Analecto

27 de fevereiro de 2019

O que aprendi lendo “Compreender e Transformar o Ensino”.

Compreender e Transformar o Ensino” foi escrito por J. Gimeno Sacristán e A. I. Pérez Gomez. Abaixo, o que aprendi lendo esse texto.

  1. O currículo reflete a relação entre sociedade e educação, bem como as relações entre teoria e prática.
  2. O currículo muda conforme a sociedade muda seus padrões de conhecimento essencial.
  3. O currículo também implica a elucidação dos meios de aprendizagem, os quais também mudam com o tempo.
  4. Donde decorre que o currículo escolar não é estático; ele muda conforme a sociedade muda.
  5. O currículo é um projeto historicamente condicionado, seu conteúdo é selecionado pelas forças sociais dominantes.
  6. O currículo tem um lado teórico e um prático.
  7. O currículo condiciona a formação do docente.
  8. Escolaridade é um construto social.
  9. A escolarização moderna (criança é aprendiz, ensino é motivação e conteúdo é ciência e humanidades) é um negócio que data da revolução industrial, nem sempre foi assim, não precisa ser sempre assim.
  10. O que orienta a composição do currículo é a nossa expectativa social.
  11. “Conteúdo curricular” é um conceito interpretável.
  12. Por isso não há consenso sobre o que entra e o que sai do currículo escolar.
  13. “Conteúdo” é também um construto social.
  14. O conteúdo do currículo muda com o tempo.
  15. No final das contas, o conteúdo acaba refletindo os valores da escola em um contexto cultural.
  16. Porque o currículo responde à demanda social, não é possível orientá-lo por uma filosofia específica, corrente de psicologia ou qualquer coisa como essa: o “essencial a ser ensinado” não é algo fácil de escolher, não é algo que pode ser construído como se a sociedade não existisse.
  17. “Conteúdo”, em sentido estrito, é cada resumo acadêmico (a guerra de Canudos, por exemplo) organizado dentro de uma disciplina escolar (história do Brasil).
  18. Importante lembrar que o conteúdo ensinado pode não coincidir com o conteúdo aprendido.
  19. Só conhecimento não forma: é preciso que os alunos tenham atitude, valores, disciplina e habilidades de pensamento.
  20. Isso é feito aprendendo as consequências das atividades.
  21. Em sentido amplo, “conteúdo” é tudo o que ocupa o tempo escolar, seja como parte do currículo oficial ou não (“currículo oculto”).
  22. Ensinar pensamento crítico não é como ensinar matemática.
  23. Como ensinar a ter independência?
  24. A criança deveria aprender a se comportar autonomamente.
  25. O adolescente deve estar ciente das crenças locais e escolher a que achar melhor pro desenvolvimento pessoal dele.
  26. Por causa da demanda por sujeitos críticos e civis, o conteúdo escolar não pode ser academicista, um “saber pelo saber”, mas um saber que forme e que possa ser usado pelo aluno.
  27. O objeto do ensino é a mente do aluno, mas como se mede isso?
  28. Formar mão de obra é medíocre e não basta.
  29. A disponibilidade de conteúdo fora da escola também gera a necessidade de rever o que é relevante como conteúdo escolar.
  30. O currículo oculto também é socialmente condicionado.
  31. O conteúdo escolar se modifica mais lentamente do que a sociedade.
  32. À qual disciplina cabe a formação cidadã?
  33. A todas e a nenhuma.
  34. O discurso educacional revolucionário é onipresente, mas a prática de dar aulas e organizar conteúdos como se fazia no século passado também é onipresente.
  35. A formação acadêmica e a formação humana têm a mesma importância na formação do indivíduo completo: abolir ou subestimar a formação acadêmica em nome da humana é um desmonte do ensino, tanto quanto abolir a formação humana para formar pura mão de obra.
  36. Os critérios de seleção do conteúdo curricular geralmente não são técnicos ou científicos.
  37. Isso porque o currículo deve responder à demanda cultural social.
  38. Então, se a sociedade é a fonte do currículo, é claro que o conteúdo curricular não pode ser determinado cientificamente, como se fosse possível criar um currículo definitivo, o que implicaria uma sociedade que não muda.
  39. A proposta da escola é formar um indivíduo através do currículo, logo a função da escola é formar o indivíduo que a sociedade deseja.
  40. De que tipo de pessoa nossa sociedade precisa?
  41. História é relativa: o que vale hoje não valia ontem e pode não valer amanhã.
  42. Quando os valores mudam, o currículo muda: não ensinava tolerância sexual na ditadura militar.
  43. Melhor ter os meios de encontrar e julgar uma resposta do que memorizá-la.
  44. A educação dos grupos dominantes, a educação mais intelectual, é dada no ensino médio por uma razão: pobres nem sempre entram no ensino médio.
  45. Donde decorre que a divisão dos temas a serem tratados é uma divisão com base nas dicotomias de classe social, tanto que o conteúdo que se aprende no ensino médio público é ensinado no fundamental privado.
  46. A criação do currículo cede às pressões sociais indiretamente, através das sugestões do governo, dos empresários, dos pais, dos especialistas e dos escritores de material didático.
  47. Embora a escola acabe por reproduzir a cultura hegemônica, há espaços de autonomia que professores e servidores podem usar para questionar tal cultura.
  48. O currículo tradicional quer naturalizar os acontecimentos, enquanto que o currículo crítico quer que o aluno julgue o que ele considera natural.
  49. Nenhum currículo escolar é impassível de mudança.
  50. Revolucionar o ensino não é algo que deve ser feito ignorando o que a cultura estabelecida tem de bom, só pelo prazer de começar do zero.
  51. Os movimentos sociais, pela mudança nos valores, operam mudanças no currículo.
  52. “Educação para todos” não é um ideal meramente humanista, mas também uma exigência do mercado de trabalho: o aluno deve aprender competências gerais na escola para que possa escolher no que se especializar depois.
  53. Esse ideal é também consequência da demanda por mão de obra de qualidade.
  54. Na verdade, embora se pregue o contrário, o ideal de mercado sobrepuja o humanista na escola.
  55. Isso faz com que as ciências positivas sejam supervalorizadas frente as humanidades.
  56. Os reformistas chamam isso de “educação racional”, não que isso torne essa uma educação completa.
  57. Isso fundamenta a argumentação que tenta tirar humanidades do currículo ou desvalorizá-las.
  58. Isso é mais efetivo em tempos de crise econômica ou de recessão no mercado de trabalho.
  59. É aí que os neoconservadores encontram uma brecha para interferir na educação.
  60. As críticas neoconservadores à escola e ao seu ensino têm como ponto de partida os interesses de produção, não o valor formativo para a pessoa completa: importa criar um empregado, não um cidadão.
  61. Se as coisas se processam dessa forma, as disciplinas mais valorizadas serão aquelas que preparam para os trabalhos que melhor pagam.
  62. E é por isso que a carga horária de língua portuguesa e de matemática são maiores.
  63. A fonte cultural do currículo se divide em três elementos: o que vale a pena conservar de nossa cultura, as necessidades do tempo presente e que tipo de sociedade queremos criar.
  64. Embora a educação infantil venha antes do ensino fundamental, ela não é requisito para o ensino fundamental, porquanto a educação infantil foi concebida depois do fundamental, o qual é historicamente tido como a base de todos os outros níveis.
  65. A educação infantil responde a uma demanda familiar: a mulher que trabalha tem que deixar os filhos em algum lugar, então por que não num lugar onde ele possa aprender?
  66. Embora o ensino fundamental seja tido como a base dos outros, ele não foi o primeiro a surgir: o primeiro nível de ensino a surgir foi o superior.
  67. A influência universitária na escola é onipresente: as aulas mesmo do fundamental parecem aulas de faculdade.
  68. Não há método científico para construir um currículo escolar.
  69. Isso porque o currículo não é uma pedagogia, não é um método de ensinar (existem métodos científicos de ensinar um conteúdo), mas uma lista do que se deve ensinar, uma lista com fundamento social.
  70. Ensinar é mais uma questão de princípios gerais do que de métodos estáticos.
  71. As idades às quais se destinam o ensino obrigatório variam de país para país.
  72. Se a educação é obrigatória, por exemplo, dos seis aos dezessete anos, teremos o inconveniente de forçar um aluno avançado a permanecer num nível medíocre porque aquele é o nível adequado à sua idade, tal como inconveniente dos “alunos atrasados”.
  73. Todos os países deveriam ter educação pública, porquanto a educação é direito de todos.
  74. A educação tem propriedades homogenizadoras: se todos têm a mesma educação, os conflitos mais graves que poderiam ocorrer em um país são mais facilmente evitados, pois os cidadãos partilhariam um mesmo conjunto de crenças e valores.
  75. Assim, a educação pública é também uma forma de exercer poder sobre os cidadãos, um poder suave, mas um poder.
  76. A educação pública torna a família menos necessária.
  77. Além do mais, sem educação pública, a mão de obra de qualidade fica mais difícil de encontrar.
  78. Como a demanda por mão de obra de qualidade é alta, não ter qualificação significa não ter emprego e não haver qualificados em um território significa menos investimento privado naquele território.
  79. Além do mais, sem ensino público, os pais teriam que se virar pra trabalhar apesar de terem filhos: onde eles ficariam e como eles próprios iriam se virar na vida adulta?
  80. A única solução seria a volta do trabalho familiar.

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