Analecto

23 de outubro de 2012

Anotações sobre “Paedophilia.”

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“Paedophilia: the Radical Case” foi escrito por Tom O’Carroll. Abaixo, algumas anotações feitas sobre o livro dele.

Se você chegou aqui pelo Twitter: eu entendo a preocupação de vocês, tanto de um lado como do outro. Então, para acalmar os ânimos, gostaria de explicar que (1) o texto abaixo é um fichamento comentado de um livro que não foi escrito por mim, (2) as ideias abaixo não são de minha autoria, (3) isto não é um guia pra “estupradores aprendizes” e (4) não é um guia de como garimpar pornografia infantil. Trata-se, literalmente, de uma lista de coisas que aprendi lendo um livro, publicadas aqui pra quem quiser saber do que o livro fala, mas não tem estômago pra ler o livro em seu estado puro. Eu não culpo você por isso. Gostaria de reiterar que você ainda deve cumprir as leis. Se você não concorda com o artigo 217-A do Código Penal, por exemplo, você ainda deve observá-lo, bem como as leis contra pornografia infantil contidas no Estatuto da Criança e do Adolescente.

  1. Há poucos livros sobre atração por menores, porque profissionais têm medo de discutir isso. É um tabu dos nossos tempos. Fora literatura especializada, o povo lembra negativamente ou prefere esquecer.

  2. Porque o debate é extremamente pobre, o autor escreveu seu livro pra contrabalancear a visão majoritariamente negativa sobre o assunto. Ele se diz atraído por menores.

  3. A influência atraída por menores nos movimentos populares existe. Um número de pessoas que não são atraídas por menores querem o fim da idade de consentimento, por razões diversas. Mas o grupo que mais insistiu nisso foi o movimento atraído por menores dos anos setenta e oitenta. Sua pauta fazia sentido. Não era uma questão de obter “licença pra estuprar.”

  4. Se manifestar positivamente sobre relações entre adultos e menores é coberto pelo direito humano de liberdade de expressão. Mas a política tem memória seletiva.

  5. Também alguns setores da igreja, nos anos oitenta, eram favoráveis à suavização de leis de idade de consentimento, argumentando que as leis originalmente concebidas para proteger a juventude estão fazendo mais mal do que bem.

  6. O objetivo do autor não é conduzir pesquisa científica ou oferecer resultados de pesquisas novas, mas oferecer a opinião de um homem atraído por menores sobre a atração por menores. Um debate sobre homossexualidade ou cristianismo que não inclui o homossexual ou o cristão não pode ser chamado de imparcial, porque é um discurso sobre alguém que ignora esse alguém. Não vejo como um debate sobre a atração por menores que não inclui a opinião de adultos atraídos por menores pode ser chamado “imparcial”.

  7. O autor admite que há um problema nas publicações de outros amantes de meninos: escrever como se meninas não existissem. Uma aproximação compreensiva sobre atração por menores requer relevar encontros envolvendo meninas também.

  8. Uma aproximação dessas permitiria uma melhor contra-argumentação ao lidar com feministas radicais, que tratam adultos atraídos por menores como seres exclusivamente masculinos que desejam exclusivamente meninas. Elas usam essa “demográfica de um quarto” pra generalizar toda a atração por menores… e ainda o fazem de maneira pobre.

  9. Parece que sociedades avançadas, de primeiro mundo, têm aversão por sexo em geral. Não apenas o sexo considerado não-normativo, como a homossexualidade ou a atração por menores, mas todas as formas de sexo. Importante observar que esse é um fenômeno majoritariamente ocidental: o Japão é mais estilo.

  10. Este livro é um esforço conjunto do autor com psicólogos, psiquiatras, sociológos, filósofos, médicos, advogados, políticos e sexólogos. Então, tipo, se você tem problemas com leis de idade de consentimento, mesmo sem ser atraído por menores, devia ler isso…

  11. O desejo do homem atraído por menores é, normalmente, inócuo. Um bom número nem quer penetração. Ele não quer fazer nada forçado ou doloroso com a criança. Mas a reação da sociedade a esses sentimentos é que os torna arriscados. Então, o número de relações positivas só não é maior porque há um número de adultos bem intencionados se segurando.

  12. O adulto atraído por menores descobre que gosta dos mais novos quando sua sexualidade “para de crescer” com ele. Ele vai ficando mais velho e o alvo de sua atração continua sendo pessoas antes da puberdade. Os sentimentos não são exclusivamente sexuais, mas também protetores e românticos.

  13. Pelo menos me outras nações, crianças são educadas a jamais se expor a afeto provido de adultos, exceto dos pais. E mesmo o afeto entre os pais tinha que ser feito longe da criança, como os beijos e as carícias entre mãe e pai. Isso cria a sensação de que afeto é algo restrito. Isso, aliado à limitação de informação sexual, leva a criança a não perceber que sexo existe ou encará-lo como algo errado, sujo ou proibido. Talvez a criança duvide que seus pais não sejam virgens. Pra ela faz sentido.

  14. A infância do autor era tão casta que ele teria ficado assustado com a visão dos genitais de seus pais. Ele devia ter morado aqui, no Nordeste, porque eu via meus pais nus quase que o tempo todo, porque o calor exige pouca roupa, pelo menos em casa. Aliás, eu tomava banho com meu pai. Era massa.

  15. Para o adulto atraído por menores, ser atraído por menores é ser normal. Isso porque é algo que cresce com ele. O adulto atraído por menores geralmente não se pergunta “por que”, uma vez que é uma característica natural pra ele. Seria como alguém se perguntar “por que sou normal?”.

  16. A criança generaliza as experiências que teve na infância. “Se eu sou criado assim, outras crianças provavelmente também são.” O choque acontece quando a criança percebe que não é daquele jeito, quando seu preconceito é desafiado. No caso do autor, ele assumiu que todas as crianças temem intimidade com adultos. Eu imagino ele sendo jogado no nordeste brasileiro dos anos noventa. Eu até dividiria meu quarto com ele só pra ver a reação dele quando meu pai me beijasse nos lábios.

  17. Alguns pais instigam medo e culpa sexual na criança, uma atitude atualmente incomum. Tem muito moleque de sete anos usando Whatsapp pra pedir pornô pra outras crianças que fazem o mesmo. O problema desse desvio de comportamento é que precisa ter treze pra ter Whatsapp.

  18. Mas outros pais, como os meus, criam seus filhos de maneira a estimular e saciar sua curiosidade sexual, tornando a criança mais realista. Eu sei que pode parecer estranho, mas meu pai era técnico de segurança do trabalho e tinha um monte de revistas sobre doenças sexualmente transmissíveis, gravidez e contracepção, escritas em forma de quadrinhos. Aos seis anos, eu lia tudo o que via e essas revistas não eram exceção. Isso não me tornou nem um pouco mais interessado em sexo, mas eu sabia como fazer, por que fazer, quais as consequências e como evitar tais consequências. Aprender sobre sexo não necessariamente torna o menor inclinado a praticá-lo.

  19. Um adulto pode ouvir de um menor “posso ver embaixo da sua calça?”, negá-lo e então dizer aos amigos “crianças não estão interessadas na nudez adulta.” Aprender que crianças são inocentes leva o adulto a não acreditar em seus ouvidos quando uma criança faz um pedido decididamente sexual, mesmo que a criança não saiba que é sexual.

  20. Anti-contatos deviam ler isso, parece que o primeiro capítulo é pra eles. Há crianças que querem e que não se sentiriam ofendidas ao serem expostas à sexualidade adulta.

  21. É a crença de que crianças são inocentes que torna a atração por menores inaceitável. Se ficasse claro que há crianças que desejam contato íntimo com adultos fora da família e que tais crianças se beneficiariam desse contato, não haveria razões pra leis de idade de consentimento.

  22. Tal como homssexuais recusaram tratamento mesmo quando postos na cadeia, adultos atraídos por menores recusam tratamento mesmo quando são encontrados. Isso não quer dizer que homossexuais são ruins, mas que adultos atraídos por menores raramente o são.

  23. Uma criança numa relação positiva com um adulto, quando aprende que essa relação deveria ser negativa, fica confusa. Esse preconceito é frequentemente associado também à homofobia.

  24. Depois que o adulto atraído por menores é excluído da sociedade, o que ele tem a perder? Então, ter um trabalho estável e um papel desejável na sociedade mantém adultos atraídos por menores “na linha”, por assim dizer. Infelizmente, isso mantém as bocas de pesquisadores fundados pelo estado bem fechadas.

  25. Numa situação como a do autor, não é difícil imaginar que alguns adultos atraídos por menores odeiem crianças e não queiram ficar perto delas. Me pergunto quantos desses adultos que dizem “odeio crianças” não as amaram um dia.

  26. Se relacionar com uma criança é mais responsabilidade do que com um adulto. Se você fosse um adulto normal, não escolheria isso. atração por menores não é escolha.

  27. Será que a sociedade funcionaria de forma pior sem idade de consentimento? Se não, por que idade de consentimento existe? Se há envolvimentos positivos, por que são todos proibidos, em vez de apenas os envolvimentos negativos? Pra quê desperdiçar dinheiro público punindo quem não fez mal, em vez de nos limitarmos a punir somente os que fazem mal?

  28. Na época de Freud, a sexualidade infantil era vista como um problema a ser eliminado. Hoje, um número de especialistas reflete essa opinião antiquada.

  29. Evidência científica (e também suas memórias, seu safado) mostra que crianças e bebês têm orgasmos. Eu, na minha infância, não os tive porque eu tinha aprendido que era preciso pensar em sexo pra ter um orgasmo e sexo nunca me interessou. Se eu soubesse que podia pensar em outras coisas, talvez eu tivesse experimentado isso.

  30. Qualquer um pode ter orgasmos logo após nascer. Na verdade, tem um artigo chamado Ultrasonographic Observation Of A Female Fetus’ Sexual Behavior In Utero que mostra que há quem se masturbe até antes de nascer, ainda no útero materno… Se você é mãe, talvez tenha bisbilhotado seu feto num momento desses, através do ultrassom.

  31. É, portanto, ridículo impedir menores de expressar sexualidade antes da adolescência, tanto que menores são os maiores violadores de leis de idade de consentimento.

  32. Quando a menina se aproxima da adolescência, os pais podem querer impedi-la de se aproximar do sexo oposto. Assim, uma menina tem menos experiências sexuais na adolescência do que o menino.

  33. Culturalmente, no século passado, meninas eram superprotegidas em comparação com meninos. Você via muitos meninos na rua jogando bola, mas onde estavam as meninas? Em casa.

  34. O estado de latência, diz Kinsey, é cultural. Os pais ficam mais preocupados em coibir a curiosidade sexual infantil quando os pequenos se aproximam da puberdade. Rousseau inclusive advoga atrasar a puberdade, se possível. Baita hipócrita. Não é natural, mas uma exigência social que a criança fique “latente” naquele período.

  35. Tinham que fazer esses estudos no Brasil; um número de amostras não-clínicas estão frescas e maduras pra um Bruce Rind analisar. Aliás, já fizeram. Enquanto que o Relatório Rind mostrou que 37% dos meninos e 11% das meninas concordam que as experiências sexuais que tiveram na infância ou adolescência foram “positivas”, o estudo conduzido em Campinas revelou que esse número em Campinas, Brasil, é de 57%. Importante lembrar que a demográfica do Relatório Rind é ampla (meninos e meninas que tiveram envolvimento sexual com menores ou adultos), enquanto que a demográfica do estudo de Campinas é restrita (somente meninos, considerando apenas relações com adultos).

  36. Por que americanos acham que todas as relações com menores são crueis e forçadas? Porque não conhecem, nem são são estimulados a conhecer, o comportamento sexual de outras culturas. Isso também os leva a impor seus valores sexuais à nações mais fracas.

  37. Em comunidades indígenas isoladas, adultos masturbam bebês e crianças, a fim de lhes dar um sono mais gratificante. Por ventura essas crianças sofrem?

  38. Nessas sociedades, a sexualidade infantil pré-púbere é algo sem valor negativo, se bem que também não é gloficada. É tão banal uma criança se masturbar quanto se coçar.

  39. É, crianças, em sociedades como essas, fazem sexo. Se crianças, ao menos nessas sociedades, têm sexo uma com a outra, por sua própria conta, se deixadas sem supervisão de um adulto, então sexo não é inerentemente danoso a crianças, diz o autor. Ora, algo assim funcionaria na nossa sociedade? Bom, se o problema é gravidez, tem pílula pra isso.

  40. Em algumas sociedades, o único tabu quando se fala de sexualidade infantil é o incesto. Aliás, sabia que incesto não é crime no Brasil (embora o casamento entre consanguíneos seja)?

  41. Há registos de sociedades que praticam sexo anal pra fortalecer o passivo. Bom, dizem que tem que ser macho pra fazer isso; eles aguentam rindo o que eu não aguentaria chorando…

  42. Diante disso, um ocidental cristão capitalista poderia pensar “claro que essas crianças estão sendo prejudicadas, já que índios são retrógrados e não sabem o que fazem.” É etnocentrismo de pico. Você não pode assumir que estão errados só porque são indígenas, você tem que estudá-los pra ver se eles não estão certos.

  43. Há comportamentos em outras culturas que valem a pena imitar, mas também comportamentos que não valem a pena. Como o assunto do livro é atração por menores, o que importa agora é, obviamente, saber se o fato de relações entre adultos e menores funcionarem em outras culturas é o bastante para que culturas ocidentais assumam esse costume, isto é, acabem com a idade de consentimento. Me pergunto quantos anti-contatos leram este livro.

  44. Aprendizado, em humanos, sobrepuja o instinto. Uma criança que não tem qualquer educação sexual, mas tem sua sexualidade coibida em vez disso, será um adulto sexualmente incompetente. Sexo não “virá naturalmente” quando ela se casar. Claro, isso não significa que crianças devem ser forçadas a ter sexo, mas que elas devem ter espaço o bastante para exercitar o que “vem naturalmente” na infância, sob supervisão dum adulto. Do contrário, o que costumava “vir naturalmente” terá que ser reaprendido.

  45. Ser sexualmente educado por alguém mais velho melhora a competência sexual do menor. Observe como gravidez adolescente ocorre mais entre casais de adolescentes, no qual a idade é próxima entre os dois. Já no Japão, onde a idade de consentimento é treze, uma menina que está passando pela puberdade pode aprender responsabilidade com um parceiro mais velho. Isso reflete em suas taxas de gravidez adolescente: apenas quatro em cada mil mães têm o primeiro filho antes dos dezenove anos. Donde decorre que gravidez adolescente não é um problema resolvível pela proibição do contato entre gerações, mas sim pela educação, que pode ocorrer ao aproximar a geração mais experiente da geração mais excitável. Do contrário, jovens terão filhos entre si.

  46. Atividades sexuais são como quaisquer outros jogos pra crianças. Experimentá-las não necessariamente as irá viciar. Tem outras coisas interessantes no mundo.

  47. Se a pessoa entrar na idade adulta já com experiência sexual, terá mais chances de satisfação sexual, aumentando suas chances de se considerar “feliz”.

  48. Em uma sociedade mais permissiva, a criança amadurece mais rápido. Se você a superprotege, a impede de ter várias experiências que poderiam ser úteis mais tarde.

  49. A sexualidade não começa na puberdade. Todos têm sexualidade. O desejo não começa na puberdade também: pode começar antes ou depois. Eu sinto desejo sexual desde os cinco anos. Assim, se alguém argumenta que atração por menores é doença e hebefilia não é doença porque a sexualidade começa na puberdade, essa pessoa está redondamente enganada.

  50. Sexualidade não é como altura ou peso, não dá pra fazer uma “média do desejo”. É diferente em cada um, tanto em natureza, como intensidade. E pessoas com sexualidades distintas podem agir iguazinhas na vida pública.

  51. O que os pais fazem com a criança precoce? Em países mais “desenvolvidos”, a ensinam a ter vergonha de si mesma. Que bom que nasci no Brasil.

  52. Sexualidade infantil pode ser considerada doença por algumas pessoas, pela mesma razão que atração por menores é considerada doença ainda hoje: crianças são “inocentes” e devem permanecer assim.

  53. Se um pai não sabe lidar com a sexualidade infantil de forma construtiva, será que ele capaz de lidar com outros aspectos do desenvolvimento infantil de forma construtiva? Se ele acaba tornando a criança infeliz por sua sexualidade, ele é um mau pai.

  54. Se a criança tivesse que aprender sua sexualidade, não dá pra explicar crianças que desenvolvem intesse homossexual sem nunca aprender sobre homossexualidade.

  55. Não é uma questão de obter licença pra estuprar, mas uma questão de permitir que crianças que querem encontrem adultos responsáveis que também queiram. Contatos danosos ou forçados devem permanecer criminosos.

  56. Embora a criança procure prazer sexual, ela muitas vezes não vê esse prazer como algo diferente (exceto em intensidade) do prazer de jogar bola. Então, mesmo que o objetivo do ato seja prazer, ela não vê as coisas que ela faz como “sexuais”. Então, pra muitas crianças, o significado do ato é diferente daquele atribuído por um adulto. Mas isso é realmente um problema?

  57. No seu blog, o autor disse que o capítulo três foi escrito de maneira deliberadamente provocante, isto é, desconfortável. Difícil pensar em algo mais desconfortável do que o capítulo anterior…

  58. Relações entre adultos e menores passam por estágios. Em geral, adultos atraídos por menores não vão “direto ao ponto”, por assim dizer. Tal como relações entre adultos, elas são construídas devagar. Aí está uma boa diferença entre o que se apaixona e o estuprador: quando você se apaixona, você não faz e vai embora.

  59. A sociedade não faz distinção entre relações positivas e negativas envolvendo crianças. Veja como as notícias envolvendo estupro de vulnerável omitem a palavra da “vítima”. Ninguém está interessado no que o menor pensa, mesmo quando o menor não quer que o adulto seja punido.

  60. “Longe de serem maníacos sexuais sem limites, suas abordagens a crianças são quase sempre afáveis e gentis, e os atos sexuais que ocorrem, normalmente exibição mútua e carícias, lembram o comportamento sexual que ocorre entre crianças.” – D. J. West, Homosexuality Re-Examined.

  61. Sexo forçado com crianças é infrequente, comparado a relações voluntárias. Será que é por isso que três quartos das relações envolvendo menores nunca são descobertas?

  62. Vá pro presídio mais próximo e fale com pessoas com diagnóstico de atração por menores e que foram presas. Daí, vá atrás das vítimas e pergunte a elas como foi. Você pode arrumar dez vítimas e nenhuma delas dirá “ele me forçou”. adultos atraídos por menores que chegam a ter relações com menores raramente forçam o menor a isso. Se forçou, é improvável que seja um adulto atraído por menores, mas sim um estuprador normal.

  63. O pânico moral causa mais dano à crianças do que a própria atração por menores. Tem um artigo lá no Ipce (só não sei aonde) sobre como as crianças do Reino Unido estão nutrindo desconfiança de todo o mundo. Elas estão crescendo sem confiar em ninguém, já que qualquer adulto bem intencionado que se aproxime da criança é automaticamente suspeito. Teve um caso aí em algum lugar em que um homem viu uma criança se afogando num rio e deixou ela morrer, porque tinha medo de que alguém visse ele segurá-la e pensasse que ele fosse um abusador de menores. Isso pra não falar de pais que são presos no Brasil por beijarem os filhos.

  64. É difícil um adulto atraído por menores se aproximar de uma criança pra fazer algo sexual com ela se ele for estranho à criança. Normalmente o homem atraído por menores a conhece antes desse evento. Por isso dizem que esse tipo de contato é mais comum com parentes próximos.

  65. A verdade é que estupro seguido de morte é raro. Não é uma coisa que acontece com tanta frequência quanto as pessoas pensam. Por exemplo, de acordo com o Relatório Rind, eventos sexuais traumáticos envolvendo menores abaixo da idade de consentimento nos Estados Unidos são minoria estatística, com uma estatística grande de envolvimentos considerados “positivos”. Há um estudo similar que aconteceu no Brasil. Mas o que você vê na TV? Só os traumáticos. Você não vê notícias do tipo “menino de oito anos toma banho com o pai e sai ileso” ou “garoto de dez anos está feliz com seu namoro com uma menina de dezesseis”. Isso dá a impressão de que envolvimentos traumáticos são maioria.

  66. O que o homem atraído por menores faz com a criança então? Normalmente lhe acaricia. Um estudo feito por Paul Gebhard com pessoas presas por contato sexual com menores de doze anos revela que 94% dos que se relacionam com meninas e 97% dos que se relacionam com meninos não praticaram penetração vaginal ou anal. Maior parte dos processos envolveu estímulo manual, que pode inclusive não ser mútuo, isto é, somente a criança recebe a ação. Não há necessidade de o adulto ser tocado. Importante: nem todos os adultos atraídos por menores acariciam crianças, com uma boa quantidade deles preferindo permanecer sob a lei por razões óbvias.

  67. o homem atraído por menores espera a criança demonstrar interesse. Se a criança estiver desinteressada, ele não fará nada sexual com ela. Lembrando: o livro é sobre atração por menores e não estupro.

  68. Pessoas que estupram menores (estupro de verdade, isto é, atividade sexual forçada) podem muito bem ser pessoas que preferem adultos, mas, num momento de porre, se aproveitam de uma criança por falta de um parceiro adulto. Se você prefere adultos, não preenche diagnóstico de atração por menores.

  69. Mas relações positivas envolvendo menores não são mérito unicamente de adultos atraídos por menores. Há relações positivas entre adultos e menores nas quais o adulto não tem preferência por menores.

  70. O autor admite, porém, que existem adultos atraídos por menores que também são estupradores, tal como nem todo homem heterossexual é automaticamente cordial com mulheres.

  71. Atração sexual normalmente é acompanhada por sentimentos de romance. Então, se um adulto se sente sexualmente atraído por uma criança, pode também se apaixonar por ela. Quando você ama, não quer machucar.

  72. Para alguns psiquiatras, atração por menores é uma desordem mental na qual o sujeito precisa da cooperação de um menor pra obter orgasmo. Se você força, não há cooperação, uma vez que cooperar é operar junto, ativamente. O menor precisa gostar, senão não tem graça pro adulto atraído por menores. Portanto, o homem atraído por menores não pode intimidar a criança.

  73. Se essas relações forem mesmo inofensivas, por que são proibidas? É que o ocidente tem medo de manifestações não-normativas de sexualidade. Olha quanto tempo a homossexualidade foi tabu. E só agora começamos a falar de identidade de gênero.

  74. Muitas pessoas têm medo da atração por menores porque têm medo da homossexualidade. “Isso não vai fazer meu filho virar gay?” No entanto, quando ainda muito pequeno, o menino se sente atraído por prazer, não por determinado gênero. Não há nexo causal entre relações na infância e desenvolvimento de sexualidade não-normativa. Se o menino já se decidiu, o adulto atraído por menores, se realmente se importa com crianças, terá que se conformar.

  75. Para transformar uma experiência positiva em negativa, comece dizendo que a pessoa foi vitimada. Tratar uma pessoa como vítima a fará se sentir como uma vítima.

  76. Se o menor está curtindo, não é uma “vítima voluntária”, diz o autor, mas só voluntária. Não é vítima do ato (mas pode muito bem ser vítima de outras pessoas).

  77. O uso do termo “vítima voluntária” pode ser uma tentativa do pesquisador de evitar que pensem que ele apoia essas relações. O Relatório Rind é contra esse tipo de terminologia.

  78. Essas relações, se não forem forçadas e se o menor for uma “vítima voluntária”, isto é, se ele quiser essas relações, não posam problema à vida adulta.

  79. Se a criança quase nunca sofre com esses contatos, mas começa a vê-los como ruins depois que cresce, então esse fenômeno é devido à interpretação, não ao ato, que varia conforme o contexto social. Por exemplo, a idade de consentimento mais baixa no México é doze anos. Será que todos os adolescentes que se relacionaram aos doze anos crescem e pensam “poxa, aquele cara abusou de mim”? Donde decorre que vitimização secundária é culpa da forma como a sociedade encara o ato. Maldito o que disse à pessoa que ela era uma vítima e conseguiu convencê-la.

  80. Se uma criança foi estuprada, ela recebe apoio da família e dos amigos. Se a criança teve relações não forçadas e que foram positivas, a família e os amigos tentam lhe fazer sentir vergonha do que aconteceu.

  81. Se os pais forem frios e rígidos e a criança acha alento na companhia de um outro adulto, como você acha que esses pais reagirão se descobrirem? Tratarão a criança de forma ainda pior do que tratavam antes.

  82. Quando uma pessoa é “estuprada”, ela é submetida a exame de corpo e delito. Pegam nos seus genitais e talvez enfiem algo no seu reto. Talvez mais de uma vez. Pra não falar do interrogatório e da reação inflamada dos pais. Será que vale a pena fazer a criança passar por isso se ela não sofreu por causa do ato? Talvez o adulto tenha só lhe acariciado. Aí vem o médico forense e enfia o dedo no moleque. O que é pior?

  83. A reação social pode vitimizar gravemente o menor. Não vale a pena “proteger” o menor de contatos sexuais antes de determinada idade na medida em que o menor não se sente mal por causa deles e não é forçado a esses contatos.

  84. Os adultos podem ordenar que o menor produza evidência falsa. Quer arruinar uma pessoa? Faça seu filho menor de catorze anos dizer que foi molestado por essa pessoa.

  85. Se o menor diz que está se relacionando com um adulto e que está gostando disso, os pais podem fazer levar o caso ao tribunal. Se os pais ganham, manda-se o adulto pra cadeia e a relacionamento acaba. Se os pais perdem, o filho ganha fama de mentiroso, porque isso passa a impressão de que o relacionamento não aconteceu de verdade.

  86. Há médicos forenses que se recusam a fazer exames invasivos de corpo e delito em crianças que não sofreram com a relação. Elas já sofreram o bastante com a reação dos pais, com a perda do amigo adulto e com o interrogatório.

  87. Tem gente, ainda hoje, que diz que é melhor morrer do que viver com sequelas de relações mantidas na infância. Essas pessoas, efetivamente, estão dizendo que qualquer um que se relacionou na infância, quer tenha sido uma relação positiva ou não, deve cometer suicídio.

  88. Nem juízes, nem polícia, nem médicos e nem pais querem saber o que a criança pensa sobre esses contatos. Tome por exemplo a psicóloga que matou seu paciente.

  89. Todos os problemas expostos no capítulo três seriam evitados se não se presumisse que o adulto atraído por menores é alguém que necessariamente fará mal ao menor ou não se presumisse que o menor em relação com um adulto é necessariamente uma vítima.

  90. O autor diz que não há termo médico para designar uma criança que se sente sexualmente atraída por adultos. Ele escreveu o seu livro nos anos oitenta. Hoje há: “teleiófila”. Se bem que teleiófilo também se aplica a adultos atraídos por adultos.

  91. Levando em consideração que uma criança é capaz de manifestar sua sexualidade de formas imprevisíveis, talvez rotular sua sexualidade seja um esforço fútil.

  92. Será que vale a pena separar pessoas atraídas por menores em categorias como: menor, adulto, nepiófilo, pedófilo, hebéfilo, efebófilo, teleiófilo, pró-contato, anti-contato, exclusivo, inclusivo? A pergunta é: será que suas semelhanças não sobrepujam suas diferenças, a ponto de tornar conveniente um termo que enquadre todos (embora com algumas ressalvas)?

  93. De todos adultos atraídos por menores, isto é, que se apaixonam pelo menor, somente um por cento é preso, segundo o livro. Isso é graças ao fato de que você não machuca quando ama de verdade. Então, um monte de adultos atraídos por menores prefere se abster do que correr o risco de ruptura violenta pela polícia, que poderia prejudicar o menor ou estigmatizá-lo. Para o trio RBT, esse número é cerca de um quarto.

  94. Isso mostra que as leis de idade de consentimento não apenas prejudicam o menor como não servem pra impedir relações abaixo de certa idade. Se o menor gostar, ele se comportará normalmente e os pais nem perceberão. Como denunciar uma coisa que não se detecta? Fora que, se a criança estiver realmente sendo abusada, seu comportamento mudará de forma evidente, os pais saberão e irão atrás. Não faz sentido punir só as relações negativas?

  95. Mas espera: se um monte de adultos atraídos por menores nunca é punido e maior parte dos abusadores presos não é atraída por menores, quem é que a lei está punindo? Pais, talvez?

  96. A mídia tem seu papel em censurar esses relatos, por meio de informação seletiva. Eu chamo isso de “censura passiva”. Você não impede as pessoas de encontrá-las, mas nunca fala sobre sua existência, então ninguém procura por elas.

  97. Algumas formas de censura são feitas sob o disfarce de proteger a população contra “conteúdo perturbador”. Tem que ser forte, né? Por isso que não se fazem documentários sobre abatedouros (de onde você obtém seu frango), a menos que seja por uma equipe independente.

  98. Projetos sobre experiências sexuais positivas entre adultos e menores ainda acontecem. O próprio Positive Memories do Titus Rivas recebe experiências novas, que podem ou não aparecer na próxima edição do livro (a última é de 2016). Tem também isto, mas este aqui acabou.

  99. um adulto atraído por menores que se relaciona com uma criança e toma todo o cuidado pra que a criança goste, se sinta bem e não sofra prejuízo pode ainda pensar: “outros adultos atraídos por menores provavelmente não agiriam como eu, minha relação é excepcional, então não se deve permitir todas essas relações, elas devem permanecer ilegais.” Então, ele aprova a própria relação e condena as dos outros, as quais ele não conhece. É um clássico caso de ter preconceito contra sua própria classe. Por que você não faz uma pesquisa?

  100. Uma pessoa que tem amizade com um adulto atraído por menores e sabe que ele não iria machucar crianças, mesmo se envolvendo com uma, pode ainda perguntar: “e os outros adultos atraídos por menores, seriam bonzinhos como você?” Mas o autor diz que você não pode falar do que não conhece. Se eu não sei como os outros agem, como vou presumir que eles agem mal?

  101. É verdade que existem menores que veem essas experiências como negativas quando crescem e também é verdade que existem menores que veem essas experiências como positivas depois que crescem. Mas um tópico que pouco se explora é como os menores veem a punição que o adulto sofre. Há menores que não acham justa a prisão do adulto, tipo aquele menino de nome estranho. Com efeito, alguns deles crescem e pedem suavização da pena ao juiz.

  102. Uma opinião entre menores que tiveram relações positivas: o adulto precisar respeitar os limites impostos pelo menor. Isso reflete na moral do amor responsável e nos critérios éticos do Rivas.

  103. “Mas adultos atraídos por menores que foram presos admitem que as relações foram abusivas”, dizem os críticos. Ao que o autor responde: “meu filho, uma pessoa diz qualquer coisa pra reduzir uma pena de quinze anos.” Se uma confissão falsa pode tornar a vida mais fácil, qualquer um confessa qualquer coisa.

  104. Pode uma criança reciprocar amor, especialmente se erótico? A crença de que não, elas não podem, é o que faz com que um número de adultos atraídos por menores sinta que expressar amor erótico por uma criança “inocente” seja also sempre predatório. Essa sensação de desequilíbrio leva o homem atraído por menores a se negar.

  105. Numa relação entre adulto e menor, o menor (na medida em que não é forçado) acaba se sentindo no mesmo patamar que o adulto. A sensação de subversão do papel de autoridade do adulto acaba confundindo esse adulto. “Ou estou abusando da minha autoridade ou ele tem tanta autoridade como eu.” Parece errado dos dois jeitos: no primeiro caso há abuso de autoridade e no segundo caso há subversão da hierarquia entre adulto e menor.

  106. Uma crença machista é a de que mulheres não têm sexualidade própria, que sua sexualidade deve ser acordada por um homem. Esse mito é análogo à crença de que crianças não têm sexualidade e, se uma criança manifesta interesse, é porque foi corrompida por um adulto.

  107. Essa crença leva o desinformado a pensar que lésbicas não existem. Analogicamente, esse mesmo desinformado pode pensar que a sexualidade começa na puberdade, o que não é verdade.

  108. Porque mulheres são estimuladas a cuidar dos filhos e amá-los e a cuidar de sua intimidade, uma mulher atraída por menores pode pensar “eu não devo ser atraída por menores porque todas as mulheres fazem isso, elas devem ter as mesmas sensações, estou apenas sendo mãe.” Uma mulher sexualmente atraída por seus filhos passa praticamente despercebida, porque não há muita diferença entre o comportamento da mulher atraída por menores e o da normal.

  109. Um ato pode ser sexual, feito a uma criança e ainda sim lhe ser benéfico. Se uma mãe sente prazer sexual por cuidar do filho, seu cuidado é sexual. Mas será que a criança ficaria melhor sem esse cuidado? Se a mulher deixasse de trocar as fraldas do bebê ou de lhe dar banho porque sua nudez lhe seduz, isso faria bem ao menor?

  110. Isso porque o povo pensa que adultos atraídos por menores estupram. Então, uma mulher, sendo menos suspeita, não é acusada de atração por menores apesar de ter a condição e apesar de estar sexualmente envolvida com um menor. Contanto que não seja penetrativo, ela está “a salvo”. Duplamente se ela for amante de meninas. Mas ei, não vá quebrar as leis, isso ainda é ilegal!

  111. Uma pessoa pode ser homossexual e adotar um “estilo de vida heterossexual”. Nesse caso, ela age heterossexualmente por pressão social, não por inclinação natural.

  112. Se por um lado alguns estudiosos admitem que intimidade entre adulto e menor pode ser benéfica a ambos, por outro esses mesmos estudiosos ainda acham isso inadmissível, mesmo que haja benefício. A exemplo disso, ver What’s Wrong With Adult-Child Sex?, de David Finkelhor.

  113. Críticos do movimento dizem que adultos atraídos por menores que defendem essas relações olham pra criança como alguém que precisa somente de prazer, ignorando que elas também precisam de diversão, educação e formas não sexuais de intimidade. Mas o autor diz que essas coisas são complementares, não excludentes

  114. Adultos, por exemplo, têm uma vida sexual mais expressiva do que a criança e isso não impede os adultos de se educarem, se divertirem e nutrirem formas não sexuais de intimidade. Donde decorre que a sexualidade não atrapalha essas coisas.

  115. Existe evidência médica de que relacionamentos entre adultos e menores são mais prejudiciais às partes envolvidas se esses relacionamentos forem indolores, não coercitivos, desejados pelo menor e aprovados pelos pais, em comparação a relações entre adultos feitas sob as mesmas condições?

  116. Parece não haver mental ou física pra isso, apenas social. Mas se há benefício e todo o prejuízo vem da reação da sociedade, então a sociedade deve mudar, quando se fala de expressão sexual infantil.

  117. O autor diz que ele obteria a simpatia dos leitores que mais ferrenhamente se opõem à atração por menores se ele escreve mais sobre o amor. Ele devia ter feito isso; todo esse papo de sexo me faz querer vomitar. Será que ele tem um livro só sobre amor?

  118. A dicotomia entre amor e erotismo leva à problemas afetivos. Suponhamos que você ame “tanto aquela mulher que jamais teria relações com ela”. John Money argumenta que, fazendo isso, o homem procurará mulheres de “menor valor” com quem se satisfazer, a fim de manter uma relação casta com a mulher que ele ama. Faz sentido isso? É por isso que alguns homens vivem no cabaré; têm vergonha de ter relações com quem eles realmente gostam.

  119. A repressão sexual não termina na infância. Ela prossegue. Por isso a vida sexual de casais pode ser um desastre, quando uma das partes têm problemas morais ou não sabe o que fazer.

  120. Outro exemplo da associação entre sexo e culpa é o do homem que sente que precisa fazer um excelente trabalho. Fica então obcecado com o tamanho do seu pênis, quanto tempo consegue permanecer ereto e se pode ou não controlar a ejaculação. Sexo torna-se então uma razão de ansiedade, não de prazer.

  121. Assim, repressão sexual na infância pode causar até impotência na vida adulta. A pessoa não quis pegar gosto pelo sexo e então, na hora em que precisava gostar, não conseguiu.

  122. Repressão sexual infantil prejudica desempenho escolar. Se a criança tivesse liberdade para exprimir e explorar sua sexualidade, desde que sem ofender os limites legais, muitas crianças não precisariam de terapia. Lembre como repressão sexual prejudica adultos. Por que seria diferente com os pequenos?

  123. Terapia sexual consiste em introduzir o adulto às práticas sexuais que ele deveria ter tido na infância, não diferente de brincar de médico ou se acariciar.

  124. Se bem que fetiches podem também aparecer por exposição intensa a determinado objeto na infância, como o fetiche por fraldas ou o meu fetiche por omorashi.

  125. Há uma diferença entre comportamento sexual aberrante (não normativo, mas também não prejudicial às partes envolvidas, como a podolatria ou infantilismo parafílico) e o comportamento sexual perverso (não normativo e prejudicial às partes envolvidas, como o assassinato sexual e o estupro).

  126. o homem atraído por menores que escreveu este livro não diz que atração por menores é melhor que qualquer outro desvio sexual que não é motivado por desejo de ferir. Ele está fazendo o oposto do que os homossexuais fizeram com o adulto atraído por menores que se engajaram no movimento de liberação homossexual nos anos setenta e oitenta. Quando o congresso americano disse que relevaria as exigências dos homossexuais se eles cortassem conexões com organizações de defesa da atração por menores, os homossexuais prontamente o fizeram, tentando ganhar aprovação da população comprando seu discurso de que atração por menores é ruim. Os homossexuais mais jovens, que não conhecem bem a história do movimento LGBT desde seus primórdios, ignoram esse fato, mas houve um tempo em que o movimento atraído por menores e o movimento gay eram, sim, quase a mesma coisa. Os patriarcas da liberação homossexual não viam relações intergeracionais como moralmente erradas.

  127. “O trabalho de Prescott lança uma luz interessante sobre o preconceito comum de que sexo e violência sempre andam juntos, um ato duplo inseparável, como o Gordo e o Magro.” Essa é a metáfora mais inesperada pra essa discussão.

  128. A atitude sexual de uma pessoa depende de como ela é sexualmente educada na infância. Se a criança associa sexualidade com gentileza, calor e afeto, ela demonstrará sua sexualidade dessa forma. Se a criança associa sexualidade com culpa, se afastará da sexualidade. Se ela associar sexualidade com violência, ao passo que ela associa violência como demonstração de poder… Bom, você já entendeu.

  129. Se a solução para o comportamento violento fosse a repressão sexual, sociedades cristãs deveriam ter menos casos de estupro do que sociedades indígenas, once há menos repressão. Na verdade, muitas pessoas extremamente violentas são extremamente conservadoras sexualmente.

  130. Os quatro capítulos precedentes se referiam à sexualidade infantil, como as pensam que relações entre adultos e menores funcionam, como elas relamente funcionam e à necessidade que a criança tem de expressão sexual. Agora, como a lei deve lidar com essas coisas?

  131. A sociedade continua negando que crianças são seres sexuais. Meninos de sete anos vendo pornô? Não, isso é uma ocorrência isolada. Meninas de doze passando nudes? Ah, é um problema de educação… Alunos dando encima de professor? Intriga da oposição, meu caro! Se continuarmos ignorando a sexualidade infantil, as leis continuarão a se comportar erraticamente.

  132. Um número de pessoas, inclusive adultos atraídos por menores, são contra a legalização porque a veem como uma utopia. O autor pretende mostrar formas realistas de lidar tanto com relações intergeracionais como com a sexualidade infantil.

  133. Muitas leis feitas pra proteger as mulheres tinham como base a crença de que elas eram o sexo frágil. Consequentemente, essas leis, que impediam a mulher de trabalhar em certas áreas, acabavam por restringir seu acesso a trabalhos os quais elas eram capazes de exercer. Uma lei é injusta se baseada em preconceito.

  134. Em nome da “proteção”, a criança não é ouvida. Não importa se ela gosta do adulto ou se ela não se sente prejudicada; é errado e pronto. Esse também é o proceder de algumas organizações ativistas dos direitos das crianças. Tiram sua liberdade e a põem nas mãos das autoridades. Pode sair algo bom disso? Você colocaria sua liberdade na mão de uma autoridade? Isso é proteger?

  135. Se o serviço social não te convencer de que é necessário punir o adulto, azar o seu. Você pode até ser pai do menino, você tá errado se disser que o adulto em relação com seu filho, mesmo sendo de confiança, não deve ser punido. Você, pai, não sabe o que é melhor.

  136. “Se você não confessar que é culpado, continuaremos trazendo seu namoradinho aqui, pra outro exame de corpo e delito, pra outro interrogatório, ele vai perder outro dia de aula, os amigos dele o tratarão diferente, a relação dele com seus pais continuará deteriorando, e, no final das contas, realmente é culpa sua, mesmo que o menino tenha desejado isso, mesmo que ele esteja feliz, pois na verdade nunca esteve tão triste, ele só não sabe que está triste ainda.”

  137. A proposta central do autor é a abolição da idade de consentimento. Normalmente, isso significa que menores estariam sob as mesmas proteções da lei normal de estupro (artigo 213 do Código Penal, por exemplo).

  138. À época da escrita do livro, a Holanda estava considerando abolição da idade de consentimento. Então, não, adultos atraídos por menores não são os únicos que defendem essa abordagem e não são os únicos que veem os problemas de proibir relacionamentos com base em idade.

  139. Os principais defensores dessa ideia eram do próprio poder judiciário. Eles diziam que há sexo (coito) e atividade sexual. As atividade sexuais não deveriam ser banidas com base em idade, mas sexo penetrativo deveria permanecer proibido, se a parte penetrada tivesse menos de doze anos.

  140. Associações protestantes também queriam o fim da idade de consentimento, mas com a ressalva de que uma parte não podia seduzir a outra; o desejo tinha que ser espontâneo em ambos. Associações católicas dizem que um adolescente de doze anos já pode dar a palavra final sobre as relações em que se envolve.

  141. Uma crítica comum: o consentimento da criança é inválido porque ela não pode dizer “não” a um adulto maior e mais forte. Para uma resposta, ver Positive Memories.

  142. A lei deve se preocupar com o dano e com a validade do consentimento, não com a idade dos participantes. O fato de alguém ter menos de catorze anos não implica que ele está sempre sendo estuprado quando entra em atividade sexual com alguém.

  143. Em certos lugares, a maioridade penal é doze ou até dez (no Brasil, é dezesseis ou dezoito, não lembro). Então, se uma pessoa pode responder criminalmente por seus atos aos doze anos, isso é porque ela tem maturidade de maquinar e agir segundo uma intenção ruim. Logo, não faz sentido que uma pessoa madura o bastante pra pagar por um roubo ou assassinato não seja madura o bastante pra atividade sexual.

  144. Com algumas modificações, essas leis propostas podem se aplicar também a pessoas que têm problemas mentais e, portanto, estão sob cuidados de outros.

  145. Dano ou ameaça de dano ainda deve ser crime. Por exemplo: penetrar uma menina que é simplesmente muito pequena é arriscado demais pra ser permitido, mas não a carícia íntima. Então, dependendo do ato e da constituição física do menor, o juiz deve verificar se o ato foi arriscado ou não e punir atos arriscados, mesmo que a criança tenha dito “sim” a eles. Para uma conclusão similar, ver meu texto Estupro de Vulnerável, na seção “É Possível Consentir Com Prejuízo?”.

  146. Se a relação for casta, não há necessidade de punir por estupro, óbvio. Se bem que tem muita mulher por aí que inventa que foi estuprada e tem gente que compra isso.

  147. Relações nepiófilas (com bebês) ainda seriam proibidas, mesmo que não penetrativas e só superficiais, não porque supõe-se que o bebê não gosta disso, mas porque não é possível provar que ele gostou.

  148. Mas como podemos implementar isso, se crianças não sabem o que fazem? Bom, o livro foi escrito na década de oitenta e hoje temos aula de educação sexual. Esta geração é mais sexualmente informada do que a geração anterior.

  149. O problema é que dizer que a criança não sabe o que faz supõe que todos os atos sexuais são iguais. Se a criança está bem informada pra um abraço ou aperto de mão, isso não implica que ela está informada pra qualquer coisa penetrativa, mas por que não estaria suficientemente informada pra carícias, que são fricção entre duas peles, tal como o abraço e o aperto de mão?

  150. Mas, se noventa e cinco por cento dos adultos atraídos por menores não estão interessados em penetração, ao passo que penetração é um traço comum em relações negativas, não faria sentido uma idade de consentimento pelo menos pra conjução carnal? Bom, deve haver uma idade mínima por questões de segurança, diz o autor. E ele diz que essa idade é doze. Assim, se transferirmos as coisas pra leis brasileiras, tomando o 217-A como referência, a lei ficaria algo como “conjunção carnal com menor de doze anos, com ou sem seu consentimento, ou ato libidinoso não aprovado pelo menor ou pelos pais do menor” seria crime. Não haveria idade de consentimento pra atos libidinosos, mas somente pra conjunção carnal. Se pudéssemos flexibilizar a proposta do autor, uma idade de consentimento restrita somente à conjunção carnal poderia até ser maior que catorze, já que ela não incluiria carícias, beijos nem nada que não fosse penetrativo. Idealmente, eu acho que idade de consentimento pra penetração deveria ser debatido em termos municipais, em vez de termos uma só pra nação inteira.

  151. Tem um monte, um monte, de menores que não respeita leis de idade de consentimento. Nos Estados Unidos, um grande número de jovens perde a virgindade aos quinze anos, sendo que a idade de consentimento nos Estados Unidos é dezesseis, nos estados mais liberais. No documentário Age of Consent: Dream or Nightmare? (valeu, Hikari), uma das primeiras coisas que os entrevistados dizem é “no Brasil, adolescentes chegam aos catorze anos com uma vida sexual já completa.” Todos esses menores sofreram? Talvez eles sofressem mais se todas essas relações fossem descobertas e punidas pela justiça. O número de menores que viola leis de idade de consentimento gira em torno de um quinto de toda a população com menos de dezesseis.

  152. A educação sexual muitas vezes se resume à biologia: ensinam pra quê cada parte do seu corpinho serve. Mas, como eles pensam que manter o jovem desinformado sobre o ato em si o desencorajará a tentar, não são ensinados meios, por exemplo, de contracepção ou prevenção à doenças sexualmente transmissíveis, porque os mais conservadores pensam que isso equivale a estimulá-los a fazer sexo. Eu aprendi sobre essas coisas aos seis anos com meu pai e tive aula de educação sexual na terceira série, se não me engano, e sou virgem aos vinte e cinco. O estado precisa ser franco consigo mesmo: “se eles vão fazer de qualquer jeito, pelo menos façam sem se ferrar.” Talvez aprender que existe um risco fatual os desencoraje. Se não o fizer, pelo menos eles transarão com mais responsabilidade.

  153. Tentar suprimir a sexualidade infantil pra que a criança não se meta em problemas é como recomendar celibato a um adulto pra não pegar DST. É drástico, desnecessário e desconfortável.

  154. Se um jovem pegar uma DST, ele pode pensar: “isso prova que eu não sou mais virgem, posso me meter em problemas se eu falar disso pra alguém.” Ele então esconde o problema, até ser tarde demais.

  155. Isso poderia ser resolvido se a sexualidade infantil não fosse praticamente ilegal. Porque a maioria das manifestações de sexualidade abaixo dos catorze anos, como “atos libidinosos”, é proibida pela lei de estupro de vulnerável.

  156. Se o homem atraído por menores se sente atraído por menores antes da puberdade, ao passo que seu desejo muito raramente é penetrativo, então não são adultos que engravidam maior parte dos menores. Na verdade, gravidez adolescente parece ser uma ocorrência mais comum em casais de jovens, não em casais intergeracionais. O nome da atração por menores púberes é hebefilia.

  157. Aliás, como é que essa mulher não foi presa por estupro de vulnerável? Mulher pode, homem não pode? Falemos de isonomia. Claro que uma coisa dessas não ocorreria no Brasil, porque um moleque de doze anos não responde legalmente por seus atos. Mas uma coisa desses pode acontecer em lugares onde uma pessoa pode responder legalmente por seus atos antes de chegar à idade de consentimento.

  158. A declaração dos direitos da criança, da ONU, implica que o controle estatal e parental exercido sobre a criança é sempre feito pro seu próprio bem. O capítulo sete indaga até que ponto isso é verdade.

  159. Muitas vezes, a criança pode fazer uma boa decisão a despeito dos pais e do estado. Pode ser que uma escolha feita pelos pais ou pelo estado seja pior do que uma escolha que a criança poderia ter feito sozinha na mesma situação. Fora os casos em que pais e estado fazem mal a criança de propósito.

  160. Se a criança comete uma ofensa criminal, pode ser decorrente de um problema de desenvolvimento. Sendo assim, quem deveria lidar com isso são os pais, não a lei, a qual deveria ser último recurso.

  161. “Esse cara é doido; nunca uma criança sabe o que é melhor pra ela!” E nos casos em que a criança é forçada, legalmente, a ficar um pai disposto a bater nela até a morte, depois de um divórcio? A criança diz “não quero ficar com ele, porque me bate”, mas o estado diz “sua mãe e seu pai decidem isso por você, porque é direito deles e é meu dever garantir o direito de todos.” Todos menos o seu, guri.

  162. Por ventura o autor quer que crianças tenham tanto direito como adultos? Não, mas é preciso lhe dar alguns direitos-chave. Por exemplo, a criança deveria escolher com qual pai quer ficar em caso de divórcio, mas isso não quer dizer que ela deveria ter também o direito de votar, por exemplo.

  163. Infância é coisa de pouco tempo. Nem sempre esse conceito existiu. “Infância” só começa a existir a partir do século dezessete. Como eram as coisas antes disso?

  164. Antes do século dezessete, adultos tinham alguns jogos sexuais com crianças, tipo lhes pegar os genitais, não muito diferente de pais brasileiros antes de 2009.

  165. Se a criança é um ser assexual, qual é a necessidade de pais conservadores punirem a masturbação dos filhos? Se crianças são assexuais, por que se masturbam? Donce decorre que a “inocência”, isto é, a assexualidade infantil não é natural. Crianças têm sexualidade.

  166. Nós vemos a criança de forma diferente hoje, mas essa forma não é a correta. Estamos julgando as crianças pelo que achamos que elas deveriam ser, não pelo que elas são.

  167. Crianças indígenas amadurecem mais rapidamente em termos de responsabilidade e aptidão física. Por que não as nossas? Nossa sociedade não quer que a criança seja madura antes dos dezoito. Ela nega que crianças são feitas pra amadurecer em diferentes velocidades. “Você é jovem demais pra saber o que você quer.”

  168. Óbvio que isso tem raízes no sistema capitalista: a criança precisa estudar pra ter um bom emprego e, pra isso, precisa de proteção. Mas a sociedade, assumindo que criança nunca sabe de nada, a superprotege, o que efetivamente impede que ela saiba de alguma coisa adulta (supondo que não descubra sozinha). Esse excesso de proteção retarda seu desenvolvimento, o que se refletirá na vida adulta.

  169. Há três opções pra criança que cresce: negligenciar os estudos e trabalhar cedo, persistir nos estudos e trabalhar tarde, ou trabalhar e estudar ao mesmo tempo.

  170. A criança, diz o autor, deveria ter o direito de escolher seus pais. Na prática, isso poderia ocorrer pelo direito de fugir de casa e se colocar pra adoção.

  171. Se vivêssemos numa grande comunidade, como uma grande família (criação comunitária), em vez de em pequenas famílias, a criação seria mais leve para os pais biológicos e a criança poderia procurar um adulto que amasse mais, com o qual poderia desenvolver melhor suas potencialidades. Era assim na Idade Média, né?

  172. Comunidades hippies dos anos sessenta davam às crianças liberdade sexual total… mas também liberdade pra usar drogas, brincar com armas carregadas e não ir pra escola se não quisessem, o que as tornava analfabetas. Então, diz o autor, é preciso não confundir direitos da criança com licenciosidade infantil. Quais direitos conceder?

  173. Crianças que são dadas muita liberdade “se viram”. Talvez a incapacidade alguns adultos de se virarem sozinhos tenha raízes em superproteção na infância.

  174. Não saberemos quais direitos daremos a nossas crianças se não pensarmos em que tipo de adultos queremos que elas sejam, mesmo que elas venham a rejeitar nossa visão de adulto. A forma como criamos nossas crianças está as adoecendo. Repensar essa criação requer que repensemos o que esperamos dessas crianças.

  175. Embora os pais tenham privilégios sobre os filhos, os papeis podem se inverter em certas ocasiões se isso for necessário ao bem-estar dos membros da família.

  176. O direito do filho não deve interferir com o do pai. Um direito só deve ser concedido a um menor se ele não puder se arruinar por causa desse direito.

  177. Pais cometem erros, logo sua lei é falha. Então as ordens dos pais devem comportar um grau de flexibilidade, caso fique claro que elas não estão servindo.

  178. Se a criança pede algo que pode lhe fazer mal, mas não irá feri-la, adoecê-la ou matá-la, permita que ela tenha o que pede e sinta as consequências. Por exemplo: os pais dizem pro menino dormir cedo, mas ele quer ficar acordado até tarde. Deixe-o, mas ele deve acordar cedo pra ir pra escola. Ele sentirá sono no dia seguinte e verá que a ordem dos pais faz sentido. A sensação de que as ordens dos pais não são arbitrárias faz a criança confiar nos pais.

  179. Uma pessoa pode decidir sobre si mesma e sua conduta na medida em que não interfira com as decisões e a conduta dos outros. Acredito que o direito da criança é limitado pela responsabilidade paterna de zelar por ela.

  180. Todos devem ser igualmente livres (o que eu não posso fazer, você também não deveria), mas a vantagem de um deveria suprir a desvantagem de outro.

  181. Você só deve interferir com o comportamento da criança se ela der provas patentes de que precisa de intervenção pra não se ferrar. Um tipo de educação não intrusiva como essa já existe no Emílio, mas não dessa forma.

  182. Mas como é que essa discussão toda entra no terreno da sexualidade infantil? É que atos libidinosos, especialmente se não penetrativos, são geralmente inofensivos e nos preocupamos demais com eles. Há outras áreas mais importantes do comportamento infantil que não recebem a mesma atenção apesar de serem, por natureza, mais controversas.

  183. “Nosso forte tabu quanto a relações entre adultos e crianças levou à aplicação das penas mais severas até para os mais inocentes atos de afeição. A pena não é apropriada ao crime e provavelmente não cura nem impede. Nós podemos e devemos descriminalizar relações sexuais entre pessoas consentidas. Leis contra assédio e sequestro já estão nos manuais cobririam casos nos quais ocorre abuso, força ou abdução. Podemos lidar melhor com os casos restantes através de uma melhor educação sexual, atitudes sexuais mais esclarecidas, e respeito pelos direitos da criança.” Richard Farson.

  184. A criança deve ter direito de recusar essas relações. Mas, para isso, ela deve ser educada a dizer “não” quando não quer. Meu sobrinho é bastante respondão, acho que ele ia aprender rapidinho. Aliás, ele tem doze anos, 1,75m, 67kg e pratica boxe tailandês, enquanto eu tenho vinte e cinco anos, 1,72m, 58kg e pratiquei umas aulas de caratê na adolescência. Se ele, por qualquer razão, resolvesse me forçar, acho que eu é que não poderia dizer não pra esse tanque. Se ele me desse um murro, eu partiria ao meio.

  185. O que realmente impede o homem atraído por menores de agir segundo sua sexualidade não é a lei (que não o pega na maioria das vezes, conforme previamente exposto e atualmente confirmado por estudos como o Relatório Rind), e sim o medo de ser rejeitado pela criança. Se o homem atraído por menores realmente se apaixona pela criança, fazer alguma coisa que a perturbe o faria se sentir culpado, mesmo que nunca fosse preso.

  186. O corpo da criança pode, metafóricamente, dizer “não” também: você não faria nada penetrativo com uma menina de cinco anos, certo? Isso a traumatizaria.

  187. O medo que as pessoas sentem ao ouvir que dois homens ou duas mulheres estão cuidando de uma criança não é um medo de que os responsáveis sejam incapazes ou de que a criança crescerá infeliz, mas um medo de que a criança não entre no estereótipo esperado.

  188. A criança filha de pais solteiros pode receber preconceito. Quando o professor diz “desenhe sua família”, pode ser que ela desenhe um pai e uma mãe só porque é o que tá todo o mundo desenhando.

  189. A Paedophile Information Exchange protagonizou campanhas pela abolição da punição corporal nas escolas britânicas. Aposto que você não sabia disso.

  190. A Declaração dos Direitos da Criança não fala do direito do menor à expressão sexual. Então um pessoal dos Estados Unidos propos que a criança tivesse oito direitos relativos à sexualidade: proteção legal, controle sobre o próprio corpo, informação sexual, crescimento emocional, prazer sensual, aprendizado sobre o amor, escolha de parceiro, proteção contra supressão sexual.

  191. O capítulo oito é talvez o mais relevante hoje, pois trata de consentimento. Pra alguns estudiosos, o problema do consentimento é a única coisa que fundamenta o estado de ilegalidade de relações entre adulto e menor.

  192. Consentimento é válido se:

    1. o menor está ciente das consequências a longo e curto prazo;

    2. o menor sabe o que quer e de quem quer;

    3. o menor pode recusar se desejar.

  193. Há adultos em boa condição física e boa condição mental que não preenchem todos os requisitos. Então, subir com um terceiro critério prejudicaria a imparcialidade do debate ou colocaria em risco o consentimento informado entre adultos.

  194. Relações não penetrativas são inconsequentes: uma criança que está informada o bastante pra um abraço ou aperto de mão, está informada pra um beijo ou carícia, mesmo que íntima. No final das contas, são duas peles em contato, nada além disso. Cadê as consequências?

  195. Relações não-penetrativas, se feitas de mútuo acordo são menos perigosas do que andar numa rua movimentada ou sair de noite na cidade em que eu moro (a chance de você morrer é maior que a de ser assaltado aqui). E eu vejo crianças fazendo ambos o tempo todo. Lembra do menino que fez tratamento hormonal aos doze anos e parecer uma menina? Se arrependeu. E passou por cirurgia pra tirar os seios. Que bom que ele não chegou a remover o pênis, né? Então, ninguém reclama de crianças fazendo coisas muito mais perigosas do que serem íntimas de adultos dos quais gostam.

  196. O grande risco de relações consentidas é o estigma social. Se descobrirem, a criança pode ser traumatizada pela reação dos pais, das autoridades e do serviço social. Importante lembrar que estamos falando aqui de relacionamentos nos quais o menor deseja participar ou mesmo que foram iniciados pelo menor. O autor não está dizendo que estupro não faz mal.

  197. Mas se uma relação humana positiva merece proteção, não é a relação que está errada, mas a atitude social. Proibir essas relações é como dizer que homossexualidade deve ser reprimida “pelo bem do homossexual”, isto é, porque a sociedade é homofóbica. “Não queremos que o homossexual sofra, então vamos proibi-los de agirem segundo sua sexualidade porque, mesmo que não sofram por causa de suas relações, sofrerão por causa da homofobia.” Não soa absurdo?

  198. Não é interessante que a única matéria em que falamos de consentimento infantil é sexo, e só pra dizer que elas não podem nunca consentir? A criança pode dar consentimento informado em ter fé? E no entanto, religião lhe é forçada pelos pais.

  199. Uma criança indígena que é iniciada sexualmente pode ser vista como corrompida, mas uma criança que aprende a ser fanática por um time de futebol ou por uma doutrina religiosa não é vista como tal.

  200. Isso ocorre porque esse tipo de manipulação é vista como positiva. Dada a inocuidade da sexualidade saudável, porque a iniciação sexual não poderia ser?

  201. Relações entre adulto e menor não necessariamente incluem manipulação. Relações entre dois adultos não necessariamente estão livres de manipulação.

  202. Você pode falar de envolvimentos positivos pra uma pessoa e ela pode se apressar em dizer que é mentira, como se isso nunca acontecesse. É o caso dos psicólogos que reinterpretam a experiência do menor e lhe dão um significado negativo.

  203. É mais fácil sofrer dano permanente por causa de um pai que pune sua sexualidade do que por um adulto que te mostrou como se faz. Antes de prosseguir, tenho que lembrar que essas relações são ilegais e seria antiético praticá-las.

  204. Jogar uma criança na piscina pra que ela aprendesse a nadar poderia ser tão traumático quanto um estupro e, desde que a criança não se afogue, isso não é visto como ofensa criminal.

  205. Se você tem doze anos, já sabe quando uma pessoa quer fazer algo sexual com você. O entendimento do menor cresce com ele. Alguém de doze não é tão ingênuo quanto alguém de seis, se é que ainda existe criança ingênua.

  206. Suponhamos que não houvesse sedução, isto é, não houvesse o pedido, a atração deliberada, o “ei, eu tô aqui, existindo”, a cantada, como é que nossos relacionamentos começariam?

  207. Atração antre adultos e adolescentes (hebefilia ou efebofilia, quando é o adulto quem se sente atraído, ou teleiofilia, quando é o adolescente que se sente atraído pelo adulto) é mais comum e não é tido por anormal. Ainda assim, pode ser ilegal. No Brasil, onde a idade de consentimento é catorze, efebofilia não encontra barreiras legais, nem a hebefilia, na medida em que o púbere tem catorze.

  208. Um monte de adultos suborna, manipula e força crianças pra seu próprio bem, por exemplo, pra tomar uma injeção. O autor está implicando aqui que a reprovação de “manipulação” sexual só é possível se a pessoa ver sexo como negativo. Sexo precoce é negativo, logo a manipulação sexual é negativa. Se a sociedade tivesse menos pudor sexual, não seria dessa forma, pois a criança tem sua vontade dobrada o tempo todo mesmo. A diferença é que o homem atraído por menores não força o menor. Então, se o homem atraído por menores não conseguir obter o sim da criança, a menos que seja um estuprador, ele desiste. Falando aqui de relações positivas; manipulação por sexo apenas ainda é errado.

  209. Semanticamente, “consentimento” é aprovação a um ato que lhe envolve. Qualquer lei que limite a liberdade de alguém precisa ser justificada. Então, se a lei criminaliza um grande número de atividades consentidas, é a lei que precisa se justificar, pois está interferindo num grande número de contratos particulares feitos livremente. Nessas condições, a lei precisa ser reexaminada, diz livro.

  210. “Puberdade” não é “pubescência”. Puberdade é o momento na vida do adolescente em que ele se torna capaz de procriar. Pubescência é o desenvolvimento de características sexuais secundárias (pelos, crescimento dos seios, aumento de massa muscular, entre outros).

  211. As crises da adolescência são fruto também de desinformação sobre as mudanças que ocorrem no corpo e na mente durante esse período. O que fazem as crises adolescentes são um grande número de perguntas que não encontraram resposta ainda.

  212. Isso acontece também porque a sexualidade infantil não é reprimida. A criança é espontânea em suas expressões de sexualidade. Isso faz com que aprender sobre coisas sexuais seja fácil pra ela. Basta lembrar de como crianças são curiosas sobre seus próprios corpos e os dos outros. Se elas tivessem as respostas que procuram, seriam adolescentes mais equilibrados.

  213. Os críticos dizem que um relacionamento entre um adulto e um menor ainda é desigual, mesmo que consentimento fosse admitido. Quem leu Positive Memories sabe, contudo, que um adulto que ama o menor não usará sua força física pra submeter o menor, ao passo que o menor se beneficia da experiência e da sabedoria do adulto.

  214. É mais difícil um menor se ferrar num relacionamento com um adulto do que numa relação com outro menor. Falando de “relacionamento”, não de estupro.

  215. Relação paternal é desigual, mas muita coisa boa sai da relação casta entre pai e filho. Donde decorre que desigualdade de poder não justifica leis de idade de consentimento. O mesmo pode ser dito de relações educacionais (professor e aluno).

  216. O controle da mãe sobre o filho, mesmo depois da idade adulta, é um fenômeno cultural comum no ocidente. Ela nunca deixa de ver o filho como uma criança. Bom, isso depende; as mães do meu bairro não são exatamente assim, não…

  217. Normalmente, é a mãe quem impõe os tabus sexuais. Minha mãe se reservou disso e meu pai nunca teve problemas com minha sexualidade infantil, nem me impediu de ler, aos seis anos, alguns manuais de educação sexual que ele tinha por ali.

  218. Uma pessoa ganha muito mais numa relação desigual, mas positiva, porque a educação só se dá em relações desiguais. Um precisa saber mais para haver ensino. Em adição, a proteção é mais garantida quando é alguém mais forte a exercê-la.

  219. Não case por amor, porque amor passa e aí vem o divórcio, nos quais até seus bens podem estar em apuros. Aliás, Jesus também concorda que, se possível, é melhor não casar, mesmo que isso signifique passar a vida celibatário (Mateus 19:9-11). Então, mesmo que vocês se amem, pensem se casar vale mesmo a pena.

  220. Se uma criança toma o papel ativo numa relação sexual, o adulto pode dizer adeus à sua autoridade. A criança o verá como submisso, ao menos em algum sentido.

  221. O capítulo dez abre com a afirmativa de que pornô infantil traz mais nojo à pessoas normais do que relações reais, supondo que sejam não penetrativas e não forçadas. É, ele tem razão, eu tô considerando parar de ler.

  222. A razão disso é que pornografia infantil é um negócio. Como ela pode ser diferente de exploração sexual? Em última instância, ela difere de prostituição?

  223. O menor pode gravar pornografia de si mesmo, distribuí-la e achar isso o máximo. Bom, isso acontece, mas se ele vendesse essa pornografia, quero dizer, se ele tivesse uma fonte de renda sendo ainda tão novo, ele não iria querer largar os estudos? Pelo menos aqui, um monte de moleque só vai pra escola porque precisa de um diploma de ensino médio pra trabalhar em algo que dê grana.

  224. Prostituição infantil é um problema associado à pobreza. Crianças de melhores condições provavelmente não se venderiam. Muitos casos de prostituição infantil são um sintoma de má administração estatal.

  225. O autor diz que há outra causa pra prostituição infantil: restrição sexual. Na Era Vitoriana, o código de monogamia era muito estrito. Isso tornou a prostituição um negócio e tanto. Por que o tráfico de drogas é um negócio tão lucrativo? Porque drogas são proibidas. Enquanto houver quem compre, os traficantes poderão se beneficiar da falta de competição. No caso da prostituição, como desejo sexual é um negócio inato, cujos níveis não são escolhidos, sempre tem gente querendo pular a cerca. Então o prostíbulo pode ganhar muito aumentando os preços (baixa concorrência, trabalho perigoso, demanda persistente), o que tornam os cafetões gente rica. Se a sexualidade não fosse tabu, a prostituição deixaria de dar tanto lucro. Até que faz algum sentido.

  226. A campanha contra pornografia infantil começou por causa dos cristãos com influência midiática e muita informação dada pela mídia da época estava errada.

  227. O autor diz que já havia leis que protegiam crianças contra possíveis abusos relacionados à pornografia infantil, não havendo necessidade de um lei contra toda a pornografia infantil. Em adição, nunca houve qualquer evidência, na data em que a lei foi sugerida na Britânia, de que pornô infantil da pesada estava sendo produzido ou distribuído. A pornografia infantil disponível na época era “softcore”, não muito diferente de nudes que adolescentes mandam entre si (diga-se de passagem, sim, passar nudes nas quais a pessoa nua tem menos de dezoito anos é distribuição de pornografia infantil e, portanto, crime). Eu li em algum lugar que esse tipo de pornografia só foi banido no Japão em noventa e nove.

  228. À época em que o livro foi escrito, a maioria dos argumentos contra pornografia infantil lidavam com o efeito dessa pornografia no consumidor. Ele terá vontade de atacar uma criança se ficar viciado nessas imagens ou histórias? Hoje, não se faz mais isso, porque ficou patente que a presença de pornografia legal (como o Xtube) diminui as taxas de estupro. No caso de pornografia infantil, pelo menos até 2007, a simples posse dessa pornografia não é crime na República Tcheca porque permite que o homem atraído por menores se satisfaça sem tocar uma criança real. Então, o argumento de que “pornô é a teoria, abuso é a prática” não encontra base empírica. Lembrete: não consuma ainda assim, porque ainda é ilegal aqui.

  229. Pornografia que não causa prejuízo ao modelo pode ser usada terapeuticamente. “Ora, mas que pornô não faz mal ao menor?” As nudes que ele tira de si próprio por conta própria, bem como pornografia de ficção (shotacon, por exemplo).

  230. Existe pornografia infantil que machuca o menor. Ouvi dizer que existe, em algum lugar obscuro da Internet, vídeos de crianças morrendo pra propósito de excitação sexual de alguém. No entanto, diz o autor, parece ser uma ocorrência raríssima. Isso porque os maiores consumidores de pornografia infantil (excluindo os menores de idade) são os adultos atraídos por menores e eles, se devemos crédito aos capítulos anteriores, não querem fazer mal aos menores de que gostam. Então, uma pornografia que causa dano físico ou mental ao modelo não faria sucesso com eles e, provavelmente, movimentaria pouco dinheiro.

  231. Feministas não gostam de pornografia porque, segundo elas, o pornô reforça a submissão e objetificação da mulher. Mas nem todas as feministas pensam assim.

  232. Se você for ao Xtube, você verá um monte de mulher que faz pornô de graça, porque isso a faz se sentir bem sobre seu próprio corpo, aumenta sua autoestima. Então, se a mulher faz pornô porque gosta, não é uma vítima de sexismo. Ninguém pediu pra ela fazer o que faz.

  233. Aposto que o autor extenderá esse raciocínio à crianças. Se ele fizesse o mesmo argumento hoje, quando criança até de cinco anos anda tirando nudes, ele teria elevado grau de aceitabilidade.

  234. Para o autor, o desgosto das feministas radicais em relação à pornografia vem de um viés anti-heterossexual, segundo o qual uma mulher “de verdade” jamais sentiria prazer em ser passiva.

  235. O argumento de que homens que consomem pornô o fazem por um desejo de ver mulheres sendo usadas, abusadas, quebradas e descartadas é preconceito. O homem que vê pornô raramente procura uma mulher que se humilhe em vídeo. Nem o homem vê a mulher como sendo humilhada e nem a mulher que faz isso se sente humilhada.

  236. Um número de críticas contra pornografia infantil vem de pessoas que nunca falaram com um adulto atraído por menores de verdade pra saber o que ele deseja ver. Como eles vão saber se a pornografia desejada pelo adulto atraído por menores é aquela que é efetivamente proibida ou se a pornografia desejada por ele precisa ser proibida?

  237. À época da escrita do livro, um especialista havia sugerido que existisse pornografia para crianças e que tal pornografia poderia ter aspecto pedagógico, não muito diferente dos manuais de educação sexual já existentes. É a primeira vez que vejo isso na vida.

  238. Manuais de educação sexual são presa fácil pro lobby antissexo. Há uma pressão para manter a criança desinformada sobre assuntos pelos quais se interessam.

  239. A crença de que pornografia infantil é errada, diz o autor, começa nos dois pressupostos de que crianças não são seres sexuais e de que sexualidade é algo que não se mostra.

  240. O autor diz que, antes da pornografia infantil ser proibida em seu território, as crianças aprovavam o material para o qual modelavam. Frequentemente, quem fazia eram os pais, que depois vendiam o material para distribuidores. Ao menos o dinheiro ficava com a família…

  241. Mas há também crianças que detestam ser gravadas ou fotografadas. Há relatos de crianças que foram forçadas. Mas o advento do celular com câmera, que permitiu que crianças de até cinco anos pudessem gravar a si mesmas sem intervenção de um adulto, sugere que há criança que gosta de se expor.

  242. O autor diz que a indústria do pornô infantil, antes de se tornar ilegal, dava parte do dinheiro ao menor. Eu fico muito preocupado com isso… Como garantir que essa quantidade é justa? E se for, como ficam os estudos?

  243. No final das contas, a pornografia infantil foi completamente banida porque não havia outra maneira de combater o material no qual a criança é de fato explorada. Banir o material benigno foi um preço a ser pago.

  244. O mesmo estudioso que falou de pornô pra menores sugere que o aparato legal que já existe pra proteger atores menores de idade deveria ser usado na indústria da pornografia infantil. É difícil, cara, ler este livro enquanto você almoça. Embora eu admita que o argumento é válido, eu tenho a sensação de que algo está errado.

  245. Para Constantine, o sequestro e a exploração de menores para propósitos de produção de pornô é um produto natural do estado de ilegalidade dessa pornografia. Se ela fosse legal, não haveria necessidade de recorrer a meios extremos para obter modelos, diz Constantine. Pessoal, não podíamos só desenhar?

  246. Seria melhor se essa pornografia fosse gratuita e regulada pelo estado, pra diminuir as chances de exploração. Em adição, a arrecadação de dinheiro encima do modelo poderia constituir trabalho infantil.

  247. Mas essa pornografia não poderia ser usada como meio de fazer chantagem? Esse é um dos principais argumentos contra nudes partilhadas entre menores de idade: a possibilidade de vazamento ou de implosão da imagem do modelo.

  248. O autor argumenta que nudes não poderiam ser usadas pra chantagem se o mundo tivesse menos vergonha do sexo. Claro que ele não fala especificamente de nudes, mas de qualquer material pornográfico, até porque não existia celular na época dele.

  249. Finalmente acabei o capítulo dez. Este capítulo foi talvez a leitura mais controversa que eu já fiz. É um soco no estômago. Se o autor estiver certo, espero que essas mudanças sejam empregadas gradualmente, não de uma vez. Mas se ele tem razão ou não, deixo ao seu julgamento.

  250. “PIE [Paedophile Information Exchange] e PAL [Paedophile Action for Liberation] ambas cresceram do movimento gay da segunda metade dos anos setenta.” É, parece que os homossexuais não viam atração por menores como essencialmente anti-ética quando o movimento chegou ao topo. Basta lembrar que todo o mundo na NAMBLA é homossexual por definição.

  251. Um dos objetivos da PIE era reduzir os mitos em relação à atração por menores, pela disseminação de informação científica. Outro era aconselhar adultos atraídos por menores deprimidos ou isolados. Isso é ligeiramente reminiscente ao que a B4U-ACT faz hoje. A diferença é que a B4U-ACT se mantém neutra ao problema do contato (isto é, se a idade de consentimento deve ou não ser abolida) e não oferece qualquer suporte legal a adultos atraídos por menores que quebram as leis (enquanto que a PIE oferecia conselho legal). Também, o objetivo da B4U-ACT é reduzir o estigma e construir uma ponte entre adultos atraídos por menores e serviços de saúde mental, ao passo que o objetivo da PIE era legalização.

  252. A saída encontrada pela PIE foi publicidade. Eles tinham que ser vistos e conhecidos pra que mais pessoas se juntassem ao movimento. Se eles continuassem com duzentos e cinquenta membros não ia ter condição.

  253. A PIE queria ser um tipo de grupo de apoio, para que adultos atraídos por menores aprendessem a viver numa sociedade que lhes é hostil. Esse é um dos objetivos da B4U-ACT atualmente. Mas, novamente, B4U-ACT fica fora do problema da legalização.

  254. “Como ser pedófilo sem ser um suicida por causa disso, sem sentir culpa só porque outros esperam que você a sinta? Liberados da culpa, pedófilos ansiosos quase que necessariamente se tornam indivíduos mais relaxados, mais felizes, pois eles encontram, pela primeira vez na vida, outros pedófilos que aprenderam a não ficarem deprimidos sob a opressão.” Página 157.

  255. O autor admite que um adulto atraído por menores “radical”, que quer a legalização, não está em posição de dar conselho sobre uma pessoa procurar ou não tratamento. Isso explica a posição da B4U-ACT. Se eles tivessem uma posição definida sobre o problema do contato, eles não apenas afastariam adultos atraídos por menores que precisam de ajuda como seriam incapazes de dar ajuda adequada.

  256. Embora adultos atraídos por menores que se juntaram à PIE gostassem da ideia de encontrar outros como eles, o que diminuia a sensação de isolamento, a agenda política da PIE colocava seus membros em risco, óbvio. Nem todo o mundo está pronto pra engajamento político, especialmente numa causa tão séria e que encontra tamanha resistência.

  257. “Nós apenas fazíamos o que sentíamos em nós que devíamos fazer, o que estávamos explodindo de vontade de fazer, isto é, ficar de pé e dizer em alto e bom som que estávamos já doentes de rastejar nas sombras, de fingir sermos algo que não nós mesmos, de pedir desculpas por sentimentos que, dentro de nossas mais profundas pessoas, nós sabíamos serem passivos de manifestação boa e saudável, em vez de maldita, perversa ou doentia.” Página 163.

  258. O movimento gay deu certo porque um monte de gay saiu do armário e desafiou, em grupo, uma sociedade que lhes era hostil. Nos Estados Unidos, o número de pessoas atraídas por menores soma pelo menos seiscentos e sessenta mil. Não há dados correspondentes ao Brasil, embora estudiosos especulem que 1% da população mundial seja atraída por menores.

  259. Mas isso não seria possível se não houvessem táticas usadas pelos gays para limpar suficientemente a discriminação antes que eles pudessem se organizar como minoria política: persuasão em relações públicas e lobbying político, por exemplo.

  260. Tenho quase certeza de que a PIE teria mais chance de sucesso se não tivesse sido tão radical. O autor diz que entregar a mensagem de maneira radical, crua, tornaria a PIE difícil de ignorar e iniciaria um debate sincero sobre o assunto. Bom, pelo menos a parte do “difícil de ignorar” funcionou. Acredito que o debate, no final das contas, não foi “suas demandas são ou não válidas” e sim “como calar a boca desses lunáticos”.

  261. Truque sujo de um jornal: faz uma matéria falando mal de alguém, diz que essa pessoa tem direito de resposta e, quando a pessoa responde, eles não publicam. Mantém-se a imagem de imparcialidade, sem deixar o outro lado falar.

  262. Um monte de gente tenta desqualificar o ponto de vista divergente impedindo seus proponentes de falar, mesmo que tenham que usar meios violentos pra isso. Do que os antis têm medo, se os adultos atraídos por menores “estão” errados?

  263. Você não pode demitir um funcionário por causa de sua sexualidade, especialmente se ele não cometeu nenhum crime. Mas muita gente faz assim mesmo. Jornalistas também incitam esse comportamento, apesar de ser antiético.

  264. Mesmo que você não tenha cometido nenhum crime, a polícia pode se negar a ajudar você, se eles não gostarem da sua opinião sobre determinado assunto.

  265. Não confie na mídia se o que você quer é a aceitação de algo totalmente novo. A mídia apenas repete e valida a opinião já vigente. É por isso que você não vê isto, isso ou aquilo na Veja ou no Brasil247.
  266. O que fez com que o movimento atraído por menores tivesse mais chances de sucesso nos Estados Unidos do que na Grã-Bretanha, sepultura da PIE? Simples: eles não queriam exatamente a liberação dos adultos atraídos por menores como minoria sexual reconhecida, mas somente a abolição de leis de idade de consentimento. Isso lhes deu apoio de alguns juízes, advogados e pessoas da igreja.
  267. Outro fator que possibilitou o aumento mais rápido do movimento nos Estados Unidos era o fato de que, na época da formação da NAMBLA, os Estados Unidos eram menos conservadores do que o Reino Unido, no sentido de que eles davam chance à novas ideias.

  268. Exemplo: “Pornografia infantil é particularmente perturbadora parcialmente porque ela nos mostra que crianças prontamente responderão a avanços sexuais e podem até mesmo se tornar participantes ativos em encontros sexuais. Tal como qualquer potencial humano, a realidade da sexualidade juvenil pode ser utilizada para bem e para mal. A pornografia está apenas nos forçando a encarar o fato de que esse potencial sexual infantil de fato existe.” Dá pra acreditar que isso foi publicado no Los Angeles Times?

  269. Na Holanda, o negócio era mais pós-punk: tanto círculos de advogados quanto círculos cristãos protestantes acreditavam que a punição do adulto em relação inofensiva com menor não podia ser justificada.

  270. O sítio da NVSH ainda existe (página relevante ao assunto aqui). Eles advogam a aceitação de todas as expressões voluntárias de sexualidade e chegou a ter “um quarto de milhão” de membros (250 mil).

  271. O clima de aceitação na Holanda permitia um debate racional e imparcial sobre a atração por menores. Eles não reagiam com o desgosto que reagimos hoje.

  272. adultos atraídos por menores assumidos eram vistos junto de crianças que amavam, mas as pessoas não viam aquilo como um imediato sinal de perigo. Lembrando, pessoal, isso não faz nem cinquenta anos.

  273. “[…] houve uma petição seguinte, oferecida ao Governo em junho de 1979, pedindo a abolição da idade de consentimento, assinada pela União Comercial de Professores, a União de Oficiais de Liberdade Condicional, a União Comercial Protestante de Professores Escolares e a União Protestante da Família […]”. A Holanda deve ser o único lugar do mundo onde o envolvimento de pastores com a causa atraída por menores é maior que a de padres.

  274. Tal como acontecia no Brasil antes de 2009, uma relação com menores na Holanda (desde que o menor tivesse doze anos ou mais) não seria automaticamente investigada se ninguém denunciasse. Então, enquanto a relação fosse positiva e ninguém reclamasse, a polícia não poderia agir.

  275. Quando os pais resolvem “vou denunciar”, a polícia então dizia “seu filho vai passar por interrogatório e exame de corpo e delito, veja se vale a pena.” Se o menor realmente tivesse sido abusado, a mãe não pensaria duas vezes. Mas, recebendo um aviso desses, eles seriam menos inclinados a denunciar uma relação da qual o filho não está reclamando.

  276. Se o processo causaria mais prejuízo do que benefício às partes envolvidas, os promotores se recusavam a levar o caso a frente. Ele era arquivado. Isso não valia apenas em casos sexuais, mas em qualquer caso, diz o autor.

  277. Apesar disso, há diferença entre tolerar e encorajar. Então, se por um lado as penas pra adultos atraídos por menores eram pequenas (quando ocorriam), nem por isso o ato era legal. Lembrete: falamos de relacionamentos inofensivos e não forçados, não de estupro.

  278. atração por menores nunca será aceita enquanto for vista como comportamento sexual minoritário, da mesma forma que ainda tem gente hoje que não tolera homossexuais. A minoria é estranha, porque é rara.

  279. Olhando de um ponto de vista pragmático, a intervenção legal em relações inofensivas, não coercitivas, procuradas pelo menor e aprovadas pelos pais causa mais mal do que bem.

  280. Antes de concluir, o autor, embora advogue uma mudança nas leis, não diz em momento algum do livro que leis em efeito devem ser quebradas. Ele seria louco se dissesse isso. Ele tem um blog chamado Heretic TOC, então, se você tem perguntas sobre o livro, vá lá e pergunte pra ele (em inglês). Caso você tenha, sei lá, ficado “inspirado”, tá aqui o sítio do Senado Federal, onde você pode sugerir leis e, se sua sugestão juntar vinte mil apoios, tê-la considerada pela Comissão de Direitos Humanos, o que pode culminar com sua sugestão sendo discutida no Congresso, onde ela pode virar lei afinal.

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