muito “bonzinho”, se ele não tiver pulso, todo o mundo quebrará a lei e o país descenderá no caos.

  589. A violência, por exemplo, na forma de prender malfeitores, deve ser empregada realisticamente.

  590. O ideal é que o governo seja amado e temido (“respeitado”, por assim dizer), mas é muito difícil conciliar as duas coisas.

  591. O governo deve se fazer amado ou temido dependendo da ocasião.

  592. Quando o governo perdoa um criminoso, qual é a mensagem que se passa, se não de que não existe lei?

  593. A criação de um novo governo requer violência.

  594. Se, por um lado, o governo precisa usar a violência, é de suma importância que nenhum dos integrantes do governo pareça pessoalmente cruel, isto é, ele precisa manter a imagem de que está apenas cumprindo a lei ou fazendo seu dever quando manda alguém pra cadeia.

  595. Se, por um lado, perdão e punição são ambos úteis, um governo que não perdoa pode subsistir sem a prática do perdão.

  596. O contrário não é possível: um país cujo governo só perdoa, sem nunca punir, será caótico.

  597. Um bom acordo político se funda no interesse recíproco: qual é o governante de bom senso que faz um “acordo” no qual não ganhará nada em troca?

  598. O governo que não pune cria cidadãos violentos.

  599. Donde decorre que, na prática, nenhum cidadão quer um governo “bonzinho”.

  600. Mas isso não quer dizer que o governo deve ser autoritário!

  601. Ser temido é mais seguro que ser amado.

  602. O governante deve antecipar o comportamento do povo, porque o povo está sempre disposto a trair o governante quando tal governante precisa do povo (embora o povo esteja sempre lá pra pedir favores e melhoras na condição de vida).

  603. Se você é político, não faça um acordo sem esperar nada em troca, porque você não tem garantia de que a pessoa que acordou com você estará disposta a fazer o mesmo.

  604. Na política, gratidão não compra seu pão.

  605. É mais fácil ofender alguém que você ama do que alguém que você teme.

  606. É mais fácil ser leal a quem você teme do que a quem você ama.

  607. O governo pode ser temido sem ser odiado.

  608. Se o governo passar dos limites e se tornar odiado pela população, também isso será prejudicial.

  609. Um político não deve fazer acordos com uma outra nação simplesmente porque ama aquela nação.

  610. Um bom jeito de atrair a ira da população é punir cidadãos visando ganho econômico.

  611. O político não é nada sem sua imagem.

  612. Não existe pessoa incapaz de trair.

  613. É próprio do homem combater com as leis; é próprio do animal combater com a força.

  614. O governo deve ser forte e inteligente, para afastar perigos externos.

  615. Não haveria a necessidade de astúcia se não houvesse pessoas más no mundo.

  616. Sempre há alguém disposto a enganar você.

  617. Política nada tem a ver com ética, nem com religião.

  618. Se todos trabalhassem, a jornada de trabalho de cada um não precisaria passar de seis horas por dia.

  619. Seria interessante se cada família produzisse as próprias roupas.

  620. Trabalhe no que te dá prazer.

  621. Todos deveriam conhecer agricultura.

  622. Melhor a roupa confortável que a roupa bonita.

  623. Se estiver em dúvida entre duas profissões que te dão prazer, escolha dentre essas a profissão que for mais útil aos outros.

  624. Desde que você não esteja prejudicando a ninguém nem a si mesmo, ninguém pode te dizer o que fazer no seu tempo livre.

  625. Não é censurável trabalhar no tempo livre, desde que você faça isso porque você é um desses raros homens que sente prazer no trabalho que exerce.

  626. Gostar de estudar não é uma vergonha.

  627. Se todos trabalhassem, as necessidades do país seriam supridas e ainda se obteria excedente.

  628. Ponha os desempregados pra trabalhar e você verá a economia florescer.

  629. As coisas essenciais, que todos usamos diariamente, são produzidas por menos da metade da população.

  630. Se todos trabalharem, reduzir a jornada de trabalho não ocasionará pobreza.

  631. A mulher deve participar da guerra.

  632. Homens e mulheres devem ser punidos igualmente por seus crimes.

  633. O problema do aumento populacional pode ser resolvido pela expansão de território.

  634. O sujeito mais velho da família deve ser o chefe da família, a menos que algum problema grave o impeça de exercer esse papel.

  635. Nesse caso, o segundo mais velho deve ser o chefe.

  636. Deve haver um limite mínimo e um limite máximo de pessoas em cada família.

  637. Caso uma família ultrapasse o número máximo de integrantes, alguns dos mais novos devem ser adotados por famílias que não tenham o número mínimo de integrantes.

  638. Numa cidade onde há excesso de cidadãos, é preciso que o excedente se mude.

  639. Relacionamento intergeracional poderia ser liberado.

  640. Onde há liberdade sexual, o casamento perde a relevância.

  641. Não se case com alguém que você nunca viu nu.

  642. Se o divórcio for fácil, poucos casamentos durarão.

  643. Melhor do que vencer uma guerra é não ter que entrar em guerra.

  644. Se algo for muito caro, pode ser que obtê-lo não valha a pena.

  645. Não se deve zombar de alguém por uma condição que ele não escolheu.

  646. A beleza de verdade vem do cuidado com o corpo, não dos cosméticos.

  647. “Utopia” é qualquer ideal de sociedade, quer ele seja ou não alcançável.

  648. Se o ideal é “perfeito”, tal ideal é inalcançável pelo homem.

  649. A Bíblia Sagrada usa tanto linguagem literal como simbólica, de forma que não se deve considerar tudo ao pé da letra.

  650. Uma interpretação particular da Bíblia Sagrada pode estar erradas: diferentes pessoas tiram diferentes conclusões dos textos sagrados.

  651. A forma mais fácil de interpretar a Bíblia Sagrada é pela via literal, mas fazer isso produz erros graves.

  652. Ao interpretar a Bíblia Sagrada literalmente, pode ser que o sujeito conclua uma blasfêmia.

  653. Quando os textos sagrados foram escritos, eles tinham em mente o público geral da época de cada escritor.

  654. Dessa forma, era preciso usar uma linguagem que funcionava naquele tempo com pessoas daquele contexto cultural.

  655. Por causa disso, o sujeito que interpreta a Bíblia Sagrada literalmente não está em boas condições de praticar a ciência.

  656. A Bíblia Sagrada pode ser mal interpretada.

  657. A natureza também é obra de Deus, uma obra que pode ser estudada cientificamente.

  658. Se a Bíblia Sagrada pode ser mal interpretada, devido a sua linguagem distante da nossa, mas a natureza pode ser interpretada de forma cada vez mais clara pela ciência que avança, uma pessoa não pode levianamente usar versos bíblicos, em seu sentido literal, pra contestar a ciência.

  659. Havia ciência nas épocas em que os textos sagrados foram escritos e os profetas provavelmente conheciam tal ciência pra usá-la como dispositivo de discurso, facilitando o entendimento de quem os ouvia.

  660. Deus não teria nos dado a razão se não fosse pra usarmos ela.

  661. Você lê a Bíblia Sagrada pra saber o que fazer pra salvar sua alma, não pra aprender astronomia.

  662. Se a experiência contradiz uma pessoa de prestígio, acredite na experiência.

  663. Isso porque uma pessoa, mesmo que seja um cientista do momento, sempre pode estar errada.

  664. Na ciência, é ver para crer: se um doutor qualquer diz algo cujo erro você constata pela sua experiência, não é no doutor que você deve acreditar.

  665. A ciência fala uma língua e essa língua é a matemática.

  666. Algumas pessoas creem que fazer ciência ou filosofia é o mesmo que interpretar textos, sem antes se perguntar se o texto lido está dizendo a verdade.

  667. A veracidade de um texto não é medida pela fama de quem o escreveu.

  668. Mas, se você quer dar crédito a um autor, estude a natureza, porque Deus é o autor da natureza.

  669. Hoje em dia, não se faz física sem matemática.

  670. Não é possível entender um texto sem interpretá-lo.

  671. A ciência que se ocupa das técnicas de interpretação de texto é a hermenêutica.

  672. Existem qualidades inerentes aos objetos e qualidades que são atribuídas a eles por nossa percepção (a “impressão” que temos deles).

  673. “Experiência” é a observação casual que fazemos de algo que se apresenta a nós.

  674. “Experimento” é a observação de um fenômeno que causamos pra propósitos de estudo, caracterizado pela repetição.

  675. As cócegas são uma propriedade subjetiva do tato, residindo portanto em nós, não na mão que faz as cócegas.

  676. Sentir cócegas tem mais a ver com sua sensibilidade do que com o objeto que as suscita.

  677. Embora todo corpo tenha extensão e solidez, qualidades subjetivas como sabor e cheiro só existem como impressões, dependendo da interação do objeto conosco, nunca do objeto em si.

  678. Quando você dá muito crédito a um autor, você ignora evidências de que tal autor possa estar errado.

  679. A recusa de um teólogo em aceitar evidência científica é justificável, já que se trata de uma questão de fé… mas é inaceitável que um cientista, que pertence a um ramo laico do saber, se feche para evidência contrária às suas conclusões.

  680. Existem cientistas dogmáticos, isto é, que não aceitam evidência que contradiga o que eles já aprenderam e consideram como correto.

  681. Algumas pessoas são convencidas pela evidência, mas não aceitam porque alguém de autoridade disse algo que contradiz a evidência.

  682. Pessoas que põem unicamente a autoridade de um autor como prova contra uma dada hipótese são participantes de um debate para o qual não contribuem.

  683. Pessoas assim atrapalham o debate, que passa a fechar sem conclusão.

  684. Uma ideia pode ser descreditada não pelo que ela é, mas pelo comportamento de quem a defende.

  685. Alguns pensadores que hoje estão mortos mudariam suas teorias se dispusessem do conhecimento que temos hoje e estivessem vivos.

  686. Assim, defender um texto científico escrito cem anos atrás, quando há evidência contrária hoje, é ridículo, algo que talvez não seria endorsado pelo pensador defendido.

  687. Ser adepto de um pensador de prestígio pode ser uma manifestação de timidez: você quer estar do lado vencedor, então, em vez de expor seu próprio pensamento, você fica na sombra de alguém cuja reputação já está estabelecida.

  688. Quando a evidência é experimental, ela só pode ser negada por outra evidência experimental, não por um modelo teórico.

  689. Estude seus erros para não repeti-los.

  690. Há um número de processos inconscientes que trabalham para o condicionamento de nossas conclusões científicas.

  691. Hábitos são fontes de erros.

  692. Nosso conhecimento do universo é condicionado por nossa percepção.

  693. Nosso conhecimento também é condicionado por nossa bagagem cultural.

  694. Nossa produção é condicionada por nosso ponto de vista.

  695. Por último, nossa produção é condicionada pelas palavras que usamos.

  696. Aprender algo de forma errada fará com que o produto do pensamento daquela pessoa seja defeituoso.

  697. Para evitar a produção de conhecimento que não serve, é preciso ter método.

  698. O título de filósofo só deve ser dado a quem, com a prática da filosofia, for capaz de mudar o mundo para melhor.

  699. Um saber das obras (experimento) é mais seguro que um saber de palavras (silogismo).

  700. Um saber que fundamenta em informações falsas está errado.

  701. A dedução só explica e clarifica o que já está implícito em afirmações aceitas; na prática, não produz conhecimento novo.

  702. “Indução” é a generalização dos achados coletados em uma amostra de casos semelhantes.

  703. Quando uma indução examina todos os casos possíveis de um fenômeno, ela é perfeita (amostragem total, verdadeira); quando examina apenas uma parcela desses casos, ela é imperfeita (amostragem representativa, estatística).

  704. Um bom método reduz a chance de conclusão errada.

  705. O pensamento científico é diferente do pensamento quotidiano.

  706. A prática científica deve ser feita sem se importar com o que a sociedade vai pensar da conclusão.

  707. Duas coisas semelhantes não são idênticas nem devem receber tratamento idêntico.

  708. Deve haver separação entre ciência e arte.

  709. Um achado científico deve ser generalizável.

  710. A reflexão sobre o método científico é mais importante que a ciência.

  711. A arte é prática, a ciência é teórica.

  712. Ninguém está te obrigando a aprender uma só ciência.

  713. Produzir um estudo visando um fim particular pode prejudicar sua imparcialidade e, consequentemente, sua generalização e validade.

  714. É fácil ficar rico mentindo pra leigos.

  715. Por mais que você tenha motivos e ideais nobres, não deixe que eles prejudiquem a imparcialidade de seu estudo.

  716. Se você domina mais de uma ciência, sua percepção do real é mais clara e seu trabalho científico será mais produtivo.

  717. “Método” é um sistema de regras que tem como função minimizar a chance de erro ao desempenhar certa tarefa.

  718. Se algo não parece certo, duvide.

  719. Pode ser que, no futuro, você perceba que a escola te ensinou muita coisa errada.

  720. Desconfie de quem já te enganou antes.

  721. Você só sabe que estava sonhando depois que acorda.

  722. Você só sabe que estava louco quando recupera a sanidade.

  723. O sonho usa memórias como matéria-prima.

  724. A dúvida deve se tornar um hábito.

  725. Quando uma mentira é boa demais, preferimos não buscar a verdade.

  726. O esforço pra alcançar a verdade pode não valer a pena, quando a verdade decepciona.

  727. Algo pode ser considerado verdade quando resiste a toda dúvida que se lhe opõe.

  728. “Cogito” é a ideia segundo a qual a prova de nossa existência é nosso pensamento: pra pensar, é preciso existir.

  729. Portanto, se eu penso, eu existo.

  730. Somos compostos de corpo e pensamento (ou espírito).

  731. “Evidência” é uma informação que não se pode contradizer.

  732. Uma boa dedução é feita com base em evidências.

  733. De vez em quando, enquanto sonhamos, percebemos que estamos sonhando.

  734. Todo corpo tem extensão e ocupa lugar único no espaço, lugar que não pode ser ocupado por outro corpo.

  735. “Inatismo” é a doutrina segundo a qual nascemos com certas habilidades mentais, de forma que certas coisas não precisamos aprender, porque literalmente nascemos sabendo.

  736. Se você trabalha com premissas falsas, um silogismo perfeitamente conduzido concluirá um absurdo.

  737. Uma dedução que não se apoia em evidências (ver nota 731) não é segura.

  738. A dedução deve seguir passos e as informações devem ser avaliadas na ordem correta.

  739. A matemática lida com coisas simples e evidentes, por isso nunca está errada quando corretamente conduzida: quanto mais simples for o objeto de estudo, mais difícil será errar.

  740. Deus deve ser bom, ou não será Deus.

  741. É preciso ter corpo para que haja sensação.

  742. Não escolhemos o que sentimos.

  743. É corpo o que tem três dimensões (altura, largura e comprimento).

  744. Portanto, a essência do corpo é sua extensão, sua delimitação no espaço.

  745. “Dedução” é a tentativa de concluir algo a partir de informações já disponíveis.

  746. Se as informações disponíveis forem falsas, a dedução concluirá erroneamente.

  747. “Mecanicismo” é a doutrina segundo a qual o mundo e seus fenômenos são explicáveis pelas leis do movimento e pelas leis que governam a matéria.

  748. O mecanicismo só deve ser aplicado a corpos, não ao pensamento ou a outras coisas incorpóreas.

  749. O único bicho que faz guerra é o ser humano.

  750. O uso da razão implica julgamento.

  751. O ser humano também é único bicho capaz de mentir.

  752. “Animais políticos”, como abelhas e formigas, agem em sociedade em virtude do instinto, de forma que, cada uma agindo como apenas como a natureza prescreve, a colônia prospera e o bem comum é mantido sem a necessidade de um comandante.

  753. Isso não acontece com seres humanos, pois sociedades humanas só prosperam sob um comandante.

  754. Isso acontece porque nós temos uma tendência individualista, que afasta um homem do outro.

  755. Além disso, o bem individual de uma abelha ou de uma formiga coincide com o bem comum, ao passo que, com o ser humano, o bem comum e o bem particular podem diferir.

  756. A razão, que permite o crescimento do ser humano, também nos leva a pensar de forma diferente, o que também afasta os homens um do outro.

  757. Algumas pessoas não precisam de uma razão pra mentir.

  758. Só humanos podem ofender uns aos outros além da dimensão física.

  759. A paz entre humanos é sempre um acordo (o chamado “contrato social”, que dá origem às sociedades), não algo natural.

  760. Você não precisa ser pobre pra ser violento.

  761. “Absolutismo” é a doutrina política segundo a qual todo o poder deveria se concentrar numa instituição só, tal instituição deveria estar acima da lei, os súditos não deveriam ter liberdade individual, tais súditos não poderiam se rebelar e deveria haver fusão entre igreja e governo.

  762. É o medo da punição que faz com que respeitemos a lei.

  763. O governo depende da capacidade do povo de se reconhecer nesse governo.

  764. Se você não teme a lei, a quebrará.

  765. Você é responsável pelas ações de seu governante, porque as autoriza.

  766. O poder pode ser concedido ou tomado.

  767. Evite a violência para não receber violência em troca.

  768. Se pudermos reduzir o pensamento humano à operações matemáticas, já andamos meio caminho na concepção de uma inteligência artificial perfeita.

  769. A linguagem e a matemática têm muito em comum.

  770. Observe como um silogismo é muito parecido com um cálculo aritmético.

  771. Acreditando em Deus você ganha mais que sendo ateu.

  772. Se você não vive como crente, terá menos fé.

  773. Quanto mais você pratica uma religião, mais difícil será deixá-la.

  774. Cedo ou tarde, você terá que decidir se crê ou não em Deus.

  775. Se você mesmo não sabe se Deus existe, você não pode, com razão, criticar nem o crente e nem o ateu.

  776. Há muitos ateus que odeiam ser ateus.

  777. Nos distraímos porque o tédio é insuportável.

  778. Do tédio brotam reflexões desconfortáveis, como o fato de que não sabemos como vamos morrer nem quando.

  779. A vida sem prazer nos leva a pensar só em problemas.

  780. Isso torna a vida mais abastada insuportável.

  781. Ninguém pode manter a sanidade se for privado de todo prazer.

  782. A busca por um objetivo é, em si, interessante, porque estamos distraídos na busca desse objetivo.

  783. Mas o que resta quando o objetivo é conquistado?

  784. Quando você está trabalhando, quer descansar.

  785. Quando você está descansando, quer trabalhar.

  786. A vida do rei é boa porque todo o mundo se empenha em lhe dar prazer.

  787. É o tédio que faz a cadeia ser uma punição tão horrível.

  788. Não se deve ser pessimista e nem otimista, mas realista.

  789. Não que ser realista não seja uma tragédia.

  790. Tem mais coisa na natureza do que se pode estudar.

  791. O homem não deve se achar sem valor, mas não deve se atribuir valor maior que o real.

  792. Pequeno e grande são relativos.

  793. A ciência não deve se ocupar do infinito.

  794. “Distração” é qualquer atividade que ocupa nossa mente para que não pensemos em algo que nos cause sofrimento.

  795. Se a extensão de algo pode ser limitada pela extensão de outra coisa de mesma natureza, tal algo é finito.

  796. Pensamentos não podem limitar corpos.

  797. Somente corpos podem limitar corpos.

  798. “Atributo” é algo percebido da essência de uma substância.

  799. “Panteísmo” é a doutrina segundo a qual a natureza do mundo e Deus coincidem, ou seja, Deus seria o espírito do mundo.

  800. “Imanentismo” é a doutrina segundo a qual algo que faz parte de uma substância não pode existir abstraído dessa substância.

  801. O nada é infértil.

  802. É preciso que exista algo que criou as coisas sem ter sido criado por nada.

  803. Deus não pode ser coagido.

  804. A criação está completa.

  805. Se Deus criou o mundo e Deus é sumamente racional, cada coisa no mundo deve ter um propósito.

  806. O conhecimento da causa torna mais fácil a explicação do efeito.

  807. Uma explicação material de um evento pode ser insuficiente.

  808. Uma explicação completa considera diferentes causas pro mesmo fenômeno (ver nota 294).

  809. Nenhum ser racional faz algo sem razão.

  810. Uma causa final óbvia não explica coisa alguma.

  811. Energia também pode ser dividida em partículas.

  812. A consciência não precisa preexistir à sensação, do contrário você não poderia acordar com barulho.

  813. Por outro lado, a presença de consciência não implica presença de sensação: você passa a não ouvir o som com o qual você se acostuma.

  814. Os órgãos dos sentidos continuam em funcionamento mesmo quando estamos inconscientes.

  815. Os órgãos dos sentidos podem captar estímulos que não chegam à consciência.

  816. Isso porque, além do estímulo, é preciso que o objeto que estimula os sentidos também nos chame atenção.

  817. “Finalismo” é a doutrina segundo a qual a natureza obedece um projeto, no qual cada coisa tem uma função, o que implica que nada ocorre por acaso, mas sempre por uma razão.

  818. O finalismo supõe que há uma intenção implícita em cada elemento da natureza, de forma que a natureza nem seria totalmente determinada e nem caótica.

  819. A criação de uma inteligência artificial não bastaria pra explicar a inteligência humana.

  820. Não há comparação entre mecanismos artificiais e a vida biológica, não se pode usar analogias tecnológicas pra descrever a vida.

  821. Uma máquina nunca está viva.

  822. Um mundo sem dor é humanamente impossível.

  823. Fazer economia é alcançar um fim com o mínimo possível de esforço e recursos (também chamado de eficiência).

  824. Se algo tem que ser aprendido, não está em todos; se não está em todos, não é inato.

  825. Não existe nenhum conhecimento inato.

  826. Conhecimento só pode ser adquirido pela reflexão interior ou pelas informações providas pelo mundo externo.

  827. Consenso não é argumento.

  828. Se conhecimento é inato ou não, que diferença faz?

  829. Os princípios universais (como “o ser é; o não ser não é”) precisam ser aprendidos, o que os desqualifica como inatos.

  830. É preciso estar consciente pra aprender.

  831. É preciso estar consciente pra pensar.

  832. Não existem princípios morais inatos.

  833. Leis e costumes variam de lugar pra lugar, de época pra época.

  834. Se conceitos morais fossem inatos, não seriam ignorados tão facilmente e a lei não seria tão facilmente quebrada.

  835. Se moral fosse indiscutível, não haveria discussões sobre o certo e o errado, dois conceitos cujo conteúdo muda de acordo com a cultura.

  836. Se moral fosse algo inato, não existiriam pessoas que quebram as leis sem se sentir culpadas por isso.

  837. Onde há impunidade, crime é brincadeira.

  838. Existem (ou, pelo menos, existiram) nações sem religião.

  839. O que é lei aqui pode ser crime em outro lugar ou outro tempo.

  840. Nossa mente trabalha combinando e modificando ideias que vêm do exterior, através da percepção.

  841. Algo repetido várias vezes, mesmo que seja verdade, não é algo que “todo o mundo sabe”.

  842. A sensação precede a linguagem.

  843. “Empirismo” é a ideia segundo a qual algo só é verdade se tiver base empírica e segundo a qual as ideias com que a mente trabalha vêm da experiência.

  844. “Liberalismo” é uma doutrina política que diz:

    1. A sociedade deve se fundar num acordo entre governo e cidadãos.

    2. A tarefa do governo é zelar pelos direitos individuais das pessoas.

    3. O governo não está acima da lei.

    4. O povo pode se rebelar quando o governo tenta fazer mal ao povo.

  845. Se o interlocutor e você chamam cão de cachorro, você pode seguramente substituir a palavra “cão” por “cachorro”.

  846. Isso porque palavras são convencionais: desde que o outro entenda você, não importa que palavra você usa para descrever algo.

  847. A habilidade de pensar aparece antes da de falar.

  848. Se não fosse a linguagem, nenhuma sociedade teria surgido.

  849. Socialização é uma exigência natural.

  850. Quem faz uma lei não pode ser a mesma pessoa a aprovar tal lei ou a aplicá-la.

  851. Se não for assim, os sujeitos que fazem a lei não precisarão respeitá-la.

  852. A função do governo é agir segundo o interesse do povo.

  853. Um poder para legislação, outro pra aplicação.

  854. Todos temos direito à propriedade privada.

  855. O governo que desapropria o que é meu é um governo ladrão.

  856. Se o governo não honra seus compromissos com o povo, o povo não precisa honrar seus compromissos com o governo.

  857. Se o governo roubar você, rebele-se.

  858. A essência da democracia é a divisão dos poderes: não havendo tal divisão, não há democracia.

  859. Um bom poder legislativo é composto de muita gente, não de uma pessoa só.

  860. O poder legislativo deve se obrigar às leis que produz.

  861. O poder executivo não deveria legislar.

  862. A liberdade de culto é limitada: o governo não pode admitir seitas secretas nem religiões a serviço dos interesses de outro país.

  863. Os quatro Evangelhos não falam que você tem que matar quem não é cristão.

  864. O fanático afirma agir racionalmente.

  865. Alguns disfarçam seus vícios com a aparência de virtude, como os que matam por “boas causas”.

  866. Governo e igreja não devem formar uma instituição só.

  867. A fusão entre governo e igreja pode fazer com que leis anticristãs se tornem religiosamente aceitáveis e que pessoas que cumprem leis injustas sintam que não estão pecando.

  868. A salvação das almas não é tarefa do governo humano.

  869. O governo não deve se meter na vida privada dos outros, mas garanti-la.

  870. O governo deve se preocupar com as necessidades materiais da pessoa, não com suas necessidades espirituais.

  871. O governo deve ser laico.

  872. Todas as religiões lícitas devem ser isonômicas, sujeitas às mesmas leis que todo o mundo.

  873. O judiciário não tem poderes ilimitados.

  874. O governo só deve proibir o que faz mal à sociedade.

  875. Uma igreja que diz que você deve se sujeitar ao mando do poder político de outro país deveria ser proibida.

  876. Um país estrangeiro não pode recrutar soldados dentre nossos cidadãos.

  877. É inadmissível que um país estrangeiro leve brasileiros a agir contra seus interesses.

  878. Um ateu ameaçado por um cristão não pode, cinicamente, dizer que Deus não permite matar: você não pode invocar misericórdia de alguém que você pensa não existir.

  879. A percepção é condicionada pelo nosso tamanho.

  880. A distância também condiciona a percepção.

  881. Uma verdade pode ser inaceitável por causa das consequências que ela traz.

  882. Não é possível pensar a “extensão em si”, abstraído de algo medido.

  883. “Imaterialismo” é a ideia de que a existência da matéria é logicamente indefensável.

  884. Pode uma árvore cair sem ninguém perceber?

  885. Se não for possível chegar a uma verdade segura sobre algo, seja cético em relação a todos os caminhos que se propõem a levar à tal verdade.

  886. Não é possível ciência se não houver causalidade.

  887. Não é possível prever um fenômeno que você está vendo pela primeira vez.

  888. Inferir causalidade depende de experiência prévia.

  889. Inferir não é demonstrar.

  890. Inferimos causalidade por hábito: se algo sempre aconteceu, pensamos que sempre acontecerá, mas isso não elimina a possibilidade de que, algum dia, sejamos pegos de surpresa.

  891. A física repousa na crença de que a regularidade do universo nunca mudará, o que implicaria uma mudança também nas chamadas leis da física.

  892. Se algo é possível, não dá pra provar que não vai acontecer.

  893. Qual é a garantia de que não descobriremos algo novo que mudará as leis da física com a qual trabalhamos (o que invalidaria todas as teorias feitas sobre tais fundamentos)?

  894. É impossível prever o futuro.

  895. A constância da natureza e, portanto, das leis postuladas sobre seu funcionamento, não pode ser provada: esteja pronto para o dia em que o Sol não se levantará.

  896. É possível fazer ciência segura sobre eventos passados, mas do futuro só se faz estatística (que lida com o possível e suas chances, não sobre certezas).

  897. Causalidade é um hábito seguro pra condução da vida cotidiana, mas não pense que algo sempre acontecerá apenas porque sempre aconteceu.

  898. “Hábito” é a ação não refletida que se baseia em experiências passadas: de tanto fazer determinada coisa, você acaba fazendo sem pensar.

  899. Algo bom é algo útil.

  900. A moralidade deve se basear no bem-estar do povo: algo que faz mal à sociedade é imoral.

  901. O significado de um termo é a coleção de características empíricas que o descrevem.

  902. Existem características comuns a diferentes coisas.

  903. Se as duas últimas notas são verdadeiras, então a noção metafísica de substância é um termo vazio: a substância de algo não é sua “natureza” metafísica, mas aquilo que percebemos dela e que aglomeramos em um conceito.

  904. Coincidiria, portanto, com o significado da palavra, não com uma “natureza” imanente à coisa (especialmente porque elementos essenciais a uma dada substância podem existir em outras).

  905. Se a substância é metafísica, não pode ser sensível.

  906. Se a substância não é metafísica, então o conceito clássico de substância está errado.

  907. Denominamos “substância” um amalgamado de qualidades que, sim, são percebidas sensorialmente.

  908. Se substância é uma definição de termo e o nosso conhecimento sobre algo a que o termo se refere pode mudar com o tempo, segue-se que substâncias não são imutáveis.

  909. A moral não é apenas subjetiva, ela é também sentimental.

  910. A moral prática, diferente dos estudos sobre a moral, se guia pelo sentimento de utilidade social e não pela razão: sabemos que estamos agindo imoralmente, mesmo que não sintamos culpa, quando vemos que prejudicamos a sociedade com nossos atos.

  911. Como nosso conceito de utilidade pública muda com o tempo e é diferente em outros lugares, diferentes culturas terão diferentes códigos morais.

  912. Não existe, entre humanos, uma moral que dure pra sempre.

  913. Podemos refletir racionalmente sobre a moral, mas, quando temos que fazer uma escolha moral, é o sentimento do que é “certo” (socialmente útil) que aponta a decisão “moral”.

  914. A reflexão moral só é útil antes do momento da escolha.

  915. A reflexão moral deve ter como ponto de partida o comportamento dos homens comuns, não os conceitos abstratos, como o de “justiça”.

  916. Uma ética que parte de conceitos abstratos para prescrever comportamentos (em vez de partir de comportamentos concretos pra chegar às regras) é inflexível demais pra ser aplicada a seres humanos imperfeitos.

  917. A ética deve se fundar em comportamentos observáveis pra tirar suas conclusões.

  918. A tolerância (tanto religiosa quanto política) só é possível aos que são humildes o bastante pra reconhecer que suas próprias opiniões podem estar erradas.

  919. Disso decorre que a intolerância é fruto de ignorância e presunção.

  920. O cristianismo medieval queria que a Terra inteira fosse cristã… mas nunca houve um só cristianismo.

  921. Os cristãos fizeram guerras no mundo inteiro, inclusive contra outros cristãos.

  922. Matar alguém porque a vítima tinha uma opinião que desagradava ao criminoso é uma monstruosidade que desqualifica o agressor como ser humano.

  923. Políticos perseguem os fracos e só praticam a tolerância com os fortes.

  924. Reprimir opiniões pacíficas pode radicalizar os reprimidos.

  925. Além disso, tais repressões acabam fazendo propaganda da causa perseguida, agregando números ao movimento que deveria ficar menor.

  926. Fora que tal movimento, se for bem-sucedido, quererá vingança.

  927. É mais fácil haver tolerância religiosa em locais onde há várias religiões do que em locais onde há só duas.

  928. Uma força ao mesmo tempo religiosa e política é quase imparável.

  929. Um cristão intolerante não é cristão.

  930. Havia divergências entre as primeiras personalidades cristãs.

  931. Minorias perseguem umas às outras também, em vez de se apoiarem como pessoas excluídas que são.

  932. Nunca houve um tempo em que o cristianismo fosse uma religião unificada.

  933. Mesmo perseguidos, grupos reprimidos ainda praticam a opressão entre si.

  934. O cristão só obtém perdão de Deus ao perdoar seu próximo, mas, apesar disso, católicos e evangélicos continuam se espetando mutuamente.

  935. Um cristão pode dizer que o perdão e a caridade são virtudes e depois contradizer suas palavras com seus atos.

  936. O único campo do conhecimento onde não há seitas é o campo onde não existem erros: o das ciências exatas.

  937. “Tolerância” é a atitude de tratar igualmente tanto aquele que pensa diferente de você e alguém que pensa como você.

  938. O estado deve ser laico.

  939. A igreja não pode empregar a força pra avançar seus objetivos.

  940. Fanatismo é doença: os fanáticos não são dignos de ódio, mas de tratamento.

  941. Se você tentar argumentar racionalmente com um fanático, ele apenas se exaltará mais, o que o fará se arraigar ainda mais em suas crenças.

  942. Uma crença não pode ser combatida com a razão porque crenças são baseadas no sentimento e não na razão.

  943. Se você não pode derrotar um fanático pela razão, derrote-o pela piada: faça-o sentir vergonha de sua posição.

  944. Se uma pessoa está matando porque pensa que essa é a vontade de Deus, nenhum argumento a fará parar.

  945. Para haver fanatismo, é preciso haver preconceito contra alguém ou alguma coisa.

  946. A diferença entre o fanatismo e o mero misticismo é que o fanático é também criminoso: você é fanático quando sua fé leva você a cometer um crime.

  947. Se você mata quem não vai à missa, é perda de tempo você ir à missa depois.

  948. O juiz não pode condenar um réu por pensar diferente dele.

  949. Fanatismo pode causar alterações corporais.

  950. O fanático não precisa de estímulo externo pra ficar fora de si.

  951. O fanatismo deve ser prevenido com a educação, porque é difícil combatê-lo depois que está instalado.

  952. O cristão fanático quer viver hoje a violência que é corriqueira no Velho Testamento.

  953. Se o fanatismo é um sentimento, mesmo que patológico, não pode ser efetivamente proibido por lei.

  954. Pensar que o mundo não poderia ser melhor nos leva ao conformismo.

  955. As coisas podiam ser diferentes.

  956. Algumas pessoas continuam otimistas mesmo na adversidade… o que nem sempre é uma boa coisa.

  957. Criar uma humanidade nova e melhor requer um sistema educacional novo e melhor.

  958. Devemos educar uma criança sem matar sua curiosidade, o que significa não responder suas perguntas diretamente, mas estimulá-la a encontrar respostas sozinha, dando-lhe os meios de encontrar tais respostas.

  959. O ser humano parece que se esforça em destruir o trabalho de Deus.

  960. Não estamos satisfeitos com o mundo como ele está.

  961. O homem é feito pela interação com o meio em que vive.

  962. Os três professores: a natureza, a experiência e os homens.

  963. Se os três professores estiverem em contradição, a educação do sujeito será de má qualidade.

  964. Se não houvesse propriedade privada, haveria menos inveja, menos conflito, menos política e certamente não haveria roubo.

  965. Temos mais necessidades que os indígenas isolados, por isso somos mais infelizes.

  966. O aluno deve ser capaz de aprender por si mesmo e tal habilidade deve ser estimulada pelo professor.

  967. A história humana é irreversível: não podemos, com nossas próprias forças, voltar ao estado primitivo.

  968. A política deve equilibrar liberdade e igualdade.

  969. Defenda sua liberdade com sua vida.

  970. A ordem social é convencional.

  971. O lado bom da sociedade é o trabalho coletivo que ela habilita, nos permitindo trabalhar juntos em busca de um fim.

  972. É mais fácil perceber que existe um contrato social quando o violamos.

  973. Se todo o mundo tiver as mesmas responsabilidades, ninguém se interessará em tornar essas responsabilidades mais pesadas.

  974. A pessoa só procura o mal pra si mesma quando é enganada e levada a pensar que está procurando seu bem.

  975. Quando existirem demandas diferentes em um mesmo grupo, devemos sondar qual é a demanda comum entre os integrantes e lutar por ela, porque é mais fácil manter um grupo coeso lutando pelo que todos querem do que lutando pelo que a maioria quer.

  976. Ao organizar um grupo, não inclua na agenda pautas conflitantes.

  977. Se for votar ou dar sua opinião, vote ou opine por si mesmo, sem refletir a opinião de uma associação a qual você pertence.

  978. Se uma grande associação leva muitos a opinar da mesma forma, não é mais possível obter a vontade geral do povo, mas apenas a vontade geral entre associações influenciadoras, as quais podem estar agindo contra os interesses do povo.

  979. Para obter a vontade geral, é preciso que cada um pense com a própria cabeça, não com a dos outros.

  980. Por mais que se pinte uma atrocidade com as cores da virtude ou do heroísmo, ainda se trata de uma atrocidade.

  981. A educação pode depravar a bondade, mas não destruí-la.

  982. Nosso mau comportamento afetará as gerações futuras.

  983. Se você se bastasse a si mesmo, seria automaticamente feliz.

  984. Na natureza, a terra não é de ninguém e os frutos são de todos.

  985. A ideia de propriedade privada não surgiu de uma vez, mas gradualmente.

  986. O desejo por prestígio e a inveja das habilidades dos outros alimenta a competição pela fama.

  987. O status (importância atribuída a alguém pelo grupo ao qual ele pertence) permitiu o nascimento da vergonha entre os que têm menos status e do desprezo entre os que têm mais status.

  988. A coisa mais absurda é transformar a ofensa pessoal num crime, algo que só poderia ter vindo da cabeça de alguém que se acha mais importante que os outros.

  989. O crime de ofensa pessoal é uma tentativa de punir os outros segundo o quão importante o ofendido pensa que é.

  990. Punir outra pessoa por ofensas pessoais leva à normalização e radicalização da vingança.

  991. Por que sociedades pré-industriais são mais felizes?

  992. Você só progride se sentir necessidade, logo, sociedades menos desenvolvidas têm menos necessidades.

  993. Se têm menos necessidades, são mais felizes.

  994. A razão que levou alguns homens a progredirem tanto, quando outros homens preferiram ficar como estavam, é um mistério: por que a necessidade de progresso vem a uns, mas não para outros?

  995. O ideal é trabalhar pra si mesmo.

  996. A necessidade de empregar outros para seus fins ocasionou a escravidão.

  997. Com a propriedade privada, vem também a ostentação.

  998. O pobre precisa de emprego.

  999. O rico precisa de empregados…

  1000. Alguns querem dinheiro não porque precisam, mas só pra serem melhor que os outros.

  1001. As primeiras leis foram criadas para beneficiar os ricos.

  1002. A justiça erra muitas vezes.

  1003. As línguas orientais são ricas em metáforas e em figuras, transmitem emoção em um nível mais profundo e por isso são bonitas.

  1004. Essa carga poética é prejudicada pela padronização da língua, promovida pela escola.

  1005. A alma percebe o mundo através dos sentidos, o que quer dizer que a percepção não reside no sentido, mas na alma que se serve de informação sensorial.

  1006. Nossa autoconservação é guiada pelos princípios de prazer e dor.

  1007. A autoconsciência começa com o tato: é pelo tato que sabemos onde começa e onde termina nosso próprio corpo e os outros corpos.

  1008. Na falta da visão, é possível se orientar pelo tato.

  1009. “Sensismo” é a doutrina segundo a qual nossas ideias sempre são fruto, em última instância, da sensação apenas: a mente se limita a operar conceitos que correspondem a percepções sensíveis.

  1010. Conheça os limites da sua mente pra reduzir as chances de concluir absurdos.

  1011. Para isso, a mente humana deve analisar a si mesma.

  1012. “Criticismo” é o comportamento de submeter a escrutínio os resultados e métodos empregados pela própria pessoa, a fim de conhecer as limitações de tais resultados e tais métodos, o que permite saber até que ponto meu pensamento é válido.

  1013. Nosso conhecimento de um objeto é limitado por nossos esquemas mentais.

  1014. Isso quer dizer que as limitações da mente filtram nossas percepções de um objeto, condicionando o que podemos (e o que não podemos) saber sobre o mundo.

  1015. A física se tornou realmente produtiva ao mudar de método, se matematizando.

  1016. É possível fazer conclusões sem recorrer à experiência, mas elas são de natureza explicativa: todo solteiro é um não-casado.

  1017. Mas muitas outras afirmações só podem ser feitas após uso da experiência.

  1018. Se você transpuser os limites da sua mente, abandone suas pretensões de certeza.

  1019. A tendência a generalizar suas conclusões como leis verdadeiras e eternas deve ser combatida.

  1020. Nossa razão é incapaz de explicar tudo, então é preciso que desenhemos uma linha nítida entre o que podemos conhecer agora e o que não podemos.

  1021. Se soubermos quais são tais limites da razão, erraremos menos frequentemente.

  1022. O progresso científico deve usar tanto juízos analíticos (dedutivos, explicativos e evidentes) quanto juízos sintéticos (indutivos, extensivos e experimentais).

  1023. Um juízo analítico explica conhecimento que já existe através da decomposição, enquanto um juízo sintético acrescenta conhecimento novo pela agregação.

  1024. Espaço e tempo são coisa da nossa mente.

  1025. É mais realista conceber uma verdade científica válida para todos os homens do que uma verdade científica universalmente e eternamente válida para tudo.

  1026. O mundo que percebemos deriva da nossa humanidade: se fôssemos seres de espécie diferente, o mundo pareceria totalmente diferente a nós.

  1027. O mundo não é exatamente como o percebemos: se tivéssemos mais que cinco sentidos ou se tivéssemos menos que cinco, nossa percepção do mundo mudaria.

  1028. Nossa percepção do mundo também seria diferente se nossa mente percebesse o tempo ou espaço de uma maneira diferente.

  1029. O efeito de um objeto sobre os sentidos é chamado “sensação”.

  1030. Concluir algo de uma sensação é chamado “empiria”.

  1031. Enquanto produz uma sensação, um acontecimento pode ser chamado de “fenômeno”.

  1032. O fenômeno só é possível se ele for captável, ou seja, todo fenômeno pressupõe um sujeito que observa e um objeto observado.

  1033. A existência de algo não deriva de sua definição: dizer que algo existe porque é perfeito não faz essa coisa existir.

  1034. Não se fica rico escrevendo noves no extrato sacado.

  1035. Para ser moral, algo precisa ser universalizável: se todos agissem como você, sua vida (ou a humanidade) seria melhor ou pior?

    1. Se melhor, o ato é moral.

    2. Do contrário, ele não é moral (pode ser amoral ou imoral).

  1036. A dor nos motiva a melhorar nossa condição.

  1037. Se fosse aceitável se suicidar sempre que a adversidade parece insuperável, um monte de gente com problemas que depois se mostram perfeitamente resolvíveis teriam tirado a própria vida.

  1038. Quando muitas promessas são quebradas, promessas futuras perdem o valor e são tidas como fingimento.

  1039. Não desenvolver suas habilidades é imoral.

  1040. Se todos resolverem não desenvolver suas habilidades, a humanidade parará de progredir.

  1041. Ajude os outros na necessidade deles, porque pode ser que você se veja em necessidade algum dia.

  1042. “Sublime” é o objeto que causa prazer estético não por sua harmonia (como uma pintura pacífica, uma ficção infantil ou uma música calma), mas por sua potência (um tornado ou a queda de um meteoro).

  1043. A apreciação de algo sublime pode requerer medidas de segurança.

  1044. Mesmo que a beleza seja algo universal, o gosto ainda é particular: você pode concordar que a Monalisa é um belo quadro e ainda assim não gostar dela, preferindo outra coisa que pode até não ser tão bela.

  1045. A beleza é limitada e compreensível, mas o sublime pode vir de fenômenos “sem forma”, ilimitados, estimulando somente a imaginação e não a compreensão.

  1046. O sublime pode causar também medo.

  1047. Obter a paz mundial requer uma constituição liberal mundial que todos possam observar.

  1048. Não precisamos pensar se a paz é possível ou não; é preciso agir como se ela fosse possível.

  1049. Todos os políticos devem agir visando a paz em seu território.

  1050. Repúblicas democráticas minimizam o risco de guerra.

  1051. Mesmo em paz, não é possível eliminar a agressividade em cada um.

  1052. Uma república democrática deve equilibrar liberdade e igualdade.

  1053. Deve haver uma só lei para todos os cidadãos.

  1054. Geralmente, é o governo que quer a guerra, não o povo.

  1055. Dessa forma, se o povo tiver protagonismo político, como ocorre nas democracias, não haverá conflito frequente entre dois estados.

  1056. Só pode ser chamado de república o estado em que tanto povo quanto governo são cidadãos, isto é, detentores de poderes políticos.

  1057. É possível ser virtuoso e ateu.

  1058. Você passa a vida toda se definindo, descobrindo o que você é e o que você não é.

  1059. “Eu” é o pronome através do qual a pessoa que fala designa a si mesma.

  1060. Uma pessoa pode ser livre sem saber que é.

  1061. Uma pessoa pode colocar obstáculos à própria liberdade.

  1062. Há diferença entre estar cônscio de si mesmo e cônscio da existência do mundo separado de você.

  1063. A tarefa do intelectual é guiar a humanidade ao progresso, definido como aumento gradual da liberdade do homem, diante daquilo que lhe é externo.

  1064. A humanidade deve sempre superar seu atual grau de bem-estar.

  1065. A melhor forma de ensinar é pelo exemplo.

  1066. Acreditar em liberdade ou em determinismo é uma escolha guiada mais pelo caráter da pessoa do que pela razão.

  1067. Uma nação é feita de língua e costumes, não de território.

  1068. Uma nação realmente conquista uma outra quando a nação conquistada passa a falar a língua do dominador.

  1069. Se você é escravo, será ainda mais escravo quanto mais você aceita a escravidão.

  1070. A filosofia é produzida gradualmente pela razão, enquanto a arte é produzida de súbito pela inspiração.

  1071. A filosofia é uma experiência racional, mas a arte é uma experiência da pessoa inteira.

  1072. A arte é mais facilmente aceita que a filosofia.

  1073. No artista, produzir arte é um instinto, um desejo natural.

  1074. Você não pode escolher ter inspiração; ela vem sozinha.

  1075. A arte é uma síntese entre sujeito e objeto, porquanto a subjetividade do autor pode ser encontrada na matéria (a obra de arte).

  1076. Aptidão artística é um dom.

  1077. Você pode saber desenhar sem ser um artista, porque o artista depende da inspiração pra existir (sendo que a inspiração só vem quando ela quer).

  1078. A filosofia deve explicar o mundo.

  1079. Se não houvesse correspondência entre realidade e razão, a filosofia seria uma prática impossível.

  1080. Tal como só se pode compreender um órgão examinando o resto do corpo (o que torna mais claro o papel do órgão), um fenômeno só pode ser plenamente compreendido em seu contexto, seja ele um fenômeno natural ou histórico.

  1081. Nada acontece sem razão.

  1082. A filosofia não deve se intrometer em tarefas que outros ramos do saber desempenham melhor.

  1083. A filosofia evolui com o tempo, tal como a sociedade também evolui.

  1084. A partir do momento em que a filosofia se torna prescritiva, ela abandona sua pretensão de certeza: a filosofia pode acuradamente descrever o presente, mas ela só poderia descrever acuradamente o futuro se o futuro pertencesse a ela.

  1085. Suas ideias devem descrever objetos concretos e nunca perdê-los de vista; a filosofia deve sempre guardar relação com nosso mundo.

  1086. “Absoluto” é o termo filosófico que designa uma noção racional de Deus, diferente daquela noção usada na fé.

  1087. A mudança ocorre em três etapas: estado inicial (afirmação), interferência exterior (negação) e, após a resolução do conflito entre os dois, síntese (a conclusão, que supera o estado inicial e a interferência ao reunir o que se aproveita das duas coisas, gerando harmonia temporária, até a próxima interferência).

  1088. Para mudar, é preciso renunciar ao proceder anterior.

  1089. A terceira etapa, a síntese, torna-se a primeira etapa do processo seguinte, onde uma nova interferência causará uma nova mudança.

  1090. É inútil se deter no ser e no não-ser sem também considerar o processo de transformação.

  1091. A filosofia pode explicar a religião.

  1092. A filosofia e a religião podem discorrer sobre o mesmo assunto de forma diferente e ainda assim concluírem coincidentemente.

  1093. É difícil criar leis válidas em todos os governos porque o sentimento de patriotismo, que nos leva a amar o que nos torna diferentes dos outros povos, é algo real.

  1094. Uma constituição universal é, então, utópica.

  1095. A única coisa que todos os seres humanos têm em comum é a espécie e tudo o que está incluso no conceito de homo sapiens, mas nada além disso (por isso diferentes povos agem diferentemente).

  1096. Disso decorre a soberania dos povos: se um povo ama a si mesmo, não quererá interferência estrangeira em seus negócios.

  1097. A oposição entre os povos aumenta o patriotismo.

  1098. Como não existe uma autoridade maior que os governos nacionais, não há nada (exceto o povo) que faça com que os governos do mundo observem uma lei comum.

  1099. Cada governo é determinado por seu povo.

  1100. Os governos só observariam leis universais se os povos assim quisessem.

  1101. Se um governo tem mais poder que outro, quererá interferir com o mais fraco.

  1102. Conserve o que é seu.

  1103. Um estado (isto é, governo e povo) é como uma gigantesca família.

  1104. Não há qualidade humana que esteja ausente no conceito de Deus.

  1105. As qualidades existentes no conceito de Deus estão em grau infinito.

  1106. Há uma tendência psicológica de pensar que há algo real (empírico) correspondente a cada conceito racional da mente.

  1107. O conhecimento que cada um tem é um conjunto de representações do mundo objetivo, que podem ser partilhadas com outros, mas essencialmente pessoais.

  1108. Sendo assim, mesmo habitando a mesma Terra, cada um vive em um mundo próprio.

  1109. Isso acontece porque o nosso conhecimento do mundo objetivo sempre tem que passar por processos muito pessoais, como os cinco sentidos e a capacidade de raciocinar: o cego vive num mundo diferente, tal como vivem em mundos diferentes aqueles que não tem um ou mais dos cinco sentidos, aqueles que têm mais que cinco sentidos, os iluminados ou aqueles que não estão em plena posse da razão.

  1110. Como não há conhecimento sem sujeito e sem objeto e como não é possível apreender algo do objeto sem a subjetividade, segue-se que tal fenômeno é inevitável.

  1111. Não é possível o conhecimento sem as noções de tempo, espaço e causalidade.

  1112. “Sublimação” é a conversão de energia psíquica (sexual ou não) em criatividade.

  1113. “Nirvana” é um estado místico no qual a pessoa alcança a plenitude pela supressão de todos os desejos.

  1114. Como você sabe que não está sonhando?

  1115. Mesmo que a realidade seja um sonho, ela é um sonho de natureza diferente: os sonhos “comuns” não têm continuidade, mas, ao acordarmos, vemos que um dia continua o outro.

  1116. Assim, se a realidade for um sonho, é o único com continuidade.

  1117. Só saberemos, com certeza, se não estamos sonhando se acordarmos.

  1118. Sonho e vigília são duas facetas da mesma vida.

  1119. O sonho sempre usa elementos da nossa experiência de vida para criar suas narrativas.

  1120. Se o mundo precisa passar pela subjetividade pra ser conhecido, uma interpretação 100% objetiva do mundo não é possível.

  1121. O amor é um tema filosófico.

  1122. Amor e sexualidade andam juntos.

  1123. Se sexo não fosse gostoso, a humanidade teria desaparecido.

  1124. É preciso uma pulsão irracional e forte, como o desejo sexual, pra levar uma pessoa à péssima decisão de ter um filho num mundo tão ruim.

  1125. Nossa liberdade também é coibida pelos nossos instintos, vontades fortes que visam a preservação do corpo e da espécie num estado de prazer maximizado.

  1126. Muitas pessoas sentem culpa após o orgasmo, porque sentem que fizeram uma grande besteira.

  1127. A vontade de fazer sexo é quase sobrepujante, mas, depois que você se satisfaz, você não acha estranho que algo tão simples e de tão curta duração possa ter desencadeado tamanho desejo?

  1128. Isso porque o impulso sexual tem o bem-estar coletivo como objetivo, não o bem-estar pessoal.

  1129. Como o bem-estar coletivo é mais importante, a natureza nos deu um desejo louco de trepar, mas, como não se trata do bem-estar individual, a recompensa é pequena demais em comparação ao desejo sentido.

  1130. É preciso haver sujeito e objeto para que haja conhecimento (mesmo que ambos coincidam).

  1131. A vida individual é uma contestação viva do sistema, da coletividade.

  1132. As três formas de viver: esteticamente (busca pelo prazer), eticamente (busca pelo bem) e religiosamente (busca por Deus).

  1133. Viver esteticamente requer viver intensamente, requer não se conformar com a rotina.

  1134. Infelizmente, viver dessa forma é muito difícil, porque não há muitas oportunidades de excitação.

  1135. Donde decorre que viver esteticamente é extremamente chato no momento em que você fica sem ter o que fazer.

  1136. A vida estética é sintoma de desespero: talvez a pessoa esteja fugindo de algo…

  1137. Numa vida estética, se vai de um estado de espírito a outro, não há continuidade; é como se a pessoa vivesse várias pequenas vidas autocontidas.

  1138. A vida estética é irresponsável: só pensa no presente.

  1139. Mudar de estilo de vida (estético, ético e religioso) não é um processo gradual, já começando no momento em que se opta por um deles.

  1140. Viver eticamente requer disciplina: você planeja seu futuro e age de acordo, se colocando no caminho até seu objetivo.

  1141. O problema da vida ética é que ela não responde às questões fundamentais da vida e da existência.

  1142. Pode ser que o homem ético se pergunte “por que estou fazendo isso?”.

  1143. O homem ético é orientado a tarefas.

  1144. Se eu tenho um objetivo, tenho que me disciplinar para obtê-lo, me submeter a regras.

  1145. O homem ético consegue tirar satisfação de si mesmo, enquanto o homem estético precisa de estímulos externos.

  1146. Anjos e animais não se angustiam, mas somente o homem.

  1147. Ter que escolher pode ser pior do que as opções dentre as quais você escolhe.

  1148. A angústia cresce com a sabedoria.

  1149. Toda escolha implica renúncia.

  1150. A angústia de escolher entre múltiplas opções pode levar o sujeito a preferir não escolher.

  1151. A angústia pode causar paralisia.

  1152. Se afogar na angústia é tão ruim… quanto nunca tê-la sentido.

  1153. A angústia pode ser uma experiência de crescimento, se você senti-la sem ser por ela vencido.

  1154. Angústia é um sentimento particularmente humano.

  1155. A angústia não é o mesmo que medo.

  1156. Angústia é consequência natural da liberdade.

  1157. Trata-se do sofrimento que vem de pensarmos nas possibilidades implícitas em cada escolha: “E se…?”

  1158. A possibilidade pode causar mais tormento que a realidade e isso considerando que a realidade já é pesada.

  1159. Opções demais provocam angústia, o desconforto causado pela liberdade de escolha entre várias possibilidades.

  1160. Não se deve esperar nada da vida.

  1161. Depois de feita a escolha, a angústia desaparece, até o momento em que se tenha que escolher novamente.

  1162. O religioso, na prática, vive apenas segundo as normas da sua fé, não se sentindo preso às regras do povo (socialização) ou do governo (as leis).

  1163. Nem Deus, nem os fiéis, devem subjugar sua religião ao governo humano.

  1164. Deus não obedece às leis humanas.

  1165. Amar Deus sem acreditar em Deus (isto é, como conceito ou ideia norteadora, “absoluto”) é efetivamente amar a si mesmo (como homem).

  1166. O religioso age além da ética humana.

  1167. Isso porque a moral divina é absoluta e, se é absoluta e o absoluto deve também ser único, as outras morais disponíveis se tornam relativas.

  1168. Um adolescente pode perceber que o seu país precisa mudar, mesmo quando nenhum adulto percebe isso.

  1169. Nem tudo é ciência.

  1170. Mas deveria haver ciência pra certas coisas para as quais, no momento, não há.

  1171. Não há ciência sem matemática.

  1172. É mais realista conhecer as leis que regem um fenômeno do que tentar desvendar a origem do universo ou o objetivo da vida.

  1173. Antes da ciência sempre vem a religião.

  1174. A ciência não se debruça sobre questões metafísicas porque muitas são impossíveis de responder.

  1175. “Reducionismo” é a doutrina segundo a qual todos os aspectos do mundo são governados por sistemas que podem ser decompostos em elementos simples, de natureza material ou mecânica.

  1176. “Positivismo” foi um movimento filosófico ocidental do século dezenove, que via a ciência como o ápice do conhecimento humano, colocando tanto a metafísica como a teologia no patamar de saberes superados.

  1177. A lei que rege a história: oprimidos e opressores entram em conflito e isso origina mudança.

  1178. Isso porque a mudança se origina de condições materiais, concretas (particularmente econômicas, produtivas ou sociais): ideais sozinhos não operam mudanças de paradigma.

  1179. Antigamente, havia vários grupos oprimidos e vários grupos opressores, mas agora há menos grupos em cada lado, embora tais grupos sejam bem maiores (como a burguesia opressora e o proletariado oprimido).

  1180. Na idade média, a exploração é justificada pelos costumes e pela religião, mas, com o advento da burguesia, a exploração se tornou aberta, sem justificativas nobres.

  1181. Com o advento da burguesia, tudo vira trabalho assalariado.

  1182. No capitalismo, valores familiares não precisam existir.

  1183. A burguesia proporcionou um aceleramento sem precedentes em nível tecnológico.

  1184. O capitalismo mostrou a verdadeira capacidade produtiva humana.

  1185. No capitalismo, as coisas mudam rápido e cada vez mais rápido.

  1186. O capitalismo é contra o reacionarismo: o comércio mundial elimina fronteiras econômicas e acaba com o caráter nacional da indústria.

  1187. O capitalismo permite que um país tire recursos naturais de outro pra fazer mercadoria que será vendida num terceiro país.

  1188. Isso opera contra o nacionalismo e contra a autossuficiência de cada nação: em um mundo globalizado, não é possível manter o nível de conforto adquirido se isolando do resto do mundo.

  1189. Com a transformação da cultura em mercadoria, o pensamento nacional cede espaço ao internacional.

  1190. Na era capitalista, quem não é capitalista é “primitivo”.

  1191. Ser “primitivo”, num mundo capitalista, é não entrar no jogo burguês adotado pelas nações “desenvolvidas”, que são consideradas “desenvolvidas” por serem capitalistas.

  1192. Como o ocidente começou esse processo primeiro, ele submeteu o oriente.

  1193. O capitalismo não teria sido possível se não fossem as falhas do feudalismo.

  1194. Um sistema de produção é abandonado quando ele passa a não mais comportar a força produtiva que se tornou padrão de uma época, ou seja, quando tal sistema se torna um estorvo.

  1195. Só no sistema capitalista a sociedade entra em crise por excesso de produção.

  1196. Crises de superprodução podem ser vencidas pela expansão do sistema capitalista, mas isso prepara o terreno para crises maiores.

  1197. “Comunismo” é um sistema de organização social sem classes sociais e sem meios de produção privados, orientando-se pelo princípio de que cada um tem direito ao que pode produzir, sendo tal direito limitado pela necessidade do outro (se você tem excedente, esse excedente é seu, mas apenas se não houver quem precise desse excedente mais que você).

  1198. “Revolução” é a revolta bem-sucedida feita por oprimidos contra seus opressores.

  1199. A tensão entre proletariado e burguesia é natural e a superação do capitalismo se colocará como única alternativa possível quando os problemas do capitalismo se acumularem ao ponto de não ser mais possível consertá-lo.

  1200. A revolução com movimentos individuais, depois grupais, depois setoriais, até envolver uma classe social inteira.

  1201. A competição entre trabalhadores prejudica sua união.

  1202. A modernização do trabalho fabril pelas máquinas simplifica funções, de forma que o salário do operador não precisa ser alto.

  1203. Crises econômicas podem servir pra mobilizar trabalhadores.

  1204. Máquinas sofisticadas extinguem profissões.

  1205. Trabalhadores podem até vencer batalhas, mas continuam perdendo a guerra.

  1206. Os meios de comunicação devem ser usados pra unificar e mobilizar trabalhadores.

  1207. Isso permite movimentos de alcance nacional.

  1208. Use a tecnologia a seu favor.

  1209. Mesmo que os trabalhadores não consigam vencer a guerra, sua unificação como classe social e, eventualmente, através de um partido político, permite que eles façam suas conquistas, principalmente no campo legal.

  1210. Faça amizade com os inimigos de seu inimigo.

  1211. Quando a burguesia se vê no aperto, ela pede socorro ao proletariado.

  1212. O trabalhador culto, erudito, é uma ameaça ao sistema.

  1213. A tendência é que a classe média caia pra uma classe mais baixa.

  1214. Quando isso acontece, você adiciona ao proletariado pessoas com nível de educação maior que a média para aquela classe.

  1215. Existem ricos que apoiam a causa operária.

  1216. Uma classe que luta pela própria sobrevivência e não pela destruição do sistema que propicia a opressão é, na verdade, conservadora.

  1217. Se uma classe oprimida luta contra uma classe opressora a fim de trazer de volta condições passadas, trata-se de uma classe reacionária.

  1218. As camadas mais baixa do proletariado podem servir como massa de manobra da burguesia, já que estão desesperados o bastante pra se venderem.

  1219. A forma mais garantida de vencer é não ter nada a perder.

  1220. Uma revolução proletária seria uma revolução operada pela maioria, porque tem mais trabalhador que patrão.

  1221. Essa é uma tarefa nacional: cada proletariado deve se livrar da burguesia do próprio país.

  1222. O opressor precisa dos oprimidos, por isso não pode matá-los.

  1223. A pobreza parece crescer mais rapidamente que a população e a riqueza.

  1224. Os dois princípios criadores da arte são o espírito apolíneo (predominante nas artes plásticas) e o espírito dionisíaco (predominante na música).

  1225. A inspiração do primeiro tipo gera uma obra harmônica, metódica, enquanto que a inspiração do segundo tipo gera uma obra espontânea e irrefletida.

  1226. Se a inspiração artística é uma desconexão com o real, então o espírito apolíneo pode ser comparado à desconexão pelo sonho, enquanto o espírito dionisíaco é a desconexão pela embriaguez.

  1227. Ambos os princípios são necessários à arte, pra que uma obra não seja tão harmônica a ponto de ser chata, nem tão espontânea a ponto de ser um caos.

  1228. Homem e mulher estão em conflito constante e a reconciliação entre os dois é sempre momentânea.

  1229. A linguagem mítica pode ser mais clara e, por isso, preferível à linguagem filosófica.

  1230. Sonhos são a máxima expressão da criatividade.

  1231. A embriaguez pode ser criativa: tem gente que só consegue produzir arte depois de tomar um porre.

  1232. Aliás, a embriaguez criativa pode ser alcançada por outros meios além do álcool.

  1233. Um desses meios é a loucura.

  1234. Transforme sua vida numa obra de arte.

  1235. A filosofia se propõe a explicar tudo racionalmente.

  1236. Uma vida ascendente é a aquela na qual felicidade e instinto coincidem: somente a partir da cisão entre os dois, somente numa sociedade em que se crê que o instinto traz infelicidade, é que é possível a decadência.

  1237. O filósofo que conceitualiza a filosofia como renúncia a vida achará o suicídio algo racional.

  1238. O pudor da nudez e a vergonha da sexualidade só podem existir num mundo onde há uma moral que torna os homens impotentes.

  1239. Uma pessoa pode ter em si duas morais conflitantes.

  1240. A moral dos senhores é aquela que valoriza o que é forte, enquanto a moral dos escravos, quando estes chegam ao poder, valoriza o que é fraco.

  1241. Antigamente, “bom” era aquilo que os fortes faziam: se uma pessoa forte mata, então matar é elevado ao grau de virtude.

  1242. Então, antigamente, tudo o que o forte, sábio ou independente (os chamados “homens nobres”) faziam era considerado virtude.

  1243. Já os dominados pelos homens nobres criavam uma moral onde era considerado virtude aquilo que era o oposto das virtudes dos dominadores, ou seja, criavam uma moral de oposição, onde a fraqueza, a ignorância e a dependência um do outro são coisas boas.

  1244. A moral dos dominados (“escravos”) concebe ações que são inerentemente boas ou más: “bom” não é mais aquilo que o nobre faz, mas aquilo que está de acordo com um código que diz quais ações são boas e quais são más.

  1245. Embora cada moral de escravos tenha pretensões universais e eternas, cada moral acaba sendo fruto de seu contexto histórico-geográfico.

  1246. “Niilismo” é a aceitação do fato de que nada tem sentido ou significado intrínseco.

  1247. “Super-homem” é a pessoa que aceita que não existem valores universais ou morais universais, que leva uma vida segundo o espírito dionisíaco, não se importa com a passagem do tempo e que, diante de um mundo sem sentido, atribui o sentido que preferir ao mundo.

  1248. A partir do iluminismo, as pessoas gradualmente sentem menos necessidade de Deus, mas isso não significa que elas encontram um substituto para ele.

  1249. No momento em que uma pessoa passa a não acreditar em Deus, ela não tem mais nenhum valor absoluto.

  1250. O ateísmo também é representa uma perda de pontos de referência sólidos.

  1251. Sem valores absolutos e sem pontos de referência sólidos, o ateísmo acaba sendo uma experiência dolorosa.

  1252. Ao abandonar Deus, o centro de tudo passar ser a raça humana, em vez da divindade.

  1253. O ateísmo é um produto humano.

  1254. Se algum dia todos se tornarem ateus, a igreja deixará de existir.

  1255. O gênero humano deve ser superado: se for possível ser algo melhor que meramente humano, por que não sê-lo?

  1256. Todas as espécies são capazes de se aperfeiçoar.

  1257. Não queira regredir a um estado anterior.

  1258. A humanidade pode agir pior que muitos animais.

  1259. A alegria do fraco e do feio é a crueldade, quando este consegue subjugar o forte e o belo.

  1260. O corpo, a natureza e os instintos falam, então escute-os.

  1261. Só um mar pode receber um rio poluído sem se arruinar, tal como somente um homem forte pode se encontrar com algo potencialmente corruptor sem se corromper.

  1262. O homem forte é capaz de grande bem e de grande mal.

  1263. O homem deve se aperfeiçoar sempre.

  1264. Antes do cristianismo, havia uma noção de que o tempo era cíclico: tudo o que aconteceu acontecerá novamente.

  1265. Uma mente doente adoecerá o corpo.

  1266. Mente e corpo influenciam um ao outro, de forma que não se pode dizer que o espírito é independente do corpo ou oposto a ele.

  1267. Um problema físico pode ser causado por uma memória, sem que a pessoa se dê conta de que é aquela memória, aquele pensamento, que origina o sintoma.

  1268. Analogamente, uma mente sã mitiga problemas corporais.

  1269. Se a pessoa esqueceu algo, só pode lembrá-lo sozinha e gradualmente.

  1270. Uma experiência de tensão emocional pode desencadear sintomas físicos.

  1271. Confrontar e vencer uma memória patogênica cessará os sintomas a ela associados.

  1272. O inconsciente fala através dos sonhos.

  1273. Sonhos apontam para nossos instintos insatisfeitos, como o medo de algo, desejo sexual ou uma bexiga bem cheia.

  1274. O sonho pode ser influenciado por qualquer desejo.

  1275. Sonhos sempre têm lógica, mesmo que pouca.

  1276. Vários detalhes de um sonho podem desaparecer quando a pessoa desperta; ela não é capaz de lembrar todo o sonho.

  1277. A sexualidade infantil existe.

  1278. A sexualidade infantil segue menos regras que a adulta e pode, por isso, ser considerada “perversa”.

  1279. Uma história é mais impactante quando sentimos que o destino do protagonista poderia ser o nosso.

  1280. A experiência sexual infantil, quando considerada escandalosa, é negada pelo adulto no qual a criança se torna.

  1281. A agressividade é um instinto humano não-eliminável.

  1282. A civilização é o mal menor, não o ideal.

  1283. Embora a agressividade seja inerente às pessoas, é possível, ainda assim, um futuro sem guerras.

  1284. Os dois tipos de instintos: eróticos (atração e sexualidade) e tanatológicos (repulsão e agressividade).

  1285. Ambas as pulsões são necessárias à sobrevivência do homem, então não podemos nos apressar a igualar tais pulsões ao bem e ao mal.

  1286. Infelizmente, amor e ódio estão frequentemente mesclados.

  1287. Um exemplo de pulsão que mistura amor e ódio é o instinto de autopreservação: por amor ao meu corpo, devo matar quem tenta me matar.

  1288. Por causa da mistura das duas classes de instinto, pessoas vão pra guerra por diferentes razões: alguns querem apenas defender sua terra e querem o bem de seu povo, enquanto outros agem por vingança, cobiça ou preconceitos de raça, classe ou religião.

  1289. Agredir pode causar prazer.

  1290. Dar um caráter nobre a uma atitude baixa facilita a tomada de tal atitude.

  1291. Talvez por isso há quem mate “em nome de Deus”.

  1292. A sexualidade é a pulsão da vida.

  1293. A agressividade é a pulsão da morte.

  1294. Mas o homem pode controlar ambas as pulsões.

  1295. Nunca existiu um “bom selvagem” em parte alguma do mundo.

  1296. A pulsão de morte, a agressividade, não é eficientemente combatida diretamente.

  1297. Então, é mais fácil conter a agressividade exercitando a sua pulsão oposta: o amor.

  1298. Pelo exercício do amor, não pela repressão direta à agressão, é que o ser humano se tornará mais pacífico, porque nunca queremos machucar quem amamos.

  1299. Assim, somente pelo exercício do amor mútuo é que podemos chegar a um mundo no qual, apesar da existência de pulsão agressiva, não haverá guerra.

  1300. Ama teu próximo como a ti mesmo.

  1301. A solidariedade, o sofrimento sentido ao presenciar sofrimento, é uma força que favorece o aparecimento de comunidades.

  1302. Isso porque a solidariedade proporciona identificação.

  1303. Seres humanos nunca serão iguais entre si.

  1304. Por causa disso, é natural que escolhamos os mais aptos a governar para serem nossos líderes.

  1305. Mesmo sem guerra, não haveria paz em níveis, por exemplo, interpessoais.

  1306. Uma paz perfeita, não a mera ausência de guerra, só seria possível se seres humanos não tivessem emoções.

  1307. A civilização é raiz de muitos males.

  1308. Parece que pessoas com menos inteligência são as que mais se reproduzem, o que contribui para o empobrecimento intelectual médio da humanidade.

  1309. O excesso de regras em torno da sexualidade pode causar a extinção da humanidade.

  1310. Animais são domesticados e humanos são civilizados; o mesmo processo com diferentes nomes.

  1311. O que era aceitável ontem não é mais hoje.

  1312. Com a civilização, o nosso intelecto cresce, mas a agressividade passa a ser direcionada para dentro.

  1313. A guerra é uma ruptura do processo civilizatório: o homem se torna animal por um tempo.

  1314. A rejeição da guerra também acontece em nível estético: a guerra é feia, isso também contribui para não gostarmos dela.

  1315. Se for necessário dizer qual é a duração do presente, que se diga que o presenta dura enquanto o observador vive.

  1316. A percepção do tempo é relativa: dois eventos de um minuto parecem ter durações diferentes se um deles é mais intenso que o outro.

  1317. Definir o presente matematicamente é impossível.

  1318. “Intuição” é a compreensão imediata de uma verdade qualquer.

  1319. Diferente do conhecimento racional, que precisa fazer uma ponte entre o conhecido e o desconhecido, o conhecimento intuitivo pode existir sem que a mente tenha nada parecido com ele antes de sua apreensão.

  1320. A razão é gradual e a intuição é imediata.

  1321. O presente é o conjunto material da existência.

  1322. A evolução das espécies é o processo pelo qual uma espécie, ao se adaptar ao seu ambiente (seleção natural), gera crias mais adaptadas a esse ambiente.

  1323. Pelo acúmulo de novas características, determinado espécime pode ser considerado o primeiro de uma nova espécie.

  1324. Só que isso não quer dizer que a espécie evoluída é melhor do que a espécie que o origina, apenas que é melhor adaptada para aquele ambiente.

  1325. Se o ambiente fosse outro ou a espécie fosse outra, o resultado seria outro.

  1326. Donde decorre que, se a teoria da evolução estiver correta, o ser humano não é o melhor resultado desse processo, ao menos não necessariamente, sendo apenas um resultado de um número desconhecido de resultados: pode ser que o neandertal fizesse um melhor trabalho que nós no domínio da Terra, se eles não tivessem sido extintos.

  1327. Isso também implica dizer que a evolução não significa sempre progresso (a menos que se queira admitir que a natureza segue um projeto).

  1328. A evolução das espécies implica fatores que a espécie não pode controlar, de forma que não está em poder de determinada espécie decidir se evolui ou não, nem como evoluirá.

  1329. “Evolucionismo” é o uso da teoria evolutiva de Darwin na explicação do mundo inteiro, tentando traçar tudo a uma origem biológica ou forma de adaptação.

  1330. A natureza não é racional, logo não age segundo plano algum.

  1331. A inteligência humana não é capaz de explicar a vida: por que estamos vivos e como, se nenhum de nossos elementos têm vida em si mesmo e sua alocação não basta para criar um corpo funcional?

  1332. Além disso, a vida individual, tal como a vida coletiva, não segue “leis” estáticas, como as da física; não é possível fazer “leis da vida”.

  1333. A morada da intuição é o instinto, com o qual nascemos.

  1334. Logo, nascemos tanto com meios de conhecer pela razão quanto com meios de conhecer pela intuição.

  1335. A consciência humana é impossível sem o cérebro humano.

  1336. O cérebro tem capacidade plástica e sua estrutura é otimizada para o uso que se faz dele.

  1337. Pode ser que a morte deixe de existir no futuro.

  1338. Há coisas que não é possível compreender pela inteligência, mas somente pelo instinto.

  1339. Inteligência e instinto podem fornecer boas soluções para um dado problema.

  1340. O processo civilizatório tem nos feito negligenciar a intuição.

  1341. Uma atitude é pragmática quando tem como fundamento teórico as consequências de uma ação, ou seja, você é pragmático quando considera os resultados e consequências de uma ação como aquilo de mais importante em seu julgamento.

  1342. Uma crença pode se fundar de três formas…

    1. Pela recusa em discutir suas opiniões.

    2. Pelo controle e eliminação do contraditório.

    3. Pela blindagem racional.

  1343. Crenças obtidas por tais meios são consideradas indubitáveis para aquele que crê.

  1344. Isso é diferente de quando você chega a uma conclusão usando o método científico, o qual renuncia à infalibilidade, mas, talvez justamente por isso, é mais fecundo de bons resultados.

  1345. O método científico, por renunciar à infalibilidade, proporciona a autocorreção.

  1346. Tal como uma ciência é julgada por seus resultados, o pragmatismo tenta um método análogo ao científico, mas na filosofia: uma ideia filosófica deve ser julgada por seus resultados.

  1347. Uma pessoa que se sente feliz afastando de si tudo o que poderia contradizer suas crenças por derradeiro passa a desconsiderar a própria razão.

  1348. Isso acontece porque, embora o homem seja um animal racional, ele não é de todo racional.

  1349. O problema da pessoa que desenvolve suas crenças afastando as crenças opostas é que ela só poderá fazer isso perfeitamente fugindo da socialização.

  1350. Fazer isso é antinatural, a menos que a pessoa seja eremita.

  1351. Assim, as opiniões de um influenciam as dos outros e talvez seja melhor assim, ao menos porque crenças partilhadas permitem a união.

  1352. É possível manipular várias pessoas ao mesmo tempo.

  1353. O estado (o governo ou o povo) pode fazer com que dissidentes, por medo, fiquem calados.

  1354. É o que ocorre em ditaduras.

  1355. O problema das ditaduras é que elas duram pouco em locais onde a sociedade é complexa.

  1356. Isso porque nenhuma instituição pode controlar todos os pensamentos de todas as pessoas.

  1357. Se uma ditadura manipular apenas certas pessoas-chave, não será necessário manipular todos.

  1358. Uma ditadura precisa de um povo ignorante pra subsistir.

  1359. Não é possível remover de um homem sua capacidade de duvidar.

  1360. Liberdade de pensamento é uma habilidade que não se extingue.

  1361. Outros povos e outras épocas têm ou tiveram costumes diferentes: se, por acaso, você tivesse nascido em outro lugar ou noutro tempo, você teria crenças diferentes.

  1362. O choque cultural nos permite criticar nossa própria cultura.

  1363. As coisas são melhores agora ou eram melhores antes?

  1364. É melhor viver neste país ou em outro?

  1365. Perguntas como essas nos fazem duvidar de nós mesmos e também dos formadores da opinião local.

  1366. Questões metafísicas estão sempre abertas, sem resposta definitiva.

  1367. O método científico, avaliando opiniões segundo critérios objetivos, conduz ao consenso.

  1368. Assim, as opiniões produzidas cientificamente são muito mais confiáveis, porque ela lida com dados empíricos e verificáveis, através de métodos repetíveis, para que qualquer um, se dispor dos meios, possa fazer o experimento e constatar que as coisas são daquele jeito.

  1369. As consequências de uma ideia são mais importantes que sua essência.

  1370. Quando estiver em dúvida quanto ao que escolher, se pergunte que diferença faz: se todas as opções levam às mesmas consequências, tanto faz qual você escolhe.

  1371. Se o homem é determinado ou livre, que diferença faz em termos de consequência, se nossa vida seguirá do mesmo jeito não importando qual opção é a correta?

  1372. Considerar as consequências práticas de uma atitude é uma ótima forma de encerrar um debate que parece não ter fim.

  1373. Se não há diferença entre as consequências de duas escolhas, é perda de tempo discutir: é provável que ambas as escolhas estejam corretas, o que torna o debate inútil.

  1374. Um debate que não considera as consequências de cada rumo a ser tomado não é um debate sério.

  1375. Como cada escolha afeta o mundo?

  1376. Se diferentes escolhas afetam o mundo da mesma forma, tanto faz qual eu escolho.

  1377. A ciência é um dos saberes que julga cada coisa pelas suas consequências.

  1378. Se duas opções afetam o mundo da mesma forma, pode ser que a dicotomia seja aparente e ambas as explicações sejam, na verdade, a mesma.

  1379. A filosofia deveria se comportar como a ciência e deixar de encarar um dado conceito sem levar em consideração sua consequência prática.

  1380. Se uma doutrina filosófica ou teoria científica se apresenta como infalível, provavelmente está errada.

  1381. A consideração das consequências de uma ideia aproxima a filosofia da ciência.

  1382. Quando a filosofia desconsidera as consequências práticas de um sistema filosófico, ela passa a ser papo furado, um raciocínio puramente verbal.

  1383. Definir um objeto sem considerar suas consequências leva a um entendimento incompleto do objeto.

  1384. A filosofia deveria concluir prescritivamente, não apenas definindo e explicando, mas também nos dizendo como usar a filosofia de maneira prática para operar alguma mudança na realidade.

  1385. Assim, produzir uma teoria cujas consequências práticas ainda são desconhecidas é ter feito o trabalho apenas pela metade; a teoria é o meio do caminho, não o ponto de chegada.

  1386. Encarar as coisas pragmaticamente é algo que qualquer um pode fazer, não somente os acadêmicos.

  1387. Como todas as ações humanas estão postas no tempo, não existe tema que não possa ser tratado pela história.

  1388. O mesmo é válido para a natureza, por isso se faz história natural.

  1389. Como um problema só pode ser compreendido examinando as condições (passadas) que o proporcionaram, segue-se que uma boa filosofia não pode ser feita sem a história.

  1390. Não há acontecimento sem tempo, logo todo acontecimento tem história.

  1391. Fazer filosofia sem recorrer à história é fazer uma filosofia tão abstrata quanto inútil.

  1392. Tal tentativa, de fazer um “saber pelo saber”, não tem nada de bonito, justo ou útil e certamente não te eleva acima dos demais homens.

  1393. Que conhecimento útil à humanidade foi produzido pelos que dela se isolaram?

  1394. A pretensão universal e eterna das conclusões metafísicas também estão sujeitas à história, por isso é possível escrever a história da metafísica e de como seus conceitos, métodos e conclusões mudam com o tempo.

  1395. O conhecimento que você produz é baseado no conhecimento produzido anteriormente e poderá ser superado no futuro ou usado como meio de se chegar a conclusões novas.

  1396. Então também o seu conhecimento é historicamente determinado.

  1397. A dialética hegeliana não é universalmente aplicável.

  1398. As informações obtidas por um campo do conhecimento podem ser usadas por outro campo.

  1399. As quatro coisas que movem o artifício humano: a utilidade, a beleza, a verdade e a justiça.

  1400. Esses quatro objetivos têm história também: a história da arte (beleza), a história da política ou economia (utilidade), a história da filosofia (verdade) e a história da moral ou ética (justiça).

  1401. Progredir nessas áreas do pensamento requer liberdade criativa.

  1402. O retrocesso faz parte da história, mas ela geralmente progride.

  1403. Também a decadência faz parte da história.

  1404. Não há investigação filosófica ou científica que não esteja, em maior ou menor grau, viciada por nossa subjetividade.

  1405. Para combater isso, é preciso priorizar a objetividade de um fenômeno, não nossas crenças.

  1406. Isso é possível abrindo espaço para dúvida, admitindo que talvez estejamos errados, permitindo que o experimento retifique nossas crenças, em vez de tentar “retificar” o experimento com nossas crenças.

  1407. Temos que nos aproximar do fenômeno como se nunca o tivéssemos visto, deixando de lado as expectativas que temos em relação ao fenômeno, se o que quisermos é compreender o fenômeno cientificamente.

  1408. Um dado objetivo da realidade deve explicar a si mesmo, em vez de interpretado segundo crenças ingênuas que o pesquisador talvez tenha.

  1409. Não aja como se já soubesse como o fenômeno se desenrolará, se o que você quer é compreendê-lo cientificamente.

  1410. Sempre que for estudar algo cientificamente, finja que não sabe nada a respeito daquele fenômeno, atendo-se somente aos dados que são observados e ao método de pesquisa, sem assumir, de antemão, uma conclusão.

  1411. A interpretação científica do mundo pode não servir para a vida cotidiana.

  1412. Isso acontece porque, ao fazer ciência, você abstrai do mundo um pedaço dele, o qual você estudará objetivamente, o que facilita o conhecimento profundo daquele aspecto da vida, mas pode não ter relevância para a vida como um todo.

  1413. Além disso, a ciência, se objetiva, precisa se desfazer da subjetividade, sendo que a subjetividade existe no mundo real.

  1414. Isso quer dizer que a ciência, por uma questão metodológica, deixa de fora de sua prática um monte de coisas que ocorrem no mundo real e que não podem ser refletidas no “mundo de pesquisa” pra não atrapalhar a ciência.

  1415. A ciência é extremamente útil e deve continuar sendo praticada seriamente e objetivamente, mas nunca deve ser tomada como um espelho fiel da realidade, porque a subjetividade, que é um fato, não está (e nem deveria estar) na ciência.

  1416. Um exemplo do direito positivo: ninguém, ao estudar direito, estuda o criminoso ou a vítima ou os sentimentos das partes, mas as leis somente e sua aplicação e é assim que deve ser.

  1417. Além disso, vivemos num mundo orgânico, o qual a ciência só pode estudar setorialmente, separando cada aspecto a ser estudado em profundidade, ou seja, enquanto a ciência estuda cada aspecto do mundo em separado, nós vivemos num mundo onde todos os elementos estão em ação global, inseparados.

  1418. “Fenomenologia” é a doutrina segundo a qual nenhum conteúdo mental deve ser considerado eternamente ou universalmente verdadeiro e nenhum processo perceptivo deve ser considerado uma descrição objetiva do mundo.

  1419. Assim, usar o método fenomenológico é assumir uma postura crítica diante das nossas próprias crenças e assumir que estudar objetivamente algo do mundo não equivale a estudar o mundo inteiro.

  1420. Exclua de seu estudo tudo o que não for necessário a ele (não apenas em termos materiais, mas também mentais), para que não haja interferência.

  1421. A compreensão de um fenômeno requer impessoalidade, o abandono dos nossos preconceitos.

  1422. A distância entre ciência e homem comum põe a ciência em crise, porque ela se torna incompreensível e até inútil ao sujeito normal.

  1423. Existem questões que a ciência não pode responder: as questões pessoais.

  1424. A análise objetiva do mundo abstrai o mundo de seu significado, uma vez que adquire caráter meramente descritivo.

  1425. Se a ciência é objetiva, o mundo não pode ser estudado por ela em sua totalidade, mas apenas a parcela que pode ser reduzida à objetividade.

  1426. Não existe ciência da subjetividade.

  1427. A ciência só tem sentido enquanto guarda relação com o mundo real.

  1428. Como a ciência objetiva não é capaz de explicar tudo, embora tivéssemos a esperança de que tudo poderia ser tratado pela ciência e pela razão, cada vez mais pessoas se voltam ao irracionalismo, porque se frustram com o fato de que a ciência não tem resposta pra tudo.

  1429. Se a ciência exclui a subjetividade de sua atividade, segue-se que a razão ainda precisa da filosofia, porque a subjetividade é território filosófico, de forma que a filosofia e a ciência se completam.

25 de dezembro de 2018

Preocupações.

Filed under: Notícias e política, Passatempos — Tags:, — Yurinho @ 18:13

Depois de um tempo me dedicando à vida real, eu resolvi voltar a estudar e escrever. Mas eu tenho um monte de material sobre temas obscuros que ainda faltam ser lidos e também um monte de material de filosofia que eu tenho que ler. Por exemplo, eu comecei a ler Ideologia Alemã. Apesar do nome, não é nenhum comentário à obra de Hitler, mas um livro do Engels e do Marx (ótimo clima político pra ler obras comunistas). Então eu resolvi equilibrar as coisas: para cada livro de filosofia lido, eu publicarei anotações sobre outros textos lidos, que ficarão aguardando o momento de ser postadas. Faço isso pra evitar o monopólio de alguns conteúdos.

Bom, é vinte e cinco de dezembro. Bolsonaro assumirá em breve. Isso me preocupa. Por exemplo: esses dias o Toffoli negou a soltura de prisioneiros em segunda instância, apesar de essa ser a coisa constitucional a ser feita (ninguém pode ser preso sem que seus recursos legais tenham se esgotado, algo conhecidos como “trânsito em julgado”). Quem podia apelar para instâncias superiores não deveria estar preso. Por que ele negou? Se especula que isso tenha a ver com uma reunião das Forças Armadas que tomou todo aquele dia e com pressões via Twitter. Suponhamos que os acontecimentos estejam conectados. Se o Toffoli tiver cedido à pressão dos militares (supondo que tal pressão tenha ocorrido), então a república democrática já acabou e um golpe militar já aconteceu. Não seria questão de pensar se a república democrática vai mal ou está em crise, mas de pensar em como restabelecê-la. Se isso for comprovado, o Brasil morreu pra mim. Temos que ressuscitá-lo.

Outra coisa que me preocupa é a possível remoção da disciplina de filosofia do ensino médio. Essa é uma possibilidade mais remota, me parece, já que o governo que vem tem outras preocupações mais pertinentes e parece que ele sempre volta atrás quando diz algo impopular. Além disso, com o novo ensino médio, as redes estaduais de ensino terão autonomia para gerenciar as partes diversificadas do currículo. Meu estado tem governo petista, então talvez ele ouça o clamor dos professores do estado e inclua filosofia na parte diversificada.

Talvez eu esteja me preocupando demais. O fato é que eu já vejo que eu não vou gostar desse governo, que ele tem chances sérias de prejudicar a mim em particular. Isso, claro, se o Bolsonaro governar, não outro que possa vir a tomar o lugar dele. Eu não saberia o que esperar de um segundo (ou terceiro, talvez quarto) golpe em tão pouco tempo.

19 de dezembro de 2018

O que aprendi lendo “Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica”.

Filed under: Passatempos — Tags:, — Yurinho @ 13:17

Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica” foi escrito por Edmund Husserl. Abaixo, o que aprendi lendo esse texto.

  1. O conhecimento natural é experimental.
  2. Assim, o conhecimento natural se desenrola e é limitado pelo mundo, que é o campo de atividade da experiência.
  3. No mundo, o ser efetivo e o ser real coincidem (no “ser no mundo”).
  4. O conhecimento natural, se experimental, é sensível e presente: não diz respeito a antecipações ou recordações, nem àquilo que não sentimos em nós.
  5. É possível observar o que é vivido pelos outros, portanto, apenas em sentido metafórico: não é que observamos o que eles sentem, mas observamos como eles exteriorizam seus sentimentos, já que podemos perceber suas ações.
  6. Se inferimos pelo comportamento de alguém o seu estado de espírito, por exemplo, esse conhecimento não é “originariamente doador” (você passa a se referir ao inferido, não ao presente perceptível diretamente).
  7. O mundo como objeto de estudo é o conjunto de todos os fenômenos passíveis de experiência e de conhecimento experimental, a partir dos quais se pode teorizar.
  8. Esse mundo como objeto de estudo é do que se ocupam as ciências naturais.
  9. Isso não quer dizer que as humanidades ou ciências humanas também não possam se ocupar desse mundo.
  10. A ciência empírica estuda o fato.
  11. O fato é o aqui e o agora, não precisa coincidir com o universal.
  12. É pelo estudo dos fatos e de suas relações que podemos criar “leis” que antecipam fenômenos.
  13. Isso porque fatos se repetem.
  14. Cada fato tem predicados essenciais (primários) e secundários.
  15. O que há de comum em todos os sons é a essência do som, por exemplo, enquanto que aquilo que pode ou não estar presente neste ou naquele som é uma característica secundária (“acidental”).
  16. É através dessas características que categorizamos os fatos.
  17. A essência é, portanto, aquilo que, se tirado de um indivíduo, faz tal indivíduo deixar de ser o que ele é, tornando-o outra coisa: tire do conceito de som a presença do ar e ele não será mais som, logo a presença do ar é essencial ao som.
  18. Ideação (visualização de essência) não é uma atividade empírica.
  19. Essência pura não é concreta, mas guarda relação com o concreto.
  20. O estudo empírico olha um lado da coisa de cada vez.
  21. Tem sempre algo no objeto de estudo que escapa ao teste que se faz nele.
  22. Se algo é lógico, isto é, se um conceito contém em si características possíveis, ele é passível de estudo e talvez até o encontremos no mundo real algum dia.
  23. O fato de algo estar visível não garante sua apreensão.
  24. Não é possível intuição pessoal sem ideação.
  25. É possível obter a essência de algo sem o fato concreto (aqui e agora), trazendo a memória do fato à mente e raciocinando (ideando) sobre ela, como um experimento mental.
  26. Então é possível raciocinar sobre o que não se experimentou.
  27. A enunciação dos fatos requer fundamentação empírica.
  28. Raciocinar sobre essências requer a apreensão da essência.
  29. Quando se trabalha com geometria pura, não se pensa sobre aquele cone, sobre aquele círculo ou aquele cubo, mas nas regras gerais acerca do cone, círculo ou cubo, as quais cobrem cones, círculos e cubos em geral.
  30. Generalidade eidética é como a geometria pura: é a generalidade incondicionada a coisas particulares (como um axioma, mas não exatamente um axioma).
  31. Uma generalidade eidética está implícita numa necessidade eidética.
  32. Uma generalidade eidética pode ser aplicada a casos concretos (como leis de fenômeno podem ser aplicadas aos fenômenos).
  33. A generalidade eidética não é exatamente como leis naturais, porque leis naturais sempre pressupõem a existência de algo, enquanto que a generalidade eidética não necessariamente supõe que a matéria sobre a qual se raciocina exista.
  34. Se algo um fato particular é inferido das “leis da essência”, tal fato é necessidade eidética.
  35. Cada essência tem um número de singularizações fáticas possíveis (um conceito pode ou não ter correspondência com a realidade de fato, às vezes em mais de uma forma), de forma que há cooperação entre ciência dos fatos e ciência das essências.
  36. Exemplos de ciência das essências são a matemática pura, a lógica pura, entre outras ciências abstratas cujos conceitos podem ou não existir de fato (lembrando que fato é aqui e agora).
  37. A ciência da essência pode trabalhar sem objeto concreto, mas as ciências de fato (as naturais) não podem prescindir de objeto concreto.
  38. Assim, ciência de fato e ciência experimental são termos equivalentes.
  39. A matemática moderna foi a primeira a ensinar e realizar ideal prático de ciência eidética exata.
  40. Assim, pode-se dizer que a ciência empírica não contribui para a ciência da essência, porquanto de fatos só decorrem fatos e a ciência da essência, como conceitual, é indiferente aos fatos.
  41. Por outro lado, a ciência fática depende da essencial (eidética).
  42. Por exemplo: a lógica formal é eidética e não precisa de fatos pra ser executada, mas não é possível fazer física sem lógica.
  43. Uma ciência que queira explicar todos os fatos particulares precisa vir acompanhada de uma ciência eidética tão geral quanto possível, a partir da qual se extraem os princípios que permitiriam tal grau de explicação.
  44. Uma ciência eidética não se faz de uma vez: seu grau de abstração começa pequeno e vai aumentando ao longo dos séculos, como aconteceu na geometria.
  45. A subordinação do material ao formal pela ontologia formal é o que dá a constituição comum a todas as “ontologias materiais”.
  46. Gênero e espécie são dois extremos de uma mesma escala, na qual a espécie é o ente mais particular de um gênero extremamente geral.
  47. Algo dividido não é indivíduo.

9 de fevereiro de 2018

O “Críton”, de Platão.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , — Yurinho @ 17:23

Este livro foi escrito por Platão. Abaixo, algumas paráfrases desse texto. Elas não necessariamente reflectem minha opinião sobre um dado assunto.

  1. Uma pessoa pode dizer que você realmente é feliz ao ver você tranquilo mesmo quando uma desgraça acontece.
  2. Se a morte é inevitável, só se pode aceitá-la.
  3. As pessoas odeiam quem faz mais caso do dinheiro do que dos amigos.
  4. Apesar disso, você não precisa sempre se importar com o que pensam de você.
  5. Espalhar mentiras sobre alguém pode causar a morte indireta do caluniado.
  6. Se o povo fosse capaz de grandes males, deveria ser também capaz de grandes boas ações.
  7. Maior parte das pessoas não tem senso crítico, parecendo até operar ao acaso.
  8. Um juiz pode ser barato.
  9. Se você não for capaz de sofrer com seus filhos, não tenha filhos.
  10. Se alguém tem uma opinião de você, só aceite essa opinião se você achar que deve.
  11. Sócrates aceitou sua pena porque estava sendo fiel aos seus princípios, foi uma questão de integridade.
  12. Não aceite a opinião de quem sabe menos que você.
  13. Se você aceitar essa opinião, a de quem sabe menos, você pode se arruinar ou morrer.
  14. Não basta viver; se deve viver bem.
  15. Se você não faz nada sem antes se perguntar o que os outros achariam, me pergunto o que você faz.
  16. Se o procedimento injusto é sempre inadmissível, não se deve pagar mal com mal.
  17. Você deve respeito ao dono da nação na qual você nasceu.
  18. Embora você esteja submisso às leis, ainda pode tentar mudá-las por meios lícitos.
  19. Se você não gosta das leis de um lugar, vá para outro.
  20. Se você gosta da sua nação, quererá ajudá-la a melhorar.

6 de fevereiro de 2018

Pausa!

Esses dias, eu me detive um bom tempo estudando sobre relacionamentos entre menores e adultos, bem como entre dois menores. Se eu continuar estudando esse tema com tanto afinco, ficarei entediado dele. Então voltarei a ler coisas mais normais por enquanto. Tudo em excesso é prejudicial, especialmente quando se trata de uma pesquisa de tema controverso. Então, não esperem muito mais sobre esse assunto neste mês.

Ainda estou pensando em fazer anotações sobre as leis brasileiras depois que eu tiver lido tudo o que está na minha lista de livros e artigos. Tem coisa demais ali. Outro tema que eu queria tratar são os planos de governo dos diversos partidos políticos do Brasil. Não que isso sirva de muita coisa, porque ideologia de partido parece que é um conceito morto. Mas é interessante assim mesmo, pelo menos para que vejamos se os políticos realmente pararam de fazer escolhas com base em ideologia de partido.

Amanhã, começarei a ler o Críton, um livro do Platão que eu deixei passar. Depois, o artigo do Huib Kort, o DSM-I e o Ensaio Acerca do Entendimento Humano. Nesse meio tempo, farei também traduções de anotações que eu já publiquei em português. Aviso dado. Durma bem.

27 de dezembro de 2017

Anotações sobre “Assim Falou Zaratustra”.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , — Yurinho @ 21:58

“Assim Falou Zaratustra” foi escrito por Friedrich Nietzsche. Abaixo, algumas afirmações feitas nesse texto. Elas podem ou não coincidir com o que eu penso sobre este assunto. Perguntas sobre minha opinião podem ser feitas nos comentários.

  1. O amor pela humanidade pode isolar você dela, por amá-la demais.
  2. Você pode acabar ajudando outros a dificultar sua vida.
  3. O solitário é visto com suspeita.
  4. Uma pessoa pode se isolar por fanatismo religioso.
  5. É possível que uma pessoa só tenha uma religião por estar desapontada com o gênero humano.
  6. O homem moderno não é o último passo na evolução.
  7. Outras pessoas não estão interessadas em melhorarem a si mesmos.
  8. Se você evoluir, talvez você olhe pra trás e veja que estava agindo tolamente.
  9. Em muitos sentidos, somos piores que macacos.
  10. Não esqueça deste mundo.
  11. A crença de que a alma é empoderada pela submissão do corpo está errada.
  12. Desdenhar do corpo em vez de usá-lo para o próprio bem e o dos outros é sinal de alma fraca.
  13. Pode ser que você se canse da sua felicidade, da sua razão e da sua moral.
  14. Pode a felicidade realmente justificar nossa existência?
  15. A razão não pode conhecer tudo.
  16. O homem é uma corda estendida sobre um abismo, entre o animal e seu próximo estágio evolutivo.
  17. O ser humano precisa ser superado; ele não é ponto de chegada.
  18. Se você não conseguir fazer essa mudança acontecer de uma vez, não deixe de ajuda assim mesmo.
  19. Aja sem esperar agradecimento.
  20. Se você fala de um futuro distante, você não será compreendido por pessoas do aqui e do agora.
  21. A estrela brilhante vem do caos interior.
  22. Trabalho também é distração.
  23. Pensar diferente da massa é se arriscar a ser chamado de lunático.
  24. A alma morre antes do corpo.
  25. Você talvez sinta que não vale a pena viver se não puder viver eternamente, mas concentre-se em viver a vida passageira plenamente.
  26. A vida humana é vazia de sentido, exceto a evolução ao estágio seguinte.
  27. Quando você defender uma ideia controversa e zombarem de você, fique feliz por não te lincharem.
  28. Mas se rirem, continue, se você vê valor nisso.
  29. É melhor falar com seus amigos em vez de falar com a multidão.
  30. Faça seus amigos pensarem diferente e os amigos dos seus amigos acabarão pensando diferente também.
  31. Que o solitário encontre outros solitários.
  32. Animais podem ser menos perigosos que pessoas.
  33. Um objetivo da vida virtuosa: o bom sono.
  34. Pessoas que se preocupam em excesso com suas horas de sono estão esquecendo de permanecer acordadas.
  35. Se você sofre, sente prazer ao esquecer o sofrimento.
  36. Acreditar em outros mundos é loucura; só existe um mundo e é este.
  37. O corpo e a terra merecem respeito.
  38. Viva no mundo real.
  39. “Curem-se, dominem-se, criem um corpo superior!”
  40. O ateu deve ter misericórdia do religioso.
  41. Não inflinja males a si mesmo; cure seu corpo.
  42. Desprezar o corpo é sinal de tendência suicida.
  43. Pode ser também sinal de inveja contra aqueles que têm melhor condição física.
  44. A evolução do ser humano perpassa a evolução do corpo humano.
  45. Virtudes nascem da paixão.
  46. A salvação do sofredor crônico é uma morte rápida.
  47. Todo o mundo tem desejos ilegais ou nojentos.
  48. Os melhores textos foram escritos com o sangue de seus autores.
  49. Só um lutador pode amar a sabedoria.
  50. Há um pouco de loucura no amor e um pouco de razão na loucura.
  51. Somos afetados por forças que não vemos.
  52. Quando você chega ao topo, provavelmente se vê sozinho lá.
  53. Fora que você pode ser atingido por um raio lá encima.
  54. Esse raio frequentemente é alguém melhor que você.
  55. A pessoa que prega que devemos nos desfazer de nossos corpos e que a verdadeira vida começa na morte, provavelmente vê a vida como puro sofrimento.
  56. É estranho que uma pessoa como essa não conclua que seria legal se suicidar ou matar os outros como ato de “misericórdia” ou “amor”.
  57. Esses indivíduos não apenas pregam contra a própria vida, mas também contra a vida dos que virão.
  58. O trabalho nos faz esquecer de nós mesmos.
  59. Não tem sentido em ter paz depois de uma derrota; a paz deve vir pela vitória.
  60. As mulheres jovens querem homens bonitos e meigos, mas nem sempre convém ao homem ser bonito ou meigo.
  61. Seja o melhor possível, mesmo que isso lhe custe a aprovação das mulheres.
  62. Todos os bons guerreiros estão prontos pra morrer.
  63. O estado pode mentir.
  64. O estado não é o povo.
  65. O estado pode ferir leis e costumes.
  66. Um ateu pode obedecer religiosamente ao estado.
  67. O estado pode se por como um ídolo e exigir adoração.
  68. O estado é mantido por pessoas que não fazem diferença na história.
  69. O estado pode matar seu povo de caso pensado.
  70. O estado pode roubar seus bens.
  71. Quanto menos se possui, menos se é possuído.
  72. Humanos precisam evoluir de forma a não precisar de governo.
  73. A pessoa que não sabe debater usará a violência e não aceitará imparcialidade.
  74. Os grandes produtos do espírito humano não são devidamente percebidos pelas pessoas comuns.
  75. Covardes são astutos.
  76. Se algo estimula demais o pensamento, é visto com suspeita.
  77. Uma pessoa pode perdoar seus erros e não perdoar suas qualidades.
  78. Te tratam como vítima pra que você veja suas qualidades como defeitos e seus defeitos como qualidades.
  79. Quando você é bom, acaba cercado de invejosos.
  80. Vá aonde os fracos não vão.
  81. Castidade pode se tornar vício.
  82. Ser casto é uma questão de aptidão, não pode ser imposto aos outros.
  83. O amigo impede o monólogo interminável do solitário.
  84. Formamos amizade com semelhantes, com que temos relação de igualdade.
  85. As variações entre nossos conceitos de bem e mal são um recurso de sobrevivência.
  86. O que é aceitável em outros lugares pode ser tido como repugante aqui.
  87. Uma comunidade já é decadente quando um de seus membros se torna egoísta.
  88. O amor e o ódio estão por trás de todas as virtudes.
  89. Pode ser que você se sinta bem depois de chamar uma pessoa só pra falar bem de você.
  90. Sua autoestima aumenta quando você faz com que outros pensem bem de você.
  91. A solidão é insuportável àqueles que pensam mal de si mesmos.
  92. Um grupo grande pode se sentir tentado a matar pessoas de outros grupos.
  93. Deixe o futuro ser a causa do presente.
  94. Não importe de que se é livre, mas pra quê.
  95. Quanto mais você se dá bem, mais eles te odeiam.
  96. Se o homem é uma criança, então muitas crianças fazem a mulher de brinquedo.
  97. Melhor que humilhar seu inimigo é fazê-lo ver que o ódio dele te fortalece.
  98. Condenar é melhor do que fazer o outro reconhecer o erro quando ele não quer reconhecê-lo.
  99. Antes de ter filhos, se pergunte se pode criá-los.
  100. Se você não pode ser bom pai, você não tem direito de ter filhos.
  101. Um pai fez um bom trabalho quando seu filho o supera.
  102. Casamento deveria ser um acordo feito entre os pais pra criar um filho que superasse os pais, mas o casamento raramente é visto dessa forma.
  103. Alguns casamentos são tão hediondos que alguém pode se perguntar se Deus realmente abençoa o casamento.
  104. Um mau casamento prejudica o filho.
  105. Você nunca sabe com quem está se casando.
  106. Um monte de sentimentos são confudidos com amor.
  107. Depois de casadas, algumas pessoas descobrem que não se amavam.
  108. Às vezes o coração envelhece mais rápido que o cérebro, mas outras vezes é o contrário.
  109. O ouro é tão valioso quanto inútil, como algumas virtudes.
  110. O bem da espécie vem antes do bem do indivíduo.
  111. É difícil a quem ama fechar a mão ao amado quando é preciso fazê-lo.
  112. Quando você recebe uma boa ação de alguém e depois descobre que a boa ação era socialmente inaceitável, você pode passar a sentir vergonha do presente que recebeu, mesmo que dele tenha usufruído.
  113. Nada é imutável.
  114. Não é justo se divertir pouco.
  115. Uma pessoa pode ficar magoada por receber ajuda.
  116. Não poder calar a boca torna difícil a convivência.
  117. Se você não domar seu coração, perderá a cabeça.
  118. Alguém que causa sofrimento pode estar procurando compensação para o próprio sofrimento.
  119. Não queira ser virtuoso esperando pagamento por isso.
  120. Uma pessoa “virtuosa” pode estar agindo por interesse.
  121. A mãe não busca pagamento por amar o filho.
  122. A virtude deve estar em você, não na sua imagem.
  123. Agir virtuosamente pode também ser uma forma dissimulada de obter aprovação pisando nos outros (Lucas 18:9-14).
  124. Agir virtuosamente permite esconder intenções reprováveis que prejudicam sua aceitação por um grupo.
  125. Para alguns, virtude é julgar os outros.
  126. Não há consenso sobre o que “virtude” é.
  127. Não existe boa ação sem algum interesse, se bem que pode ser um bom interesse.
  128. É possível torcer o significado de uma palavra através de constante uso indevido.
  129. Não somos iguais, mas devemos ser tratados com justiça.
  130. Existem intelectuais que só estão lá pra dizer “amém” à ordem social, mesmo quando sabem que a ordem está errada.
  131. Os intelectuais mais honrados em seu tempo são aqueles que validam os preconceitos de um contexto histórico-geográfico, como Kant.
  132. Uma pessoa que pensa diferente irrita a multidão.
  133. A multidão amaldiçoa os homens que acabam sendo os únicos responsáveis por seu avanço, como Galileu foi amaldiçoado por mostrar que todos estavam errados, fora ele.
  134. O povo pensa que sua voz é a de Deus (basta lembrar que o povo queria que Jesus morresse).
  135. A política pode comprar a ciência a fim de validar a moral do governo.
  136. Se a ciência quer progredir, precisa ser amoral, não pode ter medo de rejeição.
  137. Se você tiver que se submeter a alguém, se submeta àquele a quem você seria mais útil.
  138. Filosofia não é poesia, muito menos poesia de má qualidade.
  139. Há crimes mais graves que o assassinato.
  140. Todos os dias são sagrados, não espere “o momento certo” pra fazer qualquer coisa.
  141. Você não poder “querer existir”.
  142. É possível amar algo mais do que a própria vida.
  143. Nossos conceitos de bem e mal não são absolutos.
  144. A vida é guerra de preferências.
  145. Beleza é poder em forma visível.
  146. Você é capaz de todo o tipo de maldade, mas você é exigido a praticar o bem.
  147. É possível rir de medo.
  148. Não repita com seus filhos os erros que seus pais cometeram com você.
  149. Uma pessoa pode estar convicta de que deve ignorar prazeres terrenos, mas suas vísceras nunca serão convencidas disso.
  150. O asceta com pouca força de vontade ficará envergonhado mais vezes.
  151. Desejar algo, mas dizer que a coisa virtuosa a ser feita é não saciar o desejo, pode ser entendido como hipocrisia: você diz que é “virtuoso” só porque sabe que não pode fazer o que deseja, então glorifica sua incapacidade como sendo “a coisa certa” (uvas azedas, implicando que eles não transformariam sua incapacidade em virtude se pudessem ter o que desejam).
  152. Você tem que dizer a verdade aos hipócritas.
  153. Se adultos não te acham sábio, tente a sorte com crianças.
  154. Uma pessoa que fala compliado não necessariamente é um pensador profundo.
  155. Os grandes acontecimentos começam em silêncio.
  156. Igreja é um tipo de estado.
  157. O estado é hipócrita.
  158. O estado se julga a coisa mais importante do mundo.
  159. Quando você diz algo e a pessoa reage violentamente, pode ser porque ela sabe que você tem razão.
  160. Uma pessoa pode estar tão cansada e desmotivada que não tem forças sequer pra sair da cama, pegar uma faca e se matar.
  161. Um vício pode não se desenvolver numa pessoa a menos que ela antes aprenda a correr.
  162. Punição é vingança, frequentemente chamada “justiça”.
  163. Uma pessoa pode falar consigo de um jeito e de outro jeito com os outros.
  164. Não é a altura que assusta, é a possibilidade de queda.
  165. Permanecer puro na multidão é como sair limpo da água suja.
  166. Você não pode dar um veredito absoluto sobre alguém quando você não é capaz de dar um veredito absoluto sobre si próprio.
  167. Ordenar outros a um objetivo pode ser mais difícil do que alcançá-lo sozinho.
  168. Os melhores líderes tem o pudor de uma criança.
  169. Uma pessoa pode ter ideias maduras, mas isso não significa que ela tem maturidade para empregar essas ideias.
  170. Adivinhar (instinto) não é concluir (lógica).
  171. Por vezes você escuta a doutrina do Diabo na boca de um pastor.
  172. O benefício da solidão só pode ser sentido quando você para de chorar a perda dos amigos.
  173. Não corra atrás das mulheres e a felicidade correrá atrás de você.
  174. Nossos conceitos de bem e mal são núvens passageiras.
  175. As pessoas não perdoam quem não sente inveja dos que vivem o modo de vida padrão.
  176. Alguém pode falar de você sem pensar em você.
  177. Se uma pessoa não tem tempo pra você, não perca seu tempo com ela.
  178. Todo o elogio é uma cobrança por mais.
  179. Os que andam devagar podem se tornar um problema aos que querem ir rápido.
  180. Humildade motivada por medo de ser atacado é covardia.
  181. Homens se domesticam entre si, como humanos domesticam cães.
  182. A mediocridade é, por vezes, erroneamente chamada de “moderação”.
  183. Para amar o outro, é preciso ser capaz de amar a si mesmo.
  184. Melhor sofrer do que idolatrar.
  185. Alguns mentem por amor.
  186. O desprezo de alguém pode ser desprezível.
  187. Mude para um lugar onde seu amor seja aceitável.
  188. Há quem reze para se eximir da responsabilidade de agir.
  189. Existem comunidades secretas em todos os lugares, mesmo que não sejam sociedades humanas.
  190. Não dá pra fingir que algo inútil é “profundo”.
  191. Tem diferença entre solidão e abandono.
  192. A voluptuosidade e o desejo de domínio não necessariamente são ruins.
  193. A voluptiosidade só é um mal para ascetas, celibatários e outras pessoas que fogem do prazer.
  194. Para todos os outros, a voluptuosidade é como o vinho: gostasa, saudável, pode ser tomada com parcimônia.
  195. O desejo de dominar está ligado à insatisfação com o aqui e o agora, à rejeição de respostas apressadas.
  196. Não se curve, como um escravo, às opiniões dos outros.
  197. Não tenha vergonha de si mesmo.
  198. A sociedade não quer que as crianças se amem pelo que são.
  199. A vida é difícil porque o ser humano evoluiu nessa direção; estamos pagando o preço de escolhas que nossos ancestrais fizeram (o que não nos escusa da responsabilidade de deixá-lo melhor).
  200. Não aceite tudo, não rejeite tudo.
  201. Os que amam sem dar amor de volta são parasitas em forma humana.
  202. Não é sábio aceitar como presente algo que você pode conseguir sozinho.
  203. Quem não é capaz de mandar a si mesmo deve obedecer.
  204. E há aqueles que sabem mandar, mas não obedecer.
  205. Se você não diz a verdade, não é bom.
  206. A verdade dói.
  207. Bem e mal não são conceitos sólidos para humanos.
  208. A humanidade não trabalha bem com meio-termos; historicamente, ela pende de um extremo a outro.
  209. Se algo deve ser comprado, tem pouco valor.
  210. Não importa de onde você veio, mas pra onde você olha.
  211. Os melhores não são insuperáveis.
  212. Se você está insatisfeito com o mundo, não está escusado de mudá-lo.
  213. Você vive neste mundo.
  214. Novos valores podem estar tão errados quanto os anteriores.
  215. Como pode alguém dizer “estou cansado deste mundo” e ter medo da morte?
  216. Estar “cansado deste mundo” é um estilo de vida na moda.
  217. Não tenha inimigos que não são dignos de ódio.
  218. Hoje em dia, xeretar a vida dos outros faz parte do trabalho do vizinho.
  219. Casamento não deve ser uma decisão tomada às pressas.
  220. Se você não gosta mais da sua mulher, se divorcie, em vez de traí-la em segredo.
  221. Casamento pode ser um inferno.
  222. Admita quando o casamento não dá certo.
  223. Casamento é uma decisão que precisa ser planejada e pensada antes de ser tomada.
  224. Se não puder ter filhos que te superem, é melhor não tê-los.
  225. O ser humano é o animal mais cruel que existe.
  226. Uma pessoa pode ser cruel com outros humanos, mas também consigo própria, como se sentisse prazer em sofrimento autoimposto, vendo uma fonte de orgulho no próprio sofrimento.
  227. A alma não é imortal.
  228. Se eu tiver que viver sozinho com outra pessoa, tenho que aprender a amá-la.
  229. Se uma pessoa te ama por tua sabedoria, ela deixará de te amar se tu ficares burro.
  230. Fazer uma loucura pode ser melhor do que fazer nada.
  231. Coisas aleatórias acontecem.
  232. Se você não vive em sociedade, obviamente não aprenderá normas sociais, das quais muitos querem se livrar.
  233. Nobreza é uma variante dourada dos mesmos arquétipos já existentes na plebe.
  234. A saúde do trabalhador pode ser melhor que a do nobre sedentário.
  235. A classe trabalhadora, se é realmente a melhor, deveria ser soberana.
  236. Classe trabalhadora (camponês) não é o mesmo que classe média.
  237. Um rei pode ainda ser bem visto por causa de sua família.
  238. É uma calamidade quando os homens mais sábios não são os governantes.
  239. Existem pessoas que precisam mentir para continuar vivendo.
  240. Privar um religioso de sua divindade não o liberta.
  241. Os fracos não deveriam ser os únicos a ditar o certo e o errado.
  242. A riqueza não é indicativo de maldade; um rico e um pobre podem ser igualmente perversos.
  243. É possível estar mais seguro na cadeia.
  244. Uma pessoa pode ser tida por sábia sem ser inteligente.
  245. É perigoso ao solitário ir à praça pública sem se preparar antes.
  246. Não adianta falar pra todos se ninguém quer escutar.
  247. O homem normal não acredita que o ser humano possa evoluir.
  248. “Somos todos iguais” se tornou desculpa para o conformismo.
  249. Não se deve pensar meramente na sobrevivência do homem, mas também em como nos tornarmos algo melhor do que somos.
  250. Para alguns, o necessário não é o bastante.
  251. Ser humano não é o ápice; devemos ser mais que humanos.
  252. Existem causas mais valiosas do que a sobrevivência.
  253. É melhor viver do seu jeito do que do jeito que os outros querem que você viva.
  254. Se você tem coração, domine seu medo.
  255. Se você sofre por si mesmo, é um fraco, mas esse não é o caso quando você sofre pela humanidade.
  256. Subjugue o raio que poderia te matar.
  257. Discernimento não é uma virtude popular.
  258. A crença infundada não pode ser destruída pela razão, então apele à emoção.
  259. Pessoas comuns desconfiam da razão.
  260. Não mentir não é o mesmo que amar a verdade.
  261. A fonte da sua virtude é aquilo que você ama.
  262. Não tente ser virtuoso além das suas forças.
  263. Não tente algo que você sabe que dará errado.
  264. Se você não acha motivo de riso na vida, está procurando mal.
  265. Melhor enlouquecer de felicidade do que de tristeza.
  266. Algumas pessoas elogiam a castidade porque castidade lhes dá tesão.
  267. Temos medo de animais, inclusive daquele que vive em nós.
  268. Também é inocência não saber o que é inocência.
  269. A sabedoria pode levar alguém a assumir comportamento anormal.
  270. Aceitar o que a vida tem de bom implica aceitar também a dor que a mesma vida pode te infligir; você não pode escolher ficar só com a parte boa.

8 de novembro de 2017

A “Carta a Einstein, 1932” de Freud.

“Carta a Einstein, 1932” foi escrita por Freud. Abaixo, algumas afirmações feitas no texto. Elas podem ou não corresponder ao que eu penso sobre o assunto. Perguntas sobre minha opinião podem ser feitas nos comentários.

  1. Um problema de época: é possível um futuro sem guerra?
  2. O avanço tecnológico não é capaz de parar a guerra.
  3. Um físico não tem estudo o bastante sobre o sentimento humano, geralmente, então ele deve procurar um entendido no assunto antes de formar sua opinião.
  4. Einstein escreveu uma carta a Freud pra saber se ele teria uma resposta ao problema, já que Freud estava ganhando fama de especialista em instintos humanos.
  5. Uma resposta imparcial a um problema precisa depender o mínimo possível da política.
  6. Pelo menos para propósitos de paz mundial, deveria haver um legislativo e um judiciário internacionais, compostos pelos líderes de cada nação, mas Einstein admite que isso é superficial: não adianta uma regra perfeita que não será seguida.
  7. Um tribunal pode ter suas decisões anuladas por pressões não relacionadas ao direito.
  8. Um tribunal internacional teria que ser superior às nações que o constituem e, portanto, incontestável.
  9. Um dos obstáculos à ideia é o desejo de poder.
  10. O desejo de poder leva uma nação a se intrometer nos negócios da outra.
  11. Guerra é um negócio, existem empresas disso.
  12. Por que a população não resiste à decisão de entrar em guerra com outra?
  13. Soldados fazem profissão da guerra, mas também apenas acatam as ordens sem pensar se a guerra é necessária.
  14. As pessoas são levadas a crer que a guerra é necessária (mesmo quando não é) porque escolas, mídia e por vezes a igreja são controlados por uma minoria que lucra com a guerra.
  15. É assim que uma minoria manipula pensamentos e emoções.
  16. Como, ainda assim, uma pessoa chega a um grau de furor capaz de morrer por uma causa que não existe?
  17. Ódio e desejo de destruição são inatos ao ser humano, o qual sente prazer em odiar.
  18. Quando uma pessoa descobre como incitar o ódio de alguém, já obteve uma parcela de controle sobre esse alguém.
  19. Será que é possível evoluir de forma a superar permanentemente o ódio? Haverá um tempo em que o ser humano será incapaz de odiar sua própria espécie ou seus conterrâneos?
  20. Os intelectuais também podem ser manipulados pela mídia.
  21. Guerra não é a única forma de ódio. O ódio pode aparecer sob diferentes formas. Mas a guerra ainda é sua manifestação mais drástica e mais cruel.
  22. Einstein estava completamente convicto de que Freud podia responder suas perguntas.
  23. Um mesmo objeto pode ser analisado por mais de uma ciência.
  24. Um cientista pode não saber lidar com questões políticas.
  25. Direito e violência apenas parecem antagônicos; não é possível fazer uma lei valer sem armas.
  26. Humanos são animais.
  27. Quando as armas foram inventadas, a inteligência começou a tomar o lugar da força bruta na resolução de conflito.
  28. A forma mais segura de acabar com a violação do direito é matando os infratores, o que não significa que essa é a melhor forma de lidar com o crime.
  29. Matar um “inimigo” traz prazer ao assassino, por satisfazer seu impulso animal para a morte.
  30. Mas as pessoas por vezes pensam: “melhor torná-lo útil a nós do que matá-lo.”
  31. Pode ser que você poupe um inimigo ao torná-lo útil, mas talvez você sinta medo de uma possível vingança.
  32. Evolução modificou as formas de opressão, mas o mais forte ainda oprime o mais fraco até hoje.
  33. Mais vários fracos podem se juntar pra eliminar um forte.
  34. Quando vários fracos depõem um forte, estabelecem um novo direito em conjunto.
  35. Mas isso também é violência.
  36. Se a comunidade é quebrada, outro forte aparecerá para oprimir.
  37. A fonte de poder de uma comunidade são os sentimentos comuns em cada membro.
  38. Para que uma comunidade possa subsistir, cada indivíduo deve abrir mão de um pouco de sua liberdade pessoal.
  39. Uma comunidade perfeitamente equilibrada é uma ideia apenas.
  40. A comunidade, para ser perfeitamente equilibrada, precisaria eliminar a hierarquia em todas as suas formas.
  41. A menos que a hierarquia deixe de existir, os mais altos nessa hierarquia continuarão ditando leis para os que estão mais abaixo nela.
  42. Além disso, os mais altos na hierarquia podem querer se colocar acima das leis, de forma que as leis que valem para o povo não possam valer para os governantes.
  43. E também tem a justa violência da população que se sente oprimida e que tenta obter sua dignidade de volta.
  44. Nada disso impede a busca por soluções pacíficas.
  45. De um ponto de vista realista, algumas guerras tiveram boas consequências, mas algumas trouxeram só prejuízo à ambas as partes.
  46. A multitude de governos facilita a guerra, de forma que poucos governantes para grandes quantidades de território, obtidas pela anexação, diminuiria a chance de guerra.
  47. Ironicamente, isso quer dizer que paz pode ser trazida depois de uma guerra, na qual o vencedor conquista o território e o povo inimigos.
  48. Difícil é manter o território unido.
  49. Guerras são raras, mas destrutivas.
  50. Se houver uma autoridade central para arbitrar os conflitos entre as nações, pode ser que a guerra seja evitada.
  51. Uma organização do tipo “Nações Unidas” é inútil se ninguém a escutar.
  52. As duas forças que mantém a sociedade unida: violência (lei) e vínculos emocionais.
  53. No entanto, se não houver violência, uma comunidade pode permanecer unida pelos vínculos emocionais.
  54. Nações cristãs podem guerrear entre si, fazendo alianças com nações de outras religiões.
  55. O nacionalismo opera contra a paz entre as nações.
  56. Paz seria mais fácil de obter se o mundo fosse comunista.
  57. Mas estabelecer um comunismo mundial é um objetivo tão distante quanto difícil de alcançar.
  58. Pondo as coisas dessa forma, parece que paz mundial jamais será uma possibilidade.
  59. Só existem dois tipos de impulso: união e agressão.
  60. Nenhum dos dois é fundamentalmente ruim, ambos são necessários à sobrevivência.
  61. Um instinto, como sobrevivência, pode ter uma parcela de cada impulso.
  62. Uma pessoa pode declarar guerra por várias razões, as quais nem sempre são declaradas.
  63. É possível agir agressivamente por causas “nobres”, mas também é possível fingir que se está destruindo por uma boa causa.
  64. O impulso destrutivo é também suicida.
  65. Pelo menos em nossa sociedade, não é possível eliminar a agressividade humana.
  66. Trazer a paz pela violência já é manifestação de agressividade.
  67. Embora não seja possível eliminar a agressividade, é possível controlar suas formas de expressão.
  68. Evitar a guerra requer prática sistemática do amor e o estabelecimento de interesses comuns.
  69. Os governantes devem ser educados sem censura.
  70. Os instintos devem se submeter à razão, o que não implica eliminá-los, mas procurar formas aceitáveis de expressão.
  71. Mas esperar que todos submetam seus instintos à razão é esperar uma utopia; nem todos podem fazer isso.
  72. É mais fácil evitar a guerra pelo exercício do amor e do companheirismo, porque esperar que todos se tornem racionais é loucura.
  73. A guerra pode até se tornar comum, mas não se tornará aceitável.
  74. Isso porque a guerra mata, humilha, nos força a lutar uns contra os outros, destrói nossos bens e nos causa miséria.
  75. Conforme o poder destrutivo cresce, a guerra se torna uma ameaça a todos os seres vivos.
  76. Não vale a pena fazer guerra, mas muitos ainda a vêem como aceitável.
  77. Com o tanto que haja ao menos uma nação que pose um risco às outras, nenhuma nação parará de investir em forças armadas.
  78. Civilização trouxe tanto males quanto benefícios.
  79. Não é possível dizer aonde o processo de civilização nos levará.
  80. A civilização favorece a repressão sexual.
  81. O processo de evolução cultural (civilização) pode muito bem levar o ser humano à extinção.
  82. Sensações agradáveis aos nossos ancestrais são agora intoleráveis ao homem moderno.
  83. Direcionar agressividade para dentro tem consequências boas (você não está machucando ninguém) e ruins (você provavelmente ficará doente).
  84. Apesar de o processo de condicionamento cultural trazer consequências negativas, ao menos ele serve para nos afastar do desejo por guerra.

25 de outubro de 2017

Anotações sobre “Além do bem e do mal ou prelúdio de uma filosofia do futuro”.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , — Yurinho @ 16:13

Além do bem e do mal ou prelúdio de uma filosofia do futuro” foi escrito por Nietzsche. Abaixo, o que aprendi lendo esse livro.

O bem e o mal.

Nem tudo é “bom” ou “ruim”: há áreas cinzentas entre os valores. Antinomia de valores pode muito bem ser só um ponto de vista. Pensadores tradicionais pensam no “sim” e no “não”, esquecendo do “talvez”. Pode até ser que duas coisas aparentemente contrárias sejam duas manifestações da mesma coisa. O fato é que é infantil olhar as coisas usando critérios morais absolutos, porque “moral” é a interpretação subjetiva de um mundo objetivamente amoral. Toda moral é, portanto, uma escolha e não tem existência fora na pessoa, na natureza. Morais universalmente aceitas não existem na Terra. Isso é válido também para além da moral: há graus entre verdadeiro e falso. Uma afirmação pode ser “mais verdadeira” que outra, sem ser totalmente verdadeira, seja porque há mescla de falsidade, seja porque é uma verdade incompleta.

Fazer ciência da moral não é possível, porque moral muda conforme tempo e espaço. Cada tempo pensa que sua moral é melhor do que as anteriores. O modo atual de pensar é melhor que o anterior ou somos levados a pensar assim? Veja o caso dos moralistas: eles odeiam povos indígenas, porque estes mostram uma sociedade que funciona com princípios morais diferentes, considerados “menos refinados”. Seu ódio reflete apenas seu orgulho ferido. A mudança da moral segundo tempo, lugar e pessoa é fatual. Segue-se que não há fundamento seguro para a construção de uma ciência chamada “ética”.

Hipocrisia e moralismo.

O ser humano tem as coisas mais fúteis como as mais importantes. Por causa disso, várias coisas fúteis são tidas como “boas”, mesmo que num nível individual. Um exemplo é o desprezo: quem se despreza ainda se orgulha do desprezo que tem de si mesmo. Quando esse desprezo toma forma de autonegação (o desprezo por si próprio), ele pode adquirir contornos hipócritas. Por exemplo: a pessoa que se esforça pra não sentir emoções. Ora, o desejo de superar uma emoção já é causado por outras emoções.

Um outro exemplo de “futilidade importante” é a ignorância. Para alguns, a ignorância é uma condição de manutenção da vida. É pela ignorância que a sociedade encontra estabilidade e não muda. A ignorância conserva, mesmo que conserve em um estado negativo. É perfeita para aqueles que temem mudar seus hábitos, mesmo que para melhor. Outro exemplo é o desinteresse. Por que uma ação tem que ser desinteressada pra ser boa? Eu não posso agir corretamente motivado por interesse próprio? Nem todas as ações feitas com interesse são erradas. O amor não é desinteressado, mas nem por isso inválido.

Outro exemplo é a mentira. Para algumas pessoas, a mentira é melhor do que a incerteza. Uma informação que te deixa feliz ou que te torna virtuoso pode ainda assim ser falsa. Da mesma forma, uma verdade pode ser desagradável. Então, podemos amar a mentira porque a mentira nos deixa alegres. O peso da realidade faz o sonho nos dominar. A mentira é, portanto, importante para aqueles que constroem suas vidas sobre a mentira. É o caso daqueles que querem dar uma forma de verdade incontestável à sua moral pessoal. Muitos julgamentos morais são arbitrários, mas argumentados de forma a parecerem científicos. É possível justificar um vício transformando-o numa virtude ou incluindo-o numa virtude. Assim, temos a sensação de que certas atitudes são sempre erradas ou “más”, mesmo que tal leitura da realidade não subsista ao escrutínio e tudo seja manipulação da linguagem. Apesar de tudo isso, a verdade se impõe. Felicidade pessoal não é argumento que sustente uma moral que se pretenda universal.

Tais futilidades podem ser usadas contra você. Tome como exemplo a obediência e a abstinência. Todo o mundo quer que você obedeça, mas os mais ricos são os que mais mandam e os que menos obedeceram. A abstinência nos leva a desejar e esse desejo pode ser usado a favor de alguém. Suponhamos, por exemplo, que a mulher de quem você gosta exige que você mude por ela ou ela deixará você. Mudar por amor é provar que a pessoa por quem você muda não te ama pelo que você é, mas pelo que ela pode te tornar. Ela usa a abstinência como arma para explorar você. Então, um lugar em que a “moral vigente” valoriza a obediência e a abstinência pode ser um ambiente que facilite o controle e a exploração de uns pelos outros.

Aceitando a moral como escolha pessoal.

De tanto você se esforçar em ver as coisas de forma distorcida, você não pode mais ver as coisas como são. A realidade moral, dos nossos conceitos de bem e de mal, passa a ser tida como absoluta quando, na realidade, ela varia de cultura pra cultura e até de pessoa pra pessoa. Uma moral pode ser imoral pra outra moral. Há mais morais do que é possível contar nos dedos de duas mãos. Como então superar isso? Se algo tem que morrer, ignore-o: abdique da ideia de que a moral proposta por alguém é universalmente aceita e viva dessa forma. Não deixe que ninguém te diga como ser feliz. Agir dessa forma, porém, não é algo que se faz somente com a própria força de vontade, mas é algo próprio dos fortes. “Basta querer pra conseguir” é um enunciado errado.

Quem pretende superar a moral absoluta tem que estar pronto pra se colocar em grande risco. Quando você começar a agir dessa forma, pode ser que te olhem diferente. Aquilo que você é pode não corresponder à ideia que fazem de você: viver com uma moral própria, pessoal, pode ser visto por aqueles que acreditam em morais absolutas como uma demonstração de desumanidade. Quem age segundo princípios, especialmente os próprios princípios, acaba se distanciando do agir comum, o que faz com que outras pessoas queiram puni-lo. E é aí que entra um dos desafios de mudar de comportamento: a quebra do pertencimento. Se você mudou para melhor e seus amigos não aprovam a mudança, rompa a amizade. Falar é fácil.

No entanto, mesmo depois de aceitar que não há moral objetiva e que toda moral é uma escolha, você não se tornará blindado contra as consequências de seus atos. Mesmo que você mude de comportamento, ainda sofrerá as consequências de um erro passado. Seja capaz de aceitar isso. A dor constrói, o prazer conforma. Quem não tem coração duro na adolescência não o terá na idade adulta. A pessoa amadurece ao enfrentar dificuldades. Quem sofre e sobrevive ao sofrimento acaba se tornando alguém melhor em termos de experiência.

A natureza filosófica.

Um ato consciente não é 100% feito sem instinto: nós pensamos porque queremos ou o pensamento nos vem de súbito? A filosofia, que se propõe a ser racional, por exemplo, se origina também do instinto e o mesmo pode ser dito das ciências, como a física, a qual é um meio de apreender o mundo que nos estimula. Tal instinto é a curiosidade: nos interessamos por fenômenos raros. Logo, praticar filosofia é uma manifestação dos instintos humanos. A marca da filosofia é a dúvida. Mas não é possível duvidar de tudo. Duvidar de tudo nos leva a duvidar de nosso pensamento. O filósofo pode dizer que quer duvidar de “tudo”, mas salvaguardar certas coisas da dúvida, como os princípios de raciocínio com os quais trabalha, uma vez que não é possível conduzir um raciocínio sem pressupostos. Um pressuposto comum é a religião. Tem muito pensamento sério baseado em crenças religiosas, mesmo que o pensador não perceba isso.

Há diferença entre descobrir e inventar, a descoberta sendo a constatação de algo que nos é mostrado pelo mundo e a invenção sendo a realização de uma ideia. Também há diferença entre criar e desenvolver. Existem pessoas que têm boas ideias e existem pessoas que desenvolvem bem as ideias que outros tiveram. Também é assim na filosofia.

Crítica à filosofia.

A filosofia se guia por perguntas. Algumas aberrações filosóficas são produzidas não quando a filosofia conclui de forma errada, mas quando ela pergunta de forma errada. Tais aberrações podem estar gestando antes da pergunta ser feita, quando o filósofo decide colocar coisas claras em dúvida. Então, antes de fazer uma pergunta qualquer, faça uma outra pergunta antes: “eu preciso perguntar isso?” Complicar o óbvio pode ser desejo de chamar atenção. Um filósofo que põe em dúvida o óbvio, então, pode estar sendo motivado pelo desejo por fama. E aí outros caem em sua armadilha e logo o pensamento de muitos se desvirtua. Ainda se crédito à ideias que nunca foram demonstradas e contra as quais se acumulam evidências contrárias.

Além disso, a filosofia muitas vezes trabalha com termos que não foram definidos. Como posso dizer “penso, logo existo” se eu não sei o que é pensar? O que é filosofia? Saber o que é filosofia requer prática de filosofia. Mas como eu vou praticar filosofia sem saber o que ela é? Assim a filosofia precisa ter conceitos claros como instrumentos de sua atividade, ou suas conclusões, mesmo quando não monstruosas, serão vazias. É grave construir algo novo sobre um erro antigo. Então uma filosofia nova que se funda em uma filosofia anterior, que incorre nesse erro conceitual (como é o caso das tradições metafísicas), pode facilmente ser questionada.

Outro problema da filosofia é que, por se fundar em conceitos, ela está invariavelmente sujeita à linguagem e, consequentemente, à gramática. A gramática de um povo influencia a filosofia a ponto de pessoas que raciocinam com gramáticas semelhantes chegarem à conclusões semelhantes. Isso permite que as filosofias de diferentes povos sejam diferentes entre si. Isso prejudica o caráter supostamente universal da filosofia. Claro que isso não significa que todos em um território sempre agem igual: mesmo que tenham princípios iguais, não terão objetivos iguais.

Embora a filosofia seja “amor pela sabedoria”, um filósofo pode ser amigo da sua verdade, que não necessariamente é a verdade de fato. Existem filósofos empenhados em mostrar que não estão errados, mesmo que estejam, porque são vaidosos. Já outros não estão tão a fim de provar a sua verdade, mas a verdade de quem os paga. O filósofo deve sê-lo por predisposição, talento, não por dinheiro (até porque paga muito mal e o campo é restrito) e nem por fama (porque compromisso com a verdade requer defender verdades desagradáveis).

O filósofo por vezes teme a si mesmo. A filosofia que apenas repete os valores de seu tempo e só está interessada em justificá-los é uma filosofia de coleira, digna de pena. Uma pessoa pode ser inteligente e esconder isso, pra pertencer à sociedade. Algumas pessoas sabem que estão certas, mas, temendo as consequências da verdade, se veem desejando que outros não pensem como elas. Assim, mesmo que alguém faça filosofia, pode ser que a faça de forma mais “suave” porque teme as consequências de ideias radicais nas quais acredita. A filosofia feita por alguém revela também seu caráter. Portanto examine-a.

Além disso, a filosofia produz uma multitude de resultados, devido a multitude de métodos, já que a filosofia, não sendo ciência, não tem método unificado. Alguns resultados se contradizem mutuamente. Isso causa ceticismo. O ceticismo, na medida em que tem dúvidas sem propor nada novo, é conservador. Há filósofos que já não mais creem na capacidade da filosofia de explicar o que quer que seja, já que é difícil filósofos entrarem em acordo entre si. Quando os filósofos se desesperam da filosofia, ela perde seu crédito. Já outros usam a filosofia apenas para destruir verdades estabelecidas sem propor nenhum novo entendimento da vida. Destruir uma certeza sem propor novas certezas é doentio. É preciso ter certeza, pelo menos, de si mesmo.

Por último, existem verdades que são percebidas por pessoas comuns, antes de ser percebidas pelos intelectuais, porque fazem parte do contexto comum. Se a filosofia se eximir do contexto comum, será inútil e a sabedoria popular lhe será superior. Apesar disso, mesmo que a filosofia se ocupe da vida comum, pode ser que ela não seja compreendida e seja tida por loucura. As pessoas negam as ideias que não têm maturidade pra compreender, como negam a existência de estrelas cuja luz não nos chegou. Por causa disso, pode ser que suas ideias não sejam entendidas neste século.

A ação correta.

No período helenístico, se costumava dizer que a vida feliz é aquela que se vive segundo a natureza. Se agir segundo a natureza é agir segundo a vida, ninguém precisa dizer a você pra fazer isso; você já está fazendo.

O valor de algo deve ser medido segundo suas consequências. Quando o valor de algo é medido segundo a intenção, em vez de segundo as consequências, então é lícito fazer atrocidades se for “por uma boa causa”. Se algo deve ser motivado pelas consequências que se quer obter, então procurar a verdade sem razão (o chamado “saber pelo saber”) te faz não encontrá-la. Você só procura a verdade se a mentira te incomoda ou porque você espera que sua vida melhore com isso. Além disso, mais que encontrar a verdade, é preciso que a verdade seja útil: atingir um ideal é ultrapassá-lo. Descobrir uma verdade que não serve pra nada é como morrer de sede no meio do mar, água que não se pode beber.

Cada um deve agir visando a felicidade, essa é a consequência que se procura. No entanto, o erro da pessoa feliz é pensar que não perderá a felicidade.

Na busca pela felicidade, nos deparamos com outros que fazem o mesmo por seus próprios meios (já que toda moral é uma escolha pessoal), o que pode causar conflitos e, portanto, ódio. Só é possível sentir ódio de alguém igual ou superior a nós. Por outro lado, algumas pessoas superiores a nós não estão interessadas em nossa destruição. Isso pode ser motivo de desconforto para alguns. Algumas pessoas sentem desconforto ao ser bem tratadas por alguém superior, porque sentem que não podem retribuir.

Crítica à religião.

O catolicismo domina em locais onde a prática tem mais valor do que o puro pensamento, porque o catolicismo condiciona a salvação às boas obras. Na verdade, uma pessoa pode agir mais como católico do que como brasileiro, tal é a ênfase nas obras. É diferente do protestantismo, que condiciona a salvação à fé somente. Se o catolicismo condiciona a salvação às boas obras, você não pode ser salvo somente crendo. O processo pode ser árduo. Ninguém é santo por diversão. Mas aí surge um problema: o mais difícil de fazer não necessariamente é o melhor a se fazer. Imagine se, depois de uma vida de austeridade e ascetismo, você descobre, depois da morte, que a forma que você pensava ser a correta de buscar a salvação era, na verdade, errada. Infelizmente, a crença na vinda vindoura pode tornar uma pessoa mais propensa a não aproveitar a vida presente. E se essa abnegação não compensar no final?

Nenhuma religião é totalmente santa. Existem pastores que estão apenas interessados em ganhar dinheiro e fiéis que vão pra igreja apenas porque não têm o que fazer em casa. Qualquer instituição composta de seres humanos que afirme ser santa, isto é, sem pecado, é automaticamente hipócrita, porque não há quem não peque. Seja no clero, seja entre os leigos, não é possível que todos sejam santos o tempo todo.

Há que se lembrar que a fé varia de pessoa pra pessoa. Se a religião for obrigatória, nem por isso todos crerão. Tem pessoas que são religiosas por “estilo” somente, como se fosse um adorno. Essas pessoas não estão interessadas na salvação, mas em status. Outro problema da religião é o fanatismo. Alguns são tão fanáticos que, no exercício do amor à divindade, se esquecem de amar o próximo. Não se deve amar um só ser em detrimento de todos os outros. Deus mesmo nunca mandou que se fizesse isso. Quem luta contra monstros deve tomar cuidado pra não se tornar também um monstro.

A moral dos senhores e a moral dos escravos.

Há dois tipos de moral: a dos senhores e a dos escravos. Antigamente, uma pessoa bem-sucedida era considerada virtuosa e ela era quem ditava o que era virtude e o que não era, através de seu comportamento. Assim, antigamente, na época da moral dos senhores, virtuoso era o comportamento do vencedor, qualquer que ele fosse. Aquele que luta por uma causa a ponto de os oprimidos se refugiarem sob sua sombra, por proteção, já nasceu senhor. Na moral do senhor, o mau é a insignificância, a necessidade de aprovação dos outros, a impotência, mas é o contrário na moral do dominado. Na moral dos dominados, ou dos escravos, que por inveja criam uma moral oposta à dos senhores, tudo o que é “opressivo”, como a desigualdade, é mau. Provam isso apontando as falhas de seus senhores, mas também sistematicamente negando as qualidades de tais senhores, tais como coragem, sagacidade, compaixão (porque também dominadores são capazes dela) e solidão, esta última sendo a virtude que limpa a pessoa da sujeira contraída pelo convívio com os outros.

Se você estivesse por cima, você pensaria em igualdade? Por isso a igualdade é reivindicada pelos oprimidos: se os oprimidos fossem opressores, não pensariam em igualdade. Mas para que haja essa mudança de paradigma, é preciso que o escravo tome o lugar do senhor ou tenha esse lugar concedido a ele. A emancipação feminina, por exemplo, só foi possível porque as assembleias políticas compostas totalmente por homens deram a elas o direito de votar.

Educação e família.

Se você acredita que o filho repete os erros do pai porque isso é genético, que utilidade você vê na educação? O filho não necessariamente agirá como seu pai. O pai pode ser a pessoa mais virtuosa e, ainda assim, estragar seu filho mimando-o. A criança mimada é viciosa. Tem-se então um pai virtuoso e um filho vicioso. A educação é importante, talvez mais que a genética. Mas a educação precisa ser boa. Uma educação qualquer, por exemplo, também ensina a dissimular e isso não é bom.

21 de setembro de 2017

Anotações sobre o “Crepúsculo dos Ídolos”.

Crepúsculo dos Ídolos foi escrito por Friedrich Nietzsche. Abaixo estão algumas afirmações feitas no livro. Uma afirmação pode ou não coincidir com o que eu penso sobre o assunto.

  1. Defender uma causa controversa requer que o indivíduo se mantenha sereno.

  2. O triunfo requer petulância.

  3. Força em excesso prova força suficiente.

  4. A mentira é mais comum do que a verdade.

  5. Dizem que a falta do que fazer é mãe de todos os vícios.

  6. Às vezes sabemos que algo não é verdade, mas temos medo de nos opor.

  7. Dizer que a verdade é sempre simples é mentir duas vezes.

  8. O que não mata, fortalece.

  9. Se ajude para receber ajuda dos outros.

  10. Não procure adeptos.

  11. A verdade é um atentado ao pudor.

  12. Ou se tem virtude ou se tem vantagens.

  13. Tem coisas que fazemos escondido, mas querendo que outros encontrem.

  14. Não se deve olhar o passado a fim de repetir os erros lá contidos.

  15. Satisfação aumenta a imunidade.

  16. Uma mulher com virtudes masculinas é irresistível, mas uma mulher sem essas virtudes não resiste a nada.

  17. A música nos deixa alegres.

  18. Pense andando.

  19. Existem os que se movem pra resolver o problema, existem os que só olham o problema e existem os que preferem não ver o problema.

  20. É preciso saber o que desejamos e se vale a pena desejar isso.

  21. Passar por cima dos outros é necessário pra progredir.

  22. A filosofia grega, que dizia que viver não vale a pena, mais especificamente a filosofia socrática, era doentia.

  23. Um consenso pode estar errado: pode ser que muitos concordem com uma coisa errada.

  24. Julgar a vida é idiotice; a vida é a vida.

  25. Somos parte da vida.

  26. Quando alguém emite um juízo de valor sobre a vida, sendo que ele próprio faz parte da vida, está pirado.

  27. Um sábio que julga a vida está se pondo acima dela, como juiz, o que prova que ele não é assim tão sábio.

  28. Para enfurecer um adversário e colocá-lo contra a parede, ponha-o numa situação em que ele tem que provar que não é um idiota.

  29. A feiúra de Sócrates podia muito bem ser um reflexo de sua má saúde, ajudada pelo excesso de controle sobre os próprios instintos.

  30. Se os instintos podem nos tiranizar, a razão pode nos tiranizar também.

  31. Uma pessoa pode ter que se forçar a ser racional.

  32. A doença do grego: excesso de razão.

  33. Por causa desse excesso de razão, o ato de satisfazer os instintos passou a ser visto como demonstração de fraqueza e não necessariamente o é.

  34. Quando a dialética abala a autoridade vigente, as pessoas esperam do dialético uma solução para o problema que ele próprio criou, o que lhe dá autoridade pra dizer o que a massa deve fazer.

  35. O ascetismo dessas morais é procurado como meio de salvação, mas essa vida clara, comedida, fria, prudente… nem sempre traz a felicidade que promete.

  36. Numa vida saudável, felicidade e instinto são a mesma coisa.

  37. Filósofos erram, pois não consideram o conceito como construção, como submisso às vicissitudes da história.

  38. A filosofia tradicional vê o devir como problemático.

  39. O ser imutável não encontra fundamento empírico mas os filósofos (falando aqui apenas dos platônicos, penso) querem que ele exista, o que os leva a admitir que o devir é ilusório e que o ser imutável é objeto de especulação.

  40. Os sentidos não mentem.

  41. O que acontece é que os sentidos nos dão uma informação imparcial, mas nossa interpretação dessa informação que pode estar errada.

  42. A filosofia tradicional parte do universal pra explicar o singular.

  43. Lógica não é sinal irrefutável de razão: algo pode fazer sentido e estar errado.

  44. Não é possível demonstrar que o mundo não é como parece ser, isto é, como nossos sentidos o captam.

  45. Uma ideia pode levar milênios para ser superada, mas ela é superada quando acaba não servindo mais pra nada.

  46. A moral pode se manifestar contra a natureza.

  47. As paixões podem trabalhar a favor da razão.

  48. Alguém que combate a ciência não luta inteligentemente contra nenhum inimigo.

  49. A moral tradicional prefere suprimir o desejo sexual, por exemplo, em vez de se perguntar como esse desejo poderia ser usado de forma construtiva.

  50. Se a paixão é uma expressão da vida, atacá-la é atacar a vida.

  51. Quem faz guerra contra os próprios desejos é quem não é capaz de usá-los a seu favor.

  52. Guerrear contra os desejos revela fraqueza de espírito: você mata o desejo porque não tolera sua sedução.

  53. O estabelecido precisa de oponentes.

  54. Uma moral que não tem como objetivo a preservação da vida é doentia.

  55. Qualquer moral que não tenha a vida como objetivo é decadente.

  56. Um humano não pode dizer como o ser humano deve ser.

  57. Quando uma pessoa diz “seja assim”, normalmente está dizendo, mesmo que não saiba, “seja como eu”.

  58. O maior vacilo que a razão pode cometer é confundir causa e efeito.

  59. A moral e a religião cometem esse vacilo constantemente.

  60. Não se pode fazer generalizações com base em um só exemplo.

  61. Não coma muito, nem coma pouco; coma o suficiente.

  62. Se eu sou virtuoso, farei o bem, mas fazer o bem não me torna virtuoso.

  63. Vício e luxo não são a causa da decadência humana, mas sinais dessa decadência.

  64. Outro vacilo: assumir causalidade onde ela não existe.

  65. Outro vacilo: imaginar causas que não existem.

  66. Outro vacilo: fingir que já se conhece o que é, na verdade, desconhecido.

  67. Se permitimos uma dor se apoderar de nós, é porque reconhecemos que a merecemos, mesmo quando não a merecemos de fato.

  68. Movimento peristáltico, como uma bela digestão, pode ser confundido com tranquilidade de espírito.

  69. Não temos razão de existir.

  70. Não há “fim”, isto é, objetivo.

  71. Moral não prova nada.

  72. O juízo moral crê numa realidade que não existe.

  73. Moral é interpretação e interpretações são pessoais.

  74. Moral é relativa.

  75. É possível falar uma coisa sem compreender as próprias palavras.

  76. Uma pessoa que não sabe o que a moral realmente é não pode tirar fruto dela.

  77. “Moral” é uma tentativa de melhorar o ser humano.

  78. Mais fácil melhorar o gênero humano pela ciência.

  79. Domesticar um animal é adoecê-lo, ao fazê-lo agir de uma forma não estipulada pela natureza.

  80. Quando se quer enfraquecer alguém, adoeça-o.

  81. Um número de processos de eugenia foram religiosamente sancionados.

  82. O Evangelho é contra o arianismo, é contra os valores de raça pura e dominante.

  83. A educação pode matar o gênio.

  84. Política e ciência são coisas diferentes.

  85. As épocas de maior avanço em termos filosóficos e científicos foram épocas de crise política.

  86. Nenhuma escola ensina a pensar.

  87. Não há mais disciplina que ensine lógica.

  88. Infelizmente, a ciência faz parte da democracia.

  89. Faz sentido um ateu moralista?

  90. Não se faz arte sem estar embriagado, mesmo que não de álcool.

  91. É possível estar embriagado de tesão.

  92. É possível estar embriagado de sonho.

  93. A sensação de força e de plenitude é o que torna a embriaguez uma fonte de inspiração artística.

  94. A embriaguez de Apolo nos leva a pintar, esculpir e descrever, mas embriaguez dionisíaca nos leva a compor, tocar e dançar.

  95. Existem ateus que querem deixar de ser ateus.

  96. Só é possível ter espírito (circunspeção, paciência, astúcia, mentira e domínio) na necessidade dele.

  97. Algumas vezes, imparcialidade é manifestação de arrogância.

  98. A filosofia de Kant é desonesta.

  99. As maiores tragédias só acontecem com as pessoas mais ilustres.

  100. Sempre seguir as regras da sociedade acaba comprometendo a pessoa.

  101. A mãe da filosofia é a atração por menores.

  102. Praticar arte só por fazer é lutar contra a moral.

  103. O objetivo do ensino superior é transformar um homem numa máquina estatal kantiana, ensinando-o, através da moral, a ter ódio de si próprio.

  104. De vez em quando, faça arte sem método.

  105. O gênio consome energia e trabalha sob pressão e arruinará sua saúde se não der uma pausa pra mexer o corpo.

  106. Mais vale um homem real do que um ideal.

  107. Doenças são sinal de decadência não causas de decadência.

  108. O anarquista culpa a sociedade e o cristão culpa a si mesmo.

  109. O socialista faz da revolução sua vingança e o cristão, muitas vezes, faz do juízo final sua vingança.

  110. Não é possível agir sem interesse.

  111. Ser totalmente altruísta, isto é, nunca pensar em si, é fórmula de suicídio.

  112. Melhor você negar seu valor do que o valor da vida.

  113. O doente terminal deveria ter direito de se matar, se quisesse.

  114. Se a pessoa perdeu a dignidade de viver, permita-a morrer dignamente.

  115. Todas as épocas se julgam no ápice da realização moral.

  116. Uma moral muito restritiva vem de um povo mais fraco e delicado, que “não suporta” certas coisas.

  117. O valor de uma moral vem de sua serventia.

  118. Nossa sociedade detesta correr riscos.

  119. Alguém que zela pela liberdade não pode se vender.

  120. Você só pode ser forte se precisar sê-lo.

  121. Pra quê serve o casamento hoje?

  122. A moral kantiana nada mais foi do que a validação dos costumes de sua época.

  123. O sacrifício heróico é o ato que desconsidera a sobrevivência do praticante em nome de uma causa maior que sua própria vida.

  124. O criminoso é um homem forte que nasceu numa época que não compreende sua força.

  125. Antes de ganhar notoriedade, todos os gênios são odiados por seu tempo.

  126. Educar sentimentos e pensamentos não te torna belo, mas educar o corpo torna.

  127. A realidade está nos acontecimentos verdadeiros do mundo, não na nossa cabeça e nem na nossa moral.

  128. Não existe mudança sem sacrifício.

6 de setembro de 2017

Anotações sobre o nascimento da tragédia.

Filed under: Livros, Música, Passatempos — Tags:, , , — Yurinho @ 16:15
  1. A tragédia nasce do espírito da música, diz o autor.

  2. Por que os gregos tinham necessidade do gênero trágico, eles que eram tão felizes?

  3. Pessimismo não é sinal seguro de declínio.

  4. Foi Sócrates quem matou a tragédia grega. A razão descreditou a tragédia.

  5. A racionalidade pode ser sinal mais seguro de declínio do que o pessimismo.

  6. A ciência é questionável. Infelizmente, ela pode ser questionada erroneamente também.

  7. A ciência não pode pensar a si mesma. Esse é o trabalho pra arte ou pra filosofia. Nietzsche prefere a arte.

  8. A tarefa do livro é ver a ciência sob a ótica do artista.

  9. É possível ser tão lúcido a ponto de ficar louco? Sim, é possível.

  10. O cristianismo, pelo ódio ao mundo, leva o cristão a fechar os olhos aos prazeres desta vida em prol de vagas promessas, diz o autor. Importante lembrar que se trata do cristianismo mais tradicional. O judaísmo não tem, por exemplo, um “céu” pra onde as almas vão. Para os judeus, só há um mundo onde humanos podem viver: este. É o mesmo com as testemunhas de Jeová. Essa crítica de Nietzsche só se sustenta no cristianismo que afirma a existência de dois mundos.

  11. Para o cristão, esta vida é sem sentido. Nietzsche vê nisso um sintoma de grave doença.

  12. A moral, diz Nietzsche, é o começo do fim.

  13. Uma filosofia que afirma o valor deste mundo em detrimento do outro mundo cristão é uma filosofia anticristã. Só que hoje, com o movimento cristão alternativo ganhando força, existe um cristianismo que afirma só um mundo. Então, Nietzsche já não é mais tão anticristão como costumava ser no seu século.

  14. O espírito trágico, diz Schopenhauer, não vê neste mundo nenhuma razão de apego. Assim, ele conduz o indivíduo à resignação. Nietzsche discorda. Pra Nietzsche, o espírito trágico não traz nenhuma resignação.

  15. Pra alguns, é melhor que nada seja verdade do que o inimigo ter razão de alguma coisa. Esse pessoal frequentemente se dirige e seduz os jovens.

  16. Não adianta ouvir de ouvidos tampados.

  17. O consolo do cristão é a vida futura. O consolo do ateu é o riso mundano, diz o autor. No entanto, o cristão pode se consolar de ambas as formas, já que essa vida futura pode estar bem longe. Ou não (Mateus 24:36).

  18. A arte plástica e a arte musical nascem desse confronto entre o dionisíaco e o apolíneo. O impulso dionisíaco produz a música e, no seu combate com o apolíneo, é estimulado a produzir mais música. O impulso apolíneo produz artes plásticas, como a escultura, da mesma forma que Dionísio produz música. Mas a tragédia ocorre quando os dois estão juntos, lado a lado, o que não necessariamente quer dizer que eles estão em concórdia.

  19. Apolo e Dionísio são relacionados aos dois estados de inspiração do artista: Apolo é o sonho, Dionísio é a embriaguez. Isso porque Dionísio é também o deus grego do porre.

  20. Dizem os antigos que os deuses apareciam em sonhos, nos dando uma ideia de como eles eram em aparência. Aí o pessoal esculpia eles. E é quando estamos bêbados que mais dançamos. Festa sem álcool não existe.

  21. Para alguns poetas, a poesia é a arte de interpretar sonhos.

  22. Não é possível praticar artes plásticas sem imaginar a cena a ser representada antes de começar, diz o autor. Isso não é verdade; eu sei, por experiência própria, quando desenho, que a cena pode ser imaginada conforme a representação progride. Não há necessidade de ter uma cena completa em mente antes de começar. É como desenhar por associação livre, um jogo de perguntas e respostas entre você e o papel.

  23. A sensação de que o mundo físico é falso é sinal de aptidão para a filosofia. Porque a filosofia diz que as coisas não são como parecem.

  24. Tem sonhos mais reais que a realidade. Se você não acordasse, nunca iria saber.

  25. Para desespero de Descartes, sim, existem casos em que um sonho continua o outro. Como saber se estou acordado agora, então? Porque, pra Descartes, a única diferença entre sonho e vigília é que um sonho não continua o outro, mas um dia no mundo real continua o dia anterior. Se um sonho pode continuar o sonho da noite anterior, como é que eu vou poder diferenciar com segurança?

  26. Viver sóbrio, mesmo que torne a vida mais longa, torna a vida mais chata. A pessoa que não se permite um excesso, que é excessivamente controlada e comedida (tipo eu), tem uma longa vida chata, em comparação com a curta vida louca do bêbado festeiro, que ao menos o faz feliz.

  27. Tomar um porre de vez em quando não necessariamente é ruim.

  28. O porre é a concretização da instrumentalidade humana.

  29. Nem todas as festas são dionisíacas. Nem todo o sátiro é Dionísio. Existem festas em que a pessoa se embebeda e produz arte. Mas existem festas em que a pessoa se embebeda e vira um animal.

  30. Tem gente que preferia não ter nascido.

  31. O sofrimento é necessário à arte, porque nos permite imaginar como as coisas poderiam ser diferentes. Assim, a arte que consola vem da realidade opressiva.

  32. Às vezes é preciso estar bêbado pra dizer a verdade.

  33. A música representa, à sua maneira, os mesmos objetos que a arte plástica, mas sem mostrá-los. É como quando você nomina um tema: “Ambiente Aquático”, “Louco Dançarino”, “Exodia”, são todas músicas sem letra, mas que representam alguma coisa por similitude, isto é, sem mostrar o objeto a que se reportam. Existem exceções, como músicas com letra e músicas cujo nome tão somente se refere às técnicas usadas (“Prelúdio e Fuga em A-Menor”, pra dizer que a música usou a técnica de prelúdio, a técnica de fuga e é tocada em a-menor).

  34. A poesia imita a música. Mas palavras não podem imitar o simbolismo universal da música, que se dirige ao coração, em um nível mais penetrante que o da palavra.

  35. Ninguém sabe exatamente como a tragédia grega começou, mas porque ninguém se importou em sequer fazer a pergunta com seriedade.

  36. Para que a arte funcione, precisa ser reconhecida como arte e não como realidade. É o que Kant diz do sublime, de certa forma, quando afirma que o sublime só pode ser apreciado sem perigo real.

  37. Não existe plateia sem show.

  38. A comédia é a “descarga artística da náusea do absurdo”. É tão doido que chega a ser engraçado. E porque é engraçado que é tolerável.

  39. Para Nietzsche, o sátiro é superior ao ser humano, por viver a realidade inteira com toda a sua intensidade. A civilidade impede o ser humano de fazer o mesmo.

  40. O poeta quer retratar a realidade, mas como, se ele não a viver?

  41. Na tragédia, Dionísio é representado pelo coro, enquanto que Apolo é representado pela cena. Som e imagem se juntam, embora não se misturem, num espetáculo com todos os elementos de um e de outro.

  42. Uma pessoa sábia ainda pode errar e se tornar miserável. Paralelo com Salomão.

  43. Alguém escreveu: “um sábio mago só pode nascer de um incesto.” Isso porque magos não são seres naturais, mas que resistem à natureza, ao passo que o parecer da época era de que incesto é algo antinatural.

  44. A sabedoria humana foi um acidente. Para o autor, ela não é natural. Pra mim, se ela é acidental, é um feliz acidente.

  45. O princípio do mal é a individuação. Não poderíamos fazer mal um ao outro se fôssemos um só.

  46. A música atinge todo o seu potencial na tragédia. Caso você ainda não tenha percebido, “tragédia”, aqui, é o gênero de teatro.

  47. Para Nietzsche, as religiões começam a morrer com a ortodoxia. Quando você faz um cânon oficial, descartando tudo o mais como mito, você impede a depuração e revitalização da religião. Então, como o cristianismo subsiste? Porque, verdade seja dita, não existe ortodoxia no crisitianismo… Existe uma Bíblia Sagrada, é verdade, mas não há interpretação oficial fora da Igreja Católica. Por exemplo, o Protestantismo encoraja cada cristão a ter sua interpretação da Bíblia. Como é possível uma ortodoxia assim? Nietzsche, contudo, fala de cânon histórico, mas o fenômeno cristão mostra que é possível que uma religião subsista com cânon histórico, desde que não haja cânon doutrinário. Se houvesse uma só interpreação da Bíblia, o cristianismo seria destruído quando essa interpreação fosse descreditada, mas o que se observa é que, quando uma interpretação cai, duas aparecem no lugar.

  48. A tragédia grega morreu de suicídio. Trágico.

  49. O suicídio da tragédia ocorreu quando Eurípides começou a escrever tragédias em que o destino poderia ter sido evitado. Isso fez com que a população, que antes encarava o destino com indiferença (“qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento, então é inútil me preocupar”), passou viver em estado de alerta (“qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento, mas eu posso evitar, então devo me preocupar o tempo todo”). A tragédia, que antes promovia a aceitação da vida, passou a promover a sua negação. Não é a vida como é que importa, mas como ela deveria ser.

  50. A tragédia foi sucedida por outro gênero que melhor atendia às pessoas que agora pensavam dessa forma: a nova comédia.

  51. O valor formativo do trabalho de Eurípides o tornava requisitado. Não se ia mais ao teatro pra sofrer com os personagens, mas pra aprender.

  52. Antes, era possível encarar a miséria humana com indiferença, mas agora ela era temida.

  53. A única crítica que o arrogante escuta é a dele próprio.

  54. Derrotar um gênero artístico requer a prática desse gênero.

  55. Eurípedes arruinou o gênero trágico por causa de Sócrates! Parece que foram contemporâneos. Como Eurípedes não gostava da atual forma da tragédia grega, ele começou a conversar com Sócrates, que também não assitia as tragédias. Foi pela influência socrática que Eurípedes concebeu sua interpretação da tragédia, a qual ele levou a efeito.

  56. Quando Eurípedes percebeu que estava destruindo o gênero trágico, ele tentou fazer uma peça nos moldes da tragédia tradicional, mas já era tarde demais. Destruir e depois pedir desculpas não conserta o que foi destruído. Além do mais, considerando que Eurípedes não entendia a tragédia tradicional e passou sua vida discordando dos mestres, não duvido que sua retratação tenha sido uma porcaria de peça.

  57. Eurípedes removeu o elemento dionisíaco das suas tragédias, ao passo que nunca conseguiu chegar totalmente ao apolíneo. Havia um vazio em suas peças que precisava ser preenchido. Ele preencheu com ajuda de Sócrates. Com filosofia.

  58. A tragédia euripidiana conta o final da peça já no prólogo.

  59. Uma peça que estimula a pensar é uma peça que desencoraja a sentir. Tudo bem você refletir depois sobre a peça, mas é contraprodutivo estimular essa reflexão durante a peça. Durante a peça, você deveria assistir.

  60. Se Sócrates não era artista, como é que Eurípides deixava Sócrates ajudar?

  61. A poesia é a verdade para idiotas. Porque algumas pessoas só entendem a verdade através da arte, não pelo discurso científico.

  62. Platão ia ser poeta, se não tivesse se encontrado com Sócrates e virado filósofo.

  63. O romance é uma fábula intensa.

  64. A influência socrática sobre Eurípedes deu à luz “tragédias” que enfatizavam a ligação entre felicidade e virtude. Só que essa é uma ligação que não é necessária: muitos bons sofrem. A tragédia anterior, que mostrava o sofrimento como ato do destino, algo que poderia sobrevir a qualquer um, não é mais realista, ao menos nesse ponto?

  65. A tragédia encontra seu elemento dionisíaco (musical) no coro. Remover o coro da tragédia é remover Dionísio. Sem Dionísio, não há mais tragédia, uma vez que a tragédia é Apolo e Dionísio.

  66. Sócrates não começou a batalha contra Dionísio, mas apenas ajudou a terminá-la, transformando, por meio de Eurípides, a expulsão de Dionísio em uma moda a ser seguida.

  67. Os gregos eram tão originais que alguns artistas preferem não estudá-los, pra não verem que algumas de suas ideias, aparentemente tão originais, já foram tentadas e desenvolvidas antes. É por isso que um dos meus amigos não lê TV Tropes.

  68. Alguém contente consigo próprio não pode ser derrotado por simples inveja ou mentira. Por isso as pessoas temem ou se envergonham perto dele.

  69. A busca pela verdade dá sentido às pessoas. Querem procurar a verdade, mas não necessariamente encontrá-la. Porque, se encontrarem, o que farão da vida depois disso? Já pensou como seria nossa vida se não houvesse mais nada pra aprender? Se soubéssemos tudo? Talvez ela até fosse melhor, mas nem todos a levariam numa boa, porque não iriam saber o que fazer com a vida. A busca pela verdade inalcançável, esquecendo que é inalcançável, é uma autoajuda, um meio de dar significado a uma vida que, de outra forma, não teria sentido.

  70. Uma luta intelectual não pode ser somente assistida. Quem assite, tem que lutar também.

  71. A filosofia e a ciência não podem se sustentar sozinhas. O ser humano precisa da arte. E o grego que havia começado a curtir a tragédia de Eurípedes percebeu também, em algum tempo, que o conhecimento humano tem limites. A frustração de se deparar com esses limites criou uma nova demanda pela tragédia, mas como voltar a ela agora, uma vez que o grego havia aprendido a detestar Dionísio?

  72. O comentário mais fiel de uma cena é feito pela trilha sonora que toca junto com ela.

  73. Se a música combinar com a cena, o entendimento da plateia é melhorado.

  74. É por isso que se canta, em vez de simplesmente declamar poesia.

  75. A cientifização da arte faz com que encaremos gênios que não pactuam com essa cientifização como incompreensíveis. E no entanto são os melhores.

  76. Uma classe de escravos que percebe que está sendo tratada injustamente e passa a desejar vingança é algo perigoso ao estabelecido. Quando um escravo começa a querer se vingar e a vingar até as gerações futuras, não há religião que o pare (“se Deus existe e é bom, deve ser contra a opressão!”).

  77. Tem muito pastor ateu.

  78. Não é possível saber tudo.

  79. Causalidade, tempo e espaço são coisa da nossa cabeça.

  80. Uma sociedade científica deve deixar de existir quando começa a ser ilógica. Uma cultura científica ilógica está caduca.

  81. Para Nietzsche, a ópera não é uma criação de artistas, mas de leigos.

  82. O problema da ópera (e de muitas músicas por aí) é priorizar a letra sobre a melodia, a harmonia e o pulso.

  83. Nem todas as pessoas sensíveis são artistas. Sensibilidade não é o mesmo que aptidão artística.

  84. Não existe estado sem indivíduos.

  85. A educação e as notícias predispõem uma pessoa a julgar um trabalho de arte de determinada forma.

  86. Um crítico de arte pode julgar uma obra com critérios que não têm nada a ver com arte.

  87. Um pouco de dissonância ajuda a música.

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