Analecto

26 de fevereiro de 2018

Esclarecimento através do DSM-I?

Filed under: Livros, Saúde e bem-estar — Tags:, , — Yurinho @ 11:54

Então, esses dias eu tenho lido o Manual de Diagnóstico Estatístico, primeira edição, mais conhecido como DSM-I. É um manual que contém nomes e características de problemas mentais. Nós sabemos, todos sabemos, que o comportamento humano não pode ser colocado ingenuamente em caixas diagnósticas fechadas, mas agir dessa forma é o único jeito de produzir estatísticas sobre a quantidade de pessoas que apresentam determinado comportamento. Assim, o DSM nunca foi absoluto; ele é uma convenção para facilitar diagnósticos que podem ser quantificados. Não se pode assumir que todos os casos com os mesmos sintomas são iguais.

Infelizmente, ao ler o DSM-I, eu também percebi que há uma tendência de patalogização do diferente. Por exemplo, existe um diagnóstico chamado “reação dissocial”, segundo o qual uma pessoa que cresceu num ambiente moralmente “anormal” tem um problema mental por rejeitar a moral “normal”. O problema é que o DSM foi escrito nos Estados Unidos. Suponhamos, por exemplo, que eu tenha nascido em um lugar onde a homossexualidade é tolerada. Se eu for pra um lugar onde a homossexualidade é tabu, eu seria doente por questionar a moral daquele lugar. E, na época em que o DSM-I foi escrito (anos cinquenta), homossexualidade era considerada doença e está listada nesse mesmo manual como doença, ao lado dos fetiches e da pedofilia. Então, o DSM-I, com esse diagnóstico, se imunizava contra mudanças: se você desafia a moral vigente, está doente, então ninguém pode desafiar coisas como heteronormatividade ou leis de idade de consentimento e ainda ser chamado de “sadio”. Isso sem falar na patologização de outros comportamentos que hoje não são vistos como fundamentalmente errados, como a tendência antissocial ou associal.

O DSM mudou bastante desde então, atualmente está na sua quinta revisão. As parafilias, por exemplo, só são doença agora se elas levam a comportamentos ilegais ou se elas causam sentimentos ruins em quem experimenta esses desejos. Na prática, isso quer dizer que, no DSM-V, nenhuma sexualidade é doentia, mas a forma como você lida com sua sexualidade pode ser doentia. Você deveria procurar meios legais de satisfação e deixar de ver sua sexualidade como inerentemente problemática. Essas mudanças ainda não refletem na Classificação Internacional das Doenças, mas espero que reflitam em breve.

Eu acredito que todos os textos ensinam alguma coisa, mesmo que seja como não escrever. O DSM-I me permitiu revisitar um problema velho que eu tenho: a emetofobia. De acordo com o DSM-I, uma fobia é uma transferência de ansiedade entre uma situação ou condição fundamental para um objeto específico, sendo um mecanismo inconsciente de evitar a ansiedade que poderia, em condições normais, ser desencadeada por uma situação geral ao colocar toda essa ansiedade em um objeto específico substituto que passa a ser evitado em vez da situação fundamental.

Desde pequeno, eu tenho uma fixação por simetria, ordem, método e padrões. Não tem uma coisa que eu faça que não siga um padrão. Eu tenho métodos de estudos, métodos pra arrumar a casa, formulários de criação de aventuras de RPG, rotinas de sono, rotinas para compor música, rotinas para desenhar, rotinas para escrever histórias, entre outros. Meu desejo de controle é, às vezes, até sexualizado. Mas o vômito não segue quaisquer padrões. Você nunca sabe quando vai acontecer, não é um ato que pode ser facilmente ignorado e geralmente não pode ser suprimido. Isso me levou a limitar grandemente a quantidade de comida consumida na adolescência e também a uma preocupação obsessiva com datas de validade e conservação dos alimentos. Então, um medo que me levou à criação de mais rotinas.

Mas eu também percebo que o medo é menor, embora ainda presente, se não houver ninguém me vendo e, às vezes, eu me pergunto se não seria mais tolerável se eu fosse avisado com antecedência sobre quando eu sentiria náusea, a fim de que eu me organizasse e me preparasse psicologicamente (na única vez em que eu consegui me preparar a tempo, eu não tive medo). Às vezes eu penso assim quando o assunto é morte: se eu pudesse ser avisado com antecedência, talvez fosse uma experiência tolerável. Então, eu me pergunto se o meu medo de vomitar não é uma transferência de ansiedade entre vômito e perda de controle. É mais ou menos como eu comecei a ter medo de raios quando construíram mais um piso na minha casa: eu nunca sei quando um vai cair e onde cairá, mas sei que a chance cresceu.

Quando eu li essa descrição no DSM, eu passei a imaginar se o meu medo de vomitar não desapareceria se eu aceitasse que algumas coisas estão além do meu controle. Isso explica porque meu pai também é emetofóbico, já que o desejo de controle é um traço de personalidade hereditário. E ele teme por razões parecidas: “eu não consigo controlar a respiração quando acontece.” Se eu pudesse controlar as condições ao redor da náusea a fim de reduzir o embaraço, maximizar o benefício e reduzir o desconforto, como eu faço com tudo o mais, eu não temeria. Mas o melhor que eu poderia fazer seria aceitar que eu não estou em pleno controle. O problema é como fazer isso. Não importa de que ângulo eu olhe, eu não vejo lado positivo na falta de controle sobre funções biológicas embaraçosas.

13 de setembro de 2014

Homens são todos iguais.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , , , , , , — Yurinho @ 00:53

Entrarei em detalhes sobre minha aversão à mulheres, correndo o risco de soar ofensivo. Quando eu era menor, lá pelo jardim de infância, eu era bastante tímido frente ao sexo oposto. De fato, meninas pensavam e agiam de forma diferente e, sempre que eu tentava me aproximar delas, eu era recebido aos risos, porque meu comportamento típico de menino, minha aparência e minhas reações eram engraçadas para elas. Era como se eu fosse um constante motivo de risada. Então eu comecei a me afastar delas, apesar de que, com o passar do tempo, a convivência com fêmeas estranhas tornou-se inevitável e acabei tendo que aceitar.

Também na infância, eu era cotidianamente mal tratado pela minha irmã, que me batia, gritava comigo e elaborava mentiras sobre mim pra minha mãe. De fato, ela me fazia assumir todo tipo de tarefa, porque eu era mimado pela minha mãe e ela achava inaceitável que eu não contribuísse com a ordem da casa enquanto a mãe estava. Então, sempre que eu ficava sozinho com ela, eu era forçado, por vezes violentamente, a fazer tarefas aleatórias e ter meus privilégios suspensos. Eu tinha um ódio indescritível por ela, mas ela recebeu da vida o que lhe é devido. Certo dia, entrei apertado no banheiro e a vi sentada no vaso sanitário, de pernas bem abertas, depilando-se. O cheiro era nauseante. Eu tinha sete anos.

Na adolescência, fiz algumas amigas, duas, pra ser mais exato. Eu ainda tinha alguns problemas com mulheres, mas eram problemas pequenos, já que eu havia recebido uma educação igualitária. Eu pensava que mulheres são iguais a nós, homens, em sua diferença, no sentido de que as diferenças entre os gêneros se anulam ao serem os gêneros comparados. Mas aí eu tive depressão profunda por dois anos, período no qual eu comecei a enxergar meus próprios defeitos com um grau de aumento de 400%. A depressão muda a forma como as pessoas vêem o mundo ao redor e comecei a observar as coisas de um ponto de vista mais pessimista. A sensação de ser constante motivo de riso perante as mulheres voltou, naturalmente, e comecei a me perguntar o porquê daquilo, coisa que eu não fazia quando criança. As mulheres tinham processos de pensamento que eu não conseguia apreender e uma inteligência social espantosa. Eu me sentia três passos atrás delas, literalmente um retardado, mas, sempre que eu tinha que trabalhar com elas, eu me sentia impelido a acompanhá-las, embora eu quase sempre não conseguisse. Essas pressões, repetidas por trabalhos em grupo e convivência, mostraram um dado inesperado à minha insólita mente deprimida: minha educação igualitária estava errada, é ingênuo acreditar que homens e mulheres são iguais em sua diferença e as mulheres provavelmente já pensavam assim. De repente, eu lia pensamentos. E a leitura de um livro sobre psicologia infantil que delineava as desvantagens do sexo masculino só havia piorado as coisas.

Mas isso não parou meus hormônios. Certo dia, ainda deprimido, me apaixonei por uma garota e até cheguei a confessar meu amor por ela e ela confessou o dela por mim. Mas como eu manteria uma relação dessa natureza estando eu três passos atrás? Eu não consegui manter a relação por muito tempo e acho que nem posso dizer que de fato fomos namorados. Quando ela terminou seus estudos no Ensino Médio, não a vi por anos. Recentemente a vi várias vezes em ônibus, vestida como uma protestante popular. Não falei com ela porque a simples visão de sua face faz eu me sentir um fracasso total.

Durante a depressão, eu me perguntava como eu era o único capaz de ver que a educação igualitária era uma falácia. Ou, pelo menos, o único dos homens. Talvez porque elas fossem as principais divulgadoras da educação igualitária e, já que acreditar nisso é ingenuidade, talvez elas estivessem explorando algum tipo de ingenuidade natural. Mas será que se pode falar de “ingenuidade natural”? Talvez isso seja um estereótipo. Eu constantemente ouvia mulheres, tanto jovens como adultas, dizer coisas como “homens são todos iguais”, “nenhum homem presta”, “quando eu casar com ele, o ponho nos eixos” e coisas dessa natureza. Mesmo minha mãe, depois do divórcio, me enchia as orelhas com esse tipo de coisa. Toda a vez que minha própria mãe dizia uma coisa dessas pra mim eu ficava, apesar de eu detestar usar esta expressão, muito triste. Ainda fico. Ela uma vez me disse que a infidelidade conjugal faz parte da natureza masculina e disse que minha avó pensa a mesma coisa. Me dói o coração ao digitar isto, porque sinto que nem em minha mãe eu posso confiar. Mas por que as mulheres pensam dessa forma? Será que damos motivos para elas pensarem assim?

A maioria dos homens trabalha mesmo para a criação e manutenção de estereótipos dessa natureza. A maioria. Diz-se da palavra normal que esta indica um comportamento padrão (norma), mas para que um comportamento torne-se padrão precisa (a) ser o comportamento da maioria ou (b) ser um comportamento contemplável pela maioria, mas que ainda não foi adotado. Isso significa que os estereótipos são justificados, porque, se a maioria dos homens é “toda igual”, “não presta” e precisa do casamento para ser posta “nos eixos”, pode-se dizer que é normal que os homens adotem esse tipo de comportamento e, portanto, caiam no estereótipo. E, no contexto em que eu estava inserido, todos os homens eram estereótipos, eu incluso, mas eu lutava contra isso. Novamente, eu estava deprimido e talvez eu estivesse preso em algum tipo de pesadelo excepcionalmente longo.

Com o fim da depressão, entrei na faculdade de filosofia. A depressão havia deixado sequelas e, apesar de eu normalmente me confortar com os resquícios de educação igualitária que eu tinha mantido, eu ainda evitava muito envolvimento com mulheres. Mas… até mesmo alguns professores pareciam advogar os estereótipos que eu havia visto na minha insólita adolescência. Alguns até pareciam defender uma superioridade feminina. Qualquer lasca da educação igualitária que eu guardava foi, assim, completamente pulverizada. Homens e mulheres não são iguais em sua diferença e não faz nenhum sentido advogar tal coisa. Vez por outra, me sinto um derrotado exclusivamente por causa de uma determinação biológica, um tipo de estigma de nascença. Não me entenda mal, eu gosto de ser homem, mas sinto como se eu fosse inferior por isso. As mulheres, provavelmente, têm razões sensoriais e mais superiores para gostarem de ser mulheres e, se eu tivesse que defender minhas razões para permanecer homem diante de uma mulher, eu seria envergonhado, por admitir que não iria gostar de estar no corpo de uma mulher (eu jamais me adaptaria aos cuidados) e que simplesmente é prazeroso ser homem, embora ser “prazeroso” não seja uma razão muito nobre.

Amanhã estarei bem e poderei raciocinar normalmente novamente, mas essa crise voltará, sempre volta, um pouco mais forte cada vez. Temo que, algum dia, eu acabe me matando por causa disto.

27 de abril de 2014

Cristandade reversa.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , , , — Yurinho @ 08:01

Lá estava eu, lendo Feuerbach, pra variar. Feuerbach é aquele menino que disse que a relação com Deus é uma relação egotística não confessa, isto é, entre o indivíduo e si próprio. Como assim? Deus seria a elevação ao infinito de todas aquelas qualidades que nós, mortais, apreciamos (sabedoria, força, amor e coisa e tal). Mesmo o amor, a mais inocente das sensações, é forçada no Cristianismo, porque você ama só porque tem que amar. É isso ou o Inferno.
Feuerbach é forte. Muito forte. Se você gosta da sua fé, sugiro que passe longe dele. Mas isso me fez pensar. Por que mesmo que o ser humano ama a Deus hoje?
Talvez porque tenha mesmo medo da morte. Na Antiguidade, talvez as pessoas amassem Deus por uma questão de respeito: se Ele existe e nos criou, então nada mais justo que devê-lo o mínimo de obediência pelo menos. Mas hoje as pessoas servem a Deus nem tanto porque admiram Seus grandes poderes cósmicos, mas porque veem nEle uma solução extraplanar para seus problemas. Eles esperam uma resposta celeste, algo que os faça viver melhor, com mais dinheiro, saúde, talvez que faça eles passarem no vestibular…
É uma Cristandade reversa. Não sei se Feuerbach está ou não certo quanto a origem da ideia de Deus na cabeça do homem, mas não acho que alguém hoje em dia pense dessa forma, que alguém ame a Deus porque Ele é onisciente e gostamos da sabedoria, porque Ele é todo-poderoso e gostamos da força. Mas porque temos contas pra pagar. Acho que o ser humano só será capaz de amar Deus de forma genuína quando superar o medo da morte e servir pela única razão legítima: respeito. Mas até lá…

6 de fevereiro de 2012

Dormir com o desconhecido?

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yurinho @ 16:25

Passo-a-passo. by Yure16 < Submission | Inkbunny, the Furry Art Community.

Estou preparando uma história em “quadrinhos”, se é que posso chamar aquilas coisas de quadros.

Hoje, durante a madrugada, após trabalhar na segunda página, resolvi dormir. Levei o colchão para a sala, já que eu o quarto estava recém-reformado e o cheiro de pó me incomodava. Meu pai comprou umas bolas para o Sobrinho, bolas essas que brilhavam quando recebiam pressão. Elas estavam na estante da sala, junto com os livros. Quando cheguei a sala, notei que elas estavam brilhando. Pensei comigo “como pode?”. Me aproximei e chequei a estante, mas não vi nada fora do normal. Resolvi me deitar no colchão e esquecer isso. Enquanto eu tentava dormir, ouvi um som vindo da estante, páginas se movendo. Dessa vez eu não iria checar; vai que era uma aranha. Um fantasma, um espírito ou coisa parecida não seria problema, mas uma aranha é um problema. Na semana passada, fomos atacados por uma aranha do tamanho de um cachorro e isso meio que me deixou sensibilizado.

Mas, considerando o peso de uma aranha e seu arranjo corporal, como ela poderia aplicar pressão suficiente sobre a bola para ativar seu brilho? Enquanto eu pensava a respeito, notei luzes incidindo contra a parede. Olhei para a estante e as bolas estavam brilhando de novo. Minha imaginação correu solta, como esperado, mas não era um bom momento para regredir, certo? Observei o brilho até que ele parasse. Quando achei que tinha acabado, as bolas brilharam novamente. Me levantei, peguei meu colchão e fui para o quarto. Melhor dormir com pó do que com o desconhecido.

Eu precisava ir ao banheiro também. Sinto falta das minhas fraldas…

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