Analecto

12 de maio de 2018

Celibato involuntário e masturbação: resposta a Eivind Berge.

Se eu não escrever isto, não poderei dormir, então vou escrever com o teclado virtual mesmo. Eivind Berge publicou um texto em seu blog no qual ele diz que a razão de haver celibatários involuntários, ao menos em casos sem comorbidade, é a masturbação. Ele define a masturbação como doentia por ir contra os três elementos do sexo: atração, motivação e performance. Assim, exclusos os casos em que há múltiplas causas, a masturbação, tida por prejudicial, seria o núcleo do celibato involuntário.
Essa é uma posição incompatível com o perfil de Berge, o qual se define como sexualmente positivo. Primeiro, eu quero dizer por que masturbação não é doença, depois como essa posição é sexualmente negativa, e depois por que a presença ou ausência da masturbação é indiferente ao celibato involuntário (incapacidade de entrar em relações sexuais desejadas).
Doentio é algo que prejudica suas chances de sobreviver ou as chances de outros sobreviverem. Como parafilias não necessariamente prejudicam sua vida, um simpósio realizado em Baltimore, em 2011, as removeu parcialmente do DSM. A masturbação, por um acaso, prejudica sua vida? Pense no número de indivíduos usando sites pornográficos. Quantas pessoas você acha que acessam esse tipo de site diariamente? Mas quantas pessoas você conhece que desenvolveram problemas físicos, mentais ou sociais que prejudicaram suas vidas, tudo por causa da masturbação (assumindo que maior parte desses usuários se masturba enquanto usa o site)? Não existem males atribuíveis a masturbação em si, embora haja males atribuíveis ao excesso. Mas existe evidencia científica sobre os benefícios do orgasmo, ao passo que a masturbação é um meio de obter orgasmos sem se preocupar com doenças sexualmente transmissíveis e quase sem esforço. Logo, a masturbação não é doentia, embora seu excesso seja. Mas acredito que o excesso de masturbação seja um sintoma de um problema maior. Nesse caso, parar de se masturbar não resolveria o problema e talvez o agravasse.
Além disso, chamar a masturbação de doentia por não se conformar aos três elementos supracitados é uma posição sexualmente negativa. Isso porque, ao criar critérios para “o bom sexo”, você automaticamente cria uma hierarquia de praticas sexuais, segundo a qual uma prática é boa na medida em que se conforma aos critérios que a embasam. Isso a religião e as tradições já fazem. Não seria uma atitude sexualmente positiva aplicar novas regras que demonizassem mais praticas. Quantas práticas sexuais se conformam com esses critérios e em qual grau? E se eu gostar mais de masturbação do que de sexo, tenho uma sexualidade de segunda classe? Berge também já se manifestou contrário a leis contra pornografia infantil, mas qual seria a utilidade de qualquer tipo de pornografia num mundo sem masturbação? Como as duas posições se conciliam? Talvez limitando a pornografia às preliminares. Assim, critérios para o bom sexo desvalorizam a sexualidade dos que não se conformam aos critérios e instaura padrões desnecessários. Se há necessidade de regras, uma regra sexualmente positiva seria “quanto mais gostoso para todos os envolvidos, melhor.”
Meu pai tem quase sessenta anos e é consumidor de pornô. No entanto, ele está com uma mulher diferente a cada semana, razão pela qual minha mãe pediu divórcio. O fato de ele (presumivelmente) se masturbar não o impede de levar uma vida sexualmente ativa. Pergunte a homens ativos se a presença ou ausência da masturbação faz ou faria diferença em sua atividade. De onde você tirou que não se masturbar tornaria mais fácil arrumar uma parceira? Qual o nexo necessário, onde está a causalidade? Você é capaz de provar que isso acontece? Será que nenhum homem sexualmente ativo se masturba? Suponhamos que você seja celibatário involuntário, você deveria verificar quais as causas disso e agir sobre essas causas. É sua aparência? Se exercite. É seu papo? Estude. São as leis? Se mude pra onde as leis sejam melhores. Não é nenhum problema físico, mental ou social? Então experimente quebrar o celibato e terá bons resultados. A falta de masturbação não ajudará você em nada disso, bem como sua presença não atrapalhará (como poderia?). É muito mais uma questão do que fazer, não do que não fazer.
É escusável que Berge tenha concluído tão mal: ele generalizou a sua própria experiência e seus próprios critérios de “bom sexo”, então é natural concluir algo tão subjetivo. Mas, fora isso, gosto do seu trabalho, gosto de suas ideias e acredito nos ideais do movimento dos direitos dos homens. É só esse ponto que não posso conceder.

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