Analecto

9 de junho de 2020

Tolerância religiosa.

Esses dias, eu estava lendo um hentai. Daí eu percebi que um dos artistas da antologia havia parado de desenhar pornografia ano passado, depois da publicação da antologia. Eu fui então conversar com ele sobre isso, sobre suas razões de ter parado. Ele disse que desenhar pornografia estava em desacordo com seus valores religiosos. Ele é testemunha de Jeová. É o segundo japonês testemunha de Jeová que eu conheço (e que deixou de desenhar pornografia).

Sempre que alguém faz alguma coisa como essa, eu tendo a questionar. Mas, se a razão é religião, eu sempre aceito imediatamente. Porque qualquer um aceitaria fazer qualquer tipo de sacrifício ou adotar qualquer tipo de comportamento se isso lhe proporcionasse a vida eterna. Então eu elogiei a decisão dele, disse que respeitava e deixamos por isso mesmo, como deve ser. Mas aí, eu fiquei pensando: eu aceito muitos comportamentos motivados pela fé, mas haveria algum limite?

John Locke, em sua Carta Sobre a Tolerância, dá alguns limites à tolerância religiosa. O comportamento religioso deve ser sempre tolerado, quando não posar problemas ao estado (isto é, ao governo ou ao povo), quando os cultos forem públicos (é muito estranha a religião que não quer que as autoridades saibam o que é feito nos templos) e quando a religião em questão não busca influência política (o que poderia tornar preceitos de fé em leis, válidas até pra quem não quer seguir tal religião). Eu poderia resumir tudo isso como: uma religião é sempre aceitável desde que o comportamento de seus fiéis não interfira com o meu próprio sem meu consentimento. Assim, uma religião que ordena o suicídio de seus membros não seria algo a que eu me oporia, mas uma religião que ordena o assassinato de não-membros seria algo contra o que eu resistiria.

Aí eu pensei: e como o estado deveria se comportar em relação a isso? Em nível estatal, visto que todas as religiões podem assumir um caráter violento, é preciso que uma religião, antes de ser proibida em determinado território, tenha um precedente de ato violento motivado pela fé. Se o ato tiver realmente sido motivado pela fé, o estado deve dar um direito de resposta aos outros fieis, pra sabermos se o ato é inerente à religião, caso no qual a religião deveria ser proibidia, ou é resultado de uma interpretação particular de um texto sagrado, por exemplo, caso no qual somente o fiel maluco seria responsabilizado. Se isso não for feito e religiões forem banidas “antecipadamente”, fere-se o direito à liberdade de culto. Apenas religiões inerentemente violentas deveriam ser proibidas.

Depois de eu lembrar dessas coisas que o Locke mencionou e adaptá-las um pouco, eu concluí que há um limite à minha tolerância e esse limite deveria ser adotado por todos inclusive por uma questão de bom senso: deixe em paz as religiões que não prejudicam você. Tá todo o mundo querendo se salvar aqui, então deixe cada um seguir o caminho que quiser, desde que esse caminho não atrapalhe o seu ou a sua vida material.

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